O presidente que quase foi canibalizado - História FM Drops 005
Durante a Segunda Guerra Mundial um homem se salvou por pouco de ser capturado e canibalizado pelos japoneses. Anos depois ele se tornaria presidente.
Roteiro e Apresentação: Icles Rodrigues
Edição: João Victor Vila
Instagram: @iclesrodrigues
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- Crimes de GuerraCaptura de aviadores navais estadunidenses · Canibalismo ritualístico · Julgamentos por crimes de guerra em Guam · James Bradley · Livro Flyboys
- Segunda Guerra Mundial no PacíficoAtaque a Pearl Harbor · Batalha de Midway · Estratégia Island Hopping · Campanha submarina dos EUA
- George H.W. Bush e a Dinastia BushSobrevivência na Segunda Guerra Mundial · Carreira política · Zapata Corporation · George W. Bush · Invasão do Iraque
- Colonialismo e ImperialismoRestauração Meiji · Expansão territorial · Invasão da Manchúria · Liga das Nações
Bom dia, boa tarde, boa noite. Está começando o História FM Drops, nossa série de episódios narrativos curtos, contando pra vocês histórias curiosas, tensas, revoltantes, engraçadas, enfim, de tudo um pouco. E podem ficar tranquilos que o História FM não entrou de férias de novo. Isso aqui é só um episódio especial mesmo.
E o episódio de hoje é sobre uma história bem pouco conhecida, que mostra como às vezes um golpe de sorte de um único indivíduo pode mudar os rumos da história. Hoje nós vamos falar sobre o presidente que quase foi canibalizado durante a Segunda Guerra Mundial. Mas qual deles?
A ascensão do imperialismo japonês, no início do século XX, esteve profundamente ligada às transformações internas do país após a restauração Meiji. Em poucas décadas, o Japão deixou de ser um estado economicamente atrasado em relação às potências ocidentais para se tornar ele mesmo uma potência industrial e militar, guiada por uma elite que via a expansão territorial como condição necessária para a sobrevivência nacional.
A escassez de recursos naturais, aliada ao crescimento populacional e ao desejo de status entre as grandes potências, alimentou uma política externa agressiva. Esse projeto ganhou força dentro das forças armadas, especialmente entre oficiais que defendiam a ideia de que o Japão tinha uma missão histórica de liderar a Ásia e libertá-la da dominação ocidental, ainda que na prática isso significasse substituí-la por um novo império.
Esse impulso expansionista se materializou de forma brutal em 1931, com a invasão da Manchúria, no nordeste da China. O episódio, iniciado a partir de um incidente fabricado por militares japoneses, levou à criação do Estado Fantoche de Manchúco e marcou o desprezo aberto do Japão pelas normas internacionais.
A Liga das Nações condenou a agressão, mas não impôs sanções efetivas, o que reforçou entre os líderes japoneses a convicção de que a força militar compensava o isolamento diplomático.
Em 1937, a guerra se expandiu para o restante da China, dando início a um conflito de larga escala caracterizado por extrema violência contra a população civil, como ficou evidenciado em massacres, execuções em massa e políticas sistemáticas de terror. Enquanto isso, o Japão aprofundava sua ruptura com as potências ocidentais e se aproximava da Alemanha nazista e da Itália fascista.
As tensões com os Estados Unidos cresceram à medida que o Japão avançava pelo sudeste asiático e ameaçava interesses econômicos e estrangeiros estadunidenses na região. Washington respondeu com sanções econômicas culminando no embargo de petróleo em 1941, uma medida que colocou o Japão diante de um dilema existencial. Recuar ou guerrear?
A liderança japonesa optou pela segunda alternativa, apostando em um ataque preventivo que pudesse incapacitar a frota do Pacífico e garantir liberdade de ação nos primeiros meses do conflito. Mr. Speaker, membros do Senado e da Háblas dos Representes, ontem, 7 de setembro de 1941, uma data que vai viver...
Em 7 de dezembro de 1941, o ataque a Pearl Harbor abalou profundamente a opinião pública dos Estados Unidos e pôs fim a qualquer resistência interna à guerra. Poucos dias depois, o Congresso declarou guerra ao Japão, dando início a um conflito total no Pacífico, que rapidamente se transformaria em uma luta de aniquilação, marcada por batalhas ferozes, perdas humanas massivas e um grau de brutalidade que deixaria cicatrizes profundas em ambos os lados.
Em um primeiro momento, os japoneses contavam com certas vantagens táticas, mas o ataque a Pearl Harbor falhou em destruir toda a frota do Pacífico que os Estados Unidos possuíam, algo que era fundamental para esse ataque ser bem sucedido do ponto de vista estratégico. O ataque fez a entrada dos Estados Unidos na guerra mais lenta do que eles gostariam, mas uma eficiente mobilização interna fez com que a forte economia dos Estados Unidos superasse os atrasos.
E o ponto de virada foi a Batalha de Midway. Após a quebra da criptografia japonesa, os estadunidenses atraíram os japoneses para uma batalha que eles puderam planejar minuciosamente. E todo aquele planejamento e paciência, aliados a uma aposta corajosa, se pagaram. No momento em que os Estados Unidos derrotaram o Japão em Midway, a marinha japonesa perdeu toda a esperança de virar o jogo na guerra.
Após a Batalha de Midway, a Guerra no Pacífico entrou em uma nova fase. Os Estados Unidos passaram a explorar plenamente sua enorme capacidade industrial, ampliando de forma acelerada a produção de navios, aviões e equipamentos, ao mesmo tempo em que treinavam pilotos e tripulações em ritmo crescente. Do outro lado, o Japão, limitado por uma base industrial insuficiente, por dificuldades tecnológicas e pela escassez progressiva de recursos, especialmente petróleo, começou a ficar para trás.
A partir desse desequilíbrio, os aliados lançaram uma ofensiva longa e sistemática através do Pacífico, avançando de ilha em ilha por meio de desembarques anfíbios frequentemente sangrentos, enquanto posições japonesas consideradas fortes demais para a invasão direta eram isoladas e neutralizadas por ataques aéreos. Essa estratégia, que ficaria conhecida como Island Hopping, algo como Salto de Ilha em Ilha em português, tinha um objetivo claro.
aproximar-se gradualmente do arquipélago japonês sem desperdiçar homens e material em batalhas desnecessárias. Bases como Truk, Rabau e Formosa foram contornadas, privadas de suprimentos e tornadas inoperantes.
Ao mesmo tempo, a marinha estadunidense evitava deliberadamente um confronto decisivo direto com a frota japonesa, apostando no estrangulamento logístico como arma principal. Submarinos desempenhavam um papel central nesse processo, atacando navios mercantes, interrompendo o fluxo de tropas e, sobretudo, cortando quase totalmente o fornecimento de petróleo no Japão.
Ao longo da guerra, essa campanha submarina reduziu drasticamente a capacidade japonesa de manter sua marinha operando, deixando muitos de seus navios praticamente presos aos portos. Enquanto isso, as ofensivas aliadas se expandiam pelo Pacífico Central e Ocidental. Campanhas na Nova Guiné, nas Ilhas Salomão, Ilhas Gilbert, Ilhas Marshall, nas Marianas e nas Ilhas Palau abriram um caminho para bombardeios estratégicos diretos contra o Japão.
A captura de ilhas como Saipan, Jinyan e Guan permitiu que bombardeiros de longo alcance atingissem cidades japonesas, enquanto derrotas devastadoras para a marinha imperial, como no Mar das Filipinas e no Golfo de Leite, destruíram quase por completo a capacidade japonesa de projetar poder naval.
Foi nesse contexto de avanço inexorável, de superioridade aérea e naval aliada, e de resistência japonesa cada vez mais desesperada, que pequenas ilhas isoladas no Pacífico se transformaram em palcos de episódios extremos da guerra. Lugares onde a linha entre combate, punição e barbárie foi definitivamente ultrapassada. E aqui nós falamos da ilha de Shishijima.
Desde 1944, aquela ilha vinha sendo martelada pelo ar. A invasão por terra custaria caro demais, e como em outros casos de invasão nessa guerra, os aliados preferiam bombardear primeiro e invadir depois. E ao enviar homens aos céus, tanto para bombardeios quanto para defender as aeronaves bombardeiras de ataque da aviação de caça inimiga, você sempre conta com o fato de que alguns deles podem não voltar.
Naquele setembro, nove aviadores navais estadunidenses foram abatidos em missões distintas, mas próximas no tempo. Alguns conseguiram saltar de suas aeronaves em chamas, outros caíram com o avião. Alguns caíram no mar, enquanto outros alcançaram a costa. O destino deles, no entanto, não foi decidido no ar, mas em terra.
A ilha estava fortemente guarnecida. Tropas do exército e da marinha japoneses dividiam o comando local, sob oficiais experientes, endurecidos por anos de guerra e por um sentimento crescente de cerco e humilhação. A cadeia de comando funcionava, mas funcionava em um ambiente onde a derrota já era pressentida, ainda que não admitida. A guerra se aproximava do fim, e isso tornava tudo mais brutal.
Os aviadores capturados foram separados e, como era de praxe, eles eram espancados e interrogados.
Não havia campo de prisioneiros estruturado ou protocolos claros, e o profundo ressentimento entre adversários de guerra e o profundo desprezo que estadunidenses e japoneses demonstravam uns pelos outros em termos tanto de raça quanto de cultura, fazia com que a manutenção de prisioneiros muitas vezes não fosse considerada, em especial a de prisioneiros que bombardeavam a eles e aos seus irmãos em armas.
Os relatórios que emergiram anos depois falam de espancamentos sistemáticos, de privação de comida, de humilhações calculadas. Alguns foram obrigados a cavar a própria cova. Outros foram executados sem cerimônia, por decapitação, por baioneta, por golpes repetidos e quaisquer outros métodos que a criatividade humana historicamente demonstrou quando o assunto é causar imensa dor e humilhação a outros seres humanos.
Mas nessa história que eu estou te contando hoje, a violência não terminou com a morte.
Em Shishijima, oficiais de alta patente, médicos militares, comandantes de unidade, membros do alto escalão local, participaram de atos que não podiam ser justificados nem mesmo pela lógica brutal da guerra. Partes dos corpos de alguns aviadores foram retiradas após a execução. Fígados, pedaços de coxa, carne humana tratada como ingrediente.
Esses fragmentos foram preparados em cozinhas improvisadas, temperados com molho de soja, servidos em pequenas porções durante banquetes reservados a oficiais. Alguns participantes sabiam exatamente o que estavam consumindo. Outros, mais tarde, afirmariam a ignorância. Houve quem alegasse motivos medicinais. Houve quem falasse em rituais de força e absorção simbólica do inimigo. Houve quem simplesmente não oferecesse explicação alguma.
Quatro dos nove aviadores abatidos naquela sequência de missões tiveram seus corpos mutilados dessa forma. Os outros foram executados e enterrados sem cerimônia, ou tiveram seus restos descartados de modo igualmente indigno. Nenhum deles sobreviveu ao cativeiro.
Após o fim da guerra, julgamentos por crimes de guerra ocorreram em Guam. Alguns oficiais foram condenados à morte, enquanto outros receberam penas menores. Curiosamente, o crime de carimbalismo não apareceu como acusação formal. Os processos trataram de assassinato e da negação de sepultamento honroso. A verdade completa permaneceu fragmentada, espalhada em depoimentos técnicos, relatórios selados, transcrições que não circularam fora de círculos muito restritos.
As famílias dos aviadores mortos receberam notificações vagas. Sabiam que seus filhos haviam sido abatidos e executados. Não sabiam e durante décadas não saberiam o que realmente aconteceu após a captura. A decisão foi deliberada. Poupar os parentes de um horror considerado excessivo até para os padrões de uma guerra mundial.
Por décadas, essa história permaneceu soterrada sob camadas de silêncio institucional. Até que no início dos anos 2000, um pesquisador decidiu seguir as pistas esquecidas, James Bradley. Ele leu os autos, entrevistou sobreviventes japoneses e fez o possível para compreender os eventos com o máximo de detalhes.
E então, ao publicar o resultado da pesquisa no livro Flyboys, A True Story of Courage, revelou ao público aquilo que havia sido mantido longe dele por mais de meio século. Entre os nove aviadores abatidos, no entanto, havia uma exceção.
Um deles caiu mais longe da ilha e não alcançou a costa. Encontrou, por acaso ou destino, um bote inflável e permaneceu no mar tempo suficiente para ser visto e protegido por aeronaves aliadas que mantiveram embarcações japonesas afastadas.
Foi resgatado por um submarino a tempo de ser encontrado com vida. Esse aviador não testemunhou o destino dos outros. Durante décadas, acreditou que seus companheiros haviam simplesmente morrido, como tantos outros, vítimas diretas do combate.
Ele voltou da guerra e continuou vivendo, mas não uma vida ordinária, como um trabalhador blue collar, como se denominam nos Estados Unidos os trabalhadores braçais, operários de fábrica, manufaturas, construção, manutenção. O trabalhador que bota a mão na massa, ao contrário do colarinho branco, o trabalhador de escritório, o político, o intelectual. Este sobrevivente claramente seguiu o caminho do colarinho branco, até por ter vindo de uma família muito rica e influente.
Ele estudou em Yale, desenvolveu uma carreira construindo a empresa petrolífera Zapata Corporation no Texas. Praticamente um deboche se você pensar que o Texas foi México no passado. E Zapata era um revolucionário que representava muito do que grandes capitalistas e barões de petróleo desprezavam.
Esse sobrevivente da guerra seguiu carreira na política, circulou pelos bastidores do poder durante décadas e tornou-se suficientemente influente para ser eleito vice-presidente e, em seguida, ele finalmente foi eleito presidente dos Estados Unidos no final dos anos 1980, tornando-se o 41º ocupante do cargo mais poderoso do planeta.
George Herbert Walker Bush. Mais do que presidente, ele foi um pilar fundamental na dinastia dos Bush na política estadunidense, expandindo a influência do sobrenome Bush na política do país. Além disso, foi o pai de George W. Bush, que presidiu os Estados Unidos por dois mandatos e ajudou a consolidar a política imperialista do país no contexto do pós-Guerra Fria.
Bush Filho autorizou a invasão do Afeganistão e liderou o país em uma invasão ao Iraque com a desculpa de que queriam impedir o país de ter armas de destruição em massa, que Bush afirmava existirem. Mas tudo aquilo não passava de uma desculpa esfarrapada para que os Estados Unidos colocassem as mãos no petróleo iraquiano, abundante e de fácil acesso. A invasão foi responsável pela morte de mais de um milhão de pessoas.
Destruiu o país e abriu caminho para grupos terroristas ainda mais violentos do que os que já existiam. O Afeganistão, por outro lado, comeu o pão que o diabo amassou, apenas para voltar às mãos do Talibã cerca de duas décadas depois.
Não sejamos ingênuos. Os Estados Unidos permaneceriam sendo um país imperialista e intervencionista com ou sem a família Bush na política. Mas nós podemos especular que ao menos algumas coisas teriam ocorrido de maneira drasticamente diferente. É interessante pensar em como um único homem, tendo se salvado em uma operação militar na Segunda Guerra Mundial, contribuiu com os rumos de todo o planeta.
O quão melhor ou pior seria o mundo se George Bush tivesse caído nas mãos dos japoneses em Shishijima? E um único homem, por mais alto que seja em seu cargo político, seria capaz de fazer tanta diferença assim no mundo se ele não tivesse existido? Ou, nesse caso, se ele não tivesse sobrevivido em sua juventude?
Então é isso, gente. Obrigado por terem ouvido até o final. Não se esqueçam de colaborar com o História FM no Apoias, porque sem esse apoio o programa não existe. Meu muito obrigado e, em breve, a gente volta com um episódio regular do História FM. Abraço, pessoal.
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