244 Ibn Battuta: as viagens do maior viajante da Idade Média
A trajetória de Ibn Battuta revela a amplitude das conexões políticas, econômicas e culturais que ligavam diferentes regiões da África, da Ásia e da Europa no século XIV. Nascido em Tânger, no atual Marrocos, ele partiu inicialmente em peregrinação a Meca, mas sua viagem transformou-se em uma jornada de décadas que o levou a percorrer territórios do Norte da África, do Oriente Médio, da África Oriental, da Ásia Central, da Índia e da China, entre outras regiões. Ao longo desse percurso, Ibn Battuta atuou como jurista e esteve em contato com diferentes cortes, cidades e sociedades, registrando experiências que seriam posteriormente reunidas em seu famoso relato de viagens, a Rihla. Seus escritos oferecem um importante testemunho sobre um mundo marcado pela circulação de pessoas, mercadorias, ideias e práticas religiosas, permitindo também compreender as redes que conectavam sociedades muito distantes entre si. Convidamos Otávio Luiz para analisar a trajetória de Ibn Battuta, os caminhos percorridos por suas viagens, as sociedades que conheceu e o contexto histórico de um mundo medieval muito mais conectado e diverso do que frequentemente imaginamos.
Roteiro: Icles Rodrigues
Edição: Samuel Gambini
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Ibimbatuta, não sei se você já ouviu falar desse cara, mas esse cara tem uma das histórias mais sensacionais do período pré-moderno e ele é o tema de hoje do História Firme. Eu sou Iclis Rodrigues, com a voz não muito boa porque eu tive duas crises de solução hoje, então tá complicado, mas para falar sobre esse assunto eu convidei aqui o professor Otávio Luiz, acho que ainda hoje o nosso recordista de participações, para falar sobre esse assunto.
Então, Otávio, seja muito bem-vindo de volta, fica à vontade para se apresentar para o pessoal.
Iclis, muito obrigado. Eu queria já de início agradecer essa décima alguma coisa participação que eu faço aqui no podcast. É sempre um prazer, né? E eu queria também deixar então meu olá, né, minhas saudações para quem estiver nos ouvindo. Para quem não teve a oportunidade de ouvir alguns dos outros episódios que a gente gravou, eu sou Otávio Luiz, sou professor de História da África e da Ásia na UFPR, sou também professor do programa de pós-graduação em história da UEPR e sou coordenador do GIAFRAS, o Grupo de Estudos Africanos e Asiáticos, tá?
Eu, fazendo aqui uma pequena propaganda, né, eu sou autor do livro Rota da Seda pela Editora Contexto. É um livro que inclusive ele meio que surge de um dos primeiros episódios que a gente gravou aqui sobre Rota da Seda. E junto, né, Iclis, nós dois somos autores do livro Califado Abácida pela Editora Juruá, que também é baseado em um dos episódios que a gente gravou. Se eu não me engano, o último deles, né? Eu venho trabalhando bastante com interseções históricas, geralmente pré-modernas, entre história da África, história da Ásia, e eu acho que esse personagem que a gente vai conversar hoje, Ibn Battuta, ele é talvez o melhor exemplo, né?
O exemplo que cristaliza melhor essas interseções históricas, né, que bastante me interessam. Então eu acho que a gente vai ter uma conversa bem legal. Espero que quem esteja nos ouvindo também aproveite, porque essa é a história de uma personagem fascinante do mundo pré-moderno.
Então é isso, vamos conhecer um pouco mais de Imbatuta aí, sobre as jornadas dele, que duraram vários e vários anos, depois que eu der um recado para vocês. Se você quer ouvir os episódios do História FM com antecedência, podendo baixar o arquivo para ouvir onde quiser e sem os anúncios automáticos do Spotify, você pode fazer isso apoiando a gente com R$5 por mês em apoia.se/ obriga história. Eu sei que existem muitos projetos na internet que pedem apoio, que precisam do apoio do público.
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Não somos os únicos, claro, mas né, Não é muito comum e o Story FM vem fazendo isso com qualidade consistente há anos. Então se você quiser ajudar a gente a continuar, você pode fazer isso em apoia.se/brigastory. O link tá aqui embaixo na descrição. Apoiando com R$2 por mês eu leio o seu nome aqui e você tem acesso ao mural do Apoia.se com spoilers, novidades que vêm pela frente e tem outras recompensas. É só entrar no Apoia.se e dar uma olhada.
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Em 1325, um ano depois da morte Marco Polo, um jovem marroquino cujo nome até hoje é pouco conhecido no Ocidente iniciava sua viagem à América. Bom, para começar essa conversa eu tenho que perguntar quem era Ibn Battuta, né? Ele ficou famoso entre historiadores pelas décadas de viagem dele, Mas eu queria entender quem era essa pessoa antes dele sair viajando por boa parte do mundo, né?
Certo, então a gente começa pelo começo, né? Como esse é um episódio em que a gente vai focar num personagem específico, né, na trajetória histórica, digamos assim, de uma pessoa, eu acho que é legal a gente fazer uma boa contextualização de quem é essa pessoa. Talvez alguns ouvintes já tenham ouvido falar desse cara, né, do Ibn Battuta, conhecido contemporaneamente hoje em dia um um dos epítetos dado a ele é o príncipe dos viajantes, né?
Então ele é um muçulmano, talvez a pessoa que mais cobriu, pelo menos a pessoa que a gente conhece, que nós temos evidência, que mais cobriu terreno, né? Que mais viajou antes de períodos em que o mundo era mais diretamente conectado. Ibn Battuta, ele praticamente viajou por todos os lugares possíveis nesse momento, é dentro do espaço afro-eurasiático. E exatamente por conta disso ele é uma personagem muito fascinante, né? O relato que ele nos deixa, a Hila, ela é um relato importantíssimo para a gente pensar uma série de temas históricos, alguns dos quais eu tenho certeza que a gente vai falar aqui um pouquinho hoje.
Então, para quem nunca ouviu falar dessa pessoa, Ibn Battuta, primeira informação muito importante é: ele era um viajante, talvez assim de maneira geral o maior dos viajantes, né? A gente não é muito chegado nesses hiperlativos quando fala de história, mas eu acho que o Ibn Battuta é uma personagem que a gente pode abrir um pouco dessa, dessa exceção, exatamente pela magnitude dessas viagens dele, né? Ele é um viajante muçulmano, eu acho que a gente pode imaginar por conta desse nome dele, de extração cultural árabe, né?
Apesar dessa extração cultural, ele foi uma pessoa que nasceu no que hoje é o Marrocos, no século 14. Então, assim como a gente costuma ter com personagens muçulmanos, né, a gente geralmente se refere a eles pelo seu nome patronímico, ou seja, Ibn Battuta, que é filho né? Ibn é filho. Então esse nome, ele é parte de um nome um pouquinho maior que inclui um epíteto que ele recebe ainda em vida, que é Shams al-Din, né? A luz ou o sol da religião.
Então ele recebe esse nome. Bom, a gente vai falar um pouco disso, mas basicamente por conta do efeito religioso, intelectual que as viagens dele têm. Mas enfim, né, o nome, o nome completo dele a gente pode tirar da sua própria obra, né? Na verdade, todas as informações que a gente vai trazer aqui são em grande medida retiradas de a própria obra. Então são dados que a gente poderia chamar bem, entre aspas, de autobiográficos, né?
O nome dele completo é Abu Abdallah Muhammad Abdallah ibn Muhammad Ibravin ibn Muhammad ibn Yusuf al-Lawati al-Tanji ibn Batuta, né? Então o nome bem grande, que são vários patronímicos. O que nos interessa é o al-Lawati, que indica que ele vinha de um grupo que a gente chama de berbere, né, do norte da África, de Amazigh, dos Lawata. E al-Tanji significa que ele vem do que hoje é Tánger, né, uma cidade que tá ali na entrada do Mediterrâneo, no norte do atual Marrocos.
Então ele nasce ali por volta de fevereiro de 1304, ou se a gente quiser usar o calendário da Hégira, que é o calendário muçulmano, no ano de 703. E ele vai nascer num mundo que eu vou chamar aqui de marroquino. Esse nome ainda não é corrente, né, mas para facilitar nosso entendimento eu vou falar assim: ele nasce no mundo marroquino que é governado por uma dinastia específica dos Merínidas, né. É uma dinastia que assume na metade do século 13 ali ali depois que o poder de uma dinastia importante, os Almoadas, começa a diminuir naquela região.
Ele vai viver por volta de 64, 65 anos, né? Ele morre ali por volta de 1368 ou 1369, provavelmente atuando como juiz, né? Um juiz muçulmano. A gente já vai falar sobre isso também, que era o trabalho dele, digamos, antes das viagens, durante as viagens e depois das viagens, né? Em primeiro lugar, Ibn Battuta era um intelectual do Islã. Então ele não era um guerreiro, ele não era um mercador, ele era uma pessoa que estudava religião e que viaja em grande medida motivado também por esse interesse que ele tem na religião, tá?
Então se a gente tá falando de um, de uma pessoa que é um intelectual muçulmano no século 14, a gente pode ter uma ideia de que essa, essa tendência profissional ou as possibilidades de vida que o permitem ser esse intelectual, elas vêm de família, né? E de fato Ibn Atuta, ele vinha de uma família de, a gente chama em português de ulemás, que são intelectuais do direito muçulmano, e também de juízes islâmicos, que a gente chama de qadi, né?
Então ele vinha de uma espécie de classe letrada urbana, digamos assim, não era necessariamente uma alta aristocracia, mas a gente também não tá falando de pessoas que vinham de uma extração mais comum, tá? Nessa juventude dele, né, ele cresce se formando numa jurisprudência islâmica, que a gente pode chamar de fiqh, voltada para uma escola de jurisdição islâmica que a gente chama de maliquita, né, a escola malique, que era justamente a escola dominante ali na região do Magrebe, que é o norte da África, e na África Ocidental.
Esse detalhe é muito importante porque durante todas as andanças que ele tem pela Afroeurásia, é ser um jurista, né, ser um intelectual muçulmano, vai funcionar como a credencial dele. Ele vai se aproximar de pessoas, ele vai receber oportunidades, ele vai ser empregado em lugares como a Índia, por exemplo, é exatamente porque ele tem esse pano de fundo. Então, então é legal a gente ver ele por esse lado, um intelectual, diferente de outro viajante um pouco anterior a ele, também muito famoso, que é o Marco Polo, né?
Marco Polo é, vamos dizer assim, uma versão ocidental de Ibn Battuta, uma versão cristã de Ibn Battuta, mas ele era um comerciante, filho de comerciantes e sobrinho de comerciantes, enquanto que Ibn Battuta era um jurista, era um intelectual. E é meio que isso que vai mover as viagens dele. E aí nos interessa entender que E por volta ali de junho de 1325, quando ele tinha 21 anos, é que ele vai decidir que ele vai sair de Tanger, né, então é a cidade onde ele nasceu ali, para viajar.
Mas essa viagem não é uma viagem aleatória, ele não simplesmente acorda um dia e decide que quer conhecer o mundo. Ele vai fazer a Hadi, que é a peregrinação a Meca. Então ele se vê numa idade, numa condição social importante para que ele cumpra esse que é um dos 5 pilares da religião islâmica, a peregrinação pelo pelo menos uma vez na vida até a cidade de Meca. Então ele registra, né, de maneira um pouco retórica talvez, a dificuldade que é deixar a família, os pais, os amigos.
Ele deixa o ninho, né, ele como um pássaro que deixa o ninho, digamos assim. E talvez, e a gente vai falar um pouco mais disso, toda essa retórica também de nostalgia que fica quando ele decide viajar, ela seja retroativa, porque ele vai passar mais ou menos 24 anos viajando. Ele só vai voltar para o Marrocos 24 anos depois, a mãe dele já falecida, enfim, né, um outro mundo que ele retorna. Então esse é o nosso personagem, uma pessoa que nasce numa família de juristas no norte da África, que hoje é o Marrocos.
Ele estuda muito, é um estudo que vai compensar durante essa viagem, e aos 21 anos ele inicia a sua jornada porque ele decide fazer uma peregrinação até Meca. Essa jornada vai durar mais de 20 anos, então uma parte considerável da vida dele vai ser feita na estrada, digamos assim. E tudo isso, né, tanto essas informações que eu falei aqui como os dados da viagem dele, que a gente vai conversar um pouco, elas estão registradas na Hira, que é essa obra que ele vai ditar para uma outra pessoa que vai escrever para ele.
E aí se torna então a jornada, a viagem, né, o que significa esse nome, que é um gênero de escrita muçulmana, mas também é o nome comum dado a essa obra do Ibn Battuta, e que é onde a gente vai ter todas essas informações bem interessantes sobre ele.
Antes da gente entrar propriamente nas viagens, eu acho que é importante a gente entender o mundo em que o Ibn Battuta viveu, né? O século 14 era um período em que o mundo islâmico se estendia por uma área enorme que ligava regiões da África, Oriente Médio, Ásia, e que eram ligadas principalmente por rotas comerciais, centros urbanos e, claro, instituições religiosas que têm papéis sociais importantes nesses lugares, né? Então eu queria pedir para você explicar como era esse mundo islâmico em que o Ibn Battuta nasceu e por onde e por que ele oferecia tinha tantas possibilidades de circulação para alguém disposto a viajar, né?
Essa pergunta é bem interessante porque ela nos contextualiza em termos da possibilidade da viagem, como você bem falou. Tem algo importante que a gente tem que levar em consideração para localizar bem esse feito que o Ibn Battuta tem. A gente tá falando no século 14, mais antes também, de um mundo que obviamente tinha menos possibilidades de conexão do que o mundo da modernidade e obviamente da contemporaneidade, o que não significa de maneira alguma que esse mundo era um mundo de isolamento.
Esse mundo não era isolado, mas viajar, né, circular por esse mundo de maneira pessoal envolvia uma série de desafios. O mundo do século 14, do século 13, enfim, ele era muito bem conectado por trocas comerciais, por trocas culturais. Então a gente tá acostumado a ver agentes que direta ou indiretamente fazem esse processo de conexão, mercadores geralmente, peregrinos, enfim. A grande diferença para um personagem como Ibn Battuta é que ele não faz o processo de maneira indireta, ou seja, ele não é esse mercador que conecta um ponto a outro e daí tem um outro mercador que conecta um ponto a outro.
Ele atravessa esse mundo como um todo. Isso não era comum e na verdade isso era bastante raro, pelo menos que a gente tenha evidência disso, né? Mas só era possível porque a gente tem um contexto próprio pra isso. E é interessante pensar que esse contexto nesse momento, ele até tá mais relacionado com o mundo muçulmano nesse período do que com o mundo cristão, por exemplo, né? Porque como a gente fez a pequena comparação aqui, Marco Polo, que é uma outra, é um outro personagem que viaja muito, né?
Segundo ele, ele vai até a China. Ele faz isso porque ele é um comerciante. Ele é um cristão viajando por terras que não são cristãs. Uma das coisas que permite Ibn Battuta fazer essa viagem, né, de uma tal maneira que você já aludiu na tua pergunta, é o fato de que ele atravessa em grande medida terras muçulmanas. E o Islã tem maneiras específicas de se organizar intelectualmente, em termos de visão de mundo, assim como ele também tem maneiras de se organizar politicamente, né?
Falando politicamente, a gente tem estruturas de califados que eram estruturas quase imperiais. E eu não vou entrar muito nisso aqui porque a gente recentemente gravou um episódio também sobre sociedades islâmicas e sobre o Califado Abássida. E muito disso, né, muito desse contexto a gente comenta nesses outros episódios. Então eu já deixo aqui a recomendação para dar uma olhada, se esse for um ponto de interesse de quem tá nos ouvindo.
Mas de qualquer maneira, era um mundo que era politicamente primeiro integrado, depois ele vai se fragmentando ali a partir do século 9, do século 10. E no século 14, ele politicamente é muito fragmentado, obviamente, né? A gente tem diferentes estruturas políticas em diferentes partes, mas o que a gente tem é uma certa concepção de mundo que a gente pode chamar aqui de Dar al-Islam, que significa casa do Islã, né? Os próprios muçulmanos chamavam o conjunto de territórios que estavam sob governo, sob uma maioria jurídica legal islâmica, de Dar al-Islam.
Então, o que que envolve isso, né? Envolve uma religião em comum, envolve níveis diferentes de de utilização da língua árabe também. Então, se você é uma pessoa que sai do Marrocos e vai parar na Índia, com alguém você vai conseguir falar em árabe. E sendo um jurista muçulmano, você vai navegar por esse mundo muito melhor, porque a tua utilidade política, religiosa, jurídica em especial, ela encaixa com essa visão de mundo de dar ao Islã.
Então, quando a gente tem Ibn Battuta, né, indo quase que da costa atlântica para regiões como o Sudeste Asiático, aonde a gente tem o Sultanato de Samudra Passai, indo para regiões do norte da Índia, indo para partes da China, passando pela Ásia Central, indo para o leste da África, mais tarde indo para a região que hoje é o Mali, etc. Todos esses lugares, em maior ou menor medida, fazem parte da casa do Islã. Então é como se ele viajasse por um mundo fragmentado, que é o mundo do século 14, mas ao mesmo tempo ele dificilmente saísse de uma certa matriz cultural, civilizacional, estrutural pelo menos, né?
Claro, cada lugar vai ter sua especificidade, Mas vai haver um nível estruturante de uma matriz cultural ou civilizacional, enfim, que ele, que ele não abandona, né, mesmo que ele visite tantos fragmentos. Então a gente vai ter, por exemplo, no Marrocos, os Merínidas, que são uma dinastia de origem amazigue, né, de origem berbere. Quando ele passa pelo Egito e pela Síria, ele encontra os mamelucos, que a gente já conversou em outros episódios também, né.
Eram esses os caras que inclusive guardavam Meca e Medina, né. Quando ele passa por regiões que vão ali do Iraque para o Irã, etc. Ele passa pelo Ilcanato da Pérsia, ele vai passar depois pela Horda Dourada ali nas estepes do Mar Negro. Então são, são, é uma outra estrutura política. Ele vai conhecer o Canato de Chagatai na Ásia Central, ele vai conhecer o Sultanato de Delhi na Índia, ele vai conhecer o chamado Mandenkuru Faba ou Império do Mali na África Ocidental.
Inclusive também temos um episódio, né, sobre o Império do Mali. Ele vai visitar diferentes Cidades-empório, cidades-estado na costa suahili. Ele vai conhecer pessoas, né, a estrutura política da dinastia Yuan na China. Então, veja, são muitos lugares politicamente falando, muitos grupos diferentes no controle, mas todos esses grupos reconhecem em Ibn Battuta a personagem islâmica que ele é, né, o jurista. Então, é um mundo que é muito amplo, mas que também é muito centrado num certo nível de religiosidade.
É isso, claro, do ponto de vista mais mais religioso, mais cultural, né? Agora, a viagem, ela envolve algum nível de praticidade. Como que se viaja, né? Viajar é perigoso. Você encontra salteadores em diferentes estradas, você encontra falta de comida, você encontra ambientes hostis. Há muitos obstáculos para se viajar no século 14. Só que Ibn Battuta, ele vem depois de um período, ou durante um período, que a historiografia chamaria de Pax Mongólica, né?
Sem querer soar muito repetitivo, mas temos um episódio também sobre os mongóis que fala um pouco sobre isso. Essa ideia de Pax Mongólica, ela basicamente se refere a essa estrutura imperial que primeiro o Genghis Khan e depois os seus sucessores criam e que vai normatizar os processos de viagem. Então, durante algum tempo, era viável você passar de um lugar para outro porque estradas e processos comerciais estavam ou resguardados ou, no mínimo, foram estruturados algum tempo antes pelos mongóis, que gostavam muito de fazer comércio.
Apesar dessa imagem bastante violenta que a gente tem dos mongóis, o Império Mongol, ele depende de conexão e comércio, né? Então esse mundo de Pax Mongólica, aliado com esse mundo de Islamicato, digamos assim, né, que essa estrutura até cultural que o Islã lega de diferentes espaços, ela vai criar um certo nível de homogeneidade que permite a viagem. Então, para reforçar, é um mundo politicamente muito plural, muito fragmentado, mas culturalmente e religiosamente, partes importantes da África e da Ásia fazem parte de uma certa unidade que é o Dar al-Islam, né?
Então, do Marrocos à Índia, a parte da China, a gente vai encontrar esse mundo islamicar. Então, isso permite um caminho cultural fácil, enquanto que o caminho prático tá ali marcado pelas consequências da chamada Pax Mongólica, né? E dentro desse mundo de Dar al-Islam, a gente vai ter várias estruturas religiosas, financeiras, econômicas, políticas, que também permitem processos de unificação nessa viagem, né? Eu acho que a gente vai ter algum momento para falar um pouco mais disso ainda, mas é interessante ver a dualidade entre o plural e o centralizado no mundo do século 14, que é o que vai dar para o Ibn Battuta essas possibilidades de circulação tão intensas que ele vai ter.
É mais ou menos o que também dá ao Marco Polo essa possibilidade, né? A ideia de uma Pax Mongólica, né? A gente tem isso aqui de novo, mas o Ibn Battuta sai numa certa vantagem por conta da sua formação pessoal e pela presença maciça que o Islã vai ter na África e na Ásia.
Imbatuta viajou por lugares onde o clima era inclemente, né? Então imagina só quantas vezes ele atravessou, por exemplo, o deserto do Saara, que para quem não sabe é o maior deserto quente do mundo. Não é o maior do mundo em geral porque a Antártida é considerada um deserto, mas é um clima e outro, Enfim, é papo pra outro momento. E na hora de viajar, a gente tem que fazer a melhor escolha sobre o que vestir pra não passar perrengue.
E o que é melhor pra levar na mala, e eu sempre levo, são as roupas da Insider. E nesse mês de agosto, compras acima de R$399 têm frete grátis e você ainda consegue alguns brindes cumulativos a depender do valor da compra. Então é uma hora boa pra adquirir a família tech das peças da Insider, que tal? Então não perde a oportunidade de viajar com a melhor opção de roupa, que é a Insider. A viagem do Imbatuta começou como uma peregrinação a Meca.
Como foi a trajetória dele até lá e de Meca para onde que ele foi? E no meio dessa pergunta eu queria infiltrar uma outra questão, que é o fato de que ele encontrou com homens devotos, muito religiosos, que teriam profetizado que ele se tornaria um viajante, né, algo assim. Pelo menos foi a informação que eu encontrei. Aí eu queria pedir para você comentar sobre esses pontos, né, sobre essa coisa da viagem para Meca, para onde ele vai depois, e sobre essa história de ele ter encontrado esses sujeitos religiosos que profetizaram que ele viajaria por muitos anos e tal.
Esse é o grande pontapé, né? Como eu comentei aqui um pouco antes, o processo de jornada dele, né, a grande jornada de Ibn Battuta começa exatamente, né, como você apontou, com essa peregrinação até Meca. Então a gente viu que ele sai de Tanger em junho de 1325, e na verdade só jornada até Meca já é uma grande aventura, né? Porque ele tá longe. Vamos pensar que ele tá no Marrocos e ele tem que chegar no que hoje é ali a Arábia Saudita.
Então a primeira coisa que ele vai ter que fazer é cruzar o continente africano. Ele vai fazer isso pelo norte, né? Ele vai passar por lugares como Argel, Túnez, e nesse caminho ele já vai descrevendo algumas situações que vão surgindo, né? Eu vou dizer de maneira um pouco genérica aqui que a gente já vai vendo um certo embelezamento dessa história já nesse período inicial, porque quando ele chega no que hoje é Argélia, ele vai adoecer, ele vai ter uma febre muito forte, e ele vai encontrar, né, pessoas nesse caminho que vão falar para que ele parasse um pouco, esperasse a sua recuperação.
Mas ele vai dizer que ele recusa isso, ele vai seguir a viagem doente mesmo, ele vai, né, pensar assim, né, se é para eu morrer, se Deus, né, se Alá decretou a minha morte, então ela vai acontecer nesse caminho de peregrinação com o rosto dele voltado para Meca. Esse é o cenário que a gente tem. Então ele vai se desfazer de algumas das suas bagagens, ele vai tentar viajar mais leve, mas ele vai ali dizer que ele mostra muita obstinação nesse caminho de viagem, que estava no começo, né?
Ele saiu do Marrocos e já chegou doente na Argélia. Então a gente tá falando de um, da menor parte desse trajeto. Mas enfim, ele vai indo, vai indo, vai indo, e ele vai chegar em Túnez. Quando ele chega em Túnez, ele vai comentar que ele vai chegar com outros viajantes, né, com um grupo maior, porque ele não viajava sozinho, obviamente. Ele tava sempre viajando com caravanas, com outras pessoas. E quando essa caravana chega em Túnez, né, as pessoas vão sair em multidão para receber esses viajantes, as pessoas vão se abraçar, vão se cumprimentar.
E obviamente Ibn Battuta fica em silêncio e ninguém chega até ele, porque ele não conhecia ninguém ali, ele saiu do Marrocos. Talvez a gente tivesse falando de pessoas voltando para Túnez enquanto ele estava chegando sem conhecer ninguém. E ele vai comentar sobre a tristeza profunda que ele vai sentir no coração, sobre a solidão, sobre as lágrimas que ele vai derrubar, porque tá todo mundo ali se saudando e ninguém conhece ele.
Ele sente saudade da família, enfim. Isso vai fazer com que alguns peregrinos outros, né, notem isso, sejam gentis com ele. E aí ele, ele vai se consolando e segue sua viagem, né. Então, em muitos momentos do relato do Ibn Battuta, a gente vai ter esse lado da percepção dele. É um texto em que Ibn Battuta, o viajante, está muito presente. Ele vai descrever muito, né, cidades, sultões, elementos chamativos, exóticos, maravilhosos, etc.
Só que ele também vai consequentemente se colocar nessa história. E então ele, a gente vê nesse momento que é meio que o início dessa jornada da sua parte mais religiosa, que ele vai estar marcado por doença, por saudade, mas ele obstinamente vai seguindo e seguindo. E nessa sequência ele vai chegar em madraças, ele eventualmente vai ser nomeado o cadi de uma caravana, ele vai ter o primeiro casamento dele. Então é uma solidão também que vai desaparecer por um não só pessoal, mas também profissional, jurídico, religioso, etc., né?
Ele vai sair de Túnez depois e ele vai para Trípoli, ele segue para Alexandria, ele chega no Cairo, que era grande metrópole mameluca, né? Talvez uma das maiores cidades do mundo islâmico nesse momento. Aí, a partir dali, ele tem algumas opções de caminho para seguir até Meca, e ele vai escolher uma, um caminho que é talvez um caminho menos viajado desses, em que ele vai ir pelo Nilo e ele vai cruzar, né, depois de subir o Nilo, ele vai cruzar num porto do Mar Vermelho para Península Arábica, mas ele não consegue fazer isso porque há uma série de problemas militares, políticos nessa rota.
Então ele volta para o Cairo e aí ele vai fazer uma rota alternativa aonde ele passa por Damasco, né? E aí a gente tem outros viajantes muçulmanos que passam por Damasco e isso faz com que algumas das descrições dessa cidade sejam de desconfiança para historiografia. Por exemplo, Parece que Ibn Jubayr, que é um viajante anterior e também escreveu uma obra de viagem, empresta para Ibn Battuta algumas descrições de Damasco. Mas enfim, ele passa por lá, ele se casa de novo, ele se junta a outra caravana em Damasco, aonde ele finalmente consegue ir até Medina e ele consegue ir até Meca.
Então ele vai chegar lá em novembro de 1326, ou seja, a gente tá falando mais ou menos de um ano e meio de viagem até, né? Ele saiu em junho de 1325, ele vai chegar em outubro, novembro de 1326. E aí esse é o primeiro clímax da história, talvez, porque vai ser uma narrativa também muito embelezada, né, no sentido de que a gente encontra algumas profecias ao longo desse momento, que é o que você mencionou, né, Iclis, na sua pergunta.
O que acontece é que em Alexandria, por exemplo, ele vai se hospedar com um homem santo, né, um asceta chamado Burhan ad-Din. E esse Burhan ad-Din, ele vai olhar para Ibn Battuta e vai perceber em Ibn Battuta uma certa vocação para viagem. E a passagem que meio que define essa vocação, né, que retoricamente constrói a personalidade de grande viajante de Ibn Battuta nessa profecia, digamos assim, é que Burhan ad-Din pede para que Ibn Battuta encontre seus 3 irmãos que estão espalhados pelo mundo, né.
Então Burhan ad-Din tem um irmão que está no Sind, que é mais ou menos ali o que hoje é o Paquistão, é um que está na Índia e um que está na China. E Burhan ad-Din fala: transmita minhas saudações aos meus irmãos. E ao longo da história, Ibn Battuta vai encontrar essas 3 pessoas, né, na sua viagem. E mais tarde, né, ele vai estar ali na região do Nilo, e um outro personagem muçulmano, o Al-Murshidi, vai interpretar um sonho de Ibn Battuta, né.
Ele vai ter um sonho em que uma grande ave carrega ele até o Iêmen e depois mais além, para o Oriente, né, mais além para Ásia. E esse vai ser um presságio de que ele vai visitar essas terras que, ainda que sejam parte do Dar al-Islam ou sejam próximas do Dar al-Islam, estão meio fora do radar, né, basicamente Índia e China. Eu acho que os 3 irmãos desse personagem, o Burhanuddin, eles mostram um pouco esses 3 lugares que são mais exóticos, mais difíceis de chegar e que estão um pouco mais fora do radar, né, que são exatamente ali o norte da Índia, o Paquistão, o que hoje é o Paquistão, né, e também em partes da China.
É claro que todo esse relato, ele é um relato um pouco retroativo, né? Volto a insistir que a gente tá pensando na Hidra, que é uma obra escrita muito tempo depois dessas viagens, ditada de memória, ou enfim, né, de alguma maneira, por um outro personagem. Então é claro que ela vai ser construída como uma narrativa um pouco mais coesa, elementos vão fazer sentido dentro dessa fonte, o texto vai ser construído de uma tal forma.
Então a gente tem que obviamente olhar para essas informações com essa noção de que é uma visão religiosa, religiosa, pessoal, retroativa, né? Então essas profecias, esses chamamentos dados a Ibn Battuta ao longo da história, eles precisam ser bem contextualizados. Mas enfim, ele consegue fazer a sua peregrinação até Meca então. E aí dali, o normal talvez, né, para outros viajantes seria voltar para sua terra. Mas é ali que ele fala: não, eu vou continuar adiante, vou seguir um pouco mais.
Ele faz esse primeiro grande desvio então, e ele decide conhecer a região do Iraque, a região da Pérsia. Então ele passa por Najaf, por Basra, por Isfahan, por Xiraz. Ele chega em Bagdá, né? Bagdá é uma cidade importante porque foi a base do Califado Abássida e tem uma marcação importante na história muçulmana porque ela foi saqueada pelos mongóis em 1258, né? E isso aparece um pouco na história do Ibn Battuta, mas ainda é uma cidade grande, é uma cidade importante. Enfim, ele vai fazer esse passeio, né?
Ele vai voltar para Meca.
Ele vai ficar um tempo lá agindo como um mujawir, que é um residente devoto, uma pessoa que tá trabalhando ali, mas que tá ali por motivos religiosos também. Ele vai ficar alguma coisa entre 1 ou 3 anos nessa região, né? A cronologia, ela às vezes é um problema para nós historiadores, assim, a gente de vez em quando encontra algumas dificuldades de trabalhar com a cronologia do Ibn Battuta. Mas de qualquer maneira, ele depois dessa estadia em Meca como um mujawir, ele vai descer para o Mar vermelho.
De acordo com aquela profecia que foi feita da ave que o carrega, ele vai visitar o Iêmen. E pós-Iêmen, ele faz uma viagem mais ao sul. Ele vai daí sim visitar algumas cidades da chamada África Oriental, né, do leste africano, que é o que a gente chama de Costa Soarí. E aí depois ele vai continuar por muitos anos ainda e vai daí para as partes menos comuns, digamos assim, que a gente encontra em processos de viagem nesse período.
Uma coisa interessante sobre essa história, na minha visão, é que o Ibn Battuta viajava por um mundo que, apesar de politicamente fragmentado, ele tinha bastante integração cultural proporcionada pelo islamismo, né? Então eu queria pedir para você explicar como é que essa rede de cidades, estudiosos, governantes e instituições islâmicas em geral facilitava as viagens de alguém como ele e permitia que ele e outros viajantes cujos registros não sobreviveram, ou a gente ainda não achou, ou não deixaram registros, né, permitia que eles percorressem em distâncias tão impressionantes?
Essa pergunta, ela é boa porque nos permite complementar um pouquinho do que a gente falou agora há pouco, né? Você voltou a mencionar que a gente tá falando de um mundo que é politicamente fragmentado, mas muito integrado em termos culturais, porque a gente tá falando do Dar al-Islam. Então esse contexto que nós demos há pouco, ele é o contexto que é o básico para a gente compreender como que essas viagens são facilitadas. É que nessa pergunta eu vou ressaltar mais algumas coisinhas para a gente complementar a nossa compreensão, né, nossa compreensão material, institucional de como uma viagem pode acontecer.
Então, primeira coisa é que a gente tem, né, dentro desse mundo cultural islâmico, especialmente quando a gente tá falando de uma pessoa que viaja sendo um jurista, um intelectual, um ulema, um cádi, etc., é que a gente tem ali uma espécie de política de hospitalidade, né? Ele vai ser mais ou menos bem recebido exatamente porque ele tem um papel quase que de um profissional itinerante, né? Esse mundo permite isso, ele tem essa vantagem ao seu favor.
Então ele conhece muito bem a jurisprudência muçulmana, ele é um juiz da escola maliquita, né? Né? Isso garante a ele um primeiro salvo conduto, porque, por exemplo, ele vai ser um cádi em Dili, ele vai ser um cádi nas Maldivas, ele vai ser um cádi em caravanas, né? A atuação profissional dele é demandada. Então a gente tá entendendo que o Dar al-Islam, ele vai necessitar sempre desse papel jurídico, porque a jurisprudência é muito importante para o Islã.
Vou fazer aqui um pequeno parênteses para a gente lembrar que a gente tem dois termos muito famosos deuses, um deles pelo menos é muito corrente, que é a Sharia. E a gente tem a Fiqh, né? A Sharia, ela, a gente costuma tratar como a lei islâmica, mas ela é uma forma de lei natural da religião, enquanto que a Fiqh é o aprofundado conhecimento dessa lei, ou seja, é aplicação. Então a religião, ela, ela é bastante baseada, digamos assim, simplificando, em coisas que são haram, proibidas, e coisas que são halal, que são permitidas, né?
E o juiz, ele vai te, bom, o ele vai te dizer o que vale, o que não vale, o que ofende ou não a religião, a lei, a Sharia. Mas o juiz vai lidar com essas questões de maneira mais prática. E basicamente Ibn Battuta, ele atua nessas duas frentes. Então ele vai ser sempre importante, digamos assim, né? Ele vai receber muito patronato, digamos assim, né? Ele vai ser patrocinado por sultões, por príncipes, enfim, por pessoas importantes.
E isso vai garantir a ele uma boa hospedagem, por exemplo, lugares que ele viaja. Ele atua como juiz e ele recebe os benefícios dessa atuação. Ele vai estar sempre em posições sociais importantes, segundo ele, é, e esse mundo permite isso. A gente também vai ter daí algumas instituições específicas que permitem esses processos integrativos e essa recepção desses intelectuais. A gente vai ter, por exemplo, as confrarias religiosas, né, as Irmandades Sufi, que muitas vezes vão também oferecer hospedagem, comida, recomendações, redes redes de contato, elas vão criar esses processos conectivos entre diferentes lugares.
E é possível, sendo um intelectual muçulmano, se aproveitar também dessas redes de irmandades por conta da atuação, né? Então, na Anatólia, por exemplo, né, é uma região ali que hoje é mais ou menos a Turquia, ele vai passar por ali ficando hospedado como viajante. Enfim, a gente vai conseguir perceber isso ao longo da sua história. Ibn Battuta também casa muitas vezes, né? Ele casas, acho que mais de 10 vezes assim. Então esses casamentos, eles vão permitir que Ibn Battuta se integre não só pelo lado jurídico, pelo lado profissional muçulmano, mas também por um lado mais social.
Ele vai fazendo parte de diferentes famílias por conta desse seu prestígio, né, e vai conseguindo se assentar e passar por esses lugares. E aí, claro, a gente vai ter estruturas materiais muitas vezes vindas do amplo comércio que o Islã, ou que o islamicato, né, que o mundo de que o sindicato coordenava, que vão ter então essas condições materiais que permitem as viagens também. Então, por exemplo, no Índico você viaja através de um barco chamado dhow, né, e pessoas que sabem manusear muito bem esses barcos através das monções.
Então você viaja ao mundo Índico de acordo com o calendário dessas monções nesses barcos, e Ibn Battuta vai se aproveitar disso, digamos assim, né. Há sistemas de créditos financeiros também, uma espécie de cheque, né, que Ibn Battuta consegue se utilizar para sobreviver, para circular entre diferentes espaços comerciais. Então ele percorre essas grandes distâncias apoiado por essa espécie de cidadania cultural, né, essa cidadania muçulmana e essas estruturas que permitem, que permitem essas conexões.
Além disso, temos escolas, né, temos as madrassas, a gente tem, né, como eu comentei, as redes sufi, por exemplo, é outras fundações religiosas religiosas, enfim, há toda uma estrutura então que ampara esses processos de viagem, a ponto de que a gente vai ver historiadores e historiadoras, um exemplo aqui é a Janita Bulhode, falando de sistemas-mundo nesse momento, né, um sistema-mundo, esse sistema que tá integrado por algum motivo, mas não pertence a um grupo só, a um estado só, entre aspas, né, então como hoje é o capitalismo, por exemplo, nesse período do século 14 a gente vai ter as devidas estruturas que permitem esses processos mais integrativos.
Mas esse homem ainda faria uma última viagem, talvez a mais ousada, enfrentando o deserto do Saara para conhecer os vários povos da África Ocidental.
E Bimbatuta, ele viajou por grande parte da costa oriental da África, né, e que é uma costa longa, né, um território grande. O que que ele escreveu sobre esses lugares que mais chama atenção?
Ibn Battuta escreve muita coisa sobre muitos lugares, né. Obviamente que a gente não vai conseguir cobrir tantos detalhes aqui, mas tem alguns pontos que eu queria chamar atenção antes de comentar como é que é esse trajeto. Da saída dele do Marrocos até esse momento que ele passa pelo Iraque, pela Pérsia, volta a Meca, etc., a gente tá lidando com um universo que em termos documentais nos é mais conhecido, porque quando pessoas viajavam, geralmente pessoas viajavam por conta dessas peregrinações, seja no mundo cristão, seja no mundo muçulmano.
Desde o século 4º, 5º, a gente tem relatos de viagem que são baseados, são quase que manuais de peregrinação. Então quando o trecho é o trecho, vou chamar aqui de peregrinativo, digamos assim, né, quando é o trecho que cobre a peregrinação, a gente tem outros documentos. Mas a partir do momento que Ibn Battuta deixa Meca e começa a sua jornada seguinte, né, e começa pela costa suahili, pela África Oriental, a gente tá entrando num momento da sua vida que vai nos legar um valor documental mais único, eu diria assim.
Eu digo mais único porque, porque a gente não tem, por exemplo, muita documentação desse período externa, escrita em formato de narrativas mais longas, que cubra alguns dos lugares que Ibn Battuta viaja. Então ele vai vai ser uma das primeiras, vou chamar assim, de testemunhas oculares mais substanciais que a gente vai ter, por exemplo, para as cidades da Costa Suahili. Só para localizar a Costa Suahili, eu tô falando da região costeira que vai basicamente do sul da Somália até o norte do Moçambique.
É uma região que hoje pega eminentemente a região bem a franjinha costeira do Quênia e da Tanzânia em especial, né? Uma região que era conectada não só por conta do Islã, mas também por conta da sua forma de comércio, do uso comum de um idioma chamado Kiswahili e assim por diante. Essa viagem nessa região, que então vai ser documentalmente muito rica para nós, muito importante, ela vai acontecer ali em algum momento por volta de 1329, 1330, mas mais provavelmente 1331.
Ele vai sair de Adem, que fica ali no Iêmen, e ele vai viajando de cidade por cidade e comentando algumas coisas. Essa questão de viajar de cidade por cidade nesse ponto é importante porque do sul da Somália até o norte do Moçambique, ou seja, Costa do Swahili, a gente não tem uma grande unidade política. Então ele não tá viajando dentro de uma mesma estrutura, ele tá viajando em um espaço cultural semelhante, mas cada cidade é uma cidade basicamente independente.
Então é claro, com nuances políticas, né, obviamente, mas é por isso que são chamadas de cidades-estado, né, porque cada lugar é um lugar diferente. E é por isso que essa parte do relato é tão interessante. Então ele ele vai começar em Zeila, que fica no que hoje a gente chama de Somalilândia, né, uma região independente ali, ou autônoma, digamos assim, da Somália. E aí a gente começa a ver algumas coisas curiosas no relato do Ibn Battuta, porque ele, vamos dizer assim, era um homem de opiniões fortes, né.
Ele era muito descritivo e muito direto no que ele falava. Então quando ele elogia, ele vai elogiar bastante, o lugar é o melhor lugar do mundo. E quando ele odeia, ele odeia bastante também, e aquele lugar é o pior lugar do mundo. Naquele momento. Então, por exemplo, Zeilá é um lugar que ele odeia. Ele vai falar que é uma cidade suja, é uma cidade com um fedor que ele não consegue aguentar, ele não consegue ficar nessa cidade de tão fedorenta que ela é.
E ela é muito fedorenta porque tem ali cheiro de peixe, tem cheiro de sangue de camelos que são abatidos nas ruas diariamente, e a coisa não é limpa, né? Então ele fala que ele prefere dormir no navio do que nessa cidade, porque é impossível para ele. Aqui tem alguns detalhes, né? É quando Ibn Battuta fala Zeila é a cidade mais fedorenta que já se viu na face da Terra. A gente tem que relativizar isso, né? Porque ele vai explicar que o fedor dessa cidade vem do abate dos camelos e do cheiro de peixe.
É uma cidade portuária, né? Mas especialmente ele vai dar ali um foco pro abate dos camelos. Ibn Battuta é um viajante marroquino. Então, primeiro que ele provavelmente não tá acostumado a ver camelos serem abatidos. Camelo é um companheiro de viagem, né? E segundo que o abate no mundo islâmico, ele tem que seguir toda uma regra, né? A carne halal, que é a carne que você pode consumir consumir ainda hoje, por exemplo, ela tem que passar por um processo específico, uma ritualística específica para o abate.
E a sensação que nós temos é que ele tá olhando para essa cidade como um jurista, como intelectual muçulmano, tá vendo aquele abate errado, tá vendo pessoas etnicamente muito diferentes dele e tá pensando: isso aqui tá tudo errado, as pessoas aqui não são boas muçulmanas, né, não sabem abater um animal, ficam abatendo camelo. Isso vai se repetir em vários lugares, geralmente lugares que são etnicamente, ou eu vou chamar aqui racialmente, talvez o racialmente entre entre aspas, é diferentes do que ele tá acostumado.
Isso fica bem evidente quando ele visita mais ao fim da sua jornada o chamado Império do Mali, que ele vai inclusive notar a cor das pessoas, né? Mas ele finalmente sai de Zelá e daí ele segue para a cidade de Mogadíscio, né, ou Mukdicho como ele fala. Mogadíscio é um caso interessante porque se a gente olha para Mogadíscio hoje, é uma cidade que funciona quase como o epítome do estado falido, digamos assim, né? Então se alguém aqui já viu o filme Falcão Negro em Perigo, por exemplo, ele se passa na batalha de Mogadíscio nos anos 90, quando os Estados Unidos se metem num conflito civil somali, etc.
E hoje a gente olha para Mogadíscio como uma cidade completamente perdida em termos políticos, muito perigosa, sob mira de vários grupos ditos terroristas, etc. Mas aqui no século 14, Mogadíscio era um grande centro, né? E até o próprio tom do Ibn Battuta muda quando ele visita Mogadíscio. Ele vai falar que é uma cidade próspera, que é um entreposto comercial muito importante, que tem um costume local mais, mais rico, mais islâmico até, digamos assim.
Ele vai ficar hospedado em lugares mais importantes ali e provavelmente um pouco disso também afeta, né? Ele diz que pessoas importantes são recebidas nessa cidade pelo sultão local. Ele vai ser recebido então por gente importante e isso talvez ali até ajude um pouco a mudar a visão dele. Ele vai descrever os banquetes nessa cidade, os produtos, né? Então é uma cidade que chama mais atenção dele. Muito diferente de como a gente talvez imaginasse a partir de um senso comum como que é Mogadiscio hoje.
Então depois ele passa por Mombasa, ele também vai sempre ressaltando as cidades que são mais religiosas, são melhores muçulmanas, como é que são as mesquitas, enfim. Até que ele chega numa cidade chamada Kiwa Kisiwani, que é uma ilha que fica no litoral da atual Tanzânia. Kiwa nesse momento talvez fosse a cidade mais rica e mais importante da costa suahili, e ele visita essa cidade, né. Ele vai falar que é uma das cidades mais bonitas e mais bem construídas que ele já viu na vida.
E de fato nós sabemos que as cidades swahili, sendo cidades costeiras bem de frente para o Oceano Índico, era comum que as construções de fachada fossem todas pintadas de branco. Então provavelmente isso dava uma vista muito bonita das regiões costeiras, né? Então eram cidades que eram muito imponentes do ponto de vista de quem tava chegando, enfim. E de alguma maneira Ibn Battuta percebe isso, né? Ele vai conhecer o sultão, é um homem chamado Abu Al-Mutassafar Hassan.
Então ele vai conhecer esse sultão, vai descrever bastante ele, e era um homem muito generoso, né? Então era um cara que distribuía presentes, era o senhor dos presentes, né? Um sultão da doação, uma coisa que agrada muito o Ibn Battuta. E ele vai nos dar ali, né, pelo tempo que ele passa nessa cidade e pelas informações que a gente consegue ver da sua narrativa, a gente vai descobrindo algumas coisas específicas sobre a África, por exemplo, nesse momento, que não seriam acessíveis de forma simples não fosse a Hikla de Ibn Battuta.
Ele, por exemplo, comenta como é que o Akissiwani faz conflito no interior do continente, né? Então, no interior do que hoje é a Tanzânia, na terra do Izandi. Izandi é um termo difícil de traduzir porque é um dos termos que talvez se refira às pessoas negras da costa suahili, mas Sudã também é outro termo, enfim. Então tem uma aplicação bastante específica. Então o que a gente vê é um pouco também da dinâmica local, né? A gente consegue até talvez ali perceber alguns indícios de como cidades costeiras se conectavam com regiões do interior, que nesse momento a gente tá falando de uma estrutura política africana chamada Grande Zimbábue, né, que fica no que hoje obviamente é o Zimbábue.
Então a gente consegue ver uma conexão africana que tá perpassando ali o texto do Ibn Battuta, ainda que essa não seja, esse não seja o foco dele, né. E arqueologia de Kiwakisiwane, né, as escavações na Grande Mesquita, no Palácio do Sultão, um palácio chamado Husuni Kubwa, etc., são, são São pontos que meio que coadunam ali com a narrativa do Ibn Battuta. Então ele visita algumas dessas cidades super importantes, reforçando aqui então: Zeilá, Mogadíssio e Kiwakissiwani, né, os três focos aqui desse momento.
E aí ele vai fazer um retorno, né, passando pelo Golfo, ele passa por Omã, por Ormuz. Então ele vai fazer ali um trajeto de monções depois que ele faz essa viagem pela África Oriental.
E sobre a Ásia Central, quais os highlights dos comentários dele sobre a região.
Aí aqui também temos uma longa narrativa, né, porque a gente tá falando primeiro de Ibn Battuta conhecendo muçulmanos do leste africano. Eu vou chamar aqui para facilitar de Zande, né, tá conhecendo muçulmanos negros na costa oriental da África. Não é que ele não conhecesse por conta dos comércios entre Marrocos e o sul, mas esse é o momento da história em que ele tem esse contato. E aí depois a gente vai ver o contato dele com, vou chamar aqui também para simplificar, com com os turcos e com os mongóis, né?
Então aqui também a gente vai ter uma descrição bem interessante, com muita riqueza documental para a gente conhecer a história da Ásia Central nesse momento. Então ele vai passar primeiro pela Anatólia, aonde ele passa ali pelas irmandades sufi, etc., e ele vai cruzar o Mar Negro e vai chegar ali na região da Crimeia, né? Ele vai entrar então nas estepes, aonde a gente tem a estrutura política da Horda Dourada. Da Horda Dourada é um dos, uma das estruturas políticas sucessoras, né, é um canato que sucede o primeiro grande império mongol.
Então, Genghis Khan vai formar seu império, seus filhos vão continuar, e num dado momento esse grande império se divide em 4 canatos que teoricamente fazem parte de uma coisa só, mas em termos práticos são 4 espaços políticos diferentes. Ele vai conhecer a corte do Khan da Horda Dourada, que é o Özbeg Khan. Ele vai fazer uma descrição bem interessante interessante, né, como essa corte aí é itinerante, vão ter cidades inteiras dentro de tendas, carroças em movimento.
É um pouco da impressão dele de um modo de vida que tem uma tradição nômade, né. Ele vai falar também do kumis, enfim, que é o leite de égua fermentado, é uma coisa que a gente também encontra em Marco Polo, inclusive. Vai ter uma descrição bem, bem interessante, né. E ele vai trazendo algumas, algumas percepções curiosas, né, provavelmente porque estamos falando de um jurista muçulmano, ele tem uma preocupação, por exemplo, em volta e meia falar das mulheres.
Então ele vai falar que as mulheres turco-mongóis tinham um alto status nessa sociedade, que elas poderiam aparecer em público sem o véu, por exemplo. Ele vai mencionar mulheres que a gente conhece como Hatun, que são as mulheres, as esposas dos Khans, né? Então elas têm cortes próprias, elas têm um nível de voz na política que talvez fosse incomum em outros lugares. E ele vai sempre se espantando com esses contextos, né? Isso chama atenção dele e ele vai descrevendo isso.
E aí ele também passa, né, por Constantinopla nesse movimento. Há alguma polêmica se ele passou por lá ou não, então esse é um dos pontos dessa história que é debatido. Mas segundo ele, ele vai para Constantinopla acompanhando uma esposa de um Khan, que é a Bayalun, que na verdade era uma princesa bizantina que era casada com o Uzbek, e que volta grávida para sua cidade natal, né? Então aí a gente tem esse cenário interessante de um muçulmano que vai entrando na corte de Constantinopla, que é uma corte cristã.
Ele fala que ele é recebido pelo imperador, ele descreve aí a Sofia, que é a grande, a grande basílica, hoje uma mesquita, que fica em Istambul, né? Ele visita por fora, ele não se curva para cruz, etc. Então, então esse, esse é um momento bem interessante assim. Ele também fala que visitou o Alto Volga, né, que ele visita ali os, digamos assim, os búlgaros do Alto Volga. Mas também aqui a gente tá falando de uma passagem que é um pouco mais polêmica, alguns problemas com cronologia.
Então é possível que esse trecho tenha sido embelezado também, né, tenha talvez vindo ali de outras fontes, etc. E aí ele vai seguindo em direção à Ásia Central, ele vai passar pela região da Corásmia, que a gente conversa um pouco sobre isso no episódio dos mongóis. Ele passa por Bucara, que é uma das grandes cidades da Rota da Seda, uma cidade que foi devastada também por Genghis Khan um século atrás, né, mais até, mas cuja ruína, né, cuja destruição ainda é percebida por Ibn Battuta.
Ele passa por Samarcanda, que é uma outra cidade fundamental da Rota da Seda. Ele daí chega no que a gente chama de Canato de Chagatai, né, é um dos outros 4 grandes canatos que surgem do Império de Genghis Khan. Lá ele fala que é recebido pelo Khan também, o Tarmashirin, e que é interessante porque nesse momento o Tarmashirin tinha acabado de se converter ao Islã. O Chagatai, ele tinha uma relação com o budismo também. Então nesse momento a gente tá acompanhando junto com Ibn Battuta um momento de conversão, né, em que a gente sai dessa presença mais nômade, até budista, para uma tradição mais islâmica, né.
Ele vai captar ali o o momento dessa transição religiosa de uma parte importante da Ásia Central e da Rota da Seda, que era justamente o Chagatai, né? E aí ele segue em direção ao Indo Kush, que é o rio ali, é a região ali que tá mais ou menos no que hoje é o norte da Índia, Paquistão, né? Essa é a região, esse é o momento em que a gente daí vai saindo dessa Ásia Central e vai entrando num outro momento dessa jornada. Então é legal pensar o quê, né?
O que que a gente tira desse trajeto pela Ásia Central, que de uma certa maneira o Ibn Battuta vai atravessar a Rota da Seda, né, formalmente assim, as cidades que a gente entende como sendo parte da Rota da Seda, constando em Sinopla, obviamente, ali num dado ponto, mas também o Mar Negro, as estepes da Crimeia, depois a Corásmia, Bucara, Samarcanda e assim por diante. E daí ele vai descendo para o sul, né. Ele também então vai deixar um relato importante para nós, e aqui é onde a gente vê de maneira até mais evidente aquilo que nós falamos sobre a fragmentação/unificação.
Esse é o lugar que era, digamos, o coração da Pax Mongólica, né? Exatamente porque a Rota da Seda. Então são vários lugares diferentes, são vários canatos diferentes, são diferentes grupos étnicos, alguns ainda estão se islamizando, mas parece que ele consegue atravessar esse espaço como se ele tivesse simplesmente atravessando o Dar al-Islam, ou seja, a casa do Islã. E muito disso porque é possível culturalmente, mas também em termos mais práticos, fazer essa viagem.
Uma das partes mais curiosas da trajetória dele é a longa permanência no Sultanato de Dili, onde ele acabou se tornando um juiz islâmico. Então eu queria pedir para você explicar como Ibn Battuta foi parar na Índia, qual a relação com o sultão Muhammad bin Tughlaq, não sei se pronuncia essa, e como foi essa experiência dentro da administração de um dos maiores estados islâmicos da época, né?
Para a gente começar a pensar sobre essa estadia, que na minha opinião já também forma um momento específico e a parte da jornada do Ibn Battuta, é legal que a gente leve em consideração o seguinte: quando nós estamos falando de Índia aqui, a gente tá falando de uma porção islâmica dessa Índia. Exatamente por isso que ele vai para lá. Ele vai para uma região que nós chamamos de uma estrutura política, né, que nós chamamos de Sultanato de Delhi.
Ou seja, é um sultanato, fica em Delhi, né. É um sultanato, então é uma estrutura muçulmana. Isso significa que a gente não tá falando de um país Índia. A gente não tem uma unidade cultural e nem política no subcontinente indiano. Pós-unificação da Índia, né, pós-fim do período britânico, do domínio britânico na Índia, que acontece no século 20, a gente tende a pensar o subcontinente como uma grande unidade hindu, por exemplo, né?
Isso não funciona para o passado. A gente tem diferentes estruturas, há uma fragmentação na Índia. Então aqui o que nós estamos olhando é uma região mais nortenha, é mais muçulmana, mas que tem as suas especificidades. E aí essas especificidades, elas talvez surjam justamente dessa pluralidade que a gente encontra na Índia, porque o Sultanato de Dili, né, nesse período que é o período do sultão, né, como você mencionou, o Muhammad ibn Tughluq, ele, ele, bom, primeiro que ele reina entre ali 1325 e 1351, então é um reinado longo até, né, são basicamente 25 anos de governo e se torna um sultanato, um governo relativamente conhecido porque letrados estrangeiros e pessoas de fora circulam por essa corte, né, são muito bem pagas para isso também, Então é como se a gente tivesse vendo um sultanato que tá ali querendo se construir como cosmopolita, porque o sultão tinha alguma desconfiança das elites indianas locais, digamos assim.
Então ele se voltava para o mundo do islamicato para construir sua corte, né? Ele se voltava ali para o mundo persa, para o mundo árabe, para o mundo turco e também para o mundo magrebino, para pro mundo do norte da África. Então é como se a gente estivesse falando de Delhi como um ponto maravilhoso pra uma pessoa como Ibn Battuta, pra um ulema, pra um qadi. Porque esse sultão pagava bem e queria essas pessoas vindas de fora na sua corte, né?
E aí o Ibn Battuta vai pra lá basicamente então querendo, né, um pouco desse emprego. E aqui a gente então tá vendo de uma maneira bem intensa, bem paradigmática na verdade, a transformação de uma jornada religiosa do sentido de peregrinação numa jornada de carreira, digamos assim, né? Ele ali tá viajando agora como o jurista mesmo, né? Então ele vai chegar ali por volta de 1333, a gente não tem muita certeza muito bem dessas datas, via Sind, né, que é ali a região um pouco mais ao norte.
Então a gente tá falando mais ou menos do que hoje é o Paquistão. E aí ele já vai atrás então desse sultão, ele vai fazer empréstimos para comprar presentes para oferecer para para esse sultão, ele vai estar apostando naquela estrutura de patrocínio que a gente meio que comentou, né? Ele vai se ver então na possibilidade talvez desse patrocínio. Essa aposta dele obviamente vai dar bem certo, né? Porque ele vai ser nomeado como o Kadim Malik de Delhi, com um ótimo salário, digamos assim, né?
O próprio Ibn Battuta vai citar que ele ganha 12 mil dinares por ano. Vou confessar que em termos financeiros eu não sei muito bem o que isso significa, pro século 14, mas vou confiar que Ibn Battuta tava recebendo muito bem pra fazer o que ele fazia, né, que era ser o cadi maliquita. Então a gente também sabe que a região ali que ele tá na Índia é uma região de menos presença maliquita, mas de maior presença hanafi, que é uma outra escola jurídica e que tá muito mais próxima ali dos pensadores persas, digamos assim, né.
Então dá pra imaginar, né, o que que o sultão queria com um cadi maliquita uma região que é juridicamente muito mais hanafita, né? E aí a gente pode pensar nesse cosmopolitismo islâmico que o sultão Muhammad bin Tughluq tá construindo, né? De qualquer maneira, ele vai ficar por ali trabalhando com auxiliares, com um grupo, né, de pessoas, é, por mais ou menos 8 anos. Então ele vai estar ligado à corte do Muhammad por 8 anos. E na rila, ele, ele vai, né, Ibn também vai descrever bem esse sultão, né, o Muhammad ibn Tughluq.
Ele vai falar que era o homem mais generoso, mas também mais sanguinário que ele já conheceu na vida, né, que era uma pessoa então de paixões. Ele podia tanto, sei lá, cobrir um visitante de ouro e mandar executar alguém logo em seguida. Então é uma dualidade que encaixa um pouco no estereótipo do sultão em textos muçulmanos, né, é uma pessoa que vive um pouco entre extremos. E exatamente por viver entre extremos é que é preciso ter pessoas como Ibn Battuta, né, juristas sábios que bem aconselhem esse sultão.
Então eu acho que aqui também é um pouquinho de uma construção retórica. Quando um intelectual que atua como conselheiro, como juiz, fala que um governante é muito extremado, isso funciona para ele também, né? Isso significa que a função dele é importante, etc. Então eu acho que aqui a gente pode ver um pouquinho disso assim. Então é um momento bem legal dessa narrativa que eu acho que vale bem a pena ser lido, mas que enfim é longo, né, são 8 anos de estadia lá.
E aí depois a gente vai ver o Ibn Battuta, né, ele vai ter alguns problemas com o sultão também, etc. E aí ele finalmente segue em direção à China, digamos assim, né, ele vai indo mais a leste e ele chega no que hoje é a China, no Império Yuan, ali por volta de 1341. Ele vai levar diferentes, etc. A comitiva vai ser atacada no caminho, ele vai ser sequestrado. Então é um momento de bastante drama, digamos assim. E aí ele, de qualquer maneira, ele fica com medo de voltar para Delhi apesar desses problemas, e ele decide seguir a jornada daí por conta própria, né.
Esse desvio, né, então ele tava ali trabalhando, tem alguns problemas, ia para China como embaixador, encontra problemas nessa viagem, tem medo de voltar, etc., né, esse desvio ele também vai ser um desvio relativamente historiográfico, digamos assim, porque a gente entra em outro momento. Ibn Battuta ele vai passar por volta de 9 meses ou talvez um pouco mais na região das Maldivas, né, ele vai atuar obviamente mais uma vez como cad nesses lugares, ele vai se casar com mulheres da elite local, ele vai tentar impor certos rigores legais que vão se chocar com os costumes, ele vai se escandalizar com as mulheres, né, então esse sempre é um ponto que aparece ali também, vai se envolver em intrigas e aí ele, bum, ele foge e sai às pressas das Maldivas.
E é interessante porque mais uma vez esse é um, é talvez uma das descrições mais ricas dessa região nesse período assim. A gente, a gente tem, não tem muita documentação como essa que o Ibn Battuta deixa para essa região e que ele vai descrever muitos dos costumes que ele não gosta muito, né? Então exatamente é aí que tá a riqueza também. Saindo dali ele vai passar pelo Sri Lanka, né, que é o o Ceilão nesse período. Ele vai peregrinar por ali também, vai conhecer reis, etc.
Ele chega até Bengala e daí de Bengala ele vai seguir para parte da sua viagem que inclui o Sudeste Asiático. Então esse trecho que começa em Delhi e que culmina em Bengala, que seria basicamente então a sua estadia na Índia, né, é um trecho bem interessante, bem legal, com muita, com muitas intrigas políticas, com muita descrição de costumes. É um trecho que vale bastante vale bastante a pena de ser, de ser lido assim para quem tiver interesse nessa história.
Quando morreu aos 64 anos, Ibn Battuta já havia viajado por cerca de 30 anos, sobrevivido a uma peste na Síria, atravessado cidades, desertos e mares para chegar a Meca, a Pérsia, Ásia Central, Índia, ilhas do Sudeste Asiático Depois dessa passagem pela Índia, o Ime Batuta, ele continua viajando e chega até regiões que hoje correspondem ao Sudeste Asiático e também a China.
Aí eu queria saber o que é que ele fala sobre essas viagens, né? E também se consenso entre os historiadores de que ele realmente teve em todos esses lugares, ou se existe algum debate sobre parte do itinerário, né? E enfim, o que que ele comentou sobre esses lugares?
Esse particularmente é um dos trechos que eu mais gosto, exatamente por conta dessas polêmicas historiográficas que vão surgir, né? É muito do trajeto do Ibn Battuta entre o Sudeste Asiático e a China é debatido, assim como de Marco Polo também é debatido, né? Tem muita gente que acha que Marco Polo nunca chegou na China, etc. E alguma coisa assim a gente consegue ver também para o caso do Ibn Battuta. E eu acho que isso torna o texto mais interessante, porque olhando com olhares historiográficos, a gente começa a se perguntar de onde vem essas informações, o que que ele quis dizer ali, por que que essas coisas estão ali, para além do fato que ele obviamente queria construir uma narrativa em que ele cruzou o mundo inteiro.
Vamos imaginar que antes de falar desse itinerário, que ele sai da ponta atlântica da África, então Marrocos, né, Atlântico-Mediterrâneo, e ele vai à ponta quase do Pacífico. Ele atravessa toda a extensão numa linha, digamos assim, é da Afro-Eurásia, né. Então ele cobriu basicamente verticalmente o mundo conhecido. Isso é muito importante, é muito chamativo, e o valor historiográfico que isso tem, tenha ele realmente feito isso ou não, também é muito interessante.
Mas de qualquer maneira, ele, né, parte de Bengala, como eu tinha comentado. Ele vai visitar pessoas famosas ali, sufi, né, chamado Shah Jalal. E ele vai seguir para Sumatra, né, para região que a gente entende historicamente como sendo do Sultanato de Samudra Pasai, que era governada por um sultão muçulmano, né, Al-Malik ad-Zahir. Também é um trecho bem interessante porque vai mostrar para gente, eu vou chamar aqui de estado, né, um estado muçulmano que tá muito longe do mundo califal, né, tá no sudeste, tá em Sumatra.
Então é na ponta de um arquipélago, etnicamente distante dos árabes, enfim. Então, então aqui, aqui é bem interessante porque nos dá essas informações, né? Ele vai fazer algumas menções ali nessa região de Passai, etc. E aí ele vai teoricamente seguir para a China, aonde ele teria visitado pelo menos 3 lugares importantes para nós aqui, né? Guangzhou, que é o Cantão, um lugar que talvez fosse mais viável de ser visitado porque é uma cidade voltada para o comércio e para viagem.
E aí ele também fala, né, que que visitou uma outra cidade, Hangzhou, e claro, Beijing, né? Então o que hoje é a capital da China, ele diz que visitou também. E aí essa parte chinesa é muito fascinante porque nós não temos muitos relatos de viagem de árabes ou de muçulmanos, enfim, na China. Ali um ou outro, claro, mas esse aqui então seria bem interessante, né? As informações ali são bem interessantes. Então ele vai falar que desembarca em Guangzhou, que é Cantão, né, uma cidade que os árabes chamavam de Tsaitun.
E ele vai notar ali que essa cidade se chamava Oliveira, né, porque Tsaitun é também, né, oliva, oliveira em árabe, mas não tinha uma única oliveira nessa cidade. Então ali tem essa brincadeirinha. Ele vai descrever o porto como sendo um dos maiores portos do mundo, apinhado ali de juncos, né, que são esses navios de todos os tamanhos. Ele faz uma descrição detalhada desses juncos já em Calicute, que é na atual Índia, aonde os navios chineses aportavam também, né, embarcações gigantescas, etc., com tripulações que Ibn Battuta estimava em centenas de homens.
Então é um cenário bem chamativo, né, bem impressionante. Esses homens viajavam com marinheiros, soldados, camarotes privados, etc., com família eventualmente, comercantes, com mercadores. Tinha até, segundo ele, cultivo de verduras e gengibre dentro desses barcos assim. Então é uma descrição bem interessante, bem legal, e que mostra para gente também um mundo bem conectado, né, uma conexão intensa entre o que hoje é Índia e China já em períodos muito anteriores.
E aí o que vai impressionar bastante Ibn Battuta é o nível de organização política e administrativa desse império chinês. Ele vai falar, por exemplo, que a China era o lugar mais seguro e mais bem organizado do mundo para um viajante, que você poderia viajar por meses sozinho carregando riqueza e não ter medo nenhum dessa viagem, né? Então ele talvez exagere um pouco o nível de segurança, mas ele vai meio que explicar por quê, né?
Ele fala que cada estação de parada, talvez seja algo rememorado dos mongóis, já que a gente tá falando da China Yuan, né, que é a China que descende dos mongóis, é o 4º canato. Então nós temos a Horda Dourada, o Chagatai, é o canato que fica na Pérsia, e na região chinesa, a China Yuan, que seria um desses canatos então, né? Então ele fala que em cada parada tem uma espécie de hospedaria, né, oficial, onde tem ali um funcionário que vai registrar o nome de todos os viajantes, que vai trancar a porta de noite, então você não poderia sair.
De manhã ele vai ver ali se a lista bate com quem tá ali dentro, etc., e aí vai te colocar num guia até a estação seguinte. Então tem uma forma de, é uma espécie de, né, uma vigilância, um rastreamento que fazia com que o Estado chinês, aqui Estado falado de forma bem geral, né, enxergasse ali quem tá circulando, quem tá entrando, quem são os viajantes, etc. E aí o Ibn Battuta ainda comenta que havia essa prática de que pintores oficiais, eles iam fazer o retrato de cada estrangeiro que fosse recém-chegado, e esses retratos ficariam afixados ali para fins de controle, né.
Então se uma pessoa cometesse um crime e falasse, vou fugir, vou embora, o retrato dessa pessoa ela começava a circular. Então, é, talvez, obviamente, né, haja um certo nível de exagero nisso que Ibn Battuta tá falando, é, mas, mas, mas é bem interessante ver como ele descreve esse sistema de vigilância ali do século 14, como ele gosta disso em certa medida, né, porque ele vê que isso causa uma certa segurança. Ele vai descrever o dinheiro chinês, digamos assim, né, porque a China usava papel moeda desde o período Song.
Então, desde ali do século 9, 10, a gente já vê a circulação de papel moeda e E ele vai falar que basicamente ninguém aceitava ouro e prata e tudo era feito com essas notas de papel. Então isso também chama bastante a atenção dele, né? O negócio que ele tava acostumado com os dinares de ouro, né? E de repente ele tá falando ali de papel moeda. Isso é bem interessante. Ele vai falar sobre a manufatura de porcelana, inclusive uma manufatura de porcelana que chegava no Marrocos, né?
O mundo tava também bastante conectado, entre outros, pela porcelana chinesa, que circulava muito bem, vai continuar circulando no período moderno. Então a gente sempre ouve falar de porcelana Ming, né, que exatamente por conta dessa, desse apreço que a porcelana chinesa tinha como produto exótico, o produto rico, né, um produto de alto consumo ali nos espaços de viagem. Aí ele vai mencionando essas outras cidades, né, como Hangzhou.
Ele vai ficar hospedado em famílias de muçulmanos egípcios nessa cidade, segundo ele. E ele vai notar que praticamente toda cidade chinesa tinha um bairro muçulmano que tinha uma mesquita, um cádio, um sheik. Então, de alguma maneira, a gente tá falando ainda de um Dar al-Islam. Mas ao mesmo tempo, a China não é majoritariamente muçulmana. E aí que é um problema, né? Ele vai ficar um pouco desconcertado com a China porque ele vai ter essa admiração pela estrutura, pela organização, pela segurança, mas ele vai entender que aquela terra não agrada a ele, que terra pagã, digamos assim, né?
É uma terra que não é dominantemente muçulmana. Então ele, como um homem da religião, ele vai se sentir fora do Dar al-Islam. Então nesse sentido, talvez é um desses lugares que estão fugindo um pouco, que estão mais distantes em termos de viagem, não só porque estão mais geograficamente distantes, mas também porque tem essa questãozinha, né, que escapa um pouco do Dar al-Islam, então tá um pouquinho mais longe, né? Mas ainda assim aqui é bem interessante.
E aí, claro que pensando essa viagem à China, né, além desses detalhes que eu falei, historiograficamente falando, a gente tem um pouco ali dessa questão da veracidade, né. Então há muitas questões, há muita dúvida, por exemplo, sobre a sua estadia em alguns desses lugares chineses, né. Porque, por exemplo, ele menciona alguns dados que são difíceis de serem verificados. Segundo, porque a gente tem uma cronologia um pouco mais complicada, né?
Então é tudo muito apertado em termos de tempo de viagem, assim, é difícil de ver em que momentos essas viagens foram encaixadas. E aí tem algumas omissões que também são chamativas aos historiadores, né? Ibn Battuta omite, por exemplo, a Grande Muralha. Então ele não fala muito disso, ele fala que não viu. Ele não menciona chá, ele não menciona— muita gente fala que ele não menciona, né, os pés de lótus, que são esses pés que as mulheres atavam e ficavam de maneira diferente.
Ele não menciona alguns traços que seriam muito diferentes para ele. Então seria de se imaginar que esses traços mais exóticos aparecessem nesse texto, mas eles não chegam a aparecer assim. Então a gente pode pensar também que, óbvio, ele não tá circulando abertamente por todos os lugares, ele tá circulando entre os dos humanos. Então é possível que ele não fosse ver muito dessas coisas, ele talvez quisesse embelezar outras. Enfim, eu acho que essa questão ela não chega assim a ser tão fundamental, porque o que a gente tem é uma análise de um texto ali que é interessante mesmo assim.
Mas é importante que a gente saiba que essa viagem à China é uma parte que envolve um pouco de ceticismo.
A obra do Ibn Battuta, como tantos outros relatos de viajantes na história, ela tem alguns exageros. Né, tem algumas imprecisões. A gente já de certa forma pincelou um pouco isso na questão anterior, né, a respeito da discussão da veracidade. E aí eu queria te perguntar quais são os principais pontos de dúvida da obra dele que os historiadores discutem. Se tem coisas mais específicas assim que são pontos de contenda entre os especialistas, enfim.
Essa é uma pergunta, ela é talvez um pouco mais especializada, né. Então a gente poderia ficar aqui bastante tempo falando dessas nuances textuais etc. Eu vou tentar ser um pouco mais geral aqui. O que a gente tem que levar em consideração? Primeira coisa, que se trata de uma hírla, ou seja, um relato de viagem de um tipo específico. O que eu quero dizer com isso? Eu quero dizer que quando a gente está trabalhando com documentação pré-moderna, digamos assim, é comum que a gente encontre, até pela dificuldade de se escrever um texto, pela necessidade material que você teria, pela necessidade de um letramento, que os textos que sigam certos padrões muitas vezes.
Então, durante muito tempo, relatos de viagem teriam uma função específica. Essa função específica seria ou de instruir e inspirar pessoas a fazerem essa peregrinação, ou eles seriam relatos mais comerciais. Então, há um texto do século 1º, 2º, chamado Périplo do Mar Eritreu, por exemplo, é um texto grego que menciona os portos e os produtos dos portos indo de Alexandria até o leste da Índia, né? Então, ou seja, um documento para mercadores, para marinheiros.
A partir de um dado momento, a gente vai começar talvez a ver textos de viagem que tenham uma função que não seja tão somente a de inspirar a peregrinação ou a de instruir comercialmente, mas textos que não só gerem algum nível de— eu vou chamar aqui de entretenimento, né? Uma leitura que seja engajante, mas que também mostre o mundo de forma bem ampla. Então a gente vai ter no mundo muçulmano, por exemplo, um cara chamado Al-Masudi que vai ser um dos primeiros talvez a fazer esse texto com esse molde assim, que envolve mais curiosidades, que envolve descrições quase que etnográficas, digamos assim, e que mostram o mundo que Deus fez, né?
Então a viagem e o conhecimento do mundo, mapeamento do mundo no Islã, tem um pouco dessa função, né? Uma função de revelar o conhecimento. Mas eu diria que no século 13, 14, a gente começa a ver textos que quase que tem uma função até maior de entretenimento, né? O texto do Marco Polo, por exemplo, aí aqui no mundo cristão, o Il Milione, é um texto muito chamativo porque ele exatamente, ele narra as maravilhas do mundo, né? E eu acho que a Hikmah de Ibn Battuta, ela tem um pouco dessa função, ela tem um certo valor de leitura, né?
Ela seria lida por outras pessoas, talvez lidas em cortes, e esse mundo seria conhecido pelas palavras de Ibn Battuta. Então isso dá uma certa carga para o texto que é importante que a gente leve em consideração. Só para nós termos uma ideia, o título completo dessa obra, né, o título que se dá a ela é Tufat Anussar Fi Haraib Al Almansar Wa Ajayb Al Asfar, que significa um presente aos que contemplam as maravilhas das cidades e os prodígios das viagens, alguma coisa nesse sentido, né.
Então é um presente a obra. Aí depois a gente chama de Rihla porque é a jornada, né. Inclusive é por isso que esse episódio tá sendo gravado perto da final de uma Copa, de uma Copa do Mundo, né. Em 2022 a bola da Copa Copa do Mundo que foi no Catar era a Hila, a jornada. Então tem aqui uma, um elemento bem interessante até que a gente pode estranhamente fazer uma conexão com, com Ibn Battuta. Mas enfim, então primeira coisa, né, é uma obra que tem essa função, é um presente literário, é um presente de conhecimento, é um presente de religião.
Esse é um ponto importante. Segunda coisa é que ela não foi escrita diretamente pelo Ibn Battuta, né, ela foi ditada ali entre 1354, 1355, é por ordem inclusive do sultão Merínida, né, o Abu Inan, ela é ditada a um literato, o Ibn Duzayn, que vai redigir, que vai polir essa obra, que vai inserir alguns poemas, que talvez embeleze o texto, né. E a gente entende também que Ibn Battuta, ele teve naufrágios, enfim, ele teve problemas, assaltos, e ele parece ter perdido os seus registros, né.
Então o que a gente tem é uma memória de quase 30 anos de viagem, basicamente, né, é uma memória ditada e editada, curada, embelezada por uma outra pessoa, assim, né? Então a gente tem muitos filtros que obviamente precisam ser levados em consideração. E a gente sabe também que esse gênero literário que tá ficando cada vez mais bem formado nesse período, né, o gênero de Hírla, ele vai valorizar as maravilhas, os santuários. Então talvez haja uma certa ênfase em alguns desses elementos.
E aí a gente encontra alguns pontos de dúvida. Por exemplo, a gente percebe que há empréstimos costuais na obra do Ibn Battuta, né? Descrições de Meca, de Medina, de Damasco, de partes da Palestina. Elas são ou adaptadas ou até parafraseadas da Rihla de Ibn Jubayr, que é um outro viajante, que é do século 12, né? Então é muito tempo, é muito tempo antes do Ibn Battuta. A gente tem essa excursão ao Volga, que ela é bem rejeitada assim, né?
Não é muito bem aceita, aonde ele visita ali quando ele tá passando, entrando na Ásia Central, né? A visita também ao que hoje é a capital do Iêmen, né, Sana'a, ela é um pouco duvidosa. A passagem por Constantinopla, a passagem pelo interior da China, por exemplo, que a gente comentou agora há pouco. Então algumas cronologias também são meio difíceis assim. É claro que a gente tem várias questões que são problemáticas. O que a gente não pode fazer é simplesmente pegar essa obra do Ibn Battuta e tomar ela de maneira literal, como se ele tivesse literalmente visitado todos esses lugares, memorizado tudo aquilo, vivido tudo aquilo.
Como eu falei, são muitos filtros que vão entrando ali, outros documentos, arqueologia, a numismática, eventualmente ali lápides, etc. Alguns desses elementos nos ajudam a confirmar algumas coisas, mas claro, a gente tem que ter ali algum cuidado, né? E de fato, muita gente pós-Ibn Battuta, né, já período até, passa a o conhecer por conta da magnitude do relato que ele deixa. Talvez não houvesse nenhum relato como esse até então.
Então a gente pode imaginar que para o século 14, bom, para nós também é, mas para o século 14 isso era um grandíssimo tesouro literário. E aí isso faz com que vários outros intelectuais admirassem Ibn Battuta e outros o desconfiassem muito, né? Então a gente sabe inclusive por conta de outros textos que alguma desconfiança sobre a A veracidade das viagens de Ibn Battuta, ela já começa em vida, né? A gente tem, por exemplo, Ibn Khaldun, que é um outro intelectual desse período, falando que essas histórias contadas na corte de Fez, né, sobre Dele, as riquezas dos sultanatos, etc., faziam com que ele fosse quase tido como um mentiroso ali, eventualmente, né?
E aí a gente tem uma ideia de que não podemos negar o que não vemos. Também, né? Então, de uma maneira, seja para criticar ou não, seja verdade ou não, o que a gente tem é ali uma espécie de tesouro de conhecimento muçulmano, né? De representação da importância da viagem, etc. Então, esse é um elemento que eu acho que é importante quando a gente pensa na fonte em si, né? Não é acreditar em tudo que tá ali, mas entender a importância importância que esse relato tem.
Depois de quase 3 décadas viajando, o Ibn Battuta finalmente voltou para o Marrocos. Eu queria te perguntar como é que foi esse retorno e se ele chegou a registrar as motivações dele para todas essas viagens, sobre se elas eram peregrinação religiosa, ou talvez ele explicasse ela por busca por conhecimento, ou oportunidade de trabalho, prestígio político. Ele chega a dizer por que que ele viajou tanto?
Então, eu acho que aí, né, a gente pode falar falar que é um pouco de tudo isso que você comentou. Porque primeiro que a viagem é uma peregrinação ampla, né? Então você viaja peregrinando até Meca, mas quando você viaja o mundo, você conhece o mundo que Deus criou, você conhece todos os lugares muçulmanos, etc. Mas aqui a gente tem um trecho bem legal assim, porque Ibn Battuta primeiro, né, ele volta ali por volta de 1347, 1349, e ele meio que vai passar pelo período de peste, né?
Períodos importantes de peste meio que ali em tempo real. Então ele volta pelo Índico, pelo Golfo, ele passa por Bagdá, ele passa pela Síria, ele passa pelo Egito, e ele vai descrevendo, por exemplo, os problemas com a mortandade que vão ter ali em Alepo, em Damasco, exatamente por conta dessas pestes, né? Então isso é bastante, é bastante dramático. Aí a gente também pode entender que a Hila é uma fonte para esses períodos de peste também, né, porque tem alguma descrição sobre elas ali.
E aí ele chega em Fez ali por volta de 1349 e ele vai descobrir que a mãe dele já tinha morrido de peste um pouco antes, o pai dele já tinha morrido também, né. Então ele volta depois de 24, né, 24, 25 anos ali de viagem e o mundo é outro, né. Ele passa pela peste, parte da família dele já morreu. Então tem talvez aquela nostalgia do início que ele fala que chora, que sofre de solidão, ela também seja compreendida no arco, né?
Ele volta também para essa solidão. Só que o mais legal assim que eu acho é que ele não para de viajar depois que retorna ao Marrocos, né? Ele ainda vai fazer duas viagens. Então tem essa primeira grande jornada que começa indo para Meca, vai até a China e volta. E aí tem uma segunda, né? Essa segunda parte da jornada tá dividida em duas porque ele quer conhecer ainda outros dois lugares lugares do mundo muçulmano, outros dois lugares do Dar al-Islam.
Então, a primeira, ele vai para Al-Andalus, que é a região muçulmana, de dominação muçulmana na Península Ibérica, né? Então ele visita Granada, que já tava ali com alguns problemas com os cristãos, etc. E aí em seguida ele faz uma viagem um pouco mais curta em comparação com as outras, né, que vai de 1351 a 1353, que ele decide ir ao sul dessa vez, né? Então ele primeiro viajou verticalmente e agora ele viaja horizontalmente primeiro ao norte, atravessando o Mediterrâneo, e depois ao sul, atravessando o Saara.
Nessa travessia do Saara, ele vai conhecer o que a gente entende, né, por Império do Mali, o Mandenkuru Faba. Então ele vai sair de Sijumassa, que é uma cidade comercial importante, ele vai passar por minas de sal em Taghaza, por exemplo, que é uma outra cidade que ele vai descrever como sendo feita com casas de blocos de sal, etc. Uma travessia muito difícil pelo deserto. E aí ele vai chegar nessas regiões sob domínio do Mali, o Alata, no caso, né?
Depois ele ainda passa por Tombuctu e Gao no seu momento de volta. Esse é um trecho bem curioso porque ele vai dizer que ele vai presenciar a corte do Mansá Suleimã. Mansá Suleimã é um irmão e um sucessor de Mansá Moussa, que é o Mansá talvez mais famoso, né? Históricamente falando e popularmente falando do período aqui de Império do Mali. Ele vai falar bastante, né, do cerimonial, do trono, de alguns elementos culturais, de devoção, de segurança, mas ele também vai ter muitos choques culturais.
Tem um momento que eu sempre acho que é muito interessante, que ele encontra um governador local, um farba, e ele sabe que esse farba fala árabe, mas ele não se dirige diretamente a Ibn Battuta, ele cochicha com um tradutor esse tradutor conversa com Ibn Battuta e ele fala assim: nossa, que desprezo essas pessoas têm, né, por eu ser branco. Aqui é um detalhe importante porque esse branco obviamente não é o branco europeu, é um contraste entre o árabe, entre aspas, marroquino, e o Sudã, os negros que estão na região do Bilad as-Sudan, que é o país dos negros.
Então é um trecho polêmico, obviamente, mas que tem que ser aqui visto em perspectiva. E aí a gente, compreendendo um pouco um pouco da história do Mali, por exemplo, sabe que os Djélio, que a gente chama de griot, né, os griots, eles eram os embaixadores, porque a voz dos governantes tinha um poder sagrado, etc. Então eles dificilmente falavam com o estrangeiro. Ibn Battuta não sabe disso, não percebe isso, obviamente. Então tem algumas dessas implicações que ele vai ter, né.
E há corroboração em algumas outras fontes, né, como no Al-Umari, por exemplo, sobre alguns desses elementos que ele encontra nesse trecho final de viagem pelo Bilad as-Sudan, que é a terra aqui dos negros, o Império do Mali, basicamente, né. E aí, por fim, para a gente pensar, né, por que que ele viaja. Obviamente que isso não tá colocado de maneira explícita, né, mas a gente entende que essa peregrinação, e como eu já comentei, o talab al-ilm, né, que eu diria que é a busca pelo conhecimento, é uma tradição em que você coleciona essas bênçãos os santos, você viaja pelos caminhos do mundo islâmico, né?
E aí, claro, a gente tem razões implícitas, né? Talvez o dinheiro, talvez o salário, talvez os presentes, talvez a glória, né? Afinal, ele é o príncipe dos viajantes, ele é o Shams ad-Din, o sol da religião. Então, e ele ganha tudo isso por conta do prestígio de ser o viajante das maravilhas, né? Por ser o homem que narra aos seus o que é o mundo. Eu acho que eu eu consigo imaginar que aí já há uma razão importantíssima que não vai ser falada, mas que vai estar ali, que é o puro prestígio, né?
É registrar o teu nome para sempre. Então eu imagino que talvez Ibn Battuta ficasse feliz de saber, por exemplo, que tá tendo um episódio gravado só sobre ele, né? Exatamente porque ele viajou. Então eu diria que aí a gente tem talvez uma das razões dessa viagem, né? E claro que também existe o fato de que a escrita dessa obra foi também encomendada. Né? É um patrocínio do sultão Abu Inan, então, que queria mostrar a grandeza do Marrocos e do mundo islâmico, né?
Acho que esse é um detalhe importante também. Mas a gente tem essa, talvez, esse grande conjunto de motivos. Motivos mais religiosos, mais pios, motivos mais materiais, os grandes salários, mas também talvez os motivos de glória pessoal, né? De ser a pessoa que fez esse trajeto e registrou isso tudo.
Quando a gente acompanha a trajetória do Ibn Battuta, a gente acaba conhecendo também um retrato muito amplo desse mundo islâmico do século 14, das conexões existentes entre África, Oriente Médio e Ásia. Então eu queria pedir para você falar um pouco sobre o que a trajetória dele revela a respeito desse mundo interligado, né, que muitas vezes recebe menos atenção do que a Europa medieval nos livros de história, e que é basicamente o âmago de quase tudo que você mais gosta de pesquisar, né.
Exatamente. Eu acho que é, eu, o Ibn Battuta mostra para nós de maneira muito explícita um certo nível de percepção que a gente pode ter da realidade do mundo pré-moderno, né? A viagem acontece, e eu vou, eu vou responder isso aqui de maneira até um pouco mais rápida, porque eu acho que é aqui a gente tem uma colagem de tudo que nós falamos até agora, né? Eu mencionei que ele viaja dentro do possível, quer dizer, dentro de um universo que tá integrado, né?
Essa viagem, ela apesar de ser excepcional, grosso modo, ela não precisaria ser uma exceção, porque ela é um dado bem específico de uma pessoa, né, que resolve fazer o trajeto inteiro. Talvez muita gente não quisesse fazer isso, mas ela é possível porque ele viaja dentro de uma estrutura que permite essa viagem, né. Então, desde a percepção religiosa até a estrutura mais institucional, etc., eu acho que tudo isso é o que permite que essa viagem aconteça e que já mostra um processo integrativo, né?
Imagina, Ibn Khaldun faz por volta, né, as estimativas que a historiografia coloca, há uma estimativa clássica de que ele viaja 117 mil quilômetros e que ele cobre basicamente mais de 40 países atuais, né? Ele viaja 3 vezes mais que o Marco Polo, por exemplo, em termos de trajeto, né? E a partir disso a gente vê integrações, por exemplo, da costa suahili ligada ao Grande Zimbábue, do Mali ligado ao Mediterrâneo, das regiões ligadas à China, da China com a presença de bairros muçulmanos em todas as suas cidades.
Ou seja, tudo isso nos mostra essa circulação, né? Há um nível de globalidade que se constrói não diretamente nos contatos— Ibn Battuta é uma das pessoas que faz o contato direto— mas se constrói por meio de diferentes realidades que são plurais e estão interligadas. E eu acho que essa é a grande lição, né? É a grande do mundo do século 14 através de Ibn Battuta. Nós temos muita pluralidade, a gente tem muita fragmentação, muitas realidades completamente diversas, mas existem fios condutores que fazem com que a gente possa olhar para essa pluralidade e ver formas variadas também, mas ainda assim formas de integração.
Ou seja, o mundo não é um mundo desconhecido em quem tá de um lado não conhece o outro, ou como a gente às vezes imagina olhando a forma que alguns mapas medievais ou tardo medievais assumem, né, que o mundo é meio desconhecido assim. Não, Ibn Battuta viajou por boa parte dele, né, e foi possível fazer essa viagem. O simples fato de que essa viagem é possível já é um testemunho bem importante da dimensão, né, de interconexões, especialmente no mundo muçulmano.
Aqui, século 14, nós ainda estamos falando de um mundo muçulmano que é mais dominante. O mundo cristão vai se aproximando disso. Marco Polo e vários outros viajantes religiosos que no século 15, no século vão da Índia ao Japão, eles são exemplo disso, né, do mundo cristão também se aproximando desse elemento mais sistemático, né, desse sistema mundo de islamicato, enfim, que os muçulmanos já tinham. Então a gente consegue ver que a religião é um aspecto bem importante dessa integração, e o Ibn Battuta mostra por A mais B, de maneira prática, cultural e religiosa, como é que isso funciona de verdade.
Essa gente é a que mais desaprova injustiça, e seu rei não perdoa o mínimo deslize de caráter de seus súditos. Nenhum morador ou viajante teme ladrões ou salteadores. Eles fazem as orações, frequentam a mesquita e dão grande atenção ao aprendizado do venerável Corão. Em compensação, suas servas escravas e meninas aparecem nuas em público, e suas mulheres não usam o véu na presença do rei. Seus poetas recitam versos desavergonhados, e eles comem animais impuros. E este foi o Mali que Batuta conheceu.
Então, como é que você abordaria esse tema em sala de aula? No caso, Você é professor no ensino superior, né? Eu não sei qual é o espaço que dá para dar essa aula no ensino básico, mas tentando também contemplar os professores do ensino básico, porque como o Ibirbatu tem uma fonte primária, eu imagino que pode ser muito útil para formular algumas aulas e tal, né? Pensando para além do ensino superior, mas englobando também o básico, como é que você abordaria esse tema em sala de aula?
Aqui a gente pode pensar em muitas estratégias diferentes, né? Falando especificamente da minha experiência, eu oriento e já orientei trabalhos sobre Ibn Battuta. Eu já orientei uma dissertação e tô orientando uma tese agora. Tenho aproximação com outras pessoas que fazem teses sobre, né? Então eu já percebo que do ponto de vista pesquisa a gente tem aí um interesse bem grande. Em sala de aula, eu quando trabalho com Ibn Battuta, considerando que eu atuo em história da África, mais diretamente, né, é a disciplina que eu ministro anualmente, enfim, eu uso Ibn Battuta pra gente pensar algumas informações sobre as religiões africanas que ele descreve.
Então eu gosto muito de trabalhar com trechos da fonte, feita a devida crítica, né, pra que a gente tente extrair informações. E essa é a primeira forma que eu pensaria, que dá pra trabalhar tanto no ensino superior como fora dele. A fonte é muito interessante, os textos do— o texto, né, a Gihla do Ibn Battuta é muito interessante, tem, né, descrições de comida, de banquetes, de gênero, de coisas exóticas, estranhas, maravilhosas.
Então, em diferentes níveis, a gente pode tentar trabalhar com trechinhos de fonte que funcionam em separado. Eu, por exemplo, trabalho com um equivalente de uma página assim, que é quando ele fala de Zeyla e Mogadício, por exemplo, né? Trabalho com um trechinho bem pequenininho, meia página, que ele fala da sua chegada ali nas regiões do Bilad as-Sudan, o Mali. Dá para tirar bastante coisa, dá para tentar fazer um processo de reflexão, de crítica, né?
É bem interessante. Eu acho que quando a gente— isso vale para o ensino básico também, mas eu acho que quando a gente também tá pensando talvez em outras estratégias, né, como é que isso pode ser feito, eu acho que muitos recursos didáticos podem ser pensados através de Ibn Battuta. Por exemplo, montar o itinerário dele no mapa, né? Então, e tentar juntar as pecinhas assim e fazer uma linha de viagem de uma tal forma que a gente consiga ver um mundo bem conectado.
Isso ajuda a quebrar certos paradigmas, nos ajuda a questionar inclusive inclusive, por que que a gente fala que os europeus é que descobrem o mundo, né? Claro, a gente tá falando de Atlântico quando fala dos europeus, mas muito se pensa da chegada dos europeus no Japão, na China, na Índia. E ainda que Ibn Battuta não chegue no Japão, obviamente, a gente consegue ver um pouco assim no mapa esse mundo conectado, né? E eu já tive contato também com pessoas especialmente que fazem mestrado ou doutorado profissional, né?
Insider Story que já criaram jogos interativos sobre viajantes medievais. Eu participei de uma banca, inclusive, e depois a gente pode deixar essa referência, de um trabalho que era um RPG feito no computador que você fazia o caminho de um viajante inspirado em Ibn Battuta, né? Mas eu acho que dá para pensar, pô, dá para criar aqui algum material bem legal, até mais interativo, sobre Ibn Battuta e demonstrando vários elementos interessantes, desde uma crítica documental mais simples até a percepção desse mundo global muçulmano, ou até para falar sobre a era de ouro do Islã, né, um termo que a gente discutiu bastante em outro episódio, mas que eu acho que vale aqui também, assim, esse momento que o Islã parece aos olhos da historiografia como uma religião que tá motivando estruturas políticas e movimento e comércio.
Então eu acho que essas são algumas das formas que dá para pensar. Dá para pensar em jogos, jogos, em elementos interativos, né, em recursos didáticos. Mas no nível temático, eu diria uma história mais global, uma história mais integrada, uma história mais interessante do chamado mundo medieval pelos olhos não só de um muçulmano, mas de um muçulmano viajante. Eu acho que tem muita riqueza que dá para ser tirada daí.
E para terminar, 3 livros sobre o tema, ou melhor dizendo, 2 livros sobre o tema mais o relato do Imbi Batuta, né. No caso, imagino que ele tenha sido traduzido para português, então eu queria saber qual Qual é o título dele? Como é que o pessoal encontra? Se, né, quem ouviu o episódio quer ler, vai procurar no Google, o que que eles têm que escrever para aparecer?
Pois então, aí tem uma questão curiosa, porque apesar de ser uma fonte super importante e um autor super importante, a gente não tem uma tradução direta para o português. O que que pode ser feito? Ou pelo menos não que eu saiba. De repente, se algum ouvinte que conhece bem Ibn Battuta teve acesso, né, mas eu procurei e eu não, eu não, não encontrei, né? Mas o que nós temos é uma tradução famosa para o espanhol chamada A Través del Islam.
É uma tradução do Serafín Fanjul e do Federico Arbós. É uma edição de 2005, né? Interessante, acessível em espanhol. E há uma tradução em inglês bem clássica feita pelo Gibb, né? Por uma, por um órgão editorial inglês conhecido como Hackluyd Society, em alguns volumes. São 4 ou 5 volumes assim. Então Mas essa é bem grandona, é bem estabelecida. Então eu diria, quem tem interesse consegue encontrar fácil essa edição em inglês e consegue encontrar essa edição em espanhol através da Alislam, né?
Há um livro muito bom de uma pesquisadora que atua aqui no Brasil chamado Quando o Mundo Falava Árabe, que trata um pouco desse mundo muçulmano de Ibn Battuta, mas também de Ibn Khaldun. São dois personagens fundamentais para se entender o século 14 através do Islã, né, para usar aqui o termo que dá título à tradução espanhola da rihla. E queria deixar uma sugestão de leitura também de trabalhos um pouco mais acadêmicos, mas que são desbravadores em termos de pesquisas feitas no Brasil sobre Ibn Battuta.
Então nós temos o André Soares, que fez mestrado na UFPR e que tá fazendo seu doutorado aqui também, que tem uma dissertação já, né, publicada online sobre Ibn Battuta. E a gente também tem o Patrick Madruga, que também fez uma dissertação e agora está fazendo uma tese sobre Ibn Battuta, e sua dissertação também está disponível online. A gente pode deixar a referência disponível, enfim, na descrição desse episódio, né, Iclis? Mas são dois pesquisadores que é legal a gente manter o olho aí para quem tem interesse sobre Ibn Battuta.
Então é isso, gente. Otávio, tem alguma consideração final?
Só queria agradecer muito esse convite, a oportunidade de falar um pouquinho, um pouquinho, talvez um pocão, né? Eu não sei aqui a dimensão que a gente cobriu, mas falar um pouco sobre Ibn Battuta. É um autor fascinante. Eu espero que tenha dado para ter um gostinho assim do que é ler essa fonte e pensar o do mundo islâmico do século 14. Então agradeço bastante a paciência de quem nos ouviu até aqui, e quem sabe até a próxima.
Então é isso, gente, muito obrigado por terem ouvido até o final. Deem uma olhada na descrição do episódio, sempre encontram ali links úteis. Tem um link do meu Instagram também, tem link dos cursos e tudo mais aqui embaixo na descrição. Beleza, então é isso, muito obrigado e até a próxima!
Esse podcast foi editado por Samuel Gambini, samuelgambiniaudio.com.