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O Caminhão Usado Tinha Algo Dentro do Baú | 3 Histórias de Terror (RELATOS ORIGINAIS)

28 de agosto de 202624min
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Algumas coisas passam de uma pessoa para outra sem precisar de testamento.

Neste episódio do Frequência Anômala, três relatos originais exploram objetos e lugares marcados por acontecimentos que nunca foram totalmente resolvidos: o baú de metal de um caminhão usado, o forro de cetim de um casaco antigo e uma parede de taipa de pilão que se fechou sozinha durante a noite.

Já viveu algo inexplicável?

Mande seu relato para: frequenciaanomala@gmail.com.

Versão visual completa no YouTube: Frequência Anômala.

Assuntos3
  • A experiência sobrenatural de um caminhoneiro com um veículo usadoCaminhão usado·Posto de estrada·Regis Bittencourt·Transporte clandestino de pessoas
  • O casaco antigo com um segredo costurado e a história de HelenaBazar beneficente·Casaco de lã·Aliança de ouro·Helena·Desaparecimento
  • A parede de taipa de pilão que se fechou sozinha e o mistério do sapatinhoPedreiro·Casarão de fazenda·Taipa de pilão·Sapatinho de couro de criança·Arruda
Transcrição11 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Algumas coisas passam de uma pessoa pra outra sem precisar de testamento. Uma casa, um casaco, um veículo usado. A gente recebe o objeto, paga pelo que consegue ver e leva embora. O problema é aquilo que ninguém colocou no anúncio. Porque existem objetos que parecem ter memória. E existem lugares onde alguma coisa aconteceu com tanta força que o tempo não apagou. Talvez seja coincidência. Talvez sejam histórias que cresceram enquanto passaram de uma pessoa pra outra.

Ou talvez certas coisas conservem vestígios. Um cheiro, um som, uma sensação, às vezes alguma coisa pior. Boa madrugada, você está ouvindo a Frequência Anômala. Se esta é sua primeira transmissão conosco, inscreva-se no canal. Se você viveu algo inexplicável, nosso contato está na descrição. Hoje vamos ouvir 3 relatos. O primeiro veio de um homem acostumado a dormir sozinho em postos de estrada. Escute com atenção.

?Voz B

Meu nome é Thiago. Tenho 35 anos e vivo de estrada. Resolvi mandar esse áudio porque aconteceu uma coisa comigo no ano passado que até hoje eu não gosto de contar quando tô dirigindo de noite. Eu era agregado de transportadora havia quase 8 anos. Caminhão dos outros, manutenção dos outros, parcela nenhuma no meu nome. Meu objetivo sempre foi comprar um bruto próprio. Eu juntava dinheiro fazia tempo. Aparecia negócio bom, eu olhava.

Aparecia negócio ruim, eu olhava também. Quem trabalha com isso sabe como é. Até que apareceu um caminhão num feirão de usados em Curitiba. Azul metálico, baú grande, ano bom, motor redondo, pneu ainda com bastante borracha. Por fora parecia caminhão de gente que cuidava. O preço tava muito abaixo do que eu esperava. Perguntei para o vendedor se tinha algum problema sério. Ele respondeu que não. Disse que o antigo proprietário tinha abandonado a profissão e que o veículo tinha ficado muito tempo parado.

Hoje eu lembro de uma coisa: na hora em que perguntei sobre o baú, ele olhou para outra direção. Foi coisa de um segundo. Naquele dia eu não dei importância. Assinei tudo. 2 dias depois, o caminhão era meu. Minha primeira carga foi de bobinas de papel para o Rio de Janeiro. Saí de Curitiba ainda de tarde. No começo da noite começou aquela garoa fina. Quanto mais eu avançava pela Regis Bittencourt, mais a neblina baixava. Por volta de 1 da manhã resolvi parar.

Encontrei um posto pequeno desses que ficam quase vazios durante a madrugada. Tinha 2 caminhões do outro lado do pátio. Mas ninguém andando por ali. Desliguei o motor, comi alguma coisa, voltei para cabine, fechei a cortina e deitei. Não sei quanto tempo dormi. Acordei com falta de ar, não como quando você acorda assustado depois de um pesadelo. Era físico, o peito pesado, a garganta seca. Eu fiquei alguns segundos tentando entender onde tava.

Foi então que percebi a vibração. O caminhão tava tremendo, pouco, mas tava. Pensei que fosse algum outro bruto passando perto. Não tinha ninguém, o motor tava desligado. Aí veio a primeira batida, uma pancada seca atrás da cabine. Parei de respirar. Veio outra, depois mais duas. Não parecia alguma peça solta, tinha intervalo. Era como se alguém tivesse batendo no metal. Eu sentei na cama e fiquei ouvindo. Foi quando começaram os outros sons.

Primeiro um arranhado devagar, depois vários ao mesmo tempo, e então eu ouvi uma voz. Não consegui entender palavra nenhuma, parecia um sussurro muito distante. Logo depois vieram outras, algumas mais graves, outras mais finas, e no meio delas eu ouvi alguém chorando. Meu primeiro pensamento foi que tinham colocado alguém dentro do baú. Parece absurdo agora, mas era a única coisa que fazia sentido naquele momento. Peguei a lanterna, abri a cabine.

A garoa continuava caindo. Quando meus pés tocaram o asfalto, as batidas pararam. Eu quase voltei para dentro, mas pensei que se realmente tivesse alguém ali, eu não podia simplesmente ignorar. Comecei a caminhar em direção à traseira. O pátio tava completamente silencioso. Passei pela lateral do baú, nada. Quando cheguei às portas traseiras, a corrente e o cadeado estavam exatamente como eu tinha deixado. Encostei a palma da mão na chapa, tirei no mesmo instante.

O metal tava quente, não morno, quente. E aquela noite tava fria. Fiquei olhando para a porta, então alguma coisa bateu do outro lado. Uma vez, toque. Eu dei dois passos para trás. Toque, toque. Corri de volta para cabine, liguei o caminhão e saí daquele posto. Não lembro nem quanto tempo dirigi depois, só lembro que parei quando começou a clarear. Era um posto maior, cheio de caminhoneiros tomando café. Entrei na lanchonete tentando parecer normal.

Eu tava no segundo café quando percebi um senhor olhando pela janela. Cabelo branco, boné velho, cara de quem tinha estrada suficiente nas costas para conhecer metade dos caminhões do país. Ele olhava para o meu caminhão, depois olhou para mim, veio até o balcão, perguntou: esse caminhão é seu? Eu disse que tinha comprado fazia poucos dias. Ele perguntou: você pegou em Curitiba? Quando confirmei, ele continuou olhando para o pátio, então perguntou: o baú já bateu?

Eu não consegui responder. Ele viu minha cara, puxou uma cadeira e sentou. Eu achei que ele fosse contar alguma história, Não contou, só perguntou a placa. Eu disse. Ele pegou um guardanapo, escreveu duas palavras e empurrou na minha direção a placa e a palavra apreensão. Depois falou: pesquisa isso quando tiver sozinho. E foi embora. Aquilo foi pior do que se ele tivesse me contado tudo. Terminei o café, entrei no caminhão, peguei o celular, comecei a pesquisar.

Demorou um pouco, Mas encontrei uma notícia antiga. A fotografia era ruim, mesmo assim reconheci o caminhão na hora. A mesma cabine azul, o mesmo baú. O veículo tinha sido encontrado abandonado anos antes durante uma investigação relacionada ao transporte clandestino de pessoas. Havia várias pessoas trancadas no compartimento de carga. Segundo a reportagem, algumas já estavam em estado grave quando foram encontradas. Outras não sobreviveram.

Eu parei de ler, fiquei olhando para o baú pelo retrovisor. Foi aí que lembrei do calor na chapa, das batidas, da falta de ar. Eu terminei aquela entrega porque precisava, mas não dormi dentro da cabine. Voltei para Curitiba assim que pude, briguei com a agência, perdi dinheiro, não me importei, só queria aquele caminhão longe de mim. Continuei trabalhando, dirijo até hoje. Com outro caminhão. Mas uma coisa mudou: eu não gosto de viajar sozinho à noite.

Quando dá, levo alguém. Quando não dá, deixo alguma coisa no banco do passageiro, uma mochila, uma caixa, qualquer coisa. Porque nas poucas vezes em que deixei aquele banco completamente vazio, aconteceu a mesma coisa. Depois de um tempo dirigindo no escuro, o estofado começa a ceder devagar, como se alguém tivesse sentando ao meu lado. Eu nunca olho diretamente, só continuo dirigindo, porque geralmente logo depois começam os sussurros.

?Voz A

Existem histórias de estrada que mudam conforme passam de motorista para motorista. Outras parecem permanecer exatamente iguais. Talvez aquele caminhão não guardasse nada. Talvez a pesquisa tenha dado forma ao que Thiago ouviu naquela madrugada. Mas há um detalhe difícil de ignorar. As batidas começaram antes que ele soubesse do passado do veículo. Metal é feito para resistir, para suportar peso, impacto, calor. Talvez também suporte lembranças.

Nossa próxima história começa com algo muito mais delicado: lã, cetim, linha e uma costura fechada durante décadas.

?Voz C

Eu trabalho com roupa, então presto atenção em coisas que a maioria das pessoas talvez nem perceba. Peso do tecido, costura, forro, desgaste, cheiro. É por isso que gosto tanto de bazares. Algumas peças antigas foram feitas de um jeito que quase não existe mais. Foi exatamente por isso que aquele casaco me chamou tanta atenção. Era um bazar beneficente organizado por uma igreja no centro de São Paulo. Muita roupa comum, Sapato, bolsa, caixa com objeto velho.

No meio de uma das araras encontrei um casaco cinza, lã pesada, corte muito bonito, provavelmente anos 80. Quando peguei na mão, percebi que era uma peça cara, ou tinha sido. Estava impecável, sem manchas, sem traça, sem rasgo. O mais estranho era o cheiro. Lavanda. Como roupa que acabou de sair do armário de alguém. Perguntei quanto custava. O valor era ridículo. Comprei. Cheguei em casa no fim da tarde. Experimentei de novo diante do espelho.

Servia quase perfeitamente. Depois pendurei no guarda-roupa. Naquela noite, acordei por volta das 3. O quarto estava com um cheiro horrível. Terra molhada. Não terra depois de chuva, era um cheiro mais pesado. Lodo. Água parada. Eu moro em apartamento, minha primeira preocupação foi infiltração. Acendi a luz, olhei parede, janela, teto, tudo seco. Voltei para cama. O cheiro continuava. Foi quando percebi que ele ficava mais forte perto do guarda-roupa.

Abri a porta, o casaco estava lá e o cheiro parecia sair dele. Eu tirei do cabide, cheirei a manga, nada. Cheirei a gola, lavanda. Coloquei de volta, fechei o armário. Quando estava deitando, ouvi o cabide bater. Esperei.

?Voz D

Taque.

?Voz C

Levantei. Abri. Tudo parado. Na manhã seguinte, quase achei graça. Pensei que talvez o cabide estivesse mal encaixado. Só que eu precisava entender de onde vinha aquele cheiro. Coloquei o casaco sobre minha mesa de trabalho. Comecei a examinar. Parte externa, bolsos, punhos, gola, Nada. Depois virei o forro. Foi aí que percebi uma costura estranha perto do ombro esquerdo. Quem trabalha com roupa reconhece quando uma costura não pertence à peça original.

A linha tinha outra espessura, os pontos estavam tortos. Passei os dedos, tinha alguma coisa ali dentro, algo duro. Peguei uma tesoura pequena Abri somente alguns centímetros. Primeiro caiu uma aliança, ouro antigo, bem gasto. Depois encontrei um papel dobrado várias vezes. Tive dificuldade de abrir sem rasgar, tipo um bilhete, poucas palavras: se eu não voltar para buscar, ele me achou. Me desculpe. Eu fiquei parada olhando aquilo.

Peguei a aliança. Na parte interna havia um nome, Helena, e uma data, 12 de maio de 1982. A partir daquele momento eu não conseguia mais olhar para o casaco do mesmo jeito. Comecei a pesquisar Helena, a data, desaparecimento, São Paulo. Não encontrei de primeira. Depois fui rodando os termos, acabei caindo numa matéria digitalizada de um jornal local do interior. A página estava ruim, a foto pior ainda, mas dava para ler o essencial.

Helena tinha 24 anos, era recém-casada, morava em uma chácara com o marido. Sumiu numa noite de maio de 1982. O corpo nunca foi encontrado. O marido foi investigado. Vizinhos diziam que ele era ciumento. Alguns falavam em brigas, mas nunca houve prova suficiente. Ele continuou vivendo naquela casa por muitos anos. Morreu velho. Só recentemente a família tinha esvaziado armários e doado roupas antigas. Eu já estava com vontade de parar de pesquisar quando encontrei outra imagem.

Era uma fotografia de arquivo. Helena aparecia em frente à chácara, sorrindo pouco, com uma mão segurando a bolsa e usando o mesmo casaco cinza, o mesmo corte, os mesmos botões, a mesma gola alta. Eu aumentei a imagem até pixelar, fiquei comparando com o casaco em cima da mesa. Não era parecido, era o mesmo. Eu guardei o bilhete dentro de um envelope, coloquei a aliança numa caixinha e deixei tudo na mesa de cabeceira. Minha intenção era procurar a delegacia certa no dia seguinte.

Naquela noite, acordei com frio, frio de ver a própria respiração. O quarto estava escuro, mas eu enxergava o guarda-roupa. Uma das portas estava aberta. Eu tentei levantar, não consegui, meu corpo não obedecia. Foi quando vi uma uma mulher em pé ao lado do armário. Não vi rosto, só a forma: cabelo escuro, ombros estreitos e o casaco cinza no corpo. Ela andou até a mesa de cabeceira, devagar estendeu a mão, pegou a caixinha, abriu, olhou para aliança, depois virou o rosto na minha direção.

Eu ouvi uma voz baixa, molhada, Distante. Obrigada por achar. Apaguei. Quando acordei, a porta do guarda-roupa estava fechada. O casaco continuava no cabide. O envelope com o bilhete estava na mesa, mas a caixinha estava aberta. A aliança tinha desaparecido. Procurei no chão, debaixo da cama, dentro do armário, no bolso do casaco, Nada. Entreguei o bilhete e as imagens que encontrei para a Polícia Civil. Não sei se aquilo reabriu alguma coisa.

Não sei se serviu para nada. Também não sei o que aconteceu com Helena, mas sei que aquele casaco não ficou comigo. Eu não queimei, não consegui. Levei até uma igreja pequena longe da minha casa, deixei dobrado dentro de uma sacola E fui embora. Nunca mais comprei roupa usada sem verificar cada centímetro do forro.

?Voz A

A Letícia encontrou uma pista, não uma resposta. Talvez por isso a história incomode. A aliança desaparecida não prova tudo, só prova que alguma coisa ainda queria ser encontrada. Comenta aqui embaixo: se encontrasse uma aliança no forro, entregaria, guardaria ou se livraria dela na mesma hora? Eu leio vocês. Agora A última história vai para Terra Compactada, Parede Grossa, uma casa que ficou de pé por mais tempo do que muitas famílias que passaram por ela.

A Bianca escreveu sobre seu pai, seu Valdir, um pedreiro que abria paredes até encontrar uma que não queria ficar aberta.

?Voz D

Meu pai bate 3 vezes na parede de toda casa que conhece. Ele faz isso há quase 10 anos. Durante muito tempo a gente achou que era mania, Depois ele contou o motivo. Meu pai se chama Valdir. Hoje tá aposentado, mas trabalhou a vida inteira como pedreiro. Não era homem de assustar fácil. Ele entrava em casa velha, forro podre, porão com rato, obra abandonada. Se tivesse serviço e pagassem direito, ele ia. Também nunca foi de acreditar em história de assombração.

Quando alguém falava essas coisas, ele dava risada. Dizia que parede velha estrala, madeira trabalha, casa antiga faz barulho mesmo. Só que teve uma obra que mudou isso. Foi num casarão de fazenda no interior de São Paulo. Uma construção muito antiga, parede grossa, janela alta, porta pesada. O tipo de casa que parece fria mesmo no calor. O proprietário tinha comprado o lugar pra reformar. Queria transformar em pousada. Chamou meu pai para avaliar uma rachadura numa parede interna.

Essa parede era de taipa de pilão. Meu pai explicou isso muitas vezes porque se irritava quando alguém chamava de tijolo de barro. Taipa de pilão não é feita de tijolos empilhados, é terra úmida compactada dentro de formas de madeira, socada em camadas até virar uma parede grossa. Quase monolítica, uma massa só: terra, fibras, pedra miúda, tempo e pressão. Diferente, claro, de uma alma de gato na parede. Quando você corta uma parede dessas, não tá tirando bloco por bloco, você tá ferindo uma coisa inteira.

Foi assim que ele falou. No segundo dia de serviço, meu pai começou a abrir um rasgo irregular na parte comprometida da taipa. Usava talhadeira, marreta pequena e muita paciência, porque a parede era dura. Não dura como concreto, dura de um jeito seco, antigo. A cada batida caía pó avermelhado no chão. Depois de quase uma hora, a talhadeira afundou do que devia. Meu pai achou que tinha encontrado uma falha interna. Abriu mais um pouco, A luz da lanterna entrou no rasgo.

Havia um espaço oco dentro da taipa, pequeno, como se alguém tivesse deixado uma cavidade ali e fechado por cima há muito tempo. Lá dentro havia duas coisas: um sapatinho de couro de criança, muito pequeno, ressecado, quase preto, e um embrulho de tecido amarrado com barbante. O tecido tava escuro de terra. Meu pai disse que não parecia lixo, parecia coisa guardada. Ele tirou o sapatinho primeiro, depois pegou o embrulho. Era leve, mas quando segurou, sentiu um cheiro forte de terra molhada, mesmo com a parede seca.

Ele pensou em abrir, chegou a puxar o nó do barbante com a unha. Foi aí que ouviu o choro. Baixo, fino, abafado. Não vinha do cômodo, não vinha do corredor, vinha da parede. Meu pai ficou parado segurando o embrulho com a lanterna apontada para o rasgo. O choro parou. Ele colocou o ouvido perto da abertura. Do lado de dentro, alguma coisa respirou. Ele largou o embrulho no chão, pegou o sapatinho, jogou de volta na cavidade. Depois pegou o embrulho sem olhar muito e colocou junto.

Não fechou com concreto, não quis misturar nada moderno ali. Só empurrou terra solta para dentro, afastou as ferramentas e saiu do cômodo. Antes de ir embora, fez uma coisa que eu só soube anos depois: ele fotografou a parede com o celular. Na foto aparecia claramente o rasgo aberto, a cavidade escura, o pó no chão, a borda irregular da taipa quebrada. Ele queria mostrar ao proprietário que aquela parede precisava de avaliação estrutural séria.

Também queria provar que não abandonou o serviço sem motivo. Naquela noite, meu pai não dormiu direito. Disse que sonhou com alguém batendo de dentro de uma parede. 3 batidas, pausa, 3 batidas. Pausa. Quando voltou ao casarão na manhã seguinte, a porta do cômodo tava fechada. Ele tinha certeza de que havia deixado aberta. Entrou devagar. As ferramentas estavam no mesmo lugar, o pó no chão também, mas a parede tava inteira. Não remendada, não tapada, inteira.

O rasgo simplesmente não existia mais. A taipa reaparecia contínua, lisa, dentro das irregularidades naturais da parede antiga, como se nunca tivesse sido aberta. Só havia uma diferença: exatamente onde ficava o buraco, a terra tava úmida, mais escura, fria. Meu pai encostou dois dedos. A umidade ficou na pele, e presa nessa umidade havia folhas pequenas de arruda, amassadas, verdes ainda. Ele pegou o celular, abriu a foto da tarde anterior, comparou.

Era o mesmo ponto, a mesma altura, a mesma mancha na parede ao lado. Só que na foto existia um rasgo. Na frente dele existia uma parede fechada. Foi aí que ouviu 3 batidas de dentro. Toque.

?Voz C

Toque, toque.

?Voz D

Meu pai saiu do casarão sem guardar as ferramentas direito. Disse ao proprietário que a estrutura tava condenada e que ele não faria mais aquele serviço. Não voltou nem para buscar uma extensão que tinha esquecido lá. Por muito tempo, essa foi a única parte da história que ele contava: a obra estranha, a parede que se fechou, a arruda. Mas ele guardava o final. Só me contou quando eu perguntei por que ele batia nas paredes. Meu pai continua fazendo isso até hoje, sempre 3 batidas, nunca forte.

Ele encosta os nós dos dedos na parede principal da casa, bate, espera e segue em frente. Depois do casarão, nunca mais ouviu resposta alguma. Uma vez eu perguntei o que ele faria se alguma parede respondesse. Ele ficou olhando para mim por alguns segundos, depois disse: eu não bateria a quarta vez.

?Voz A

3 histórias, 3 materiais: metal, tecido, terra. Nenhum deles falou claramente. O baú apenas bateu, o casaco apenas devolveu um cheiro, a parede apenas se fechou. Talvez seja assim que certas heranças continuam existindo, não como explicação, Não como prova, como um detalhe fora do lugar. Uma chapa quente numa madrugada fria, uma aliança que desaparece depois de ser encontrada, uma parede úmida onde ontem havia rasgo. Se alguma dessas histórias ficou com você, escreva nos comentários qual delas te acompanharia por mais tempo.

O caminhão de Tiago, o casaco de Letícia, ou a parede do seu Valdir? Inscreva-se e envie seu relato. Você ouviu a frequência anômala. Eu agradeço por não ter me deixado sozinho nesta madrugada. Até a próxima transmissão.

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