245 Revoluções Inglesas: da Guerra dos Três Reinos à Revolução Gloriosa
Entre as décadas de 1630 e 1680, os reinos que compunham as Ilhas Britânicas foram palco de uma série de conflitos políticos, religiosos e militares que transformaram profundamente as relações entre monarquia, Parlamento e sociedade. A Guerra dos Três Reinos colocou em confronto diferentes projetos de poder na Inglaterra, Escócia e Irlanda, levando à Guerra Civil Inglesa, à execução do rei Carlos I e à instauração de um período republicano marcado pela ascensão de Oliver Cromwell. A restauração da monarquia, em 1660, não encerrou as disputas, que ressurgiram em torno dos limites do poder real, da sucessão dinástica e das tensões religiosas. Em 1688, a Revolução Gloriosa depôs Jaime II e consolidou um novo arranjo político que redefiniu o papel do Parlamento e estabeleceu limites mais claros à autoridade da Coroa, tornando-se um dos episódios centrais da história política inglesa. Convidamos Verônica Calsoni para analisar o contexto e os principais acontecimentos das Revoluções Inglesas, da Guerra dos Três Reinos à Revolução Gloriosa, discutindo os conflitos entre monarquia e Parlamento, as disputas religiosas e as transformações políticas que marcaram a formação da Inglaterra moderna.
Roteiro: Icles Rodrigues
Edição: Samuel Gambini
Instagram: @iclesrodrigues
PIX: leituraobrigahistoria@gmail.com
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- Guerra dos Três ReinosGuerra dos Bispos·Rebelião na Escócia·Conflitos na Irlanda·Parlamento Curto e Longo
- Desenrolar das Guerras Civis InglesasPrimeira Guerra Civil (1642-1646)·Segunda Guerra Civil (1647-1649)·Exército de Novo Tipo (New Model Army)·Batalha de Edgehill·Covenanters Escoceses
- Oliver Cromwell: Ascensão e PapelIndependente Religioso·Comandante do New Model Army·Golpe do Pride's Purge·Execução de Carlos I
- Reinado de Jaime II e Crise de ExclusãoPânico Católico·Conversão de Jaime II·Divisão Whigs e Tories·Crise de Exclusão
- Revolução Gloriosa e Bill of RightsConvidando Guilherme de Orange·Bill of Rights (1689)·Monarquia Constitucional·Estabilidade do Estado
- Reinado de Carlos I e Crise PolíticaDisputa Rei vs Parlamento·Governo Pessoal de Carlos I·Impostos Arbitrários (Ship Money)
- Disputas Religiosas e PolíticaArminianismo vs Puritanismo·Livro de Orações Comum·Papel da Religião na Política·Tensão entre Catolicismo e Protestantismo
- Execução de Carlos I e Proclamação da RepúblicaRegicídio vs Tiranicídio·Dessacralização da Figura Régia·República Inglesa (1649-1653)·Eikon Basilikon
- O Protetorado de Oliver CromwellDitadura Militar·Conselho de Estado·Guerras Anglo-Holandesas·Humble Petition and Advice
- Crise do Protetorado e Restauração da MonarquiaInabilidade de Richard Cromwell·Papel do General George Monck·Retorno de Carlos II·Fim do Interregno
- Historiografia das Revoluções InglesasDebate sobre o termo 'Revolução'·Historiografia Marxista·Historiografia Whig-Liberal·Christopher Hill·Steve Pinker
- Contexto Histórico das Ilhas BritânicasUnificação da Inglaterra·Relações entre Inglaterra e Escócia·Conquista da Irlanda·Dinastias Tudor e Stuart
Você está ouvindo o História FM.
Revoluções inglesas. Espera, como assim revoluções no plural ainda por cima? Você já ouviu falar delas? Esse é o tema de hoje do História FM. Eu sou Iclis Rodrigues e para falar sobre esse assunto eu convidei aqui a professora Verônica Calzone Lima, a quem eu passo a palavra para se apresentar para vocês. Então, Verônica, seja muito bem-vinda, fica à vontade para se apresentar para o pessoal.
Olá, muito obrigada, Iclis, pelo convite primeiro, né? Muito contente em participar do podcast que eu ouço e sempre recomendo para os alunos. Atualmente eu sou professora de História Moderna na Universidade Federal do Triângulo Mineiro e antes disso, né, fiz minha graduação e meu mestrado em história na Universidade Federal de São Paulo e o doutorado em história social na Universidade de São Paulo. E venho estudando esse tema dessas revoluções inglesas desde 2009.
Começou como uma iniciação científica e foi se desdobrando em diversos outros temas até esse momento agora de pesquisas após a conclusão de um doutorado. É um pouco isso.
Então é isso, gente. Vamos entender que revoluções são essas depois que eu der um recado para vocês. Você que tá ouvindo o História FM e entende que ele é um projeto educacional gratuito que tem relevância social, eu peço para você considerar a possibilidade de apoiar o nosso trabalho em apoia.se/obriga-historia. A propósito, o link tá na descrição para ficar mais fácil de você chegar lá. Com R$2 por mês você já apoia o programa, tem o seu nome lido aqui quando você se torna novo apoiador, tem acesso ao mural com os spoilers do que vem pela frente.
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Beleza? Segue o jogo e vamos para o episódio. Pra começar, durante o reinado de Charles I houve uma disputa acirrada pelo poder entre o rei e o parlamento. O monarca dissolveu o parlamento 3 vezes em 4 anos de reinado. Pra começar essa conversa, eu queria começar contextualizando um pouco a situação da Inglaterra no começo do século 17. A gente costuma falar em Revoluções Inglesas no plural, mas muitas vezes eu fico com a impressão de que foi um único processo contínuo, né?
E existem controvérsias historiográficas quanto a isso, que a gente vai discutir mais pra frente, né? Mas na prática a gente tá falando de décadas de conflitos envolvendo Inglaterra, Escócia, Irlanda, disputas religiosas, conflitos constitucionais, E até guerras civis também, né? Então eu queria pedir pra você explicar como era a situação política dos Três Reinos antes do início dessas crises e por que o reinado de Carlos I acabou levando a esse cenário de instabilidade.
Essa é uma pergunta que já daria pra gente ficar conversando muito tempo, né? Porque tem muitas coisas aí de pano de fundo e eu quero começar por uma definição geográfica, se você me permitir, Cris. Isso porque, como você apontou, a gente costuma falar em Revoluções Inglesas Hoje, às vezes, a gente fala até em Revoluções Britânicas para tentar ampliar a escala desses conflitos, considerando o envolvimento da Escócia, da Irlanda, e se a gente quiser falar de Gales, embora Gales não é exatamente uma região autônoma nesse contexto.
E aí, acho que cabe um pouco situar o que é esse mundo das Ilhas Britânicas. Então, isso é bastante confuso, porque hoje a gente tem uma região administrativa chamada Reino Unido e a gente assume que fazem parte dela Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e Gales. E nem sempre essa definição foi assim. Então, economia e as relações entre essas diferentes regiões dessas Ilhas Britânicas, elas vão mudar muito ao longo dos séculos.
Isso vai impactar muito todas as esferas dessa vida, né? As questões religiosas, políticas, institucionais, constitucionais, econômicas, vai ter um desdobramento sobre qualquer parte que a gente olhar nesses espaços. Os Atos de União de 1707 são os que unificam formalmente a Inglaterra e a Escócia. Em 1801, a Irlanda também vai fazer parte oficialmente desse Reino Unido, mas lá no Segunda Guerra Mundial, com as guerras de independência da Irlanda, há uma cisão e a gente tem apenas a Irlanda do Norte fazendo parte hoje em dia, né, e a República da Irlanda como uma unidade autônoma.
Na Idade Média e na época moderna, essa situação era ainda mais complicada. Então, se a gente voltar um pouco para as origens, a Inglaterra começa ali com os reinos anglo-saxões, tem vários deles que têm mais ou menos alguma autonomia com relação ao outro, mas vai ser a partir de 1066, no século 11, com as invasões normandas e a coroação de Guilherme Conquistador, E esses vários reinos se unificam sob um único soberano, e a gente cria esse Reino da Inglaterra.
Nessa altura, o Principado de Gales também era um principado independente, inclusive independente dos reinos anglo-saxões, mas também com a conquista normanda ele vai ser efetivamente aglutinado a essa coroa inglesa no século XIII pelo Eduardo I, que vai ser da dinastia plantageneta, uma das primeiras dinastias a se instituir ali na Inglaterra. A Escócia, por sua vez, era um reino separado, consolidado também a partir de pequenos reinos anteriores no medievo, E vai ser o Malcolm III, o Comore, no século 12, que vai unificar essa região também.
A gente vai ter o reino da Escócia. O ponto aqui, né, importante falar disso, é que há diferentes momentos, diversas ocasiões em que há invasões ou tentativas de invasões da Escócia por parte dos ingleses. E aí desses conflitos a gente vai ter uma série de tensões entre esses dois reinos, né? E emerge, por exemplo, a figura super conhecida por causa lá do filme Coração Valente, do William Wallace, né? Um dos principais líderes do conflito contra os ingleses ali entre os finais do século século 13, início do século 14.
E esses contatos entre escoceses e ingleses, não só por tentativas de invasão e questões bélicas, mas também por casamentos e acordos, diversas alianças, vão fazer com que muitas dinastias estejam entrelaçadas e possam reivindicar o direito ao trono a partir de ambos os lados. A gente vai ver isso mais efetivamente entrando ali na época moderna, entre os Tudors e os Stuarts, especialmente com o caso da disputa entre a Rainha Maria dos escoceses dinastia Stuart, e a sua prima Elizabeth I, que é Tudor, filha lá do Henrique VIII na Inglaterra.
Então a Maria por muitas vezes vai reivindicar esse trono, a gente vai ter uma série de conflitos e no desdobrar disso Maria acaba sendo acusada de traição por planejar a morte de Elizabeth I e é executada em 1587. A Irlanda também não está fora desses conflitos, mas ela tem uma outra relação com esses reinos e com como esse espaço geográfico em disputa vai se consolidar. No caso, a Irlanda era uma concessão concessão papal. Ela foi doada pelo Papa Adriano IV, a Inglaterra, né, era um papa inglês, no século 12.
E quando Henrique VIII rompe com a Igreja Católica em 1534, isso cria uma situação bastante incerta, né? O que que vai acontecer? Essa concessão papal, ela tá válida ou não? Pra evitar a perda do território, o Henrique VIII proclama o Ato da Coroa da Irlanda, que vai instituir de fato o Reino da Irlanda em 1541 e vai reconhecer oficialmente que esse reino tem como líder o próprio Henrique VIII. Então a gente vai ter um rei que vai ser ao mesmo tempo ao mesmo tempo soberano do Principado de Gales, que já faz parte da Inglaterra, rei da Inglaterra e rei dessa região irlandesa.
E aí esse vai ser mais ou menos o cenário que se mantém até a morte da Elizabeth I, né, a filha de Henrique VIII, que efetivamente governa a Inglaterra. Quando ela morre sem deixar herdeiros, o próximo da linha sucessória ao trono inglês vai ser um escocês, o Jaime VI Stuart da Escócia. Ele é filho da Maria I, a rainha que foi prima da Elizabeth I e executada né, por conta das guerras entre as duas. E o Jaime, ele já era rei dos escoceses desde 1567, quando ele tinha curiosamente apenas 13 meses, né.
Obviamente esse governo foi feito por regentes e não por ele propriamente dito, mas ele vai assumir efetivamente em 1578, quando termina a sua menoridade. E em 1603, com a morte da Elizabeth I, ele assume também o reinado da Inglaterra. E eu contei todo esse preâmbulo porque esse vai ser um momento fundamental para a gente entender tudo que dá errado. A partir daí vai ser a primeira vez que um rei é soberano sobre esses espaços todos que conformam as Ilhas Britânicas.
Então ele é rei da Escócia, né, Jaime VI na Escócia, Jaime I na Inglaterra, ele também vai ter possessão sobre Gales e sobre a Irlanda, né. Então ele é considerado o grande unificador das Ilhas Britânicas nesse contexto, muito antes da gente ter uma ideia de Reino Unido. A questão aí, né, é que a autonomia dessas regiões vai ser muito diversa frente à soberania do próprio monarca. E para ele governar tudo isso, né, ele sendo considerado esse grande unificador, isso não vai ser exatamente muito fácil, né?
O reino é muito extenso, ele vai governar de Londres, né? Ele sai da Escócia e se estabelece em Londres e de lá praticamente não sai. Então ele vai precisar de uma grande estrutura burocrática com uma série de vice-reis, duques, barões que vão se espalhar ali pelas ilhas para manter a administração razoavelmente estável dentro do seu reino. Então o Jaime I, né, vou me referir mais a ele assim para evitar a repetição dos vários títulos, ele vai ser lembrado por grande parte da historiografia ou mesmo das fontes da época como um rei bastante cauteloso e pacífico, que considerando toda essa extensão desse reino e a dificuldade de lidar com todos esses contextos, vai tentar sempre evitar guerras, né, e vai preferir fazer acordos burocráticos.
Então, se ele precisa resolver uma tensão, muitas vezes vai ser melhor fazer um acordo com uma elite local na Irlanda, uma elite local na Escócia, e assegurar a estabilidade desse espaço. Então, por exemplo, ainda que desde o Henrique VIII a gente tenha institucionalizada a Igreja Anglicana, né, como a confissão oficial na Inglaterra, o Jaime de alguma forma também também vai permitir alguns desvios em outros espaços do reino.
Claro, não é exatamente que o reino tem tolerância, né, há perseguições diversas, sobretudo às comunidades católicas, mas ele vai um pouco deixar passar, por exemplo, a existência do presbiterianismo de vertente mais calvinista na Escócia, né, uma vertente que foi difundida pelo John Knox a partir de 1560, do que instituir necessariamente a obrigatoriedade de se associar à Igreja Anglicana como ela era. Na Irlanda, a gente também ele vai encontrar uma série de elites assim da pequena empresa, né, ainda desse contexto, que professavam o catolicismo.
Então, para não criar uma tensão maior nesse espaço todo, ele vai tentar resolver essas situações com esses pequenos acordos, com o aumento dessa burocracia estatal, que também é uma burocracia muito onerosa, né. Então, a partir do reinado dos Stuart, a coroa é muito mais cara do que ela já foi, né. Isso é uma coisa importante de marcar, porque os problemas econômicos vão ser fundamentais ali também para o desdobramento das revoluções ali no meado do século 17.
Então, claro, o Jaime I está fazendo todo esse esforço, a gente também não pode ali confiar cegamente nas fontes, né? A gente tem que também considerar que esse equilíbrio que ele consegue estabelecer é um equilíbrio um tanto tenso, né? E um episódio marcante que já indica a fragilidade desse equilíbrio é a Conspiração da Pólvora, que vai acontecer em 1605, né, com o fanático católico Guy Fawkes, né, que todo mundo deve conhecer talvez pelo filme V de Vingança ou os quadrinhos V de Vingança, né, que teve essa figura inspirada nesse personagem, que vai planejar explodir o parlamento da Inglaterra um pouco para forçar a abolição do anglicanismo, forçar ali com que o Jaime I e essa estrutura Stuart protestante se distanciasse e a gente pudesse retornar ali nesse mundo inglês ao catolicismo.
Então isso é um episódio muito tenso, né, inclusive vai levar a uma reação do próprio Jaime I, ele vai forçar um novo ato de lealdade, né, justamente depois desse momento da Conspiração da Pólvora, para reforçar que há uma unidade, uma suposta estabilidade protestante anglicana e inglesa, né, em grande medida. Esse equilíbrio que é tenso, que passa por esses momentos de tensão, como eu acabei de descrever, ele vai ficar ainda mais complicado a partir da morte do Jaime I em 1625 e a coroação do Carlos I, que aí efetivamente é o rei que vai enfrentar as revoluções que a gente vai discutir hoje.
E ele, ao contrário do pai, tem uma postura muito mais intervencionista do que essa postura de tentar os acordos e discutir com as elites e manter uma certa estrutura ordenada. Então ele vai entrar em diversos conflitos desde que ele assume o governo, conflitos internos e externos. Ele vai entrar em guerra contra a Espanha, contra a França, potências ali que disputavam o poder contra a Inglaterra, e vai também tentar fazer uma série de reformas econômicas, administrativas, políticas e religiosas, né, que eu acho que são algumas das mais importantes aqui, para homogeneizar o reino.
E isso vai gerar uma série de reações, né. Então, sobretudo as questões do ponto de vista confessional, as questões religiosas vão ser algumas das que vão mais receber respostas inflamadas. Então, isso eu coloco aqui, né, como você bem falou, é para apontar que quando a gente vai estudar as revoluções inglesas, a gente tem que se defrontar com essa situação. Parte da historiografia revisionista vai dizer que muitas vezes tudo aconteceu porque era foi um acidente de percurso e Carlos I era um péssimo governante.
De fato, ele era um péssimo administrador, tomou decisões muito equivocadas. Mas não é só isso que justifica tudo o que acontece. Há uma longuíssima história de conflitos, de tensões entre essas várias partes e o que é o próprio estabelecimento da soberania dentro da Dinastia Stuart, que vão levar ao desdobramento dos conflitos posteriormente. Então, um pouco aqui, queria deixar claro esse panorama do que a gente vai enfrentar nas próximas questões.
Quando a gente fala nas Guerras dos Três Reinos, normalmente o foco acaba ficando só na Guerra Civil Inglesa, mas como o próprio nome sugere, né, esse conflito ele envolve três reinos diferentes e uma série de guerras interligadas. Então eu queria te perguntar o que seriam essas Guerras de Três Reinos e por que que elas não podem ser reduzidas apenas ao conflito entre o Parlamento e o rei na Inglaterra.
Então esse termo, né, Guerra dos Três Reinos, ele começou a ganhar bastante popularidade nessas últimas décadas, né, sobretudo do século 21, na historiografia, para chamar da importância da Escócia e da Irlanda para o desdobramento dos conflitos e para o que quer que aconteça. E acho que o ponto aqui é demarcar que as guerras civis, a Revolução como um todo, elas não dependem apenas da Inglaterra, né? Então aquele panorama com o qual a gente começou, de como há uma tensão entre todas essas áreas das Ilhas Britânicas, ela é fundamental.
E um dos estopins para o desgaste político, econômico, social, cultural que vai levar a coroa inglesa à sua suspensão né, vai ser a Guerra dos Bispos entre a Inglaterra e a Escócia, que começa em 1639. Então a gente já vê aí que um dos principais momentos de disputa tem a ver com uma relação que ultrapassa os limites fronteiriços ali da Inglaterra invadindo a Escócia. Esse conflito vai começar com o Carlos I e o seu arcebispo da Cantuária, William Laud, fazendo uma série de mudanças.
Por que que isso é importante? Bom, na Inglaterra, desde o Henrique VIII, com a ruptura com a Igreja Católica, a definição da organização administrativa da Igreja Anglicana é que o líder da confissão é também o próprio rei, né? Então Henrique VIII se torna ele rei da Inglaterra e chefe da Igreja. Abaixo dele está o arcebispo da Cantuária. Então é sempre o líder, o segundo mais importante dentro dessa hierarquia, e normalmente quem vai ser realmente responsável pela discussão teológica de como que a Igreja vai se organizar.
E nesse contexto a gente vai ter Carlos I e William Laud como o arcebispo da Cantuária. Santuário. O Laud, ele vai ser, né, aqui a gente tá falando de protestantes, claro, mas há uma série de variações do protestantismo na época moderna, né. Então é muito diferente a gente falar sobre o que que o Lutero tá fazendo, Calvino tá fazendo, e vários outros teólogos vão propor. E o Laud, ele vai ser expoente de uma corrente chamada arminianismo, né.
Essa vai ser uma corrente protestante anticalvinista, então que ela vai pregar contra a doutrina da predestinação, vai advogar muito em favor da questão do livre-arbítrio, e vai também defender que a Igreja tenha uma série de estruturas administrativas e de uma forte hierarquia dentro dela para sua organização. Então ela vai insistir, o armenianismo vai insistir muito na importância dos sacramentos, dos ritos, da hierarquia episcopal como um todo.
Isso vai ser visto por alguns protestantes, sejam eles anglicanos, sejam eles de outras vertentes protestantes, muitas vezes como uma característica papista, então pejorativo mesmo, desse novo arcebispo e também do próprio Carlos I. Então isso não vai ser visto com bons olhos por vários teólogos e várias pessoas que simplesmente professavam ali a fé. Isso vai gerar reação sobretudo entre setores que são chamados muitas vezes de puritanos, que ganham esses nomes pejorativamente também, justamente por serem aqueles que pretendiam purificar a Igreja Inglesa.
Então a gente vai ter uma tensão que vai começar a se conformar aí. O ponto vai ser que o Laud e o Carlos I, eles vão tentar, ao reformar a a Igreja Anglicana, né, instituindo mais fortemente a hierarquia, né. Então vai ter um bispo, vai ter um arcebispo, bispo e todos os outros que se seguem nessa lógica da administração episcopal. E a gente vai ter também a instituição de formas de professar, né. Então vai se ter muita atenção ao que vai ser conhecido como Livro de Orações Comum, ou Common Prayer, que vai ser uma ordenação dos ritos de como que a fé deve ser professada, como que as orações devem ser feitas, como que a missa deve se organizar e tudo mais.
E Essa reorganização da Igreja Anglicana, ela vai ser exportada, ela não vai ficar só limitada ao recorte inglês. A ideia do Laud e do Carlos I é que ela seja também levada à Irlanda e à Escócia. A Irlanda, que ainda tinha, como eu falei para você mais cedo, algumas elites católicas, né, uma pequena nobreza ali que ainda professava o catolicismo. E na Irlanda, na Escócia, perdão, a gente vai ter aquela vertente protestante mais ligada ao presbiterianismo e que também precisaria passar por uma reforma.
E isso vai enfrentar uma resistência, essa reforma vai enfrentar uma resistência muito forte, sobretudo na Escócia. Lá a gente vai ter uma estrutura religiosa, a Igreja Escocesa muitas vezes é chamada de Kirk, na qual a ideia do presbiterianismo vai organizar essa igreja a partir de conselhos de anciões, né? Então líderes religiosos mais eruditos que fazem parte daquela comunidade vão instituir em conselho, né, coletivamente, quais são os ritos a serem observados, quais são os dogmas, qual é a ortodoxia.
E o que o Carlos I e o que William Laud estão tentando instalar é uma outra estrutura que não caberia mais nessa discussão coletiva dessas comunidades. Então, quando essa proposta de reforma chega e a obrigação de observância ao livro de orações comuns também é instituída, a comunidade, a Assembleia Geral da Igreja Escocesa, a Assembleia Geral da Kirk, vai recusar essas imposições. E aí a gente vai começar a ter um impasse entre esse núcleo religioso na Escócia e a estrutura administrativa do reinado do Carlos I.
E o Carlos I, assim como junto com o seu arcebispo da Cantuária, vai tentar colocar à força essas medidas. Entre ali com o impasse que vai se desenvolvendo, ele vai convocar um exército para invadir a Escócia. E o problema que o Carlos I começa a enfrentar aí é que tem muitas perdas no campo de batalha. Esse exército passa por situações muito ruins e ele é forçado a tentar convocar o parlamento em abril de 1640. O seu parlamento na Inglaterra, para ter condições melhores de enfrentar o exército escocês.
Então ele precisa de dinheiro, de fato, para injetar nessas fileiras de exército e continuar a sua campanha. O que acontece, e aí os vários problemas vão se cruzando, é que o Carlos I enfrenta muita resistência por parte dos próprios parlamentares. Afinal, nessa altura, em abril de 1640, fazia 11 anos que ele não convocava o parlamento para nenhuma negociação. A última vez que ele havia convocado era também para conseguir dinheiro para suas campanhas militares contra a Espanha e contra a França, e não tendo conseguido, ele dissolveu o parlamento e desde então teve uma atitude que a gente vai chamar aqui muitas vezes de governo pessoal ou governo absoluto, governo arbitrário, dependendo da corrente historiográfica, qualquer um desses termos vai ser possível de ser articulado aqui.
O ponto é que ele quer tentar governar sozinho, sem os conselhos, com os quais ele deveria negociar, supostamente, desde ali a Magna Carta. A questão aqui, então, ele vai convocar o parlamento, vai pedir mais fundos para continuar essa campanha militar, e o parlamento vai colocar uma condição, né? Então vai considerar que isso pode ser conferido ao Carlos I se ele aceitasse uma série de demandas para diminuir esse governo absoluto, arbitrário ou pessoal que ele vinha tendo.
E uma das coisas que vai entrar em pauta, né, dá para a gente discutir todas, vai ser a questão da abolição de um imposto chamado Ship Money. Esse imposto existia há muito tempo, né, era um imposto corrente nesse mundo inglês, mas ele era um imposto pago apenas por cidades portuárias em momentos de guerra para proteger justamente os portos de invasões, né. Então era um imposto do navio. Quando o Carlos I, 11 anos atrás, tentou negociar com o parlamento justamente para ter recursos financeiros para suas guerras contra a Espanha e a França e não conseguiu, a solução que ele adotou, né, já que não era possível instituir um novo imposto sem aprovação do parlamento, foi ampliar um imposto que já existia.
Então ele pegou esse imposto do navio, esse Town Ship Money, e decidiu que todas as cidades, não apenas as cidades portuárias, pagariam por ele, e não apenas em momentos de guerra, mas em qualquer momento. Então ele basicamente criou um novo imposto ao instituir que esse Ship Money, que era temporário, transitório e aplicado apenas em algumas regiões, se tornasse um imposto corrente em toda a Inglaterra por quase um momento assim sem interrupções.
Então, isso vai ser visto como um imposto absolutamente arbitrário, desnecessário, que muitas pessoas vão se opor. E o parlamento de 1640 vai dizer que está de acordo com as demandas de Carlos I se ele abolir esse imposto. O Carlos I vai se negar a fazer isso e vai dissolver esse parlamento. Ele vai ficar conhecido como Parlamento Curto, porque ele dura apenas 3 semanas. Importante dizer aqui que nesse contexto o parlamento não existe enquanto uma instituição estável, ele é convocado.
Há um historiador, David Farr, que vai dizer inclusive que o parlamento é um evento, ele é chamado pelo rei em alguns momentos, né? E os representantes das regiões, sejam eles da Câmara dos Comuns, né, ou os da Câmara dos Lordes, vão se reunir em momentos específicos. Por isso cada parlamento às vezes tem um nome. E esse parlamento curto então vai ser dissolvido e o Carlos I vai tentar outras formas de angariar fundos ou apoio para continuar os seus conflitos com com a Escócia.
O problema é que esses conflitos vão se agravar tanto que inclusive as forças escocesas começam a invadir a Inglaterra. E aí o Carlos I se vê obrigado novamente a convocar o Parlamento, né? Isso a gente já tá avançando no ano de 1640, e essa segunda convocação acontece em novembro. E dessa vez o Parlamento, mais incomodado ali com toda a situação que vinha se desdobrando, vai colocar ainda mais condições para o seu apoio, né? E vai demandar uma série de coisas.
Essas demandas vão aparecer um documento chamado Grand Remonstrance, ou Grande Protesto, se a gente fosse traduzir. E entre outras coisas, esse documento vai solicitar que existam reuniões regulares do parlamento a cada 3 anos, né, nos seus atos trienais. Vai solicitar o fim de impostos abusivos, como aquele do Ship Money, e vai também solicitar a deposição do arcebispo da Cantuária, William Laud, que começou aquelas reformas religiosas que desagradaram a todo mundo e que criaram essa situação da guerra contra a Escócia para início de conversa e vão solicitar também o impeachment de uma outra figura que eu ainda não falei, né, e que vai entrar agora na discussão, que é o Conde de Stratford, Thomas Wentworth, que é nessa altura vice-rei da Irlanda.
E aí a gente continua a responder por que que essa Guerra dos Três Reinos não depende só da Inglaterra. Falei bastante da Escócia e agora eu vou voltar um pouquinho para falar da Irlanda. Por que que o Stratford ele é mencionado pelo parlamento, né, nessa demanda, né, nesse grande protesto, como alguém que precisa perder o cargo? Bom, aí a gente vai ter que considerar que Primeiro, se a gente voltar lá para o próprio fato de que a Irlanda era uma possessão, que veio de uma possessão católica, ela era uma região bastante explorada economicamente pela Inglaterra.
Então, uma série de espaços de plantio eram usados por colonos ingleses, o que já desagradava a muita gente dentro desse contexto. Grande parte da propriedade de terra no plantio nesse contexto estava muito mais nas mãos dos colonos ingleses do que dos clãs originais da Irlanda. E o Conde de Stratford, no final final da década de 1630, ele vai propor medidas ainda mais restritivas para essa comunidade irlandesa. Então ele vai tentar não só expandir o domínio econômico que a Inglaterra tinha sobre a região, como um domínio cultural e religioso, instituindo fortemente a religião protestante na Inglaterra e indo contra essas comunidades católicas da região, especialmente essas pequenas elites, essa pequena nobreza irlandesa que ainda professava o catolicismo.
Então já era um ambiente de profunda tensão. E o que vai acontecer? Acaba sendo bastante complicado, porque há várias disputas se entrecortando nesse momento. Durante a Guerra dos Bispos, o Carlos I, sem conseguir levantar os fundos para enfrentar os escoceses com o seu próprio parlamento na Inglaterra, vai chegar a propor para essa pequena nobreza católica da Irlanda um acordo. Ele vai sugerir que se um exército de apoio irlandês ajudasse, ele poderia oferecer tolerância religiosa na Irlanda.
E isso vai amplificar os temores tanto na Escócia, né, que tava já ali em rebelião por conta da instituição dos bispos, e na própria Inglaterra sobre as posturas do monarca, né, e sobre o quanto esse arminianismo não era algum flerte com o catolicismo ou uma postura católica. E ao mesmo tempo vai chamar atenção para uma forma de governo que é cada vez mais descrita como uma forma tirânica, né. Então, como o rei quer que a sua própria vontade seja estabelecida, ele vai organizar esses acordos, não interessa o que que aconteça, para que a sua vontade se sobreponha ao bem-estar do povo.
Então ele vai ser cada vez mais descrito como esse rei tirano. No centro dessa tensão e dessa disputa vai estar o Stratford, que é o vice-rei, é quem tá fazendo todas essas negociações e dando apoio ao Carlos I. Por isso, quando o parlamento oferece novas condições para garantir fundos à coroa, ele vai pedir a cabeça do Conde de Stratford, Thomas Wentworth. O Carlos I vai chegar a sacrificar esse sujeito, né? Então em maio de 1641, Stratford acaba sendo executado, né?
Ele não vai sofrer apenas um impeachment, mas vai ser executado. Mas ele não vai acatar a todos os pedidos que o parlamento faz, né? Então, nada disso vai solucionar o problema. E se aproveitando dessa situação de tensão e até de enfraquecimento da figura do monarca, outros setores na Irlanda, né, os que não fariam parte desse acordo com o próprio rei, vão entrar em uma própria rebelião a partir ali de outubro 1641 contra o domínio inglês.
Então Carlos I, que teria continuado aquela dinastia iniciada pelo seu pai de um reinado sobre todos os reinos das Ilhas Britânicas, vai ver todos esses reinos começarem a entrar em rebeliões contra sua própria administração. Como eu falei, o Carlos I tentando solucionar esse problema com o parlamento vai sacrificar a figura do Stratford, que não era lá muito benquista, né? Ele era um vice-rei bastante violento, né? E tinha uma postura na Irlanda bastante Mas como ele não acata todas as demandas do Parlamento, ele vai mais uma vez tentar vencer pela força.
Então ele vai dissolver o Parlamento, vai tentar, na verdade, vou usar esse termo, ele vai tentar dissolver o Parlamento e vai perseguir os líderes da oposição a ele dentro dessa Assembleia. Isso ele vai fazer com a ajuda de uma guarda, né? Então ele vai levar 400 soldados para o Parlamento lá em Westminster e vai invadir o prédio em 4 de janeiro de 1642 para prender esses opositores e levá-los levá-los a um julgamento por traição, tendo eles oferecido resistência às decisões do rei.
Então seria esse o principal crime que eles poderiam ser acusados. Esse ataque militar que o Carlos I vai fazer à própria Assembleia vai gerar a reação que vai levar de fato à Revolução Inglesa, como a gente chama. Então, se a gente pensar só os eventos na Inglaterra, eles começam em 1642, mas se a gente começa a olhar para os Três Reinos, começa em 1639, já com a Guerra dos Bispos. Mas é a partir daí que o Parlamento vai tomar uma das atitudes que eu considero uma das grandes viradas revolucionárias desse momento mesmo, que vai ser em março de 1642, depois desse primeiro ataque do rei.
Eles vão emitir o que vai ser chamado de Portaria da Milícia, que vai permitir que o Parlamento tenha um exército próprio. E esse exército vai ser levantado, segundo esse documento, para proteger a soberania do governo, que é um governo misto nesse contexto, é o do rei no Parlamento, né? A soberania assegurada por essas duas instituições. E já que o próprio rei ameaçaria equilíbrio dessa instituição, ele vai ser reconhecido como um rei tirânico e que precisa ser parado.
Inicialmente ninguém pensa em executar o rei, acabar com a monarquia, não é essa a ideia, mas é a proteção da própria instituição que se tinha antes, né? Então nesse momento é a preservação de um status quo o que se busca. E a gente vê a partir desses movimentos, né, como todas essas regiões, né, Escócia, Irlanda, vão ser fundamentais para tudo que tá acontecendo. Então o termo Guerra dos Três Reinos ganha mais amplitude quando a gente coloca tudo isso para discussão, né? E é daí que começa realmente a parte mais belicosa desses conflitos.
Estas revoluções marcaram a ascensão da burguesia e consolidaram a monarquia parlamentarista na Inglaterra.
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Uma questão muito importante nesse contexto é a religião, né? O Carlos I tentou implementar mudanças religiosas que encontraram muita resistência, especialmente na Escócia, e isso acabou desencadeando boa parte da crise. Então eu queria pedir para você explicar qual foi o papel das disputas religiosas no início esses conflitos e por que elas acabaram se misturando tão profundamente com as disputas políticas?
Então, a gente já falou um pouco disso, né? Tava apontando esses vários imbricamentos religiosos e essa é uma questão fundamental. Eu gosto muito do Christopher Hill, tem uma série de críticas, né, também podem ser feitas às obras dele, mas ele tem uma postura em uma das suas obras e que eu acho que é fundamental pra gente entender o que tá acontecendo, que é de considerar que a religião é o principal idioma por meio do qual as pessoas na época moderna pensavam e se expressavam politicamente muitas vezes.
Então não há uma separação muito clara entre o que está acontecendo do ponto de vista político ou religioso. Quando a gente tem, se a gente volta para a própria questão do Henrique VIII fazer uma cisão com Roma e que também implica numa nova organização da monarquia e uma nova organização religiosa, a gente vê como essas duas coisas estão muito coladas. E esse mundo britânico, desde a cisão do Henrique VIII em 1534, ele passa por muitas intenções de continuidade da Confissão.
Então, Henrique VIII rompe, mas depois que ele morre, né, há uma grande confusão ali com relação à continuidade religiosa dentro do seu reino. O Eduardo VI, né, que seria o filho do Henrique VIII com a Joana Seymour, ele era anglicano como o pai, mas ele falece muito precocemente, não consegue manter essa continuidade da Igreja instituída pelo Henrique VIII. Quem assume em seguida, que é a Maria I, e era filha da Catarina de Aragão com Henrique VIII e que é também casada com Felipe II de Espanha, ela é uma rainha católica, né?
E quando ela assume o reino nesse momento, há uma grande perseguição aos protestantes, né? Tanto que a gente vai ter aquele fatídico episódio, né, de várias execuções que vai dar a ela o nome de Maria Sangrenta ou Bloody Mary, né? Quando a gente tem o reinado da Elizabeth I, a gente volta para o protestantismo. Ela, assim como o pai, anglicana. Ela que era filha da Ana Catarina com o Henrique VIII, vai retornar, vai levar a Inglaterra de volta à estrutura do anglicanismo, vai de novo instituir os mesmos atos de soberania e de uniformidade que o pai dela coloca, né, quando ele faz a primeira ruptura com Roma.
Então isso vai fazer com que exista uma tensão religiosa muito grande nesse contexto inglês. Muitas vezes quando eu tô dando aula sobre isso, os meus alunos ficam um pouco em dúvida, até perguntam: nossa, mas professora, faz diferença mesmo, né, se o rei é católico, se o rei é protestante, e faz absoluta diferença, né? Sobretudo aqui, se eu tenho dentro de um reino anglicano um súdito católico, ele é um traidor em potencial, porque a soberania que ele reconhece, a primeira lealdade que ele presta é ao papado e depois ao rei.
Então essa tensão de quem é o rei, qual é a religião e o que que o povo vai poder professar, isso cria uma tensão muito grande dentro do reino. Então a gente tá lidando com uma situação que para além da gente ter os presbiterianos escoceses de um lado, algumas elites católicas na Irlanda de outro, a própria Inglaterra tem uma situação muito tensa com a confissão. E aí a gente, essas disputas entre uma vertente protestante arminiana que é acusada de papismo, o anglicanismo tal como ele havia sido instituído anteriormente, e as várias vertentes protestantes que vão se desenvolver nesse momento, vão ser muito amplas, né?
E essas várias vertentes que muitas vezes vão ser chamadas de puritanismo, como eu falei, porque queriam purificar essa igreja mais a fundo. Então alguns historiadores vão inclusive olhar para esse momento do século 17 como um todo na Inglaterra e se perguntar se essa é a primeira revolução moderna ou se essa é a última guerra de religião, porque há uma importância fundamental das questões teológicas aqui e mesmo da participação das seitas protestantes, né?
Em alguns momentos, mais à frente a gente vai falar um pouquinho disso, Algumas seitas têm inclusive uma participação dentro do parlamento muito forte, com uma tentativa de modificar leis vigentes e instituir uma outra lógica de administração pública. Isso não funciona, né? Mas a religião, ela não deixa de ser um elemento muito fundamental dentro desse contexto e que tá perpassando todas as decisões políticas, né? Quando a gente falar um pouquinho mais na frente do Oliver Crown, isso também vai fazer sentido, porque ele também vai ser muitas vezes visto como um eleito de Deus, né? A religião não tá ausente das disputas políticas de modo algum.
Depois que a guerra começa, ela rapidamente deixa de ser só um embate político e passa a envolver campanhas militares de grande escala. Como é que se desenrolaram essas guerras? Quais foram os principais momentos do conflito? Quem eram os lados envolvidos? Como é que o parlamento conseguiu aos poucos superar as forças reais, no caso, as forças que tinham alguma lealdade ao rei?
O período das guerras, ele pode ser dividido em duas fases. Então a gente tem a Primeira Guerra Civil, que vai acontecer entre 1642 e 1646, e a Segunda Guerra Civil, que vai de 1647 até 1649. A primeira grande batalha desse contexto vai ser a de Edgehill, que acontece em outubro de 1642, né? Então, alguns meses depois de o rei ter invadido o parlamento, depois do parlamento ter levantado o seu próprio exército, a gente começa a ver essa disputa bélica começar a se conformar nos campos de batalha mesmo.
Essa primeira batalha, ela não vai ter um vitorioso muito claro, tem perdas dos dois lados e não se evidencia muito fortemente quem mas ela demonstra um pouco como essas duas forças em disputa vão se organizar. De um lado, efetivamente, vai se ver o exército do rei, que vai contar com aqueles que vão ser conhecidos como cavaliers, né, os regalistas. Eles vão ser, sobretudo, parte da nobreza, né, mas não apenas, né, às vezes essa é uma descrição um pouco simplista, né, mas os cavaliers vão ser normalmente os que estão liderando esses exércitos regalistas, e eles vão ser facilmente identificáveis nos campos de batalha, nos quadros que são pintados depois, ou mesmo nas descrições escritas das guerras, por conta da suntuosidade da sua aparência.
Afinal, eram todos nobres, né? Então, os cabelos muito longos, as armaduras ali mais caras, né? A vestimenta vai ser muito evidente do lugar social que esses cavalheiros ocupam. De outro lado, a gente vai ter o exército do Parlamento, com aqueles que vão ficar conhecidos pela alcunha de Roundheads, ou cabeças redondas. Esse apelido vem justamente por essa diferença de cabelos, né, mais austeros, né, por conta dessa estética um tanto protestante, puritana.
A gente vai encontrar nessas fileiras do exército parlamentar cabelos curtos, né, então por isso o apelido Roundhead. E também uma aparência geral mais austera, né, sem essa suntuosidade nas vestimentas e nas armaduras. Bom, ambos os lados vão ter dificuldades iniciais para conseguir armas, montar os exércitos e tudo mais. Mas ao final do ano de 1642, que é o primeiro ano dos conflitos, cada lado vai contar mais ou menos com 60 a 70 mil soldados.
Então vai ser uma batalha de grande escala e que vai acontecer em todas as partes do reino. E as batalhas eram obviamente devastadoras. Elas vão ser descritas como momentos que acabam com as plantações, com as cidades, com as casas, as vilas inteiras, né? A gente sempre tem aqueles relatos terríveis nas fontes de cidades que são incendiadas, mulheres que sofrem violências diversas e o banho de sangue que vai se espalhar pelas Ilhas Britânicas.
Entre essas diversas descrições dessas guerras sangrentas, há muitas vezes também uma fala de que as guerras civis opuseram pais e filhos, pelo próprio antagonismo político que podia acontecer com uma certa polarização. Às vezes o pai estar a favor do rei e o filho seu filho a favor do Parlamento. Ou enfim, há descrições de como que essas guerras acabaram com o sustento de famílias inteiras, porque devastaram tudo que tinha. Então vai ser lembrado como um momento muito sangrento.
Nesse contexto, a gente vê algumas divisões geográficas estabelecidas na Inglaterra, sobretudo a partir de como que os exércitos vão se deslocar e aonde que eles vão ocupar. E nesse momento, o rei, ele não está estabelecido em Londres, né? Assim que o conflito com o Parlamento começa, ele se refugia em Oxford junto com a corte e E vai ser basicamente dali que ele vai administrar um pouco os conflitos nesse momento. O parlamento, ele vai estar um pouco espalhado e consegue ocupar regiões ricas ao sul e ao oeste da Inglaterra.
E sobretudo, o parlamento tem a cidade de Londres, né? E isso vai ser algo que sempre vai gerar uma situação de maior vantagem, né? O grande centro econômico portuário, onde tem dinheiro, onde tem uma série de provisões. Carlos I, ele vai tentar diversas vezes invadir Londres, mas não vai conseguir. Londres continua ao longo de toda a guerra como uma possessão parlamentar. O parlamento, ele vai conquistar, o exército do parlamento vai conquistar uma vitória bastante importante em 1644, que é quando a coisa começa um pouco a mudar de figura.
Isso vai acontecer na Batalha de Manchester Moor, na qual o exército parlamentar vai conseguir aniquilar parte significativa do exército do rei. Então essa perda mesmo de soldados vai ser importante para para as próximas batalhas. Mas talvez a maior mudança que vai ocorrer a partir de 1645 vai ser a criação do Exército de Novo Tipo, New Model Army, né, sobre o qual a gente vai falar um pouco mais daqui a pouco, mas que é um exército que por conta da sua formação, da estrutura, das táticas, vai ter muito sucesso nas batalhas subsequentes.
Mas ele sozinho não daria conta, né. A historiografia vem discutindo bastante como, e aí voltamos, né, quando a gente fala em Guerra dos Três Reinos e não apenas em Revolução Inglesa ou guerras civis inglesas, a historiografia vai mostrar muito fortemente como as vitórias do parlamento dependeram também do apoio escocês. Desde 1643, né, então o ano seguinte ao início dos conflitos, o parlamento inglês vai fazer um acordo com partes da Escócia, né, com aquilo que a gente vai chamados Covenanters escoceses, que são justamente aqueles presbiterianos que queriam preservar a autonomia da Kirk, da sua igreja escocesa.
E vai existir um acordo ali de que o parlamento ajudaria na manutenção da estrutura presbiteriana, inclusive ajudaria a fazer uma reforma da Igreja Anglicana aos moldes presbiterianos. Então, fazendo um pouco o inverso do que o Carlos I teria tentado quando quis forçar a estrutura anglicana aos escoceses, né? Há aqui uma articulação para que o parlamento conte com o exército escocês e, na contrapartida, apoie o presbiterianismo.
Então, a partir de 1643, esse exército parlamentar vai contar com uma força muito numerosa que é também advinda da Escócia. Vai ser assim que, em 1646, justamente as tropas escocesas fazem com que o rei seja rendido na região de Newark. Nesse momento a gente tem uma primeira, um momento de paz, né, um intervalo ali entre as guerras. Então em 46, com o rei capturado, começa a ser discutida a paz, né, o que que se faz agora, quais são os termos para que tudo volte a ser como antes, né.
Quando, como eu falei, quando o parlamento resolve levantar o seu próprio exército Não é inicialmente para acabar com o monarca, mas para discutir uma forma melhor de governo que preservasse aquilo que se considerava o adequado naquele governo misto: a soberania do rei no parlamento. Nesse intervalo para negociação de paz, há diversas propostas que vão começar a aparecer, e elas não aparecem apenas por parte dos grandes políticos do parlamento, mas por uma série de outros sujeitos e agentes políticos.
Então, as próprias fileiras do exército, que vão se radicalizando durante essas guerras, vão propor também algumas ideias de como que a política inglesa deveria se organizar ao se restaurar o rei ao seu trono. E a imprensa, né, que nesse momento é extremamente prolífica, vai publicar uma série de panfletos, petições, pequenos jornais, que também vão tentar discutir o que tá acontecendo e pensar quais são as melhores saídas acabar com essas guerras sangrentas.
Um momento muito importante dessas discussões vai ser aquilo que a gente vai chamar de debates de Putney. Eles ganham esse nome porque acontecem na Igreja Saint Mary em Putney, entre outubro e novembro de 1647, durante esse intervalo das batalhas. Nesses debates, a gente conta com líderes do parlamento e líderes do exército, né? Justamente essas fileiras também vão se reunir para discutir. E aí diferentes propostas de Constituição vão emergir daí.
Inglaterra não tinha uma Constituição escrita, né? A Magna Carta aparece, mas ela não é exatamente uma Constituição lá no século 13. E o que acontece nesse mundo inglês está pautado muito mais no direito consuetudinário, né? E nesse momento vai se debater a possibilidade de uma Constituição escrita que tenha algum tipo de limitação dos poderes do rei ou assegure alguns dos direitos. Aparecem, por exemplo, versões muito radicais de Constituições aí a partir do movimento dos Levellers, um movimento que surge dentro das fileiras militares, que vai contar com um sujeito como John Lilburne como uma das suas lideranças, né?
Ele era um advogado e também militar que vai participar ali do Exército de Novo Tipo e que vão pensar em um governo com maior participação popular. Então vão discutir um pouco se é possível ter sufrágio universal ou sufrágio masculino, o que que é considerado povo, quais são os limites da soberania, quais direitos o rei tem ou não tem, como que o parlamento deve ou não deve ser convocado, né? Vão sugerir por exemplo, que o parlamento tenha apenas a Câmara dos Comuns, por exemplo, né, vão ter várias propostas ali em discussão.
Nos debates de Putney, as propostas que vão vencer são um pouco mais moderadas do que essas dos Levellers, por exemplo, né, que foram sistematizadas num documento chamado Acordo do Poole. Mas nada do que é proposto para esse acordo de paz ou para como que as coisas se reorganizariam depois da Primeira Guerra Civil, nada disso é implementado porque o Carlos I consegue fugir no meio dessa negociação e ele vai É sempre muito intrincado, né, tudo que vai acontecendo.
Ele vai fugir e ele vai negociar um acordo com outro grupo de escoceses. Então tem um grupo de escoceses que apoiava o parlamento, né, e tem outro que vai fazer um acordo com o rei, vai considerar que o rei é soberano na Escócia desde que, né, ele fizesse também reformas religiosas mais alinhadas ao presbiterianismo. Então a religião aqui sempre muito articulada aos debates políticos. Então Carlos I consegue apoio também de algumas forças escocesas regalistas que vão apoiá-lo numa tentativa de invasão da Inglaterra para restaurar Carlos I ao trono.
Nesse momento, né, essa tentativa do Carlos I de invadir a Inglaterra com auxílio da Escócia vai criar uma nova tensão dentro desse momento da Revolução Inglesa. E aqui a gente vai ter a segunda fase da Guerra Civil. Ela vai eclodir com uma série de rebeliões regalistas nos Três Reinos a partir de 1647. Há algumas perdas, né, especialmente porque o exército parlamentar, que havia crescido bastante, também começa a sofrer um pouco com problemas para o pagamento dos soldos dos soldados.
Então algumas fileiras não pagas do exército parlamentar em Gales vão mudar de lado, então vão se aliar ao exército do rei. Isso vai gerar um momento inicial de esquerda. Mas ainda assim, os regalistas vão ser contidos, sobretudo com destaque para as campanhas parlamentares que vão ser lideradas pelo coronel John Lambert no norte da Inglaterra e Oliver Cromwell, que vai liderar as fileiras contra os escoceses regalistas. Nessa segunda fase das guerras civis, o Carlos I vai acabar sendo capturado e isso vai encerrar a disputa bélica em 1648, 1649, mas não vai com os problemas políticos, né?
E a partir de então recomeçam as negociações e discussões sobre o que fazer, como se institui a paz, mas agora de outra perspectiva. Afinal, o rei, quando ele foge e levanta um novo exército junto com os escoceses, ele vai fazer guerra contra o próprio povo, segundo o parlamento. E nesse momento ele vai ferir um direito primordial à vida dos seus súditos, e a situação dele, né, na negociação de paz vai vai ficar ainda mais complicado.
Uma figura que inevitavelmente aparece quando se fala nesse período é o Oliver Cromwell. Então eu queria pedir para você explicar quem era esse sujeito, como é que ele ascendeu politicamente durante as guerras, enfim, fica à vontade.
Bom, o Cromwell, ele é oriundo de uma nobreza rural, né, ele foi membro do parlamento em duas ocasiões, primeiro pela região de Huntingdon entre 1628 e 1629, e depois ele vai voltar ao parlamento em 1640, né, só depois daquele longo intervalo que o Carlos I ficou convocar o parlamento, e ele volta pela região de Cambridge. Além de ser ali um sujeito com algumas posses e com um lugar político importante, já participando do parlamento, o Cromwell também precisa ser descrito pela sua confissão religiosa, né?
Então, mais uma vez, a religião ficando aqui muito importante. Na década de 30, ele vai se tornar o que a gente poderia considerar um independente, né? Então, alguém que professa a fé protestante ou uma dissidência protestante sem estar vinculado à Igreja Igreja Anglicana, justamente por conta dos seus ritos, da sua suntuosidade ou da ordem hierárquica que se coloca ali. Então ele vai ter uma inspiração muito mais puritana, austera, e vai acreditar muito fortemente no papel da providência divina.
Isso é importante porque muitos dos seus textos políticos, dos seus discursos, começam com passagens bíblicas. Mesmo que ele às vezes esteja defendendo posturas mais ou menos republicanas, o argumento religioso ele sempre vai ser muito forte, né? E a inspiração divina vai ser fundamental para ele enquanto quanto articulador político e também vai ser algo que vai ajudá-lo a ter muito apoio de diversos setores protestantes ao longo das décadas de 1640 e 1650.
Ele vai ser inclusive chamado por muitos de eleito de Deus, como aquele que estaria liderando uma luta de Deus contra as forças demoníacas que seriam representadas, por exemplo, pelo rei, pelo próprio Carlos I nesse contexto. Inclusive é bem interessante que quando o Oliver Cromwell conquista mais poder, quando ele vira Lorde Protetor, depois a gente vai falar um pouco melhor disso, ele vai fazer parte de algumas das discussões sobre readmissão dos judeus na Inglaterra, que haviam sido expostos já na Idade Média.
E essa discussão, ela tem como base uma questão profética, né? Acredita-se que o fim dos tempos vai acontecer quando todos forem, todos crerem em Cristo. Então, a readmissão dos judeus seria um fator fundamental para sua conversão e a concretização desses desígnios da Bíblia, né? Então, muitas decisões políticas que estão acontecendo nesse momento em volta do Crown tem a ver com essa ideia de providência divina muito arraigada.
Bom, para além disso, né, esse lado religioso dele, o grande destaque dele vai ser no exército, né. Ele entra no exército parlamentar assim que os conflitos começam, então já em 1642, e vai se destacar muito profundamente nas fileiras militares e acaba em 1645 sendo nomeado como comandante da cavalaria do New Model Army para atuar ali junto com Thomas Fairfax. Também um dos comandantes. E ele vai ser fundamental para a constituição, organização, o funcionamento de modo geral desse exército de novo tipo, ou New Model Army.
O que que vai ser esse exército? Ele vai ter uma estrutura militar completamente diversa. A Inglaterra até esse momento não tinha um exército permanente. O exército, ele sempre era convocado conforme as necessidades. Então, quando essas convocações aconteciam, quem ocupava as posições de liderança era sempre parte da nobreza, né? E o exército de novo tipo, ele vai propor uma certa profissionalização dessas fileiras e vai colocar a meritocracia como um fator importante.
Então, a ocupação dos cargos de liderança aqui não vai depender apenas do nascimento, mas supostamente das habilidades dos soldados. Então, isso vai aumentar o engajamento dos soldados com as causas. Afinal, se eles forem bons soldados, eles vão achar uma possibilidade de ascensão social a partir também dessa profissão aí que agora começa a se colocar. Também, quando esse exército de novo tipo se organiza dessa maneira, e muito associado ao parlamento, ele vai se tornar uma instituição de fato, com fundos que são centralizados a partir da captação do parlamento, o que vai aumentar a disponibilidade de dinheiro para provisões, armamento, treinamento, etc.
Então é um exército que de fato vai se profissionalizar. Isso inclusive vai criar um problema mais à frente, porque quando as guerras civis acabam, espera-se que o exército se dissolva, né? Afinal, não existiam exércitos permanentes na Inglaterra. E isso não vai acontecer. Afinal, o exército se torna uma instituição, e uma instituição indispensável para a própria política. E o Oliver Cromwell vai depender muito disso, né? Muitas vezes o governo dele só vai ser sustentado por conta do apoio militar, da força militar.
Além disso, acho que é importante também dizer que o Cromwell, quando ele vai ganhando mais poder dentro dessa fileira, ele vai sendo designado também para resolver alguns dos problemas maiores. Então ele sempre é mandado para campanhas militares mais complicadas. Por exemplo, ele estava ali contendo o exército regalista escocês no final da Segunda Guerra Civil. Ele não vai ser um dos militares presentes num evento muito importante que é o Edimburgo de Pride.
Logo depois do fim dos conflitos, né, do rei ser capturado uma segunda vez e aquelas negociações sobre o que fazer recomeçarem, o exército vai dar um golpe no parlamento, né. Então a instituição, o exército, se tornar forte demais. E junto do general Thomas Pride, uma série de soldados vão esperar na frente do Parlamento em dezembro de 1648 a entrada de cada um dos membros do Parlamento, do longo Parlamento que não conseguiu ser dissolvido pelo Carlos I por conta dos conflitos que começaram.
E um pouco vai perguntar com uma listinha ali do nome dos parlamentares em que cada um deles votava, se votava contra ou a favor a possibilidade de negociação com o rei, de negociação de paz. E a ideia do exército era de que não não se deveria negociar mais. O rei havia se convertido num traidor, afinal cometeu o crime, né, de levar a guerra ao seu próprio povo, e vai querer evitar que o parlamento possibilite a negociação de paz.
A ideia aqui é que se leve o rei a julgamento. Então, nesse golpe militar, o Pride, junto das suas forças, né, desses soldados que vão com ele, vão impedir que diversos membros do parlamento entrem e possam votar. Apenas um pedaço muito pequeno do parlamento entra, que vai ganhar o nome depois de Rump, do rabo do parlamento. O resto dos parlamentares vai ser destituído por esse golpe militar. E é aí que a gente vai ter a votação por não negociar com o rei e sim levá-lo a julgamento.
O Cromwell não estava presente nesse momento, mas ele vai ser um grande apoiador dessa decisão. Ele volta de algumas das suas campanhas, acho que logo no dia seguinte do expurgo de Pride, e vai defender muito fortemente que o rei deveria ser julgado e punido pelos seus crimes. E aí ele vai ter uma participação muito fundamental no processo de dessacralização dessa figura do rei. E de possibilidade de colocá-lo no banco dos réus, né?
Não à toa, o Cromwell vai ser um dos signatários da condenação de morte de Carlos I, né, mais para frente. E aí, após a execução do rei, a gente vai ver o que sobra do parlamento, né, aquele rabo do parlamento, ou Rump, né? Esse é um termo pejorativo, claramente, é dado ali pelos regalistas ou pelos parlamentares que perderam seus cargos. Mas o Rump vai inclusive escolher o Cromwell depois para coordenar as campanhas contra os rebeldes na Irlanda e na Escócia, que ainda estavam ali em polvorosa.
O que o Cromwell vai fazer efetivamente entre os anos de 1651 e 1652 com muita violência, né? E o seu retorno para a Inglaterra depois da conclusão desses conflitos vai ser muito aclamado. E a gente vai encontrar vários panfletos, vários textos impressos ou até discursos públicos que vão clamar pela figura do Crown como grande salvador depois de todos aqueles anos de disputas, de guerras sangrentas, de tensões, como alguém que pode reorganizar o governo de uma forma mais justa ou melhor.
E de fato, nesse momento, né, entre o final ali de 1652, início de 1653, vai ter manifestações públicas para que se centralize o poder nas mãos do Crown, né, o que vai se mostrar como um sujeito hábil na resolução das tensões e como como esse, até, né, de uma perspectiva religiosa, esse eleito de Deus que poderia também levar a Inglaterra ao sucesso, né. Isso vai acabar dando a ele, em 1653, o título de Lorde Protetor. Depois a gente vai falar um pouco mais sobre o protetorado, mas acho que dá para entender um pouco esse arco de como a carreira dele vai se articulando entre esses três eixos: a política, o exército e a religião, muito fortemente.
Dois exércitos se formaram: o dos cavaleiros, representando as forças reais, e do parlamento, liderado por Oliver Cromwell. Em 1645, o exército real foi derrotado e Carlos I, o rei, foi decapitado.
Bom, o rei foi executado, né, o que era uma coisa incomum para época. E aí eu queria entender qual foi a repercussão disso, os impactos disso, né, especialmente fora das Ilhas Britânicas, mas também dentro.
Essa vai ser uma questão super complicada, né, o que que se faz com o rei. Como eu falei, a própria execução do rei tem relação com o golpe militar que é dado no parlamento. Então essa não é uma decisão sobre a qual todos os súditos estavam de acordo, né? Então há toda uma necessidade de uma propaganda política para legitimar a decisão que foi tomada. Nesse campo a gente vai encontrar inclusive fontes que vão descrever os eventos de maneiras diversas.
Entre os regalistas, a gente vai ver uma descrição de um regicídio, né, de um assassinato violento, terrível, contra um rei que era a figura legítima no governo. E de Por outro lado, a gente vai ter entre as fileiras mais radicais do Exército, entre os parlamentares mais republicanos, né, articulação da ideia de tiranicídio. E aí até a gente vai ver algumas fontes retornarem para textos clássicos da antiguidade que vão definir ali o que que é tirania, quando é lícito executar um tirano, e vão delimitar.
Carlos I agiu como tirano, né, ao governar sozinho, sem negociar com suas instituições, ao promover uma guerra contra o seu próprio povo, povo, né? E por isso ele vai merecer a execução. O que é muito interessante é que essas peças de defesa do tiranicídio, que vão também atravessar o próprio julgamento que é feito em 1649, vão se preocupar muito com a dessacralização da figura régia. Então, inclusive, vão evitar nomear Carlos I como Carlos I.
Ele vai ser chamado muitas vezes nos documentos como Carlos Stuart, com sobrenome, né? Como uma pessoa comum. E uma pessoa comum que se comete um crime, crime e merece uma punição. O problema é que ele comete o crime mais grave, né, um crime de sangue, ao derramar o sangue de seus súditos, e que considera-se, né, que só pode ser punido com também sangue. Uma coisa que é completamente inédita aqui, né, vários reis foram mortos na história da Inglaterra, a gente tem Shakespeare aí para contar uma série de desfechos absolutamente intrincados dessa história de disputa entre muitos monarcas, né, na história da Inglaterra, mas é a primeira vez que isso acontece de uma forma pública.
Não é um complô, não é uma pequena rebelião, não é um assassinato feito por trás dos panos ali, mas é um rei que é levado a um julgamento que é público. Esse julgamento vai ser assistido por muitas pessoas, as transcrições de todo julgamento vão ser publicadas vertiginosamente. No dia seguinte a uma reunião, né, do próprio tribunal, a gente já tem as transcrições também circulando nos impressos, em pequenos jornais, panfletos.
Então há um interesse público muito grande por isso e a execução também é feita de forma pública e acompanhada por todos os súditos, né? Então no final de janeiro de 1649, o Carlos I vai passar pelo julgamento, vai ser considerado como culpado de traição do povo inglês por conta das guerras e vai ser executado em frente ao Palácio de Whitehall, que era o palácio no qual ele reinava, né? Muito antes de existir o de Buckingham, era ali que ele ficava.
Ele vai ser decapitado, né? Essa vai ser considerada a forma mais limpa de resolver a situação, né? O enforcamento muitas vezes é considerado um tipo de punição inadequado para membros da realeza ou da nobreza, porque a pessoa fica sofrendo, né, muito vergonhosamente ali. Então é uma forma mais limpa de ser considerada. E há uma série de descrições em gravuras ou impressos da época que vão dizer que depois que o rei é executado, há toda aquela suspensão, aquela aflição.
O que acontece agora? Será que cometemos um pecado terrível em matar aquele que tinha direito ao governo, né, por conta do direito divino dos reis? Ou será que cometemos um ato de injustiça ao executar alguém que era um criminoso, né? Então isso não se soluciona tão rapidamente com a execução do rei. E vão circular versões muito diversas sobre esse fato. Pouco depois da morte do rei, publicado um livro que fica muito famoso chamado Eikon Basilikon, que supostamente são textos do próprio rei.
Então ele teria escrito ali as suas últimas considerações enquanto ele tava preso e tentando se justificar e dizer que ele era quase que se descrevendo ali como um mártir da verdadeira fé e da própria política. E o parlamento vai tentar censurar esse texto fortemente, mas ele se torna um best-seller, ele tem uma série de edições, ele vai vai circular com uma gravura no frontispício, belíssima, maravilhosa, cheia de símbolos ali, que coloca o rei ajoelhado e destituído de uma coroa terrena e olhando para os céus, para uma coroa de espinhos, que é a coroa de Deus, né?
Isso tem a ver com uma das falas que ele faz quando ele tá ali no patíbulo para ser executado, que ele tá partindo dessa coroa terrena para uma que nunca morre, que nunca acaba, que é a eterna. Então ele vai ser um pouco dignificado por essa obra, inclusive para a Igreja Anglicana, ele é São Carlos Mártir, né, então um mártir também da Igreja Anglicana. De qualquer maneira, essas figuras regalistas, essa memória do rei vai ser fortemente perseguida pelo que restou do Parlamento e por esse Conselho do Exército que também está se articulando, né.
Mas essa não é uma situação simples, né, e a própria Proclamação da República não acontece imediatamente. Há alguns meses ali de suspensão para se pensar no que que se faz enquanto essa República é tomada, ela precisa se legitimar. Então ela vai sempre reforçar a execução do rei como um momento de justiça, né, um momento de liberdade. Fora da Inglaterra, né, não vou nem falar das Ilhas Britânicas, mas fora da Inglaterra a gente vai ter várias repercussões.
Uma coisa que é importante dizer é que depois que o Carlos I é executado, o seu filho, o Carlos II, herdeiro do trono, consegue fugir e ele vai ser coroado na Escócia por aqueles escoceses regalistas que sobreviveram. Então parte dos conflitos que o Oliver Monroe vai ter que resolver, né? Quando eu falei que a Irlanda e a Escócia ainda continuavam um pouco em polvorosa, vai ser isso. E Carlos II vai ser obrigado a fugir, vai para Haia e depois ele vai para a França.
E essa situação, né, de legitimidade da execução não tá exatamente bem colocada em todos os espaços dentro mesmo das Ilhas Britânicas. Se a gente sai desses espaços e considera o resto da Europa, há um grande medo por parte de outros governantes de sofrer a mesma situação, né? Então há um espanto muito grande com aquilo que acontece com o rei e um olhar de cuidado para aquelas situações políticas. Na América inglesa, que vinha sendo colonizada, a gente vê uma situação curiosa.
Muitos colonos que haviam imigrado consideravam ali, inicialmente, um momento de— a colônia era um espaço em aberto, aberto e que muitas coisas podiam ser inovadas, né? Então se discutia muito qual que seria o governo civil e até o governo religioso dessa América Inglesa. No entanto, algumas comunidades muito inspiradas também por um puritanismo acabam se tornando bastante fechadas nessa América Inglesa. E a gente observa que recebendo relatos do que acontecia na Inglaterra, muitos colonos retornam considerando que a Inglaterra sim agora era um espaço de maior liberdade, fosse para fé, e para política.
Então a gente vê um movimento contrário justamente por conta da circulação dessas notícias. E muitas outras vão também circular em todas as partes do mundo por conta do exílio de alguns regalistas, né? Então quando a guerra também termina, nem todo mundo é executado, tem muita gente que vai fugir e vai escrever sobre o que tá acontecendo em espaços diversos, né? Na França, Hobbes vai estar lá na França, né? Então a gente vai ver uma atenção muito grande ao que acontece.
Mas como a Inglaterra também é uma potência, não há uma interferência externa, pelo menos nesse contexto, depois da execução, né? Mas há uma circulação muito grande das notícias e sobre o que que se espera que possa vir a acontecer.
Eu queria pedir para você explicar como é que funciona esse novo regime após a queda da monarquia e as instituições criadas, a maneira como Monroe foi acumulando cada vez mais poder ao longo desse período, enfim.
Bom, aí, como tudo que eu vim falando, né, nada aqui parece simples. E essa história do período pós-guerras, né, até depois da restauração da monarquia, é marcado por uma série de transformações e mudanças políticas, né. Então o que acontece é, como eu falei, a república não é proclamada imediatamente, ainda uma discussão sobre o que se faz, né. Então é o parlamento, o que sobrou dele, né, o Rump, e o Conselho do Exército que vão se organizar e vão acabar proclamando a República em 1649, mas não é logo nos primeiros meses pós-execução do rei.
Nesse contexto, a gente vai ter uma República que vai durar de 1649 até dezembro de 1653, e esse vai ser um momento de muita experimentação política, né, de muito debate sobre quais as melhores formas de organização daquela República. Por um lado, a gente vai ter grupos mais radicalizados, como os Levellers, que eu mencionei, que fizeram parte dos debates de Putney, que vão desejar que essa república tenha maior participação popular, né?
Então vão discutir sobre ampliação de direitos civis, de igualdades, ou até de distribuição de terras, se a gente parar para pensar no movimento dos Diggers, que também vai se desenvolver ao longo das Revoluções Inglesas. Então vai ser um momento de uma ebulição de possibilidades de governo. Também vai ser um momento de certa tolerância religiosa, mas não com católicos, né? Obviamente os católicos continuam sendo considerados potenciais traidores dessa república que está sendo instituída, mas várias seitas protestantes vão ter liberdade de culto, né?
Então a gente vai ver aparecerem movimentos como os Quakers, diversas vertentes batistas e anabatistas, os Homens da Quinta Monarquia, que eu estudei bastante nas minhas pesquisas, que era um grupo profundamente inspirado do ponto de vista profético, né, e que queriam reformar a administração pública, né, administração política, jurídica, econômica da Inglaterra com base nos escritos bíblicos, e que vão tentar quase organizar uma teocracia ali.
E a gente vai ver uma discussão política bastante intensa, né, em um momento de reorganização mesmo desse sistema. Uma coisa que vai acontecer vai ser algumas decepções desses grupos mais radicais com relação a como a república vai sendo ordenada. Uma primeira decepção acontece por conta do Parlamento. Então eu falei mais no começo da nossa conversa que o Parlamento é um evento, né, era um evento e não uma instituição, ele era convocado segundo certos momentos.
Quando a República é proclamada, decide-se que não haverá mais nenhum governo de uma única pessoa e que haverá regularidade na existência desse Parlamento, na sua convocação, mas ele tem durações. Então o que acontece? O Parlamento que havia sido convocado por Carlos I, em novembro de 1640, ele não chegou a ser dissolvido porque começou a guerra. Ele continuava existindo ainda em 1649. Então, por isso ele vai ganhar o nome de Longo Parlamento, né?
E aí, por mais que ele tenha sido expurgado e só sobrasse o Rump, né, o rabo desse parlamento, ele ainda não havia sofrido uma nova composição, tendo em vista agora a nova articulação política, né? Havia membros ali do parlamento que eram regalistas e que foram exilados, que morreram. Então, aquele parlamento também precisava de uma reforma. E há uma preocupação porque essa reforma não ocorre, ela demora muito, né? Ela vai acontecer só ali ao final de 1653.
E nesse final de 1653, quem vai ser responsável por dissolver o Ramp, né, e reorganizar o parlamento vai ser justamente Oliver Cromwell, né? Quando ele retorna vitorioso das campanhas na Irlanda e na Escócia, vai haver uma grande expectativa com relação a ele e a defesa dos ideais pelos quais aquela revolução havia começado. Então, o Cromwell vai efetivamente dissolver esse rabo do parlamento longo e vai convocar um novo parlamento.
Por conta do apoio e da centralidade de poder que ele começa a acumular nesse momento, esse parlamento novo vai ser nomeado, né? A gente vai chamar ele de parlamento nomeado, chamado o Parlamento dos Santos, porque muitos membros do parlamento vinham de seitas religiosas, ou até ele também ganha um apelido que é Bare Bones Parliament, que era Parlamento dos Bare Bones, que era um desses membros de seitas religiosas que fazia parte dessa nova organização da Assembleia.
Então, quando esse novo parlamento se reúne, há uma certa expectativa de que ele vá desdobrar um pouco dessa discussão política, mas ao contrário, ele acaba sendo um parlamento que não chega a a nenhuma conclusão, né? Há tantos pontos de divergência, especialmente entre as seitas religiosas que fazem parte, mas não apenas, que não vão conseguir fazer com que nenhuma lei, nenhum imposto, nenhum novo decreto seja aprovado. E esse parlamento acaba sendo dissolvido no final de 1653 e imediatamente após isso, o Oliver Cromwell é nomeado como Lorde Protetor pelo John Lambert, a partir de um instrumento de governo que é uma espécie de Constituição que vai ser elaborada para organizar o protetorado.
Então aí a gente vai ter entre 1653 e 1659 o protetorado, né? E aí sim é uma outra forma de governo que com alguma inspiração republicana, afinal o Conselho de Estado que foi montado para República, né, e que continha membros do Exército e do Parlamento, ele vai continuar ativo, mas com muito mais presença do exército aqui, né? E aí vai ter uma centralização do poder na figura do Oliver Cromwell. Para os grupos mais radicais, como os Levellers, alguns republicanos, ou mesmo algumas seitas religiosas, essa adoção do protetorado vai ser um retrocesso, né?
Vai ser um outro tipo de monarquia, né? Mas aí uma discussão sobre isso, a gente pode falar um pouco mais sobre isso depois. Esse também vai ser um momento marcado, agora não mais por guerras internas, né, mas também por alguns outros conflitos importantes do ponto de vista externo. O protetorado vai se colocar agora como uma potência reconhecida, ou que deveria ser reconhecida pelas outras potências também. E isso vai acontecer bastante fortemente com as guerras anglo-holandesas, né, que são guerras que vão ser lideradas pelo governo crown heliano contra a Holanda por domínios coloniais e por navegação.
E aí a própria promulgação de vários atos de navegação durante o governo crown vai ser também fundamental para como se organiza o domínio colonial da Inglaterra nesse momento, né, vai ter uma presença muito forte. Então o protetorado realmente coloca a Inglaterra aqui como uma grande potência naval e política do ponto de vista internacional. Esse protetorado vai ruir, né, a gente vai falar um pouco mais disso depois, depois da morte do Cromwell e da subsequente ascensão do Richard Cromwell, seu filho, que não é tão hábil quanto ele.
Mas antes da restauração acontecer em 1660, há uma breve república novamente na Inglaterra. Ela dura só alguns meses, né, no ano de 1659, e é um momento muito interessante que merecia ser mais estudado do que ele é, porque é um momento de profunda ebulição de ideias políticas, né, de novamente estamos sem um monarca, estamos sem um protetor, o que que podemos ser? Qual que é a melhor fórmula de governo a se instituir? Que tipo de república?
Ela é mais democrática? Ela é mais oligárquica? O que que a gente vai fazer a respeito disso? Então tem muita publicação, muitas discussões dentro dos parlamentos que estão sendo reunidos para pensar no que se fazer. Mas esse momento de abertura acaba se encerrando com a Restauração em 1660 e o retorno à monarquia com Carlos II, o filho do Carlos I, que conseguiu se exilar e que volta para a Inglaterra coroado. O que é interessante nesse arco de muitas transformações políticas que vão acontecer, de República, Protetorado, Nova República e Restauração, é que Se a gente volta para uma das fontes do período, o próprio Thomas Hobbes, quando ele escreve o Behemoth, ele vai descrever esse movimento como uma revolução, e não como a gente fala hoje, né, da revolução como algo transformador, mas ele fala que é a restauração da monarquia que completa o ciclo revolucionário, pensando ali na revolução como um movimento em torno do próprio eixo, né, como uma revolução, uma volta, né, vindo ali dos termos astronômicos, mas sendo aplicado ao vocabulário político.
Então ele vai dizer que é normal que um governante entre em queda, que aquele regime tenha um problema e depois se volte, né? Sempre há um alto e baixo. Então se a monarquia foi suspensa, ela revoluciona e retorna ao seu poder com a restauração e fecha esse arco. Então é um contexto, enfim, de muita transformação de regime político, né? A gente não tem só a república acontecendo aqui. Então esse momento precisa ser entendido também dentro dessa complexidade dessas várias mudanças políticas.
Primeira vez que eu ouvi falar do Cromwell não foi numa aula, não foi lendo livro. Na verdade, a primeira vez que eu ouvi falar dele foi a partir de música, da arte, da leitura que nacionalistas irlandeses têm da figura dele como sendo esse grande demônio, esse sujeito que teria ampliado a opressão contra os irlandeses e teria sido responsável por diversos massacres. Lágrimas na Irlanda e tal. Você podia falar um pouco mais sobre isso?
Vou falar uma coisa que é quase uma anedota e uma outra que é séria, né? Quando eu comecei a trabalhar mais fortemente com a Revolução Inglesa, com esses temas, no meu mestrado tive a oportunidade de passar uma temporada fazendo pesquisa na Inglaterra e lembro que conversando com um guarda irlandês de uma das instituições que eu tinha visitado, né, de bibliotecas, de arquivo, comecei a conversar, porque eu falei que era brasileira, ele achou curioso que eu estudasse Revolução Inglesa, e ele me perguntou qual personagem eu achava mais interessante desse contexto.
E eu, muito jovem, respondi Oliver Cromwell. E ele, irlandês, olhou muito assombrado para mim e falou, como assim? Ele é um assassino, é um genocida. E fiquei ali ouvindo e me senti morrendo de vergonha do que eu havia dito. E de fato essa é a questão, é uma figura absolutamente conflituosa. Então a gente tem uma estátua do Oliver Cromwell em frente ao Parlamento da Inglaterra porque é o grande defensor do Parlamento, né? Mas ao mesmo tempo é um dos sujeitos responsáveis por massacres terríveis na Irlanda, né?
Então se a gente olha um pouco para os documentos, a gente consegue evidenciar aqui uma estimativa de que a população da Irlanda teve um declínio de cerca de 15% depois dos conflitos, né? E as campanhas do Oliver Cromwell foram de fato verdadeiros massacres, principalmente na região de Drogheda. No debate historiográfico, contudo, a gente tem algumas discussões, né? Considera-se que algumas das atrocidades também foram cometidas pelo lado dos irlandeses, né?
Ali com o massacre também das forças invasoras. No entanto, as campanhas que vão acontecer entre 1649 e 1653, elas permanecem notoriamente como momentos de uma ampliação no número de mortes, né, numa escala sem precedentes nesse contexto. A principal razão para isso tem a ver com as táticas de guerrilha e contraguerrilha que eram utilizadas pelos comandantes do exército que estava na Irlanda nesse momento, que contavam com Henry Ireton, John Hanson, o Edmund Ludlow e também o próprio Oliver Browne, né.
E essas táticas eram aplicadas sobretudo contra a população católica e incluían a queima em massa de colheitas, movimento forçado da população, né, forçando ao exílio, assassinato em massa de civis. E se estima que até cerca de 200 mil pessoas teriam morrido, né. 137 mil dessas pessoas poderiam ser civis. Então, essa ideia de que houve uma crueldade para além da própria disputa bélica, né, que se excedeu, aparece um pouco nesses números de civis.
Além disso, depois que os conflitos na Irlanda terminam, há um assentamento cromwelliano no pós-guerra que vai ser caracterizado por alguns historiadores irlandeses como um assentamento que teve uma característica de limpeza étnica e que teriam procurado remover católicos irlandeses das regiões. Há alguns comparativos, inclusive por parte da historiografia, de que o que a Inglaterra liderada pelo Cromwell perpetrou contra a Irlanda fosse que seja comparável com o genocídio das populações nativas americanas, né?
Então, traçando um paralelo muito claro entre os eventos, o tratamento que os ingleses deram aos civis irlandeses. Isso não apenas com a questão da guerra, mas a própria exploração econômica das propriedades rurais, como eu havia até falado um pouco antes. Então, há um histórico muito grande de exploração da Irlanda e a postura do Crown ali só deixou isso mais complicado, né? Vista de fato como uma colonização dessa região, que fez uma extensa desapropriação dos proprietários de terra e que fez, que causou, né, o extermínio de grande parte da população.
Então ele é lembrado nessa cultura popular, nesses livros, na literatura, nos filmes, como você bem disse, como uma figura responsável por um massacre, né, muito longe de ser um dos grandes nomes, um dos grandes heróis desse contexto da Revolução Inglesa, ou um grande nome do da luta contra a tirania, ele é visto muito da forma contrária. O primeiro rei da dinastia Stuart foi Jaime I. Ele esteve no trono de 1603 até a sua morte em 1625.
Ao perceber que os burgueses estavam ampliando sua influência no campo político, a motivação do Rei Jaime passou a ser frear esse avanço. Para isso, foram tomadas algumas medidas, entre elas o aumento dos impostos e as perseguições religiosas aos puritanos.
Uma coisa que costuma gerar bastante dúvida é justamente a figura do Lord Protector. Afinal, se a monarquia tinha sido abolida, por que o Cromwell acaba governando de uma forma que muitos contemporâneos consideravam bastante parecida com a de um rei? Então eu queria pedir pra você comentar sobre isso. Até que ponto o protetorado representou uma ruptura em relação ao passado e até que que ponto ele manteve ou não muitas estruturas da monarquia?
Bom, isso é complicado. Acho que de alguma maneira a gente pode colocar um primeiro elemento que distingue o protetorado da monarquia, que é a existência do Conselho de Estado e a participação do exército, né? Então a monarquia inglesa que existia antes da Revolução, ela tinha conselhos, né? Tinha o próprio parlamento que podia ser convocado ou conselho privado, né, chama Privy Council, a Star Chamber, Câmara Estrelada, que eram vários conselhos consultivos que o rei podia convocar para deliberar, mas não tinha um Conselho de Estado instituído a partir da ideia republicana de colaboração e divisão dos poderes, né.
Então o Conselho de Estado, ele vai ter uma outra atuação, mas sobretudo a participação do exército. Inclusive, para muitos, o governo do Cromwell foi, em outras palavras, não uma monarquia, mas uma ditadura militar. Não sei se esse é o melhor termo, né, a gente acha que ele pode gerar muita confusão entre a gente, né, afinal há ditaduras militares com uma série de outras características ao longo da história, mas por muitos ele vai ser descrito dessa forma, né, o protetorado, por conta dessa forte presença do Exército.
Grande parte das decisões e das próprias movimentações políticas desse momento contaram com os chefes do Exército, e o Conselho do Estado, assim como outras partes da burocracia estatal do protetorado, era composta por parte de membros do Exército, né. Então um dos grandes colaboradores do Oliver Cromwell, o General Turlough, que vai ser inclusive muito responsável pela censura à imprensa a partir de 1655, é um militar, né? Então parte dessa burocracia é militarizada.
E como eu falei um pouco antes, isso sempre vai levar algumas críticas ao protetorado por parte daqueles que falavam que a Inglaterra não tinha um exército permanente, né? Havia uma expressão que às vezes era quase uma palavra de ordem por parte de republicanos ou setores mais radicalizados que faziam críticas ao protetorado, que era no standing army, né? Então, contra a existência ali de um exército permanente, de um exército que sobretudo tem uma interferência tão grande dentro do parlamento, dentro das instituições, dentro da política.
Ao mesmo tempo, o Cromwell, ele vai ter posturas que vão se assemelhar muito à monarquia por conta dessa centralidade ou até de um elemento religioso, né? Então, a monarquia inglesa que partia muito da ideia do direito divino, né? A soberania O próprio Jaime I, quando ele era governante, ele vai escrever em defesa do direito divino dos reis, né? Ele era considerado também um grande rei erudito e vai defender assim o seu poder.
E o Cromwell, ele tem uma postura semelhante ao também se envolver com essa ideia da luta contra o anticristo, a luta contra o demônio, dele fazer parte de um exército de Deus, né? Inclusive, a primeira reunião do parlamento assim que o protetorado é instituído, que acontece em 1654, ela começa com uma grande fala bíblica em torno de como a Inglaterra vinha concretizando desígnios bíblicos e proféticos com a deposição da monarquia e a instituição dessa nova forma de governo.
Mas era um governo centralizado, mas mais austero. Então, sem a suntuosidade, a luxuosidade que a monarquia e a sua realeza possuíam, né? Então, a corte em torno dos reis tinha uma certa pompa e O Cromwell sempre vai recusar esse tipo de coisa, né, as vestes muito escuras, o cabelo curto, né. Então há ali uma outra imagem dessa figura publicamente. Há muita oposição ao Cromwell, né, ele é uma figura controversa já no próprio período.
Então há ali apoiadores, mas há muitos críticos. E essas oposições, elas começam a despontar mais fortemente, sobretudo a partir de 1655, né, com a intensificação da perseguição a republicanos, a grupos mais radicais, tanto políticos quanto religiosos, e que vão publicar ou falar suas críticas publicamente ao Cromwell e vão sofrer reveses por conta disso, né, sendo presos, perseguidos, tendo seus textos queimados publicamente ou retirados de circulação.
A coroa chega a ser oferecida ao Cromwell em 1657, mas ele nega. Mas essa negativa é sobretudo também ali uma parte de uma imagem pública, né? Ele já sabe que tá sofrendo críticas por conta da centralização do poder e é óbvio que ele não iria fazer esse movimento de iniciar uma dinastia Crown efetivamente com esse nome. No entanto, ele faz isso de alguma maneira, né? Então, em 1657, esse mesmo ano, o instrumento de governo que havia instituído o protetorado em 1653 sofre uma atualização.
Ele vai ganhar o nome de Humble Petition and Advice, né? Como se fosse ali uma petição e conselho para o novo governo e que vai instituir que o protetorado é um tipo de governo hereditário. Então, o Brahma vai conseguir aprovar que após a sua morte, o novo líder não seja escolhido a partir de algum tipo de pleito ou alguma representatividade, nem que fosse uma eleição indireta dentro do parlamento ou dentro dos conselhos de Estado.
Ele consegue que haja uma consecutividade ali, com relação ao seu próprio nome, com a permanência do Richard Crown como futuro Lorde Protetor. Esse movimento, né, a partir de 57, as críticas a ele inclusive se intensificam e aparecem até publicamente alguns complôs e planos para assassinar o Crown. Então nada disso consegue ser executado, ele morre em 1658 de câncer, é o que se imagina, né, não sofre com isso, consegue manter o seu governo até o final, mas esse final do protetorado é bastante bastante conturbado, né?
Então, para muito, muito grande parte da historiografia, ou mesmo das fontes, Cromwell muitas vezes vai ser um rei em tudo menos no nome. Mas há algumas diferenças que a gente precisa marcar, como essas que eu falei inicialmente, sobretudo com a posição muito forte do exército dentro dessa estrutura.
Depois da morte do Cromwell, esse regime durante o interreino, ele começa a perder estabilidade. E aí eu queria pedir para você explicar por que que esse protetorado entrou em crise, qual foi o papel do Richard Cromwell nesse processo e como é que a monarquia acabou sendo restaurada em 1660.
Essa é uma história curta e longa ao mesmo tempo, né? Tudo acontece em um período muito breve de tempo. A gente tava discutindo aqui arcos temporais longuíssimos, né? Comecei essa conversa voltando para a própria formação dos reinados desses três reinos, mas aqui é entre alguns meses de 1659 e 1660, tudo muda muito rapidamente, né? Então o que acontece, o Richard Cromwell assume o governo logo após a morte do seu pai, mas ele mostra muita inabilidade em conter as múltiplas tensões que existem no contexto em que ele tá assumindo.
E uma das coisas mais importantes é que ele tem muita dificuldade em negociar com o exército, né? Quando ele assume, ele desagrada a muita gente. Ele desagrada, por um lado, aos regalistas que ainda pudessem existir ali nesse contexto, considerando que esses regalistas recusariam a legitimidade de uma suposta nova dinastia Crown, né? Se era para ter um rei que fosse um rei reconhecido por conta da sua conexão com a linhagem ao trono, né, a linha sucessória ao trono.
Quanto aos republicanos e sectários, né, políticos ou religiosos, temia-se mesmo o retorno a um sistema régio. Então, voltando àquilo, o Cromwell era um rei em tudo menos no nome. Mas sem as habilidades políticas que o seu pai tinha, o Richard Cromwell não consegue conciliar essas pressões, especialmente, né, quando acontece a primeira convocação, a convocação do seu primeiro parlamento. Ela vai ser super desastrosa e a autoridade desse Lorde Protetor não vai ser reconhecida dentro do Parlamento.
Ao passo que esse protetorado começa a ruir, a gente vai ver que diversas, que a discussão sobre diversas outras formas de governo começa a despontar novamente. Então há um tom nostálgico pelo retorno à boa e velha causa, que seria a boa e velha causa do republicanismo, a boa e velha causa que fez a Revolução começar e que instituiu em 1649, quando o rei morre e a República é proclamada, que não haveria nenhum governo de uma única pessoa, né?
E quando Oliver Cromwell e depois seu filho continuam no governo, parece-se que se vai contra essa primeira determinação que havia sido conquistada em 1649. Com relação aos militares, o Cromwell vai desagradar muitos dos líderes. Então a gente vai ver petições assinadas por diferentes generais, tenentes-generais, que solicitavam o comprometimento explícito do Richard Cromwell com algumas questões, como com a liberdade religiosa, a supremacia do Exército, os princípios republicanos.
Mas o Richard Cromwell não conseguia contornar essas coisas, nem assumindo que ele estaria comprometido com questões como essas, nem recusando essas questões, porque ele também não tinha apoio para bancar ir contra, por exemplo, um tenente-general. O que vai acontecer vai ser que, coagido, o Richard Cromwell vai ser forçado a dissolver parlamentos do seu governo. E em abril de 1659, ele decide restaurar o Rump, o longo parlamento lá de 1640, uma pressão de alguns membros do parlamento que haviam sido destituídos naquele momento e vão começar a falar: bom, mas eu ainda era parlamentar, né?
E que vão fazer uma pressão muito forte. Isso vai desestabilizar completamente o governo e ele vai ser forçado a renunciar. Assim que ele renuncia, como eu falei, vai ter uma breve república, né? Ela vai durar ali mais ou menos de maio de 1659 até o iniciozinho de 1660. Vai se discutir o que que pode se fazer, né? Então vai se reunir um outro Conselho de Estado, vai se propor uma república, né? O que que vai ser colocado, ou vai ser um governo militar efetivamente.
E nesse vácuo político que o Richard Cromwell deixa ao renunciar, a gente vai ver emergir uma outra figura de muito poder, que é o General George Monck. O Monck, ele vai ter uma postura, vai ter uma história política muito interessante, porque ele era um profundo apoiador do Oliver Cromwell, mas no início das revoluções, da Revolução Inglesa, ele era na verdade um regalista, né? No início das guerras civis, ele tinha lutado a favor do rei.
E durante a Batalha de de 1644, uma batalha lá em 1644, ele acaba sendo capturado por forças parlamentares, vai ficar preso até 1647. E quando ele é solto, graças a algumas alianças antigas que ele tinha com a nobreza, ele acaba conseguindo negociar para participar do exército parlamentar, porque ele era um estrategista muito grande. Então o parlamento considera que desperdiçar a inteligência militar dele seria uma besteira, né?
Então ele é cooptado ali pelo lado das forças parlamentares. Então jura fidelidade ao e permanece ali ao lado do parlamento e do exército durante todo o contexto da Revolução Inglesa. Depois ele acaba vendo, né, com essa situação, ele tinha muito poder dentro da estrutura militar desse contexto do protetorado, e a partir desse momento de vácuo político do Richard Cromwell, ele decide levantar uma fileira dos seus exércitos e marchar da Escócia, onde ele atuava ali como uma espécie de governador, enfim, marchar a Inglaterra para exigir que algo fosse feito, né?
E há uma ansiedade muito grande nesse movimento das tropas do Monck até a chegada na Inglaterra, porque ninguém sabia muito bem o que ele queria fazer. Membros do próprio exército estavam incertos se ele queria começar um governo militar. Outras pessoas tinham dúvidas se ele queria simplesmente assegurar, né, que o Richard Cromwell estaria de lado. Outros que ele pudesse querer forçar o Cromwell a voltar e ajudar a organizar o governo.
Mas o que ele acaba fazendo é, por conta de muitas das pressões não só com os militares, mas com o parlamento e alguns grupos político-religiosos, é acabar negociando com o Carlos II, que estava no exílio, e começa a negociar a possibilidade de retorno à monarquia, se ele tivesse ali algum respeito a algumas instituições, algumas práticas que foram desenvolvidas, né, como por exemplo a regularidade de convocação do parlamento, ou que também conferisse perdão e anistia a algumas das pessoas que teriam perpetrado crimes de guerra durante os conflitos militares.
Então a abdicação do Richard Crown, por conta da inabilidade política, vai ser um pouco do que vai abrir espaço para que a monarquia volte a ser uma opção, né? Haviam várias, havia várias coisas que estavam ali em jogo, muitas outras possibilidades que poderiam ter sido admitidas, mas é nesse vácuo, a partir da posição, né, do próprio o Almon, como eu falei, que vai fazer essa invasão da Inglaterra em Abordida, que vai organizar o caminho para o retorno à monarquia, com medo de uma nova rebelião, de uma nova revolução, né?
Um pouco o esfacelamento desse protetorado vai mostrar um certo desgaste político e um cansaço talvez dessas lideranças com essa articulação e uma tentativa de retornar a um governo que conhecidamente havia dado certo, né? Então, por essa razão, nunca acabam tanto quanto abrindo caminho para o retorno à monarquia.
Mesmo com a Restauração, né, várias das tensões entre a coroa e o parlamento, elas permanecem e elas se agravam durante o reinado, o reinado de Jaime II, principalmente por questões religiosas e políticas, até desembocarem na Revolução Gloriosa. Como essa nova crise se desenvolveu e por que parte da elite inglesa decidiu convidar Guilherme de Orange para assumir o trono?
Bom, então a gente vai ter várias coisas por aí, né. A Restauração, quando ela acontece, é importante de mencionar, havia me esquecido. Quando se restitui o rabo do Parlamento Longo lá, que o Richard Cromwell foi forçado a restituir, é uma das coisas que vai se discutir ali, que vai fortalecer a ideia do retorno à monarquia, vai ser que o Parlamento Longo vai dizer: a última coisa que tínhamos ficado por decidir era se a gente negociava ou não com o rei antes de sofrermos o expurgo de Pride.
E aí decidimos que sim, queremos negociar, só que o rei já foi executado, então a próxima pessoa com quem devemos falar é do Carlos II, né? E aí que o Monck vai articular essa negociação e o Carlos II vai voltar. Bom, quando ele volta, ele precisa reorganizar tudo, né? E a ideia, a grande propaganda que vai se fazer desse retorno é de que se restaura uma monarquia que existia antes. Então, vários dos decretos, várias das leis que foram promulgadas durante o período da República ou do Protetorado vão ser destituídas de seu valor e vai Vai se tentar retornar a políticas anteriores.
Claro que nem tudo se retoma, né? Então, quando começam os conflitos em 1642, por exemplo, essas duas cortes que o Carlos I tinha acesso, que eram as cortes de prerrogativa régia, que era o Conselho Privado, Privy Council, e a Câmara Estrelada, né, o Star Chamber, eles vão ser abolidos e nunca mais voltam, né? São consideradas cortes que permitiam muitas decisões arbitrárias da monarquia e elas não conseguem retornar. E o rei, assim que ele volta, ele volta com muita pompa, né?
E aí, se a gente lembra do desgaste que aconteceu durante todo o contexto das guerras, das mudanças políticas, ele vai ser bastante aclamado pela população, sobretudo porque ele também é um rei que retoma coisas que haviam se perdido. Então, o governo muito austero da República e do Protetorado, né, daquela inspiração puritana, era um governo que, por exemplo, não tinha existência de teatros, né. Os teatros foram banidos assim, que o rei ser executado.
Não existiam muitas festas públicas ou esportes públicos que eram praticados, também foram abolidos. Então era um governo muito austero. E o Carlos II entra na Inglaterra, ele faz uma longuíssima viagem, era para ser curta, mas ele vai demorando meses porque ele vai passando de cidade em cidade para fazer festas mesmo, entradas públicas, e restaurar esse ambiente de ebulição cultural, né? Isso vai fazer com que ele tenha uma grande aprovação por parte da população, né?
Então se encerra a guerra, se acaba com a possibilidade de novas guerras, né? Já que o fim do regime cromwelliano havia terminado com tanto desgaste, há uma injeção de ânimo aqui. É claro que ele também não retorna sem qualquer tipo de crítica. Então havia ali ainda nesse contexto republicanos, sectários políticos religiosos que se mantinham contrários à monarquia, que consideravam que haviam lutado por muitos anos contra o governo de uma única pessoa e não estavam de acordo com o retorno de Carlos II.
Então a gente tem uma situação muito ambígua aí. E o que é muito interessante é que ao longo, o contexto da Restauração, né, ele se tornou para mim nos últimos anos talvez o meu tema favorito, porque nenhuma tensão que se desenvolveu durante a Revolução anterior foi resolvida aqui. E a gente vai ver isso aparecer em alguns episódios, né. Então o contexto da Restauração é o que vive também o contexto da crise de exclusão, que vai viver o complô papista, uma série de temas vão aparecendo e parece que são pequenas crises independentes.
Mas alguns historiadores, como o Gary Decree e o Jonathan Scott, vão dizer que na verdade o que a gente vê é a crise da Restauração. Ela inteira é uma crise. A Restauração que se institui em 1660 não consegue resolver nada e é um governo de extremas crises. Primeiro, a primeira grande questão que aparece aqui é o pânico católico que não passa desde 1660 e que ele é cada vez piorado pela própria monarquia. A gente tem que lembrar que o Carlos II, ele vai passar a maior parte da vida dele na França.
Então ele é um rei que tem uma educação francesa católica, né? Por mais que ele retorne para uma Inglaterra que é supostamente anglicana e que ele deve ser o líder dessa igreja, ele tem claramente ali uma certa inspiração católica. Ele é casado com Catarina de Bragança, uma rainha portuguesa, né, católica, e que pode vir para a Inglaterra com a sua corte, né, que é católica. Isso também tem que ser negociado com o parlamento, né, afinal católicos não eram permitidos no reino, mas é negociada ali a possibilidade dessa, de que a confissão católica possa acontecer dentro desse espaço recluso da corte.
Mas há a todo tempo um medo da recatolicização do reino, e não à toa aparecem uma série de rumores de complôs católicos que estariam emergindo diversas partes para assassinar o rei. Isso vai gerar uma tensão muito curiosa entre o monarca e o parlamento. Que tensão vai ser essa? O rei, ele é favorável à tolerância religiosa, talvez por esse flerte com os católicos, e o parlamento teme a tolerância religiosa. Então, se o parlamento muitas vezes foi visto como uma instituição mais progressista, né, nesse momento o parlamento quer evitar a profusão de religiões que possam trazer um novo ambiente de crise e uma nova revolução como a que aconteceu anteriormente.
A todo momento o parlamento quer evitar uma nova guerra. Então sempre que o rei tenta passar medidas de tolerância, o parlamento as barra. Isso é muito interessante. E o parlamento as barra com medo, né, dos católicos. Ao mesmo tempo, esse é um reino que quando ele se institui, ele começa com uma série de medidas muito restritivas, né. O primeiro código de lei que aparece durante a Restauração, que é o Código de Clarendon, que ganha esse nome por conta de um dos cortesãos, um dos membros da nobreza que faz parte da burocracia estatal, ele tenta coibir, por exemplo, a existência de outras confissões protestantes.
Então isso fica sempre como uma mensagem ambígua. Há uma perseguição aos protestantes por conta desse Código de Clarendon, ao mesmo tempo em que o Carlos II não era exatamente contrário a uma tolerância por conta de um flerte com o mundo católico. Então isso gera uma situação muito esquisita política e religiosamente falando entre e o parlamento, né? Isso vai se intensificar a partir de 1673, quando o que que acontece? Carlos II está envelhecendo e ele não tem herdeiros legítimos do sexo masculino.
Então isso quer dizer que o próximo da linha sucessória é o irmão dele. Em 1673, esse irmão vai se converter publicamente ao catolicismo. Então se esse medo, esse pânico católico que já vinha desde o início, essa certa desconfiança com relação à fé dos monarcas Stuart só se intensifica. E os parlamentares vão pensar: bom, se o futuro rei virar católico, há uma nova reforma religiosa e nada se assegura. É daí que começam as discussões sobre o que vai ser chamado de crise de exclusão.
Até que ponto é possível excluir da realeza ou da nobreza membros católicos, né? Então, inicialmente, a discussão é só para que se proíba a instituição de cargos, né, de títulos nobiliárquicos e cargos administrativos para católicos no reino, mas isso vai se expandindo para uma possibilidade de impedir que o irmão de Carlos II, que é o Duque de York, futuro Jaime II, assuma o reino. É dessa discussão dentro do parlamento que a gente vai ter aquela cisão conhecida entre Tories e Whigs.
Os Whigs, mais liberais, vão ser favoráveis a se impedir que Jaime II vire rei, e os Tories, mais conservadores, vão assumir que a monarquia tem que ser preservada, e se o próximo rei é católico, ele precisa assumir. Isso não é uma questão que possa ser discutida por outros setores do governo. Isso vai gerar espaço para muita discussão, né? E esse ambiente ainda vai sendo alimentado por várias outras pequenas crises. Como eu falei, o Gary Decree e o Jonathan Scott vão chamar de da Restauração de modo geral.
Um primeiro ponto era esse pânico católico, né? Um segundo pânico vai ser uma série de crises econômicas que vão ser decorrentes das guerras anglo-holandesas, que continuam a acontecer durante a Restauração. Mas diferentemente do Oliver Cromwell, o Carlos II não é bem-sucedido nas suas campanhas militares, e as derrotas que a Inglaterra vai sofrendo vão também desgastando a imagem dessa monarquia, né? Então ela vai sofrendo vários reveses ao longo ali das décadas de 1660, 1670, 1680, até o falecimento do Carlos II.
O Jaime II, quando ele assume, apesar de ser católico, né, ele diz que ele não vai afetar o funcionamento da Igreja Anglicana e que não vai fazer uma reforma religiosa, né. Ele vai quase que dizer que a confissão dele é particular e que a fé na Inglaterra tem uma outra lógica. No entanto, quase que de forma velada, mas também um pouco escrachada, ele vai recatolicizando a burocracia do Estado. Então, se no governo do seu irmão falecido, Carlos II, o parlamento conseguiu barrar um pouco que títulos nobiliárquicos ou cargos administrativos dentro da burocracia do Estado pudessem ser conferidos a católicos, o Jaime II vai conseguindo colocar católicos dentro dessa estrutura.
E o pior para os parlamentares, vai conseguindo colocar muitos jesuítas, né, que são ali conhecidos pela sua figura missionária, né, e que teriam essa capacidade de recatolicizar o reino todo. Então isso vai gerando ainda mais tensões e discussões entre os Whigs e os Tories sobre o futuro da monarquia. Nessa discussão, né, a crise de exclusão que vai gerar o que a gente vai chamar depois de Revolução Gloriosa vai permitir essa negociação com Guilherme de Orange por conta da proximidade com a dinastia Stuart.
Eles estão na linha sucessória, né? O Guilherme de Orange e a Maria Stuart, né, uma das filhas que é casada com ele, com Guilherme de Orange, podem assumir o trono. Então vai se discutir se é possível, né, vai se manter essa questão, se é possível pular um monarca que não é anglicano para se preservar o Estado. Nessa discussão, algo que você tá, que tá no pano de fundo e que eu acho que é uma das coisas mais interessantes de pensar o contexto da Revolução Gloriosa é a estabilidade do Estado, né?
O Estado não ser uma coisa pessoal. O Estado não pode ser o rei, porque se a confissão do rei muda, isso provoca um problema para o reino inteiro. Então significa que há algo que precisa ser contido, que é a estrutura do próprio Estado. Como é que eu faço o Estado resistir independente do monarca que está ali? Então essa é a discussão de pano de fundo que os Wigs e os Tories vão ter, e que em articulação com Guilherme de Orange, vão fazer grande pressão para o Jaime II abdicar.
Uma coisa que é importante dizer é que essa abdicação ela não acontece de forma extremamente pacífica. Claro, a Revolução de 1640 é muito mais sangrenta. Se a gente fosse colocar em números, morreu muito mais gente, teve muito mais batalha, a gente teve toda, né, passamos muito mais tempo falando dela inclusive, porque há várias e várias fases. Mas há também apoio popular à destituição de Jaime II. Há um medo do catolicismo, há um medo da possibilidade de uma nova revolução.
E o Guilherme de Orange vai aparecendo como essa figura possível de assegurar a estabilidade do reino e que, interessado em assumir esse reino, também faz uma frente, ele também começa a ameaçar invadir a Inglaterra. O Steve Pinker, né, um historiador que trabalha especificamente com a Revolução Gloriosa vai dizer fortemente que essa não é uma revolução sem sangue, não é uma revolução sem apoio popular, não é um movimento apenas das elites, né?
Mas é sim uma revolução que tem também uma movimentação muito grande e que em um certo momento o parlamento tá entre garantir a possibilidade da manutenção da dinastia Stuart, mesmo que com outro governante, ou correr o risco de uma nova rebelião e de uma uma rebelião que poderia colocar inclusive no governo um líder que era um filho ilegítimo do Carlos II, que também vinha liderando forças militares, tentando também fazer pressão com relação ao Jaime II.
Nesse contexto, Jaime II abdica. E aí isso é muito interessante. Se a Primeira Revolução que a gente começou a discutir, ela não pode ter o rei vivo, né, o rei não pode abdicar ou ser destituído e se manter vivo, porque ele continua sendo uma ameaça à estrutura política que se coloca. Aqui, como a questão que se tem em vista é a preservação do Estado, é possível destituir o rei e manter o Estado com outro rei, com outra estrutura, né?
E essa movimentação é absolutamente revolucionária, mesmo que ela não tenha o mesmo arco que a Revolução de 1640. Ela tem aqui uma desenvoltura que não é só um golpe das elites e do do Parlamento, como alguma parte da historiografia discute. Há um movimento revolucionário muito forte aqui.
Quando Guilherme III e Maria II assumem o trono, a Inglaterra aprova uma série de medidas que redefinem profundamente a relação entre o rei e o Parlamento, especialmente a Bill of Rights de 1689. Então eu queria pedir para você explicar quais foram as principais mudanças trazidas pela Revolução Gloriosa e por que ela costuma ser considerada um marco fundamental na consolidação da monarquia constitucional. Na Revolução Nacional Inglesa?
Bom, os movimentos, né, de 1688, 89 vão ser fundamentais porque conseguem, conseguem de fato instituir uma Constituição. A Bill of Rights é muitas vezes considerada a primeira Constituição escrita que se tem como resultado de um movimento revolucionário. A gente pode discutir isso, né, porque há outros documentos e Constituições que eu citei, por exemplo, se a gente pensar no caso da Revolução de 1640, mas ainda assim esse documento vai colocar algumas das bases para o funcionamento do Estado.
E como eu disse, para que esse Estado seja estável, independente do monarca ou do governante que o assuma. Então o parlamento, por exemplo, ele deixa de ser um evento, né? Como eu falei, o parlamento precisa ser sempre convocado. Nesse contexto, o parlamento se torna uma instituição de fato. Ele existe com diferentes conformações, claro, né? Vão ter ali diferentes eleições dos membros que vão fazer parte dessa instituição, mas ela vai ter uma existência e vai ter uma participação política, nenhuma decisão do monarca pode acontecer sem que o parlamento também esteja em acordo.
Então aquela ideia da soberania do rei no parlamento, ela é aqui reforçada e colocada como uma questão fundamental da própria Constituição. Então o que quer que o rei queira fazer, é preciso fazer junto com o parlamento. Então o parlamento vai ampliar o seu poder, né, e vai ter dentro dele também suas cisões, né, como os Whig e Tories, que vão acabar se colocando, seus diferentes partidos. Mas o grande grande ganho que acontece aqui é a manutenção do Estado como um agente institucional, né, e não como um sujeito pessoal.
Tem um texto muito interessante do Quentin Skinner analisando a linguagem política em que ele vai falar justamente é de como que nas obras do Hobbes vai aparecer uma lógica de Estado que deixa de ser o status que ocupa o governante e vira uma instituição. E é muito interessante que seja o Hobbes a pensar isso, afinal ele tá olhando muito, né, para o que aconteceu ao longo desses anos todos, dessas décadas todas de revoluções. Então a gente vê isso como uma consequência, um Estado institucional.
Também o Bill of Rights vai conseguir dar maior concretude para alguns dos direitos civis e liberdades individuais que a gente tem como elementos centrais agora, que devem ser preservados pelo Estado. Então o Estado é o que garante que todo mundo vai ter liberdade, todo mundo vai ter direito à sua propriedade, vai ter direito a exercer a sua própria fé, né, a tolerância, liberdade de consciência vai aparecer aqui. Então os direitos primordiais, né, a vida, liberdade, propriedade, consciência, vão ser fortemente advogados por esse documento.
É claro que ao longo dos séculos a Constituição inglesa vai sofrer modificações, então não dá para a gente dizer que a monarquia que se tem hoje, né, com o Rei Charles III e o seu parlamento, é igual ao que aconteceu aqui em 1688, 1689, que vai instituir Guilherme III e Maria II. Então há diferentes relações com o parlamento e diferentes funções para esse reinado. Mas esse mundo em que o direito e o poder dos reis passa a ser regulado começa aqui, né, com a ideia de que o rei e a rainha, eles prestam quase que um serviço para o Estado, né.
Eles não são eles o Estado, mas eles fazem parte de uma administração. Esse vai ser um conceito que vai ser gerado a partir desse documento, a partir do Bill of Rights.
Para terminar, eu queria pedir para você comentar sobre a historiografia em torno disso, porque me parece que existem divergências, né, sobre se faz sentido tratar esses eventos todos como parte de um fenômeno mais abrangente ou interligado, enfim, como é que isso funcionaria e tal. Você pode comentar sobre essas divergências, no caso assim, como é que elas funcionam, quem são os grupos que defendem diferentes perspectivas? Interpretativas, enfim.
Daria para fazer um episódio inteiro só sobre historiografia, né? E aí já fica uma recomendação: tem um livro muito interessante do Richardson chamado The Debate on the English Revolution, que é só um livro sobre o debate historiográfico, né? Nenhum desses episódios dos eventos está sendo analisado, mas o que se analisa ali são as mudanças interpretativas com relação a esses eventos, mais fortemente de 1640 a 1660. Mas o ponto é, tentando fazer uma síntese desse arco, há algumas discussões, né?
Uma primeira é uma parte da historiografia que vai discutir se 1640 a 1660 foi ou não uma revolução. Afinal, se a gente pensa a revolução como uma mudança radical política, social, cultural, como é que se explica que se sai de uma monarquia e se retorna para uma monarquia, mesmo tendo passado por uma república, por um protetorado, etc.? Bom, então vai ter uma parte de uma historiografia que vai dizer que não é uma revolução e outra que vai advogar que sim.
Já indico que não tem como não ver isso como uma revolução, né? Nada do que a Restauração fez restaurou completamente, né, como a gente veio dizendo. Se há uma crise da Restauração é porque não é possível voltar à mesma monarquia depois de 20 anos de ebulição, de discussão política, de transformação, de diferentes formas de governo. É impossível que a monarquia a qual se retorne seja a mesma, né? Então há uma revolução há uma mudança estrutural muito profunda.
Isso é claro, e a gente percebe, né, não é à toa que uma nova revolução vai acontecer em um espaço de tempo tão curto. E aí a gente tem um embate e uma questão historiográfica a se colocar, que é o problema da gente analisar quase como se uma revolução fosse efeito da outra, né, como se a Revolução Gloriosa fosse uma consequência dos eventos de 1640 a 1660. Então isso aparece em vertentes diversas. Se a gente olha, por exemplo, para historiografia marxista, ela vai enxergar esses dois eventos como eventos interligados, como parte de uma história mais ampla que é a do desenvolvimento do capitalismo e da industrialização.
Então essa historiografia marxista vai muitas vezes descrever esses eventos como os motivos pelos quais a Inglaterra foi pioneira, né, entre aspas, né, para tentar suavizar um pouco essa coisa, mas teria sido pioneira da Revolução Industrial. Então vai ser o argumento de que já ali no século 17 a Inglaterra teria conseguido acabar com as forças de um sistema absolutista e permitir que aquelas liberdades individuais de comércio, de exploração do capital, pudessem fazer com que as camadas burguesas ganhassem maior espaço de atuação, pudessem agir, fazer o o dinheiro girar, o capital girar, e com isso superar a aristocracia que não produzia nada, né?
Então a burguesia poderia ter conquistado esse poder e o avanço do capitalismo aconteceria como consequência dessa primeira desobstrução política que a Inglaterra teria feito. Em outra lógica, a gente vai ter uma historiografia whig-liberal, né, anglo-saxã, anglófona, né, que também os norte-americanos americanos por vezes vão insistir também nessa lógica de que essas duas revoluções propiciaram também uma história progressiva e interligada do desenvolvimento dos valores democráticos das sociedades ocidentais, né?
Então conseguimos chegar a uma Constituição estadunidense como a que se tem porque somos herdeiros dos ingleses que já se liberaram dessas amarras também do absolutismo, das superstições, de valores atrasados, né? E possibilitaram as liberdades individuais, a democracia, o direito à propriedade, ou o próprio direito à consciência, né, e à liberdade de expressão. E acho que essas duas versões têm um problema, que é o de criar histórias progressivas em que parece que a gente tá vendo uma linha sucessória, uma linha evolutiva que faz sentido, e que as coisas vão simplesmente gerando esse futuro mais progressivo.
Progressista e mais interessante, mais avançado política ou economicamente. E o fato aqui é que a história, né, a gente sempre diz isso para os alunos, acontece entre rupturas e continuidades, né, entre avanços e retrocessos. Então não é uma história exatamente tão linear. Há, obviamente, e acho que isso é muito importante de se demarcar, muitas conexões entre esses dois eventos, né, e eu acho que isso não deve ser desconsiderado.
No entanto, há causas e efeitos específicos E a gente vê isso claramente pelas duas consequências diversas, né, como eu falei. Como é que uma revolução precisa matar o rei e a outra não? Isso porque os efeitos são muito diferentes e que a gente também tá lidando com sociedades com ideais políticos muito diversos. Em uma, o rei é sagrado, né, e ele não tem como ele não ser outra coisa a não ser rei. Ele só pode ser destituído dessa função se ele tiver morto.
Enquanto o outro, ele já é um ocupante de um cargo e ele pode ser substituído por alguém mais adequado se isso for interessante ao Estado. Então, dentro desse arco, acho que a gente pode pensar um pouco como Christopher Hill, embora eu não goste muito desse livro, mas acho que é uma formulação interessante. A gente pode pensar que há um século revolucionário, há questões de longa duração que estão se atravessando e influenciando uma outra, mas há efeitos e causas específicas para cada um.
E a Revolução Gloriosa, ela tem parte, né, das suas causas muito alinhada à própria crise da Restauração, né, e não apenas aos problemas que haviam incomodado, né, o Parlamento lá em 1640. Então há questões diversas, então a gente precisa ter um certo cuidado ao fazer essas associações, a possibilidade assim a verificá-los como eventos que estão interligados, mas que têm especificidades entre cada um deles. Então a gente tem que olhar isso com um caráter um pouco mais refinado, observando essas especificidades.
Em 1651 houve a formação da Comunidade Britânica, caracterizada pela união entre Irlanda, País de Gales e Inglaterra.
Como é que você abordaria, ou talvez como você de fato aborda esse tema em sala de aula?
Bom, na minha universidade a gente só tem uma disciplina de história moderna, então eu tenho praticamente uma aula para cada coisa, né? Não dá para falar tão longamente, com tantos detalhes, sobre todos os temas que nos interessam. Mas uma coisa que eu tento colocar nessa minha única aula sobre revoluções britânicas, né, acabo dando esse título para também incorporar os outros espaços, é focar na mudança de significado de alguns conceitos.
Eu acabo tomando isso como um fio condutor. Então, partindo muito ali da história dos conceitos do Koselleck, ou até um pouco da história intelectual do Skinner, mas combinando isso aos meus próprios interesses, né, eu sempre trabalhei muito mais com os impressos, com a materialidade dos impressos, eu tento pensar junto com os alunos a mudança nas ideias de revolução e de soberania. Então, se a gente olhar para os próprios impressos, para as próprias publicações que são geradas nesse momento, e eu às vezes trago algumas, traduzo algumas coisas ou pego algumas traduções que existem já, a gente pode ir vendo as mudanças na ideia de revolução.
Então, no início de 1640, esse vocabulário político já tá se apropriando dessa palavra revolução, mas nem sempre ela quer dizer uma ruptura, né? Isso é um termo ainda em debate. Às vezes aparece como ruptura, às vezes aparece naquele aquele sentido que eu falei que o Hobbes vai usar no Behemoth, né, de completude de um ciclo. Então a gente consegue observar, examinando diferentes fontes, como que essa ideia vai se transformando.
E se a gente pensa no Kozellek, o significado de uma palavra, de um conceito, muda porque a sociedade também muda, né. Então ela precisa informar as palavras de outros sentidos. Então a gente pode ir explorando quais acontecimentos, quais discussões, quais eventos levando a ideia de revolução se deslocar desse lugar do ciclo político para o lugar da construção de uma interrupção, de um corte, até a gente chegar, por exemplo, à primeira reunião do Parlamento depois da Revolução Gloriosa, na qual um parlamentar vai a púlpito dizer justamente: acabamos de viver uma revolução feliz, a Revolução Gloriosa, né?
E vai usar essa palavra com um adjetivo positivo para marcar uma ruptura, né? O mesmo a gente pode ver acontecer com um outro termo, né, que eu dei o exemplo, que é a soberania, né? Então soberania também, se a gente volta para os documentos, vai olhar os discursos, os textos do Jaime I, soberania é o rei, né? Ele vai dizer que o rei inclusive tem um governo absoluto, e absoluto aqui quer dizer perfeito em si mesmo. Então ele não precisaria de outras coisas porque seu poder vem de Deus e é perfeito em si mesmo.
E essa soberania vai se desdobrando quando também, por conta desses vários eventos políticos, políticos, assume-se que o poder pode ter origem no povo ou que o poder pode ter origem em Deus, mas que primeiro passa para o povo e depois, né, é conferido aos governantes. Então a própria ideia de soberania, de quem é realmente soberano, de como é que essa soberania é exercida, ela também vai se transformando nesses documentos. Então o que eu tento fazer na aula é uma seleção de algumas fontes que permitam a gente observar essa mudança e ver quais são os diferentes efeitos e a quais desdobramentos a gente consegue chegar ao final com a ideia de revolução e de soberania.
Porque eu acho que quando a gente tá aqui no Brasil estudando revoluções inglesas, é muito difícil achar um nexo para isso aqui no Brasil. Mas acho que uma coisa que esse episódio nos mostra muito claramente é que ao final desse arco, a revolução não só entra no vocabulário político efetivamente, com novos efeitos, com novas concepções, como ela também passa a ser uma coisa planejável. Então, se antes uma revolução, se a gente voltar lá para os marxistas, a revolução às vezes acontece sem que ela ganhe esse nome na sua própria época, depois de 1688, 89, as revoluções têm nome de revolução, né?
Os franceses vão sair lá falando que é uma revolução quando eles pegam em armas, né? Então isso é um efeito interessante para se pensar esse arco de transformações políticas ao longo da época moderna, e que acho que o século 17 tem uma importância muito significativa. Então um pouco esse o caminho que eu tento percorrer, né? Se ele funciona, aí só meus alunos podem dizer.
E para terminar, 3 livros sobre o assunto para quem quer estudar, gostou do tema e quer começar a se aprofundar? O que que você recomenda?
Bom, eu vou fazer uma sugestão de 3 livros, mas que talvez seja até de um pouco mais de 3, porque eles vão se conectando. Mas a primeira sugestão que eu quero fazer é de um livro em português escrito por uma professora brasileira, né, que é o livro As Revoluções do Poder, da professora Eunice Ostrenski, lá da USP. Esse livro foi publicado em 2005, ele é resultado da tese de doutorado dela, que ela defende também na USP, e é um trabalho muito interessante Porque ele vai pensar a partir das questões da retórica, das linguagens políticas, vai pensar a própria teoria política que está se fundamentando nos debates parlamentares para que se possa propor um governo que não seja monarquia.
Então a Eunice vai voltar muito para alguns debates que aparecem entre os teóricos e filósofos escoceses ou ingleses, como que eles leem também outros teóricos, para propor ideias de republicanismo e como que essas propostas republicanas vão se fundamentar e surgir dentro dos debates parlamentares ao longo das revoluções. É uma produção, né, que tá em português, que é acessível e que vai ter uma discussão muito interessante da filosofia política, né.
Então é um recorte específico desse tema, não vai tratar, por exemplo, dos eventos, né, como um manual sobre história inglesa, né, como o livro do Christopher Hill lá, O Século das Revoluções, é um manual que vai quase dizendo para gente que acontece a da vida a dia. Então não é isso, não é essa preocupação da Eunice Ostrowski, mas sim de entender qual é a fundamentação da filosofia política que tá se desdobrando aqui e dando ensejo a projetos republicanos que vão reverberar ao longo do século 17 como um todo.
Uma segunda sugestão, e ela é um pouco dupla, né, entre português e inglês aqui, e vou explicar por quê. Uma segunda sugestão é o livro The English Radical Imagination, do professor Nicholas MacDowell, que não é um historiador, é da área das letras, né. A Eunice Ostrowski também não historiadora da área da filosofia política. Mas o que o Nicholas MacDowell vai fazer no trabalho dele é repensar a ideia de radicalismo. E aí ele vai fazer um diálogo muito profundo com O Mundo de Ponta-Cabeça.
Por isso que eu falei que era uma sugestão dupla. Então quem quiser ler o Nicholas MacDowell, talvez também possa ler o livro do Christopher Hill, O Mundo de Ponta-Cabeça, que vai ser trabalho seminal sobre a Revolução Inglesa e que vai pensar sobretudo o radicalismo, né? O Hill queria estudar a revolução dentro da revolução, do ponto de vista da minhoca. Então como que o povo pobre oprimido da Inglaterra teria reagido aos eventos políticos.
Então ele não quer contar uma história da grande política, dos governantes, mas dessas pessoas. O que o McDowell vai mostrar pra gente no livro é que o Hill não soube interpretar muito bem as fontes, né, e não soube perceber que os autores que ele usava, que se autodeclaravam as pessoas pobres e simples da Inglaterra, estavam usando efeitos retóricos para conseguir convencer os seus interlocutores das suas posições políticas ou religiosas.
Então ele faz uma revisão muito profunda do trabalho do Hill a partir dos estudos retóricos, né? E vai mostrando pra gente que essas pessoas pobres e simples, né, que foi assim que elas foram interpretadas pelo Hill, eram ex-estudantes de Oxford e Cambridge, eram eruditos com poder financeiro, mas que ainda assim estão organizando ali estratégias retóricas pra convencer os seus leitores de posições absolutamente radicais politicamente falando, né?
Por isso que ele vai falar em radical imagination, né, que aí é muito mais a ver com essa estrutura mental do radicalismo do que com uma concretude dessa questão. Um pouco disso também falo no meu livro, que foi resultado do meu mestrado, Revolução em Papel e em Tinta, e que tenta também articular um pouco essa discussão da cultura escrita, da retórica, dessas imagens, desses textos. E a última sugestão que eu tenho é o livro 1688, do Steve Pinker, que eu já citei um pouco aqui na fala, publicado em 2009.
Esse livro só tem em inglês, é um livro enorme e é um estudo seminal sobre o antes, o durante e o pós-1688. E é muito interessante porque é uma pesquisa detalhada e aprofundada de arquivo e que vai ter a tese de que 1688 teria sido a primeira revolução moderna, justamente por ser capaz de instituir uma Constituição como Bill of Rights. Eu não sei se concordo com isso, né, eu acho que 1640 é uma revolução já com características modernas, acho que tem ensejos ali de Constituição, enfim.
Mas ainda assim, esse é um trabalho que tem um detalhamento, né, no estudo da Revolução Gloriosa, que é muito interessante, porque ele vai descrever esse evento como uma revolução que não é sem sangue, não é simplesmente racional, sem apoio popular, apenas com apoio da elite, um golpe parlamentar, né. Muito pelo contrário, ele vai descrever uma série de tensões, os conflitos, inclusive os bélicos, as rebeliões, a forte participação popular.
Então vai dar ali uma narrativa muito mais complexa desse evento. Acho que é um dos grandes livros que merece ser lido sobre esse tema, mas infelizmente não tá em português. Quem sabe alguma editora goste da ideia de traduzir.
Então é isso, gente. Verônica, tem alguma consideração final? Bom, só quero agradecer.
Espero que as questões tenham sido discutidas de forma para todo mundo. É um tema muito instigante que tem muita coisa para se trabalhar, especialmente se a gente pensa que tem, né, vários âmbitos ali: o social, cultural, político, religioso, o do mundo dos impressos, da retórica. Enfim, tem muita coisa, mas é um tema que tá em constante ebulição, sobretudo agora, né, que a gente tem mais acesso aos arquivos, vendo aqui do Brasil a partir de bases de dados, de coisas que estão disponíveis na internet.
A gente consegue estudar muito mais do que esses temas já foram estudados antes. Então espero que sirva aqui como uma introdução e que as pessoas se interessem um pouquinho mais.
Então é isso, gente, muito obrigado por ter ouvido até o final. Não se esqueçam de dar uma olhada nos dados que estão aqui na descrição do episódio com todos os links úteis. E claro, compartilhem o História FM com seus amigos. Então é isso, muito obrigado e até a próxima!
Esse podcast foi editado por Samuel Gambini, samuelgambiniaudio.com.