Episódios de História FM

238 Mito da Causa Perdida: negacionismo e falsificação histórica nos EUA

15 de junho de 20261h26min
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Após o fim da Guerra Civil Americana, setores da antiga Confederação passaram a construir uma narrativa que buscava reinterpretar as causas, os objetivos e os resultados do conflito. Conhecida como “Causa Perdida”, essa visão apresentava os líderes confederados como figuras honradas, minimizava o papel central da escravidão na eclosão da guerra e retratava o Sul como vítima de uma agressão injusta por parte do Norte. Ao longo das décadas, o mito da Causa Perdida influenciou livros, monumentos, organizações memorialistas, produções culturais e o ensino de história, desempenhando papel importante na legitimação da segregação racial e na construção de memórias públicas sobre o passado estadunidense. Seus efeitos ultrapassaram o século XIX, permanecendo presentes em debates políticos, disputas historiográficas e controvérsias sobre símbolos e monumentos ligados à Confederação. Convidamos Vitor Izecksohn para analisar as origens e a difusão do mito da Causa Perdida, os interesses políticos e sociais envolvidos em sua construção, sua relação com a memória da escravidão e da Guerra Civil e os debates contemporâneos sobre o legado dessa narrativa na sociedade estadunidense.

Roteiro: Icles Rodrigues

Edição: Samuel Gambini

Instagram: ⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠@iclesrodrigues⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠

PIX: leituraobrigahistoria@gmail.com

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Participantes neste episódio2
I

Iclis Rodrigues

Host
V

Vitor Izecksohn

ConvidadoProfessor do programa de pós-graduação em História da Universidade Federal de Juiz de Fora
Assuntos7
  • O Mito dos OutrosOrigens e construção do mito · Edward Pollard · Negação da escravidão como causa da guerra · Direitos dos estados · Culto a Robert E. Lee · Bandeira de batalha confederada · Nacionalismo sulista
  • Guerras Americanas HistoricasFim da Guerra Civil · Abolição da escravidão · Reconstrução · Andrew Johnson · 14ª Emenda · Ku Klux Klan · Ulysses S. Grant · Redenção
  • Representação política históricaLeis segregacionistas (Jim Crow) · Supremacia branca · Partido Democrata no Sul · Civil Rights Act · Voting Rights Act · Dessegregação das Forças Armadas
  • Manifestações artísticas do Mito da Causa PerdidaO Nascimento de uma Nação (filme) · O Vento Levou (filme) · Westerns clássicos · John Wayne · John Ford · Margaret Mitchell · Ken Burns
  • Legado da EscravidaoInfluência na abolição · Harriet Beecher Stowe · Slave Fugitive Act de 1850 · Tráfico interno de escravos · Sentimento antissulista no Norte
  • Trauma e Vulnerabilidade na Criação de MitosDavid Blight · Angela Davis · Frederick Douglass · Eric Foner · Reconstrução: A Revolução Americana Inacabada · W.E.B. Du Bois
  • A era do 'apipocar' e a perda da verdadeSenso comum sobre a Guerra Civil · Tensões raciais cotidianas · Mito do negro estuprador · Linha de cor na sociedade · Políticas de lei e ordem
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Vitor Izecksohn:Você está ouvindo o História FM.

Voz B:Mito da causa perdida. Esse tema parece pouco nas discussões sobre história no Brasil, mas lá nos dos Estados Unidos é um tema que diz respeito à segregação racial, cultural, econômica, entre outros fatores. E eu achei que valia a pena trazer esse tema aqui para vocês. Eu sou Iclis Rodrigues e para tratar desse assunto, mais uma vez aqui conosco, o professor Vítor Izecson, a quem eu passo a palavra para se apresentar para vocês. Então, Vítor, seja muito bem-vindo, fica à vontade para se apresentar para o pessoal.

Vitor Izecksohn:Boa noite, eu sou professor do programa de pós-graduação em História da Universidade Federal de Juiz de Fora. Trabalhei, trabalho ainda nos Estados Unidos, morei um certo tempo lá, fiz Muito estudado naquele país, já morei várias vezes ali como professor visitante. E eu tenho um interesse muito forte no estudo do século 19 norte-americano, porque acho que é um período importante de transformações e porque eu tenho muitas dúvidas ainda se eles são ou não uma sociedade excepcional em relação ao resto do mundo. Então eu gosto de voltar ao século 19 para pensar nos desenvolvimentos políticos deles a respeito da escravidão, do federalismo, o liberalismo, de regras unitárias, né, de direitos. E acho que é um período fantástico também para pensar os processos de construção do Estado. Então meus interesses se concentram nessas temáticas.

Voz B:Então é isso, vamos entender o que é esse tal mito de causa perdida e qual a influência dele na sociedade dos Estados Unidos. Depois quero dar um recado para vocês. Se você quer ouvir os episódios do História FM com antecedência, sem os anúncios automáticos do Spotify e podendo baixar o arquivo para ouvir onde quiser e não apenas nesse aplicativo que você tá ouvindo, você pode ter acesso a tudo isso por apenas R$5 por mês em apoia.se/obrigaistoria, porque são nossos apoiadores que permitem que o História FM exista. Mas a partir de R$2 você já consegue apoiar o programa também. É menos que o preço de um miojo por mês e no final do ano dá apenas R$24, que é menos X salada, dependendo de onde você mora. E os nossos novos apoiadores e apoiadoras são: Andrés Mateus, Ollenberg Félix, Tarcísio Magno, Hugo Lemos, Delano Sauer, Gabriel Nunes, João Bittencourt, Lion Azeredo, Maria Canezin, Denison Dutra, Gustavo Castro, Miguel Souza, Henrique Rosenfeld, Lucas Alvergas, Gustavo Stork, Rafael Hammerschmidt, Isabelle Custódio, Andréa Silva e Gabriela Rios. Muito obrigado, pessoal! É graças a vocês que o Story FM existe. Aqui embaixo na descrição tem o nosso link do Apoia.se, mas tem também a chave Pix para você que quer fazer um apoio pontual de qualquer valor também, sem as recompensas, mas te permite ajudar o nosso trabalho também.

Voz C:Na década de 1860, a Guerra Civil dos Estados Unidos foi o conflito mais sangrento travado no continente americano em 400 anos, com repercussões mundiais, impactos no Brasil, no abolicionismo da escravidão e também com diversas inovações tecnológicas e militares.

Voz B:Para começar essa conversa, eu queria pedir para você contextualizar o fim da Guerra Civil estadunidense. Lembrando que a gente tem um episódio aqui sobre a Guerra de Secessão, foi gravado com o Vitor também, o episódio 30, eu acho, do programa, ou 29, algo assim. E bom, a Confederação, ela foi derrotada militarmente, o Sul ficou devastado economicamente, a escravidão foi abolida, e os antigos estados confederados passaram pelo período que ficou conhecido como Reconstrução. Então eu queria pedir para você explicar qual era a situação política e social do Sul logo após a guerra e Por que surgiu a necessidade de criar uma narrativa que reinterpretasse a derrota confederada?

Vitor Izecksohn:Bom, o Sul, como você falou, ele sofreu uma derrota militar completa, no sentido de que os seus principais exércitos se renderam, né? O principal era o Exército do Norte da Virgínia, comandado pelo General Lee. Enfim, eles todos se renderam incondicionalmente. Não tão incondicionalmente quanto pareça, porque em alguns casos os oficiais e soldados foram autorizados a manter suas armas e seus cavalos. Mas enfim, a ordem social do Sul no final da Guerra Civil, ela foi virada de cabeça para baixo, principalmente devido à abolição da escravidão e também à ocupação militar do Sul por tropas brancas, mas também por tropas negras da União, né, porque o recrutamento de tropas negras havia sido autorizado numa ordem executiva do Lincoln que é concomitante à abolição da escravidão. Ou seja, em setembro de 1862, O presidente Lincoln emitiu um comunicado dizendo que os escravocratas que não depusessem suas armas até 1º de janeiro de 1863 teriam seus escravos libertados, libertos, né? O que era uma coisa um pouco irônica porque na verdade o Lincoln estava abolindo a escravidão naqueles territórios que estavam ainda distantes do controle da União. É preciso lembrar que havia 4 estados sulistas os sulistas, os estados fronteriços, que lutaram do lado da União durante a guerra e que, em princípio, poderiam manter a sua escravidão funcionando. E também havia uma situação mais complexa de cerca de 800 mil escravos que fugiram pelas linhas da União, conhecidos como contrabando, e que não tinham, esses fugitivos, não tinham sua situação legal resolvida. A própria Proclamação da Emancipação não dava uma solução total para o status dessas pessoas. No entanto, à medida que o recrutamento atingiu os soldados negros, muitos desses ex-escravizados, contrabandos, se integraram nas tropas da União. Eram tropas segregadas, ou seja, eram tropas em que só serviam negros, mas nas quais os negros não podiam atuar como oficiais. Os oficiais eram brancos. Então, esses dois processos, de certa forma, viraram o sul de cabeça de cabeça para baixo, né? Foi uma derrota muito pesada. Os líderes do Sul, né, eram traidores porque haviam servido ao Exército da União e jurado lealdade antes de a maioria aderir à Confederação. Então eles eram traidores da pátria. E enfim, no momento inicial, a situação passava pela abolição da escravidão e por uma desmilitarização do Sul, né? Mesmo antes da Guerra Civil e Clodilho, era uma sociedade muito militarizada, possuía recursos militares como a Guarda Nacional, que eram totalmente voltados para vigilância interna, principalmente a vigilância dos escravos. Então a ideia era desmilitarizar. Mas Lincoln é assassinado em abril de 1865 e assume o poder o vice-presidente Andrew Johnson. Johnson era um democrata jacksoniano, ou seja, Ele era um democrata do sul ligado à herança política do ex-presidente Andrew Jackson. Era um cara bastante racista, mas que tinha o mérito de ser o único político importante do estado do Tennessee, de mais alto grau, a rejeitar a secessão. Então, na eleição presidencial de 1864, ele foi escolhido como— que seria a reeleição do Lincoln— ele foi escolhido escolhido como candidato a vice e com o assassinato do Lincoln ele assumiu, mas efetivamente ele era um sujeito sem muito preparo para o cargo que ele assumiu. É um dos problemas do presidencialismo, como nós sabemos, né, porque nem sempre os vice-presidentes estão à altura. Muitas vezes estão, mas muitas vezes não estão do cargo. E o Lincoln não deixou muitas pistas do que ele faria, no comando da reconstrução. Ele libertou os escravos, ele tinha algumas direções, diretivas, no sentido de que aqueles ex-escravos que serviram como soldados teriam direito a voto, mas ele não chegou realmente a avançar muito. E, por exemplo, ele tentou patrocinar o reingresso do estado da Louisiana baseado num juramento de fidelidade de 10% da população branca. Mas esse, então eles tinham que jurar, os 10% da população da Louisiana tinha que pedir, vamos dizer assim, jurar a Constituição e aceitar a 13ª Emenda. Mas essa medida foi tão tímida que o próprio Congresso obstaculizou, não deixou passar. Então o Lincoln não teve nem tempo direito de colocar um programa. O que a gente sabe é que ele nunca considerou que os estados do Sul tivessem realmente se separado. Ele classificou o movimento movimento como uma rebelião, ou seja, como se fosse um movimento capitaneado por uma minoria e que no entender dele a maioria dos sulistas teria se mantido fiel à União. É um pensamento bastante complexo, mas enfim, que atendia, digamos assim, aos objetivos do próprio Lincoln no sentido de que nenhum outro país reconhecesse a Confederação como um estado, né. Então, para Mas para essa finalidade, essa posição teve sucesso. Para a reconstrução, não teve muito, né? E com o Andrew Jackson, ele suavizou bastante. Ele tentou limitar a readmissão dos estados sulistas a um pedido de desculpas dos líderes do Sul, que permitiria inclusive que eles voltassem a atuar normalmente na política da União. E de fato houve eleições em 1866 e vários desses líderes foram eleitos para o Congresso, eleições parlamentares, como por exemplo o vice-presidente da Confederação, Alexander Stephens. Então esse processo foi barrado pelo Congresso, né? O Congresso reagiu a essa medida do Johnson e barrou, não reconheceu essa eleição, pelo menos dos sulistas, aprovou o Civil Rights Act, Reconstrução Act, que a partir desse ato, também conhecido como Reconstruction Act, as lideranças do Sul foram caçadas por terem justamente se rebelado contra a União. Então isso deu início a um processo de tensão maior entre o presidente e o Congresso. Por outro lado, durante o último ano da guerra, o General Sherman tinha aprovado a Ordem de Campo número 45, que é a famosa relacionada à ideia de, como é que é, 20 acres e uma mula, alguma coisa assim, ou seja, uma mini reforma agrária nas propriedades dos líderes da Confederação, que seriam então subdivididas, acho que é 4 acres e uma mula, né, que seriam divididas entre ex-escravos, né, que então passariam a ser vistos como pequenos proprietários rurais, uma tentativa de criar, digamos assim, um campesinato negro no Sul. Bom, o Johnson logo no início cancelou essa medida que poderia ter dado uma segurança econômica maior ao negro no Sul, mas isso não aconteceu e a maioria dos ex-escravos, portanto, entra no período despossuída. E evidentemente o Johnson também não se opôs à existência dos códigos negros no Sul, né, que eram códigos para aleijar o negro da política e basicamente permitiam inclusive que muitos negros fossem alistados compulsoriamente ao trabalho nas grandes fazendas por acusações de vagabundagem. Então a situação inicial do negro, apesar da liberdade, foi de muita pressão. E isso por causa dessas questões houve uma altercação entre o presidente Johnson e o Congresso. O presidente muito desastradamente entrou numa turnê para, vamos dizer assim, fortalecer sua posição nas próximas nas eleições para o Congresso, né, foi uma turnê que foi de fato um desastre e por causa disso a Câmara chamou o processo de impeachment, né, foi o único presidente americano até o Trump a sofrer um processo de impeachment, né, o processo foi aberto pela Câmara, mas depois ele foi derrotado por um voto no Senado, então com isso o poder do Johnson evaporou e um Congresso comandado republicanos conhecidos como radicais, enfim, assumiu o controle e aprovou a 14ª Emenda. Ela vai ser aprovada em 68, que é uma emenda que não só reitera a emancipação, mas também reconhece o negro como cidadão dos Estados Unidos. Isso é uma medida importante porque num famoso julgamento conhecido como Dred Scott de 1857, o presidente da Suprema Corte Roger Taney, estabeleceu que nenhum negro, no Sul ou no Norte, podia ser cidadão dos Estados Unidos. Então, a 14ª Emenda reverte essa questão e ela também assume o direito de voto para o negro. Então, efetivamente, os negros começam a votar no Sul. Um grupo grande de parlamentares, congressistas na Câmara, um grupo é eleito, um senador negro é eleito, um governador negro é eleito na Louisiana, e vários sulistas identificam comunicados com o Norte também são eleitos pelo Sul. Então isso permitiu ao Partido Republicano constituir uma bancada sulista relevante. Também por conta da ação do Congresso, o Sul foi dividido em 5 distritos militares, ou seja, o Congresso colocou o Exército como um fiador importante do processo de reconstrução, né. No Sul havia 3 tipos de branco, né, nesse momento. Aqueles que continuavam fiéis ao ideário da Confederação, aqueles sulistas que por uma série de razões, mesmo durante a guerra, haviam se aliado ao Norte, né, que são conhecidos por "scalawags", uma palavra muito preconceituosa, né, relacionada a porcos, né, portanto é um termo cunhado pelos próprios racistas do Sul, e havia os carpetbaggers, que são os nortistas que migram para o Sul depois da guerra. Então o Partido Republicano vai criar uma base política entre esses dois setores sulistas que eu mencionei aqui e os negros. No entanto, havia muita pressão do Sul, porque como eu mencionei antes, os sulistas ainda estão armados e vão formar organizações paramilitares. A mais famosa delas é Klux Klan, é com o objetivo de ameaçar e eventualmente matar os negros, as lideranças negras, principalmente as lideranças religiosas, mas também os carpetbaggers e os Calawags. Então você tem esse terrorismo racial, terrorismo supremacista em movimento e lutas constantes entre o exército de ocupação e esses grupos paramilitares sulistas nacionalistas. A situação na reconstrução foi essa durante o final da década de 1860 e o início da década de 1870, né. Então, em 1868, é eleito presidente Ulysses Grant, que era o mais importante, mais famoso general da União durante a guerra. Ele é eleito pelo Partido Republicano, mas veja bem, a eleição dele não foi um passeio, né. Os democratas tiveram uma votação expressiva, ele ganhou por uma diferença pequena. Também denota a pressão contra a reconstrução que já estava em exercício, né. E o Grant governou por dois mandatos. No final do seu segundo mandato, ele ouviu muitas acusações de corrupção, né, principalmente devido à expansão da rede ferroviária, né, que trazia consigo muita corrupção de contratos. E também havia um certo desgaste do apoio nortista a esse processo no sul. Então, em 1876, houve uma nova eleição presidencial para a qual Grant não podia concorrer, que opôs Samuel Tiden pelo Partido Democrata. Desculpa, o nome do presidente republicano nesse momento varreu-se-me da memória, mas enfim, essa eleição foi uma das eleições nos Estados EUA, Unidos que ficou muito empatada e inconclusa, né? Havia divergências sobre votos em vários condados, em vários estados do Sul. Então, tudo levava a crer que haveria um impasse que levaria a decisão para a Suprema Corte. Mas aí foi costurado um acordo. O Samuel Tilden aceitou a vitória dos republicanos, mas condicionou essa vitória à retirada das tropas do Exército do Sul. A gente sabe hoje em dia, a manutenção dessas tropas era fundamental para a defesa dos programas da reconstrução. Então, com a retirada dessas tropas, os confederados, os antigos confederados, com seus braços armados terroristas, eles ficam completamente livres para massacrar, matar, etc. Então tem início o processo que ficou, ironicamente, conhecido como Redenção. Evidentemente esse é um nome colocado pelos sulistas e que tem a ver com a redenção, pelo menos da supremacia racial branca, teria sido afetada pela Reconstrução no Sul. É um processo que vai se aprofundando ao longo da década de 80 até chegar ao Jim Crow, que é o sistema segregacionista marcado pela completa exclusão do negro de qualquer participação civil ou eleitoral. Então, a partir daí, a gente pode dizer que o Sul perdeu a guerra, mas ganhou a paz nesse sentido.

Voz B:O inverno tá chegando e aqui em casa quando chega o inverno chega a rinite, que acaba comigo, mas chega também a vontade de me vestir com conforto. E aí eu aposto gosto no jogo ganho, que são as roupas da Insider, a patrocinadora desse episódio. Inclusive, eu tô gravando isso aqui usando uma camiseta, uma t-shirt de manga longa da Insider. E eu vou cantar bola para vocês: além do desconto do meu cupom HISTÓRIA FM, só hoje e amanhã, dias 15 e 16 de junho, vocês ganham 5% de desconto pagando no Pix, mais frete grátis. Se não quiser digitar o cupom na hora de fechar a compra, tem um jeito mais fácil: clica no link que tá aqui na descrição do episódio. E se você não conseguir comprar nesses Tem frete grátis para compras acima de R$399 o mês inteiro. Beleza? Agora sim, vamos de volta para o episódio. E quando a gente fala em Lost Cause, né, o mito da causa perdida e tal, eu queria entender exatamente do que que a gente tá falando, porque são diferentes pontos, né, não é uma coisa única. A gente costuma associar, né, essa Lost Cause Lost Cause, algumas questões como, por exemplo, a ideia de que não, a guerra não foi para manter escravidão, a escravidão já tava para acabar de qualquer jeito, que o Norte empreendeu uma guerra total contra o Sul, uma guerra covarde. Enfim, são vários pontos, né? Então eu queria pedir para você explicar quais são os pilares dessa Lost Cause, desse mito da causa perdida, o que é que compõe esse mito.

Vitor Izecksohn:Olha, o mito foi construído, começou a ser construído logo depois do final da guerra, né? Ele foi cunhado por um jornalista chamado Edward Pollard, e esse indivíduo publicou um livro com esse título, né? E basicamente é um movimento que nega principalmente que a separação do Sul tenha sido ocasionada devido à escravidão, ou seja, que a separação e a guerra que veio não decorreram, não teriam decorrido de um processo de defesa da escravidão. Então nessa reconstrução O Sul teria se separado devido a uma questão ligada aos direitos dos estados. Então, a posição do Sul, uma posição subordinada dentro da política americana, teria sido a causa, o fato de que o Norte industrial e capitalista cada vez mais avançava sobre o Sul, teria sido a causa da separação emancipação e não a defesa da escravidão. Ou seja, eles colocam um véu sobre a realidade, né? Hoje em dia não há historiador de prestígio desse tema que não reconheça o papel fundamental da escravidão na questão da secessão, né? Mas então ele cria essa vinculação mais direta com os direitos dos Estados. Os Estados sulistas se separaram basicamente porque se viam acossados, né, por uma ação muito invasiva do Norte. Também nesse movimento há uma tentativa então de recuperar a posição dos líderes do Sul, não como traidores, mas como homens de honra que aderiram a uma causa que eles achavam justa, né? E principalmente aí você tem o nascimento do culto ao Robert Lee e também uma enorme valorização do imaginário, né, com criação de vários museus confederados e principalmente a construção de monumentos no sul para honrar esses, principalmente esses líderes militares que haviam sido derrotados. Evidentemente que por trás desse movimento há o processo de redenção que está tomando seu curso e a tentativa que foi feita com sucesso de restaurar um sistema de opressão racial Sul. E é curioso isso porque eles negam que a escravidão tenha sido a causa da guerra, mas eles não hesitam em criar um supremacismo branco na região. Então esse movimento tem várias facetas, né? Uma delas é a incorporação da antiga bandeira de batalha confederada em bandeiras de estado Estados Unidos do Sul, como por exemplo o estado do Mississippi, que até hoje ele tem um quadradinho na bandeira que é a bandeira de batalha da Confederação. E essa bandeira, aliás, ela atualmente vem se globalizando, né, como um símbolo de ódio racial. Então ela é usada em movimentos neofascistas na Europa, enfim, até mesmo na Rússia eventualmente ela aparece. A gente tem hoje em dia uma globalização tardia hoje em dia dessa bandeira confederada como um símbolo de ódio racial, somente na Europa onde há todos esses movimentos anti-imigração. Mas o conjunto de crenças que sustentaram essa ideia de uma causa perdida está estabelecido justamente em preservar uma memória do Sul baseada num forte nacionalismo. E essa é uma questão interessante porque houve o nacionalismo sulista durante a guerra. Esse nacionalismo foi derrotado, o Sul foi derrotado militarmente, mas a construção de um mito nacional do Sul persistiu no pós-guerra. Então os sulistas se agarraram a esses argumentos como uma forma de manter uma certa identidade nacional sob o guarda-chuva de uma União reconstruída.

Voz B:E tem toda uma questão também de exaltação de figuras de liderança dos Confederados, né, como General Lee, entre outros também, né, uma meio que uma espécie de nostalgia a origens nobres do Sul e uma coisa do tipo também, né.

Vitor Izecksohn:Esse processo já vinha antes da guerra, né, os principais defensores da causa sulista já desde 1819, quando houve a crise do Missouri, que foi a primeira crise secessionista, ele já defendia essa oposição entre o Norte e o Sul, no sentido de que o Norte é uma região capitalista e sem valores, e o Sul era uma região marcada pelo cavalheirismo, por um certo igualitarismo entre os brancos. E essa visão também é fortemente defendida na bibliografia apriótica à vista do Sul, o Fitzhugh, no livro Cannibals at Oak, que é o argumento mais forte em defesa da escravidão, ele chega a dizer que a escravidão no Sul é mais benéfica quando comparada ao trabalho industrial no Norte, ou seja, o escravo sulista viveria melhor do que o operário industrial no Norte ou na Inglaterra. Terra. E basicamente porque o Sul seria uma sociedade cavalheiresca, movida por ideais mais altos morais, né? Mas isso sempre, essa visão, ela esquece de mencionar a enorme opressão que os escravizados ali sofriam, né? Então eles aparecem como crianças, como pessoas tuteladas dentro de uma ordem social em teoria harmônica. A verdade é que o pensamento sulista tinha várias contradições, né? Então, por exemplo, os sulistas usavam a questão do direito dos estados, antes da guerra, para defender a escravidão. Diziam: "A escravidão não é um problema nacional, é uma questão estadual que deve ser resolvida pelos estados." No entanto, a Constituição dos Estados Confederados da América, ela dava poder ao governo federal Federal da Confederação de impor a escravidão em quaisquer estados que viessem a se associar à Confederação. Então, se um estado onde só havia livres se associasse à Confederação, um território onde só havia pessoas livres, ele teria que adotar a escravidão. Portanto, o governo federal, ele é ruim quando ele combate a escravidão, mas ele pode também funcionar como instrumento para a escravidão sobre territórios novos que eventualmente pedissem a sua adesão como estados. Então você tem todas essas contradições do pensamento nacionalista da Confederação, mas ele é isso, ele é uma forma de reforçar, vamos dizer assim, a supremacia racial numa região que foi derrotada e empobrecida.

Voz B:Dando seguimento a essa romantização desse Velho Sul, e coisa e tal, me vem à mente, por exemplo, uma obra como Uncle Tom's Cabin, né, que foi traduzido como Cabana do Pai Tomás, se eu não me engano. Esse livro, ele foi entendido por alguns como tendo tido alguma influência na aceleração da abolição da escravidão, ou pelo menos de ter influenciado percepções sobre a escravidão em pessoas que talvez não dessem muita atenção para esse assunto. Então queria pedir para você explicar como esse mito da causa perdida ajudou a criar essa visão das plantation da relação entre senhores e escravizados, porque parte dessa, desse mito tem a ver com essa ideia de que as relações entre senhores e escravizados não eram assim tão agressivas, não eram tão violentas. E esse livro revoltou muito sulistas porque eles olhavam esse livro como, não, isso aí é uma deturpação, a vida no Sul entre senhores e escravizados ela não é isso daí, aqui ela é muito mais, existe muito mais ternura, muito mais tolerância. Enfim, se você pudesse comentar um pouco isso.

Vitor Izecksohn:É, o Sul já controlava o correio desde a década de 1830, né? Então barrava, por exemplo, jornais abolicionistas, etc., que vinham do Norte, né? E já havia uma literatura muito crítica da escravidão, que são os chamados slave narratives, né, as narrativas escravas. A mais famosa é do Frederick "Prologue", que está traduzida para o português, mas há várias, em que eram descritas as mazelas da escravidão, não só em relação ao negro, mas em relação à corrupção da família branca. Então essa literatura era muito popular e era uma ferramenta dos abolicionistas. O que ocorre é que ela talvez não tivesse no Norte uma penetração tão grande, porque afinal de afinal de contas eram livros escritos por negros fugitivos do Sul que faziam parte do movimento abolicionista e esse movimento não era muito popular no Norte. Os políticos profissionais, mesmo aqueles que eram contra a escravidão, se afastavam do abolicionismo porque consideravam os membros do movimento abolicionista como pessoas muito radicais. Bom, mas o que ocorre, né? Ocorre que houve a guerra contra o México, uma guerra sulista, comandada pelo presidente James Polk, que era do Tennessee, que era um afiliado político do Andrew Jackson, democrata. E enfim, o Norte conquistou, os Estados Unidos conquistaram 40% do território mexicano, o México deixou de ser a maior república do continente. E imediatamente surgiu uma discussão entabulada por um democrata da Pensilvânia chamado Pledge, ele coloca uma emenda, essa emenda estabelecia que nenhum escravo poderia ser levado para os novos territórios conquistados ao México. Então isso gerou um debate enorme porque os sulistas tinham patrocinado a guerra justamente para estender a escravidão para o Oeste e aí vem uma emenda contrária. Então essa situação ela colocou o país à beira da evitar a secessão. A gente pode dizer que a Guerra Civil poderia ter estourado em 1850 ao invés de 1861. E o problema foi resolvido a partir do chamado Compromisso de 1850, que não é exatamente um compromisso, é uma série de compromissos, né, uma série de medidas. Então a Califórnia vai ser, vai ser, vai virar estado, é, vai admitida como estado livre. O Texas e o Novo México são estados escravagistas. E há um enorme grupo de territórios que vai somente no compreendido do grande território do Kansas-Nebraska, onde haveria referendos para se definir o que ia acontecer, mas esses referendos desandaram em guerras civis. Então, o compromisso de de 1850, ele não contentou nenhum dos lados, né? Ele simplesmente adiou a guerra. Ele não contentou os nortistas, porque ele foi visto como uma conspiração sulista para tomar o poder, e ele não contentou os sulistas, que afinal de contas tinham feito a guerra e que não tinham obtido tudo o que queriam, né? Mas há uma cláusula do compromisso que é especialmente complicada norte, né, que é o Slave Fugitive Law, a Lei dos Escravos Fugitivos. Havia na Constituição uma determinação de que os estados onde não houvesse escravidão, para os quais os escravos fugissem, eles tinham obrigação de devolver esses escravos, mas na prática isso não acontecia, né. A Lei dos Escravos Fugitivos, a nova de 1850, ela foi muito mais drástica, porque ela estabeleceu o direito do Sul nomear delegados para ir capturar os escravos no Norte. Portanto, ela colocou uma cláusula quase que de extraterritorialidade, né? A soberania dos estados do Norte, ela não poderia ser exercida no caso de um escravo fugitivo, porque aí poderia vir um delegado do Sul e capturar. E cerca de 140, 50 fugitivos realmente foram recapturados, algumas vezes até gerando conflitos contra a população estadual. Então, visto assim no longo prazo, o Slave Fugitive Act surge como, na verdade, uma medida desesperada do Sul na defesa de sua posição minoritária dentro da União. Mas para os contemporâneos e principalmente para os negros que moravam no Norte, foi uma medida fortemente arbitrária, né? Livre porque a prova de que a pessoa era livre cabia ao indivíduo e não ao delegado sulista que eventualmente fosse lá para capturar o fugitivo. Então isso gerou assim uma grita enorme, protestos, né? E Harriet Beecher Stowe, que é autora da Cabana do Pai Tomás, ela era filha de um pastor abolicionista, né? O abolicionismo no Norte está muito ligado às religiões protestantes. Então a forma dela protestar foi— ela era mãe de 6 crianças, enfim, dona de casa— foi escrever capítulos à noite, depois que as crianças dormiam. E o livro foi publicado de forma serial. Inicialmente foi um sucesso estrondoso e depois ele virou um livro, e esse Foi um best-seller, acho que vendeu pra época uma coisa absurda, sei lá, 50 mil cópias, alguma coisa assim. E basicamente o ponto do livro é o fato de uma família ser separada pela venda. É uma questão que está ligada muito ao tráfico interno no sul, em que escravos que residiam na costa são vendidos para os estados mais ao sudoeste, Oeste para trabalhar na cultura do algodão. E essa é a situação do pai Tomás em relação à sua família, né? Então ela é uma denúncia muito bem elaborada dessa, dos riscos, né, que a escravidão coloca, dos males que ela cria para família negra principalmente, mas também para os brancos, né? Ela também tem essa pegada de dizer: olha, também corrompe os brancos. De tudo isso, né. Agora, é um livro curioso porque, sem querer dar muito spoiler, no final todos aqueles escravos que conseguem escapar, eles não ficam no território dos Estados Unidos, eles vão para o Canadá, eles vão para outros países. Então assim, por mais abolicionista que o livro seja, ele ainda não consegue determinar um espaço para o negro, um espaço numa sociedade, sei lá, pelo menos birracial, né. Então vão parar no Canadá. E o livro fez um sucesso enorme. Até há uma passagem famosa em que o Lincoln, já presidente, anos depois, encontra a Harriet Stowe num teatro. Ela diz: "Muito obrigada, presidente, por tudo que o senhor está fazendo." Ele diz: "Não, quem fez foi você." Porque foi um sucesso, estourou um filão que está muito ligado a esse compromisso de 1850, que foi assim um acordão costurado pela antiga liderança no Congresso, o principal artífice foi o Henry Clay, que era um deputado do Sul, o Whig, mas também um deputado anti-escravagista, então todo esse esforço no sentido de obter um compromisso e no fim nenhuma das partes se sentiu muito contentada por essa esses acordos, né. Curiosamente, A Cabana do Pai Tomás foi interpretada como novela no Brasil em 1968 e na época gerou muita polêmica, né, porque escolheram para interpretar o Tomás o ator branco que era o Sérgio Cardoso e ele recebeu uma blackface para atuar como negro, né. Então houve gerou muita discussão. Por que não se colocou um ator negro naquele momento para interpretar o papel? Evidentemente, o Sérgio Cardoso era um ator muito conhecido, mas não era negro. Uma novela feita em 1868, ali no pico da ditadura, exibida pela Globo, mas com essa questão complicada do ator principal. Então, acho que o livro Ele contribuiu nem tanto para o fortalecimento do abolicionismo, mas de um sentimento antissulista no Norte, sentimento muito baseado na ideia da slave conspiracy, quer dizer, o slave power, a ideia de que haveria uma enorme conspiração no Sul para tomar o poder no Norte do país, conquistar o Estado e reduzir o trabalho livre livre e as suas formas mais abjetas. Então isso aqui, de alguma maneira, guiou uma parte da opinião pública para uma atitude completamente antissulista.

Voz C:A principal questão era o fato de que a escravidão era regra em metade dos Estados Unidos. No Norte, a escravidão já havia sido abolida e a economia era centrada na mão de obra livre em pequenas propriedades rurais e crescente urbanização. Então, no sul, a escravidão de pessoas negras era regra, com alguns estados com mais pessoas escravizadas do que livres.

Voz B:Uma figura que é muito importante pro mito da causa perdida é a do General Robert E. Lee, que inclusive, se eu bem me lembro, era a estátua dele que tentaram derrubar lá em Charlottesville, que daí deu toda que ela se leu há uns anos atrás. Então assim, para o público brasileiro que não conhece bem essa figura, você poderia contar para a gente quem era o Robert Lee e como ele foi alçado a essa figura quase que de um cavaleiro cristão perfeito, quase infalível militarmente, por aí vai?

Vitor Izecksohn:Robert Lee foi o mais importante general confederado, né? Não havia um comando unificado do Exército Confederado, havia diferentes exércitos em diferentes frentes. Então o Lee comandou o exército do norte da Virgínia. Era um oficial muito prestigiado, ele tinha sido primeiro lugar em todas as turmas da formação na academia militar de West Point. E a gente sabe que na vida militar essas posições importam muito nas promoções que o sujeito recebe ao longo da vida, né? E ele atuou como um oficial destacado na guerra contra o México. Ele não era o oficial principal, na verdade Na verdade, o comando do exército americano na guerra contra o México era exercido por dois oficiais superiores ligados ao partido Whig. Um deles inclusive foi eleito presidente após o final do governo do Polk. Então ele não era um— mas ele sobressaiu na campanha. Então um general muito prestigiado. Era um sujeito que tinha, possuía escravos nas suas propriedades, mas ele não era necessariamente era realmente um defensor da causa escravista, um defensor aberto. E em 1859 houve um ataque ao arsenal de Harper's Ferry, um ataque comandado por um sujeito chamado John Brown. O John Brown era um pastor nortista e era um radical abolicionista. Em 1859, o Brown, tendo essa percepção de que o governo federal O presidente Buchanan era um governo alinhado com a escravidão. Ele resolveu tomar essa medida de força, né? Ele imaginava que atacando esse arsenal no norte da Virgínia, ele conseguiria a adesão dos escravizados ali em volta, né? E ele iniciaria então uma grande guerra de guerrilhas no norte da Virgínia. Mas saiu tudo errado e o oficial que comandou a defesa e que capturou o John Brown foi o Lee. Então, o Lee, numa postura legalista, ele foi lá e capturou o John Brown. Morreram várias pessoas que acreditaram nessa rebelião, inclusive dois filhos do Brown. Mas depois os sulistas da Virgínia resolveram dar um julgamento exemplar pro John Brown, então ele foi condenado à forca, né? E ele não titubeou, "Olha, disparei de novo, eu estou sendo condenado por conta do despotismo sulista." Enfim, ele teve uma atitude bastante digna e isso tornou ele uma espécie de mártir no Norte, inclusive com a criação dessa famosa música, que é o John Brown's March, que vai ficar muito famosa depois disso, que é uma música que funciona tanto como marcha militar como hino religioso. Bom, o Lee era da Virgínia, ele tinha terras na Virgínia, e quando houve a secessão Secessão, a primeira onda da secessão atingiu apenas os estados do sul profundo. A Virgínia, que era o mais importante estado do sul, inclusive porque tinha fábricas, etc., ela não aderiu inicialmente. Então ele não foi convocado porque o Lincoln não tinha a intenção de iniciar uma guerra contra esses estados do sul, ele achava que seria inviável. A secessão é que na eventualmente eles voltariam. Com a secessão do Upper South, que envolveu a Virgínia, a coisa mudou de direção, até porque esse processo decorreu de um ataque sulista ao Fort Sumter. Então os sulistas atacaram, o Lincoln convocou tropas e aí os estados do Upper South, que a gente pode chamar de Sul Setentrional também em português, eles se separaram, né? E nesse momento em que o Lincoln tá formando as forças armadas que vão constituir o Exército da União, ele convida o Lee, que era o oficial mais graduado no momento, a assumir o Exército da União na Virgínia, no norte da Virgínia. Bom, o Lee analisou a situação, percebeu que a Virgínia, que era o estado natal dele, seria o campo de batalha, um campo muito forte, muito e ele decide fechar não necessariamente com o Sul, mas com a Virgínia, né? Ele é um virginiano antes de ser um estadunidense norte-americano. Então, com isso, ele vai comandar o exército norte da Virgínia e, evidentemente, durante as etapas iniciais da guerra, até 1863, Lee teve grande sucesso de deter as tropas da União que tentavam invadir a Virgínia para chegar ali na capital Richmond. Então ele se tornou um herói nessa resistência. Então ele era um militar muito bom na defensiva. Nas duas vezes que ele tentou invadir o Norte, em Antietam e Gettysburg, ele perdeu. Não necessariamente ele era bom na ofensiva, mas ele era bom na defensiva, até porque ninguém entendia direito nesse momento qual é a natureza da guerra defensiva. Depois, quando o Lincoln nomeia o Ulysses Grant como comandante geral do exército e o Grant inicia a campanha da Virgínia novamente, o Grant tinha uma outra visão da guerra, ele entendia que a guerra devia ser travada não só contra os militares sulistas, mas também contra a população civil, né, principalmente, e ele entendia também sabia bem que a guerra deveria constituir-se numa série de batalhas nas quais haveria baixas enormes, até um ponto em que o número de baixas do Sul seria insubstituível. Então é uma questão até demográfica, por isso ele ficou conhecido como Bloody Grant, o Grant Sangrento. Ele operou e em um ano e meio ele tornou a posição do Lee no norte da Virgínia insustentável, levou à rendição em Appomattox. Uns falam Apomatox, enfim, Apomattox. E o Lee se rendeu. Seus últimos anos de vida ele se tornou reitor, presidente de um colégio, e ele vai escrever artigos, evidentemente não necessariamente para defender a escravidão, mas para defender a honra dos oficiais do Sul, de forma que quando ele morre, acho que ele morre em 1878, não tenho certeza, ou 68, não, é 78. Ele é um herói do Sul, né, e a principal figura geográfica desse movimento da causa perdida. Há muitas estátuas do Lee ao longo do Sul, e a principal ficava justamente nessa rua de Richmond, na Virgínia, que é a Monument Street, mas também Knoxville, em Knoxville também tinha uma série de estátuas de líderes militares confederados. Então o que é enaltecido nessa mitologia não é o senhor de escravos, ainda que muitas vezes o senhor de escravos e oficial coincidissem, mas é o oficial, oficial galante, com princípios. Agora, os nortistas fizeram uma pequena sacanagem com Lee depois da guerra, né? Porque uma das fazendas dele ficava em Arlington, que é ali do outro lado do Potomac, em frente a Washington. E já em 1863 Arlington foi elevado à condição de cemitério nacional, ou seja, soldados da União poderiam ser enterrados lá, né? O que inviabilizou completamente, porque para ser Cemitério. Essa propriedade foi expropriada e também, mesmo que ele conseguisse reverter, ninguém vai querer morar no cemitério. Então, digamos assim, foi um pouco a vingança da União em relação ao Lee, né? Mas ele seguiu como essa figura muito, muito prezada, né? Muito enaltecida no Sul. Eu estive tanto em Richmond como em Lotseville, por volta de 2024, quando a maioria das estátuas havia sido retirada. Então o que você tem são as plataformas, os pedestais dos monumentos, mas não tem mais as estátuas. Processo muito rápido, na verdade, muito ligado aos movimentos de contestação de direitos civis já no começo do século 21.

Voz B:Falando em direitos civis, etc. Eu queria entender porque assim, a gente até agora a gente falou muito dos argumentos do mito da causa perdida de um ponto de vista de construção de memória, de negacionismo e tal, mas eu queria entender como é que esse mito acabou contribuindo com questões mais concretas, por exemplo, no estabelecimento de leis segregacionistas, como é que esse contribuiu para essa, para certas legislações ou um segregacionismo mais concreto, né?

Vitor Izecksohn:Na verdade, assim, os símbolos confederados são muito populares, né? Por exemplo, você vai, sei lá, no Walmart e tem lá a bandeirinha confederada. Você pode comprar uma, movimento de separação, tipo, como é que seria se a Inglaterra tivesse bandeiras do IRA vendendo nas suas lojas de departamento, né? Então esses símbolos, assim como uniformes e bandeiras, eles são muito fortes em todo o Sul. O que ocorre é que ao longo do século 20 o Sul construiu toda uma mitologia baseada nessa ideia, né, de que enfim não foi uma guerra contra a escravidão, mas ao mesmo tempo o Sul discriminava barbaramente através de leis estaduais. Então você tinha a 14ª Emenda e a 15ª, que garantiu cidadania e direito de voto, mas no Sul, os negros, essas emendas federais sofreram a ação contrária de constituições estaduais, que tendiam a diminuir barbaramente os direitos do negro, principalmente os dois direitos fundamentais, que são o de votar e o de ser membro do júri, né? Então o negro não podia votar, portanto não podia eleger o xerife do condado e não podia participar do júri mesmo num crime que tivesse sido cometido contra um negro, né? Então houve um linchamento, né? E aí você tem um júri só de brancos e evidentemente esse júri tende a decidir em favor dos assassinos. Então assim, é uma situação muito complicada e E essa situação era sustentada também pela total dominância hegemônica do Partido Democrata no Sul. Ou seja, após a Guerra Civil, o Partido Republicano tentou se constituir no Sul com essa aliança sobre a qual falei antes, mas com o processo de redenção, o Partido Democrata se tornou um partido praticamente único no Sul, de forma que a eleição mais importante não era a de governador, que colocava disputa entre um democrata e um republicano, mas era a primária do Partido Democrata que escolhia qual candidato seria o candidato oficial ao governo e, portanto, o vencedor. Então, o Partido Democrata, ele era um partido único e um partido que sustentava o Jim Crow e todas as leis, todas as leis segregacionistas, né, supremacistas do Sul. Essa é uma história que o Partido Partido Democrata gostaria de esquecer, vamos dizer assim. E o Partido Democrata no Sul, ele ainda tinha uma ferramenta mais poderosa, que era a representação do Sul no Senado, né? Todos os estados do Sul, cada um deles elegia 2 senadores democratas, né? Então, numericamente, esse quantitativo, ele dava o direito de veto no Senado a qualquer medida que tentasse iniciar uma lei de direitos civis, né? Então, por exemplo, acho que em 1949, o presidente Truman, que era, ele era um democrata, ele tenta passar uma lei desse segregacionista, pelo menos para os veteranos de guerra, e ele é derrotado pelo seu próprio partido. Então o Sul tinha essas ferramentas políticas que eram muito poderosas, né, no sentido de barrar a legislação. Isso constituiu certamente uma barreira para qualquer tentativa de avanço. Então, por exemplo, a Suprema Corte chega a uma decisão em 1955 que o transporte público não pode ser segregado, né? Mas essa decisão não é referendada pelo Senado, então fica meio impraticável. E isso só foi, só houve a possibilidade de E mesmo o movimento dos direitos civis, ele não conseguia de fato vencer, com toda a sua mobilização, essa barreira. Então, a única maneira de ultrapassar isso foi alcançada quando um senador sulista do Texas, o Johnson, chega à presidência. Lyndon Johnson chega à presidência após o assassinato do John Kennedy em novembro novembro de 1863. E com o Johnson, ele passa, aprova tanto o Civil Rights Act, o novo, quanto o Voting Act. Então o Johnson um pouco implode essa barreira no Senado, mas ao mesmo tempo ele destruiu a unidade do Partido Democrata. Sulistas vão se retirar do partido, né, e um partido vai rachar entre o pessoal dos direitos civis, os proponentes, os militantes, e os antigos membros do New Deal, né, que vinham lá do presidente Roosevelt. Então, o Partido Democrata nunca se recuperou bem dessa cisão, mas ela permitiu avançar a questão do voto no Sul, né, que foi uma arma importante para começar a integrar integrar o negro no Sul a partir do final dos anos 60, mas ainda foi um caminho muito complicado, né? Não dá pra gente entender os movimentos civis, pelos direitos civis, sem pensar no resultado da Segunda Guerra Mundial, né? Porque os Estados Unidos entraram na guerra para destruir o nazifascismo e o regime absolutamente racista da Alemanha, e no entanto eles voltam da guerra, alguns soldados Os negros lutaram na Segunda Guerra Mundial e eles voltam, e voltam muitas vezes pro sul, onde são absolutamente discriminados. Então o movimento começa a se fortalecer por conta disso, por conta das tentativas do governo federal de criar medidas antissegregacionistas. Uma coisa que o Truman consegue é dessegregar as forças armadas também, em 48, 49. Você pode ter negros e brancos servindo nos mesmos regimentos e vivendo nos mesmos quartéis, mas se um negro tem que viajar para o sul de carro, para sua nova base militar, ele não consegue parar para comer ou para ir ao banheiro em vários estabelecimentos ao longo da estrada, porque esses estabelecimentos são segregacionistas. Então, era uma situação muito absurda, ainda mais se levando em conta Levando em conta que os diferentes governos dos Estados Unidos se apresentavam como líderes de uma cruzada mundial pela democracia. Então, dentro do próprio país havia essa contradição gigantesca. Evidentemente, o Senado era uma ferramenta poderosa do Sul para controlar e barrar a passagem de qualquer legislação de caráter integracionista.

Voz C:Contexto que chega-se ao Acordo de 1850, um conjunto de 5 leis diferentes que organizava fronteiras e tentava delimitar a escravidão, principalmente a determinação de que pessoas escravizadas que fugissem para estados livres deveriam ser retornadas aos escravizadores.

Voz B:Nós até o momento falamos um pouco sobre o papel de governos, fossem eles estaduais ou o próprio Senado, como você acabou de mencionar, mas também alguns grupos da sociedade civil, na medida do possível, colaboravam para insistência nesses pontos do mito da causa perdida, como por exemplo a United Daughters of the Confederacy e outros grupos grupos, né? Então eu queria pedir para você explicar como organizações como essa e outras que você queira mencionar ajudaram a espalhar o mito da causa perdida através de livros didáticos, associações memoriais, monumentos e por aí vai.

Vitor Izecksohn:Essas associações eram grupos de pressão muito poderosos no Sul, né? Muitas vezes envolvendo, como no caso das Filhas Unidas da Revolução, eram grupos mais femininos, mas enfim, é muito que durante a Guerra Civil o papel da mulher na Confederação foi muito restrito, mas que eram fundamentais para manter também os veteranos unidos da Confederação. Enfim, havia muitos grupos que se esforçavam por defender essa visão idílica do conflito e da posição do Sul, e que também eram importantes na formulação de currículos escolares curriculares, então os currículos escolares estaduais no Sul acabavam reproduzindo essa mitologia de que o Sul se defendeu de uma agressão do Norte, que ele não era— a Confederação não era um governo que defendia a escravidão. Elas foram muito, muito fortes nessa formulação e consolidação dessa visão muito estreita da história dos Estados Unidos. E também via escolas historiográficas, né? A mais famosa é a Downing School, escola ligada a um professor de Columbia, Downing, né? Esqueci o nome completo dele, a memória tem falhado um pouquinho. Mas enfim, essa escola se debruçou principalmente na questão da reconstrução. Então ela tendia a apresentar a reconstrução não como experiência de integração social e de como uma reforma, mas como uma intervenção indevida do governo federal sobre os estados e um processo que teria colocado negros irresponsáveis nessa informação política na posição, em posições de poder. Então ela via a Reconstrução como um período muito negativo da história americana, né? Essa visão é muito forte em dois filmes filmes importantes, né, o Nascimento de uma Nação, que é um filme mudo de 1917 de um cara chamado Griffith, e também O Vento Levou, filme de 1939, né, que defendem realmente essa ideia do paraíso, né, do Sul pré-guerra como um paraíso de relações, vamos dizer, harmônicas e pré-capitalistas, que foi destruído pela guerra. Então essas associações tiveram esse peso e essas questões penetraram não só nos currículos escolares, mas em correntes mesmo historiográficas já mais potentes que foram críticas da reconstrução. Então, na década de 30, o W.E.B. Du Bois, né, que é o famoso líder negro de Nova York, ele produz, ele publica um livro que é Reconstruction in America, em que ele tenta ressituar o papel da reconstrução como um processo fundamental para criar um país mais harmônico, e a falha desse processo como uma enorme sina sobre a situação social dos Estados Unidos, a pobreza, até mesmo no Sul. Mas o livro do Du Bois não teve penetração no mundo acadêmico naquele momento, momento, né? E aí, só em 1988— não, já houve outros livros, né, que já realçaram a reconstrução na década de 60, mas o mais enciclopédico foi o publicado pelo Eric Foner, né, que é Reconstrução: A Revolução Americana Inacabada, em que ele presta uma homenagem ao Du Bois e ele faz uma pesquisa gigantesca sobre a reconstrução, suas conquistas Brasil, a sua derrota. Então esse livro de fato recolocou a Reconstrução no mapa, né? Ele foi tão importante que o próprio Spike Lee vai chamar a sua produtora de 40 Acres e Uma Mula, que é um aspecto importante do início da Reconstrução. Então aí o tema voltou e certamente, né, desde o impacto dos historiadores da década de 1960, ficou muito difícil você separar a secessão e guerra do Sul da questão da escravidão, pelo menos no meio de historiadores respeitados, né. Agora você tem mais recentemente governos republicanos mais conservadores no Sul, principalmente na Flórida, né, tentando rever novamente esses currículos e aliviar um mudar um pouco o papel do sul. É um movimento que tá em curso e que é uma coisa muito americana, né, porque parte do direito de um estado rever até mesmo seus livros escolares.

Voz B:Você mencionou agora pouco o livro, o filme, né, O Nascimento da Nação, do D.W. Griffith. E eu tava aqui pensando sobre filme porque eu tenho impressão, não sei se eu tô equivocado ou não, de que talvez a peça de propaganda de Da Causa Perdida, de Elementos da A armadilha mais eficiente e popular de todos os tempos teria sido o filme E o Vento Levou, que por um acaso foi inspirado num livro que segue uma linha política semelhante, né?

Vitor Izecksohn:A autora é Margaret Mitchell, é uma georgiana.

Voz B:E assim, esses dois filmes que você mencionou, caso esse filme que você mencionou e o E o Vento Levou, né, eles não foram as únicas manifestações artísticas que ajudaram a popularizar alguns pressupostos desse mito. Aí eu queria pedir para você explicar que outras obras, literatura, cinema, cinema, o que você lembrar, né? Que outras obras você acha que tiveram um papel importante para reforçar esse mito nessa consciência popular, digamos assim, nos Estados Unidos, e que ajudaram a sobrevivência dele, né?

Vitor Izecksohn:É, o principal veículo, né, são os westerns, principalmente os westerns clássicos, John Wayne, porque normalmente o herói desses filmes é um antigo confederado que vai pro oeste iniciar uma nova vida. Então os heróis, principalmente do John Ford, que foi um diretor muito importante, são na maioria das vezes sulistas.

Voz B:O primeiro filme que me vem à mente quando você falou em westerns foi o Rastros de Ódio.

Vitor Izecksohn:É, é o filme clássico nesse sentido, em que o John Wayne, que faz o personagem principal, ele é um texano que volta pra casa anos depois da guerra e, enfim, sofre um ataque de tribos indígenas ali. E é um dos filmes mais importantes do John Ford, até porque ele tem um argumento muito forte. Mas certamente é isso, personagem no Western é sempre um confederado que volta. E a coisa curiosa é que não aparecem negros, né, no Oeste. Esse processo evidentemente começou a ser revisto a partir dos anos 80, eu acho a partir de Silverado, que você tem a produção de westerns que já mostram negros atuando, mas realmente ali houve um forte apagamento de que houve um western negro em paralelo com o western branco. Então, eu acho que nos westerns é muito forte nesse sentido. Em geral, você tem no cinema americano até o final dos anos 60 uma sociedade Na verdade, seria uniforme, só de brancos, onde não se discute muito a questão racial, mesmo valendo para muitas séries de televisão. Então você tem um apagamento dessa questão. E, bom, você tem vários livros publicados no Sul sobre a causa confederada, romances que são muito expressivos também, antes da guerra, antes da Segunda Guerra Mundial, Geral, então tem uma bibliografia boa nesse sentido, boa que eu digo volumosa, que tende a mostrar o sul. Agora, a questão que eu acho do Vento Levou que foi curiosa é porque a atriz negra que faz o papel da escrava babá foi a primeira atriz negra a ganhar um Oscar, então apesar do filme ter essa notação fortemente racista.

Voz B:Foi o primeiro prêmio do Oscar para um negro, um ator, atriz negra, né, que foi segregada na cerimônia inclusive, né, tiveram que botar ela numa mesa lá do fundo e tal. E tem umas histórias de que a produção do filme ela era segregada também, e isso só diminuiu um pouco porque o Clark Gable deu com o pau na mesa e falou: ou a gente integra isso aqui ou eu saio do filme.

Vitor Izecksohn:Isso, o Clark Gable Era fundamental para o filme. Então houve essa questão. A outra curiosidade é que o filme foi lançado em 1939, quando a Segunda Guerra Mundial estava para começar. Então é uma questão assim bastante forte, né? Por outro lado, O Nascimento de Uma Nação é um filme que foi exibido na Casa Branca, né, para o presidente Wilson. Na época, os movimentos organizados negros tentaram fazer um boicote, mas não conseguiram. Além disso, o filme apresenta uma série de inovações técnicas que estimularam muito a— é um filme mudo, mas com várias inovações técnicas. Isso estimulou muito também a presença. Então, um desses casos que você vê hoje em dia, o filme é claramente racista, ele vai além defende a Ku Klux Klan, né, e no próprio Templo de voo também há uma defesa velada ali da Ku Klux Klan, porque enfim, para combater o bandidismo, etc., essa ideia de ordem que é muito forte. O Sul realmente ele ganhou até esse momento, ele tinha sido vitorioso na memória da guerra, né, inclusive havendo o apagamento de que a guerra se deveu à escravidão, de que os escravos foram um elemento importante no esforço de guerra sulista e de que um número enorme de escravos fugiu do Sul durante a guerra. Então você tem esse apagamento. Agora, só para andar um pouquinho, há um documentarista muito importante ligado à TV pública americana, PBS, que é o Ken Burns. Ele já fez vários documentários documentários.

Voz B:Gosto muito dele.

Vitor Izecksohn:É importante. O primeiro documentário dele foi sobre os Shakers, que é uma designação religiosa, né? Mas o segundo, e que foi um sucesso estrondoso, é o Civil War, né? E no episódio final, você pensa, bom, cara esclarecido, é um cara progressista, né? No episódio final do Civil War, ele termina mostrando imagens da união de nortistas e sulistas, né? Então, basicamente, ele recupera filmes de 1815, quando houve uma grande reunião em Gettysburg, né, com veteranos ainda vivos do Norte e do Sul, que é o mito que faz parte da causa perdida.

Voz B:1915, no caso, 1915, desculpe, que é o caso do mito da reunião, né?

Vitor Izecksohn:Bom, então todos foram heróis e 50 anos depois você tem a reunião desses dois grupos. E isso basicamente foi reconhecido, uma crítica que o próprio historiador Eric Foner fez, que disse: olha, o cara faz esse documentário inteiro e no último capítulo, que é a síntese, ele volta ao tema da causa pela união nacional, que é um viés que já aparece inclusive no filme Nascimento de uma Nação, que normalmente envolve o casamento de um homem nortista com uma mulher pobre sulista. Então mesmo numa obra que você diz, bom, é progressista, ela derrapa nesse momento, porque ela relaciona a união a um processo de aproximação dos dois e não da ideia de uma vitória que forjou uma nação diferente. Então acho isso muito impressionante no que é Burns, né? Eu não sei se ele respondeu ao Foner, mas enfim, tá ali no último episódio, tá muito claro.

Voz B:O negócio tá tão entranhado em parte da história dos Estados Unidos, de como ela circula entre as pessoas, que até um cara esclarecido cai nessa, né?

Vitor Izecksohn:Impressionante.

Voz B:E até relevante você ter falado disso, porque a minha próxima pergunta tinha a ver com isso. Como você morou nos Estados Unidos Estados Unidos, já deve ter visitado várias vezes. Eu queria te perguntar sobre o quanto elementos do mito da causa perdida ainda circulam no discurso público dos Estados Unidos hoje, né? Não na historiografia, mas no debate público e manifestações públicas.

Vitor Izecksohn:Olha, é, na universidade é muito pouco, porque você tem, né, toda essa historiografia que vem de 60 anos para cá, que basicamente contradiz essa história, né? Mas convivendo às vezes com pessoas que não são historiadores, são pessoas, enfim, eu não gosto da expressão pessoa comum porque todo mundo é uma pessoa comum, né? Mas enfim, muitas vezes você ouve que a Guerra Civil foi desnecessária, né? Que a coisa poderia ter sido resolvida com uma evolução progressiva, né? Que o Sul não queria manter a escravidão, apenas ele entendia que naquele momento não dava para acabar. Então Então assim, senso comum, essa imagem é muito forte. Agora, do ponto de vista do período que eu morei lá, eu fui morar nos Estados Unidos em 1992, você já tinha muito forte as leis contra racismo, então era muito podado. O que a gente ouvia dentro da universidade frequentemente eram relatos de que a polícia tinha sido mais violenta em situações, por exemplo, que envolvia um aluno negro. Então, o aluno negro é preso com mais facilidade, né? Ele apanha, ele tem que provar que ele é um estudante. E a outra coisa no campus que acontecia também, porque todos os campos têm jornais, né? E todos esses jornais volta e meia têm reportagem de crimes, né? Então tem esse mito do negro estuprador, que era ainda muito forte na universidade, né? A ideia de que se houve um estupro, ele tinha sido cometido por um homem negro sobre uma mulher branca. Então essas questões eram mais visíveis. Agora, fora da universidade, o que dava para perceber é que a relação entre negros e brancos no nível mais cotidiano, mesmo no Norte, elas eram mais tensas, elas eram muito tensas. E não é à toa que houve aquela grande explosão em 1994, 92 em Los Angeles, né, por causa de uma agressão policial. Nem lembro mais o nome do indivíduo que foi.

Voz B:Eu acho que era Rodney King, né?

Vitor Izecksohn:Rodney King, teve aquele escândalo. Essas coisas eram muito evidentes. Uma outra coisa que eu me lembro foi quando houve o julgamento daquele ator que tinha sido jogador de futebol americano, J.O. Simpson, né? Então, J.O. Simpson, ele foi inocentado no julgamento e E era muito claramente dentro da universidade, é como se fosse uma torcida de futebol, né? Os funcionários brancos meio indignados e os funcionários negros comemorando a absolvição. Essa é uma coisa muito nítida desse período, o julgamento dele com a sua absolvição. Então são slides assim que eu tenho dessas questões. Agora, evidentemente, você vai para uma cidade grande americana, os negros são mais mais pobres, os bairros periféricos têm mais negro e imigrante, aí é muito claro, os conjuntos habitacionais basicamente são ocupados por negros, você tem o que eles chamam de uma política residual, ou seja, o governo federal dos anos 60 criou políticas de educação e habitação no sentido de tentar favorecer ou melhorar a situação do negro na sociedade, No entanto, essas políticas acabaram se tornando uma espécie de guetos. Então, a moradia acaba deteriorando, a escola que atende mais os negros não recebe tanto fundo porque os contribuintes daquele bairro, eles não têm uma renda alta, né? Então, isso é muito claro socialmente, essa posição complicada. E o que eu percebia lá era uma linha de cor ainda forte. Na sociedade. Então, negro é negro, branco é branco. Lógico que legalmente isso não funciona mais, mas assim, na ação das autoridades policiais, isso é muito evidente. E também, quando a população pede a formulação de políticas de lei e ordem, claramente são políticas para reprimir a população negra, aí não tem dúvida, mas aparentemente eles não têm mais, nem no sul nem no norte, é uma sociedade segregada legalmente como era até os anos 60. Isso aí acabou. Mas uma coisa é, assim como a reconstrução fracassou logo no começo quando ela não foi capaz de prover os ex-escravos com terra, a política dos direitos civis ela esbarrou muito profundamente na questão educacional. Quer dizer, se você não melhora o financiamento escolar dos grupos desfavorecidos, então residualmente aqueles grupos vão acabar tendo uma educação de pior qualidade, o que infelizmente aconteceu lá.

Voz B:E uma última pergunta que eu queria fazer diz respeito à historiografia, né, no caso, quais obras de historiadores você acha que nas últimas talvez 40, 50, 60 décadas mais contribuíram contribuíram para derrubar esses pressupostos do mito da causa perdida, né?

Vitor Izecksohn:Deixa eu lembrar só inicialmente uma questão, né, que o culto do Lincoln que culminou com a construção do memorial, da estátua dele em Washington, é uma das poucas memórias unionistas que foi capaz de fazer frente à causa perdida, né? Bom, tem muitos livros recentes, né? Eu citaria talvez como um dos livros mais importantes o David David Blight, Race and Reunion: The Civil War in American Memory, é um livro de 2001 e é um divisor de águas nesse sentido. O David Blight é o professor branco da Universidade de Yale. A gente pode falar um pouco também da Angela Davis, Estúpido: Racismo e o Mito do Estuprador Negro. Você tem as memórias do Frederick Douglass, né, que são recentemente reeditadas, né. Tem um livro do Adam Bombi chamado The False Cause: Fraud, Fabrication, and White Supremacy in Confederate Memory. E tem dois livros mais recentes, um deles é da Stephanie McCurry, esse aqui não sei se dá para ver, que chama Confederate Reckoning: Power and Politics in the Civil War South, que apresenta capítulos muito interessantes sobre a construção da causa perdida e principalmente a Anna Sarah Rubin, que é A Shattered Nation: The Rise and Fall of the Confederacy, que é um livro que dá mais atenção à questão da construção da memória sulista no pós-guerra, em como o nacionalismo sulista se fortaleceu no pós-guerra, porque durante a guerra havia muitas divisões no Sul, mas depois da guerra ficou essa imagem mais forte do Sul como uma causa importante perdida e tal. E a Nassara Rubin também analisa bastante, já dentro dessa questão de estudos de gênero, o papel das associações de mulheres no fortalecimento desse mito. Ela faz um trabalho de gênero que eu acho bom, na maneira como ela consegue articular o papel da mulher no pós-guerra em comparação com o papel das mulheres durante a guerra, né? Porque as mulheres eram os principais atores durante a guerra nos processos, nos protestos, né, pela carestia, pela falta de alimento, pelo recrutamento excessivo, né? Então foram, de certa maneira, uma força disruptiva contra a Confederação. Mas depois da guerra, guerra, elas são reincorporadas, né, um elemento aglutinador desse passado que teria sido heroico do Sul. E eu esqueci de falar uma outra coisa também: o mito da causa perdida também parte do princípio que vários pais fundadores, né, como Washington, Jefferson, Madison e outros, eram sulistas, basicamente virginianos, né. Isso é República Original. O que aconteceu durante a Guerra Civil foi uma tentativa de reeditar a república original. Então acho que esses livros, eles cobrem bem o debate. Eu gosto muito do David Blight, então é uma pena que nem ele nem o Eric Foner tenham sido traduzidos para o português. O Eric Foner, ele ainda fez um, ele tem um texto, um livro em português que é, o título é "Nada Além da Liberdade". Um livro interessante. Mas o Reconstruction não foi traduzido e nem mesmo depois quando ele fez uma coisa interessante, porque o Reconstruction é um livro de quase 800 páginas, né, e mais tarde ele publicou a Short History of Reconstruction, que era uma tentativa de fazer o argumento mais simples para vender para alunos de graduação, né, mas mesmo a Short History não foi traduzido para o Brasil, português do Brasil. Eu acredito que tenha sido traduzido para Portugal, mas certamente aqui não chegou, o que também denota, né, esse grande desinteresse da Academia Brasileira pela história dos Estados Unidos.

Voz B:O norte contra o sul. Irmão contra irmão. A Guerra Civil Americana é a mais sangrenta de sua história. A vitória vai exigir muito mais que poder de fogo no campo de batalha. Ultimamente eu tenho perguntado aos professores que participam do programa como eles abordariam os temas que a gente trata aqui em sala de aula, né? Mito da causa perdida dificilmente apareceria abordaria no ensino básico, mas no caso do ensino superior, numa aula de história contemporânea ou talvez em um tópico de história dos Estados Unidos, como é que você abordaria esse tema com os alunos? Para caso algum professor que tá ouvindo queira fazer isso.

Vitor Izecksohn:Eu acho que ele pode ser abordado justamente no módulo que tem que tentar se cobrir a Guerra Civil e suas consequências, né? Então você vai estudar o pós-guerra, a reconstrução, a redenção e o mito biográfico e nesse sentido tentando mostrar como as interpretações mudam. Acho também que poderia entrar num curso comparativo em que se estudasse diferentes regimes políticos que exerceram racismo como uma política central. Então seria o caso do nazismo, o fascismo, o apartheid na África do Sul, o sul dos Estados Unidos, enfim, todos esses casos mais globais. Se poderia pensar até num livro condensado que pudesse ter seções pequenas entre esses tópicos. O assunto, por exemplo, genocídios, você tem livros nos Estados Unidos, principalmente o trabalho do Homer Bartov, que estudam diversos genocídios. Nazista, o genocídio dos armênios, o genocídio do Camboja, né, que é uma tentativa de tipificar. E eu acho que no Brasil poderia fazer isso com regimes políticos racistas, poderia se tentar.

Voz B:Bom, normalmente eu termino o episódio pedindo sugestão de 3 livros. Como já foram citados muitos livros aqui no final, só diz para gente, para o pessoal que tá ouvindo, qual deles você sugere para ser o primeiro, né, a galera que vai mergulhar nesse buraco livro do Coelho aí?

Vitor Izecksohn:Olha, uma galera mais pesquisadora, eu sugiro David Blight, Race and Reunion, né? E o pessoal mais militante, Angela Davis, né? Estupro e Racismo e O Mito do Estuprador Negro. Acho que são livros que cobrem o tópico de uma maneira boa, ampla. Ainda havia um livro do Henry Louis Gates, que é o Reconstruction White Supremacy and the Rise of Jim Crow, mas ele já é mais datado, né? Eu acho que esses aí dão um panorama muito melhor. E assim, há livros didáticos que são oferecidos para graduação nos Estados Unidos, né, que são coletâneas de documentos, sei lá, Coping with Racism ou Racism in American History: Texts and Documents, que são normalmente tem um texto introdutório e depois por sessão entram vários documentos, então pega diferentes fases da história dos Estados Unidos, mas aí evidentemente tem que ser um acesso buscado na internet porque não se vai encontrar esse material no Brasil, né? Eu acho que eu já falei sobre isso outras vezes, agora a gente está num período muito complicado que com a facilidade que se tem de baixar, né, esse inebriou muito o mercado mercado editorial. Mas o mercado editorial universitário americano, ele favorecia muito um tipo de reading book, que são trabalhos publicados para alunos de graduação. Então é um nicho editorial, né, que em vez de você ler trabalhos, capítulos de livros, né, de alguma maneira sintetizam, você já lê um trabalho preparado sobre um tópico para graduação de graduação, que normalmente inclui documentos. Então, esse é o material que a gente não tem aqui com muita facilidade. A gente tem algumas editoras que têm tentado publicar sínteses mais adaptadas para o aluno de graduação. Então, isso tem, né, desenvolveu, e a gente tem sites como o seu também que avançam muito nesse trabalho de divulgação. Acho que é por aí que a coisa talvez Nesse sentido, né? Mas esse material é que eu citei, esses livros, acho que podem iluminar um pouquinho o caminho.

Voz B:É, e eu vou deixar de sugestão aqui um livro que eu até não cheguei a finalizar, mas o que eu li eu gostei bastante, que é o The Myth of the Lost Cause, do Edward Bonacampi III. Subtítulo traduzindo é: Por que o Sul lutou a Guerra Civil e por que o Norte venceu? Acaba sendo um livro bem sintético em relação a esse tópico em particular, e como é um daqueles feitos para derrubar ponto a ponto, pode acabar sendo interessante para quem tem curiosidade desse tópico em específico. Vitor, alguma consideração final?

Vitor Izecksohn:Não, eu não tenho. Acho que a entrevista cobriu basicamente é tudo, né? Agora, é muito interessante você perceber como até um período relativamente O Oriente Próximo, a historiografia e os livros didáticos nos Estados Unidos eram tão conservadores em relação a esse tópico, né, e a enorme mudança que ocorreu. No Brasil também houve uma mudança muito grande nos livros didáticos, principalmente nos anos 70 e 80, foi muito forte, somente na apreciação do período da ditadura, mas em outros períodos também. Agora, realmente, que é o material de curso nos Estados Unidos, demorou um pouco para mudar, né, para se transformar no cânone. Então eu acho que isso pode ser interessante para alguém que tem interesse de estudar mudanças de cânone e interpretação numa determinada escola historiográfica. Então a historiografia dos Estados Unidos é muito empírica e tal, em geral pouco teórica, mas tem essa uma forte mudança no entendimento da escravidão e do racismo. De fato, os livros didáticos meio que abandonaram o nacionalismo metodológico, evidentemente que ainda é muito centrado na história dos Estados Unidos, não na história mais tridimensional, global, mas assim, já mudou bastante em termos dessa interpretação clássica que veio realmente desses movimentos da causa perdida.

Voz B:Então é isso, gente, muito obrigado por ter ouvido até o final. Não se esqueçam de dar uma olhada na descrição do episódio com vários dados relevantes para vocês, incluindo ali os meus cursos, Instagram e tudo mais. E claro, continuem compartilhando o História FM para outras pessoas, em particular esse episódio que é um tema tão pouco discutido aqui no Brasil e que poderia receber um pouco mais de atenção. E eu imagino que você que ouviu até o final concorda comigo. Então é isso, muito obrigado e até Até a próxima!

Vitor Izecksohn:Esse podcast foi editado por Samuel Gambini, samuelgambiniaudio.com.

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