242 Rússia na Primeira Guerra Mundial: os últimos anos da dinastia Romanov
A participação da Rússia na Primeira Guerra Mundial foi marcada por enormes desafios militares, econômicos e políticos que contribuíram para transformar profundamente o destino do país. Desde os primeiros anos do conflito, o Exército Imperial Russo enfrentou sucessivas derrotas, dificuldades de abastecimento e graves problemas de organização, enquanto o esforço de guerra agravava a crise econômica e aumentava o descontentamento da população. O desgaste provocado pelo conflito alimentou a instabilidade interna que culminou nas Revoluções de 1917, na queda da monarquia dos Romanov, na ascensão dos bolcheviques ao poder e, posteriormente, na assinatura do Tratado de Brest-Litovsk, que retirou a Rússia da guerra. A experiência russa demonstra como um conflito internacional pode acelerar transformações políticas profundas, alterando não apenas o rumo da guerra, mas também a história do século XX. Convidamos Delmo Arguelhes para analisar a atuação da Rússia na Primeira Guerra Mundial, os fatores que levaram ao colapso do regime czarista, a relação entre guerra e revolução e as consequências da saída russa do conflito para o equilíbrio de forças na Europa.
Roteiro: Icles Rodrigues
Edição: Samuel Gambini
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- Primeira Guerra Mundial· InternacionalCrise de julho de 1914 · Assassinato de Sarajevo · Ultimato austro-húngaro à Sérvia · Rede de alianças europeias · Plano Schlieffen/Moltke · Mobilização alemã
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Rússia na Primeira Guerra Mundial, esse é o tema de hoje do História FM. Eu sou Iclis Rodrigues e para falar sobre esse assunto eu convidei mais uma vez aqui conosco o professor Delmar Guedes, a quem eu passo a palavra para se apresentar para vocês. Então, Delmar, seja muito bem-vindo, fica à vontade para se apresentar para o pessoal.
Opa, boa tarde, Iclis, e mais uma vez muito obrigado pelo convite, né? Muito obrigado pelo espaço aqui no História FM. Eu sou historiador por formação, né? Sou doutor em história das ideias e a minha tese de doutorado foi sobre a Grande Guerra de 14 a 18, né? Foi sobre os pilotos de caça da Grande Guerra. E eu tenho estágio, fiz estágio pós-doutoral no Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense, né, onde hoje eu sou pesquisador associado.
E vamos falar aí sobre Rússia, a Grande Guerra. É um tema muito interessante, um tanto quanto esquecido, né, pela historiografia, né.
Não Não estudamos tanto quanto deveríamos a Rússia na Grande Guerra, até porque ela fica como coadjuvante quando o assunto é Revolução Russa, né? E acaba sendo interessante estudar esse assunto até para quem tem essa preferência por esse assunto da Revolução, como o complemento fundamental para entender esse assunto, né? E é isso, esse é o tema de hoje do História FM, e a gente vai entrar nesse assunto logo depois que eu der um recado para vocês.
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Ambos estão aqui embaixo na descrição, tanto o link do Apoia.se quanto a chave Pix. Beleza? Em 1914 começava o maior conflito bélico da história do mundo até então, a Primeira Guerra Mundial. Para começar essa conversa começa, eu queria pedir para você contextualizar a situação do Império Russo às vésperas da Primeira Guerra Mundial, porque a Rússia já vinha de uma derrota humilhante contra o Japão em 1905, tinha passado por uma revolução em 1905, enfrentava tensões sociais enormes, e ainda assim entra numa guerra gigantesca poucos anos depois, né?
Então eu queria pedir para você explicar qual era a situação política, econômica e militar da Rússia no momento em que a guerra começa, né? O que é essa Rússia antes do tiro em Sarajevo?
Ok, vamos lá. E até essa mania que nós historiadores temos, Iclis, né, eu nem vou começar em 1905, né, começar em 1853, Guerra da Crimeia. Essa guerra foi bem interessante e tem um aspecto fundamental aí na geopolítica russa dos 60 anos seguintes, porque a Guerra da Crimeia, né, que foi de um lado Grã-Bretanha, França, Reino da Sardenha, Império Otomano, e de outro lado a Rússia, né, quando inclusive aquela música do Iron Maiden, né, Pô, que tá no Piece of Mind, o The Trooper.
The Trooper.
É, essa aí. É por conta de uma das batalhas, né, inspirado num filme que foi sobre uma das batalhas da Guerra da Crimeia, né, quando mandaram a cavalaria ligeira, né, a cavalaria ligeira atacava a posição de artilharia russa, né, e os canhões russos transformaram os cavalos ingleses em hambúrguer. Mas o resultado foi que a Rússia queria avançar sobre o Império Otomano, O Império Otomano, que havia sido já o grande terror da Europa, né, vamos lembrar a Batalha de Lepanto, né, que foi comemorada como uma das grandes batalhas decisivas da história em 1571, e não foi, né, mas isso aí é assunto para outra conversa, né, só digo que não foi uma batalha decisiva.
O Império Otomano, tão poderoso nos séculos XV, XVI, XVII e início do XVIII, já no século XIX era chamado de o grande doente da Europa, porque já estava em crise e havia aí toda a pressão dos Bálcãs, né, para os povos submetidos aos otomanos pela independência, né. A Grécia conseguiu, a Grécia começou a lutar contra os otomanos pela independência a partir de 1820, né. Lord Byron morreu nessa, nessa guerra de independência da Grécia e conseguiu a independência por volta de 1830 a partir de um concerto europeu.
E depois outros povos começaram a também se livrar do domínio otomano. Então a tentativa russa de avançar sobre os estreitos, que aliás o domínio dos estreitos, né, de Dardanelos e o outro lá, o estreito do outro lado do Mar de Mármara, é para justamente a frota russa do Mar Negro ter acesso ao Mediterrâneo, livre acesso ao Mediterrâneo. Provocou a guerra, foi um grande motor aí da Guerra da Crimeia, e acabou com a derrota russa.
Acabou que justamente os russos perderam o acesso aos estreitos, né, perderam. Inclusive tiveram que abrir mão da frota do Mar Negro, tão duramente construída, a partir do Tratado de Paris. Então, nos 50 anos seguintes, a Rússia tentou desfazer esse Tratado de Paris, né? Porque aí vamos lembrar, né, a velha política europeia das casas dinásticas. Sempre havia aí um, era um grande, um imenso jogo de xadrez, né, onde você só permitia que alguém ganhasse se, mesmo que um país não tivesse interesse direto na questão, o seu país teria que ganhar algo, né?
Assim como, por exemplo, a Itália. A Itália protestou contra anexação da Bósnia-Herzegovina intervindo em 1908 pela Áustria-Hungria, porque a Itália achava que deveria ganhar alguma coisa só porque a Áustria-Hungria estava ganhando também. Então daí a geopolítica russa, com esse problema dos estreitos e do Mar Negro, os russos foram empurrados a tentar ter uma atuação mais decisiva nos Bálcãs. Vamos lembrar também da questão do nacionalismo do século 19, esse grande fantasma liberado aí pela Revolução Francesa, que onde o Império Russo e depois o Império Austro-Húngaro tiveram sérios problemas, né, com a pressão nacional.
O Império Austro-Húngaro mais ainda, tanto que a Santa Aliança, né, a ideia da Santa Aliança era justamente tentar conter esses ventos revolucionários, inclusive do nacionalismo, né. Inclusive aí, após a Guerra da Crimeia, tivemos essa tentativa, e após a unificação alemã, tivemos a tentativa de Bismarck de ressuscitar a Santa Aliança, né, que inclusive havia sido enterrada pela Guerra da Crimeia. É que aí foi a tentativa do Bismarck, que foram duas tentativas, né, em 1873 e 1881, é de criar a Liga dos Três Imperadores, né, os Romanov, os Habsburgos e os Hohenzollern.
E acabou sendo essa aliança também acabou não prosperando por conta da geopolítica. Chegando na Guerra Russo-Japonesa, ou seja, olha só, olha como 1853 é um ano bem interessante, porque ao mesmo tempo que começou a Guerra da Crimeia em 1853, neste mesmo ano os Estados Unidos abriram o mercado japonês a tiro de canhão. Eles foi o lário Roosevelt, a Van La Lettre, né? E aí os japoneses no meio século seguinte se modernizaram profundamente, incluindo ao criar uma marinha extremamente poderosa, né?
A derrota russa, né, em 1905, né, vamos lembrar rapidamente, né, os japoneses atacaram Port Arthur, né, no Extremo Oriente, tomaram outras possessões russas. E aí o que levou a frota russa ter esse— ela foi despachada de Murmansk, né, e demorou meses 7, 8 meses, né, até chegar a Port Arthur. E ao chegar foi derrotada no mesmo dia. É claro que aí os japoneses tinham uma vantagem estratégica gigantesca, né. Não só a demora russa em chegar ajudou os japoneses a se planejarem, a se prepararem, como também— e é claro, né, e vamos abrir aqui mais um parênteses, né— é injusto, né, falar que isso ou aquilo foi fácil, né, porque a gente tá analisando a coisa mais de um século depois, né.
Então sabemos como é que acabou. Mas por outro lado, os russos, só a a frota russa só poderia chegar ao, atingir aonde estava concentrada a frota japonesa apenas por um caminho, né, pelos estreitos de Tsushima. E isso, é claro, facilitou o planejamento japonês, né, para batalha, né. Se, e é claro que o se não existe, ia ser se os russos estivessem, a frota russa tivesse concentrada na Califórnia, por exemplo, aí sim eles teriam vários caminhos.
E aí até inclusive poderiam tentar cercar japoneses pelo norte, pelo sul e pelo centro, mas Mas não foi o caso, né? Então a frota russa foi derrotada no mesmo dia, o que foi para os europeus um choque, né? E aí, é claro, dentro de todo aquele— perdão— dentro de todo aquele europeísmo etnocêntrico racista, né? Como assim, né? Brancos europeus sendo derrotados, né, por não branco? Mas foi uma derrota tremenda, o que levou inclusive o Império Alemão a testar a paciência francesa na Crise de Agadir em 1905, e aí inclusive a Revolução de 1905, né, com esse abalo.
E a Rússia esquematicamente é chamada de país feudal, né, se bem que o termo feudal é problemático, né, ser usado nisso. É claro que há muitas semelhanças aí, mas vamos lembrar, eu sempre quando falo de feudalismo, né, eu lembro de uma assertiva que eu vi num livro, né, uma tremenda bobagem, né, mas felizmente eu esqueci o nome do autor, né, aonde o autor falava que o feudalismo clássico era o francês. Mas é claro, ou seja, a gente só estuda, você só estudava os medievalistas franceses, né?
Então, e ainda assim, quando a gente analisa em detalhe o feudalismo do norte da França para o sul da França, vamos ver diferenças aí tremendas. E o que dirá para o resto da Europa? Mas ainda assim, assim, houve um esquema de servidão na Rússia, né, entre o século 17 e o século 19. E a abolição da servidão em 1861 não apagou, né, esses problemas, né? As modernizações na Rússia sempre foram autoritárias até hoje. A Rússia, né, sempre o pessoal lê: ah, por que o governante russo é sempre autoritário, não é democrático?
E aí você conta isso, a gente pode colocar aí desde o czar Ivan até hoje o presidente Putin, né? Temos esse autoritarismo russo premente. Mas tem uma explicação do Slavoj Žižek que é bem interessante, né? Que ele pede para pensar nos Irmãos Karamazov, do Dostoiévski. Como é que você pode governar pessoas assim com democracia? É impossível, né? Então, na velha Rússia, tem que existir a mão pesada do Estado para obrigar seres selvagens, né, como os Karamazov, a andar na linha.
Então, a Revolução de 1905, ela se espalha pela Rússia, mas acaba, acabou sendo derrotada, né? Que até temos um detalhe interessante aí, né, da, que é o famoso encouraçado Potemkin, né, que eternizado aí pelo maravilhoso filme do Sergei Eisenstein, que inclusive inclusive, até depois, isso até merecia um episódio, não comigo, mas com alguém que tenha se debruçado mais, né? Merecia até o episódio entre as ligações da Revolta da Chibata com a revolta do encouraçado Potemkin, né?
Que os marinheiros brasileiros que foram para Inglaterra para aprender a usar o encouraçado, né, eles tiveram notícias, né, tiveram contato aí com as notícias da revolta do encouraçado russo. Mas então, a Revolução de 1905 foi derrotada e a coisa fica em suspenso, fica em suspenso como assim? Você mantém todo o grau de autoritarismo na Rússia, toda recusa, né, a ceder aqui ou ali. É, o Nicolau II, ele só recebeu um único conselho de governo do pai dele, né, porque o pai dele só considerava só depois dos 30 anos Nicolau II estaria pronto para aprender a governar.
Infelizmente, o pai dele morreu no atentado, né, para ele. E aí, na verdade, Nicolau II só ganhou um único conselho de governo do pai, que era: pense sempre na Índia, mas jamais a mencione. Que se olharmos bem, é quase um curso inteiro de ciência política. Política, né? A Rússia então, no século 20, né, nos primórdios do século 20, após pacificar, né, pela força das armas, né, com a paz nos cemitérios, a situação interna que continua em ebulição, mas contida, a Rússia continua de olho nos Bálcãs, né?
Então a já citada Áustria-Hungria, né, por conta da guerra russo-turca de 1878, onde os russos tentaram conquistar de novo a Constantinopla e não conseguiram, para Áustria-Hungria eles conseguiram conseguiram no Tratado Acertado em 1878, conseguiram a posse, né, da Bósnia-Herzegovina, ou pelo menos a garantia de posse que eles exerceram, e eles anexaram formalmente em 1908. E aí que eu até citei, né, os italianos protestaram veementemente porque eles acharam que deveriam ganhar alguma coisa também com isso.
Os russos tentando usar aí, jogar o jogo perigoso nacionalismo, né. Vamos lembrar, sei que a Rússia é um império multiétnico. Inclusive a gente lê aí em Benedict Anderson que no século 19 também a Rússia passou por um processo de russificação, com também problemas gigantescos. Mas fora das fronteiras eles tentaram jogar esse jogo, apoiando, né, tentando se tornar os defensores, os campeões da causa eslava. E a Sérvia, claro, foi a que mais reclamou da anexação da Bósnia-Herzegovina, né.
Vamos lembrar que os sérvios tinham um projeto de Grande Sérvia, e esse projeto de Grande Sérvia ele implicava necessariamente em avançar dos domínios Habsburgo. E daí temos todo esse jogo perigoso que vai desembocar na Grande Guerra de 14 a 18, porque aí a historiografia ocidental, para historiografia ocidental só foi interessante a Frente Ocidental, né, só os massacres gigantescos nas trincheiras entre alemães, franceses e ingleses, aí com os belgas no meio.
Mas, e a historiografia inglesa até hoje crava que, ou seja, a causa da Primeira, da Grande Guerra de 14 a 18 foi o militarismo alemão. Bom, né, Isso inclusive tá lá no Tratado de Versalhes. No entanto, se a gente pegar bem, né, em 1914 a Alemanha apenas deu garantias para a Áustria-Hungria para uma guerra localizada contra a Sérvia, né, e a coisa acabou saindo de controle, né. Você quer, aí quando a gente pensa no jogo das grandes potências, sempre quando uma ou mais grandes potências não querem, a guerra não acontece.
Então, em 1905, né, na Crise de Agadir, já citada aqui agora há pouco, o Kaiser alemão tentou testar os franceses, já que os russos tinham passado pela derrota humilhante contra o Japão. E quem não deixou ocorrer uma guerra foi a Inglaterra. A Inglaterra entrou no meio como turma do deixadiço. Já em 1914 não teve turma do deixadiço. Inclusive, quando a gente pega aquele livro excelente do Christopher Clark, O Sonambulismo, né, isso aí para mim é a melhor obra, né, até agora, que discute a eclosão da guerra de 1914, 14, o Clark vai mostrar muito bem que o irredentismo sérvio agiu com carta branca vindo da Rússia e vindo da França.
Inclusive, a França financiou o reequipamento do exército sérvio, né? O exército sérvio tinha sérios problemas, mas após duas guerras balcânicas, em 1912 e 1913, o exército sérvio saiu fortalecido, né? Ampliou, triplicou o território, né? E querendo mais. Então daí o irredentismo sérvio, ele conduz, né, ajuda a conduzir, né. Sempre lembrando aqui para os nossos ouvintes, né, que história jamais será conjunto de causas e consequências, né.
Isso não existe, não é nem que não exista na história, né, não existe na experiência humana, né. Ou seja, causas e consequências servem para reações químicas, né, e não para eventos humanos. E daí tivemos a crise de julho de 1914, né, que começou em junho, 28 de junho, com os assassinatos de Sarajevo, que até é interessante como Christopher Clark, ele chama atenção pra isso, né? Não é o assassinato do Arquiduque, é o assassinato de Sarajevo.
Você nomeia pela cidade, né? Seria como falar do assassinato de Kennedy como o assassinato em Dallas, né? Então a própria nomeação do evento é um sintoma marcante. Que também, vamos lembrar, né, que ninguém gostava do Arquiduque. O Arquiduque não era querido por muita gente. Franz Ferdinand, ele teve as équias de ter terceira categoria em Viena, né? O império sequer decretou luto oficial de 3 dias. E só, ou seja, e um dos motivos é que ele não tinha se casado com uma mulher nobre o suficiente, né, a Sofia, apesar dela ser de uma antiquíssima família nobre da Eslováquia.
Mas se os austríacos, né, se os austro-húngaros não choraram pela morte do arquiduque, eles decidiram que essa afronta não poderia ficar, não poderia ficar impune. E daí decidem montar uma expedição punitiva contra a E aí que, você, França e Rússia se movimentam nessa, então, nas investigações austro-húngaras, que eles, é claro, atropelaram o processo, sim, né, mas quase que foi a conclusão por convicção. Mas as ligações do governo sérvico com Mão Negra são bem conhecidas hoje, né.
Na verdade, o Mão Negra, ele tava espalhado por todo, por todo o governo sérvio, né, que aí o Apis, né, um dos grandes nomes aí do Mão Negra, ele só foi punido pelos adversários dele Depois que a guerra começou, né, então foi muito mais uma vingança de inimigos políticos do que, do que uma tentativa de justiça. E aí, de qualquer forma, os sérvios decidiram mandar um ultimato a Belgrado, ultimato feito para não ser aceito, né, apesar dele não ter sido tão pesado quanto o ultimato que a OTAN mandou à Sérvia em 1999.
Mas é claro, isso aí é só para efeito de comparação, né, não havia como eles compararem na época, né, obviamente. E França e Rússia apoiaram a Sérvia firmemente, né. França e Rússia afirmaram que não havia nenhum elemento, né, que comprovasse a culpa do governo sérvio no atentado de Sarajevo. E aí também um grande, um ponto que devemos chamar atenção, né: França e Rússia não tinham como alvo principal a Áustria-Hungria. França e Rússia tinham como alvo principal a Alemanha, né.
Vamos lembrar, né, a rede de alianças, né, construídas antes de 1914. Bismarck soube colocar a Rússia até 1890, a Rússia separada de uma, imune, né, a uma tentativa de aliança com a França, né, com o Tratado do Resseguro, que basicamente era— Bismarck construiu isso para deixar a Alemanha em paz, né. Então, Tratado de Resseguro inclusive evitava, ajudava a evitar choques entre a Rússia e a Áustria-Hungria. No entanto, após a queda de Bismarck, né, após a saída de Bismarck da política alemã, não só o Kaiser, mas também os altos funcionários alemães achavam que a política de Bismarck ela era extremamente extremamente prejudicial.
Ela não deixava a Alemanha se movimentar, né? É daí que vem os alemães, vem com a sua Weltpolitik, né, sua política mundial. Que que seria essa Weltpolitik, né? Se ninguém nunca soube explicar, né? Que inclusive a gente nem pode falar que era uma política agressiva ao extremo, né? Se a gente comparar bem, o avanço colonial que os alemães fizeram foi muito mais modesto do que o avanço colonial estadunidense no mesmo período, na última do século 19.
Então, de novo, Christopher Clark, ele fala que a Weltpolitik era apenas uma política, um título mais tronitruante, né, mais impressionante, com uma marinha maior e uma música ameaçadora de fundo, mas nada além disso. Mas aí França e Rússia miram na Alemanha, que aí depois temos a Tríplice Aliança, né, a Entente, perdão, né, França, a Entente Cordial, França e Rússia, e depois a Inglaterra se agrega a isso, e a Tríplice Aliança, Alemanha, Áustria, Hungria e Itália.
É, a Itália se retira, né, denuncia o tratado meses antes da guerra e depois, no ano seguinte, entra do lado da Entente. Que até, sei, isso não foi prejuízo nenhum para Alemanha, né? É muito melhor ter os italianos contra você do que como seus aliados, né? Como duas guerras mundiais demonstraram, né? Então, mas isso também é assunto para outro podcast. Então aí, quando o ultimato austríaco foi enviado à Sérvia, o presidente francês Poincaré, ele estava em São São Petersburgo, na época era São Petersburgo, né, inclusive com o embaixador francês para São Petersburgo, Maurice Paleologue, que foi indicado pelo ministro das Relações Exteriores francês, Théophile Delcassé.
E Paleologue foi colega de infância do Poincaré. Que que é interessante nesses três? Ambos os três, né, para usar aqui uma fórmula homérica, né, isso tá no canto 9 da Ilíada, né, ambos os três, ambos os três eram antigermânicos, né, eles queriam mesmo, né, uma ação decisiva contra a Alemanha. E aí Poincaré e Paleologue deram corda para os russos, eles deram firme apoio para os russos. Inclusive, na hora de entregar ultimato, né, os austríacos tentarem entregar ultimato em Belgrado só depois que Poincaré voltasse para França, né, para ter alguns dias de vantagem, mas não adiantou nada que Paleologue tinha, conforme nos conta Marc Ferrot, né, no seu História da Primeira Guerra Mundial, Paleologue tinha carta branca de Poincaré para apoiar os russos no caso certo.
E daí o ultimato austro-húngaro foi feito para não ser, para não ser aceito de qualquer forma, né? E 2 dias, 48 horas depois, o ultimato foi entregue 23 de julho. 25 de julho, quando vem a resposta sérvia, né, de não aceitar o 6º ponto do ultimato, né, que entrega toda administração pública sérvia nas mãos dos austro-húngaros, os russos decidem, primeiro começa a se discutir uma mobilização parcial contra a Áustria-Hungria. E aí, na reunião de gabinete, eles chegaram à conclusão que mobilização parcial seria péssima ideia, que era melhor mesmo fazer mobilização total.
E aí que a coisa vem, a partir de 25 de julho, a coisa, os acontecimentos vão se suceder, né? França e Grã-Bretanha também na sequência se mobilizam contra a Alemanha, e o Kaiser alemão, do dia 30 para o dia 31, ele vem com uma declaração das mais dramáticas. Eu adoro essa declaração, né? Declara o Kriegsgefährdungszustand, que traduz-se como estado iminente de perigo de guerra. É claro, ele fez isso depois de cobrar explicações de São Petersburgo, Paris e Londres, não receber nenhuma.
Então a Alemanha se mobiliza para aplicar aquilo que o pessoal gosta de chamar de Plano Schlieffen, né, mas na verdade foi Plano Moltke. Mas também esse assunto para outro podcast. E aí, no dia 1º de agosto, a Alemanha se mobiliza totalmente, né, seus muito exército. E no dia 4 de agosto, a Alemanha invadiu a Bélgica e Luxemburgo, que aí sim, né, que não tinham nada a ver com a história, né. Aí, a Bélgica, quem mandou, né, a Bélgica ter um país no caminho dos exércitos alemães, né.
Então a Bélgica foi imprudente, né, geograficamente. Então aí, e aí começou a Grande Guerra.
100 anos atrás, na 11ª hora do 11º dia do 11º primeiro mês, a Primeira Guerra Mundial chegava ao fim com a assinatura de um armistício entre a Alemanha e os aliados ocidentais. Após 4 anos de luta e no mínimo 16 milhões de mortes, o mundo seria um lugar bem diferente.
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Começa, a Rússia ela rapidamente invade territórios alemães e austro-húngaros. E aí eu queria entender melhor como é que foram essas primeiras ofensivas russas em 1914, especialmente na Prússia Oriental e na Galícia, né? E por que os resultados foram tão diferentes nesses dois frontes?
É bom, quando a gente fala da ofensiva russa, né, quando fala aí da região de fronteira, né, tripla fronteira, né, mas essa região de fronteira entre Império Alemão, Império Austro-Húngaro, Império Russo, no meio desses três impérios havia Polônia, quer dizer, havia os poloneses, né? A Polônia havia deixado de existir no século 18 e só voltou a existir novamente enquanto estado independente só a partir de 1919, só após o final da Grande Guerra.
Mas os poloneses sempre fizeram a sua presença se sentir, né? Até a gente falou isso no episódio sobre Clausewitz, né? Em 1830 e 1848, os poloneses se revoltaram, e aí tivemos o seguinte, né, a ofensiva russa em agosto de 1914, né, vamos lembrar que o Plano Schlieffen ele calculava isso e depois Moltke, isso é claro, tava também nos cálculos de Moltke. A ideia alemã era impor uma derrota rápida, né, à França, não sei, em 6 semanas, de modo, porque segundo os cálculos, né, do Estado-Maior alemão, os russos demorariam 6 semanas a mais do que os alemães para se mobilizar completamente, colocar o exército em luta.
Isso aí é aquela coisa assim, a gente planeja, planeja, planeja, planeja, e a realidade sempre vai nos decepcionar. Quer dizer, às vezes a realidade sempre vai nos surpreender, né? Às vezes temos boas surpresas aí, né? Mas a realidade sempre nos surpreende. Então os alemães mobilizaram 8 exércitos, cada exército com 200 mil homens em média. Cada exército tinha 2 corpos, né? Cada corpo uns 100 mil soldados. Os alemães mobilizaram 1 milhão e 600 mil homens, não sei, 1 milhão e 400 mil no Ocidente, mais 200 mil no Oriente, em 8 exércitos.
Então 7 exércitos ficaram na Frente Ocidental e o 8º na Prússia Oriental, né, que é justamente o 8º Exército Alemão, foi comandado pelo Max von Prittwitz, aquele gorducho inútil, né, de acordo com a Barbara Tuchman. Que aí, o Canhões de Agosto, né, a gente tem que falar dele nesse ponto, né, que é uma obra assim, é uma obra de uma leitura apaixonante, né. A primeira vez que eu li o Canhões de Agosto, eu li numa tacada só praticamente, né, só parava de ler quando gritavam comigo para eu almoçar ou jantar, né.
Mas Barbara Tuchman tinha um problema gigantesco, tem gigantesco nessa obra. Não citou fonte nenhuma, né? Então, de onde ela tirava essas informações? É boa pergunta. Então, por isso, quando for algo da Bárbara Tuchman, a gente tem que indicar que é dela, né? Que aí, se não foi verdade, a culpa não é minha. Então, o 8º Exército Alemão, comandado por Prittwitz, e os russos, para esmagar o 8º Exército, mandaram 2 exércitos. É o primeiro do Pavel Hennenkamp e o 2º Exército, o Alexander Samsonov.
Sem falar outros 3, 4 exércitos contra a Galícia. Ou seja, então, 2 exércitos russos contra os alemães na Prússia Oriental e e mais uns 5 exércitos russos contra, 4 ou 5 exércitos russos contra a Galícia. O resultado na Prússia Oriental poderia ter sido bem diferente, é sempre, tudo poderia ter sido bem diferente, né? Prittwitz era, não, ele não estava talhado para o comando, né? Então o primeiro choque entre o 8º Exército Alemão com o 1º Exército Russo resultou numa vitória tática russa em Gubenen.
Esses alemães foram repelidos em 20 de agosto, né, de 14, os alemães foram repelidos, mas o Exército Russo ficou imobilizado e Pritvitse, né, o gordo amarelão, de acordo com a Bárbara Tuchman, ele deu um surto, falou que ia recuar até Berlim, que a coisa tava tudo perdido, e teve um ataque histérico, né. Então ele foi substituído em 22 de agosto, ou seja, 2 dias depois, né, desse ataque histérico dele, ele foi substituído por Paul von Hindenburg como comandante do 8º Exército e seu famoso chefe de Estado-Maior, Erich Ludendorff.
E aí Hindenburg Tannenberg e Ludendorff conseguiram consertar a situação, né, que culminou na Batalha de Tannenberg. E é interessante, aí de novo, né, Barbara Tuchman. Segundo Barbara Tuchman, o principal motor de Tannenberg, da vitória da Alemanha em Tannenberg, foi porque Hennenkampf e Sanzonov, eles trocavam mensagens de rádio sem usar código secreto. Ou seja, você tá onde? Eu tô aqui. Você? Ah, eu tô aqui, local tal. Você tá indo para onde?
Ou seja, você faz isso pelo rádio sem, pô, não usar, não usou nem a língua do P para dificultar um pouco. Ou seja, os alemães estavam ouvindo tudo, né? Inclusive, ainda de acordo com Barbara Tuchman, quando Hindenburg recebeu essas transcrições, ele ficou ofendidíssimo. Hindenburg e Ludendorff ficaram ofendidos, que falaram, pô, os russos acham que nós somos imbecis, isso só pode ser uma armadilha. E depois eles viram que não, né?
Não era armadilha, era é um ato de, para ser gentil, ingenuidade extremada. Então, a partir disso, o 8º Exército alemão conseguiu fazer marcha forçada, dizimou o 2º Exército russo, e com outra marcha forçada cercou o 1º Exército do Hennenkampf, chegou por trás e também pela retaguarda e liquidou o 1º Exército. Essa foi a vitória em Tannenberg. Inclusive, ou seja, foi tão acachapante que no dia 29 de agosto ele se matou, Sanzanov, é o comandante do 2º Exército russo, né, com toda essa, com toda essa derrota terrível, né?
Ou seja, em vez dos dois exércitos esmagarem, eles deixaram que o primeiro exército, o 8º Exército Alemão, se movimentasse e os derrotasse. Então, em Tannenberg foi um desastre contra o exército alemão. Já contra os austro-húngaros, a coisa foi bem diferente. Porque vamos lembrar o seguinte, né? O exército alemão era muito bem organizado, né? Vamos até lembrar aquela frase da época da Revolução Francesa, do Mirabeau, né? Vários estados têm exércitos, né?
E o exército alemão é o único que possui um estado, né, o exército prussiano, né, melhor dizendo, né, foi Mirabeau que disse isso. E no caso, não sei como a Prússia unificou a Alemanha sob seu comando, isso manteve-se. Já o exército russo e o austro-húngaro passavam por sérios problemas, burocracia, corrupção. Você pega o exército russo, o comando, o ministro da Guerra russo, Shchukomilov, aí de novo, né, de acordo com Bárbara Tuchman, o cara era corrupto, burro, mau caráter e corno.
Essa era, que inclusive ela cita lá que teve um espião alemão que ele conseguia informações privilegiadas porque ele era amante da esposa do Shchukomilov. E quando ele foi preso porque era espião, foi a pedido dela que o Shchukomilov mandou soltá-lo, né? Tanto que em 1915, né, o conjunto da obra levou ao banco dos réus, né? E se eu me lembro bem, foi pena de morte, né? Aí nesse caso, sou contra a pena de morte, mas nesse caso eu quase que concordo.
E também, ou seja, a renda, a fortuna pessoal dele cresceu vezes mais do que o salário dele como ministro da guerra, né, de acordo com Barbara Tuchman, e se orgulhava que havia mais de um quarto de século que ele não lia livro algum, e por aí vai. Então, e o exército austro-húngaro também tinha seríssimos problemas, né. Então, na Galícia tivemos aí vitórias austríacas contra os russos, né, em Krasny Komarov, e depois os russos vencendo os austríacos em Lemberg, né.
Então, mas chegou um dado momento, em setembro já de 1914, que os húngaros tiveram que bater em retirada da Galícia, né, diante da pressão russa. Então vejam bem, a frente oriental na Grande Guerra é muito mais divertida, né, do que a frente ocidental, né. A frente ocidental você teve o grande avanço em agosto, depois Batalha do Marne, depois corrida para o mar, e depois foi imobilismo até a Nova Guerra de Movimento em 1918, né.
Já, já a frente oriental, em boa parte dos casos, tivemos várias reviravoltas, né. E nesse meio tempo, né, ficou dolorosamente claro para os alemães que os austro-húngaros não conseguiriam, eles já sabiam disso, né, mas aí ficou comprovado empiricamente, eles não conseguiriam lidar com os russos sozinhos, né. Então os alemães acabaram tirando várias divisões da frente ocidental, formaram o 9º Exército e mandaram para Galícia. Nesse meio tempo também o exército austro-húngaro invadiu e recuou de Belgrado 3 vezes.
Os sérvios, apesar do seu exército bem menor do que o austro-húngaro, conseguiram lutar de uma forma bem eficiente contra os austro-húngaros. E aí tiveram temos, principalmente aí na Galícia. A ação russa contra a Áustria-Hungria vai se dar na Galícia e abaixo da Galícia, nos Montes Cárpatos, né. E também é bom notar, né, a Rússia contra o Império Otomano, né. Seu Império Otomano que acaba sendo envolvido na guerra logo em agosto de 14, né, com os episódios dos cruzadores alemães, é o Goeben e o— mas tá, o outro ele passou, né, para o controle, os alemães venderam esses dois cruzadores para os otomanos, e aí os otomanos acabam se envolvendo na guerra também, né?
Mas coisa que não precisamos citar aqui. E aí os otomanos vão se ver diante das investidas russas, britânicas e francesas, né? Inclusive aí no meio, essa é na frente entre Rússia e Império Otomano, estava Armênia, né? Os armênios vão sofrer horrores, né? Não só pelo genocídio praticado pelos otomanos, como também pelos avanços e recuos russos. Então nessa frente do Cáucaso, né, os russos vão, e depois de alguns reveses, eles vão conseguir avançar decididamente até 1916, né?
Em 1916 que o exército russo vai sofrer um revés que a gente vai falar daqui a pouco, né? Porque também vamos lembrar, ou seja, o exército otomano não era muito melhor do que, muito melhor e mais bem organizado que o exército russo e o exército austro-húngaro, né? Então, se você me permite uma metáfora tosca, né, era quase como assistir um jogo de futebol da 5ª divisão, aquele jogo duro de assistir.
Quando a gente fala em Rússia, muita gente pensa logo no inverno russo, né? Naquela ideia de General Inverno que, ah, derrotou Napoleão. E às vezes vem até com umas ideias meio sem sentido falando tipo, ah, o inverno derrotou Hitler. Mas é fato que o inverno às vezes incomoda bastante e a gente tá passando por ele agora no Brasil. Não sei vocês, mas eu tô passando o inverno com a Insider, com as tech shirts da Insider inclusive, porque elas evaporam o suor mais rápido.
E aí às vezes acontece de a minha casa tá um pouco mais frio do que na rua quando tem sol, aí eu boto um casaco muito pesado, chego na rua e não tá tão frio quanto eu esperava. Então ter uma roupa por baixo que te dá conforto térmico ajuda a lidar com esse tipo de situação, né? E inclusive eu tô gravando isso aqui usando uma tech shirt manga longa por baixo do meu casaco velho de lã. Então eu tô passando por essa situação de regulação agora enquanto eu tô gravando isso aqui.
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Eu queria entender como é que funcionava o esforço de guerra russo, quais eram os problemas logísticos do império e por que que o exército frequentemente sofria com falta de armas, munição, transporte e até suprimentos básicos.
É, a resiliência russa é um caso bem interessante. A gente vê na invasão napoleônica, a Batalha de Borodino, né, isso foi um marco tremendo, né, que aí inclusive no Ocidente aí vem a cascata, os russos que os russos só sabem vencer graças ao General Inverno, né, o que é uma injustiça, é claro que você vai usar a geografia do seu país a seu favor. Olha aí, né, isso aí é uma coisa óbvia, né? Por que não usar, né? Mas é uma inverdade gigantesca falar que os russos só dependem da, só dependem do General Inverno para vencer, né?
Vamos lembrar a Batalha de Kursk em 1940, verão de 1943, pô, não teve, era o verão, e os russos esmagaram as melhores divisões blindadas alemãs estavam em Kursk e elas foram esmagadas pelos russos, né? Mas ainda assim, você tem esses gravíssimos problemas, né? Então, de novo, Shchun Komilov, pela Barbara Tuchman, havia problemas gigantescos de corrupção e organização, etc. Havia poucas fábricas russas de armamento. Resultado: os russos precisavam de, em 1914, 1915, em média, os russos precisavam de 200 mil fuzis novos por mês, mas conseguiam produzir no máximo 70 mil.
E as fábricas de munição não davam conta desses poucos fuzis que tinham, né? Então muitos soldados russos na Grande Guerra tiveram que apelar para— você tinha que esperar para algum soldado inimigo morreu, então até mesmo companheiro morrer para pegar o fuzil do morto, né? Então você tinha esse problema gigantesco. E a resiliência— agora o interessante é a resiliência russa, né, que eu comecei a falar e acabei mudando para o problema da corrupção no exército— que os russos vão sempre conseguir mobilizar mais muitos soldados, né?
O tamanho da população russa era sempre uma vantagem estratégica, né, em ambas as guerras mundiais, né. Ou seja, que aí a gente pode comparar também com a Segunda Guerra Mundial, quando chegou a Batalha de Stalingrado, né, no final de 1942, quando o Alto Comando alemão viu o tamanho, né, de perdas humanas do exército russo, eles pensaram, não, agora acabou, agora eles não têm mais reservas, né. Ou então até mesmo quando chegou a Batalha de Moscou, no ano anterior, né, os alemães apostavam, não, acabou as reservas, acabaram as reservas russas, agora é só, como Hitler tinha dito, né, só chutar a porta do, a porta e o prédio inteiro vai desabar, né.
Mas não, né, o Zhukov teve a sorte, o privilégio, né, a vantagem gigantesca de contar com 40 divisões siberianas, né, em outubro de 41. Então os russos vão mobilizar soldados adoidados. Agora, o problema era justamente que você tinha que armá-los, tinha que treiná-los, tinha que equipá-los, conhecer. E aí você vai ter essas deficiências russas, elas só vão se tornar muito mais agudas durante a guerra. Então em Petrogrado, que aí com o início da guerra São Petersburgo, o nome alemão, deu lugar a um nome russo, né, Petrogrado, que até eu prefiro mesmo, né.
E eu tenho essa mania sempre de, mania de velho, né, de chamar a cidade de Petrogrado e pronto, né. Enfim, em Petrogrado uma rede de mulheres se organizou para cuidar dos feridos da linha de frente, porque os soldados feridos eles estavam entregues Deus dará, né? Ou seja, pô, reza aí, né? Reza aí que Deus te cura, meu filho. Então você tem um problema gigantesco, né? Ou seja, o Estado tem que prover, né? Todo— já se passou o tempo, né, da Grécia Antiga, onde o hoplita grego ia para o campo de batalha e ele mesmo se bastava, né?
Ele mesmo se armava, ele se equipava, ele mesmo treinava, né? E ele se sustentava a partir do campo de batalha. A guerra moderna não permite isso, né? Então como é que você entra numa guerra generalizada com os alemães. E como você falou bem, né, uma frente muito ampla, né, vamos ter em mente aqui o mapa da Europa, né, da Lituânia até os Cárpatos, os russos estavam em guerra contra a Alemanha e contra a Áustria-Hungria. E ainda, é claro, havia a frente contra os turcos.
Os russos mandaram soldados para lutar ao lado dos sérvios, né, e dos romenos mais para frente, né, que a gente vai falar daqui a pouco. Para você manter um amplo raio desses, mesmo se não dessas outras frentes, mesmo se fosse ali só da Lituânia aos Cárpatos, ainda assim é uma frente gigantesca com problemas específicos de cada lugar que a logística russa não dava conta, né? Então, quando o grão-duque Nicolás assumiu o comando do exército após o afastamento do Shchukomilov, segundo a Barbara Tuchman de novo, a primeira reunião dele com com os generais foi: senhores, por favor, nada de roubos a partir de agora, coisa séria.
Isso dá uma medida, né, dessa anedota, né, vamos considerar uma anedota, isso dá uma ideia da medida do problema. Então daí às vezes o exército russo conseguia avançar sobre a linha austro-húngara e os austro-húngaros tinham que recuar, e contra os alemães, os alemães eram mais organizados, né. E aí entramos em 1915, que veja bem, né, isso é tudo aí até agora em 1914. Então, enquanto a Frente Ocidental tava paralisada, em janeiro de 1915, os alemães usaram pela primeira vez gás venenoso em batalha, que era o brometo de xilila, né, que é um gás lacrimogêneo, mas só que bem diferente, né, dos outros gases letais, né, do sarim, do fogênio.
Fogênio é uma coisa horrorosa, né, mas só que esse ataque com brometo de xilila não deu certo em janeiro de 1915 porque tava nevando, o gás congelou e não atingiu ninguém. E na verdade, o gás em todas as frentes da guerra, o gás, os gases venenosos não trouxeram vantagem alguma para nenhum dos lados, né? Só aumentou a miséria do soldado no campo de batalha. Aí depois, aí no início de 1915, tivemos muito mais mortes de alemães, austro-húngaros e russos de frio nos Cárpatos.
E depois que o tempo melhorou, né, a partir de maio de 1915, aí alemães e austro-húngaros conseguiram fazer um avanço coordenado, né? Porque aí de novo vamos pensar no mapa, né? Tínhamos um grande saliente russo ali no que seria o sul da Polônia hoje, né? Então Prússia Oriental em cima, Galícia embaixo e os Montes Cárpatos e um saliente polonês. Então de maio a setembro de 1915, esse esforço coordenado das potências centrais conseguiu empurrar os russos para trás e os alemães inclusive entraram na Lituânia, mais ao norte, e conquistaram todo esse saliente polonês, né, inclusive ultrapassando Brecht-Litovski, né, que daqui a pouco vamos falar ainda mais de Brecht-Litovski.
Em outubro, novembro de 1915, temos um outro personagem interessantíssimo aí, que é o Marechal de Campo August von Mackensen, alemão, né, que ele morreu em 1944. Ele, as fotos dele é famoso que ele sempre gostava de usar o chapéu, é um chapéu, ah, não sei a diferença de um chapéu para um gorro, nem, mas era o chapéu dos russardos, né, todo de a pele com a caveira. Mackensen, ele juntando aí, organizando depois o que seria o 11º Exército Alemão, inclusive agregando divisões austro-húngaras, né, ele avançou contra a Sérvia e aí manteve os sérvios na defensiva.
E enquanto isso, né, a gente vai falar mais para frente, mas só lembrando aqui, só para não dizer que não falei de flores, né, o camarada Vladimir Lenin estava na Suíça, né, amargando um garganta em um exílio, né, e lendo, escrevendo muito, inclusive lendo Clausewitz.
Outra questão importante é que a Rússia não lutava só contra a Alemanha, né. Grande parte da Guerra no Leste envolvia também o confronto contra o Império Austro-Húngaro, e a Rússia eventualmente vai lutar contra o Império Otomano, né. Então eu queria pedir para você explicar como é que funcionavam esses diferentes frontes para a Rússia, né, e os principais objetivos estratégicos do Império em cada um deles.
O caso, a Rússia tinha 3 objetivos estratégicos diferentes, né, para cada um desses adversários. No caso alemão, era chegar até Berlim e eliminar a Alemanha, junto com dar uma— que era esse também era o objetivo da França, né, você acabar com uma Alemanha unificada que ameaçava inclusive a hegemonia francesa no continente, né. Então seria ajudar a despedaçar a Alemanha e dividir seus despojos. No Império, em relação ao Império Austro-Húngaro, né, a ideia era justamente reforçar seus satélites, os satélites russos, né, principalmente a Sérvia, né, avançando aí contra, contra o Império Austro-Húngaro, né, que era o Império Austro-Húngaro, tinha 17 nacionalidades diferentes, né, sobre o seu comando, né, 11 delas oficiais.
E contra o Império Otomano, bem, os russos estavam doidos também para adquirir os estreitos, né, de Dardanelos e do Bósforo. Aí eu tava tentando lembrar no início, pronto, lembrei. Dardanelos e Bósforo e o Mar de Mármara, né, que esses estreitos garantiam a passagem do Mar Negro para o Mar Egeu.
E tivemos bem recentemente um episódio sobre estreitos famosos do mundo e a importância deles. Esses treitos estão lá, então quem não ouviu aproveita e ouve lá, ouça que vale a pena.
Então os russos tinham todas essas ideias. É claro que isso também, isso, os grandes objetivos estratégicos russos não eram plenamente aceitos, né, pelos seus aliados. Mas é claro, ou seja, a gente tá em guerra, vamos ver o que que acontece depois. A gente sempre quer um avanço russo sobre os estreitos, né, de Dardanelos, aí o Mar de Mármara e o do Bósforo. Um avanço sobre Anatólia poderia prejudicar posição inglesa na Índia, né?
Daí aquela frase, né, que é a única lição de ciência política que o Nicolau II teve do pai, né? Pense sempre na Índia, mas jamais a mencione. Então os ingleses também estavam de olho nisso, né? E aí inclusive vamos ter nesse meio tempo a revolta árabe contra os otomanos, é que naquele, no livro do T.E. Lawrence, e no filme mais ainda, né, o papel do Lawrence da Arábia foi exagerado de uma forma gigantesca, né? Ou seja, que no filme os árabes estavam lá parados coçando o saco, tal, esperando a vida passar.
Então o Lawrence chega lá, vamos nos revoltar, tá bom, vamos, né? Não foi assim, né? Mas é claro, né, toda autobiografia, toda biografia e toda autobiografia, né? O livro que temos do Lawrence foi ele mesmo que escreveu, né, Os Sete Pilares da Sabedoria. Toda biografia e autobiografia, elas, a tendência delas é exagerar o papel do biografado nos acontecimentos, né? Então daí a Daí devemos sempre ter esse reparo, né? Quando a gente pensa lá no Pitorotu convencendo o Omar Sharif e o Antony Quinn a se revoltarem contra os otomanos, né?
Mas então a Rússia tem todas. E aí é claro, os ingleses estavam pagando pra ver, ou seja, vamos ganhar a guerra primeiro e depois a gente vê o que faz, né? Mas é claro que esses objetivos estratégicos russos não coincidiam com os objetivos de Londres e de Paris.
Uma campanha muito importante nesse contexto é a ofensiva Brusilov, 1916, que costuma ser considerada uma das ofensivas mais bem-sucedidas da guerra. E aí eu queria pedir para você explicar como Brusilov organizou essa operação, por que que ela foi inicialmente tão eficiente, né, em especial contra os austro-húngaros, mas também por que que ela não conseguiu garantir uma vitória decisiva para os russos na guerra.
Vamos lá, então, se tivemos aí 1914, 1915, idas e vindas, né, avanços e recuos, e como eu falei, Quer dizer, não havia, não havia tédio na frente oriental. Em março, uma nova ofensiva russa na Lituânia, né, a leste de Vilnius. Os russos até conseguiram tomar algum território, mas só que a um custo humano gigantesco. Você morreu, morreram milhares de soldados russos, né, para pouco avanço. Mas também, se a gente comparar com Verdun e o Somme na frente ocidental, também assim, para cada metro de avanço, para qualquer um dos lados, foram dezenas de milhares, né?
Só em Verdun, Verdun, é, foi Verdun, se eu me lembro bem dos números, você, Verdun vitimou 700 mil alemães e 900 mil franco-britânicos, ou seja, 1 milhão e 600 mil soldados. É claro, né, foi de, durou os 4 meses, mas foi uma perda horrorosa de vidas humanas para poucos, para pouco avanço. E aí que temos em 1916, né, em abril, abril não, né, em março de 1916, Alexei Alexeevich Brusilov, o pai dele se chamava Alexei também, né, detalhe que não vai acrescentar em nada para ninguém, né.
Brusilov, nativo da Geórgia, né, nascido em 1853 também, de novo 1853, assumiu o comando do Grupo de Exércitos do Sudeste Russo. Brusilov, né, ele há muito tempo ele reclamava, né, que ele, as ideias dele não eram aceitas pelo alto comando. Mas aí também em 1916 vamos ter várias mudanças no alto comando, né? Inclusive aí em 1916, o czar Nicolau assume o comando do exército russo e deixa a czarina, a czarina, um Google vocês veem qual é o nome dela, deixa a czarina no comando do governo russo enquanto o czar vai assumir o controle do exército.
Alexandra, né? Uma Alexandra, algo assim, não é?
Alexandra, isso, obrigado. E aí, e aí Brusilov consegue, entra nas graças do czar, conseguiu convencer, né? E aí teve início em abril de, que abril? Em junho, né, perdão, em abril ele assumiu o comando do grupo. Em junho, 4 de junho, né, depois de amanhã vai fazer aí 110 anos, né, ele começou a ofensiva Brusilov em ampla frente. Ele vai avançar pela Galícia e pelos Cárpatos, né. A ofensiva Brusilov, deixa eu ver aqui, vai pegar ali uma ampla frente também, que inclusive a ofensiva Brusilov, conforme você falou muito bem, Iclis, ela no início ela teria funcionado às mil maravilhas para os russos, né?
Eles romperam a linha austro-húngara em dois pontos e os austro-húngaros começaram a bater em debandada e Brusilov avançou tremendamente. A coisa ficou tão feia que os alemães e os austro-húngaros tiveram que tirar soldados de outras frentes para mandar para a Galícia, daí para os Cárpatos, para conter a a ofensiva Brusilov. Inclusive, o Alto Comando alemão tirou divisões inteiras de Verdun e mandou para o Oriente para conter a ofensiva Brusilov, que até foi uma sorte, né?
Melhor do que a morte certa em Verdun, né? Ao todo foram 44 divisões que a Alemanha e a Áustria-Hungria tiraram das outras frentes para conter o Brusilov. E aí, inclusive, assim, olha só, a coisa não acaba, né? Enquanto tava rolando, aconteceram ofensiva Brusilov, em 27 de agosto de 1916, a Romênia, que foi atraída para o lado da Entente, invadiu a Transilvânia, né? A Transilvânia na época pertencia ao Império Austro-Húngaro, né?
Fazia parte da Hungria Austro-Húngara. Então aí foi o Mackensen, já citado aqui, ele junta um grande exército do Danúbio, né, com forças alemães austro-húngaras, e ataca a Romênia. Então, ao mesmo tempo que a Romênia invadiu a Transilvânia. O Exército Danúbio, comandado por von Mackensen, e depois ele foi substituído no comando, né, atacou a Romênia. E todo esse Exército Danúbio era uma grande junção de forças alemãs e austro-húngaras.
Ao mesmo tempo, o exército romeno foi apoiado por divisões sérvias e russas, o que foi uma grande, uma grande confusão, né. E ao mesmo, e aí finalmente, ou seja, os romenos invadiram Transilvânia em agosto, 7 de dezembro os romenos se retiraram da Transilvânia totalmente esgotados. 6 de dezembro os soldados alemães invadiram Bucareste. E aí agora em 20 de setembro, né, conforme você tinha perguntado aí, a ofensiva Brusilov chegou ao fim.
E por que que a ofensiva Brusilov chegou ao fim? Depois de todo esse sucesso, até claro temos vários fatores, né, um deles é que os alemães se reorganizaram, tiveram que enviar mais 34 divisões de várias outras frentes para conter Brusilov. E também o exército russo se esgotou. Ou seja, aí, aí com esse esgotamento do exército russo, não só assim ninguém aguentava mais no exército russo, como temos aí um outro fator que é claro, vai, esse fator vai alimentar o esgotamento.
Que aquela coisa, assim, uma guerra vitoriosa você angaria apoio, angaria, o pessoal te segue até a morte. Mas já uma campanha com problemas, aí você, uma derrota já vai fazer o contrário. Então, com o esgotamento da ofensiva Brusilov, e esse alguns autores consideram que aí o exército russo acabou ali na Grande Guerra em 1916 nos Cárpatos, né, que a ofensiva Brusilov foi o último urra, também devemos chamar atenção que desde 1915, 1916, a subversão se espalhava no exército russo, né, ou seja, então principalmente bolcheviques vão panfletar em várias unidades em segredo e vão ter grande recepção e dos soldados, né?
O seu lema paz, terra e pão vai ganhar, vai ganhar ouvidos atentos, por assim dizer.
Em 1914, mais da metade do continente europeu era dominado por 3 impérios multiétnicos sob dinastias históricas: o Império Russo dos Romanov, o Império Austro-Húngaro dos Habsburgo e o Império Otomano dos, bem, otomanos.
E enquanto isso, internamente, a situação da Rússia ela tava piorando, né? Então eu queria pedir para você explicar como é que a guerra afetou a economia russa, o abastecimento das cidades, inflação, fome, e claro, o desgaste político do regime czarista ao longo do conflito, que foi determinante até para Revolução Russa acontecer depois, né?
É isso que eu até retomando, né, o que eu falei, né, ser uma guerra vitoriosa você angaria um dividendo político gigantesco, né. Vamos lembrar Guerra das Malvinas, né, em abril, a partir de abril de 1982, né. O governo militar argentino tava sendo duramente contestado pela população civil, greves gerais, jornadas de protesto, isso e aquilo. A invasão bem-sucedida das Ilhas Malvinas, né, você é quando milhares milhares de soldados argentinos enfrentaram uma força impressionante de 68 fuzileiros navais ingleses, de A Conquista, sei, seu Mike Norman, né, o comandante do lado do Regimento de Royal Marines, ele se rendeu no mesmo dia.
Quando essa notícia bateu em Buenos Aires, foi maravilhoso para o governo, foi maravilhoso, né? Se eles parecer que a Argentina tinha ganho uma Copa do Mundo. E depois também, quando a Argentina perdeu a guerra, quando os ingleses retomaram as ilhas, a a ditadura argentina não suportou, né, politicamente. Então essa série de desastres, o morticínio gigantesco, né, foi um desgaste tremendo. E é claro, isso também acabou com a economia russa.
Então você tinha vários problemas já da economia russa, né, as modernizações eram bem limitadas, né. Conforme eu falei, né, em Petrogrado e também outras cidades, não foi só Petrogrado, em Petrogrado e outras cidades a sociedade civil teve que se organizar para para cuidar de feridos. As mulheres, né, se organizaram para conseguir equipamentos, conseguir locais, é para cuidar dos feridos no campo de batalha. Isso você tinha que ter uma rede, né, de hospitais militares para cuidar, né.
Então a situação, a situação na Rússia só foi se deteriorando. E aí vem, né, o gasto gigantesco com a guerra, a inflação, desabastecimento, aí mercado negro. Então a coisa só degringola, né. E o fato, né, do Tsar ter assumido o controle do exército e deixado que a czarina Alexandra, né, fosse, passasse a governar a Rússia, piorou uma situação que já era ruim. Ou seja, o czar Nicolau II era um péssimo governante, em todo sentido, todo sentido mesmo, péssimo governante.
E a esposa dele era pior ainda, que é a prova que não existe situação ruim que não possa ficar ainda pior, né? Não tá ruim, tá, mas pode sempre piorar. Então aí que entra, e aí até depois no dia fica a ideia também, né, se você quiser fazer uma parte biográfica no História FM, mas é claro, aí tem que chamar alguém que conheça a biografia dele mesmo, né? Não sou eu. Mas um episódio sobre Rasputin seria bem interessante, que Rasputin foi uma figura marcante aí justamente no tempo que precede a Revolução.
Ele era, ele era um místico siberiano, né, que ele caiu nas graças da imperatriz, da czarina, porque de alguma forma, ou seja, eu não sei explicar como, né? E é claro que a explicação que ele dizia é obviamente Eu sei, ah, que eu sou, tenho poderes mágicos abençoados e tal, mas só ele que conseguia acabar com as crises hemorrágicas, né, do jovem príncipe que tinha hemofilia. Então hemorragiano hemofílico é preocupante. E se você é o pai de um hemofílico, pô, cara, não me importa se o cara é professor catedrático ou se é um curandeiro da Sibérica, não toma banho.
Ou seja, eu quero que o cara que que se resolve o problema do filho, ou seja. Então o Rasputim caiu nas graças da, da czarina. E Rasputim aí, é claro, né, ele aproveita a fama, aproveita, ele também era um homem cheio de caprichos, e chegou num dado momento que a czarina ela indicava ministros e demitia ministros a partir dos conselhos com Rasputim, ou seja. Então se você queria se manter politicamente no ministério russo, você tinha que ter boas relações com Rasputim, que se ele não fosse com esse cara, ele ia mandar a imperatriz se demitir.
Em suma, a coisa foi, a situação política só foi piorando, né? Ainda mais, ou seja, aquilo que eu acabei de falar, né? Não existe situação ruim que não possa ficar pior. E aí, e inclusive os primos, né, da imperatriz, a Czarina, né, tentaram matar Rasputin e o cara ainda era difícil de morrer, né? Envenenaram ele, ele não morreu, atiraram nele, não morreu. Aí conseguiram afogá-lo lá no Rio Neva, mas aparentemente, quer dizer, deve ter morrido, né, que depois até pegaram relíquias do corpo dele, né.
Também não vou entrar em detalhes aí, depois quem ficar curioso pesquisa aí, eu não vou falar desses detalhes sórdidos. Mas o caso era tão, foi tão feio antes desse assassinato de Rasputin que o modo menos insultante que os camponeses se referiam à czarina era aquela, aquela aquela meretriz do Kremlin. E aí a situação só degringolou, degringolou a um ponto que chega aí fevereiro de 1917, já era março aqui no Ocidente, né? Vamos lembrar só, em fevereiro de 1918 que o calendário russo ficou sincronizado com o calendário ocidental, né, com o calendário gregoriano.
Até janeiro de 1918 os russos usavam o calendário juliano, por isso que a Revolução de fevereiro aconteceu em março e a de outubro aconteceu em novembro. E melhor nem tentar, ou seja, melhor só ter essa referência na cabeça e pronto. E aí sim que abre caminho para revolução. A coisa tava dissolvendo a tal ponto, né, o exército russo depois da ofensiva Brusilov perdeu a capacidade de combate, foi o último suspiro do morto. E aí o caminho para revolução estava pavimentado, por assim dizer.
Em 1917 acontece o que ficou conhecido como Revolução de Fevereiro, né, que derrubou Nicolau II e tal. Aí eu queria pedir para você explicar melhor essa revolução e o papel do exército nesse processo, né?
Aí temos um dos melhores livros que temos aí, né, sobre a Revolução Russa disponíveis aqui no Brasil, é do Daniel Arão Reis, né, A Revolução Que Mudou o Mundo, né? Como eu gosto desse livro! Mas é claro que a gente pode gostar muito e discordar aqui e ali. E olha só, né, que quem sou eu, né, para discordar do Daniel Daniel Arão, né? Mas vamos lá, vamos lá, né? O coroinha discordando aqui do cardeal. Daniel Arão, né, fala que a Revolução de Fevereiro ela teve, ela não foi tão espontânea assim, né, já que teve uma, marcaram manifestações.
Mas ainda assim, né, eu insisto na formulação de Hannah Arendt, né, que toda revolução é espontânea. Que de fato, né, em fevereiro de 17 vamos ter a primeira manifestação, as pessoas mulheres de Petrogrado que começaram a se manifestar. E tudo isso, é claro, foi combinado antes, né? Então, com as mulheres, é, com também os sindicatos. Mas era uma manifestação exigindo medidas do governo. Isso acabou descambando nessa coisa maravilhosa que foi a Revolução.
Aí sim, aí temos um ato espontâneo. Sim, se combinou a manifestação, sim, factualmente. Daniel Arão tá corretíssimo, né? Mas da manifestação exigindo providência Jesus daquele governo ruim, né, para revolução. Esse salto foi um momento espontâneo. E aí, com a Revolução de Fevereiro, o czarismo caiu, né, e com apoio do Exército. Ou seja, então o Exército prende, né, prendeu os Romanov, prendeu todo mundo. O poder foi entregue aos moderados, né, alguns mencheviks e alguns trabalhistas, né, Kerensky era trabalhista.
E aí vem a Revolução de Fevereiro de 1917, que é uma coisa linda, né? Assim, a revolução é uma coisa linda, assim, mesmo com muitos mortos e feridos, né? Que aí vem, ou seja, na tentativa de repressão. E quando começou a repressão, você tem os primeiros dias das manifestações, teve uma inatividade pelas forças repressivas. Depois vem a repressão, e quando mandam os soldados para reprimir, né, com que a manifestação só foi aumentando, os soldados muitos soldados mudam de lado, né?
Porque ali os soldados sabiam que do outro lado estavam suas mães, filhas, irmãs, esposas, né? E aí, cara, se você manda seus soldados reprimirem manifestantes, eles passam para o lado dos manifestantes, é, você está muito encrencado. E aí temos essa beleza, né, que inclusive no 28 de fevereiro vem a Ordem de Serviço número 1, né, a PRICAS, estabelecendo já as primeiras providências serem tomadas.
E mesmo depois da queda do czar, a Rússia continua na guerra sob o governo provisório, o que acabou sendo extremamente impopular, porque uma parcela significativa da população e até de parte das forças armadas queria que a Rússia saísse da guerra, né? E aí eu queria pedir para você explicar por que que o governo provisório insistiu em continuar na guerra, como é que foi ofensiva Kerensky, e por que essa situação acabou agravando ainda mais a crise interna do país.
É, vamos lá, então Kerensky assumiu o poder aí, né? Você foi, o exército russo, né, quando prendeu o czar, foi naquela coisa de vamos dar alguns anéis, né, para os dedos e braços ficarem inteiros. E Kerensky, pressionado pelos embaixadores de França e Grã-Bretanha, manteve a Rússia na guerra contra toda a vontade popular. O grande lema aí, que era o lema já entoado em Petrogrado em fevereiro e continuou sendo entoado ao longo de todo o ano de 1917 era paz, terra e pão.
Então daí a pressão, né, para sair, a Rússia sair da guerra era interna, era gigantesca. Mas Kerensky assume compromisso com os embaixadores de Grã-Bretanha e França e mantém a Rússia na guerra com todos os seus problemas. Inclusive quando ele tenta fazer ofensiva, Kerensky decide mandar várias guarnições para linha de frente, para ofensiva, inclusive a guarnição de Petrogrado, que ele escolheu a guarnição de Petrogrado, porque além de precisar de mais bucha de canhão, também os soldados de Petrogrado eram, eles já tinham sido muito sensibilizados, né, pela pregação bolchevique.
Eles se rebelam, né, eles se rebelaram. E aí a ofensiva, que esse aí, mesmo quando a ofensiva foi disparada, você tem a rebelião dos soldados em Petrogrado, e aí a ofensiva também foi derrotada facilmente pelos alemães, porque também você tem um soldado russo já lutando sem qualquer, a moral do exército russo na Grande Guerra tava, estava abaixo do solo. E nesse meio tempo, entre um personagem que eu falei, uma personagem que eu falei aí, né, Vladimir Lenin estava exilado na Suíça, voltou para Rússia.
Que aí, com a querência, que aceitando a pressão franco-britânica e mantendo a Rússia na guerra, os alemães decidiram aplicar um velho princípio, que o inimigo do meu inimigo pode ser meu amigo, né. Então eles pegaram Lenin na Suíça e e o repatriaram para Rússia. Que aí temos aquele livro belíssimo, né, do Edmundo Wilson, né, o Rumo à Estação Finlândia, né. Quando Lenin atravessou a Alemanha de trem, olhando pelas janelas, ele percebeu, pôde ter uma ideia da devastação da guerra, apesar de só ter passado por regiões não destruídas ainda, né.
Mas como é que ele percebe lá a destruição da guerra? Nas cidades, só nas cidades alemães que Lenin atravessa, só havia mulheres, velhos e crianças, né? Não haviam homens. Enquanto Lenin cruzava a Alemanha, Alemanha, França, Inglaterra estavam recrutando meninos de 14, 15, 13 anos para o combate. Você tivesse 12 e quisesse muito ir para guerra, o alistador fazia vista grossa e deixava você entrar no exército, né? Então foi um banho de sangue horroroso, né?
E aí Lenin chega na Estação Finlândia, chegou na Estação Finlândia, assim que ele chegou emissários de Kerensky prometeram a Lenin mundos e fundos. Que que você quer para apoiar o governo? A gente transforma ministro em pasta, te dá uma Dacha, peça aí. E Lenin fala não. Lenin, ele tava comprometido mesmo, né? Inclusive até os bolcheviques que estavam na Rússia não estavam fazendo muita coisa. Lenin chega, dá uns esculachos geral, né?
Dá um, conforme uma gíria massa que a gente tinha Crusoé, entendeu? Dá um pagadão e vai por tudo ou nada. Inclusive Lenin, entre aí a ofensiva Kerensky e a ofensiva Kornilov, Lenin teve até que se esconder porque corria um risco gigantesco, né? Ele não seria apenas preso, né? A ideia seria matar Lenin, né? E aí nesse ínterim, né, após o fracasso da ofensiva Kerensky, greve, vem em agosto a ofensiva Kornilov. O general Kornilov Kornilov dos cossacos decidiu avançar sobre Petrogrado para pôr um fim à revolução.
E até hoje, né, segundo Mark Ferroux, qual o papel que Kerensky teve, né? Querensky, ele é claro, quando a ofensiva Kornilov deu errado, Kerensky condenou ele, condenou a ofensiva. Mas segundo Mark Ferroux, você tem um período aí entre o início da ofensiva Kornilov e a derrota da ofensiva Kornilov que Kerensky ficou meio em cima do muro. E uma coisa interessante, né, que Kornilov subiu do Cáucaso com seu exército de trem. Boa parte da derrota do Kornilov veio graças aí à ação do sindicato dos ferroviários, que o sindicato ferroviário começou a paralisar os trens, mudar os desvios e desviar os trens.
E pronto, ou seja, Kornilov não tinha um exército, né. Ele foi do ponto A para o ponto B, quando chegou no ponto B não tinha, cadê exército dele, né? Então os ferroviários, muito malandramente, né, e de uma forma muito boa— isso também merecia um filme— é, conseguiram derrotar Kornilov aí. E aí abre caminho, abre-se caminho aí para Revolução de Outubro.
A minha última pergunta é sobre a saída russa da guerra, né? A gente tem a Revolução de Outubro, temos um episódio sobre isso. Acho que não cabe aqui explicar toda a Revolução Russa e tal, mas eu queria perguntar o seguinte: os bolcheviques, eles assumem o poder defendendo a retirada imediata do conflito. E aí, o que ia entender as negociações do Tratado de Brest-Litovsk, quais concessões que a Rússia teve que fazer para poder sair em paz da guerra, territórios que ela perdeu nesse acordo, e o impacto dessa saída russa tanto para guerra em si, né, para os demais aliados da Rússia, por exemplo, quanto para o futuro da própria Rússia.
Vamos lá, o interessante interessante depois da Revolução de Outubro é todo o grau de incerteza, né, que havia na Rússia, inclusive até para os próprios bolcheviques, né. Tem um evento interessante em janeiro de 18, quando os bolcheviques completaram 73 dias da tomada do poder, eles deram uma festa. Por quê? E por que esse número 73, né? Porque a Comuna de Paris só durou 72 dias. Então quando os bolcheviques completaram 73, eles passaram a ser o governo socialista mais longevo da história até então.
Isso mostra também, ou seja, esse sintoma é maravilhoso, né, o tanto que havia de incerteza. Então Lenin tinha muito claro que tinha que se fazer a paz com os alemães, ou seja, tinha que tirar a Rússia da guerra, não havia condições de manter a Rússia na guerra. Mas aí entra o problema da negociação política, inclusive até quem foi negociar em Brest-Litovsk, que foi o comissário, né, comissário de defesa certeza, segurança. Esse título aí, Leão Trotsky.
Qual é a grande questão do tratado, né, do acordo político? Ou seja, eu quero A, você quer B, então chegamos a um acordo para eu ter A e você ter B. Então, acordo de igualdade de condições, todo mundo quer algo, todo mundo ganha. Agora, se eu quero algo e você não quer esse algo, ou seja, se eu quero algo que você tem e você não quer nada que eu possa oferecer, opa, aí é situação de negociação, de negociação situação aí já modifica.
Ou seja, então sim, os alemães queriam muito a paz com a Rússia, claro que eles queriam. Por outro lado, a urgência, né, do início de 18, já com os exércitos brancos se formando, já fez a urgência pesar para o lado, para o lado bolchevique. Então daí os alemães impuseram condições pesadíssimas para os— e o mais interessante, ele sabia o que tava fazendo, tanto que Lenin aceita. Lenin aceitou, Trotsky assinou. E o que é claro, isso provocou uma crítica gigantesca, né?
A oposição, mesmo os bolcheviques, vários bolcheviques mais à esquerda de Lenin, vão criticá-lo duramente por isso. Vão falar: não, não era para ter aceitado, era para a gente ter continuado combatendo e tudo mais, né? E é claro também que aí experiência e expectativa, né? A expectativa dos bolcheviques que se postaram contra o acordo de Brest-Litovsk era de subverter a Alemanha e de fazer a revolução chegar na Alemanha também, e pronto, né?
E daí eles subverteriam tudo, né? Aí teria uma grande União Soviética que chegasse até o Rio Reno, né? Que pena, né? Mas, mas, assim, aí inclusive outros tantos vão acusar Lenin de ser um agente alemão, né? Na verdade, você entrou aqui só para nos entregar a Alemanha, né? Porque os russos vão perder muitas terras, né, nesse acordo de Brest-Litovsk, inclusive, né, a Finlândia aproveita para ficar independente. Temos também depois o decreto na Ucrânia, né, então temos, os russos vão perder tanto, tanto território que eles só vão conseguir refazer tudo isso só no fim da Segunda Guerra Mundial, que aí Stalin assegura lá o domínio sobre os Estados Bálticos, né?
Stalin toma a Bessarabia, Bukovina, né, nos Bálcãs. Ele, Stalin, Stalin inclusive, com o fim da guerra, ele chega à Polônia mais para o ocidente, né, avançando sobre a Silésia, Prússia Oriental, para tornar a União Soviética mais segura, né? Mas então todas as perdas territoriais alemãs, eles só foram compensadas bem depois. E mas só que Quando a gente olhando em retrospecto, que a gente tem a vantagem, né, de termos aí o conhecimento histórico do nosso lado, né, sabemos o que que rolou depois.
Lenin não tinha outra alternativa. Então primeiro você precisava de paz externa para aí sim conseguir a pacificação interna. Em 1918 começou a guerra civil, né, que terrível a guerra civil, né, que vai, que vai rolar até 1921, né. E alguns falam que não, final, início de 21 a situação tava tranquila. Não, a coisa só foi pacificada mesmo no início de 1922, ou seja, foi porque enquanto a Frente Ocidental alcançou uma relativa paz a partir de novembro de 18, né, com o armistício e depois a paz de Versalhes, é a imposição de Versalhes, né, de acordo com os alemães, na Frente Oriental a violência continuou até 1921, 1922, né.
Então vamos ter depois em 1919, a tentativa de soviete húngaro, né, do Béla Kun. Tivemos a tentativa de revolução na Bavária em 19 também, e Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht acabaram sendo assassinados. Em 1920, o Exército Vermelho foi derrotado às portas de Varsóvia, que aí seria um vislumbre, né, da revolução sendo exportada, né. Mas depois de tudo isso, a tese do Trotsky, né, de revolução permanente, acabou, acabou deixada de lado por total impossibilidade, né?
Então Lenin Brest-Litovsk, ele fez o que tinha que fazer. Ou seja, foi horrível o acordo com os alemães? Sem dúvida nenhuma. Ou seja, a Rússia perdeu muito, né? Teve uma perda territorial considerável, né? Não, claro, diante do global, né, do tamanho da Rússia, nem tanto, né? Mas teve perdas territoriais, teve várias, mas só que não teve outra escolha, né? Então Lenin não teve outra escolha porque ele precisava dessa paz para poder resolver o problema interno.
E é claro, vamos lembrar que depois da Guerra Civil na Rússia também vamos ter ainda todo o problema dos bolcheviques com o campesinato, né, que os camponeses queriam reforma agrária e os bolcheviques queriam a coletivização das terras, né. Isso aí vai se arrastar ao longo dos anos 20, né. Então a situação foi mais ou menos essa.
O que encerra mesmo a guerra é a Conferência de Paz de Paris, que começou em janeiro de 1919 e durou um ano. A conferência reuniu 27 países, incluindo o Brasil. Ela excluiu os países derrotados e a Rússia, na época em guerra civil, antes do estabelecimento da União Soviética.
É, então, Delmo, eu não imagino, sei lá, numa sala de ensino fundamental ou mesmo médio, um professor tendo tempo para dar uma aula inteira só sobre a Rússia na Primeira Guerra. Mas vamos supor que você é professor no ensino superior, você vai dar um tópico de Primeira Guerra Mundial, né, para o pessoal, e aí você decidiu que vai dar uma aula sobre Rússia na Primeira Guerra Mundial? Como é que você abordaria esse tema aí, Iclis?
A gente tem um grande problema aí, que conforme você falou, você no ensino fundamental e médio, tempo para isso é escasso, muito escasso. Outro problema é que a bibliografia em português sobre o tema também é escassa. A gente não tem o— a gente tem alguns manuais sobre história da Grande Guerra de 14 a 18 que também tratam da frente russa, da frente oriental. Aí temos isso. Agora, um livro específico sobre isso em português não tem, né?
Então a grande ideia aí, e porque também se a gente, quando a gente estuda Europa, e aí você tem sérios problemas, né, quando a gente pensa no ensino de história, pelo menos a nível de graduação, que a Europa Oriental é muito negligenciada, né? Então num curso sobre esse a gente teria que praticamente oferecer uma disciplina optativa, né? Que aí também se a gente ignora muito da história da Rússia, ignora muito da história dos Habsburgos, né?
E imagina só a história do Império Otomano também, ou seja, então a ideia, a ideia seria justamente pegar essa atuação russa aí no século 19 e 20, né, como uma grande introdução. Teria que ser em duas aulas, né, se fosse possível, né? Uma grande introdução aí à Rússia no século 19 e na Grande Guerra, para aí depois sim aqui para Revolução Russa. Então, que droga, né? Nunca temos tempo suficiente, né? Ou então, o que que o professor pode dizer, né? Diga para os seus alunos ouvirem esse episódio aqui que já vai ajudar.
E para terminar, 3 livros sobre esse assunto. Como você falou, né, dificilmente você vai achar alguma coisa em português só de Rússia na Primeira Guerra. Quando acha, é um texto sobre a Revolução Russa que passa por cima, né, muito de maneira superficial. Então, o que que você recomenda, tendo aí liberdade de idioma para recomendar?
Vamos lá, a primeira recomendação, eu vou recomendar dois em português e o terceiro em inglês. O primeiro que eu vou recomendar é um livrinho de 2003 publicado pela Lei de Ouro, A História Ilustrada da Primeira Guerra Mundial, do John Keegan. O Keegan, né, até a gente já falou mal dele aqui, né, no episódio sobre Clausewitz, mas aí de novo eu reitero, você é, Keegan foi o maior historiador militar do século 20, sem dúvida nenhuma, e assim por largo, né, muito melhor do que Liddell Hart.
Inclusive, já que é para falar mal do povo, você, Keegan era muito mais honesto intelectualmente do que o Lee Delahar. Mas isso aí é detalhe. Agora, como historiador militar, esse livro dele sobre a Primeira Guerra Mundial, ele dá uma visão de conjunto sobre o conflito. É claro, sem deixar de falar da Frente Ocidental, mas também abarcando aí a Frente Oriental. Um outro bom, lançado em 2008, que até a primeira vez que eu vi eu nem botei muita fé nele.
Eu sei que esses livros de papel couchê, capa dura, né, parecendo livro de mesa de centro de sala, mas é do H.P. Wilmot, A Primeira Guerra Mundial, né, da Nova Fronteira. É surpreendentemente bom, né, e tem uma vantagem ainda, né, para as pessoas que gostam de livros com figuras, né, ele tá fartamente ilustrado. Então tem os mapas, tabelas explicativas e um bom texto. Esse livro do Wilmot dá uma boa ideia do conjunto, né, inclusive até para pegar as datas aí de algumas batalhas de avanço se você usar o Wilmot, né?
Então ele tem uma, é, a informação visual dele é muito boa e é leitura fácil e bem acessível. E finalmente, em inglês, né, temos o Nick Lloyd, que escreveu uma história da Primeira Guerra Mundial em 2 volumes. Um, o primeiro volume só sobre a Frente Ocidental, e o segundo volume só sobre a Frente Oriental, né? Então esse segundo volume que eu recomendo, né, que a Penguin lançou lançou as edições, né, em 2025. Lançou também edição para Kindle, né.
Então você tem aí, então aí temos esse segundo volume do Nick Lloyd. O bom que ele é dedicado exclusivamente à Grande Guerra no Oriente, né, a Frente Oriental, né. Então vale a pena. Agora, quando ele será traduzido aqui no Brasil, quando será lançado, não sei. Aí fica a dica de novo, né, o momento do lobby, né. Você, editora, autor, né? Pense nisso com carinho, né? Nick Lloyd, né? Para traduzir e lançá-lo aqui no Brasil.
Então é isso, gente. Delmo, tem alguma consideração final?
É interessante, né, você, como a gente pega o, quando a gente pega a narrativa histórica da Grande Guerra, tanto do lado ocidental quanto do Oriental, né? Eu tô pensando em outras duas obras, né? Eu tô pensando aí no já citado Christopher Clark, no Sonâmbulos, e também no A.J.P. Taylor, né? A Luta pela Supremacia na Europa, né? De 1848 a 1918, que são histórias, ambos os autores trabalham com a história diplomática, e é claro, uma história diplomática diplomática de verdade, né?
Sei lá, aquela história diplomática ruim que Renovando de O Rosário costumavam descer o sarrafo. Então a leitura, o estudo, né, disso, e a leitura desses dois autores que eu falei, é de suma importância para os nossos futuros diplomatas e também para os nossos futuros oficiais das Forças Armadas. Ou seja, o que fazer e o que não fazer numa crise diplomática, né? Então esses eventos aí, eles guardam lições importantes.
Então é isso, muito obrigado pessoal! Não se esqueçam de dar uma olhada aqui na descrição do episódio, onde tem créditos, os links dos meus cursos, tem coisa boa ali para você, especialmente você que é estudante de história ou você que é entusiasta e quer aprender mais história de um jeito mais aprofundado. E também tem link de patrocínio, do Apoia.se, de tudo aqui embaixo na descrição. Na descrição, beleza? Segue lá no Instagram, @iklesrodrigues, que de vez em quando eu posto dica de livro lá para vocês. Então é isso, muito obrigado e até a próxima!
Esse podcast foi editado por Samuel Gambini, samuelgambiniaudio.com.
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