Episódios de Frequência Anômala

EP10 - NÃO OLHE PARA O QUE APARECEU NO RAIO-X | 3 Histórias de Terror em Hospitais (RELATOS ORIGINAIS)

11 de setembro de 202621min
0:00 / 21:22

Toda história de terror que a gente conta aqui nasce de um lugar comum. Um plantão de madrugada, um corredor vazio, um turno que ninguém queria pegar. Hoje são três hospitais brasileiros e três pessoas que continuaram trabalhando depois.

Um técnico de radiologia bate uma chapa e encontra na imagem uma coisa que não estava na sala. Um técnico de enfermagem passa a ouvir, no corredor da ala de recuperação, o rangido de um equipamento que foi recolhido pela manutenção meses antes. E uma funcionária da recepção da patologia encontra um rastro de água podre no chão do subsolo, saindo de uma porta fechada e indo embora na direção do elevador de serviço.

Três relatos originais, narrados na madrugada.

💀 Viveu algo assustador? Mande seu relato para: frequenciaanomala@gmail.com

⏱️ Capítulos:

00:00 A transmissão começa

00:23 Relato 1: A Chapa Oculta

06:45 Relato 2: O Som das Rodinhas

13:34 Relato 3: A Água Parada

20:44 Encerramento


Se inscreva no canal e deixe o seu like para não perder a próxima transmissão.


Aviso: este vídeo usa narração imersiva e imagens criadas por inteligência artificial para ilustrar contos originais de terror psicológico, sem violência gráfica, em conformidade com as diretrizes da comunidade. As histórias deste episódio são ficção original do canal.


#RelatosOriginais #HistóriasDeTerror #TerrorHospitalar #Sobrenatural #ContosDeTerror #Suspense

Participantes neste episódio3
B

Bruno

ConvidadoBaterista
C

Cíntia

ConvidadoFuncionária da recepção da patologia
S

Samuel

ConvidadoHumorista
Assuntos3
  • A chapa de raio-X que revelou uma criatura abraçando o pacientesubsolo de hospital público·falha do programa·artefato de imagem·crânio de criatura
  • O som de rodinhas de um suporte de soro recolhido que anunciava mortesala de recuperação pós-operatória·suporte de soro antigo·aviso de morte·confusão pós-operatória
  • O rastro de água podre que levava ao elevador de serviço no subsolorecepção administrativa da patologia·cheiro de água parada·sala de autópsia·doador de órgãos
Transcrição5 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Um técnico de raio-X apertou o botão e a máquina fotografou uma coisa que não estava na sala. Não era defeito do aparelho. E essa é só a primeira das 3 histórias desta noite. Boa noite, você sintonizou a Frequência Anômala. A nossa transmissão de hoje vem de dentro de 3 hospitais brasileiros, no horário em que os corredores esvaziam e o prédio começa a fazer barulho sozinho. Fica comigo.

?Voz B

Oi, pessoal da Frequência Anômala, tudo bem com vocês? Eu sou o Samuel, tenho 31 anos, E tem uma história que aconteceu comigo no ano passado, num plantão de madrugada. Eu sou técnico de radiologia num hospital público de trauma e resolvi mandar pra vocês porque eu precisava contar isso pra alguém que não fosse rir da minha cara. O meu setor fica no subsolo. Quem nunca desceu num hospital público de madrugada não faz ideia do que é aquilo.

As paredes do raio-X são grossas por causa da proteção contra radiação. Então som nenhum de cima chega lá embaixo. Celular não pega. O ar-condicionado fica num frio absurdo porque não é pra gente, é pra máquina não esquentar. Durante a madrugada, quando não tem nenhum acidente na cidade, o subsolo inteiro fica só eu, o zumbido do transformador e o barulho da máquina de café lá no fim do corredor. A sala de exames é dividida em duas partes.

De um lado fica a maca e o equipamento. Do outro, separado por uma parede com um vidro grosso, fica a cabine onde eu opero o computador. É desse jeito em todo hospital, é pra gente não tomar radiação junto com o paciente. Você enxerga a sala inteira pelo vidro, aperta o botão e a imagem carrega no monitor em uns 3 segundos. O primeiro sinal de que tinha alguma coisa errada eu ignorei feio. Uns 2 meses antes, eu tava fechando o relatório do mês E o contador de disparos do aparelho tava com um número a mais do que os exames registrados, um disparo sobrando.

Eu passei quase uma hora conferindo o livro achando que tinha esquecido de lançar alguém. Não tinha. Falei com o supervisor, ele disse que era falha do programa, que aquele aparelho é velho e às vezes conta errado. Eu aceitei, porque era mais fácil aceitar. O segundo sinal foi umas 3 semanas depois. Eu tava sozinho, sem paciente nenhum, arrumando as chapas na bancada, e o laser de posicionamento acendeu. Aquele risco vermelho fininho que a gente usa pra centralizar o corpo da pessoa na maca.

Ele acendeu na maca vazia e ficou aceso. Não é um botão que encosta sem querer, é uma tecla dura na cabine, do outro lado da parede. Eu entrei na sala, desliguei, e sabe o que eu fiz? Fui tomar café. Você trabalha num lugar desse tempo suficiente e aprende a não perguntar. Aí chegou aquela noite, eram umas 4 e pouco da manhã. A enfermagem desceu com o senhor idoso entubado pedindo chapa de pulmão. Deixaram a maca e subiram porque lá em cima tava lotado.

Não é o certo, o certo é ficar alguém, mas de madrugada as coisas funcionam do jeito que dá. Eu fiquei sozinho com ele, ajeitei o senhor na maca, expliquei o que eu ia fazer mesmo ele estando sedado. Eu sempre explico, é mania minha. Fui pra cabine e apertei o botão. A imagem carregou e eu travei na cadeira. Tavam lá, as costelas dele, a traqueia, o tubo, tudo certinho. Mas por trás do gradil das costelas tinham mais duas mãos.

Não eram as mãos dele que tavam pra baixo, ao lado do corpo. Eram duas mãos com dedos longos demais, longos que não fecha com nenhum osso humano. Abertas e abraçando o peito dele por dentro, como quem segura alguém que tá tentando levantar. Eu levantei o olho pro vidro. A sala tava normal. Só o senhor deitado, o soro pingando, a luz do teto acesa. Aí eu fiz o que qualquer técnico faria. Falei sozinho que era artefato de imagem, que o processador tinha dado pau, calibrei a máquina, esperei o ciclo e bati uma segunda chapa.

A segunda carregou limpa. Pulmão, costelas, tubo, mais nada. Eu soltei o ar que eu tava segurando sem perceber e ri sozinho, daquela risada nervosa e feia de quem tava a um passo de acreditar em coisa que não existe. Foi aí que a máquina disparou de novo. Eu não apertei nada. Minhas duas mãos estavam no teclado e eu vi as minhas duas mãos no teclado. O aparelho fez aquele estalo seco do disparo E o monitor começou a carregar a terceira imagem sozinho.

E o que carregou não era o pulmão de ninguém. Era um crânio, ocupando toda a tela. E não era crânio de gente. Era comprido na frente, com o focinho pra fora igual o de um cachorro grande. Mas com o topo alto demais, quase humano. A boca tava escancarada num ângulo que bicho nenhum abre, cheia de dentes finos e tortos, uns nascendo por cima dos outros. Pela escala da imagem, aquela cabeça tava a poucos centímetros do peito do senhor no instante do disparo, debruçada em cima dele.

E antes de eu conseguir raciocinar qualquer coisa, veio uma pancada no vidro. Uma só, seca e forte, do lado de dentro da sala de exames, na altura do meu rosto. Eu não gritei e não corri. Eu abaixei a cabeça e fiquei olhando pro chão da cabine. Fiquei assim uns 5 minutos, que pareceram muito mais, ouvindo só o transformador e o soro pingando. Quando eu levantei, o monitor já tava na tela de espera. Eu apaguei a primeira e a terceira do sistema, deixei só a chapa limpa, que era a que o médico ia precisar.

Entrei na sala olhando para os meus sapatos, destravei a maca e levei o senhor para o elevador sem olhar para trás nenhuma vez. Eu continuo trabalhando lá. Nunca contei pra ninguém do hospital, porque num serviço público a gente não tem o luxo de ficar com fama de maluco. A única coisa que mudou é que eu não bato chapa sozinho de madrugada. Eu peço, insisto, brigo se precisar, mas alguém da enfermagem fica na sala comigo. Não é coragem, é conta simples.

Naquela noite tinha uma coisa debruçada em cima de um paciente meu, a 3 metros de mim, e eu passei o exame inteiro achando que o problema era do computador. Não quero ser o único par de olhos naquela sala nunca mais. Era isso, gente. Se vocês já passaram por algo parecido, manda para Frequência Anômala.

?Voz A

O Samuel escolheu não olhar, continua no mesmo subsolo até hoje e nunca mais bateu uma chapa sozinho. Se essa primeira história te pegou, faz uma coisa por mim antes de continuar: deixa o seu like e se inscreve no canal. É o que mantém essa frequência no ar, porque a próxima história não tem imagem nenhuma para provar, tem só um som. Vindo de um corredor onde não tinha mais nada capaz de fazer aquele barulho. Boa noite, pessoal da Frequência Anômala.

Meu nome é Bruno, tenho 28 anos, sou técnico de enfermagem, e isso aconteceu comigo faz uns 3 anos numa ala de recuperação pós-operatória de um hospital público no interior de São Paulo. Eu nunca contei para ninguém da minha família, então essa é meio que a primeira vez que eu falo isso em voz alta. Eu ficava com 14 leitos sobre a minha responsabilidade, das 7 da noite às 7 da manhã. Depois que a visita vai embora e as luzes do corredor abaixam, a ala entra num ritmo próprio.

E não é um lugar silencioso, longe disso. Tem sempre um barulho de fundo: a bomba de infusão apitando em algum quarto, o ar-condicionado velho, alguém tossindo, o carrinho da rouparia lá no fim do corredor. Você se acostuma com isso em duas semanas e para de escutar, vira paisagem. Na ala tinha uns suportes de soro antigos, aqueles de ferro pintado, pesados, com quatro rodízios embaixo. Um deles era famoso: o rodízio da frente tava torto e travava a cada meia volta.

Então, quando você empurrava aquilo pelo corredor, saía um nheque nheque nheque ritmado que dava para ouvir do outro lado da ala. A gente até brincava, quem tava vindo pelo corredor não precisava se anunciar. E esse suporte tinha sido recolhido pela manutenção, tinha 1 ou 2 meses daquela noite. Levaram para o depósito da manutenção junto com outros equipamentos velhos. Foi aí então que eu ouvi. Eu tava no posto conferindo prescrição, devia ser umas 2 da manhã, quando tá tudo no silêncio de sempre, com os barulhos de sempre, Aí veio o nheque nheque nheque bem longe, no fim do corredor.

Eu levantei a cabeça, pensei, olha, voltou, e continuei escrevendo. Só que aquilo parou de repente, no meio de uma batida. E quando eu fui checar, o corredor tava vazio e não tinha suporte nenhum fora dos quartos. Eu pensei que devia ser cansaço, sabe? Plantão de 12 horas faz isso com a gente. Aí umas 3 noites depois aconteceu de novo. Só que dessa vez parecia mais perto e demorou bastante tempo, tanto que o som veio andando, passou pelo posto de enfermagem, seguiu mais um pouco e parou.

Eu fiquei parado olhando para o barulho, quer dizer, para onde o barulho parecia estar vindo. Fui para o balcão e não via nada, só escutava o barulho. E quando parou, parecia que era bem na frente do quarto 5. Então eu fui até o quarto e entrei. Eu tava com coração acelerado, mas o paciente tava dormindo tranquilo, tudo normal, sinais bons. Me senti meio idiota, não anotei nada e nem falei com ninguém, porque você não vai sair contando para todo mundo que ouviu coisas, né?

Você não quer perder o respeito das pessoas e nem ser taxado de maluco. Aí no dia seguinte, depois do meu turno, o paciente do 5 foi transferido para UTI, uma complicação que ninguém esperava. E eu quero deixar claro que na hora eu não liguei uma coisa na outra, porque isso acontece, é hospital, é gente operada. Só comecei a ligar os pontos quando aconteceu de novo, porque aconteceu de novo na semana seguinte. O som veio e parou na frente do 11, e o senhor do 11 piorou de madrugada e não passou do meio-dia.

Aí eu comecei a ter medo de trabalhar, não medo de fantasma, entende? Medo de estar certo, porque se aquilo era mesmo um aviso, ele já tinha passado duas vezes bem na minha frente, e nas duas eu só fiquei olhando. A noite que me fez sair foi umas duas semanas depois disso. Eu tava no posto e o som começou, mas não vinha do fim do corredor, vinha de trás de mim, do lado da copa, que é um trecho curto e sem saída. Eu me levantei devagar e fui até a porta.

Não tinha absolutamente nada ali. E enquanto eu tava parado olhando para o vazio, o nheque nheque nheque passou por mim, passou junto do meu corpo, tão perto que eu senti o ar mudar de temperatura na minha perna. Eu juro para vocês que eu senti aquilo raspar em mim. O som seguiu pelo corredor e parou na porta do 12. O 12 era um senhor de 70 e poucos anos, operado do fêmur 3 dias antes, sem nenhum agravamento. Conversava normal, brincava com a gente.

Eu entrei e ele tava sentado na cama, acordado, com os olhos arregalados, olhando fixo para o canto do teto do lado da janela. Ele não tava chorando nem gritando, ele tava calmo do jeito errado. E quando eu perguntei se ele tava bem, ele não desviou o olho do canto. Ele só falou baixinho para mim: a moça do soro disse que amanhã é a minha vez. Eu perguntei: que moça? Ele não respondeu mais nada. Eu deitei ele de novo e chequei tudo: pressão, saturação, o curativo.

Tava tudo perfeito, não tinha nada de anormal. Mas mesmo assim chamei o plantonista. Ele veio, examinou o senhor e disse que era confusão pós-operatória, o que é comum em idoso. E é comum mesmo. E antes de terminar o plantão, eu fiz uma coisa que hoje eu acho que foi burrice. Eu desci no depósito da manutenção para ver o suporte de soro. Ele tava lá no fundo, encostado numa pilha, embrulhado em plástico junto com o resto do material recolhido, com poeira em cima do plástico.

Parecia que ninguém tinha mexido nele há meses. O senhor do 12 faleceu no dia seguinte, no fim da manhã, perto do meio-dia. Eu não surtei, não pedi demissão e nem fui procurar padre. Eu fiz uma coisa muito mais burocrática. Eu fui na chefia com uma desculpa qualquer, disse que queria mudar de área para crescer profissionalmente e pedi transferência para maternidade no turno do dia. Demorou uns 2 meses, mas saiu. Bom, eu não tenho um final bonito ou uma explicação que talvez vocês esperem.

Eu nunca descobri o que era aquilo. Só sei que nunca mais ouvi aquele som depois que eu mudei de andar. E já fazem 3 anos. Também não sei se aquilo parou, se continua lá fazendo a ronda, ou se eu imaginei aquilo e na verdade nunca teve nada. O que eu sei é que enquanto eu tava naquele corredor, aquilo passava por mim, e depois que eu saí dali, parou de passar. Era isso, gente. Se vocês trabalham à noite e já ouviram alguma coisa que não deveria estar ali, manda para Frequência Anômala.

Na nossa última história desta noite, o relato não vem de quem cuida de paciente. A Cíntia trabalha no subsolo e naquela madrugada ela estava só cuidando da papelada. Mas antes de ouvirmos, se você ainda não se inscreveu no canal, se inscreve, isso ajuda e muito a Frequência.

?Voz C

Oi, gente da Frequência Anômala! Meu nome é Cíntia, tenho 35 anos e eu trabalho na recepção administrativa da patologia de um hospital de referência aqui no Recife. Antes de eu começar, eu preciso explicar uma coisa, porque quase todo mundo entende errado quando eu falo onde eu trabalho. Eu não sou da parte técnica, eu não mexo em nada, eu não entro na sala de necropsia, eu nem tenho autorização para isso. Eu sou a parte burocrática.

Eu recebo documento, confiro o nome, número, faço liberação e atendo a família que chega no pior dia da vida dela. O pessoal chama o setor de necrotério, Mas o nome certo é patologia, e ele fica no subsolo. O subsolo tem um som só, que é o das câmaras frias. Um zumbido grosso, contínuo, que você sente subir pela sola do pé quando fica muito tempo em pé. E tem o cheiro, né? Formol, produto de limpeza, aquele cheiro pesado de hospital antigo.

Todo mundo pergunta se incomoda. Incomoda na primeira semana, depois some. O seu nariz simplesmente desiste e você para de sentir. Eu acho que é por isso que aquela noite ficou marcada, porque para eu voltar a sentir cheiro de alguma coisa ali dentro tinha que ser um cheiro muito fora do lugar. Aquela madrugada tinha entrado um rapaz novo, vítima de afogamento. Eu não vou dar detalhe nem idade certa por respeito, mas era um menino.

Caso assim, dá mais papelada que o normal. Tem boletim, tem procedimento, tem a família que às vezes demora horas para chegar porque mora longe. Então eu tava sozinha no balcão com a papelada aberta na minha frente, umas 3 e pouco da manhã. Foi aí que veio o cheiro, e não era formol. Eu conheço formol. Era aquele cheiro de água de vaso de planta que ficou parada a semana, sabe? Aquela água esverdeada que quando você derruba bomba da vontade de vomitar, misturado com o cheiro leve de esgoto, de ralo voltando.

Foi ficando forte de um jeito que não dava para ignorar. Eu fiz o que qualquer pessoa faria, fui procurar problema de encanamento. Olhei o ralo de banheirinho do setor, joguei água, olhei embaixo da pia, olhei o rodapé para ver se tinha infiltração, chamei o vigia que fazia a ronda e perguntei se ele tava sentindo. Ele sentiu, torceu o nariz e falou que devia ser o esgoto da cozinha, que dava problema direto. Ele foi embora e eu voltei para o balcão.

E foi voltando que eu vi o chão, tinha água no piso. Não era poça grande de vazamento, e eu quero deixar isso bem claro porque é o que me deixa esquisita até hoje. Não era enchente de cano estourado e também não era pegada de nada, eram pingos. Marcas molhadas espaçadas, umas maiores, outras só uma manchinha úmida no linóleo, como quando alguém sai do banho e atravessa a casa pingando. E aquela água era escura, meio barrenta, e era ela que tava fedendo.

Eu segui as marcas com o olho, e é aqui que eu gelei, porque elas não estavam vindo na minha direção. As marcas começavam na porta da sala de autópsia e seguiam reto pelo corredor, na direção contrária a mim, até o elevador de serviço lá no fim. Eu fiquei um tempo ali parada olhando para aquilo. Eu só senti aquele frio subindo pela nuca sem motivo nenhum. Sabe quando o seu corpo entende antes da sua cabeça? Foi isso. Eu não tinha pensado em fantasma, isso não tinha passado pela minha cabeça.

Aí eu fui até o elevador, não sei explicar por quê. Acho que eu queria achar uma explicação simples, tipo um funcionário da limpeza que passou com um balde furado. Apertei o botão, esperei aquele barulho de corrente, e a porta abriu. Não tinha ninguém dentro, claro. Mas o chão do elevador tava molhado num canto só, do lado do painel, com aquela mesma água escura. E foi aí que eu vi a coisa que eu não consigo desver até hoje. Os botões daquele painel eram todos encardidos do mesmo jeito, Aquele encardido de anos, de mão suja, de gente da limpeza, do pessoal da marca, de todo mundo.

Todos menos um. O botão do quarto andar tinha uma marca de água escura em volta, fresquinha, e ainda tinha um risco molhado escorrendo dele para baixo. Alguém tinha apertado aquele botão com o dedo encharcado. Eu não entendi e voltei para o balcão e terminei meu turno. Não é bravura, não. É que às 5 da manhã chega gente, chega plantão novo, chega a família, e você tem trabalho para pude fazer. De manhã eu abri chamado na manutenção como infiltração e reclamei do cheiro de esgoto.

A limpeza passou pano, jogaram desinfetante, e no dia seguinte o cheiro não existia mais. Ninguém achou vazamento nenhum, mas ninguém procurou muito também, porque isso ali é um hospital público e cano velho é o menor dos problemas. E olha, por uns 4 anos essa foi só a história da noite em que o esgoto voltou. Eu contava rindo, no intervalo do café, como uma esquisitice sem explicação. Até que eu contei pra pessoa errada. Foi numa confraternização de fim de ano.

Eu tava conversando com uma enfermeira antiga da UTI, dessas que já viram de tudo e nada abala. Eu contei a história do jeito que eu sempre contava, esperando ela rir. E ela não riu. Ela ficou me olhando, quieta, e perguntou qual noite tinha sido exatamente. Eu falei, porque data eu não esqueço, é a minha função lembrar de data. Ela ficou branca. Ela lembrava daquela madrugada. Ela lembrava porque aquela foi uma das captações mais corridas que ela tinha visto no hospital.

O rapaz do afogamento era doador. E ela me falou uma coisa que eu não sabia, que eu não tinha como saber, porque isso não passa pela minha mesa. Naquela madrugada, mais ou menos naquele horário, O coração dele subiu do subsolo pelo elevador de serviço direto para o quarto andar, onde já tinha um receptor esperando na mesa. Eu não consegui responder nada na hora porque as marcas não vinham para cima de mim, elas iam embora. Aquilo não tava atrás de mim, não tava querendo me assustar e nunca esteve nem um pouco interessado em mim.

Aquilo saiu de dentro da sala de autópsia e foi andando atrás do próprio coração, pingando o rio inteiro pelo praminho até o elevador que ia levar ele para cima. Só queria ver onde é que aquele coração ia bater agora. Eu continuo no mesmo setor, no mesmo balcão. Não tenho medo dessa história, nunca tive pesadelo com ela. Ela mudou uma coisa só: toda vez que entra caso de doador, eu paro um pouco o que eu tô fazendo e eu penso nesse menino.

Porque se tem uma coisa que aquela noite me ensinou É que às vezes o que a gente chama de assombração é só alguém que ainda tinha uma última coisa para acompanhar antes de ir embora. Era isso, gente. Obrigada por escutar até aqui.

?Voz A

3 hospitais, 3 madrugadas e 3 pessoas que decidiram continuar trabalhando mesmo assim. Eu quero saber de você: qual dessas 3 histórias você mais gostou? A do Samuel, que ficou e baixou a cabeça? A do Bruno, que saiu do caminho? Ou da Cíntia, que só entendeu 4 anos depois? Me conta aqui embaixo. E se você chegou até o fim e ainda não curtiu ou se inscreveu, curte e se inscreve agora. Assim você ajuda o canal e não perde a próxima transmissão.

Você ouviu a Frequência Anômala e eu agradeço por não ter me deixado sozinho nesta madrugada fria de tempestade. Até a nossa próxima transmissão.