248 Ditadura na Espanha: os anos de Francisco Franco no poder
A Guerra Civil Espanhola, iniciada em 1936, colocou em confronto o governo republicano e as forças nacionalistas lideradas pelo general Francisco Franco, em um conflito marcado pela intensa polarização política e pela intervenção de potências estrangeiras. A vitória franquista em 1939 deu início a uma longa ditadura que combinou repressão política, perseguição aos opositores, censura e controle das instituições, ao mesmo tempo em que buscava consolidar uma nova ordem política e social na Espanha. Durante as décadas seguintes, o regime passou por diferentes fases, enfrentando o isolamento internacional do pós-guerra, aproximando-se posteriormente dos Estados Unidos e das potências ocidentais no contexto da Guerra Fria e promovendo transformações econômicas que alteraram profundamente a sociedade espanhola. A morte de Franco, em 1975, abriu caminho para a transição política que levaria ao restabelecimento da democracia, mas o legado da ditadura permaneceu presente na política, na sociedade e nas disputas de memória da Espanha. Convidamos Francisco Carlos Palomanes Martinho para analisar a formação e o funcionamento da ditadura franquista, seus mecanismos de repressão e controle, as transformações políticas e econômicas ocorridas ao longo de suas diferentes fases e o processo que levou ao fim do regime e à transição democrática espanhola.
Roteiro: Icles Rodrigues
Edição: Samuel Gambini
Instagram: @iclesrodrigues
PIX: leituraobrigahistoria@gmail.com
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- A ascensão da Segunda República Espanhola e seus desafios iniciaisqueda da monarquia·ditadura de Primo de Rivera·eleições municipais republicanas·radicalização política
- A figura de Francisco Franco e o golpe de Estado de 1936origem galega de Franco·carreira militar no Marrocos·militares africanistas·assassinato de Calvo Sotelo
- A Guerra Civil Espanhola e o apoio internacional aos lados em conflitoapoio da União Soviética e México·apoio da Itália e Alemanha·pagamento de dívidas de guerra·cultura de guerra franquista
- As bases ideológicas do franquismo e o papel central da Igreja Católicanacional catolicismo·inspiração no fascismo italiano·Falange como partido único·laicização e deslaicização do Estado
- A transição democrática pós-Franco e os legados do franquismo na Espanhamorte de Franco em 1975·transição liderada por quadros do regime·Pacto de Moncloa·políticas de memória e reparação
- O isolamento internacional da Espanha e sua reinserção na Guerra Friasimpatia ao Eixo na Segunda Guerra·Divisão Azul em Stalingrado·reaproximação com Estados Unidos·modernização econômica e social
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Ditadura na Espanha. Como é que foram os anos de Francisco Franco no poder na Península Ibérica, mais precisamente na Espanha? Esse é o tema de hoje do História FM. Eu sou Iclis Rodrigues e para conversar conosco sobre esse assunto, mais uma vez aqui conosco, o professor Francisco Martim, a quem eu passo a palavra para se apresentar para vocês. Então seja muito bem-vindo, Francisco, fica à vontade para se apresentar para o pessoal.
Boa tarde, Iclis, boa tarde a todas e todos que estão nos acompanhando. Eu sou Francisco Martinho, professor titular do Departamento de História da Universidade de São Paulo, e no Departamento de História eu trabalho especificamente com história ibérica e tenho desenvolvido pesquisas sobretudo a respeito do caso português, mas enfim, nas minhas aulas também tenho trabalhado bastante sobre o caso espanhol. E sou sempre pesquisador do CNPq, que é o nosso Conselho Nacional de Desenvolvimento Tecnológico, Científico-Tecnológico, e sou bolsista do CNPq também.
Então é isso, vamos conhecer um pouco mais o período franquista da Espanha, depois quero dar um recado para vocês. Se você quer colaborar para esse podcast continuar existindo, Você pode fazer isso em apoia.se/obriga-historia, aliás, link tá aqui na descrição, e você pode fazer isso com qualquer valor a partir de R$2 por mês. Com R$2 você tem spoiler dos episódios que vêm pela frente e acesso ao mural de recados, etc. R$5 por mês você ouve os episódios com antecedência, pode baixar pra ouvir em qualquer aplicativo e não ouve os anúncios automáticos do Spotify, entre outras recompensas que você pode olhar lá no site.
Os nossos novos apoiadores e apoiadoras são: Marcos Eusébio, Arthur Inácio, André Lopes, Jefferson Ribeiro e Jefferson Batiste. Muito obrigado, pessoal, é graças a vocês que esse programa existe, e se você que tá ouvindo ainda não apoia, considere a possibilidade, o link tá ali embaixo na descrição. E você pode apoiar também pela chave Pix leiturabrigastoria@gmail.com, sem recompensas, a chave Pix tá aqui embaixo também na descrição.
No dia 18 de julho de 1936, ocorre um golpe de Estado contra a República Espanhola. Quem articulou este golpe foram os falangistas, que haviam perdido a eleição para um republicano de esquerda chamado Manuel Azaña Díaz. Neste momento, o frágil tecido social espanhol se viu rompido de vez. Eu não sabia, por onde que a gente ia começar essa conversa, fiquei um pouco na dúvida de qual seria o um momento para a gente começar a falar, mas eu achei que seria importante começar por algum contexto e tal.
Então eu quis começar pela Segunda República da Espanha, ali entre 1931 e 1936, mais ou menos. Eu queria entender o que que foi esse período e quais os desafios que essa república enfrentou a ponto de não ter resistido por muito tempo.
Bom, a Segunda República Espanhola, ela ela é consequência de um processo de desgaste e queda da monarquia. É, por que que a monarquia caiu? A monarquia caiu porque a Espanha viveu entre 1923 e 1930 sob um regime ditatorial também, e também de um general, como era o caso do Franco. No caso aqui, essa primeira ditadura, vamos dizer assim, era do General Primo de Rivera, que fez um pronunciamento, um golpe de Estado na Catalunya, e foi apoiado pela monarquia, foi apoiado pelo rei.
Então isso, ao final do regime Primo de Rivera, com desgaste do regime Primo de Rivera, a monarquia acompanhou o desgaste do seu regime que ela apoiou, né, do governo que ela apoiou. Então há um plebiscito popular, há uma, quer dizer, na verdade há uma eleição municipal convocada pelo Primo de Rivera. Na eleição, na maioria dos municípios, venceram os republicanos, as várias facetas, os vários campos do republicanismo espanhol.
E isso leva à queda da ditadura, que depois trará, levará, desculpa, um legado importante para a ditadura do General Franco. Então a Espanha se instaura, quer dizer, como um regime republicano, como você falou, em 31, que era um regime naturalmente o apoio e a participação de vários campos políticos, à esquerda, mais à esquerda, mais à direita, etc., mas que vai adotando um conjunto de políticas importantes no sentido da laicização do Estado, da ruptura, portanto, com aquele padrão católico predominante do conservadorismo espanhol.
Ademais, a partir já quase do final da República, esse regime republicano tem um apoio e uma participação cada vez mais incisiva da esquerda, de grupos à esquerda. Então a Espanha assiste a uma escalada de radicalização à direita e à esquerda muito grande. Os campos republicanos se encontravam crescentemente divididos, né, e a divisão nesses campos permitiu um crescimento e um fortalecimento cada vez maior dos campos, dos segmentos à direita na política espanhola.
É nesse contexto que os militares vão se articulando, com papel predominante dos chamados militares africanistas, que serviam, portanto, no Marrocos, no protetorado espanhol no Marrocos. E isso, quando tem o assassinato de um líder católico, Calvo Sotelo, quando tem o assassinato do Calvo Sotelo, isso é o estopim para o golpe de Estado e, consequentemente, para a ditadura que vai se abrir. O problema do golpe de Estado, que é um golpe de Estado liderado pelo General Franco, a partir do Marrocos e que se translada, né, para Espanha e tem como estratégia fundamental a tomada de Madri.
Essa tomada de Madri, ela fracassa, e é o fracasso da tentativa de tomada de Madri que abre caminho para uma guerra civil muito dura, né, entre 1936 e 1939.
E aqui eu queria dar um passo para trás e te perguntar sobre o golpe em 36 e sobre a figura do Francisco Franco, né? Queria entender como é que foi o golpe, mas até antes de entender como é que foi o golpe, eu queria entender quem era o Francisco Franco, né? Qual é o background dele? De onde é que ele aparece?
Francisco Franco é um general de origem galega, aliás, nascido na Galícia. Isso é importante dizer porque a região historicamente mais conservadora e mais católica da Espanha, que fez toda a sua carreira no meio militar e que A partir de um determinado momento da sua carreira, ele ainda não era general, era major, se eu não estou em erro, ele vai para o Marrocos para servir no Marrocos e lá ele se credencia como um general importante, como uma liderança importante entre as várias famílias das Forças Armadas espanholas.
E é isso que leva ele, Franco, a liderar o processo. Tem um dado que é um dado muito curioso que ainda talvez seja pouco explorado pela historiografia, que é o fato deles serem chamados de militares africanistas. Isso significa, em termos muito objetivos, que se trata de militares que demonstram uma nostalgia do colonialismo espanhol e que pretendem manter o Marrocos, ou o protetorado espanhol no Marrocos, sob o domínio espanhol, e que vão depois, durante a ditadura, construir uma narrativa acerca do passado colonial, do passado glorioso espanhol, atacando o liberalismo do século 19 como sendo o responsável pela queda do poderio colonial espanhol.
Então é nesse contexto, ou em torno dessas características, portanto, um general católico tradicionalista que vem do Marrocos, que se consolida como um militar importante no Marrocos, que a partir dali, com apoio, como nós sabemos, da Itália e da Alemanha, primeiro da Itália e depois da Alemanha, eles vão tentar um golpe, ocupar Madrid, tentar ocupar com as suas forças armadas Madrid. O golpe fracassa porque os republicanos resistem e resistem bem.
E é a partir daí então que esse campo nacionalista é obrigado a recuar momentaneamente e retorna de forma mais incisiva e abre aí o caminho caminho para guerra civil.
Muito do que explica o começo da ditadura franquista tá relacionado com a guerra civil, e nós já temos um episódio inteiro sobre a guerra civil aqui. Mas para não obrigar o pessoal a ouvir outro episódio inteiro para entender isso, eu queria pedir para você resumir para o pessoal entender o desenrolar dessa guerra, né? Quem eram as facções, mudanças de lado, alguns conflitos importantes, a participação internacional, enfim, um resuminho do que foi a Guerra Civil Espanhola e os seus pontos mais relevantes para entender como os anarquistas venceram, né?
Bom, em primeiro lugar, você tocou num ponto que é fundamental, que é o apoio internacional. Era expectável que países como Inglaterra e sobretudo a França apoiassem os republicanos. Isso não acontece, né? Isso não acontece. Eles se colocam neutros diante do conflito. Do lado republicano, você terá— isso faz com que do lado republicano você tenha um apoio da União Soviética, que é um apoio muito muito mais importante do que seria caso houvesse o apoio da Inglaterra e da França.
E você tem o apoio do México ao campo republicano. São esses dois países que formalmente declaram apoio e apoiam militarmente o campo republicano, com muito mais força e poderio bélico por parte da União Soviética do que do México. E no campo fascista, né, no campo da direita, você tem o apoio apoio da Itália e você tem o apoio da Alemanha, como nós sabemos. Tanto no caso da União Soviética quanto no caso da Alemanha e da Itália, esse apoio não foi gratuito.
Os republicanos tiveram que pagar com ouro espanhol o apoio bélico soviético. E quando acaba a guerra, nos primeiros anos do regime franquista, que foram anos muito difíceis sob todos os aspectos, inclusive do ponto de vista econômico, do ponto de vista social para o povo espanhol, a Espanha teve que pagar suas dívidas de guerra para com a Itália e sobretudo para com a Alemanha, né? Tanto que um historiador importante, o Antony Beevor, tem um livro chamado A Batalha pela Espanha.
Ele afirma que o que foi fundamental para estabilização do regime franquista, que é um símbolo meio que desaparecido da história do franquismo, mas que foi fundamental foi, foram os empréstimos de bancos espanhóis, né? O sistema financeiro foi fundamental para dar sustentação e pagar esse conjunto de dívidas e etc. Então a guerra, do ponto de vista internacional, ela balançou favoravelmente ao campo nacionalista espanhol e não ao campo republicano, por causa sobretudo da diferença, né, do poderio bélico de um campo e e de outro, apesar da presença das brigadas internacionais na Espanha, da qual participaram inclusive muitos comunistas brasileiros que tinham participado do Levante de 35 aqui no Brasil e que foram para a Espanha voluntariamente servir às brigadas internacionais.
Esse então é o primeiro aspecto. Outro aspecto que eu acho que é fundamental para entender, para entender o caso espanhol, é o que que o Francisco Sevillano Calero, um historiador espanhol, chama de cultura de guerra. Isso é fundamental, quer dizer, primeiro porque a legislação franquista, a legislação da ditadura franquista, ela começou a ser elaborada inclusive por quadros que haviam pertencido à velha ditadura do Primo de Rivera e que agora estão apoiando e participando da ditadura do General Franco, como é o caso mais notório é o do Eduardo Arnoiz, que foi ministro do Trabalho do Franco, a partir da, enquanto a Espanha ela tava avançando sobre os espaços republicanos, era nesses territórios já ocupados pelo, pelo exército espanhol, pelo exército nacionalista espanhol, que a legislação já começava a ser implementada.
Então, praticamente, grande parte da legislação da ditadura espanhola, ela ela é elaborada, ela é criada ainda durante o período de guerra e é posta em prática nos territórios ocupados pelas tropas lideradas pelo, pelo, pelo General Franco. E depois de concluída, vamos dizer assim, a guerra, embora haja polêmicas a respeito do final da guerra em 39, mas em todo caso vamos seguir essa, essa observação. A partir dali, a ditadura espanhola fará questão de relembrar o tempo inteiro relembrar todo momento a guerra.
A guerra não era um acontecimento para o Franco para ser esquecido. A guerra era um acontecimento para ser lembrado. Então, o dia da morte do Calvo Sotelo, por exemplo, é um dia de feriado nacional. O dia da morte do José Antônio Primo de Rivera, que é o fundador da Falange e filho do ditador Miguel Primo de Rivera, é feriado nacional. O dia do estudante caído. Então, ao do ano, isso vai durar até 1975, uma série de efemérides, de calendários, de comemorações que lembram o período da guerra e lembram consequentemente, usando aqui o discurso do franquismo, a luta dos espanhóis contra o perigo comunista, contra o perigo maçom, enfim, quer dizer, contra o liberalismo, contra a democracia e contra o ateísmo.
E é isso que faz com que a derrota, que eu me referi em 1936 dos militares espanhóis na tentativa de tomada de Madri e o acontecimento da guerra, da ditadura do Franco, é uma característica especial que é diferente se ele tivesse tomado Madri logo em 1936 e já em 1936 ele tivesse implantado a ditadura. Quer dizer, a existência de uma cultura de guerra, portanto, a existência de uma ritualização, de uma memorização da guerra a partir do ano 39 se deve necessariamente ao fato, como é evidente, da guerra ter acontecido.
Olá, minha gente querida, meu nome é Miriam Soares, eu sou professora de espanhol e criadora do La Mezcla Podcast. Nas minhas aulas, aprender espanhol também é descobrir as histórias que tem por trás da língua, e algumas dessas histórias ajudam a gente entender por que que o espanhol é tão diverso hoje. Por exemplo, o que que aconteceu com o espanhol durante as ditaduras na Espanha e na América Latina? E é esse tipo de pergunta que me interessa, usar o espanhol como uma porta de entrada para história, cultura, política.
E se você quer aprender espanhol assim, vem conhecer as minhas aulas e o La Mezcla Podcast. É só procurar no Instagram por @lamexclapodcast, e La Mezcla se escreve com Z no lugar do S, porque em lo puro não há futuro.
Quais foram as bases ideológicas do franquismo, especialmente a combinação entre nacionalismo, militarismo, um tipo nacional catolicismo? E aproveitando o esse assunto, eu queria entender como é que a Igreja Católica se tornou um dos pilares centrais do franquismo, né? E que benefícios institucionais a Igreja teve em troca desse apoio?
Bom, eu gosto da expressão que você utilizou, de nacional catolicismo. Isso é mais ou menos o que caracteriza o regime franquista de uma maneira geral. É claro que não podemos nos esquecer que o regime do Franco é um regime da era dos fascismos, momento de nascimento dos fascismos, e do momento, portanto, de liberação, ou como o Eric Hobsbawm fala naquele livro dele, A Era dos Extremos, esse período aí entre mais ou menos a década de 20 até o final da década de 30, e mesmo durante a Segunda Guerra Mundial, é o período de queda do liberalismo, período de queda do liberalismo em todos os sentidos.
Então a organização política do Franco, ela em parte evidentemente é inspirada no fascismo italiano, a ideia do corporativismo, a ideia de uma legislação que proíbe a luta de classes, que argumenta favoravelmente em torno de um pensamento único, de um pensamento único em torno da figura do Franco. Aliás, dentre aquelas rememorações que eu falo, há também o Dia do Caudilho, que comemora o dia em que o Franco é nomeado caudilho de toda a Espanha, ainda no processo de guerra.
Então é um regime que tem apoio de várias correntes políticas, que vai do tradicionalismo católico passa pelo Miguelismo, que é uma corrente que rememora a figura do Miguelismo, não, do Carlismo, perdão, tô me confundindo com Portugal, do Carlismo, que comemora a figura do Carlos Isidro, que foi um candidato a monarca absolutista e não liberal, como era a monarquia espanhola. Havia correntes formalmente fascistas e correntes católicas, né, Quer dizer, havia uma diversidade política dentro do regime Franco que não aparecia publicamente.
Portanto, como diz o Glicério Rencio, havia uma diversidade ideológica e uma unidade política para fora, né? Porque como era um regime ditatorial, evidentemente não caberia ao regime, não era da natureza desse tipo regime divulgar, né, divulgar ou tornar pública, tornar públicas as divergências que havia dentro do regime. O regime se institui como uma ditadura, é uma ditadura de tipo militar com apoio de componentes civis que vão se organizar todos eles, esse campo civil, em torno da Falange, que tem um nome horrível, é Falanges Espanholas das Juntas Nacional sindicais e das Juntas de Ofensiva Nacional Sindicalista, mas que era chamado de movimento ou de Falange, que era o partido único.
Para você obter cargos dentro do regime, cargos públicos, seja de direção de sindicato, seja de ministério, você tinha que ser filiado à Falange. Isso é diferente do que acontece no caso português, onde a União Nacional não tinha essa prerrogativa. E dentro desse campo, como eu disse, havia um pouco de tudo, e E vai aumentando na medida em que o regime avança. Por exemplo, em 45, quando acaba a guerra e a Espanha do Franco vive um momento de muita insegurança internacional, havia uma expectativa de que o regime caísse, de que as forças internacionais forçassem a Espanha a cair, até porque a Espanha tinha mandado a Divisão Azul para tentativa de ocupação de Stalingrado, na Batalha de Stalingrado, etc.
Então, tudo isso causou um recuo muito grande. A rigor, quando em 45, o único regime que formalmente apoia Franco, a partir de 47 mais ou menos, é o regime peronista, que vende para o governo batatas, legumes de uma maneira geral, a preços relativamente baixos, para poder sustentar, vamos dizer assim, minimamente a ditadura. Então, em 45, 35, o eclipse, não dava para os quadros que se mantiveram no regime até aquele momento, muitos deles formalmente germanófilos, pronazistas, não dava para eles agora representarem a Espanha nos foros, nos fóruns internacionais, né?
Isso é impossível. Então entra para Falange exatamente para ocupar cargos no campo das relações exteriores. A Ação Católica, que passa ocupar esses ministérios ligados às relações internacionais, um pouco para mostrar que o regime tava em mudança. O regime inclusive apoia alguma anistia para, enfim, quer dizer, acenar para a opinião pública internacional. Como também depois, nos anos 50, a partir de 56, 57, a Opus Dei também entra para Falange e consequentemente principalmente para cargos dentro do regime, dessa vez não para as relações internacionais, mas serão quadros que vão tentar, dentro dos limites da época, o mundo era outro, não era o mundo de hoje, mas tentar liberalizar um pouco mais o regime do ponto de vista econômico, não do ponto de vista político, mas do ponto de, portanto, quebrar um pouco aquela autarquia estatista que o regime adotou desde o seu começo.
Então isso incomodava, vamos dizer assim, membros históricos da Falange, evidentemente que incomodava. Mas o Franco sabia mediar com essas divergências, com essas divergências internas. Veja que eu, quando falei de 45, quando eu falei de 57, eu falei da Ação Católica e falei da Opus Dei. Então isso também já mostra a importância que a Igreja tem dentro do regime. Quer dizer, ela já havia, já tinha elementos católicos dentro do regime, e esses elementos vão se ampliando consoante as necessidades da ditadura franquista.
E além do que, se há um processo de laicização durante a República, há um processo de deslaicização, se você me permite, durante o regime franquista. Quer dizer, os currículos escolares mudam e mudam em favor de uma história providencialista cristã que remonta às Cruzadas, contra o infiel, contra os mouros. E a partir daí, então, também a própria Guerra Civil Espanhola será também considerada um levante convocado por Deus para salvar a Espanha dos males do comunismo, do ateísmo, etc.
Então, do ponto de vista educacional e cultural, a Igreja Católica volta a ter um papel central, as escolas católicas voltam a funcionar, que estavam proibidas. E claro, muitas terras da Igreja Católica tomadas pelos camponeses, pelos movimentos sociais durante a Primeira, durante a Segunda República, perdão, elas são devolvidas à Igreja. Então a Igreja terá um papel decisivo. O Estado espanhol no franquismo é um Estado católico, ele é um Estado confessional.
A prática de outras religiões, porque evidentemente a Espanha a partir de um determinado momento começa a ter relações internacionais, vai contatos com, começa a haver diplomacia de outros países na Espanha, né? E muitos desses países não são católicos. Então o culto de outras religiões não católicas era permitido, mas era permitido em foro privado apenas. Não eram permitidos cultos públicos, não havia igrejas públicas de outras religiões que não, que não a religião católica.
E qual foi o papel da Falange dentro do regime e como ela se transformou ao longo do tempo? Foi uma relação tranquila com o franquismo ou foi algo mais conturbado, altas e baixas? Como é que foi isso?
Para falar da Falange, eu tenho que falar do José Antônio Primo de Rivera, que é filho do Franco, fundador da Falange. E ele, Primo de Rivera, é preso logo no início da guerra. E há toda uma evocação do herói desaparecido, uma espécie de sebastianismo atualizado para a Espanha e para o século 20. Quando a guerra acaba e o primo de Rivera, o féretro do primo de Rivera é resgatado, o cadáver dele é resgatado, e há um translado de Alicante até onde ele, onde ele se encontrava preso e morreu, até Madrid a pé, levando o corpo dele, ia passando de cidade em cidade.
Os ombros das pessoas que carregavam o caixão mudavam, mas há uma ritualização que, na medida em que meio que integra a figura do primo, do primo de Rivera, do filho, né, do ditador. Para você ter ideia, em todas as paróquias da igreja, do lado de fora, foi colocada uma placa com o nome do José Antônio Primo de Rivera e ao lado o nome daqueles que combateram, que caíram, nome dos caídos do lado republicano, aqueles que combateram ao lado dos republicanos.
Ainda hoje, algumas regiões da Espanha, essas placas ainda, ainda existem. Então Na medida em que você consagra a figura do fundador de uma instituição, essa instituição evidentemente tem uma importância muito grande. E como eu disse, ela agregava todos os setores civis que apoiavam a ditadura, que apoiavam o regime. É claro que havia tensões, quer dizer, como eu falei, a entrada de novos segmentos dentro da Falange, porque, repito, para participar de qualquer cargo público institucional era necessário ser filiado à Falange, que você pertencia à Falange.
Na medida em que novos quadros vão entrando, os espaços vão diminuindo. Então aquele setor, vamos dizer assim, mais puro, mais falangista, né, ele vai ter importância até o fim da ditadura, mas ele não tem a mesma importância que ele teve nos primeiros anos da ditadura, né. Mas enfim, ela é muito mais importante do que muitas ditaduras, do que muitos partidos de outras ditaduras, haja vista isso que eu falei da obrigatoriedade de ser privilegiado não só para exercer cargos governativos, mas para exercer qualquer cargo de direção em organismos públicos, burocracia do Estado, etc.
E qual foi a política educacional e cultural do regime? Como é que o franquismo buscou moldar valores, comportamentos e até mesmo memórias coletivas a respeito de eventos recentes e antigos?
Essa memória coletiva, como eu disse, ela é parte da tal cultura de guerra. Quer dizer, durante o franquismo, o argumento permanente era de que nós, soldados espanhóis, estamos nos sacrificando numa guerra em nome da salvação da Espanha, em nome da salvação de todo o seu legado, né, do seu legado católico, do seu legado tridentino, do seu legado monárquico, do seu legado como um baluarte de luta contra o humanismo, contra o iluminismo, etc.
Quer dizer, a vocação da Espanha, vamos dizer assim, ela é dita a todo momento como uma espécie de vocação católica e tradicionalista. Não é qualquer catolicismo, mas é um catolicismo de feição tradicionalista. Isso terá um peso muito grande no sistema educacional espanhol, que era um sistema hierárquico, quer dizer, há um ensino massificado para a base e que vai se afunilando como uma pirâmide para cima, mas desde a base até o ensino superior, até as universidades, era um ensino que, por exemplo, no campo da história, no ensino da história, a história da Espanha se miscigena, ela é confundida em larga medida com a história da Igreja Católica, com a história da Igreja Igreja Católica.
Então, do ponto de vista cultural, esse é um elemento importante, como também será um elemento importante a partir do momento em que a ditadura se estabiliza, mais ou menos na década de 50, uma política ofensiva da ditadura espanhola, uma ofensiva cultural dirigida para as antigas colônias espanholas, sobretudo daqui da América, da América América do Sul e da América Central e México e etc., que é a publicação de revistas de propaganda do regime franquista em todas essas regiões e o oferecimento de becas, oferecimento de bolsas, né, para estudantes desses países, uma espécie de pan-latinismo, né, quer dizer, desses países que vão à Espanha estudar sob a batuta, nos moldes, sob os moldes do regime franquista.
Então é uma ditadura. A Igreja desde o início apoiou o levante, apoiou o exército espanhol durante toda a guerra e colheu essas prebendas após o término do conflito. Prebendas essas que se mantiveram ao longo de toda a ditadura. E já falando aqui da Igreja Católica, se você me permite, o O regime Franco mudou muita coisa na Espanha. Apenas duas instituições se mantiveram mais ou menos autônomas, que são a Igreja Católica, porque a Igreja Católica, por mais que apoie, não vai se submeter a nenhum regime político, isso é da natureza da Igreja Católica, e o Exército, por razões óbvias.
O próprio Franco era membro do Exército e havia, sempre houve ministros militares. Aliás, um dos ministros militares, que sai para entrada da Ação Católica porque era um ministro germanófilo, é o Serrano Suñer, que é cunhado do Franco. Franco era casado com a irmã do Serrano Suñer, que era o homem das relações externas do regime durante pelo menos até 1943, que é quando na guerra, na Segunda Guerra Mundial, vai se percebendo uma mudança de rumo em favor dos aliados.
Então eu diria que há uma cultura coletiva na Espanha católica, tradicionalista e conservadora. Havia opositores? Evidentemente havia, sempre houve, mas eles tinham que se manter muito constrangidos e muito mais constrangidos e calados do que em outras ditaduras, como a portuguesa que eu me referi, ou mesmo como foram os casos das ditaduras militares da década de 60 aqui no Brasil.
A história da Espanha no século 19 é bastante conturbada. Um dos países mais afetados pelas guerras napoleônicas, sofreu destruição física e muitas mortes, e também perdeu boa parte do seu império marítimo, com as independências no continente americano.
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E como é que a Espanha franquista ela se posiciona durante a Segunda Guerra Mundial e os limites dessa aproximação com o Eixo, né? Porque a gente sabe que a Espanha foi neutra, mas eu já conversei com diferentes pesquisadores que falaram que a Espanha deu diversas formas de ajuda para o Eixo.
Enfim, a Espanha, a Espanha, não é que ela tenha sido neutra, eu acho que essa palavra é muito leve para o caso espanhol. Havia uma assim no primeiro momento Havia uma simpatia clara para com o Eixo, isso não resta dúvida. O problema era que, um, o povo espanhol tava cansado de guerra, então não podia entrar numa segunda guerra, e os militares estavam cansados de guerra. Os militares que participaram da Guerra Civil Espanhola, que estavam agora ocupando cargos de administradores das várias regiões espanholas e etc., em tese não precisavam de uma nova guerra para se credenciarem.
Então o Franco sempre— o Hitler inclusive em alguns momentos reclama das vacilações do Franco, do entra e não entra na guerra, até que quando há a opção de ir para Stalingrado, o Franco organiza uma divisão militar que é chamada Divisão Azul, que vai fazer treinamento militar na Alemanha e que vai participar do ataque à União Soviética, em particular o ataque a Stalingrado. Então essa simpatia para com o Eixo, ela predomina mais ou menos até 43, né, 44 no máximo, que é quando a guerra vai mudando o curso.
E na medida em que a guerra muda o curso, o regime recua um pouco, recua bastante aliás. E como eu disse, vai mudando ministérios, vai tentando adotar uma política mais similar à neutralidade, entendeu?
E de que forma o isolamento internacional do pós-guerra afetou o regime, né? E como Franco conseguiu reinserir a Espanha no cenário internacional durante a Guerra Fria? E quais mudanças econômicas e sociais marcaram o franquismo a partir da década de 1950, especialmente com abertura econômica e o desenvolvimentismo?
Ótimas questões. Vamos lá. Em primeiro lugar, a Espanha, como eu te falei, esteve isolada internacionalmente. Há vários organismos internacionais criados à época, como é o caso da OTAN, por exemplo, da qual a Espanha não participa, né? Há uma hostilidade à Espanha muito muito grande. Mas a Espanha, curiosamente, utiliza o argumento no contexto da Guerra Fria de ter participado da invasão a Stalingrado, não mais agora com argumento de apoio à Alemanha, mas com argumento de combate ao comunismo, né?
E ademais, quer dizer, no quadro da Guerra Fria, quando a Guerra Fria se estabelece e o discurso anticomunista igualmente se estabelece, não é? As potências internacionais ocidentais começam a ver a Espanha como um mal menor frente ao tal perigo do comunismo. Então a Espanha, em nome do discurso anticomunista, em nome do discurso católico, né, há também o empenho da diplomacia do Vaticano nesse sentido para arrefecer, vamos dizer assim, a oposição à Espanha.
É a partir daí que a Espanha vai ganhando algum reconhecimento, na mesma proporção em que o empenho para derrubada do regime espanhol vai se enfraquecendo, né? Então é a partir da década de 50, o que que acontece? A Espanha reata relações diplomáticas com os Estados Unidos, e na medida em que ela reata relações diplomáticas com os Estados Unidos, há investimentos do capital, do capital estrangeiro, do capital estadunidense, no sentido do reaquecimento da sua indústria.
É Vamos lembrar que a Espanha já tinha parques industriais importantes, sobretudo no País Basco e na Catalunya, que são reaquecidos nesse momento. E a Espanha, então, mantendo regiões ainda agrícolas muito fortes, sobretudo a já referida Galícia, mas ela vai aumentando o seu parque industrial e se modernizando. É quando também a rádio, nesse sentido, tem um papel importante como depois terá a televisão. É nesse momento, inclusive, que os clubes de futebol— o futebol passa a ser o esporte mais popular na Espanha, em lugar da tourada.
Então há um surgimento, vamos dizer assim, de uma classe média que se beneficia dessa modernização do franquismo ao longo da década de 50. Modernização essa, retornando ao tema que eu me referi, que os agentes do regime perceberam que que era uma modernização insuficiente, é um quadro de uma economia excessivamente dirigista, excessivamente controladora. E é daí que, como eu falei já, o regime vai adotar políticas de desnacionalização ou desestatização, né, com economistas, todos eles ligados também, como eu já falei, ao Opus Dei, que é uma ordem religiosa nascida na Espanha, inclusive.
Como é que o O regime lidou com as questões regionais e as identidades catalã, basca, galega ao longo da ditadura, né? Isso era uma questão relevante para o regime?
É uma questão muito relevante. Durante a Segunda República, há um pacto de respeito às identidades nacionais, né, estabelecido com as várias sensibilidades nacionais espanholas, né? O regime formalmente, em nome do discurso unitário, um só país, uma só língua, uma só religião e etc. Ele vai proibir a fala de outras línguas em locais públicos. Você tem que falar o castelhano. Se você conversar, agora tem cada vez menos, né, mas com espanhóis que residiam, por exemplo, na Galícia e que nasceram lá na década de 30, na década de 40, e que vieram para o Brasil, migraram para o Brasil, eles não sabem o galego, eles sabem o castelhano, que era a língua oficial.
Então há uma, um aceite mais ou menos desses pressupostos, embora dentro da própria ditadura do General Franco, dentro da própria ditadura do Novo Estado Espanhol, que é como ele formalmente se chamava, havia setores regionalistas defensores de alguma autonomia regional. Portanto, o primeiro aspecto a gente deve tratar aqui é isso: o regionalismo espanhol não era na sua totalidade opositor do franquismo. Alguns quadros muito importantes são formalmente conservadores e alguns deles participaram do regime ou participaram da Falange.
A partir da década de 60, que é o período que os historiadores chamam de tardofranquismo, a partir da década de 60 é que os sentimentos vão começar a se localizar, sobretudo no País Basco. E aí, com uma componente não apenas no País Basco, há movimentos de oposição ao franquismo, aí não é nem mais na Catalunya de uma maneira geral, é em Barcelona, que tem uma identidade que é similar, mas é diferente da identidade valenciana, por exemplo.
Evidentemente, o País Basco, a Galícia, portanto, os vários movimentos começam a defender uma autonomia cada vez, cada vez maior, mas com um grau de radicalidade, como todos nós sabemos, muito maior no País Basco com a formação da ETA no final da década de 50. E gradativamente, o que coincide com esse nacionalismo é uma certa cultura, curiosamente, terceiro-mundista anticolonial. Os discursos, parte dos discursos dos vários movimentos nacionalistas vai reproduzir os argumentos anticoloniais da Frente Nacional de Libertação na Argélia, da Revolução Cubana, no caso aqui da América Central, dos movimentos de independência do Terceiro Mundo de uma maneira das guerras de independência em Portugal.
Então há um argumento muito forte de que nós, bascos, nós, barceloneses, nós, valencianos, etc., etc., nós somos um país colonizado pelos castelhanos. Isso é um elemento muito forte da cultura nacionalista do tardio franquismo, que é o momento em que essas culturas, esses movimentos vão ganhando mais força, com uma ênfase da ETA, não apenas por causa do reconhecimento social da ETA muito grande no País Basco, que ultrapassa a importância do Partido Nacionalista Basco, que era um partido de oposição à ditadura, mas de uma oposição, vamos dizer assim, formal ou moderada, para uma oposição militarizada por parte da ETA, que vai defender a luta armada em moldes similares às lutas armadas do Terceiro Mundo, foquismo e etc.
É um elemento importante que vai ajudar na desestabilização do regime, mas não uma desestabilização que levasse à queda do regime propriamente dito, mas que terá um papel importante nas posições que durante a democratização vão assumir sobretudo o Partido Socialista Obrero O Partido Liberal Espanhol e o Partido Comunista Espanhol. Então não há como falar da Espanha, sobretudo a partir do final da década de 50 até a década de 70, né, quando acaba o regime, sem falar do problema nacional.
O franquismo se refere ao regime ditatorial e ao autoritário vigente na Espanha entre 1939 e 1975, mas também ao conceito de governo baseado no conservadorismo e nacionalismo espanhol, com influências fascistas, monárquicas e católicas, tendo a figura central Francisco Franco Bahamonde, que assumiu o título de O Caudilho.
E quais foram as principais formas de oposição ao franquismo, tanto dentro da Espanha quanto no exílio? E como é que essas formas de resistência evoluíram com o passar do tempo?
Bom, dentro do regime, essas formas de oposição são, na sua quase totalidade, manifestações clandestinas, atuações dentro de fábricas, mas muito discretas, propagandas, sobretudo nas zonas mais urbanizadas, clandestinamente, distribuição de panfletos, etc., mas sem uma grande força e sem um reconhecimento formal, como muitas ditaduras fazem, sem o reconhecimento formal de uma oposição. Era muito difícil, né, quer dizer, era uma ditadura a céu aberto, e numa ditadura a céu aberto era muito difícil você não ser vigiado, ser controlado, não haver— no caso de muitos republicanos que permaneceram na Espanha, eles se mudaram para outras regiões distantes das suas regiões de origem, um pouco para tentar fugir de um controle policial mais, mais constante sobre eles.
Agora, havia também uma oposição fora da Espanha de espanhóis exilados muito grande a um governo Reino Republicano na Espanha, que se localiza primeiro na França, depois vai se estabelecer no México. E essa oposição criará também, assim como eu falei que o regime espanhol criou revistas, sobretudo uma revista chamada Espanha, a oposição também criará revistas, também criará instrumentos de propaganda para o combate a ditadura franquista.
Então, um governo permanente, um governo paralelo republicano permanente na Espanha durante— perdão, no exterior, no exílio. Em vários lugares tem um componente republicano também muito importante. Na Venezuela, tem no México, sobretudo, que vão denunciar permanentemente o regime franquista.
Uma outra questão que eu acho que é importante é sobre a transição a partir do momento em que o Franco falece em 1975, né? Eu queria entender assim, como é que foi esse fim de vida dele? Como é que ele morreu? E essa transição política, os primeiros passos desse processo?
Enfim, aqui tem um dado curioso, né? Quer dizer, a Constituição espanhola do franquismo, ela define a Espanha como uma monarquia, embora o rei nunca tenha sido empossado. Né, porque o Franco recusava, vamos dizer assim, dividir o estrelato com uma outra figura. E nesse caso, o rei teria uma figura, seria uma figura muito, muito importante. A partir da década de 60, o Juan Carlos de Bourbon, era um jovem ainda, candidato ao trono, vai para Espanha a convite do Franco, e vai sendo acordada uma transição para o sistema monárquico a partir da morte do Franco e com o rei, né, aquele que viria a ser o rei, o Juan Carlos, como o novo, como o novo monarca.
O problema é que o Franco, quando morre, o regime já tá muito cercado, né. A Espanha é uma coisa que eu esqueci de responder numa na pergunta anterior, a Espanha entra para a ONU apenas em 1955, mas assim como Portugal e vários países do leste europeu. É um acordo no Conselho de Segurança da ONU para entrada de países de alinhamentos diferentes, né? Mas isso, sobretudo a partir da década de 60, não impede que na ONU, em outros fóruns internacionais, houvesse uma oposição muito grande tivesse votações contra a Espanha muito grande, né?
Depois, a própria modernização da Espanha fez surgir uma classe média que até podia ser minoritária dentro da Espanha, não é? Mas que era importante, que não se identificava exatamente com o franquismo. Podia não ser de esquerda, podia não ser comunista, mas não se identificava com o franquismo. Havia um crescimento de uma tese de que o regime precisava mudar. E além disso, tem no vizinho Portugal a Revolução dos Cravos, que ocorre um ano antes.
E exatamente no ano de 75 tá vivendo o seu momento de maior radicalização, que é o Verão Quente. Então esses aspectos, vamos dizer assim, são aspectos importantes para entender a transição. E é uma transição que é liderada por quadros que vêm do regime. A Espanha não vive uma crise de Estado, não há uma ruptura na cadeia de comando do Estado, na cadeia de comando das Forças Armadas e etc. Por isso que muita gente mais conservadora enaltece, vamos dizer assim, a transição espanhola, e outros mais radicais, mais à esquerda, lamentam a transição negociada que houve, que houve na Espanha, que foi liderada, como eu disse, por um membro, pelos membros da Falange, mas com a participação direta do Adolfo Soares, que é um líder católico muito conservador, mas que percebe a importância de uma transição para a democracia nos moldes das democracias europeias.
E é isso que faz, por exemplo, o Adolfo Soares afirmar que não pode haver democracia na Espanha sem a legalização do Partido Comunista. E é isso então que se estabelece, vamos dizer assim, um pacto de partidos mais conservadores a partidos menos conservadores, mais avançados, mais radicais, como queira, que é acordo esse que vai se estabelecer no ano 77, no Pacto de Moncloa, que é, portanto, o pacto que encaminha a Espanha no sentido da sua estabilização, da sua democratização, com plebiscito consagrador, né, com plebiscito que vai consagrar esse acordo.
É, há insatisfeitos, há insatisfeitos à esquerda, segmentos mais radicais à esquerda, há insatisfeitos no campo regionalista, né, porque pelo menos uma incerteza no campo regionalista é muito grande, e há insatisfeitos à direita, e há insatisfeitos à direita que inclusive, sob a liderança de um militar carabineiro, no 23 de fevereiro de 81, vai tentar um golpe contra o regime, vai invadir o parlamento em nome do rei e vai tentar um golpe.
Dessa vez, o rei, ao contrário do Afonso, que era o rei de Espanha quando tem o golpe do Primo de Rivera, dessa vez o rei vai à televisão desautorizar o golpe. É isso que faz com que aquele aqueles militares direitistas depositem armas e vão ser presos e julgados, etc. Agora, é claro que, como todo, assim como todo regime que faz uma revolução, que rompe ou que tenta romper ao máximo com o passado, ele enfrenta problemas por conta dessa sua escolha.
Um regime que faz uma transição pelo alto negociada, e como que foi o caso espanhol, enfrenta outros problemas, né? Sobretudo, só para me adiantar um pouquinho, sobretudo no que toca, no que tange às políticas de memória, que no caso da Espanha vão tardar muito. Mas enfim, é uma transição dentro de um quadro, para usar um jargão meio ultrapassado, em que não há, vamos dizer assim, uma situação revolucionária, uma uma conjuntura revolucionária.
Então há uma conjuntura transicional, que é uma conjuntura que vai, em modelos diferentes, predominar no sul da Europa nesses anos, né? Transição portuguesa em forma de ruptura, a transição espanhola em forma de negociação, e a transição grega em forma de negociação barra intervenção dos agentes internacionais, né? Portanto, é mais ou menos nesse período que se estabelecem as transições para democracia no sul da Europa.
E quais os legados do franquismo para a Espanha nas décadas que se seguiram? Pensando aqui, disputa de memória, mentalidade autoritária que provavelmente algumas autoridades lá têm e trazem dessa época, ou às vezes até parcelas da população também, como infelizmente a gente vê no Brasil também. Então, que legado franquista permanece na sociedade espanhola contemporânea?
Bom, o principal legado é a memória do próprio Franco, né? Há segmentos dentro da Espanha que se mantêm franquistas de maneira muito declarada. Quer dizer, quando eu falei que aquelas placas com o nome do Primo de Rivera e dos soldados de cada região que foram mortos, e que são placas colocadas do lado de fora das igrejas na Espanha, o fato delas continuarem lá demonstra que não havia clima, não havia uma situação que levasse à quebra ou à danificação de parte dessas, dessas estátuas.
Outro legado que permanece, com idas e vindas, é o problema regional, que ora é um problema quando tem governos de esquerda em que o diálogo se dá de maneira mais franca, mais aberta e mais propositiva, e há momentos em que isso em que isso não se dá, sobretudo quando tem governos de cariz mais conservador e tradicionalista. E consequentemente, o grande legado da memória. Quando tem a transição, há um acordo mais ou menos explícito, há um acordo mais ou menos claro de que não se deve tocar no passado.
Esse passado tá amarrado com barbante, pode ser rompido a qualquer momento. Então isso foi necessário, que uma outra geração, que não aquela geração que historicamente fez oposição ao franquismo, uma outra geração, mesmo que nascida durante o franquismo, mas já no final, nos extertores do franquismo, assumissem os governos, assumissem o poder para que as políticas de memória, de reparação, de abertura de valas, com cadáveres de opositores da ditadura e etc., fossem tocadas, que foi já no governo do José Luís Zapatero, já portanto nesse nosso século, no século 21.
Há uma tentativa ou outra anterior, mas muito mais localizadas, mas o que predomina durante, sei lá, os primeiros 30, 40 anos do regime franquista é essa política de evitar tocar entrar em temas que são ainda sensíveis para um grosso, para um grosso da população. O Zapatero, que nasceu nos anos 60, que é neto de um republicano, né, opositor da ditadura franquista, o general republicano, que se elege pelo Partido Socialista Espanhol, ele acaba sendo um elemento importante nesse, nesse sentido de medidas mais progressistas em favor do não apagamento da memória, embora não houvesse uma política como houve, por exemplo, na Argentina, de punição aos militares ou agentes civis, quiçá, ligados à ditadura franquista.
Mas enfim, é um fenômeno que dura muito. Em algumas regiões, por exemplo, há um governador da Galícia Anselmo Fraga, que foi ministro, foi ministro do Franco, e que sob o regime democrático se elegeu durante anos e governou, não sei como é que se chama, se chama Governo Civil da Galícia, durante, durante cerca de 30, de 30 anos após a democratização.
O filho de Rivera organizou o movimento falangista, um movimento fascista e nacionalista espanhol, também chamado de fascismo clerical, já que unia a radicalização do Estado nacional em seu papel social à autoridade da Igreja Católica e dos valores tradicionais.
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Quais os debates que você acha que os professores podem trazer para sala de aula sobre esse assunto?
Eu acho que há vários, né? Um é a comparação com o caso português. Esse é um debate que eu acho importante, que alguns autores já trabalharam, mas que ainda é relativamente insuficiente. Há outro tema para o caso da Espanha que eu acho fundamental é o caso, é o estudo da Igreja Católica, é o estudo do papel da Igreja Católica no regime franquista e do papel, vamos dizer assim, das igrejas católicas nos espaços de maior identidade regionalista, né?
Porque fala-se muito de uma igreja, e é verdade, de uma Igreja Católica conservadora e pró-regime, Múmia, etc. Mas a partir da década de 60 começa a haver também dentro da Igreja Católica segmentos que querem alterar algo no regime, né? E há um movimento nesse sentido muito, muito importante. Então pronto, eu falei da comparação com Portugal e o caso da Igreja Católica. E outro, evidentemente, que a gente que a gente não pode fugir do tema, diz respeito ao problema regional, né, que há muita literatura, inclusive literatura mesmo, romance, que eu acho que valem, vale a pena serem lidos.
E para terminar, 3 livros sobre o assunto, se você tivesse que recomendar 3 livros para a galera começar a estudar isso, o que que você recomenda?
Olha, eu recomendo o livro do do Beevor, Antony Beevor, A Batalha Espanha. Eu acho um livro muito bem feito, um livro fundamental a respeito sobre a Espanha. Recomendo um livro que, infelizmente, esse livro do Antony Beevor foi publicado aqui no Brasil pela Record, pela editora Record, então é uma editora fácil de ser encontrada. Outro livro fácil de ser encontrado e que eu recomendo é um romance chamado Pátria, do Fernando Aramburu, que é um livro ambientado na questão nacionalista basca, né?
Um livro que trata do período de ação da ETA, entre o período anterior à deposição de armas e posterior ao fim da luta armada. É um livro muito interessante e publicado aqui no Brasil pela Intrínseca. E tem um livro que eu acho fundamental que não tá publicado no Brasil, que se chama, do Francisco Sevillano, chamado La Cultura de Guerra en España, que embora não esteja publicado aqui no Brasil, então talvez seja mais difícil, embora vale a pena citar.
Se alguém for à Espanha pode comprar, né, Francisco Sevillano Calero. Mas esse Francisco Sevillano Calero tem uma artigo num livro organizado pela Denise Hollenberg e pela Samanta Quadrat, chamado A Construção Social dos Regimes Autoritários. Na verdade, são 3 livros, um dedicado à Europa, um dedicado à Ásia e à África, e outro dedicado à América Latina e ao Brasil. Então, nesse livro dedicado à Europa, tem um texto do Francisco Sevillano sobre esse tema, que é um texto muito, muito interessante.
E também serve para comparar o texto sevillano com outros textos sobre o caso português, sobre o caso espanhol, sobre o caso alemão, sobre casos da Europa do Leste. Enfim, quer dizer, trabalhar com o tema que muitas vezes é difícil de tratar nas ditaduras, o Iclis, que é a razão pela qual parcelas expressivas da população apoiam um regime ditatorial, quais são as bases do consentimento. Então, e que é um livro, esse é organizado pela Denise Hollenberg, pela Samanta Quadrat, publicado pela Civilização Brasileira. Então também é fácil, é fácil de se localizar.
Então é isso, gente. Francisco, você tem alguma consideração final?
Não, só quero agradecer Parabenizar você por esse trabalho de divulgação da história, né? Quer dizer, eu que sou de uma outra geração tenho muita dificuldade com mídias digitais, mas acho bom que pessoas como você trabalhem com isso e façam uma divulgação chamando historiadores, e não só historiadores, para falar de temas que dizem respeito à história e a outras áreas conhecimento. Muito obrigado, e muito obrigado àqueles que se dispuseram a nos ouvir.
Então é isso, gente, muito obrigado por ter ouvido até o final. Dê uma olhada na descrição, todos os links citados, links úteis estão aqui embaixo. E claro, passe adiante o História FM para os seus amigos, em particular aqueles que gostam de história, porque a gente tá sempre entrevistando vários pesquisadores, vários professores, só a nata de quem produz conhecimento histórico aqui no Brasil. Então é isso, muito obrigado e até a próxima.
Esse podcast foi editado por Samuel Gambini, samuelgambiniaudio.com.
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