239 Império Khmer: ascensão e queda de um império
Entre os séculos IX e XV, o Império Khmer consolidou-se como uma das mais importantes potências do Sudeste Asiático, controlando extensos territórios e desenvolvendo uma complexa estrutura política, econômica e religiosa. A partir de sua capital, Angkor, os governantes khmer coordenaram grandes obras de infraestrutura, incluindo reservatórios, canais e sistemas hidráulicos que sustentavam uma população numerosa e uma agricultura altamente produtiva. O império também se destacou pela construção de monumentos grandiosos, como Angkor Wat, que refletiam tanto o poder da monarquia quanto a influência das tradições religiosas hindus e budistas. Ao longo de sua história, o Império Khmer manteve relações diplomáticas, comerciais e militares com diversos povos da região, enfrentando transformações internas e pressões externas que contribuíram para seu declínio gradual a partir do século XIV. Convidamos Emiliano Unzer para analisar a formação e a expansão do Império Khmer, o funcionamento de suas instituições políticas e econômicas, o papel da religião na legitimação do poder e os debates sobre as causas de sua transformação e declínio, discutindo também o legado dessa civilização para a história do Sudeste Asiático.
Roteiro: Icles Rodrigues
Edição: Samuel Gambini
Instagram: @iclesrodrigues
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- Império Khmer: ascensão e quedaContexto do Sudeste Asiático antes do Império Khmer · Estados pré-Khmer: Funan e Chenla · Formação do Império Khmer · Declínio e abandono de Angkor · Legado do Império Khmer
- Urbanismo em CuritibaTamanho e organização de Angkor · Angkor Thom · Templo Bayon · Urbanização dispersa
- Jayavarman II e o DevarajaJayavarman II · Culto ao Devaraja (Rei-Deus) · Independência de Java · Aliança militar e sacerdotal
- Monte do Templo· ReligiaoConstrução por Suryavarman II · Representação do cosmos hinduísta · Orientação para o oeste · Relevos épicos hindus · Símbolo nacional do Camboja
- Colapso de impérios e regimesInstabilidade política e guerras civis · Pressão externa dos reinos Thai · Degradação ambiental e climática · Esvaziamento gradual de Angkor
- Novas tecnologias na arqueologia KhmerLiDAR (Light Detection and Ranging) · Descobertas sobre o tamanho e complexidade de Angkor · Continuidade histórica · Debate sobre o declínio
- Influência do Império Khmer no Camboja contemporâneoReapropriação do termo 'Khmer' · Papel de Norodom Sihanouk · O Khmer Vermelho (Pol Pot) · Angkor Wat como símbolo nacional · Trauma recente (bombardeios, genocídio)
- Descompasso entre infraestrutura e produção agrícolaTeoria hidráulica · Barai (reservatórios) · Gestão hídrica descentralizada · Água como poder político
- Conflitos com o Reino de ChampaOrigem e características de Champa · Invasão de Angkor em 1177 · Reação de Jayavarman VII · Expansão territorial Khmer
- Golpe de trabalho CambojaDesconstrução do eurocentrismo · Uso de imagens e recursos visuais · Interdisciplinaridade (climatologia, arqueologia, religião) · Conexão com o Camboja contemporâneo e o genocídio
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Império Khmer, ou Império Khmer, ou Império de Angkor. Você vai encontrar desses três jeitos se você procurar sobre isso na internet. Esse é o tema de hoje do História FM. Eu sou Iclis Rodrigues e para falar sobre esse assunto eu convidei mais uma vez aqui conosco o professor Emiliano Hunzer, a quem eu passo a palavra para se apresentar para vocês. Então, Emiliano, seja muito bem-vindo novamente, fique à vontade para se apresentar para o pessoal.
Obrigado, obrigado pelo convite mais uma vez. É um prazer estar aqui com o pessoal do História FM. Chamo Emiliano Hunzer para aqueles que não me conhecem. Sou pesquisador e professor de história da Ásia, pesquiso e trabalho com a área já há mais de 10 anos. E isso também inclui regiões que são muito pouco estudadas e abordadas na história, que eu diria história mundial, né? Porque isso faz parte da história da humanidade. Então vai ser um tema bastante interessante pra gente ouvir hoje.
Então é isso, vamos conhecer um pouco mais sobre esse império que a gente raramente ouve falar sobre aqui no Brasil, depois que eu der um recado pra vocês. Se você gosta do História FM e quer ouvir esse programa sem os anúncios automáticos do Spotify, com antecedência e podendo baixar o arquivo para ouvir em qualquer lugar e qualquer aplicativo e qualquer software, você tem acesso a tudo isso por R$5 por mês em apoia.se/obriga-historia.
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Muito obrigado, pessoal! É graças a vocês que esse programa existe. E um último recadinho: se você ainda não me segue lá no Instagram, @iklesrodrigues, o link tá aqui embaixo na descrição, eu vou te sugerir você me seguir, nem que seja por um tempo. Se depois você tiver achando que o meu perfil a pena seguir, pode deixar de seguir se não quiser. Mas nessas próximas semanas eu vou fazer leilões dos meus livros, da minha biblioteca, né?
Eu vou, eu tô me desfazendo de alguns livros, tentando diminuir a quantidade de acúmulo, porque como eu desisti da carreira acadêmica, a minha lógica de vou ter muitos livros de muita coisa porque pode ser útil quando for dar aula, ela não se aplica mais. Então eu vou começar a diminuir minha coleção. Já tô leiloando, já leiloei alguns, já Quando você começar a me seguir depois de ouvir esse episódio, alguns livros já foram, mas mais livros vêm pela frente.
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Em meio à vastidão das florestas do Sudeste Asiático, remanescem milhares de ruínas do que foi uma das civilizações mais intrigantes da história.
O Império Khmer. Pra começar essa conversa, eu queria pedir pra você contextualizar o surgimento do Império Khmer. Eu prefiro chamar ele desse jeito, né? Eu sei que existe um aportuguesamento de Império Khmer, né? Eu prefiro Khmer, não sei. E enfim. Quando a gente fala de grandes impérios pré-modernos, normalmente o foco acaba ficando muito na Europa, né, no Oriente Médio, na China, e o Sudeste Asiático muitas vezes fica meio apagado no imaginário popular, pelo menos por aqui, né, onde a gente vive.
Então eu queria pedir para você explicar qual era a situação dessa região antes da formação desse império.
Essa pergunta é muito boa, porque na verdade o Sudeste Asiático parece que sofre uma espécie de invisibilidade historiográfica no imaginário ocidental, né, e até mesmo no Brasil, né, apesar de toda a diversidade que a que a região do Sudeste Asiático representa. Então quando a gente pensa, por exemplo, no período do mundo medieval, né, que a gente tende a olhar a Europa feudal, Califado Islâmico, a China das dinastias Tang e Song, né, mas o Sudeste Asiático ele costuma quase que surgir como um pano de fundo de rotas comerciais, né, como se fosse assim um corredor entre a Índia e a China e não um espaço de criação histórica própria, né.
Então, situar a região, né, eu acho que hoje você tem a região de Camboja, Tailândia, Vietnã Meridional e o Laos. E eram nos primeiros séculos da Era Comum, um mosaico de estados, né, de potentados, né, estados, reinos menores, organizado em cima de elites sacerdotais guerreiras, com formas de organização políticas diversas, né, muitas vezes organizado no que é chamado de estados mandala, né, um conceito que o Walter vai desenvolver depois para a região.
Então essa ideia de estado mandala é um poder político que não se organiza propriamente numa entidade fixa territorial, né, com fronteiras bem demarcadas, mas é a partir de centros irradiadores Os senhores de prestígio, força militar e legitimidade religiosa, né? E claro, à medida que a distância vai aumentando, o centro vai diminuindo o poder e as periferias são zonas de competição, de transição para outros polos de influência.
Então nesse contexto, dois grandes reinos vai surgir, né, aquele do Império Quimer, né, que eu também falo, vou falar Quimer também. E o primeiro, de acordo com a historiografia que a gente tem ainda acesso, né, além da arqueologia, a primeira é Funan, que é uma que ocupa a região ali do delta do rio Mekong e surge aproximadamente entre os séculos I e VI da nossa era. E foi um estado fortemente indianizado do Sudeste Asiático, né?
Ou seja, um estado que absorveu elementos da cultura indiana, né? A escrita sânscrita, religiões, as crenças budistas e hinduístas, concepção de uma realeza divina, a arte e arquitetura da cultura indiana. E o segundo reino é a Chiang La, que vai suceder, em grande medida também vai absorver Phun Nhat a partir do século VI. Mas ela Essa daí nunca chegou a se constituir uma unidade política-estado, né? Na verdade, ela foi gradativamente se fragmentando.
Entre o que depois que a grande parte de nossa fonte escrita é chinesa, elas chamam uma parte de Qianlá da terra e Qianlá da água. É nesse contexto de fragmentação pós-Qianlá, no final do século 7º, 8º, que emerge uma figura, né? Que é Jaya Varman II. E com ele os primeiros contornos que vai ser o que a gente denomina o Império Khmer.
E uma coisa muito importante nesse processo é a figura do Jaya Varman II, Jai Varman II, não sei se a pronúncia está correta, mas enfim, ele normalmente aparece como fundador do império, né, pelo menos no pouco que eu vi a respeito. Queria pedir para você explicar como é que esse império se estabelece, quem foi esse governante, como é que ele consolidou o poder, o que significa essa ideia de Devaraja, ou Devaraja, não sei qual é a pronúncia também, né, a ideia de rei divino, pensando qual é a função disso dentro da organização política e religiosa do império. Enfim, como é que ele começa?
O Jai Varman, eu também pronuncio assim, né, Também vou me adentrar na pronúncia correta. O nosso fim é mais didático, para as pessoas ouvirem. E é importante só notar: todos os soberanos Kimea, eles teriam um Kuvaraman. E Kuvaraman é provedor. Então todos vão ter, por exemplo, esse é o provedor Jaya. Talvez Jaya remeta à questão de Java, na Indonésia. Mas Jaya Varmã é uma figura que é praticamente central do que a gente ainda consegue ter desse período de fundação.
Ele reina entre 802 e 834. Talvez 802 É um período que a gente tem registro em que ele é consagrado numa cerimônia no Monte Mahendra Parvat, que hoje é a cadeia de Phuong Klen, no nordeste de Angkor. Jayavarman é proclamado então soberano como Império Khmer, que talvez tenha alguma relação simbólica ou subordinada com Java. Isso é importante porque ele está afirmando que o reino khmer não deve mais tributo a nenhum outro poder externo, seja Java, seja qualquer outro.
E o instrumento político-religioso dessa proclamação é exatamente o culto de Varadhi, conceito do rei-Deus. E é um conceito importante porque, para a gente entender o que é o impero Quimé, isso precisa ser contextualizado, né? Porque não se trata só de dizer que o rei era considerado um deus, era mais sofisticado que isso, né? O devaraja é um culto que vem das origens hinduístas ligadas ao shivaísmo, né, o culto a Shiva, que foi adotado e ressignificado no contexto político Quimé.
O que a palavra aí importante é adaptado e ressignificado, né? Porque isso é uma coisa que é importante a gente considerar. E essa ideia do devaraja é que o rei é uma manifestação terrestre divindade, e que a sua soberania não é apenas política, mas ela é cósmica. Então o rei não governa apenas um território, ele é o eixo que organiza a ordem do universo naquele espaço. Então a capital do reino é ao mesmo tempo o centro do mundo, que na cosmologia hinduísta se chama, que se considera o axis mundi, e que cada grande templo construído por um rei é a representação do mítico Monte Meru, que é a montanha sagrada na cosmologia hinduísta e budista, que está no centro do cosmos.
Então essa fusão política, legitimante e religiosa é o que confere ao rei que mesmo autoridade legitimidade quase que incontestável. Qualquer desafio é também um desafio à ordem cósmica, né? E cada rei que vai suceder o outro, ele precisa reafirmar essa conexão divina através de construção de templos, de cerimônias, de grandes afirmações de grandeza. Então, Jayavarman, que é a nossa figura aqui, ele consegue consolidar seu poder através de uma combinação de conquistas militares, né?
Ele vai percorrer décadas reunificando território fragmentado dos antigos potentados, né? E dessa legitimidade religiosa vai sendo construído conselho de um brahman, que é chamado Hari Anandama, que é descrito nas inscrições como responsável por introduzir o ritual de Varadhi. Então, uma aliança clássica entre poder militar, poder sacerdotal, que vai definir a estrutura da autoridade do Império Khmer por mais de 4 séculos.
Quando a gente olha para as imagens do Império Khmer, talvez a coisa que mais impressiona seja Angkor, né, e toda essa monumentalidade arquitetônica da região. E é o que normalmente a gente acaba vendo às vezes no documentário, umas coisas tipo Global eu sou repórter em programa de viagem, coisa do tipo, você vê Angkor lá e tudo. Então eu queria pedir para você explicar para a gente a importância de Angkor, o tamanho dessa cidade, como ela era organizada e por que que ela acabou se tornando uma das maiores cidades pré-industriais do mundo, né? O tipo de coisa que a gente às vezes nem fica sabendo.
Sem sombra de dúvida, Angkor é uma das maiores realizações humanas da história da humanidade. Eu acredito que na verdade ela até muito ainda subestimada, apesar de ter que essa abordagem mais espetacular e bastante ainda pouco, bem rasa, né, do que é o Angkor, as ruínas que né, naquela região, ainda tem que ganhar uma profundidade maior no público, né, nos estudiosos e públicos aqui no Brasil. E olha, eu acho que é extraordinário porque eu não é somente estou sendo retórico, né, na verdade os dados arqueológicos mostram que Angkor no seu apogeu entre os séculos 11 e 13 era quase com certeza a maior aglomeração urbana pré-industrial do mundo, com uma área estimada em 1.000 a 3.000 quilômetros quadrados.
Você ouviu certo, 1.000 a 3.000 quilômetros quadrados, dependendo de onde você traça os limites, claro, né? Mas então, para vocês terem uma comparação, Londres medieval mal chegava a alguns quilômetros quadrados, e Roma no seu apogeu imperial, dentro das muralhas, ocupava talvez 13 quilômetros quadrados. Então, Angkor era uma outra ordem de grandeza, né? Mas o que a gente precisa entender é que Angkor não é uma cidade só, ele é um complexo de localidades, cidades, que se sobrepõem ao longo dos séculos, né?
E cada um, cada rei tinha uma, assumia o trono e tinha, tendia a estabelecer na sua própria capital, um templo, montanha, nessa ordem, né, espacial angkoriana. Então, o que a gente chama de Angkor, na verdade, é uma sobreposição de capitais, de centros cerimoniais construídos, né, e às vezes abandonados ao longo de mais de 500 anos. E a cidade que a gente melhor conhece arqueologicamente é Angkor Thom, que é a grande Angkor, né, que é construída pelo rei Jayavarman VII no final do século 12.
Ela é uma cidade planejada, né, como geometria bastante rigorosa, né? Os muros, aproximadamente 12 km de perímetro, um fosso ao redor, 4 grandes avenidas que se encontram no centro, onde fica o Templo Bayon com suas famosas torres de faces, né, que todos já devemos ter visto algum momento. E no interior dessa Mália existia toda uma infraestrutura urbana, né? Tem os palácios, tem uns templos menores, mercados e habitações. Mas essas últimas, claro, é, todos construídos em madeira, elas vão sobreviver.
E uma coisa que as pesquisas mais recentes revelam, que deixa mais claro, é A cidade de Angkor não era densa no sentido que a gente imagina cidades medievais europeias ou cidades islâmicas, né? Ela é uma urbanização dispersa, com grandes áreas agrícolas intercaladas com zonas residenciais, templos e infraestrutura hidráulica. Então isso faz sentido dentro de uma lógica econômica baseada no arroz irrigado. A população precisava estar próxima das terras cultiváveis e dos sistemas de irrigação.
E é interessante, porque aí a gente constata que a cidade e o campo não são espaços separados, eles eram parte de um mesmo organismo.
Uma coisa muito interessante no caso do Império Khmer e tal é essa estrutura hidráulica construída por eles, com reservatórios, canais, sistema de irrigação extremamente complexos e tal. Eu queria pedir para você explicar como é que funcionava esse sistema hidráulico e a importância dele para agricultura, para manutenção do poder político do império, porque a gente pressupõe que, né, se você tem ali um centro do império que tem toda essa tecnologia desenvolvida e que ela é fundamental para produção de alimento, isso implica em prestígio do poder.
Central, implica em concentração de poder, enfim, o que você puder falar a respeito.
É, olha, o sistema hidráulico certamente é um dos aspectos mais debatidos, fascinantes dessa civilização, né? Mas é interessante ver como é que isso tá começando a ganhar mais debates, né? Porque durante muito tempo essa hipótese de que dominou historiografia por décadas foi a chamada teoria hidráulica, né, que é associada a um arqueólogo, o Bernard Philippe Rolier, na segunda metade do século 20. E essa tese, ele falava basicamente o seguinte: O poder do Império Khmer estava fundamentalmente baseado na capacidade de controlar e distribuir água.
E esses grandes reservatórios chamados barai em Khmer seriam pilares de uma agricultura irrigada de alta produtividade, capaz de suportar populações enormes e geram o excedente necessário para financiar as construções de grandes templos e manutenção do aparato estatal em geral. Então o colapso do sistema hidráulico explicaria, por extensão, o colapso do Império. Essa tese é bastante sedutora e elegante, mas ela vai sendo progressivamente bastante refinado e questionado pelas pesquisas arqueológicas mais recentes, né?
O principal problema é que as análises de sedimentos encontrados nas grandes baraias, barai oriental, barai ocidental, eles mostram que esses reservatórios não eram necessariamente utilizados de maneira sistemática para irrigação agrícola em grande escala. Alguns deles parecem ter tido funções mais situais e simbólicas do que propriamente agrícola, né? E a relação entre esses grandes reservatórios e irrigação dos campos de arroz ao redor de Angkor é mais complexa e indireta do que a gente que a gente imaginava.
Então isso não significa que a água fosse central para o império, ela é muito pelo contrário. A gestão hídrica era fundamental, mas o sistema era mais descentralizado que a gente imagina. Então havia uma rede densa de canais menores, de tanques, represas geridos pelas comunidades locais. Isso tudo articulado com os grandes reservatórios construídos pelos reis. Então era uma infraestrutura de múltiplas escalas, né? E do ponto de vista político, a capacidade de construir, manter essa infraestrutura também era uma demonstração de poder.
Então um rei que conseguia mobilizar dezenas de milhares de trabalhadores para escavar um barrage de vários quilômetros de extensão, ele estava demonstrando de maneira concreta que tinham controle sobre o trabalho humano e sobre os recursos do reino. Então a água nesse sentido era poder político tanto quanto recurso agrícola. Então na verdade a gente entende que hoje sim existe a importância da água, mas ela também tem a função simbólica e também tem a sua função agrícola mais descentralizada do que a gente imaginava na teoria do Gaullier.
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Eu imagino que isso influenciasse a política, a arte, arquitetura. Então queria pedir para você explicar como é que essas religiões chegaram até a região, como é que elas moldaram a cultura Mera ao longo dos séculos. Por exemplo, mais ou menos em que época o Império começa? Nessa época ele já tem uma religião oficial? E quando é que outras influências aparecem? Enfim, qual é a cronologia disso também, né?
Essa questão religiosa, ela é importante, que na verdade seria até uma questão cultural ideológica, que ela vai além da questão religiosa, né? E a gente tem que tomar muito cuidado porque não é simplesmente uma questão de sequência linear, né? Primeiro veio o hinduísmo, depois veio o budismo, mas é um complexo muito mais de existência, competição e síntese que tem de tradições culturais diferentes. Então a gente tem, por exemplo, isso fica claro, né, uma espécie de indianização do Sudeste Asiático, que a gente fique bem claro que é uma absorção elementos da cultura indiana por parte das elites políticas e culturais da região cambodiana, dentro do Império Khmer.
Isso já acontecia muito antes do auge do Império Khmer, talvez já nos primeiros séculos da nossa era, sobre Funan, sobre Tiên Môn. E é importante sublinhar que os historiadores debatem muito esse processo. Não foi uma conquista, imposição indiana. Não tem evidência de uma colonização indiana do Sudeste Asiático em qualquer sentido político-militar. Foi antes um processo de adoção seletiva, em que as elites esses locais encontram nas tradições culturais, políticas, religiosas indianas instrumentos úteis para se legitimar e organizar seu poder.
Então o hinduísmo, e aí especialmente o shivaísmo, o culto a Shiva, e depois em menor medida o vishnuísmo, o culto a Vishnu, ele fornece uma cosmologia, uma concepção de realeza divina, uma tradição de construção monumental e um repertório iconográfico bastante rico. Os primeiros grandes templos khmer, por exemplo, são templos hinduístas: o Preah Ko, o Bakong, Angkor Wat, por exemplo, que é o mais famoso, foi construído no século 12, é um templo dedicado a Vishnu.
Agora, o budismo, ele também tava presente na região desde cedo também, né, tanto na forma mahayana, né, que vem da região indiana, como também o Theravada, com uma conexão também via Sri Lanka e Índia. Então, durante muito tempo, então, você tem o hinduísmo e o budismo coexistindo, no espaço khmer. E muitos reis khmer patrocinavam ambas as tradições, né? Por exemplo, Jayavarman VII, que é o maior rei construtor do Império Khmer, ele começa a promover obras do budismo mahayana, que aí nesse caso se torna uma religião oficial do Estado.
O Jayavarman VII, por exemplo, ele não constrói apenas grandes complexos budistas como Angkor Thom, Bayon, Ta Prohm ou Preah Khan, como se apresentava ele mesmo como a figura central da incorporação da paixão budista. Então, Após a morte de Jayavarman VII, no início do século XIII, a gente tem um movimento gradativo de restauração hinduísta que tinha antes de Jayavarman VII. Então algumas imagens budistas foram destruídas ou modificadas.
E por fim, a partir do século XIII, XIV, o budismo Theravada, uma tradição que remete ao Sri Lanka e à costa birmanesa, começa a se difundir cada vez mais amplamente pela população e acaba se tornando então a tradição religiosa dominante no Camboja, como é até os dias de hoje.
Já que a gente falou de religião e arquitetura, Professor, eu queria entrar especificamente em Angkor Wat, que talvez seja o monumento mais famoso do Império. Eu queria pedir para você explicar quando e por que esse complexo foi construído, se ele tinha alguma função religiosa ou política específica, por que que ele se tornou um símbolo tão importante até hoje no Camboja, enfim.
Olha, o Angkor Wat, ele é o edifício mais famoso do Sudeste Asiático, né, talvez um dos mais, mais presentes no imaginário popular e um dos mais mal compreendidos no imaginário popular, né. Por isso que a importância essa nossa entrevista, né, porque ela representa uma espécie de símbolo que tá inclusive na bandeira do próprio Camboja, né. E ele, esse complexo foi erguido a mando do rei Suryavarman II, que vai reinar entre 1113 e 1150.
E Suryavarman, ele é um rei com uma vocação expansionista, né, ele empreende campanhas militares a leste contra o reino de Champa. Ele tenta invadir as regiões até um pouco ao norte de Champa, que é hoje o Vietnã do Norte, mas a sua obra é que quem mais vai imortalizar ele, né? O Angkor Wat, ele vai ser construído ao longo de décadas, né? Ele vai ser fruto de um trabalho imenso, né? Como uma realização artística e técnica de primeira grandeza.
Então, a planta do complexo, ela é uma representação do próprio cosmos hinduísta. Você tem um fosso que circunda, representando o oceano primordial. Você tem os muros concêntricos que representam as montanhas que cercam o mítico Monte Meru, que é a torre central, a mais alta, com 65 metros de altura. E esse Monte Meru é o eixo do universo. E a orientação do templo é de maneira bastante incomum, ela é virada para o oeste, e a maioria dos templos khmer são orientados para o leste.
Isso talvez tenha sido explicado da maneira de ter uma função funerária, já que o oeste é a direção da morte na cosmologia hindu, né, ou como uma orientação cosmológica específica relacionada ao culto a Vishnu. Então Angkor Wat é um templo dedicado tem uma função funerária, mas é um templo dedicado ao deus Vishnu. Então os relevos da galeria de Angkor Wat são aí sim extraordinários. Você tem quase 800 metros de relevos esculpidos que vão narrar episódios de épicos hindus, como do Ramayana, Mahabharata, e cenas de batalha que provavelmente vão representar as campanhas militares de Suryavarman II.
Tem uma cena famosa lá da Batalha de Lanka e outra que é o grande oceano de leite, entre outros. Então é uma obra monumental. Cambódio contemporâneo, Angkor Wat tem um significado muito além da questão desse contexto histórico da sua época. Ela tá na bandeira nacional cambodiana, né? E é o único edifício a figurar na bandeira de um Estado soberano no mundo, salvo engano. E é um símbolo de identidade nacional, de existência cultural, de continuidade histórica em meio a décadas e séculos de transformações.
Então Angkor Wat, ela é portanto essencial para também entender a história recente do Camboja.
Quando a gente fala de impérios pré-modernos, normalmente geralmente o foco fica muito nos reis, nas guerras, mas eu queria entrar um pouco também na discussão sobre vida cotidiana, né? Acredito que boa parte do que se sabe venha de estudos arqueológicos, mas não sei porque eu sou bem leigo nesse ponto, nesse recorte geográfico específico. Então eu queria pedir para você explicar como é que era a sociedade do Império Humer, como é que viviam os camponeses, artesãos, comerciantes, elites urbanas, como é que funcionava a economia. Existem fontes sobre isso?
Esse é talvez a parte mais desafiadora hoje, né? Depende fundamentalmente da arqueologia nesse sentido. Porque o que a gente tem como fonte escrita da vida cotidiana em Angkor vem de um diplomata chinês que visitou Angkor entre 1296 e 1297, que é o Zhou Daguan. E ele foi enviado como representante do imperador da dinastia Yuan, dinastia mongol na China, e ele escreve um texto chamado Qingla Fengtuti, que é "Costumes de Qingla".
Qingla era como os chineses ainda chamavam o reino khmer. E é um relato bastante rico sobre o cotidiano na capital. Ele descreve as roupas que as pessoas usavam, os mercados, o protocolo da corte, os sistemas de punição. E essa é a nossa principal janela para o dia a dia de Angkor. Então, isso tem que ser digerido com cuidado, porque é um olhar de um estrangeiro, de um funcionário imperial chinês que olha para a sociedade com uma certa estranheza, até superioridade.
A gente tem que tomar cuidado com isso também. Mas o que sabemos a partir desses relatos e outras, algumas inscrições em pedra, que são numerosas no Império Khmer, A arqueologia nos diz sobre uma estrutura social hierarquizada, com rei no topo, seguido de uma aristocracia vinculada à corte e aos grandes templos, e depois os sacerdotes brâmanes e o clero budista. Disso depois vai vir os artesãos, comerciantes, e na base a imensa maioria camponesa.
Isso tem relatos também que existiam escravos, que as descrições mencionam como khnum, que eram servos de templos que eram doados pelos reis para democracia. Esses servos dos templos, eles não eram escravos no sentido clássico, né? Eles eram, não eram propriedade privada transferível como mercadoria, mas estavam vinculados às instituições religiosas de maneira bastante rígida. E a economia era fundamentalmente em cima da agricultura do arroz irrigado, né?
Mas também havia uma produção artesanal importante, né, de cerâmica, de textos, de trabalho em metal, e o comércio educativo. O Zhou Daguan, por exemplo, observa com detalhes o mercado de Angkor, onde as trocas, de acordo Era feito principalmente por mulheres, o que ele considera surpreendente. E muitas vezes ele relata o uso de tecidos como moeda de troca. Parece que não havia moeda metálica circulando nos mercados locais. O ouro e a prata serviam para transações de grande valor, mas o cotidiano parece que funcionava na base do escambo.
Então a gente ainda tem muito ainda a avançar, a gente tem que esperar a arqueologia nos apresentar com mais detalhes o cotidiano de um habitante do Império Quimé.
Outra questão importante é que O Império Khmer, ele não existe isolado, né? Ele mantém relações diplomáticas, comerciais, militares com outros povos e estados ali do Sudeste Asiático. Então eu queria pedir para você explicar quais eram as principais relações do Império com os chineses, tailandeses e outros povos da região, e como essas relações alternavam entre comércio, alianças e guerras. E se você quiser mencionar, tipo, outros povos da região que também se entende que não existem mais ou que entraram em declínio, que talvez o pessoal não conheça hoje, se você quiser mencionar e eles tivessem alguma relação, né, com o Império A gente tem que entender que o Império Qin era uma potência regional significativa, né, e ela não existia no vácuo, né.
Ela tinha relações complexas e multidimensionais, né, que envolvem comércio, diplomacia, guerra e influência cultural. O que eu iria destacar primeiro é a relação com a China, né, como a gente até tava falando anteriormente aqui. O Império Qin parece que enviou missões diplomáticas regulares à China, né, isso de acordo com as fontes chinesas registram pelo menos uma dúzia dessas missões ao longo do século 9 ao século 14. Essas missões tinham caráter ritualístico dentro do sistema tributário chinês, tá?
O reino Kiméli não se apresenta, ele se apresenta formalmente como tributário do imperador chinês. Ele enviava presentes e recebia em troca reconhecimento, mercadorias e implicitamente uma proteção diplomática. Mas é importante dizer que isso não é uma vassalagem real. O Império Kiméli era suficientemente distante e poderoso para que essa relação fosse mais simbólica do substantivo. Comercialmente, havia uma rede marítima que conectava o Sudeste Asiático continental com a China, Índia e Oriente Médio.
Angkor, sendo um império mais interiorano e não era propriamente um porto, né, perto do litoral, mas controlava saídas, territórios com saídas ao mar, e se beneficiava das rotas comerciais que atravessam região. Então produtos como especiarias, madeiras preciosas, resinas, produtos florestais, cerâmicas, eles vão circular para essas redes. As relações com os reinos vizinhos do Sudeste Asiático eram muito mais imediatas e frequentemente conflituosas.
O reino de Pagan, na atual Birmânia, Myanmar, a oeste. Os reinos de Mon, da região atual da Tailândia, também a oeste. E sobretudo Champa, no atual Vietnã Central, eram ao mesmo tempo parceiros comerciais e por vezes rivais militares. E as fronteiras entre esses estados eram bastante contestadas, muitas vezes faziam-se alianças, se desfazia, refaziam conforme as conjeturas políticas. E é justamente essa é a lógica que sustenta o estado mandala, né, que eu mencionei antes.
Não há fronteiras fixas, mas você tem zonas de influência em constante renegociação.
Uma coisa marcante da história do Império Khmer são os conflitos constantes com o reino de Champar. Acho que é essa a pronúncia, não sei. Então eu queria pedir para você explicar como é que funcionava essa rivalidade, né, mais aprofundadamente. Quais os principais conflitos entre os dois estados, por que que eles tinham esses conflitos e o impacto que essas guerras tiveram para o desenvolvimento do império?
Olha, o Império Khmer e o Reino de Champa é um dos mais dramáticos que tem registrado na história do Sudeste Asiático, tá? Eu acho absolutamente extraordinário essas relações, elas estão marcadas na pedra, né? A gente consegue ver isso na história do Império Khmer. Champa, ele é um reino localizado na costa central do atual Vietnã, né? É um povo de origem austronésia, falante de línguas da família malayo-polinésia, fortemente influenciado pelo hinduísmo, mas também conexões com o mundo marítimo insular do Sudeste Asiático.
Os Chams eram excelentes marinheiros, comerciantes guerreiros, e mantinham uma presença histórica significativa no litoral vietnamita central por mais de milênios. Os conflitos entre os Khmer e os Chams do reino de Champa foram intermitentes ao longo dos séculos. Às vezes um atacava o outro, às vezes havia paz e aliança, mas o momento mais dramático dessa rivalidade entre esses dois reinos acontece em 1177, quando uma frota Cham navega pelo rio Mekong acima, chega no lago o Tonlé Sap, onde fornecia grande parte da água dos recursos hídricos de Angkor.
Ele chega então pela interioridade e ataca Angkor de surpresa. A capital vai ser tomada, vai ser saqueada, e o rei khmer da época, ele morre nesse conflito. E nisso aí já é um evento traumático extraordinário na história do Império Khmer. Uma das grandes cidades do mundo tinha sido capturada por um invasor de surpresa, pelas vias fluviais. E esse trauma na verdade gera uma grande resposta, né? E isso aí que vem a reação em cima de um príncipe da época, que era Jayavarman, que vai depois assumir como rei, Jayavarman VII.
Ele que organiza a resistência e reunifica as forças khmer e expulsa os cham, numa contra-ofensiva massiva. Então, entre 1190 e 1203, as forças khmer não apenas derrotam cham, contemporaneamente conquistam, incorporam o reino cham ao Império Khmer. Então é o momento de maior expansão territorial do Império Khmer. E Jayavarman VII, ele transforma essa vitória em programa político e de construção. É, os relevos de Bayon, eles narram com detalhes as batalhas navais e terrestres contra os Xiongs, e como depois vai vir a construção frenética de templos, de hospitais, de postos, né, de vigilância, de apoio durante.
E isso acho que pode ser interpretado como uma demonstração de poder e de recuperação após o trauma da invasão. Então aqueles que tiverem oportunidade de ir para contemplar as ruínas aqui, né, na região ali central do Camboja hoje, vocês podem reparar que muitas das principais ruínas visitadas vêm das mãos de Jayavarman VII, né? E ele, com muita força expressiva, ele demonstrou: olha, eu tive uma grande batalha que compara inclusive nas batalhas épicas do Mahabharata, e fala assim: olha, eu combati outros invasores, venci construir a grandeza do império.
Nas profundezas das selvas desta pequena nação escondida entre o Vietnã e a Tailândia ficam as ruínas abandonadas de Angkor Wat, um enorme e antigo complexo de templos. Especialistas acreditam que Angkor Wat seja a maior estrutura religiosa já ¡So good! ¡So good!
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E aí eu queria entender quais fatores contribuíram para esse enfraquecimento, né? Como é que começa esse declínio?
Olha, é um processo longo, né? É um processo que começa ainda no século XIII, né? Depois já é Vajrayana VII, né? Fica bastante claro, vai se estendendo pelo século XIV. Século XV, né? Então ela não tem uma causa única, mas é um conjunto de fatores que vão se sobrepor para resultar nisso. E o primeiro fator que a gente pode observar são as questões de sucessão e de guerras civis, né? O Império Quimério tinha um problema de sucessão ao poder, né?
Não tinha um sistema de sucessão estável e claro. Então a morte de um grande rei tendia a desencadear disputa entre as facções famílias aristocráticas que apoiavam diferentes pretendentes, né? E essas disputas podiam se tornar guerras civis prolongadas, que vai enfraquecer gradativamente, internamente, o Estado, o Khmer. Então, depois de Jayavarman VII, que é o maior rei, né, que a gente tem a percepção, não houve nenhum sucessor de grandeza comparável a ele.
E o século XIII, então, ele é marcado por uma estabilidade política recorrente. Agora, o segundo fator seria a pressão externa de outros reinos mais a oeste, que seriam os reinos dos povos tais. Então, a partir do século XIII, você tem populações de língua Thai, que são os ancestrais dos modernos tailandeses, laosianos e outros povos. Eles começam a migrar, expandir pelo Sudeste Asiático continental, e eles começam a fundar novos reinos políticos a oeste, né, como o reino de Sukhothai, reino de Ayutthaya.
E esses reinos vão inicialmente se apresentar como vassalos e periféricos ao Império Timé, mas progressivamente vão se tornar potências autônomas e depois até mesmo ameaças militares bastante muito próximos. Então você vê, por exemplo, aí o Thai em particular, ele vai, ataca e saqueia Angkor várias vezes no século XV. Terceiro fator seria aí, é que a arqueologia tem muito a contribuir por isso, é a questão ambiental climática.
Então a gente tem análise, por exemplo, de registros de pólen, sedimentos, que a região de Angkor, por exemplo, experimentou no século XIV, XV uma série de eventos climáticos severos. Você tem secas prolongadas intercaladas com monções excepcionalmente intensas. E esse padrão climático irregular, ele vai ter um efeito devastador pro sistema de gestão hídrica, que dependia da regularidade relativa das chuvas. Então, cheias violentas poderiam destruir diques e canais, secas poderiam deixar os reservatórios sem água por uma época crucial pro plantio.
Então, a soma desses três fatores: instabilidade política, pressão militar externa e degradação ambiental, vão contribuir para as condições pro lento esvaziamento de Angkor como centro político.
Existe também certo debate a respeito do abandono gradual de Angkor. Durante muito tempo se imaginou quase um colapso súbito, como se a cidade tivesse sido simplesmente engolida pela floresta ou algum tipo de cataclisma qualquer. Mas hoje as interpretações parecem mais complexas. Então queria pedir para você explicar o que que se sabe atualmente sobre o declínio de Angkor e como ocorre essa transição do centro político Khmer para outras regiões, né, levando em conta que era uma cidade tão importante, tão avançada, tão grande.
O que faz as pessoas quererem sair de um lugar assim no império, no centro do Império, né?
É interessante porque durante muito tempo a gente tinha essa imagem de colapso súbito de Angkor, né, que foi uma cidade que parece que foi engolida pela floresta de uma hora para outra, né, abandonada misteriosamente. Essa é uma percepção que a gente herdou muito de uma construção histórica eurocêntrica de um explorador naturalista e viajante francês do século 19, que é o Henri Mouhot. E Mouhot, ele, entre aspas, redescobriu os templos de Angkor em 1860 para o público europeu.
E eu coloco que é descobrir entre aspas, porque os templos nunca foram esquecidos pela população local. Você tinha monges budistas em Angkor Wat quando o próprio Muho estava lá, e ele ficou maravilhado também com o contraste, enxergar grandiosidade dos monumentos e o aparente estado de abandono da cidade ao redor. Então isso vai alimentar uma narrativa do mistério, né? Como é que civilização tão avançada poderia ter simplesmente desaparecido?
Mas as pesquisas arqueológicas mais recentes mostram um quadro diferente. O abandono O golpe foi gradual, processual, ele nunca foi total. O que aconteceu foi uma transferência do centro político mais para o sul, para a região de Phnom Penh, que é a atual capital cambojana. E isso ocorre em múltiplas etapas ao longo dos séculos XIV e XV. Então, essa transferência tinha uma lógica geoeconômica. O comércio marítimo estava começando a se tornar progressivamente mais importante do que a agricultura irrigada do interior.
O delta do Mekong e os rios navegáveis do sul ofereciam acesso às redes comerciais marítimas que Angkor, que é uma cidade bastante interiorana, não conseguia proporcionar. Então o que houve na verdade não foi um abandono catastrófico, mas teve uma reorientação geoeconômica do reino. Angkor continuou sendo habitado, a gente sabe que havia população vivendo na região muito depois do século XV, os templos continuaram sendo locais de culto, mas o centro de poder político ele vai se deslocar mais para o sul.
Aqui eu queria falar mais sobre arqueologia e historiografia também, porque pelo que eu tava vendo nas últimas décadas, tecnologias como sensoriamento remoto, imagem de satélite, de pesquisas arqueológicas mais recentes e tal, mudaram bastante o que se sabe sobre Império Khmer e sobre Angkor, né? Imagino que muitas dessas tecnologias sejam análogas ao que tem se usado, por exemplo, para se fazer estudos arqueológicos na região da Amazônia hoje e tal.
E muito desconhecimento sobre o assunto acaba fazendo com que as pessoas gerem aquelas teorias bizarras, tipo Rattanabai, não sei o quê. Mas enfim, são tecnologias muito avançadas que têm permitido certas descobertas em diferentes partes do mundo, né? Então eu queria pedir para você explicar como essas descobertas recentes transformaram o nosso entendimento sobre sobre o tamanho, sobre a complexidade, sobre o funcionamento desse império do Sudeste Asiático, né?
Olha, essa talvez a parte que mais mudou nas últimas décadas, né, de maneira bastante significativa, né? A grande evolução vem com o uso que é uma tecnologia de sensoriamento remoto que a gente chama que é LiDAR, né, o Light Detection and Ranging, o LiDAR. E esse sistema de sensoriamento remoto, ele usa pulsos de laser para mapear o relevo do terreno com precisão uma informação extraordinária, né? Então, quando isso é aplicado a regiões de floresta densa, como a que a gente cobre boa parte da área ancoriana, o LIDAR ele consegue penetrar a cobertura vegetal e revelar as estruturas que estão abaixo do solo.
Então, os primeiros levantamentos LIDAR sistemáticos na região de Angkor foram publicados em 2012, 2015, muito recente, e transformaram completamente o que sabíamos sobre o tamanho e organização da cidade. Foi revelado, por exemplo, que tem estruturas que simplesmente não conhecido, né? Você tinha rede de canais, de diques, estruturas de terra, bairros urbanos, complexos que parecem ter sido grandes habitações ou até mesmo instalações administrativas.
Tudo isso estendendo muito além do que a gente imaginava com os limites da cidade. Então talvez aí a descoberta até mais surpreendente tenha sido a identificação de uma rede de cidades conhecidas na região, que a gente chama as Colinas de Karamomo, né, que fica na região oeste do Camboja. Aparecem cidades como Mahendra Pavata, que é identificado como local de proclamação de Jayavarman II, 1802, revelam-se muito maiores e mais complexas que qualquer pesquisa anterior que havia sido gerida.
Então, do ponto de vista historiográfico, essas descobertas têm implicações importantes. Primeiro, confirma que Angkor era de fato a maior aglomeração urbana pré-industrial do mundo, numa escala ainda maior do que a gente imaginava. Segundo, vai revelar uma continuidade histórica muito mais longa do que a gente pensava, né? Você tinha assentamentos complexos na região antes de Jayavarman II e muito depois do abandono, né, entre "Yangkō".
E terceiro, fornece evidências materiais sobre o sistema hidráulico, a sua degradação, contribuindo para o debate sobre as causas do declínio de Yangkō. E a arqueologia do Sudeste Asiático, ela tá num momento de renovação, né? O Império Qin é um exemplo claro de como que essas novas tecnologias podem transformar nosso entendimento de civilizações que antes a gente achava que conhecia bem.
E pensando em historiografia, há quantas anda o estudo sobre esse tema, em particular no exterior, né? Baseado no que você já teve contato e tal, onde é que se estuda mais esse assunto? Vamos supor que tem alguém ouvindo isso aqui e pensou: pô, gostei do assunto, eu gosto desses temas que pouca gente se debruça sobre eles, quero começar, né? Onde é que mais se estuda esse assunto e há quantos anos o debate historiográfico?
Olha, eu quando comecei a adentrar os estudos sobre Cambódia, eu me apoiei ainda muito em cima dos estudos franceses e estudos britânicos. Mas aí tem que entender que esses estudos são fontes que não são necessárias, né? A gente precisa depois entender que há estudos arqueológicos que estão sendo conduzidos entre as próprias instituições cambodianas, né? Que depois do trauma nos anos 80, eles estão agora tendo um apoio internacional, inclusive muito apoio de instituições japonesas para arqueologia.
A gente depende hoje fundamentalmente de arqueologia nos esclarecer mais do que sabemos a respeito disso. Sobre publicações mais acessíveis para o público interessado, tem bons livros em francês e inglês, né? Mas assim, se você quiser ter um estudo ainda mais aprofundado, você precisa lidar mais com os estudos arqueológicos. Salvo engano, nessa reportagem que você tinha até mencionado sobre o Globo Repórter, existe um arqueólogo brasileiro que tá trabalhando lá nas escavações do Ruínas Quimé.
Não lembro o nome dele, até conversei com ele brevemente, mas ele é um dos que estão lá envolvidos nas escavações. Então seriam mais ou menos essas orientações que eu poderia dar para o público interessado, que de fato em língua portuguesa a gente tem muito pouco, né? E é uma lástima, né? Nós aqui somos dois historiadores que sabemos quanto que isso é grave, uma área e uma civilização tão complexa, tão significativa, é depender de tão poucas publicações mais ainda na língua portuguesa.
Para terminar, queria te perguntar o seguinte, talvez seja uma pergunta um pouco difícil, mas enfim. O termo Khmer, ele é atrelado a uma etnia e a um idioma, certo? Eu tô perguntando isso porque eu li que a etnia majoritária do Camboja é etnia Khmer e a língua idem, né? A língua Khmer. Isso me lembra que o Partido Comunista do Camboja do Pol Pot, ele era chamado pejorativamente de Khmer Rouge, né? O Khmer Vermelho, que é um termo que teria sido cunhado pelo príncipe cambojano Norodom Sihanouk, uma coisa assim.
Você acha que dá para falar falar em algum tipo de influência desse Império Antigo no Camboja dos séculos 20 e 21? Ou apesar da permanência desse termo, essa influência está distante demais no tempo para a gente poder considerar essa influência significativa?
Eu acho que ela serviu como um símbolo, né? Ela foi reapropriada em diversas maneiras. Você tem que entender, por exemplo, que no século 19, quando os franceses começam a chegar, o Império Khmer, ele ainda existia, só que ele existia de maneira subordinada ao Império do Sião, na Tailândia, ou até mesmo em partes com os vietnamitas, mas eram mais ligados ainda a Sião. Então quando os franceses chegam, eles demandam que o governante, o rei Khmer, se desligue da subordinação ao Império Sião e começa a se colocar no controle de um governador geral que é enviado para Phnom Penh.
Mas ali você existia já ainda a coroa Khmer que o rei cambodiano usava, no século 19, ainda evocava o Monte Meru, que é aquela estrutura central de Angkor Wat. Então isso foi sendo reapropriado numa tradição que ela não foi interrompida. Ela atravessa transformações políticas, dinásticas, econômicas, como a gente viu, e também haverá um processo de transformação ideológica, mas ela persiste. O que acontece depois é que haverá essa figura que vai ser determinante até ao longo das décadas centrais do século passado, que vai ser o príncipe, depois rei, Norodom Sihanouk, como você mencionou.
Ele vai ser aquele que vai apresentar ao mundo o que foi cultura cambodiana, as danças. Ele é muito ligado às artes, então ele patrocina muito a cultura khmer para as feiras na França, feiras internacionais. Ele organiza companhias de balé, de dança cambodiana para as grandes capitais europeias. Então a Europa começa a ter essa percepção do que é, e é riquíssima, a cultura khmer. O que depois acontece, um período de tragédia, é que E o Norodom, o rei, ele eventualmente se mantém neutro num primeiro momento com relação à Guerra do Vietnã e os americanos.
E os americanos depois inevitavelmente vão ficar insatisfeitos com a posição do Sihanouk, o rei. E aí eles começam então a usar, bombardear intensamente a região do território cambodiano que era fronteira com o Vietnã. Isso é massivamente bombardeado. Cambulau vai ser massivamente bombardeado pelos americanos, né? E isso provoca um trauma, um trauma terrível, que vai vir uma geração de cambodianos depois que vão invadir as grandes cidades.
E é esse partido, esse regime, que depois o rei cambodiano foge para o exílio e ele denomina como o Khmer Rouge, né, o Khmer Vermelho. E esse partido, ele geralmente toma o poder eventualmente em 75, se eu não me engano, a Phnom Penh. E você tem um período aí de grande controle generalizado, uma morte de talvez um quinto, um quarto da população cambodiana, e um desastre em termos humanitários. Mas ele é uma apropriação disso, de novamente falar assim: olha, então o que era aquele reino no imaginário dos partidários do Khmer Vermelho vai ser retomado novamente, a nossa grandeza vai ser resgatada.
Então há uma reapropriação novamente, uma releitura do passado de tentar se projetar no presente, que novamente fica bastante evidente que foi bastante desastroso, né? Se isolou muito, não teve quase que apoio internacional nenhum, e teve uma deterioração grande da mão de obra especializada, a mão de obra em geral, recursos econômicos. Isso tudo vai ser drasticamente deteriorado. E aí, nos anos 80, você tem ainda uma prolongação de uma guerra civil que vai ser só resolvida aí na década de 90.
Então, o Ancor e o Império Khmer, ele acaba sendo como um símbolo, né? Uma referência referência histórica poderosa para o Camboja, né, de tal maneira que, repito, ela tá presente, Angkor Wat está presente na bandeira cambogiana. Então é uma referência singular que os cambodianos têm com relação a isso. Agora, como eu já fui para lá duas vezes, eu tive oportunidade, e isso eu entendi muito bem, a gente não fala disso para população cambogiana hoje, né, porque o trauma foi muito recente, muitas pessoas perderam perderam familiares, né?
E isso foi uma coisa muito brutal. Então a gente tem que ter o bom senso de, se for para lá ou conversar com cambodianos, que tomem muito cuidado, porque isso é uma coisa que marca muito, porque sofreram com os bombardeios americanos e depois com o governo de Pol Pot e a Guerra Civil depois dos anos 80. Mas sim, ela é uma referência ressignificada até os dias de hoje, e arqueologia ainda muito nos revelar ainda no futuro. Angkor Wat.
Durante décadas, os arqueólogos especularam sobre o que causou o desaparecimento da cidade. Inúmeras teorias culpando tudo, desde as mudanças climáticas até exércitos invasores, foram propostas. No entanto, ninguém sabe ao certo por que quase mais de 1 milhão de pessoas optaram por abandonar esses magníficos templos.
Bom, como a gente já discutiu algumas vezes aqui nesse episódio, esse tema não aparece muito aqui no Brasil. Mas vamos supor que você vai dar uma aula de história da Ásia e tal, e aí você decide colocar esse assunto em uma aula. Como é que você abordaria esse assunto em sala de aula com seus alunos? Ou talvez como você aborda, supondo que você já tenha dado aula sobre isso?
Bom, a primeira coisa que eu deixo claro nas minhas aulas é usar a oportunidade do caso do Império Quimé, entre outros, para desconstruir o eurocentrismo ensinado tradicionalmente nas escolas. É quando a gente mostra, por exemplo, a um aluno, isso na escola de ensino primário, secundário, e que você pode mostrar que a No século XII, enquanto a Europa Ocidental estava construindo ao longo de décadas suas catedrais góticas, existia uma cidade de milhões de habitantes no Sudeste Asiático, com uma infraestrutura hidráulica muito mais sofisticada do que qualquer horizonte dos tempos ali na Europa da época.
Então isso eu iria primeiro provocar um deslocamento epistemológico, né, de questionamento epistemológico, questionar os pressupostos e abrir as perspectivas. O segundo recurso que eu acho que é interessante, que eu uso nas aulas, são imagens. Então, Angkor, ele tem um impacto de beleza de uma complexidade singular, e você tem várias fotografias, vídeos, reconstruções tridimensionais disponíveis gratuitamente na internet. Mostrar aos alunos, por exemplo, eu acho interessante, os relevos da batalha de Jayavarman VII, de Angkor, Aquelas faces dos Bodhisattvas budistas em Baiyong, as raízes das árvores que vão abraçando as pedras de Ta Prohm.
Isso vai criar uma conexão afetiva com o material que nenhum texto escrito iria conseguir reproduzir. Então isso é uma coisa que eu acho que é interessante, sempre busco isso nas aulas e recomendo também para os professores de história isso. E o terceiro ponto é com relação à interdisciplinaridade. O caso Kiméri, ele dialoga com questões da climatologia histórica, histórica, com arqueologia, com história das religiões e a história ambiental.
Então é um tema que permite que o professor vai cruzar fronteiras disciplinares de maneira bem natural. E finalmente, acho que o Camboja contemporâneo, a gente não pode ensinar Império Khmer sem falar da história mais recente, né, do genocídio que aconteceu na época do Khmer Vermelho, nos anos 70, né, que vai ter um resultado de um quinto, um quarto da população sendo morta, né. E isso a gente pode também mostrar como que as referências que foram apropriadas do passado imperial para legitimar esse regime de sua época.
Então são símbolos que carregam muitas camadas de memória e trauma ainda muito recentes. Isso também pode ser também um impacto bastante claro para os alunos, coisa que eu trabalho isso, eu vou matizando isso depois nas aulas quando chega mais na contemporaneidade. Mas eu gostaria de deixar claro que não é simplesmente a questão do Cambódia história se resumir a um regime que muitas pessoas morreram. Eles são herdeiros de uma tradição cultural, arquitetônica, política, ideológica, magníficos, né?
Isso é uma coisa que a gente precisa resgatar. A gente tem que questionar essa herança eurocêntrica, demasiadamente eurocêntrica, que a gente herda quando a gente começa a estudar história no ensino fundamental, ensino médio. A gente precisa diversificar muito mais aí a as regiões a serem ensinadas para os alunos em geral.
E para terminar, 3 livros sobre o assunto, ou livro que tenha capítulo sobre o assunto, o que que você recomenda? E eu sei que você escreveu sobre, então se você puder recomendar algo que você escreveu, fica à vontade.
Olha, o primeiro livro que eu iria indicar, eu acho que é em inglês, que é do David Chandler, History of Cambodia. Ele já tem várias edições e ele talvez seja a síntese mais acessível e abrangente da história cambodiana do período mais recuado até o século 20. O Chandler ele parece ser um dos maiores especialistas do Camboja na língua inglesa e eu acho que é um ponto de partida interessante. Uma outra referência que eu iria indicar em inglês também é do Michael Cole, que ele escreve Angkor e Khmer Civilization, que é um livro mais focado em Angkor e na civilização Khmer.
Ele é muito bem escrito, né, para um público não especializado. E Cole, ele é um arqueólogo, então ele traz muito a análise arqueológica como uma síntese histórica. E uma terceira referência talvez seja que eu escrevi, né, um volume, um capítulo de um livro que foi publicado pela editora da UFPE, da Universidade Federal de Pernambuco, que é um livro que foi organizado pelo professor Bruno Joa, foi publicado em 2023, que se chama Para Além da Idade Média Cristã, se eu não me engano, uma coisa assim, sobre outros medievos.
Então o livro ele vai partir projeto historiográfico bem interessante, que ele vai buscar pensar a ideia de medievalismo fora do quadro europeu. Então ele vai olhar para as outras regiões do mundo, isso inclui também a África, Oriente Médio, continente americano e o Sudeste Asiático. E no meu caso, que é no capítulo 13, se eu não me engano, que tem o título "Império das Águas", o capítulo que eu escrevi aí, ele vai buscar articular as questões da herança da cultura indígena, arquitetura monumental, sistema hidráulico, tudo para que o público leitor, necessitário, tem um texto para começar a trabalhar como base em língua portuguesa.
Então, na verdade, até deixei isso, fui convidado pelo professor Bruno Cho para produzir algo também sobre a história cambodiana, que era uma coisa que ficou bastante evidente que faz falta no meio acadêmico brasileiro nos dias de hoje. Então fica aqui 3 dicas de leitura para o público ouvinte.
Então é isso, gente. Emiliano, tem alguma consideração final?
Nenhuma. Eu só iria recomendar, se vocês tiverem oportunidade um dia na vida de poderem ir para o Sudeste Asiático, não deixem de ir visitar a região de Siem Reap. Siem Reap é a cidade mais próxima onde fica as ruínas Khmer. É um dos lugares obrigatórios se você quiser perceber a riqueza, monumentalidade do Império Quimé.
Então é isso, gente, muito obrigado por ter ouvido até o final. Não se esqueçam de dar uma olhada na descrição, ali vocês acham link do Instagram, link dos meus cursos, e entre outros links úteis. E claro, compartilhe a História FM com seus amigos e amigas que você acha que vão gostar de um podcast de história com profundidade. Então é isso, muito obrigado e até a próxima!
Esse podcast foi editado por Samuel Gambini, samuelgambiniaudio.com.
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