240 Estreitos Famosos: geografia, economia e geopolítica
Ao longo da história, diversos estreitos marítimos desempenharam papel fundamental na circulação de mercadorias, na projeção de poder e nas disputas entre Estados. Passagens como o Estreito de Ormuz, o Estreito de Malaca, o Estreito de Bósforo e o Estreito de Bab-el-Mandeb conectam mares e oceanos, mas também concentram interesses econômicos, militares e diplomáticos de alcance global. O controle dessas rotas influencia o comércio internacional, o abastecimento energético, a movimentação de frotas militares e o equilíbrio geopolítico entre grandes potências, tornando esses pontos alguns dos espaços mais estratégicos do planeta. Em diferentes momentos, guerras, bloqueios navais, crises diplomáticas e disputas territoriais evidenciaram como a geografia continua exercendo papel decisivo nas relações internacionais. Convidamos Vitor Augusto para discutir a importância geopolítica dos principais estreitos do mundo, os interesses econômicos e estratégicos que convergem nessas rotas marítimas, os conflitos associados ao seu controle e o impacto dessas passagens na política internacional contemporânea.
Roteiro: Icles Rodrigues
Edição: Samuel Gambini
Instagram: @iclesrodrigues
PIX: leituraobrigahistoria@gmail.com
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- Estreito de OrmuzFluxo de petróleo e gás natural · Dependência energética global · Fechamento por seguros marítimos · Importância de fertilizantes para o Brasil · Irã e Omã
- Taiwan e EswatiniProdução de semicondutores (TSMC) · Impacto econômico global · Ambiguidade estratégica dos EUA · Exercícios militares chineses · Armadilha de Tucídides
- Voldemort· CulturaComércio global de carga · Dilema de Malaca · Controle por Malásia, Singapura e Indonésia · Importância para a China · Parceria EUA-Indonésia · Presença naval indiana
- Ponto de inflexãoPontos de estrangulamento · Relevância econômica e geopolítica · Canais e estreitos
- Estreito de Bab-el-MandebConexão Mar Vermelho-Golfo de Áden · Rota para o Canal de Suez · Controle pelos Hutis · Impacto no fornecimento de petróleo para Israel · Negociações de Israel com a Somalilândia
- Estreitos de Bósforo e DardanelosConexão Mar Negro-Mar Mediterrâneo · Importância para exportação de grãos ucranianos · Controle turco e Convenção de Montreux · Impacto na guerra Rússia-Ucrânia · Divisão Europa-Ásia
- Saída de Bolsonaro da UTICanal da Mancha · Tráfego marítimo intenso · Impacto do Brexit · Atividade militar russa · Infraestrutura submarina
- Ameaça de GolpeDivisa Rússia-EUA · Derretimento do Ártico · Rota do Mar do Norte · Presença militar chinesa · Quebra-gelos russos
- Remo e FluminenseProfundidade para submarinos · Corredor de submarinos · Parceria AUKUS · Política externa 'livre e ativa' da Indonésia
- Estreito de GibraltarSeparação Europa-África · Fluxo histórico de carga · Controle do Reino Unido (Gibraltar) · Impacto do Brexit · Baixa probabilidade de interrupção
- Eleições na DinamarcaCatarata do Estreito da Dinamarca · Circulação Meridional de Capotamento Atlântico (AMOC) · Esconderijo tático para submarinos · Batalha do Estreito da Dinamarca (1941) · Linha GIUK (Groenlândia, Islândia, Reino Unido) · Base Aérea de Thule
- Sistema internacional e geopolíticaAlfred T. Mahan · Halford Mackinder · Nicholas Spykman · Poder marítimo vs. poder terrestre · Heartland e Rimland
- Composição da chapa de HaddadConexão Oceano Índico-Mar de Java · Profundidade rasa e correntes fortes · Proximidade com vulcão Krakatoa · Chokepoint de segunda ordem
Você está ouvindo o História FM.
Estreitos famosos do mundo, esse é o tema de hoje do História FM. Eu sou Iclis Rodrigues e para explicar para vocês alguns dos estreitos mais importantes desse planeta e qual é exatamente a importância deles, eu convidei mais uma vez Vitor Augusto, a quem eu passo a palavra para vocês. Então, Vitor, seja muito bem-vindo de volta, fique à vontade para se apresentar para o pessoal.
Um salve, salve, Icles! De fato, assim, eu tô, eu fico muito honrado de poder receber esses convites. E é um comentário geral de todo mundo que ouviu aquele episódio do História FM que eu sobre a Guerra dos Seis Dias e todo mundo gostou demais da conta e foi um episódio que eu adorei. Eu já trabalho com divulgação científica, principalmente na área de humanidades, desde 2015 na internet com o canal do Terra Negra e recentemente me aventurei também no podcast com o Geografia em Meia Hora e esses são os meus dois donos recentemente, que eu dedico mais tempo, graças a Deus.
Mas se alguém quiser me encontrar, vai me encontrar tanto no canal Terra Negra quanto lá no podcast do Geografia em Meia Hora.
Então é isso, vamos conhecer quais são os estreitos mais importantes para a geopolítica depois que eu der um recado para vocês. Eu sei que você não gosta da experiência de ouvir um podcast e do nada tocar um anúncio automático que não é nem da voz do host do programa, que entra do nada automaticamente. É uma experiência chata, eu sei como é que é. É algo que infelizmente a gente que produz conteúdo precisa, mas sei que é uma experiência complicada.
Por isso, eu te convido a considerar a possibilidade de apoiar o nosso programa lá no Apoia.se, porque lá, com R$5 por mês, você pode baixar o arquivo do programa pra ouvir em qualquer software, não ouve os anúncios automáticos e ainda pode ouvir os episódios com antecedência. São só R$5 por mês. E onde você consegue isso? Em apoia.se/obrigaohistoria. O link tá aqui embaixo na descrição. Mas se você quiser apoiar o programa, ter acesso aos spoilers do que vem pela frente, ter o seu nome citado aqui, com R$2 por mês você já consegue.
E falando em apoiadores, os nossos novos apoiadores e apoiadoras são: Vinícius Rodrigues, Vitor Guedes, Felipe Dallanese, Ângelo Werneck, Nicole Santos, Thiago Severino, Gabriel Santos, Daniel Marciano e Guilherme Carrión, ou Carrión como cantava o André Matos. Então é isso, gente, muito obrigado por serem apoiadores desse programa. Graças a vocês que esse projeto educacional gratuito existe e chega a milhares de pessoas, e se você ainda não é apoiador, peço que você considere a possibilidade de apoiar, beleza?
Como eu disse, link tá aqui na descrição, junto com outros links úteis como chave Pix, perfil no Instagram, links dos cursos e tudo mais, beleza? Agora sim, vamos pro episódio.
Um estreito é um canal de água que separa massas de terra, e entre os mais famosos estão o Estreito de Gibraltar, Estreito de Dover, ali no canal da Mancha. Mas em 1724, o navegador dinamarquês Vitus Bering navegou por um dos mais importantes estreitos do planeta, que até então não tinha sido batizado: o Estreito de Bering.
Antes de eu começar a perguntar sobre esses estreitos em particular, eu queria pedir para você explicar para o o pessoal que tá ouvindo um conceito que vai ajudar a entender o resto do programa, que é o conceito de choke points. O que que seria isso?
Beleza, choke point é um, numa tradução literal, se a gente fosse pegar dessa forma, seriam pontos de estrangulamento. São regiões muito específicas no planeta que são extremamente relevantes no sentido econômico, político e geopolítico. E normalmente são associadas a estreitos, que é o grande, nosso grande foco de hoje. Mas a gente pode pensar também nos próprios canais, o Canal de Suez, o Canal do Panamá, ou até mesmo algumas passagens, como por exemplo a região do Périplo Africano.
Enfim, todas as regiões que têm uma relevância comercial e uma relevância política e geopolítica muito grande no mundo, que caso ocorra algum tipo de intercorrência nessas regiões, nós tenhamos algum desdobramento, seja em escala regional, seja em escala global, a gente pode chamar de choke point. E é dessa forma que na teoria geopolítica, em resumo, a gente a gente vai trabalhar os principais estreitos do planeta, porque a despeito dos estreitos mais famosos, né, como Ormuz, como Málaca, que definitivamente são os dois mais relevantes no sentido econômico, existem outros que para as políticas regionais são tão relevantes quanto ou mais.
E é por isso que quando a gente começou a pincelar isso no episódio que eu participei contigo aqui no Story FM, eu gostei tanto, porque dá para a gente mostrar para muita gente que existem muitos outros estreitos. Que não têm os holofotes que Ormus e que Malaca possui, mas que são estreitos de muita relevância quando a gente pensa na geopolítica. E só para finalizar, ô Iclis, eu acho isso muito relevante, essa iniciativa que você teve, pelo seguinte: as hard news são muito, estão muito famosas hoje na internet.
Então canais específicos, podcasts específicos para discutir as políticas, as notícias sobre política internacionais do dia são muito famosos hoje, mas O problema é que muita gente ouve essas notícias, muita gente acompanha esses canais, acompanha esses podcasts sem o lastro, sem a cama conceitual que é extremamente importante para a gente conseguir compreender aquele noticiário que se popularizou bastante no Brasil, que são os noticiários de hard news.
E por isso que eu acho tão relevante a gente começar colocando conceitualmente essa questão dos chokepoints.
Na maioria dos episódios aqui do História FM, eu costumo tentar elaborar bem as perguntas para conduzir o convidado, deixar claro o que que a gente espera da resposta, esse tipo de coisa, né? Só que no caso desse episódio, eu não acho que tenha muito mistério. É basicamente pedir para você explicar um determinado estreito, tipo onde ele fica, quem manda nele, qual a importância geopolítica dele, importância econômica, essas coisas, e perguntando de um a um até acabar. Então, para começar, queria te perguntar sobre o Estreito de Dover.
Maravilha! E aí, só para comentar que eu esqueci de citar, eu falei tanto de base conceitual quando eu te respondi agora, e eu esqueci de citar que existem bases extremamente importantes para quem gosta de estudar o assunto, que são 3 teóricos da geopolítica que pouco aparecem nas análises de canais do YouTube de hard news, mas que são muito importantes para a gente conseguir compreender. E o primeiro seria do final do século 19, o Alfred T.E.
Mahan, que ele escreveu um livro muito interessante, muito importante sobre o poder marítimo em relação à história, né, The Influence of Sea Power Upon History. E esse livro, ele trabalhava com a tese que é amplamente difundida ao longo do século 20, que era o seguinte: a tese central era de que quem controlava os mares controla o comércio, quem controla o comércio controla a política. Isso vai ser muito debatido ao longo do século 20.
O Mahan era um oficial da Marinha Americana, então faz sentido que no século 19 um profissional da Marinha Americana tenha um tipo de narrativa como essa. Então nós temos, por exemplo, no caso do Mahan, que determinado, em determinado momento da história do século 19, os navios a vapor já estavam, já eram um transporte oceânico mais rápido de todos, mais previsível, mais barato do que qualquer rota terrestre. E portanto, quem controlasse esses choke points, esses pontos de passagem, controlaria toda a riqueza gerada por ele.
A conclusão prática que ele tirou então foi que as grandes potências precisam de marinhas de guerra, ou no caso precisavam de marinhas de guerra, que protejam rotas comerciais e controlem os chokepoints estratégicos. E por isso que ele influenciou diretamente a construção dessa percepção da Marinha Americana moderna, influenciou drasticamente também a expansão colonial britânica, o próprio programa naval alemão, enfim. E logo depois, já no início do século 20, possivelmente um dos teóricos da geopolítica mais mais citados é o Halford Mackinder, que em 1904 apresentou para a Royal Geographical Society que ele tinha uma visão um pouco diferente do Mahan, porque de acordo com ele a era do poder marítimo tava chegando ao fim, já que vinha sendo substituída pelo poder terrestre viabilizado pelas ferrovias.
E a tese dele é muito famosa na internet, que existiria uma Heartland, um coração no centro da Eurásia, que é uma região inacessível pelo mar, e que essa Heartland, se esse coração da Eurásia fosse controlada por uma única potência, essa potência teria recursos suficientes e capacidade industrial suficiente para dominar o mundo todo. É daí que surge uma das frases mais faladas na história da geopolítica, que é: quem governa o Heartland comanda a Ilha Mundial, ou seja, a Eurásia, e quem governa a Ilha Mundial comanda o mundo.
E aí você me pergunta, fala assim: olha, o que que isso tem a ver com os chokepoints e com os estreitos? Na visão do entender, a barreira que separava a Heartland do acesso ao mar era justamente os estreitos. E portanto, quem controla, quem controla os estreitos limita a projeção das potências em direção à Heartland. Por isso, dentre outros fatores, que a Rússia sempre quis ter acesso a águas quentes também. Então a gente vai trabalhar ao longo desses vários estreitos que a gente vai perpassar hoje a importância da Rússia até os dias atuais buscando acesso ao Oceano Atlântico Norte, buscando acesso ao Oceano Índico, em certa medida buscando acesso ao Oceano Pacífico.
E aí, pra gente finalizar esse resgate aqui dos conceitos geopolíticos, a gente tem uma outra figura, o Nicholas Spikeman, professor de Yale, que leu muito Mackinder, que já era mais respeitado à época, e ele discordou de uma questão que era o seguinte: na visão do Spikeman, poder de decisão não estava em quem controlava o Heartland, o coração da Eurásia. Mas estava no Rimland. Então eu tô aí, a gente cita o Rimland como uma faixa que circunda a Eurásia.
Então o que que seria? Europa Ocidental, que circula, circula na verdade o Heartland, né? Europa Ocidental, Oriente Médio, o sul da Ásia, Sudeste Asiático, Leste Asiático. Isso passa a ser tão importante nas teorias geopolíticas, isso passa a balizar tanto as decisões políticas, que a política americana do pós-guerra é baseada justamente nesses pontos do Spikeman. Porque se a gente parar para pensar, bases no Japão e na Coreia, aliança com Taiwan, presença no Golfo Pérsico, OTAN na Europa, todos eles estão no Rimland.
Então todos próximos a chokepoints muito importantes. Então em termos estratégicos, o que os Estados Unidos fez foi transformar a teoria do Spickman em uma infraestrutura militar. E aí de fato o que todos esses teóricos, seja o Mahan, seja o Mackinder, seja o Spickman, não previram foi uma cadeia global de valor tão integrada. Porque se a gente parar para pensar, hoje, hoje nós temos uma era dos semicondutores, de cabos submarinos de fibra óptica, de cadeia de suprimento global 100% integradas.
Então ninguém pensou um dia que um dia uma ilha do tamanho de Taiwan fosse responsável, por exemplo, por 90% da produção mundial de semicondutores. Então a dependência tecnológica do mundo e essa integração tecnológica do mundo é uma camada que era impensável para época do Mackinder, para época do Spickman, do Mahan, enfim. E aí Pensando nisso e indo direto para a questão do Estreito de Dover, que é bem importante, mas muito importante mesmo, é a gente primeiro, a gente pensar no seguinte: o que que é e onde fica o Estreito de Dover?
O Estreito de Dover é um dos estreitos mais movimentados do mundo. E se você fizer uma pesquisa aí, Cleides, isso é muito legal. Eu acredito que o ouvinte do História FM já seja um ouvinte com uma característica de gostar mais de geopolítica, de história, e consequentemente para esse episódio de hoje a gente vai precisar que todos os ouvintes entendam bastante sobre o mapamundi e tenham esse mapamundi na cabeça ou na sua mão agora.
Porque olha só, nós temos no caso do Estreito de Dover um ponto que é o ponto mais estreito, literalmente, da região do Canal da Mancha. Canal da Mancha tem mais de 560 km de extensão. E aí, só que se você pega o Estreito de Dover, isso cai para 34. Então o Canal da Mancha é extremamente relevante no aspecto histórico, geográfico. O que a gente faz O que acontece então com o Estreito de Dover é que tudo que necessariamente sai do Atlântico, do Mar do Atlântico para o Mar do Norte, ou do Mar do Norte para o Oceano Atlântico, tem que se afunilar pelo Estreito de Dover, a não ser que dê a volta completa pelas Ilhas Britânicas, mas o que não faz tanto sentido assim nessa rota alternativa.
E aí a gente tem nessa área recebendo entre 500 e 600 navios por dia, pensando em cargas, em embarcações unitárias, possivelmente mais movimentado que o Canal do possivelmente mais movimentado até mesmo que o Estreito de Málaga. Não em termos de valor de carga e muito menos de peso, mas de unidades possivelmente sim. O porto de Dover sozinho responde a quase um quinto de todo o comércio do Reino Unido. Juntamente com o Eurotúnel, o corredor de Dover passa por— passam pelo— por esse corredor, né, cerca de 16 mil caminhões todos os dias.
O Brexit inclusive criou um baita problema nesse caso, porque nós temos o Brexit criando uma fronteira que não existia antes, né? Antes era apenas uma fronteira interna da União Europeia e agora tem um ponto de controle alfandegário completo. Isso faz com que o que levava 40 segundos para atravessar no passado agora leva, pode levar até 10 minutos. E se a gente pegar 16 mil veículos por dia, a gente tinha fila de 15 km na rodovia que sai dessa região até Londres, que é a rodovia M20.
Então nós criamos uma série de problemas nessa área. Por quê? Por que que eu tô citando isso? Para mostrar que a movimentação é muito grande hoje, ou seja, é estreito relevante por sua carga econômica, mas é importante também por um prisma político-histórico. Então, o Estreito de Dover é onde a Europa acumulou diversos conflitos. E aí, não é a minha área de competência original, mas eu lembro da escola ter visto algo sobre a Batalha de Gravelines.
Então, na Batalha de Gravelines, que ocorreu também nesse contexto do Estreito de Dover, também foi decidido em um canal que historicamente passa a ser extremamente relevante. Além disso, em maio de 1940, nós tivemos o Reino Unido e os aliados enfrentando a Alemanha nazista na Operação Dínamo, ok? Nós tivemos em 1944 a questão do Dia D contra a Alemanha nazista na Normandia, utilizando o Estreito de Dover também como uma isca de desinformação.
E aí é justamente nesse contexto que o Canal da Mancha e o Estreito de Dover passa a ser um ativo estratégico. E é isso que eu quero traçar para todo mundo aqui hoje. Quando a gente pensa em operações militares históricas, quando a gente pensa em estratégia militar relevância atual, é óbvio que esse estreito ele tem que entrar na lista dos mais importantes, definitivamente. Ele não estaria na lista, por exemplo, de relevância atual se a Rússia não ficasse de olho nele.
É uma questão interessantíssima. Em 2025, a Rússia atuou e operou no Estreito de Dover em diversos momentos. No final de 2025, um submarino russo, que era o Krasnodar, entrou no Mar do Norte navegando pela superfície, atravessou o Estreito de Dover, e aí, como a região não tem uma profundidade tão grande, atravessou o Estreito de Dover pela superfície. A Marinha Real Britânica acompanhou a passagem dessa embarcação, navegou, a embarcação navegou à vista o tempo todo.
O Estreito de Dover também recebeu um navio espião da Rússia, que era o Yantar, que não é um navio de combate, mas ele consegue fazer uma análise de águas profundas, é um navio de pesquisa. E dessa forma, a Rússia mapeou a infraestrutura submarina de cabos de internet, de oleodutos. O próprio parlamento britânico, só para mostrar essa relevância. O Parlamento Britânico descreveu essa missão da Rússia como mapeamento sistemático da infraestrutura crítica do Reino Unido.
E ali é justamente ali no fundo do Mar do Norte, no fundo do Canal da Mancha, passando pelo Estreito de Dover, que o Reino Unido tem mais de 95 cabos submarinos conectando o Reino Unido aos Estados Unidos, conectando ao Canadá, à Espanha, a Portugal, interconexões para distribuição de energia elétrica. Ou seja, a Rússia, que está em contato direto ali no contexto regional europeu, a Rússia entende o Estreito de Dover como estreito extremamente importante.
Em abril de 2026, agora, o Reino Unido e a Noruega denunciaram operação submarina russa justamente no Atlântico Norte, repetindo as operações anteriores. Então, a Rússia não para de promover pesquisas nessas águas, pensando justamente no acesso a essas informações. E aí a gente entende uma outra questão. Pensando por um prisma brasileiro, vale lembrar, e a gente não pode se esquecer, que o Estreito de Dover também é relevante.
Porque o Brasil acaba de firmar um acordo com a União Europeia. Depois de 25 anos de negociações, nós firmamos o acordo. Isso significa que as nossas exportações de soja, carne, café, minério de ferro, quando chegam até a Europa, podem chegar, por exemplo, para Rotterdam, maior porto da Europa, tá no Mar do Norte, passa pelo Porto Dover, chega no Porto de Hamburgo, chega no Porto da Antuérpia. Isso tudo passa pelo Estreito de Dover.
Então, se o fechamento do Estreito de Ormuz gera problema para o mundo, o fechamento do Estreito de Dover poderia gerar algum tipo de problema para o Brasil também. Então, nesse nesse caso, para OTAN é extremamente importante discutir a segurança do Estreito de Dover, porque dentre outros motivos nós temos a logística de quem exporta para Europa e também da Europa exportando para o mundo. E por isso que a OTAN já entende, ela já, ela já coloca como uma prioridade a defesa do Estreito de Dover para evitar qualquer tipo de fechamento por algum conflito que ocorra naquela região.
Então, em suma, eu espero ter, eu acho que eu falei até demais, Mas eu peço desculpas pela verborragia, mas o Estreito de Dover, muita gente acredita que tem pouca relevância, mas é de fato um dos estreitos mais importantes do mundo.
E agora, mesma pergunta, só que dessa vez sobre o da Dinamarca.
O Estreito da Dinamarca é algo bem curioso, porque no caso do Estreito da Dinamarca, eu, apesar da gente, o próprio nome já fala por si só, né, é um estreito da Dinamarca. Mas eu queria começar com uma curiosidade que se eventualmente alguém repassou o seu feed recentemente, recentemente teve uma febre de uma imagem do Estreito da Dinamarca, que é uma imagem de um lugar conhecido como Catarata do Estreito da Dinamarca, porque de acordo com a internet isso não existe, tá?
Mas tudo bem. Mas de acordo com a internet existe uma catarata nesse estreito, ou seja, eu estou falando no oceano, que tem uma queda livre. Entenda livre livre, bastante entre aspas, de aproximadamente 3.500 metros de profundidade. Primeiro, é óbvio que isso foge do próprio conceito de catarata. Não existe catarata submarina, pelo amor de Deus. Mas a internet gosta de popularizar esses nomes, né? Só para a gente entender, isso representa 3 vezes mais a altura da Angel Falls na Venezuela, que é a maior cachoeira de fato do planeta.
Além disso, é um montante de água equivalente a 2.000 vezes o fluxo das Cataratas do Niágara no o pico das Cataratas do Niágara. E aí você vira para mim e fala assim: olha, Vitinho, mas por que então que você tá falando sobre isso? Olha só, para mim o mais relevante sobre a Catarata do Estreito da Dinamarca não é especificamente a imagem que ela produz, que diga-se de passagem, aquelas imagens ou são feitas por inteligência artificial ou então são distorcidas em edição de imagem.
É uma região definitivamente muito bonita, mas não é daquela forma que acontece. O que é mais importante para mim enquanto um o hidrógrafo é entender que existe um volume gigantesco de água que tem uma subsidência muito rápida nessa área. É uma catarata invisível que ocorre pelo seguinte: nós temos águas muito frias do Ártico, muito densas e salgadas. Essas águas, quando entram, quando se direcionam para o sul, elas entram em contato com águas que são mais quentes do Oceano Atlântico Norte e menos densas.
O contato disso gera uma subsidência muito rápida. A água fria e pesada do Ártico flui em direção ao sul. Isso, ela atravessa uma cordilheira. Essa cordilheira existe, uma cordilheira subaquática no fundo do Estreito da Dinamarca. Cruza a crista da cordilheira e começa a descer. Como ela é densa, ela desce muito e muito rápido. Qual que é o impacto disso para mim enquanto geógrafo? Essa espécie de cachoeira subaquática é um modelo de circulação chamado circulação meridional de capotamento Atlântico, a AMOC, que funciona como um dos grandes divisores de água para o clima do mundo, porque essa água despenca no Estreito da Dinamarca, alimenta as correntes marítimas profundas que viajam pelo sul do planeta e empurra as correntes quentes superficiais para cima, como por exemplo a Corrente do Golfo.
Sem esse mecanismo, a Europa Ocidental não teria uma Corrente do Golfo tão forte chegando, ou seja, não teria águas tão quentes, águas evaporando tanto chegando. Isso significa que a Europa seria drasticamente mais fria. A oscilação de temperatura na Europa Ocidental seria muito maior. E isso faz com que evidentemente até tenha prejuízos econômicos em decorrência disso. Então o primeiro aspecto é: o Estreito da Dinamarca é relevante também pela sua condição natural.
E aí essa condição natural, pasmem, isso é muito interessante. Por que que eu tô frisando o tempo todo que é um volume muito grande de água sofrendo subsidência em direção ao fundo do oceano? É porque essa subsidência, que já que é uma subsidência que cria uma transição de densidade de água, uma turbulência térmica muito grande, envolve também turbulência acústica no fundo do oceano. É uma área que é muito difícil para sonares operarem com precisão.
E é por isso que o Estreito da Dinamarca, e se eu tô falando de sonares, não se esqueçam, a atuação da geopolítica dos submarinos ali é fundamental. Então o Estreito da Dinamarca passa a ser, por uma condição natural, um esconderijo tático natural para essa, para essa organização, para essa configuração dos submarinos nessa região. E ele também é extremamente relevante no sentido histórico recente, principalmente quando a gente faz uma remontada à história recente.
Em 1941, em relação à questão da Alemanha nazista construindo o Bismarck, e o Bismarck tenta chegar ao Atlântico, e entre o Atlântico, no Estreito da Dinamarca, entre o Atlântico e a região do Mar do Norte, nós tivemos uma, um um contato muito forte com o HMS Hood, que era o navio famoso dos britânicos. O Bismarck explodiu o HMS Hood e nós tivemos um episódio, um dos episódios mais icônicos daquele contexto da Segunda Guerra. E hoje, depois de mais, mais de 80 anos desse episódio, a geografia continua a mesma.
E se a geografia continua a mesma, nós temos interesses russos nessa área e evidentemente o funil continua sendo o Estreito da Dinamarca. Quem controla esse pedaço de mar vai controlar quem entra e quem sai do Atlântico. É por isso que se a gente pensar nessa casadinha Estreito da Dinamarca e Estreito de Dover, basicamente o que a gente tem é o controle do acesso ao Atlântico Norte. E aí em 2025, diversas autoridades, autoridades nórdicas conseguiram identificar embarcações russas atravessando os estreitos dinamarqueses com uma frota, entre aspas, frota fantasma, tá?
Por que frota fantasma? Porque eles estavam contornando as sanções ocidentais tentando carregar e vender petróleo. Isso Isso é muito importante também porque extrapola a questão da dinâmica geopolítica, da dinâmica política e entra na dinâmica econômica. Então nós estamos diante aqui de uma situação recente extremamente importante. E aí, dando continuidade ao aspecto geopolítico do Estreito da Dinamarca, a gente tem um conceito que é muito importante que o ouvinte entenda, que é dentro desse contexto da estratégia naval e geopolítica da Guerra Fria, foi e voltou com muita força recentemente, é por isso que eu vou dar muita ênfase nisso, que o que voltou foi o GIUK.
GIUK é um acrônimo, G-I-U-K. Então, G de Greenland, a I de Iceland e o K de United Kingdom. E ali nós não temos só um estreito, como por exemplo o Estreito da Dinamarca ou Estreito de Dover. Nós temos uma linha inteira, é um choke point amplo, é um estrangulamento chamado de estrangulamento estratégico no Oceano Atlântico Norte. Por quê? Nós temos um arco de ilhas e costas que formam uma barreira natural protegendo o Atlântico Norte.
E é justamente ali que nós temos a linha de contenção naval mais importante da OTAN. E também é nesse contexto que nós temos a grande preocupação da frota do norte da Rússia, que fica em Murmansk, na costa do Ártico, porque é lá que a Rússia tem os maiores submarinos nucleares balísticos do mundo, que carregam boa parte do arsenal de segunda retaliação russa. Isso indica que a Rússia entende o Estreito da Dinamarca, o Estreito de Dover e toda essa região, né, da linha Diuk, como relevante.
E a OTAN também faz o mesmo. E aí nós temos uma questão que a gente pode até entrar aqui, que é a importância da Groenlândia. A Base Aérea de Thule, na Groenlândia, opera um sistema de alerta de mísseis balísticos, sistema de vigilância, patrulha antissubmarina sobre o Estreito da Dinamarca. E aí, quando a gente pensa em controlar a Groenlândia, significa controlar a visibilidade desse corredor. Por mais crúchulas que sejam as falas do presidente Trump.
Quando em janeiro de 25 Trump volta a afirmar que os Estados Unidos deveriam adquirir a Groenlândia, e evidentemente a Dinamarca diz que não está à venda, o governo da Groenlândia a mesma coisa, enfim, parece só uma extravagância, mas existe uma lógica estratégica direta. Não que eu esteja defendendo isso, mas a Groenlândia é o ponto que ancora o lado ocidental do Diuq, dessa linha, e sem a presença americana consolidada lá, a vigilância, a vigilância dos Estados Unidos sobre o estreio da Dinamarca ficaria, entre aspas, prejudicada.
Essa região é tão importante que já existem diversas negociações entre Washington e Copenhague, não sobre necessariamente a compra da Groenlândia, mas sim sobre a expansão dos investimentos em bases americanas no sul da Groenlândia e principalmente da ampliação dos investimentos da Dinamarca, que se comprometeu com bilhões de libras para defender o Ártico. Então ali você tem uma questão que é extremamente importante. Tão importante que em maio de 2026, recentemente, eu acabei de infelizmente datar esse episódio, mas a OTAN realizou operações de exercícios de guerra, exercícios antissubmarinos no Atlântico Norte, com a participação de 9 nações.
São exercícios muito importantes que ocorrem sempre nas proximidades da Linha Diuk. E evidentemente a Rússia entende que a OTAN está bastante preocupada em relação a essa questão. E é justamente ali que nós temos então uma dinâmica muito preocupante. É uma região onde passam rotas comerciais, é uma região onde passam infraestruturas submarinas, e é uma rota de trânsito também submarinos russos. Por isso a dinâmica do Atlântico Norte depende bastante também do Estreito da Dinamarca.
Já é meio do ano, já passou da hora dessa situação no Estreito de Ormuz de vez. Uma hora a gente fica sabendo que o estreito tá aberto, depois tá fechado, depois tá aberto de novo. Mas também passou da hora de você que tá ouvindo esse episódio testar as peças da Insider, uma marca da qual eu sou usuário há cerca de 3 anos, porque as tech t-shirts deles atendem algumas das minhas maiores necessidades, que são conforto térmico, conforto tátil e beleza.
E elas servem para várias situações. Antes eu só usava na rua, agora eu tô usando em casa também. E aqui embaixo na descrição tem o meu link, que se você entrar por ali, na hora que você fechar a compra, você ganha o meu desconto automaticamente e ele pode ser somado com outros descontos que tem no site. Se você entrar por outro link, na hora de fechar a compra você digita o cupom STORYFM, tudo junto, e o desconto é aplicado na hora.
E repito, isso funciona por qualquer link da Insider que você acessar. Beleza? E o Estreito de Bering, o que é que a gente pode falar a respeito dele?
O Estreito de Bering é algo bem legal, porque se a gente parar para pensar, o Estreito de Bering possivelmente é o primeiro estreito que a gente aprende ainda no ensino fundamental, né? Então é um estreito bastante icônico, mas durante muito tempo ele não foi entendido como um choke point muito preocupante. Só para relembrar, né, a gente tem o Estreito de Bering separando a Rússia dos Estados Unidos por cerca aí de 85 km. Então é possivelmente em linha reta, né, a menor distância entre as duas grandes potências nucleares do mundo.
E durante a Guerra Fria, a maior parte desse estreito era uma fronteira congelada e bastante estática, e isso fazia com que as preocupações não fossem absurdamente grandes em relação às movimentações desse estreito. Só que hoje isso, isso mudou, porque essa região já é uma das regiões mais movimentadas estrategicamente do mundo, pelo derretimento do Ártico. E é mais uma vez que eu volto a citar aqui as mudanças climáticas em escala global afetando a nossa dinâmica da geopolítica, né?
Isso é bem interessante, porque o que era gelo durante o ano inteiro agora tá aberto por meses. Então, onde havia camada de gelo bloqueando tudo, agora tem rotas marítimas. No caso aqui, a Rota do Mar do Norte, um corredor marítimo ao longo da costa ártica russa que reduz em 40% a distância entre China e Europa em relação ao Canal de Suez. Se o Canal de Suez já é um alívio muito grande para a China, imagina a Rota do Mar do Norte.
Uma viagem que leva 35 a 40 dias por Suez cai para 18 a 22 dias pelo Ártico. Por cada viagem, cada navio economiza cerca de 500 a 800 toneladas de combustível. E a quantidade, a questão é tão, é tão grave em relação às mudanças climáticas globais que a quantidade de viagens viagens de grandes navios de contêineres entre China e Europa pela Rota do Mar do Norte só vem aumentando ano após ano. Então tinha ano que esses operadores chineses completavam 7 viagens, por exemplo, em 2023.
Agora recentemente, em 2025, foram 14 viagens. Nós estamos falando de o derretimento continuando e nós temos uma dinâmica muito diferente agora, porque o Estreito de Bering, como eu disse, é a porta de entrada da Rota do Mar do Norte pelo Pacífico. Isso significa que todo navio navio que sai do norte da China ou do Japão para usar esse corredor ártico tem que passar pelo Estreito de Bering. Então, durante décadas, Bering sempre foi monitorado do ponto de vista militar por causa da Guerra Fria entre Rússia e Estados Unidos.
Só que hoje a gente tem uma outra dinâmica, e por causa dessa outra dinâmica, um terceiro ator entra no jogo, que é a China, que opera nesse território, que é um território historicamente dominado por Rússia e Estados Unidos. E aí, quando eu falo que a China opera, a gente tem que entender no sentido geopolítico, algo que é importante. A China aumenta a sua presença da seguinte forma. Quando a gente fala isso na geopolítica, a China aumentou a sua presença, não significa que ela colocou só bases militares ali, não é necessariamente isso, tá?
A China não, não tem o perfil, tá? As forças armadas chinesas não têm o mesmo perfil que as forças armadas dos Estados Unidos. Então, e não é o mesmo perfil também econômico, de planejamento, enfim. A questão é que exercícios conjuntos entre Guarda Costeira chinesa e os russos são muito mais comuns hoje em dia. Então, a partir desses exercícios conjuntos de patrulhamento aéreo em cima do Mar de Bering, nós temos uma proximidade de China e Rússia atuando militarmente muito próximo ao Alasca, que é um território dos Estados Unidos.
E essa rota do Mar do Norte, que é controlada pela Rússia, faz com que a gente tenha uma outra dinâmica que mostra o descaso americano em relação a essa região. Porque eu talvez não, eu não tenho um outro termo inverno para encontrar que não seja de escaso. A Rússia controla os quebra-gelos dessa região. Então a companhia estatal nuclear estatal da Rússia, que é a Rosatom, usa esses navios quebra-gelos que guiam os navios pelo corredor durante o inverno.
E para a China usar essa rota, a China precisa de permissão e cooperação da Rússia. Faz total sentido. Só que como os Estados Unidos não têm essa mesma possibilidade, Estados Unidos não tem capacidade hoje, enquanto a Rússia tem quebra-gelos operacionais, incluindo os maiores do mundo, quebra-gelos com propulsão nuclear, os Estados Unidos têm 2 ou 3. Então é uma disparidade muito grande no sentido infraestrutural. A China se aproveita disso da Rússia fazendo o quê?
Aumentando sua presença no Oceano Ártico, ajudando a Rússia a mapear, fazer um mapeamento oceânico mais eficiente, mais detalhado, criando rotas de comunicação, infraestrutura, infraestrutura logística. E enquanto isso, Estados Unidos tem uma infraestrutura muito deficitária frente à Rússia. Nesse sentido. Então a China passa a operar nesse, nesse teatro da região de Bering também, extremamente importante nesse sentido. Então a Bering faz parte da dinâmica da geopolítica do Ártico, bem como faz parte também o Estreito da Dinamarca, e bem como faz parte também o Estreito de Dover, porque essa conexão Atlântico Norte com Ártico e também Pacífico com Ártico é feita a partir desses estreitos que eu acabei de mostrar, de falar com vocês aqui.
E o que que a gente pode falar sobre o Estreito de Málaga aqui? Inclusive você você mencionou como um dos mais importantes.
É, aí definitivamente a gente entra possivelmente na cereja do bolo, porque quando a gente pensa no Estreito de Málaca, é definitivamente em relação a valores de carga o estreito mais importante do planeta hoje. Até porque é o estreito que oferece a possibilidade de acesso ao mercado chinês, porque a despeito— e é isso é importante também, Icles— a despeito dessa, de todos os investimentos terrestres, né, feitos pela, pela China na iniciativa One Belt One Road, né, Iniciativa Cinturão e Rota, a gente tem uma relevância muito grande do transporte marítimo para China.
Esse estreito é um estreito que tem 805 km de comprimento, separa a Península Malaya da Ilha de Sumatra, na Indonésia, e no ponto mais apertado, que a gente chama de Canal de Philips, ele tem apenas 2,7 km. Então é realmente muito estreito, mas só em 2025 mais de 100 mil embarcações cruzaram nessa região. Então são mais de 400 embarcações por dia, seja transportando petróleo bruto do Oriente Médio para China, para o Japão, para Coreia do Sul, seja carregando contêineres de gás, matéria-prima.
E aí, pensando em matéria-prima, a gente tem também a participação muito grande do Brasil. Então todas as nossas commodities vegetais passam por ali, commodities minerais também. Então a nossa exportação de soja, de minério de ferro, de combustível em direção à China passa pelo Estreito de Málaca, e quase que necessariamente. Então, mais para frente eu vou até falar um pouco sobre o Houdini e tal, e sobre o dilema de Málaca. Mas é importante que a gente entenda que o comércio anual que passa pelo estreito gira em torno de 3,5 trilhões de dólares.
Isso corresponde a uma fatia do PIB global assustadoramente grande. 3,5 trilhões de dólares possivelmente seria Seria, se bobear, um terço do PIB global. Se Malaca fechasse amanhã, o Japão não teria, não teria nenhuma semana de operação em função de combustível. A Coreia do Sul muito menos. A China também teria um problema gigantesco. Malaca é um gargalo. E aí muita gente sempre associa Malaca à China, mas esquece dos outros países, porque parece até que Malaca é a prata, a bala de prata da China, mas não necessariamente.
A gente tem que entender que toda a região do Sudeste Asiático e principalmente do Nordeste Sudeste Asiático e da Ásia Oriental, antigamente chamado de Extremo Oriente, é fundamentalmente dominada pelo que passa no Estreito de Málaca, que é controlado principalmente por Malásia, Singapura e a Indonésia. E aí, entendendo a relevância do Estreito de Málaca, em 2003 o Hu Jintao, que era o presidente à época da China, ele falou que a grande vulnerabilidade de chinesa seria o dilema de Málaca.
Ou seja, se os 3 países que controlam o Estreito de Málaca fechassem o estreito, a China teria uma série de problemas muito graves. A China construiu basicamente o seu modelo de industrialização sobre importações de petróleo também, e 90% do petróleo que chega à China chega pelo Estreito de Málaca, chega por navio. Então, 2/3 desse comércio marítimo mundial passam pelo Estreito de Málaca em um momento ou outro. A cadeia global de valor está necessariamente alicerçada no Estreito de Málaca.
Por isso que atacar o Estreito de Málaca não é atacar a China. As pessoas têm que entender a separação das coisas. Atacar o Estreito de Málaca ou fechar o Estreito de Málaca é atacar o planeta. Então, quando você pensa em Malásia, Indonésia e Singapura, são países bastante alinhados com o Ocidente. Singapura abriga uma das maiores frotas dos Estados Unidos na Ásia. Em torno do estreito, Washington também tem as bases de de Diego Garcia, de Okinawa, das Filipinas.
Muita gente considera o Estreito de Málaca também um dos pilares na tentativa de controle americano em relação à China. Mas como eu disse, isso é um raciocínio que é um raciocínio muito pobre. A China tenta construir alguns gasodutos e oleodutos passando pela Ásia Central, mas evidentemente não faz, não faz nem cosquinha com o volume de comércio que se tem passando pelo Estreito de Málaca. Então rotas alternativas, se a gente pensasse, existem Existem rotas alternativas na Indonésia, como Lombok, Sunda, mas adicionariam um tempo de duração de viagem muito grande, adicionariam um custo dessas viagens também muito grande.
E as estimativas é que a gente fechando o Estreito de Málaca, nós teremos imediatamente mais de 200 bilhões de dólares por ano de prejuízo, só que para o mundo, não necessariamente para a China. Então não é um dilema apenas chinês, é um dilema, é uma questão logística e é uma questão que de fato tem que ter atenção do mundo inteiro. E para piorar, recentemente nós saímos dessa questão teórica do Dilema de Malaca e a gente começou a ter um desenho um pouco mais robusto e mais sério sobre questões práticas.
Em abril de 2026, Estados Unidos e Indonésia assinaram um acordo de cooperação, de parceria, baseado em capacitação militar, treinamento, cooperação operacional. A Indonésia recebe dos Estados Unidos sistemas marítimos mais avançados, avançados, novos submarinos, sistemas mais autônomos. Ou seja, ela moderniza a sua capacidade marítima e ela faz o quê? Ela oferece uma parceria com os Estados Unidos, e essa parceria é bastante importante para os Estados Unidos e bastante preocupante em relação à China.
Então nós temos ali a Índia também entrando nessa jogada com bastante com bastante força já, porque a Índia evidentemente tem uma presença muito forte na entrada sul do Estreito de Málaca. E aí nós temos, para piorar esse quadro dessa região Indo-Pacífico, é a gente entender que a Índia é uma potência regional muito forte, rival histórica da China, com ambições marítimas muito fortes. E se ela tem ambições marítimas, controlar Málaca é controlar toda a porta que entra e que sai do Indo-Pacífico, ou seja, do Oceano Índico para o Pacífico.
Então, se esse cerco continuasse fechando, isso passa a não ser de fato interessante. É óbvio que a China, via diplomacia, porque essa é a característica mais importante, a característica mais sóbria que a China possui em relação à sua política externa, diplomaticamente a China busca diversos acordos para essas garantias de que o Estreito de Málaca não será fechado. O Estreito de Málaca nunca foi fechado em nenhum contexto de guerra, em nenhum contexto de crise, mas de fato os alertas são cada vez maiores.
Enfim, é, pode, pode ser uma das centelhas de um conflito de escala maior. E esse é o apontamento, essa grande preocupação aqui que sempre vai ser feita pelos analistas. É uma preocupação porque nós temos ali efetivamente uma, um estreito muito, mas muito importante para China. E é por isso que em todas todas essas falas muito, muito complicadas no sentido acadêmico, muito questionáveis do ponto de vista acadêmico também, de como poderia surgir uma Terceira Guerra Mundial.
Se você tivesse que apostar uma aposta muito fácil, é fácil no sentido de ser uma aposta confortável, seria Málaca, seria o Mar Meridional da China, seria essa região da transição do Indo-Pacífico, justamente porque ali nós temos uma área extremamente sensível para a economia global. No extremo norte da América, mais precisamente próximo ao Alasca, existe uma faixa de água um tanto menor que separa os dois continentes. Este lugar é conhecido como Estreito de Bering.
E aí tem um outro estreito menos famoso que parece até deixa de piada de quinta série, que é o Estreito de Sunda. Fica onde esse estreito? Qual é desse estreito afinal?
Pois é, olha só, o Estreito de Sunda definitivamente de toda essa nossa lista de hoje que a gente vai falar talvez seja o estreito menos conhecido, né? O estreito que fica entre Java e Sumatra. Fica, ele liga, ele conecta o Oceano Índico ao Mar de Java e por extensão também ao Mar do Sul da China, o Oceano Pacífico. Em distância é mais curto do que contornar a Austrália. Então aí a gente poderia pensar, então tudo bem, se é mais curto faz sentido, Málaca não é tão importante.
Mas é justamente aí que acabam as vantagens de Sunda, porque o estreito é extremamente raso. Além disso, as correntes de maré são muito fortes, são muito irregulares. Então navios grandes, navios com mais de 100 mil toneladas de capacidade maior evitam esse trecho por causa da sua profundidade, pelos riscos de navegação. E quando a gente pensa no Estreito de Málaca, ou a gente pensa em grandes estreitos do mundo que suportam grandes demandas econômicas, os superpetroleiros, por exemplo, que transportam petróleo do Golfo Pérsico em direção à China, eu tô falando de capacidade de 200, 300 mil toneladas, eles não passam pelo Estreito de Sunda.
Além disso, no sentido geográfico, eminentemente geográfico, existe um outro perigo. O Estreito de por Sunda, está, ele passa pelo centro de Krakatoa, aquele vulcão que explodiu em 1883, né, uma das maiores tragédias da história moderna, que destruiu uma parte considerável da ilha, gerou tsunami, enfim. E recentemente o Anak Krakatau, que é o filho do vulcão Krakatoa, ele entrou em erupção também, colapsou parcialmente sua encosta, gerou também uma série de problemas na região.
Ou seja, como se não tivesse problema suficiente passar por Sunda, em função das irregularidades e das correntes de maré, nós ainda temos vulcões ativos que pode gerar uma imprevisibilidade para, para esses, essas embarcações que passam por ali. Então, de fato, o Estreito de Sunda talvez não seja o corredor ideal na, pra solução, pra solução do dilema de Málaca, né? Então nós temos no caso de Sunda algo extremamente importante porque Sunda não tem grandes passagens, por exemplo, como eu citei lá de Málaca para o Brasil, Sunda não tem essa relevância toda.
O Estreito de Sunda é um choke point, mas é de segunda ordem, porque passa por ali uma carga, e principalmente os petroleiros de menor expressão. Além disso, esse estreito ele está inteiramente sob o controle da Indonésia. Isso faz com que sejam menos complexas a questão em relação, por exemplo, à complexidade de Málaca, porque Málaca eu preciso passar por uma organização e por uma leniência, por uma permissão de Malásia, Singapura, de Indonésia.
Agora, Sunda não. Então, Sunda tem problemas muito sérios em relação a essa passagem e, portanto, não faz muito sentido que a gente se preocupe tanto como de imaginar que um dia isso vai ser alternativa. Então, Sunda, possivelmente, o que vai acontecer, Iclis, é que vai continuar sendo usada dessa mesma da mesma forma para sempre, sempre com embarcações menores, sempre com relevância no sentido da geopolítica menor.
Agora eu queria pedir para você comentar sobre o Estreito de Lombok.
Lombok, o Estreito de Lombok também é pouco conhecido aqui no Brasil, né? A gente estuda pouco o Estreito de Lombok, mas é um estreito extremamente importante, tá? Ele fica entre as ilhas de Bali e Lombok, também na Indonésia. E aí é interessante porque isso faz Estreito de Lombok 100% indonésio e consequentemente também entra na mesma seara do que eu falei para o Estreito de Sunda. Ele tem 35 km de largura, mas isso, isso pouco importa porque o número relevante mesmo é a profundidade do canal.
Então imagina que a profundidade do canal é de 250 metros, e aí entra a questão geopolítica. Só para a gente entender, o Estreito de Málaca tem uma profundidade média de apenas 25 metros. Então isso indica que Lombok tem uma capacidade para submarinos bem interessante. E é aí que a gente vai entrar, porque no caso de Malaca, quando um submarino tenta passar por Malaca, ele precisa basicamente passar pela superfície, né? Então se a gente pensar num submarino militar convencional ou no nuclear de grande porte, enfim, a classe Virginia dos Estados Unidos, classe Shang da China, eles possuem um calado e uma altura de torre grande e que faz com que essa navegação com 25 metros de água seja um suicídio, basicamente.
Não tem espaço vertical para essa embarcação passar. Então tem grandes riscos de colisão nesse sentido. Já o Estreito de Lombok, com 250 metros de profundidade, aí sim os submarinos passam submersos. E por isso todos os estrategistas navais chamam o Estreito de Lombok como corredor de submarinos. Os próprios submarinos da AUKUS, né, AUKUS é um acrônimo que indica aquela parceria entre Austrália, Reino Unido e Estados Unidos. Eles precisam de uma rota segura para operar na região, porque imagina, como é que eu, como é que eu passo do Oceano Índico para o Oceano Pacífico quando necessário?
Eu vou atravessar Austrália? Não vou. Então eu passo por Lombok. É a rota mais óbvia e a rota mais utilizada. A Indonésia, inclusive, e aí vale lembrar que a Indonésia é uma, tem uma grande população, eu tô dizendo uma grande população mundial, tem uma gigantesca economia no Sudeste Asiático, e ela atua com a sua política externa de uma forma que eles gostam de chamar de livre e ativa. É o jeito que se fala que o Indonésio não vai se comprometer formalmente com nenhuma das grandes potências e vai tentar manter a sua neutralidade.
O problema é que a Austrália e Indonésia assinaram acordos. Eu acabei de citar que a Indonésia assinou acordos com os Estados Unidos também, todos eles firmados em 2026. Então a Austrália assinou em fevereiro, Estados Unidos assinou em abril. E aí isso pode dar a entender para China que é um cerco. E aí pode dar a entender para China que ainda, que a Indonésia talvez vire uma persona não grata. Mas para Indonésia, Indonésia só tá modernizando o seu exército, só tá modernizando a sua força militar.
Então a gente tem um perigo muito grande dessas, dessas assinaturas recentes dos acordos ser mal visto por parte da China. Então nós temos uma dimensão no debate que é muito importante. A Força Naval, por exemplo, australiana, que precisa operar na região, vai operar via Estreito de Lombok. Então essas águas da Indonésia são extremamente relevantes para o Ocidente conseguir se organizar melhor nessa, nessa região, conseguir se organizar melhor nessa área.
Enquanto Sunda não tinha essa estratégia, Lombok, até por uma questão geológica local, tem uma profundidade maior por uma questão dos falhamentos internos. E é essa profundidade garante uma vantagem geopolítica bem legal para o Estreito de Lombok em comparação tanto ao Estreito de Sunda quanto ao próprio Estreito de Málaga. Do lado da Espanha, do lado do Estreito de Gibraltar, da Espanha, tem uma cidade ele tem uma comunidade chamada Gibraltar, que pertence ao Reino Unido. Olha que fit, hein?
E o Estreito de Taiwan, qual é a dele?
Aí o Estreito de Taiwan entra dentro desse mesmo contexto, que é o contexto que eu coloquei para vocês, em relação à importância do, primeiro, do Mar Meridional da China, dessa confluência Indo-Pacífico. Eu não esqueço do Obama, ainda enquanto presidente dos Estados Unidos, falando a importância de pivotarem a sua estratégia geopolítica do Atlântico para o Pacífico, não só pelos mercados como a sua relevância, a sua relevância política também.
Não esqueço também que todos os canais no YouTube que promovem sensacionalismo sobre Terceira Guerra Mundial, eles adoram citar o Mar Meridional da China como um mar extremamente importante. Ou seja, o que que é o Mar Meridional da China? Ele está justamente entre o Oceano Índico e entre o Oceano Pacífico. Pacífico. E é ali que você tem o Estreito de Málaca, o Estreito de Lombok, o Estreito de Sunda e o Estreito de Taiwan. Então, recentemente, a China mostrou bastante força no Estreito de Taiwan, promovendo diversos treinamentos militares, exercícios militares.
O estreito tem 180 km de largura. Então, em termos náuticos, isso não é praticamente nada. Então, a distância entre Taiwan e a costa da província de Fujian é menor do que a distância entre o Rio de e Angra dos Reis. Mais de 40% do tráfego global de contêineres passa por aqui ou pelos arredores da ilha. Isso significa que qualquer perturbação que afeta diretamente a cadeia de suprimento na Europa, na América Latina, na América do Norte, passa por ali.
Se tiver uma perturbação grande no Estreito de Taiwan, nós temos graves problemas para Europa, América do Norte, América Latina. O espaço aéreo também é importante, porque Taiwan faz uma conexão do Nordeste Asiático, né, o Japão, Coreia, com Sudeste Asiático. E aí Filipinas, Malásia, Vietnã, a própria Indonésia. Então essa infraestrutura de aviação também é relevante, porque fechando o Estreito de Taiwan, obviamente se fecha o quê?
Se fecha o espaço aéreo, pelo risco que se tem. E tem um fator que coloca o Estreito de Taiwan em uma categoria muito diferente de outros choke points, que é o fato da produção de semicondutores. Principalmente ali nós temos a TSMC, a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company. A TSMC controla 72% da capacidade global de fundição de semicondutores. Então, semicondutores muito avançados, os mesmos semicondutores que estão dentro dos iPhones, dos servidores de inteligência artificial, sistema de armamentos mais modernos.
O próprio Trump recentemente, o Trump ele é muito verborrágico e por vezes ele comete sincericídio. O Trump revelou que foi um erro, e aí como sempre nunca o erro é dele, mas o erro pode ser dos Estados Unidos, mas como possivelmente em algumas análises talvez ele se julgue maior do que os Estados Unidos, ele, ele coloca o erro pra apontando pra outra pessoa, que não ele, mas que os Estados Unidos teria errado muito e os seus antecessores teriam errado muito por permitirem que Taiwan controlasse, dominasse tanta tecnologia que veio inicialmente dos Estados Unidos.
E além de dominar, melhorasse e dominasse o mercado. Então, mais de 90% da produção mundial vem de fábricas localizadas em Taiwan e não tem substituto, nem no curto nem no médio prazo. A estimativa da Bloomberg é que se caso um conflito interrompesse a produção da TSMC, se ocorresse um conflito no Estreito de Taiwan, isso causaria uma contração de 10 trilhões de dólares na economia mundial. Para efeito de comparação, a crise de 2008 gerou uma situação em relação a 2 trilhões, 5 vezes menor do que poderia acontecer com o Estreito de Taiwan.
E isso de fato entra como variável extremamente importante para a gente entender. E aí a gente de volta lá atrás, que apesar daquela teoria que eu citei do Mahan da importância de controlarmos o comércio mundial a partir dos mares, mas Taiwan, apesar de ser uma variável muito diferente do final do século 19, Taiwan é uma espécie de teste contemporâneo, porque afetar o comércio no Estreito de Taiwan é um problema. Isso também pode ser um problema em relação ao próprio, a própria dominância americana na região.
Por que que eu tô falando isso? Olha onde eu quero chegar. Em 79, Estados Unidos foram muito inteligentes em formalizar uma ruptura com Taiwan. Eles fizeram isso a partir de um, chama ato, é o Ato de Relações com Taiwan, Taiwan Relations Act. E esse documento, ele firma, portanto, a ruptura com Taiwan e a aproximação com a China. Quando esse ato de rompimento de relações com Taiwan, ele é criado, ele é construído, ele é desenhado, foi muito inteligente.
Eu chamei de inteligente pelo é o seguinte: eles prometem fornecer à Taiwan meios de defesa suficientes, mas eles não dizem que vão defender Taiwan em um caso de Taiwan ser invadida pela China. Então, eu não posso prometer que eu vou te defender, porque quem vai te atacar possivelmente é a China, e eu não vou atacar a China, mas eu vou te ajudar com seus meios de defesa se você comprar de mim. É uma ambiguidade estratégica intencional, e durante décadas funcionou dessa forma.
Inclusive, recentemente, o Trump visitou Xi Jinping E quando o Trump visitou o Xi Jinping, ele se recusou a responder se os Estados Unidos realmente, efetivamente vão intervir em caso de guerra. E pelo contrário, o Trump ainda avisou, o Trump ainda falou: olha, é muito complicada essa situação. Por que que é complicada? Porque a gente está a milhares de quilômetros de distância de Taiwan, a China está a menos de 70, a menos de 70 milhas náuticas de Taiwan.
Logo fica difícil para gente. E ele, ele se esquivou. Esquivou das perguntas e quando respondeu, respondeu com bastante ambiguidade. Aí a China, obviamente, a China já permanece na sua, na sua postura, que é a postura clássica chinesa de promover exercícios militares, de tentar promover de fato a, a reanexação de Taiwan para o território chinês por vias diplomáticas, as vias mais tranquilas possíveis. Recentemente também nesse encontro do Trump com o Xi Jinping, o Xi Jinping foi muito enfático em dizer que era para, para China Estados Unidos fugirem da armadilha de Thucídides, né, que fazendo uma menção honrosa a um cientista político americano que criou esse livro da armadilha de Thucídides sobre a possibilidade de confronto armado entre Estados Unidos e China, que resultaria em um caos internacional por motivos óbvios.
Mas a China, apesar de exercícios militares como feitos recentemente no final de 2025, a China ela busca essa cooperação de uma forma muito mais tranquila. E aí vale lembrar que o Brasil não tem relação formal com Taiwan, reconhece a China como princípio de uma só China, mas existe uma relação das exportações chinesas para brasileiras para China que é muito importante porque elas passam perto de Taiwan, elas de fato podem atravessar o Estreito de Taiwan e essa instabilidade geraria também uma instabilidade para a economia brasileira.
Sempre tentando fazer esse paralelo com da economia brasileira, sim, de fato nós teríamos um problema muito sério em relação ao Estreito de Taiwan. E aí, para resumirmos, fazermos o resumo da ópera, se os grupos sensacionalistas gostam de falar bastante sobre a Terceira Guerra Mundial, tá aí, ó, o chute fácil é justamente o Estreito de Taiwan, o Mar Meridional da China e o Estreito de Málaga.
E aí a gente chega naquele estreito que nesse momento é o mais famoso, que é o de Ormuz, né? Queria entender por que que ele é tão importante, porque é tão fácil de controlar ele por parte do Irã. E bom, eu podia ficar fazendo um monte de pergunta aqui sobre ele, mas eu imagino que nas últimas semanas você já deve ter tido que responder várias delas. Você deve estar por dentro do que que as pessoas mais querem saber sobre. Então fica à vontade para falar a respeito.
Justamente, o que eu mais respondi ao longo das últimas semanas definitivamente foi sobre essa questão do Estreito de Ormuz. O Ormuz tecnicamente é um estreito que separa o Irã ao norte, né? Então o Irã tá ao norte do Estreito de Ormuz, e aí aí, o Omã e Emirados Árabes Unidos está ao sul do Estreito de Ormuz. E essa península que forma uma espécie de ponta, tá, ela, ela está entre efetivamente Omã, que tem um enclave que é o enclave de Musandam, os Emirados Árabes Unidos justamente do lado, também compartilhando essa dinâmica geopolítica da entrada do Golfo, mas com destaque para o Irã.
Porque o Irã é um colosso territorial, o Irã O Irã é um país gigantesco, não só territorialmente como também industrialmente, demograficamente. É uma espécie— eu sempre gosto de usar essa analogia para as pessoas entenderem— o Irã é uma espécie de Alemanha no Oriente Médio, não só no sentido econômico como também no sentido demográfico. São mais de 85 milhões de habitantes. Então não é um país qualquer. E o Estreito de Ormuz é um estreito que faz a transição entre o Mar da Arábia no Oceano Índico para o Golfo Pérsico.
É tão importante isso que o golfo chama Pérsico. Isso é interessante porque quando a gente pensa em Golfo Pérsico, é o Golfo da Pérsia, que atualmente a gente poderia, se os governantes iranianos fossem tão egocêntricos, eles poderiam renomear para Golfo Iraniano. E aí, nesse caso, o Golfo Pérsico é extremamente relevante, principalmente no âmbito energético global. Para a gente entender a a distância desse, desse estreito, porque não, muita gente pode pensar o estreito como uma espécie de portão, mas não funciona dessa forma, tá?
O estreito tem 39 km de largura, é basicamente a distância entre São Paulo e Santos. Então o ponto mais estreito, apesar de ter 39, como a navegação comercial não passa necessariamente em cima do mar territorial dos países, a navegação comercial real fica espremida para 3 km em cada um dos sentidos. Então é um corredor de 3 km para entrar no Golfo Pérsico, um corredor de 3 para sair do Golfo Pérsico. E por esse corredor passam 20 milhões de barris de petróleo todos os dias.
Por esse corredor passa um quinto do gás natural liquefeito do planeta, majoritariamente vindo do Catar. Por esse corredor passa 30% do comércio global de fertilizantes, principalmente porque essa região do Golfo Pérsico produz muito composto nitrogenado, como a ureia, e também o enxofre de petroquímica. Esses compostos nitrogenados são muito fortes em regiões que têm muito gás. Então aí você pode pensar, qual o maior reservatório de gás do mundo?
Reservatório russo. Então a Rússia é também um grande produtor e exportador mundial de compostos nitrogenados como ureia. Aí você tem os países da Península Arábica, né? Península Arábica, entre o Golfo Pérsico e o Mar Vermelho, o Golfo de Adem, o Mar da Arábia, você tem a Península Arábica, também como a grande produtora de gás natural liquefeito, acaba também produzindo a partir das suas companhias petroquímicas esses compostos nitrogenados.
E aí você vira para mim e fala assim, ó, tudo bem, então o que que a gente pode fazer? A gente não transporta óleo e gás apenas por embarcações, por transportes marítimos, logo a gente pode transportar por oleodutos e gasodutos. Ok, vamos entender. Então existem tem oleodutos e gasodutos. Por exemplo, o oleoduto de petróleo bruto de Abu Dhabi, que cruza os Emirados até o porto de Fujairah, contorna o estreito, mas tem uma capacidade de 1,5 milhão de barris por dia.
Já o oleoduto leste-oeste da Arábia Saudita corta o território da Arábia Saudita até o Mar Vermelho. Sua capacidade gira em torno de 5 milhões de barris por dia. Só que somando os dois, a gente chega numa capacidade de 6,5 milhões de barris por dia. Só no Estreito de Ormuz eu tenho um fluxo normal mais de 20 milhões de barris. Então os gasodutos e oleodutos não são suficientes, não podem ser considerados como uma rota alternativa viável.
Não existe nenhuma saída rápida, existe uma dependência mais do que profunda desse estreito. E aí a gente entra na dinâmica mais conjuntural, né, na dinâmica geopolítica recente, já que em fevereiro de 2026 Estados Unidos e Israel lançaram ataques aéreos contra o Irã. E em poucas horas, o líder supremo Ali Khamenei, o aiatolá Ali Khamenei, o mesmo que substituiu o aiatolá Khomeini, e ele foi morto em um ataque em Teerã. No dia seguinte, o Estado iraniano anuncia sua morte.
Menos de uma semana depois, nós tivemos o Irã declarando o fechamento do Estreito de Ormuz. E aí é muito importante, porque essa visão de como funciona, ela não existe na dinâmica da mídia internacional. A mídia, ela parte do pressuposto que todo mundo que está acompanhando entende exatamente o que está acontecendo nos mínimos detalhes. Porque olha, o Estreito de Ormuz foi fechado, parece que criaram uma barreira ali e que não passa mais embarcação.
E da mesma forma, o Estreito de Ormuz foi fechado, então parece que é só chegar com embarcações americanas. Então você pegar uma embarcação como, como Ford dos Estados Unidos, levar até lá um porta-aviões e que você vai abrir o Estreito de Hormuz. As coisas não funcionam dessa forma, porque a partir do momento que começou a guerra, em que Estados Unidos e Israel atacaram o Irã, nós já tivemos uma redução do fluxo em 70%. Então, por quê?
Porque o risco começava a ficar cada vez mais alto. Quando eu falo que o risco fica alto, a gente tem que entender o seguinte: por que que ele cresce, tá? Porque quando você está nessa situação de fechamento, por exemplo, posterior do do Estreito de Ormuz, isso gera o que a Agência Internacional de Energia chama de maior— chamou agora recente de maior interrupção de suprimento na história do mercado global de petróleo. Então, como assim?
Olha só, imagina por que que você pode fechar o Estreito de Ormuz. Se você colocar uma mina no canal, se você tiver um drone que acerta, que acertar um petroleiro, se você tiver ameaça de míssil— lembrando, o Irã tem minas, o Irã tem drones, o Irã tem mísseis. Nenhum desses eventos fecha o estreito de forma definitiva. Só que se você for o dono de uma empresa de seguros para esses petroleiros, o que que isso, o que que isso vai gerar?
Os donos de companhias de seguros para esses petroleiros vão aumentar drasticamente o custo de seguros, e esses custos dos seguros vão começar a impedir a circulação dessas cargas, porque ninguém vai querer circular carga pagando tão caro no valor do seguro. Dessa forma, faz sentido com que eles consigam fechar efetivamente o Estreito de Ormuz sem precisar comprar ou criar ou desenvolver um porta-aviões do tamanho do Ford. É por isso que costumeiramente a gente tem analistas, de analistas militares internacionais e também alguns bons muitos analistas brasileiros dizendo, cara, a era dos porta-aviões acabou, porque você não precisa de um porta-avião para fechar, por exemplo, o Estreito de Ormuz.
O fechamento é mais econômico do que militar. O Irã pode fechar o Ormuz sem ganhar nenhuma guerra. O Irã não precisa ser mais forte que Estados Unidos para tornar o estreito inutilizável. Ele só precisa criar incertezas suficientes para que os seguros marítimos disparem. E aí, a partir do momento que o seguro marítimo disparou, as companhias de navegação vão recusar o trânsito no canal e tá resolvido. Então nós temos ali uma situação extremamente importante e que, como eu disse, afetou o planeta inteiro.
O preço do barril do petróleo tipo Brent subiu passando $100, ele chegou a picos de $160. No caso, no caso do Estreito de Ormuz e do Golfo Pérsico, a gente não pode esquecer que os países do Conselho de Cooperação do Golfo, ou até mesmo os países do Golfo Pérsico em Importam calorias. O que que significa importar calorias? Eles importam alimentos, eles são dependentes de insumos alimentares em relação à passagem pelo Estreito de Ormuz.
Fechar o Estreito de Ormuz não é só fechar a porta do petróleo que sai do Golfo Pérsico, é fechar também a porta dos alimentos que entram no Golfo Pérsico. E por isso que se cria um problema, dentre outros fatores para os próprios aliados americanos dentro do Golfo Pérsico, os aliados que estão organizados nesse Conselho de Cooperação do Golfo, aliados como Bahrein, como Emirados Árabes Unidos, como a própria Arábia Saudita, como Catar.
Então ali a gente tem, a gente teve bastante problema. Pensando no Brasil, voltando aqui para o Brasil, a gente tem uma situação muito séria em relação a essa questão, porque o Brasil consegue ser exportador líquido de petróleo bruto. Então tudo bem, também. A questão do refino é uma outra situação. Mas além de sermos exportadores, a gente tem que importar. E aí a gente importa de onde os fertilizantes utilizados pelo Brasil? A gente importa justamente do Golfo Pérsico. 85% do fertilizante importado pelo Brasil vem, vem através do Estreito de Ormuz.
E é por isso que isso atingiu em cheio o agronegócio, porque a gente é dependente quimicamente basicamente do agronegócio. O Brasil importa cerca de 80, 90% de toda a ureia que a gente utiliza, de países como Catar, Emirados Árabes Unidos, Emirados Árabes, e aí do próprio Irã também, né, que produzem muitos compostos nitrogenados. E ali, a partir do momento que você tem o fechamento do Estreito de Ormuz, isso gera muitos problemas para gente.
O modelo brasileiro é complicado porque o valor que o agronegócio em geral brasileiro paga por essas, por esses insumos químicos, já era um valor muito alto. Então o que que os produtores agrícolas brasileiros faziam? Eles não operavam com estoque, eles operavam com a compra direta, meio que numa espécie de just-in-time. E aí com isso, já que o Strait of Hormuz foi fechado, a gente gerou um problema logístico enorme em relação ao agronegócio brasileiro.
Isso indica que, olha, olha o tamanho do problema, o Brasil tem um problema geopolítico com esses choke points que é enorme. Se fecha o Estreito de Ormuz, a gente tem problema para o fertilizante entrar. Se fecha os estreitos como Estreito de Taiwan e Estreito de Málaca, a gente tem problema para soja sair. E aí o Estreito de Ormuz passa a ser, portanto, um estreito extremamente importante quando a gente pensa na economia internacional.
Então por isso que definitivamente nós temos um custo muito alto nessas intervenções israelenses e americanas no Irã. Fechar o Estreito de Ormuz se transformou em um problema internacional de proporções absurdamente grandes, que pode ser visto por alguns como uma tragédia diplomática causada por essa intervenção americana.
E o Estreito de Bab-el-Mandeb, onde é que fica esse?
Já no caso do Estreito de Bab-el-Mandeb, nós temos uma dinâmica que é parecida. O Estreito de Bab-el-Mandeb ele conecta o Golfo de Adem. Golfo de Adem fica, é só para você visualizar, ouvinte, nós temos o Chifre da África, né, a região da Somália. Então essa porção oriental do território africano ela fica orientada para o Oceano Índico. Já a porção, a porção setentrional do Chifre da Somália tá no golfo, que é uma reentrância de mar, né, chamado Golfo de Adem.
Ali é onde nós tínhamos também forte atuação daqueles famosos piratas somalis, né, daquele filme Capitão Phillips, enfim. Então nós temos transitando do Golfo de Adem para o Mar Vermelho justamente o estreito, que é o Estreito de Bab-el-Mandeb. É um estreito conectando o Mar Vermelho ao Oceano Índico e é extremamente importante porque é por ali que passa cerca de 10 a 12% do comércio marítimo internacional. É uma uma região que é muito instável economicamente e também politicamente, porque Bab-el-Mandeb fica na separação do Iêmen, na Península Arábica, com Djibouti e Eritreia, no Chifre da África.
Então ali você tem uma quantidade enorme, praticamente toda mercadoria que vai do Oceano Índico para o Canal de Suez, né, em direção à Europa, precisa passar por ali. Então se você parar para pensar, nossa, eu eu acho o Estreito de— o Estreito, a região do Canal de Suez extremamente importante. Então, se ela é importante desse jeito, o Bab-el-Mandeb também é, porque o Bab-el-Mandeb é um portão antes do Canal de Suez até chegar na Europa.
Tem que fazer sentido isso na nossa cabeça. Antes do Canal de Suez nós temos Bab-el-Mandeb, e ali, portanto, nós temos bilhões de barris de petróleo todos os anos. O comércio marítimo global passa por essa região, como eu disse, entre entre 10% e 12% desse comércio marítimo. E dessa forma, se o estreito fecha, a alternativa é o famoso Cabo da Boa Esperança, lá no sul do continente africano. Ou seja, a alternativa é de fato muito longa, porque adiciona de 10 a 14 dias de viagem.
Então, por viagem, nós temos mais de 1 milhão de dólares. Esse custo todo vai parar no preço de quem tá importando. E aí nós temos uma questão política interna muito grande no Iêmen, porque os hutis começaram a controlar os principais portos que dão acesso ao Estreito de Bab-el-Mandeb. E isso faz com que essa guerra iemenita, que é uma guerra muito complexa, é uma proxy war, né, uma guerra por procuração que atinge a região do Iêmen, muito apoiados hutis pelo Irã, e também apoiada a antiga base do governo pela Arábia Saudita.
Então estão assim destruindo o país que é o Iêmen, mas ainda mantém um controle sobre o estreito. E dessa forma, a partir do momento que os hutis e iemenitas controlam o estreito, eles passam a controlar inclusive a forma pela qual o Estado de Israel tem o seu petróleo, porque é justamente ali, é a partir dessa região que Israel tem o seu petróleo, porque o petróleo chega pelo Mar Vermelho, entra pelo golfo, que é o Golfo de Aqaba, em Israel se chama Golfo de Eilat, e chega pelo porto de Eilat, a cidade no extremo sul do Estado de Israel.
É muito maluco, porque os hutis têm capacidade de fechar Bab el-Mandeb em potencial, é um ativo que eles têm na mão, e eles vão ameaçar sempre essa questão. Portanto, o Bab el-Mandeb tem essa relevância, e para além disso nós temos também a relevância do lado africano, né, porque Israel reconheceu recentemente a independência da Somalilândia, que é um território que declarou independência da Somália em 91, mas nunca havia sido reconhecido.
E aí, longe de ser um motivo altruísta para Israel, né, você tem o porto de Berbera, que fica ao sul de Bab el-Mandeb, no Golfo de Adem. E em março de 2026, a Bloomberg reportou que Israel tava negociando uma base militar em Berbera. E aí de lá Israel monitora o Golfo de Adem e reduz também o tempo de resposta aos hutis. Então nós temos ali nesse contexto da entrada do Mar Vermelho um contexto extremamente preocupante para Israel e para o Oriente Médio.
Ele, o Estreito de Bab-el-Mandeb, segue aberto, mas os hutis ainda têm uma capacidade declarada e uma capacidade que quer uma capacidade em potencial de atingir em cheio a economia de países, por exemplo, como o Estado de Israel.
E o Estreito de Tirã?
E aí Tirã entra, né, como muito relevante pelo seguinte: aonde que, onde que fica o Estreito de Tirã? Tirã é um estreito que conecta o Mar Vermelho e ao Golfo de Aqaba, que pega a confluência entre Arábia Saudita, Jordânia, Israel e Egito. Só para todo mundo entender, imagina no mapa a seguinte questão: o Mar Vermelho, o famoso Mar Vermelho, ele tem duas orelhinhas. Uma ao norte é a orelhinha que fica, que é do Golfo de Suez, que vai em direção ao Canal de Suez.
A orelhinha do nordeste é a orelhinha que vai para o Golfo de Eilat ou Golfo de Aqaba. Eilat é uma cidade israelense e Aqaba é uma cidade jordaniana. Então, quando você está nessa região do Mar Vermelho, onde fica, por exemplo, a Península do Sinai— a Península do Sinai é a península que divide esses dois golfos do Mar Vermelho. Então, Mar Vermelho é tudo e o golfo é uma reentrância do Mar Vermelho. É por isso que quando você vai visitar uma região turística no Egito, que é Sharm el-Sheikh, na Península do Sinai, ou, por exemplo, Tabla, na Península do Sinai— Tabla, que faz fronteira com Eilat— eu já levei muitos grupos de turista para essa região.
O o que se fala é, ah, vamos nadar no Mar Vermelho. Então o que que é o Mar Vermelho? É ali, é o Golfo de Aqaba, então, ou Golfo de Eilat. Por que que é importante o Estreito de Tiran? Tiran é justamente o estreito que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Aqaba, e é uma ilha, é uma ilha de Tiran que fica nesse estreito. Nessa região nós temos o principal, disparadamente o principal, a principal via de acesso de Israel ao petróleo.
E nesse caso, quando a gente pensa no Estreito de Tirã, ele vai ser utilizado historicamente justamente pelo, pelo Estado egípcio para diversos contextos de crise, para diversos contextos internacionais de guerras regionais. Por exemplo, a guerra de 1967, que é aquela guerra que a gente já fez um episódio aqui no História FM. Por quê? Em 1950, na década de 1950, a Arábia Saudita ofereceu a administração da Ilha de Tirã e da Ilha de Sanafir para o Egito.
E o motivo era que a Arábia Saudita temia que Israel ocupasse essas ilhas durante esse período pós-independência de Israel. O Egito aceitou, e não só aceitou como começou a controlar e bloquear navegação israelense na região. O que que Israel fez em 1956? Aproveitou a crise de Suez que envolveu o Gamal Abdel Nasser, né, liderança do Egito, que nacionalizou o Canal de Suez. Evidentemente isso gerou uma crise internacional de proporções maiores, a Guerra de Suez de 56.
Nós tivemos a entrada das duas potências que eram Reino Unido e a França, e Israel entrou ao lado dessas potências ocidentais. Então, por quê? O que que Israel queria? Israel Israel queria manter o— primeiro invadiu a Península do Sinai e forçou a reabertura do estreito, porque ele queria manter, Israel queria manter a circulação sobre esse estreito aberta. E depois da ONU, depois da atuação da ONU, o corredor ficou realmente aberto.
Só que aí vem maio de 67, o Gamal Abdel Nasser expulsou as forças da ONU dessa área, que é a área, por exemplo, da Ilha de Tiran, e a ilha de Sanafir no estreito e ocupou esse estreito novamente, fechando o estreito. E é justamente a partir daí que foi considerado pelo premier israelense, o Eshkol, à época, e também pelo Johnson dos Estados Unidos, como um ato de guerra. Em 6 dias, Israel capturou a Península do Sinai toda, inclusive as ilhas.
E é justamente nessa área que eles colocaram, depois do final dessa guerra, uma, uma forma de coalizão internacional para tomar conta dessas regiões. Porque em 79, 78 e 79, principalmente 78, quando foram, começaram a ser propostos o Tratado de Camp David, até finalizar mesmo em 1979, nós tivemos não só o reconhecimento por parte do Egito do Estado de Israel e a desmilitarização do Sinai para servir de zona tampão, mas também a liberdade de navegação do Estreito de Tirã.
Ou seja, Israel conseguiu colocar uma força multitarefa de observadores nessa, nessas duas ilhas de Tirã e Sanafi, para fazer com que não exista mais a possibilidade de uma intervenção e o fechamento do Estreito de Tirã. Até que mais recentemente nós tivemos novidades em relação a essa região. Então, em relação a essa região, o Mohammed bin Salman deseja construir aquele projeto que todo que todo mundo já viu na internet, né, aquela cidade de neon, aquela mega cidade de mais de 500 bilhões de dólares no noroeste da Arábia Saudita, beirando o Mar Vermelho, e que chega até as Ilhas de Tirã e Sanafira, ou seja, chega até o Estreito de Tirã.
E eles também incluíram a construção de uma ponte física chamada Ponte de Moisés. E é interessante, né, a ponte para atravessar o Mar Vermelho chamar Ponte de Moisés. E aí essa ponte chegando da Península do Sinai, né, super interessante isso, ligando Sharm el-Sheikh, que é essa província turística que eu citei da Península do Sinai. E isso causou arrepios por parte de Israel, porque Israel exige que mesmo se for construída essa infraestrutura que o MBS vai construir na cidade de Neom, e até mesmo essa ponte, essa Ponte de Moisés, ele, Israel, quer garantias de que a sua infraestrutura infraestrutura de transporte de petróleo não sofra nenhum tipo de interferência.
E dessa forma, de fato, nós temos uma série de problemas relacionados ao Estreito de Tirã, tá? O Estreito de Tirã é sempre um alvo muito estratégico porque é um dos grandes calcanhares de Aquiles do Estado de Israel, justamente pela questão do petróleo e de outras mercadorias também. Este é o Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes e estratégicas do mundo. Até agora, neste mês de junho, 2 incidentes graves com navios petroleiros aconteceram por lá.
Aqui eu queria te perguntar sobre o Estreito de Bósforo. O que é que você pode falar dele?
Já o Estreito de Bósforo, e aí é interessante interessante a gente pensar, porque Bósforo, Bósforo é muito confundido com Dardanelos, né? Eles sempre são colocados na mesma, na mesma sequência. Mas é porque Bósforo, ele faz uma conexão entre o Mar Negro. Então é o início da saída do Mar Negro para o Mar Mediterrâneo. Então é interessante, por quê? Porque o Bósforo conecta o Mar Negro a um mar muito importante que é o Mar de Mármara.
Então, se você quiser uma diferenciação, ouvinte, do Estreito de Bósforo para o Estreito de Dardanelos, entre Bósforo e Dardanelos fica um mar que é o Mar de Mármara, que é uma câmara de transição. Então é uma conexão do Mar Negro para o Mar Mediterrâneo. O Mar Negro é um mar extremamente importante. Vale lembrar que é justamente no Mar Negro Mar Negro, que nós temos portos muito importantes da Ucrânia, como o porto de Odessa.
A Ucrânia é fundamental para o abastecimento de grãos para o planeta. A Ucrânia é um dos maiores produtores agrícolas da Europa, de longe, de longe, de longe. A Ucrânia e a Rússia passam pelo Mar Negro para exportar muitos produtos via Mar Mediterrâneo. É justamente no Mar Negro que nós temos a Península da Crimeia e o porto de de Sebastopol, que foram anexados pela Rússia no ano de 2014, uma região extremamente importante. É ali que se concentra também, no norte do Mar Negro, na fachada oriental da Península da Crimeia, o Mar de Azov, e que acabou dando origem ao batalhão e ao pelotão de Azov, que nesse contexto da guerra entre Rússia e Ucrânia ficou muito famoso.
E nós temos, portanto, uma transição importante, um choke point muito importante na separação entre Europa e Ásia. Porque se a gente pensar no Estreito de Bósforo, Bósforo corta a Europa e Ásia, e são mais de 40 mil embarcações comerciais todos os anos. Quando você for a Istambul, você vai passar, você vai passar pela região evidentemente da Santa Sofia, e você vai ver muitas embarcações atravessando em todos os momentos. Então, 40%, por exemplo, da produção bruta de petróleo da Rússia passa por ali antes de chegar na Europa.
Grãos, grãos da Ucrânia, como eu citei, fertilizantes da Rússia, o petróleo do Mar Cáspio. Isso tudo transita por essa, por esse gargalo que é o Mar Cáspio. E aí que é o petróleo do Mar Cáspio que chega até o Mar Negro e que, portanto, chega ao Mar Mediterrâneo, evidentemente, nessa transição. Vale destacar isso também, que eu acabei por um ato falho citando o Mar Cáspio, mas foi até um ato falho importante, porque o Mar Cáspio é o mar que circula entre Rússia, Azerbaijão, território iraniano, enfim, os países da Ásia Central, mas com destaque para o Azerbaijão, que exporta muito petróleo via Mar Negro, via oleodutos e gasodutos.
Chega no Mar Negro, o Mar Negro passa pelo Estreito de Bósforo, e portanto o Estreito de Bósforo passa a ser importante não só para a Rússia e para a Ucrânia, que estão fazendo fronteira direta com o Mar Negro, como também para outros países que são grandes exportadores de petróleo, como eu citei o exemplo aqui, que é o exemplo do Azerbaijão. Durante muito tempo, esses, esses dois estreitos foram, foram objetos de guerra. E aí a gente tem que dar um destaque para época do Império Turco Otomano.
Evidentemente, né, durante a Primeira Guerra Mundial foi assinado um tratado, que é o Tratado de Lausanne de 1923, tirando a Turquia do controle. A Turquia só recuperou o controle desse, desses dois estreitos a partir de 1903 com a Convenção de Montrô. E a gente tem uma questão muito importante, portanto, da geopolítica e principalmente da geografia. Esse marco entre o que é Europa e o que é Ásia também se dá a partir dos dois estreitos.
E aí a gente pode citar o caso da guerra entre Rússia e Ucrânia, porque a partir do momento que a Turquia— e aí vem com os tratados históricos, tá— a partir do momento que a Turquia classifica o conflito entre Rússia e Ucrânia como guerra, ela invoca o artigo 19 e fecha os estreitos para navios de guerra russos e ucranianos.
Por quê?
Porque ela pode fechar em caso de guerra e não de operação especial, como por exemplo é a narrativa da Rússia em relação à Ucrânia. E aí, quando você fecha para os dois lados, é um cálculo muito simples. A Turquia não quer aparecer como aliado da Ucrânia, Ucrânia, nem como aliado da Rússia, mas sim como, como um possível mediador nesse contexto. Por quê? Porque o Erdogan deseja de fato se manter, se colocar, se projetar como uma grande liderança nesse contexto.
Então a Turquia também fecha o Estreito de Bósforo sempre que existe algum, algum tipo de ameaça de guerra. Mas curioso que abre o Estreito de Bósforo falando do assunto, são aquelas frotas fantasmas da Rússia. Eu citei essa frota fantasma quando eu tava colocando aquela correlação entre o Oceano Ártico e Oceano Atlântico Norte, mas ali a Rússia também passa com essa frota fantasma. E diversas vezes o Erdogan acabou fechando os olhos para essa, para essa questão.
O Erdogan inclusive que vira e mexe liga para o Putin alertando sobre essa escalada de guerra e que de fato a Rússia, a Turquia não quer se envolver em relação a essa questão. E é por isso nós temos o Estreito de Bósforo como sendo extremamente importante, nada mais importante que o Estreito de Bósforo em relação a essa questão, porque principalmente faz a confluência e a separação entre a geografia asiática e a geografia europeia.
O Estreito de Dardanelos é o estreito oposto ao Estreito de Bósforo. Então você tem o Estreito de Dardanelos bem mais estreito. Então Bósforo tem cerca aí de 700 metros de largura, já Dardanelos tem bem menos. Então eles ficam entre, no caso de Dardanelos, entre o Mar de Mármara, que é esse mar intermediário, e o Mar Mediterrâneo. Então ali nós temos uma transição evidentemente muito importante também, bem como o Estreito de Bósforo, uma transição entre Europa e Ásia.
Mas no caso do do Estreito de Dardanelos, nós temos ali uma questão interessante, que é o estreito que banha efetivamente a cidade de Istambul. Porque quando você pensa no Estreito de Dardanelos e Bósforo, ele é muito grande. Então é uma região de fato extremamente grande. Já no caso da— se você pegar, por exemplo, chegar em Istambul, tem uma região de Istambul que é um farol, que eu tô tentando lembrar o nome dela aqui, que eu ainda vou eu ainda vou lembrar o nome desse farol de Istambul, que é o Farol de Gálgata ou Gálaga, que eu esqueci o nome agora, mas que é um farol bem alto e que você consegue observar à distância.
E aí isso é tão grande, mas tão grande, que você não consegue observar o Mar de Mármara. Então eu estou falando que de Istambul você não consegue enxergar o final do Estreito de Dardanelos, que dirá o Estreito de Bósforo. Então assim, esse estreito, esse esse farol aí, que é o farol de Gálata, Torre de Gálata, que eu comentei com vocês. Foi bem interessante, foi bem simbólico quando eu visitei, quando eu visitei Istambul, justamente por causa disso.
Mas voltando aqui, no caso do Estreito de Dardanelos, a gente tem o estreito que banha Istambul na Turquia e tem uma relação muito importante com a proteção da cidade como um todo, a proteção de Istambul, e também uma questão que é histórica da região, região em relação a essa questão da transição de Ásia e o acesso a partir dos portos ao Mar Mediterrâneo. Esse acesso ao Mar Mediterrâneo é extremamente importante porque é um dos pilares fundamentais para a economia do país.
Mas em suma, uma, essa região foi mais importante para o Império Turco Otomano, para essa dominação do Mediterrâneo Oriental, do que o Estreito de Bósforo. Ele tem uma, uma importância muito grande nas guerras históricas do Império Turco Otomano, justamente por ser o estreito que banha a principal cidade. Então, se não fosse o estreito que banhasse a principal cidade, a gente poderia considerar como um estreito só, Bósforo e Dardanelos.
Mas por ter essa separação histórica e essa função vital para o Império Turco Otomano, se acabou separando esses dois estreitos. Mas como eu disse, só para fazer um resumo dessa ópera, nós temos a separação entre Mar Mediterrâneo e Mar Negro. Entre o Mar Mediterrâneo e o Mar Negro fica o Mar de Mármara. Entre o Mar de Mármara e o Mar Negro fica o Estreito de Bósforo. Entre o Mar de Mármara e o Mar Mediterrâneo fica o Estreito de Dardanelos.
É a forma mais simples do nosso ouvinte entender a diferença, a divisão entre o Estreito de Bósforo e Estreito de Dardanelos.
O próximo da lista é o último que a gente vai discutir, é um que eu acho interessante, que é o de Gibraltar. Você pode falar dele?
Então, o Estreito de Gibraltar é um estreito importante também. E aí, evidentemente, nós temos uma outra, outras correlações históricas bem legais a falar. Mas é o estreito que faz a separação entre a Europa e o continente africano. E aí são 14 km apenas separando a Europa e a África, né, no seu ponto mais estreito. Lembrando que os estreitos, a gente esse caso, estreito em 14 km. O estreito é diferente de canal. Um canal, ele é construído artificialmente, portanto a tendência é que nós tenhamos a mesma dimensão, a mesma largura ao longo de todo o estreito, então de todo o canal, perdão.
Agora, já no canal, já no estreito, o estreito é diferente. O estreito tem pontos mais largos e pontos mais estreitos. Nesse caso, o ponto mais estreito do Estreito de Gibraltar tem 14 km, tá? É por isso que é muito comum você ver imagens em que você consegue posicionar e você consegue observar 14 km de distância em dias mais claros um continente do outro, tá? E aí, pensando em circulação, nós temos muita circulação de carga nessa área, porque o que passa pelo Canal de Suez chega ao Mar Mediterrâneo e eventualmente vai atracar lá no porto de da Espanha tem que passar pelo Estreito de Gibraltar.
É mais uma das portas extremamente importantes para a gente poder entender a dinâmica econômica desses estreitos lá para o território europeu como um todo. E aí, vamos lá, são 300 navios por dia. É um estreito que você tem uma economia de que passa petróleo, contêineres de mercadorias, contêineres de comodities, vegetais, armamentos. E nós temos esse fluxo há séculos, talvez. E aí, Cris, isso é muito interessante porque eu não tinha parado para refletir sobre isso.
A gente falou sobre vários estreitos que obviamente, né, a maior parte deles já tem civilizações ali históricas, mas a maior parte deles não tem um fluxo tão grande assim como o Estreito de Gibraltar teve ao longo dos últimos séculos. O Estreito de Gibraltar, ele tem um fluxo que ganha uma história de 300, de 400, e por que não dizer de 500 anos ou até mais. Então ali perpassa todo o fluxo, quando antes ainda de o Atlântico ser o eixo comercial do planeta Terra, porque necessariamente se você fosse passar, transferir embarcações e produtos de um eixo comercial de Veneza passando para a Holanda, você poderia passar pelo, deveria passar pelo Estreito de Gibraltar.
Então o Estreito de Gibraltar é de fato um estreito muito importante no sentido histórico. Ele separa a Península Ibérica, né, do norte do Marrocos. Então ali nós temos uma divisão que, apesar de separar, isso é muito curioso, a Península Ibérica do norte do Marrocos, nós temos a presença do Reino Unido, porque o Reino Unido controla Gibraltar, que é um território britânico, né, encravado ali na ponta sul da Espanha. Tem ainda a dominação da Espanha e o Marrocos no lado africano, e uma série de problemas em relação aos mares territoriais, já que em geral o mar territorial de um país são 12 milhas náuticas.
Então ali evidentemente os acordos têm que ser muito bem estabelecidos e nós temos bastante embrólios em função dessa questão. Um ponto muito importante é que nós temos, para além dessa questão, uma situação muito delicada em relação ao Marrocos, né? Porque Marrocos está no lado africano, mas nós temos também também no lado africano algumas regiões que são de dominação europeia. Então há destaque para a Ceuta. E a questão de Gibraltar também foi importante no contexto do Brexit.
Vale lembrar que Gibraltar foi cedida ao Reino Unido em 1713, né, pelo famoso Tratado de Utrecht. A Espanha acabou tendo que ceder. O Brexit aconteceu em 2016 e a população de Gibraltar votou em 96% para ficar na da União Europeia. Eles foram retirados da União Europeia juntamente com todo o restante do Reino Unido. E no final de 2025, em dezembro de 2025, um acordo cria uma fronteira fluida e prevê inclusive a demolição do Muro de Gibraltar, que é uma barreira que foi erguida em 1909.
Então a gente ainda vai ter bastante desdobramento dessa questão, que é muito importante, ao longo dos próximos meses e anos, que eu vou com certeza voltar a trabalhar isso, porque de fato é é algo, é algo bem pertinente, algo bem importante. Existe também uma questão de quem controla e quem define essas regras, né? Porque afinal de contas o Estreito de Gibraltar é tão estreito e é controlado por 3 países, e isso pode eventualmente gerar uma série de problemas, apesar desses problemas serem muito menores, porque o peso geopolítico do Marrocos em relação ao comércio internacional tende a ser muito menor do que o peso de Reino Unido e Espanha nesse sentido.
Nós temos uma outra situação importante também, já que Reino Unido e Espanha, apesar de não estarem mais embaixo do mesmo guarda-chuvas da União Europeia, são países que têm uma relação histórica dentro do contexto regional europeu, não do mesmo bloco, mas dentro do contexto regional, regional europeu. E isso faz com que eles tenham uma certa proximidade, que possivelmente vai ser difícil que exista uma interrupção muito abrupta do Estreito de Gibraltar, bem como existe o risco dessa interrupção da circulação em outros estreitos.
E dessa forma, acredito que de todos esses chokepoints nós tenhamos um chokepoint com uma menor probabilidade, aproveitar que o Brasil entrou nessa febre, nessa insanidade das bets. Então o Brasil tem de fato uma, uma, o Brasil, o Estreito de Gibraltar tem de fato uma menor, uma baixíssima probabilidade de ter algum tipo de problema maior em um futuro próximo, a despeito de todos os problemas que já teve historicamente. Mas acredito que deva ser uns, devam ser problemas menores.
Se você olhar para o mapa do Sudeste Asiático, vai encontrar uma passagem estreita entre a Malásia e e a Indonésia. Esse lugar se chama Estreito de Malaca. Pode parecer apenas mais um pedaço de mar, mas cerca de um quarto de todo o comércio marítimo do mundo passa por esse corredor de água.
E, Vitor, como é que você abordaria esse tema em sala de aula?
Bom, em sala de aula eu, eu fui professor presencial em sala de aula por 17 anos, né? Então, em sala de aula, o que que eu acredito? É muito difícil ter espaço na carga horária, a primeira questão, espaço na carga horária para abordar, por exemplo, algumas aulas só sobre isso que a gente tá fazendo, sobre construção de embasamento para geopolítica, porque a rotina hoje, infelizmente, do ensino básico brasileiro, né, incluindo fundamental, médio, pré-vestibular, que é um campo eu já atuei muito forte.
E eu vou te falar que até nível superior não se tem carga horária disponível, nem no nível superior, para abordar isso com substância. É muito triste isso, porque a depender do— isso é um outro papo, Icris, também para a gente conversar depois em off. Mas eu tenho muitas críticas ao ensino superior brasileiro nesse caso, porque algumas universidades são muito focadas em geografia física, outras são focadas em geografia humana economia, outras focadas um pouco em geopolítica.
E aí você tem, você tem ainda um peso e contrapeso muito mal feito nos diversos currículos dessas diversas universidades que a gente tem no Brasil. Então assim, o que que é importante que se trabalhe e o que que eu sempre busquei trabalhar? Porque afinal de contas eu acabei transformando a sua pergunta num desabafo pessoal. Mas como trabalhar isso em sala de aula? Eu acredito principal forma aí, Cris, é espacializando esses choke points.
O que que significa espacializar isso? Professor de geografia que não espacializa fenômenos, sejam eles naturais, sejam eles históricos, sejam eles políticos, acaba caindo num risco que é muito grande, porque dentro da geopolítica a gente não vai dar aula de história como professor de história dá. Dentro das relações internacionais a gente não vai vai entender de questões políticas como internacionalista vai, mas a gente contribui e muito na espacialização desses fenômenos.
E é por isso que a forma, a principal forma de ensinar sobre os estreitos e sobre os choke points, sem sombra de dúvidas, é a partir da espacialização desses fenômenos. Porque aí sim, quando a gente tiver falando sobre as diversas, os diversos conflitos no Oriente Médio, se não tiver um mapa na sua apresentação, ou no seu quadro, ou na sua lousa, ou no caderno do aluno que seja, a sua aula está falha, a sua aula está incompleta.
Então é nesse sentido, eu acho que a principal resposta que eu posso te dar é essa, é a espacialização de fenômenos. Não tem, não existe forma melhor de trabalhar a geografia do que espaçalizando esses fenômenos aí.
E para terminar, 3 livros sobre o tema, o que que você recomenda?
Bom, vamos lá, eu vou recomendar a leitura do Mackinder, principalmente de um artigo publicado no Jornal de Geografia, que é O Pivô Geográfico da História. É o original, né, evidentemente em inglês, mas é muito interessante porque são, é o artigo original que começa a desenhar de fato a questão geopolítica e o embasamento geopolítico prático para tudo isso que a gente falou hoje sobre a questão da Heartland. Além disso, o livro do Mackinder, que é uma estratégia americana no mundo político, então os Estados Unidos e o balanço de poder, em que o Mackinder apresenta esse complemento à questão geopolítica do, do, o Spikeman apresenta isso em relação ao Mackinder, como principalmente a questão da Rimland, e o livro do Mahan, do final do século 19, que é A Influência do Poder Marítimo, que é bem importante também, bem interessante.
E aí é óbvio, e aí é bem interessante você ter pedido essas referências, Icles. Eu sei que você sempre pede essas referências, isso é muito importante, porque muitos professores de geografia entram em contato comigo diariamente. É uma felicidade muito grande poder conversar com eles. Aqui eu não posso, por que que eu peguei essas 3 referências de 3 teóricos clássicos da geopolítica? Porque para cada um desses choke points nós temos referências bibliográficas interessantes.
Então, para cada um desses choke points vale a pena você, professor que está buscando esse conteúdo aqui agora, a buscar esses conteúdos, buscar essas referências bibliográficas, porque aí vai ser, vai começar a trabalhar na forma de estudo de caso. Isso para mim é bem interessante, bem importante para a gente, para a gente pegar no nosso episódio aqui.
Então é isso, gente. Vitor, tem alguma consideração final?
Não, não, só agradecer e dizer que, olha, a gente não, como eu disse no começo, a gente não abordou todos os chokepoints do mundo, muito menos todos os estreitos, né? Tem estreitos menores, de menor proporção, de menor dimensão histórico-geográfica, mas a gente fez um compilado muito legal. Eu não Nunca vi um compilado como esse na internet. Fico muito feliz de poder participar dessa, desse episódio aqui do História FM e dizer que estou sempre à disposição.
Queria dizer para os ouvintes também que eu diariamente praticamente produzo conteúdo lá no Geografia em Meia Hora e também no canal do Terra Negra. E estarei sempre à disposição quando você tiver uma nova ideia, Icles, é só bater na minha porta.
Então é isso, gente, muito obrigado por ter ouvido até o final. Não se esqueçam de dar uma olhada aqui na descrição, tem links dos meus cursos, entre outras coisas úteis. E claro, compartilhe o História FM com quem você acha que vai gostar desse podcast. Então é isso, muito obrigado e até a próxima!
Esse podcast foi editado por Samuel Gambini, samuelgambiniaudio.com.
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