Episódios de Salão de Bailes

Baile 10 - Farto da raiva de classe alta do Bill Burr

01 de agosto de 202614min
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Considerandos de jaez colérico sobre os émulos do Bill Burr em terras lusas. A necessidade de resgatar do fundo do raio estagnado, atulhado de rostos de narciso, uma raiva que nos sirva, conduziu-me a este episódio. Neste império de rebranding incansável nas bordas do qual o Salvador Martinha é apenas um micro-evangelizador, onde as palavras são sempre a caricatura do que poderia um discurso rigoroso, só músculo e disponível para rija zaragata, não há comédia capaz de vivificar quem anda a fazer piscinas entre a vida e a morte ou, se preferirem termos mais canónicos, casa-trabalho, trabalho-casa, supondo que, neste smog neoliberal amiúde confundido com nevoeiro do qual nem restos de Salvador nos escutam as preces, são dois apeadeiros indiscerníveis. Fartinho de iconoclastas de esplanada que vêem em cada martelinho o martelo do Thor, justificando assim a impossibilidade de o manejar.

Avanço por aí em várias frentes, semeando rastilhos antes que tudo arda. Encontram-me, caso queiram ou não haja ocupações para neurónios acamados, desnorteados de tanto estímulo açucarado, no Spotify disseminado numa fauna luxuriante de podcasts. Algum há-de estar conforme o vosso apetite. Dêem o próximo passo, não me obriguem a recrutar um tipo de marketing a fim de nos fantasiar um encontro criador-público.

A arte é a perturbação nas águas estagnadas ou não é nada. Enquanto o marasmo não regressa — e ele só sabe regressar —, o homem singra. O humorista é, por definição, insubornável. Nunca menos que a cabeça do Rei, esse é o verdadeiro legado dos bobos, os derradeiros regicidas.

* Roberto Gamito


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