EP09 - SE O APLICATIVO CANCELAR, SAIA DO CARRO | 3 Histórias de Terror na Chuva (RELATOS ORIGINAIS)
Uma fresta sob a porta que traz uma água negra de graxa; o sinal do recreio tocando sem energia elétrica em uma escola vazia; marcas de mãos desesperadas pressionando o vidro embaçado de um carro no meio da rodovia.
O episódio especial de hoje do Frequência Anômala traz 3 histórias originais de terror psicológico sob fortes tempestades, perfeitas para dormir ou relaxar sob o som da chuva constante de fundo.
Já viveu algo inexplicável? Mande para: frequenciaanomala@gmail.com.
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Jonas
Mariana
Rosana
- A experiência inexplicável de Rosana com um andar fantasma em seu prédioapagão de temporal·prédio antigo·Recife·andar extra
- O recreio fantasma de 1981 em uma escola vazia durante uma tempestadevigia noturno·escola pública estadual·sino mecânico·acidente de 1981
- A carona de aplicativo cancelada que levou Mariana a uma experiência sobrenaturalcarro de aplicativo·rodovia escura·trava de segurança infantil·acidente fatal
A chuva que bate na janela costuma acalmar, mas as sombras que ela esconde nunca dormem. A tempestade lá fora não dará trégua. Seja muito bem-vindo à Frequência Anômala. Prepare o seu café, apague as luzes e preste muita atenção nas transmissões desta madrugada. A Rosana subiu 9 andares de escada no meio de um apagão e encontrou um décimo que nunca existiu.
Oi pessoal da Frequência Anômala, tudo bem com vocês? Meu nome é Rosana, tenho 47 anos e trabalho como auxiliar administrativa numa clínica de fisioterapia aqui no Recife. Eu moro sozinha num apartamento pequeno da Madalena, num prédio antigo de 9 andares, 2 apartamentos por andar, com aquele piso cinza cheio de pedrinhas que todo prédio dos anos 70 tem no hall. Eu resolvi mandar essa história porque já faz 6 anos e eu nunca consegui explicar para ninguém o que aconteceu comigo numa uma noite de temporal.
E olha que eu tentei de tudo. Para quem não é daqui, chuva no Recife não é chuva de molhar roupa, é chuva de alagar rua inteira em 20 minutos e deixar a cidade parada. Naquele dia era março e desde às 4 da tarde o céu tava daquele cinza baixo que a gente já sabe que não vai passar. Eu fiquei até tarde na clínica porque era fechamento do mês. Quando saí já passava das 10:30 e a água descia pela avenida por cima do meio-fio. Cheguei no prédio encharcada da cintura para baixo, com o guarda-chuva já entortado de tanto vento.
Assim que passei pelo portão, o quarteirão inteiro apagou, aquele apagão de temporal que acontece toda chuva forte aqui. O hall ficou escuro, com só a luz de emergência em cima da porta do elevador, aquela luzinha branca fraca que deixa tudo com cara de hospital velho. O elevador é um só, dos antigos, e tava morto. Eu moro no 9º, o último andar. Não tinha o que fazer, era subir. Comecei a subida devagar, com o guarda-chuva pingando na mão e o barulho da chuva ecoando na caixa de escada como se eu tivesse dentro de um tambor.
Cada patamar tem uma luz de emergência de bateria, então não era breu total, era aquela iluminação picada, um pedaço claro e outro escuro. E tinha água. A água da laje sempre desce pela escada quando chove muito, e naquela noite ela descia degrau por degrau, fininha, brilhando na luz. Eu fui contando os andares nos números pintados na parede, coisa que faço sem pensar desde criança. 4, 5, 6, 7, 8. Parei no 8 para respirar, porque 47 anos com joelho ruim não sobem 9 andares de uma vez.
Aí eu subi o último lance e cheguei no 9. Tava lá um número 9 pintado na parede, descascado do jeito que sempre estive. A minha porta a 3 passos de mim. Eu já tava com a chave na mão. Só que quando eu virei o corpo pro corredor, eu percebi uma coisa que me travou de um jeito muito estranho. Não de susto, mas de confusão mesmo. A escada continuava. Preciso explicar isso direito. No meu prédio, o 9º andar é o fim da escada. Acima do patamar do 9º tem um lance curto de 7 degraus que dá numa porta de ferro pra laje.
Fechada com corrente e cadeado desde antes de eu me mudar, sem saída. Naquela noite, no lugar daquele lance curto, tinha um lance inteiro, normal, com o corrimão continuando e o meio lance virando para a esquerda igual a todos os outros, subindo para um andar que existia acima do meu. Eu não sei explicar por que subi. Até hoje penso nisso. Não foi coragem, foi aquela sensação boba de quem acha que tá enxergando errado e quer confirmar.
Contei os degraus, eram os mesmos 13 de sempre. Cheguei no patamar de cima e olhei pra parede. Tava pintado um 10. O que me deixou pior não foi o número, foi o resto. Aquele corredor tava seco. Completamente seco, do jeito que nenhum canto daquele prédio tava naquela noite. O ar era morno, parado, com cheiro de cera de chão, cheiro de coisa recém-limpa. E não tinha barulho de chuva. Um lance abaixo, o temporal batia na caixa da escada de fazer doer o ouvido, e ali em cima o silêncio era tão completo que eu escutava a minha própria roupa molhada pingando no chão.
Era o meu corredor, o mesmo piso de pedrinhas, o mesmo formato, as mesmas duas portas, só que as portas tinham uma tinta marrom que o meu prédio não usa em lugar nenhum, e nenhuma das duas tinha número. Fiquei parada no começo daquele corredor com a chave apertada na mão, sem conseguir dar um passo pra frente nem pra trás. E foi então que a luz acendeu por baixo da porta do fundo, a porta que um andar abaixo seria a minha. Uma luz amarela comum, do jeito que acende quando alguém chega em casa e aperta o interruptor.
Sem som nenhum, nenhum passo, nenhuma voz. Só a faixa de luz amarela aparecendo embaixo da porta. Nesse mesmo segundo, a luz de emergência do patamar atrás de mim apagou. Desci aquela escada no escuro, agarrada no corrimão, e no meio do caminho o barulho da chuva voltou de uma vez, como se alguém tivesse aumentado o volume do mundo. Meus pés bateram na água escorrendo dos degraus. Quando dei por mim, tava no meu patamar, com a chave na fechadura da minha porta, tudo exatamente como devia ser.
A luz voltou por volta das 3 da manhã. Eu não dormi, mas não fiquei acordada de pavor. Fiquei acordada de raciocínio, tentando montar uma explicação que fechasse. No sábado seguinte, eu subi e desci aquela escada 3 vezes com a luz acesa. 9 andares. Acima do 9º, o mesmo lance curto de 7 degraus e a mesma porta de ferro com a mesma corrente e o mesmo cadeado tomado de ferrugem, daqueles que não abrem há anos. Perguntei ao zelador com o maior jeito do mundo se o prédio já tinha tido mais um andar.
Ele riu da minha cara. Depois pedi a planta ao síndico, inventei que era pra um seguro. 9 andares desde 1974. Nunca mais aconteceu, nem naquele ano, nem nos 5 seguintes. Toda chuva forte, o elevador morre e eu subo aquela escada de novo, contando os números como sempre contei, e sempre para no 9. Eu não me mudei, não fiquei com medo de escada, não desenvolvi mania nenhuma. Minha vida seguiu exatamente igual. O problema é outro, e é o que eu queria dizer pra vocês.
Eu me lembro do cheiro de cera daquele corredor com mais clareza do que eu me lembro de coisas que eu tenho certeza que aconteceram. E quando uma coisa impossível acontece com você uma vez só e nunca mais, e ninguém pode confirmar, você não fica com medo. Você fica sem chão pra pisar. Porque a partir dali, ou o mundo tem um buraco, ou você tem. E não existe jeito de saber qual dos dois.
9 andares é o que diz a planta, é o que jura o zelador. A Rosana nunca recebeu resposta nenhuma e aprendeu a viver assim. Mas algumas cercas de escola não seguram o que vive no tempo. O vigia Jonas descobriu que o barulho no pátio não era invasão. Preste muita atenção no que a tempestade daquela noite trouxe de volta para o pátio de uma escola vazia.
Olá, pessoal do Frequência Anômala! Tudo bem com vocês? Meu nome é Jonas, tenho 41 anos e trabalho como vigia noturno terceirizado. O caso que vou contar aconteceu há uns 5 anos, quando eu fui escalado para cobrir as férias do vigia fixo de uma escola pública estadual bem antiga no interior de São Paulo. Era julho, período de férias escolares, o colégio estava completamente vazio. O meu expediente começava às 6 da tarde e e ir até às 6 da manhã.
Para quem conhece escola pública antiga do interior sabe do que estou falando: portões de ferro pesados que batem com o vento, pátios enormes de cimento áspero e aquelas salas de aula de teto alto com carteiras de madeira empilhadas no fundo durante as férias. Naquela noite caiu uma tempestade daquelas de inverno que parecem que não vão acabar nunca. O vento vinha com força fazendo as telhas de amianto da quadra coberta chacoalharem com um barulho ensurdecedor, oco, rítmico, que ecoava por todo o quarteirão vazio.
Por volta de meia-noite, um raio caiu em um transformador na rua de trás e a energia da escola inteira acabou de uma vez. O breu foi total. Eu liguei a minha lanterna, vesti a minha capa de chuva e saí da guarita para fazer a ronda de rotina pelas salas de aula e passei pelos corredores para garantir que nenhum portão tinha sido forçado pelo temporal. A escola, que de dia já era meio melancólica, de noite sobre aquela chuva parecia um monstro adormecido.
Eu andava pelos corredores externos ouvindo apenas o barulho da chuva batendo nas telhas de amianto e o som do meu próprio sapato no cimento molhado. Foi por volta das 2 da madrugada, quando eu estava passando perto do pátio central que ouvi um som que fez meu sangue congelar na hora. O sino mecânico do recreio, aquele sino antigo de ferro que ficava preso na parede da secretaria, começou a tocar. Ele deu duas batidas fortes, estridentes.
Blém, blém. Aquilo não fazia o menor sentido. O sino era elétrico, dependia da fiação antiga do prédio, e a escola estava sem energia nenhuma. Uma há horas. E eu apontei a lanterna para a parede da secretaria, mas antes que eu pudesse dar um passo, um som diferente tomou conta do pátio. O som de dezenas de vozes de crianças. Elas não estavam gritando de medo, elas estavam correndo, rindo, conversando alto, como se fosse um recreio comum no meio da tarde de um dia de sol.
O som vinha de todas as direções, batendo batendo nas paredes dos corredores e criando um eco insuportável no escuro. Apontei a lanterna para o pátio aberto no meio da chuva forte. O pátio estava completamente deserto, não havia um único ser humano ali. Só que na lama do jardim e na água acumulada nas poças do cimento molhado, a água estava saltando. Eu vi sob a luz da minha lanterna marcas de pequenas pegadas descalças aparecendo na lama em tempo real, uma atrás da outra, correndo em círculos perto do antigo bebedouro de pedra.
As poças de chuva espirravam alto no cimento, como se pequenos pés estivessem pulando nelas de brincadeira. As risadas infantis pareciam chegar cada vez mais perto de mim, correndo na minha direção. O desespero foi tão grande que eu dei meia volta, corri para a porta de segurança, tranquei a porta de ferro por dentro, passei a chave e me sentei no chão, cobrindo os ouvidos com as mãos para tentar abafar o som que continuou ecoando no pátio até o amanhecer.
Eu passei o resto da madrugada ali, paralisado de medo. A chuva começou a diminuir por volta das 5 da manhã, virando apenas uma garoa fina que limpava o asfalto. Às 6, o dia já estava clareando e o meu turno finalmente acabou. Eu fui até a cozinha dos funcionários para entregar as chaves e assinar o livro de ponto. Eu estava pálido, com olheiras profundas, segurando uma caneca de café com as duas mãos para tentar parar de tremer.
Foi quando a Dona Eunice chegou. Ela é a merendeira mais antiga da escola, trabalha lá há quase 35 anos e sempre chega cedo para arrumar as panelas e fazer o café da manhã dos funcionários. Tentando disfarçar o pavor para não parecer louco, eu perguntei para ela: Dona Eunice, o pessoal do bairro costuma pular o muro da escola para brincar aqui no pátio de madrugada? Ontem, no meio daquele temporal, parecia que a quadra estava cheia de criança correndo e gritando.
A Dona Eunice parou de lavar as canecas na pia. Ela desligou a torneira bem devagar, limpou as mãos molhadas no avental e olhou para mim com um olhar muito sério, muito pesado. Ela se sentou na mesa comigo e disse baixinho: Jonas, ninguém pula aquele muro em noite de tempestade. O que você ouviu ontem foi o recreio de 1981. Ela me explicou que antigamente o pátio central era coberto por uma estrutura antiga de madeira e telhas de barro muito pesadas.
Em uma tarde fria de agosto de 1981 caiu uma tempestade violenta de granizo bem na hora do recreio. O teto de madeira não aguentou o peso do gelo e cedeu bem na hora do recreio, com o pátio cheio. Ela não entrou em detalhes e eu não perguntei, só disse que foi o pior dia da história daquela escola, que a cidade inteira acompanhou aquilo e que até hoje ninguém gosta de tocar no assunto. Ela me disse que desde aquela época, em noites de temporal muito forte, o pátio parece repetir o som daquele dia, como se o tempo tivesse ficado preso naquele momento de dor.
Eu passei o resto do meu contrato de cobertura de férias naquela escola porque eu precisava muito do dinheiro para pagar as contas em casa. O fenômeno nunca mais se repetiu no meu turno, mas a partir daquela conversa com a Dona Eunice, tudo mudou para mim. Eu não sinto mais medo quando passo por lá. Hoje, quando vejo as crianças correndo e fazendo barulho durante o dia no pátio, eu sinto uma melancolia profunda, mas também um respeito enorme, sabendo que as risadas que ouvi no escuro pertenciam a uma tarde que aquela escola nunca conseguiu terminar.
Sinos que tocam sozinhos no escuro de uma escola. A Dona Eunice sabia que algumas marcas são profundas demais para o cimento apagar. Se esses relatos estão conseguindo arrepiar você nesta noite de tempestade, aproveite este momento para se inscrever no canal e deixar o seu like. O seu apoio é o que mantém a nossa Frequência Anômala ativa no escuro. Mande também o seu relato por email. Agora, a chuva lá fora está apertando e a Mariana tem uma carona de aplicativo que ela nunca deveria ter aceitado na estrada.
Oi, pessoal da Frequência Anômala, tudo bem com vocês? Meu nome é Mariana. Tenho 25 anos e curso engenharia civil. O que vou contar aconteceu há pouco mais de um ano, em uma noite de tempestade severa que eu nunca mais vou conseguir tirar da cabeça. Eu tinha ficado estudando na biblioteca da faculdade até tarde para uma prova final e acabei perdendo o último ônibus intermunicipal que me levaria de volta para minha cidade, que fica a uns 40 km do campus, margeando a a Inanguera.
Sem outra opção e com a chuva caindo de um jeito assustador, decidi gastar um dinheiro que não tinha para chamar um carro de aplicativo. O sinal de internet na beira da estrada de acesso tava péssimo, mas depois de várias tentativas, um motorista aceitou a corrida. Menos de 5 minutos depois, um sedã cinza escuro, antigo, mas muito bem cuidado, encostou silenciosamente ao lado do ponto de ônibus deserto. Eu abri a porta traseira rapidamente para fugir da água fria e me sentei no banco de trás.
O motorista era um homem de meia-idade vestindo uma jaqueta preta e um boné escuro que cobria completamente os seus olhos. Ele não disse uma única palavra, apenas deu uma partida suave e o carro começou começou a deslizar pela rodovia escura. O som do limpador de para-brisa era alto, rítmico, quase hipnótico. Vupt, vupt, vupt. O ar dentro daquele veículo era incrivelmente gelado, muito mais frio do que o normal, e exalava um cheiro forte de terra molhada e barro, como se a tempestade de fora tivesse infiltrada no estofado.
Eu peguei o meu celular para mandar uma mensagem para minha mãe avisando que já estava a caminho. Foi quando eu notei o aviso na tela do aparelho. A corrida tinha sido cancelada pelo motorista há 5 minutos, antes mesmo de eu entrar no veículo. Mas o carro continuava rodando, ganhando velocidade na estrada escura. Um frio gelado subiu pela minha espinha. Tentei falar com o homem, Moço, desculpe, acho que o seu aplicativo deu algum problema.
Apareceu aqui que a corrida foi cancelada. Ele não respondeu, continuou com as mãos firmes no volante, olhando fixamente para rodovia deserta sob o temporal. Desesperada, tentei abrir a porta do carro para pular para fora, mas a trava de segurança infantil do banco traseiro tava ativada. Eu tava trancada ali dentro. Refém daquele veículo silencioso. A chuva começou a cair com tanta força que o para-brisa e os vidros laterais começaram a embaçar rapidamente por dentro, bloqueando toda a visibilidade da estrada.
Em pânico, eu passei a mão no vidro lateral esquerdo, limpando uma fresta para tentar enxergar onde estávamos. No mesmo instante, olhei pelo espelho retrovisor interno e senti o meu estômago despencar. O banco do motorista tava completamente vazio. O volante se movia sozinho, fazendo pequenas correções de curva sob o temporal, mas não havia ninguém ali. Antes que eu pudesse gritar, o vapor no vidro que eu tinha acabado de limpar começou a fechar de novo, e por trás daquela névoa fina de umidade no vidro começaram a surgir dezenas de marcas de pequenas palmas de mãos e contornos de rostos desesperados pressionando o vidro de dentro do próprio estofado do carro para fora, como se houvesse pessoas trancadas e invisíveis lutando para respirar ali comigo.
No para-brisa dianteiro, as marcas de vapor começaram a desenhar letras nítidas escritas de fora para dentro: não pare na curva! Eu gritei com toda a força dos meus pulmões. O carro tava acelerando, se aproximando de uma curva fechada no final da descida. À beira da pista, os faróis do carro iluminaram uma pequena cruz de concreto cinza, dessas de beira de estrada, cercada de flores de plástico desbotadas. O veículo, em vez de fazer a curva, seguiu reto em direção ao acostamento e ao desfiladeiro.
Num ato de puro desespero de sobrevivência, eu me atirei por cima do console central para o banco da frente, estiquei o braço e puxei o freio de mão de uma vez só, travando as rodas. O sedã desarripou violentamente de lado, subindo a brita do acostamento com um barulho ensurdecedor de metal raspando, e parou a escassos centímetros de despencar na ribanceira profunda, exatamente ao lado daquela pequena cruz de concreto. Fiquei ali paralisada, ouvindo apenas o som da chuva batendo no teto do carro e o chiado do limpador de para-brisa que tinha travado na vertical.
O banco do motorista tava seco, mas o volante tava completamente coberto de barro molhado e terra de cemitério. Eu consegui abrir a porta do motorista e corri desesperada pela rodovia sob a tempestade até ser resgatada por uma viatura da Polícia Rodoviária que passava fazendo patrulha. Eu contei toda a história, mas os policiais disseram que eu provavelmente tive um ataque de pânico devido à fadiga e à falta de visibilidade, e que o carro de aplicativo devia ter sofrido uma pane mecânica.
Levei umas 3 semanas para conseguir dormir direito, e depois disso a vida seguiu. Terminei o semestre, me formei no ano passado e continuo pegando o carro de aplicativo quando preciso, inclusive de madrugada. Eu tô bem, de verdade. No entanto, há cerca de 3 meses, um amigo meu que trabalha como investigador da Polícia Civil na região me mandou uma mensagem perturbadora. Ele me contou que eles finalmente fecharam o inquérito sobre aquele mesmo sedã cinza que tinha sido leiloado pelo pátio do Detran após ficar abandonado na rodovia.
O novo dono do carro, um jovem motorista de aplicativo recém-chegado na capital, foi encontrado sem vida na semana passada no fundo daquele mesmo desfiladeiro, exatamente ao lado daquela pequena cruz de concreto. O laudo da perícia do acidente constatou que a trava infantil das portas traseiras estava acionada por dentro, as portas dianteiras estavam travadas, e no vidro embaçado do veículo havia dezenas de marcas de mãos desesperadas pressionando o vidro de dentro para fora, marcas que a polícia confirmou que não pertenciam ao jovem motorista.
3 caminho sob a tempestade. 3 avisos que a chuva trouxe das sombras para o mundo dos vivos. Qual desses 3 relatos tirou mais a sua paz nesta noite? A escada do prédio, o pátio da escola ou o carro de aplicativo? Deixa a sua resposta aqui nos comentários. Eu leio e respondo um por um com toda a atenção que vocês merecem. Se você é novo por aqui, se inscreve na nossa frequência Ative o sininho para as próximas transmissões e deixe o seu like agora.
Você ouviu a frequência anômala e eu agradeço por não ter me deixado sozinho nesta madrugada fria de tempestade. Até a nossa próxima transmissão.