Episódio 02 - Acontecimentos
Neste segundo episódio, Julia e Luca conversam sobre os acontecimentos por trás dos seus trabalhos autorais. Como cada um faz e enxerga sua escrita? De onde as ideias "surgem"? Uma conversa aberta, que se inicia numa provocação de Julia e caminha por histórias íntimas.
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Julia e Luca são escritores e entusiastas de livros e memórias. Nas redes:
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Obras citadas neste episódio:
- O acontecimento - Annie Ernaux (ed. Fósforo)
- Por que são tão lindos os cavalos? - Julieta Correa (ed. 34)
- Assombrações - Domenico Starnone (ed. Todavia)
- Blue Nights - Joan Didion (ed. HarperCollins)
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Link p/ os livros mais recentes de Julia Caiuby e Luca Brandão:
- Cavalos azuis sem cabeça - Julia Caiuby (ed. Patuá):
https://www.editorapatua.com.br/cavalos-azuis-sem-cabeca-romance-de-julia-caiuby/p
- Não acorde os monstros - Luca Brandão (ed. Rocco) :
https://www.amazon.com.br/Não-acorde-monstros-Luca-Brandão/dp/6555325542
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Edição: Luca Brandão
Trilha sonora:
What The Old Man Says by Stefano Vita is licensed under a Attribution-NonCommercial-ShareAlike License
Change by Stefano Vita is licensed under a Attribution-NonCommercial-ShareAlike License.
Tem alguma coisa que você lembra assim, cara, isso aqui é muito eu, isso aqui é um troço que aconteceu exatamente assim?
Alguns, mas eu não quero estragar a leitura para quem ainda não leu. Oi, Luca!
Oi, Júlia!
Olha, primeiro eu queria começar fazendo uma errata, que no episódio passado eu falei que a frase era da Annie Ernaux e na verdade ela é epígrafe do livro da Annie Ernaux, O Acontecimento, e quem escreveu foi a Yuko Tsushima. Então a gente vai falar sobre memória aqui e a primeira coisa é que a minha memória não anda muito boa, tá? Aliás, nesse livro tem uma outra epígrafe muito boa E que vai de encontro com a provocação que eu quero trazer hoje aqui.
Ela diz assim: meu duplo desejo, que o acontecimento se torne escrita e que a escrita seja o acontecimento. O que eu queria trazer hoje aqui é essa ideia de usar acontecimentos como ponto de partida da escrita e que depois ela se torne o próprio acontecimento, né? Você falou no outro episódio muito sobre a experiência que você teve quando escreveu o Não Acorde os Monstros, de que no fim você acabou confundindo o pai ficcional com seu próprio pai.
E acho que tem um pouco disso, né? Você se lembra de outros livros que te passaram essa mesma impressão dessa confusão entre realidade e ou mesmo que tratem de um acontecimento, a ponto, mesmo que seja um pequeno acontecimento, a ponto de transformar ele assim de maneira importante.
Nossa, se for para ser sobre o texto meu, aí é quase tudo, mas eu me lembro de muitos episódios pensando na minha escrita. Mas eu, na hora que você tava tava perguntando agora, eu vou deixar então o improviso rolar. Quando você tava perguntando, eu tava pensando de livros que eu leio, que eu li, só para ir para esse lugar que me veio. Porque eu acho o seguinte, Júlia, eu não sei o que você acha, vai ser legal a gente conversar sobre isso.
Para mim, os livros, os livros que me comovem são os livros que me convencem, sabe? E me convence do quê? Me convence do que eu tô lendo. Então assim, quando eu comecei, vamos ficar nessa mesma altura, Anierno, vamos gastar os autores, não vamos falar de todo mundo o tempo todo, né? Isso é muito bom. Ou seja, o nosso podcast vai ter vida longa. Mas aqui falando de Anierno, quando eu conheci, comecei a ler, eu fiquei muito impressionado assim, tanto pelo texto, que era um texto muito bom, e como aquilo mexia comigo e me levava para as minhas memórias.
Mas quando isso acontece comigo, o que eu percebo hoje, Júlia, É que quando está acontecendo, eu estou me envolvendo com a história a ponto de não me preocupar mais, não me lembrar mais que eu estou lendo um livro. É como se eu estivesse vivendo realmente a história de algum jeito. Eu acho que é isso, é uma sensação, é uma sensação muito boa que um livro pode fazer com a gente, né? A gente fica ali imerso. Eu ao menos eu consigo viver isso, me coloco na história, vivo a história, mas a história também liga coisas em mim, me faz lembrar das minhas coisas, das minhas histórias.
Quando eu leio, por exemplo, acho que eu comentei no último episódio, O Paixão Simples, eu não tô só na paixão simples que ela tá narrando ali, que não é nem um pouco simples, eu tô nas minhas histórias, né? Tô vivendo isso profundamente. Esse é um sinal de que o livro para mim me fez crer, sabe? Eu tô acreditando naquilo. E aí tem uma coisa que eu gosto muito para finalizar. E te devolver. Eu me envolvo, me envolvo como numa paixão mesmo.
Eu não tenho vergonha de dizer isso, eu me apaixono pela obra quando a obra me comove assim. E naturalmente isso respinga na autora, no autor. Não a paixão romântica, não tem nada a ver com isso, mas essa paixão de se envolver, de querer saber mais e tal. Eu acho isso super legal, eu acho que isso é super vivo também como leitor. Quando eu vou escrever, eu sou um autor que Eu adoro as minhas memórias e eu gosto muito de explorá-las mesmo no meu texto, não como quem tá escrevendo um relatório sobre o que eu vivi, mas como quem tá aproveitando os acontecimentos para escrever algo, fazer uma literatura, né?
Eu não sei como é que é para você, mas assim, já aproveitando o seu livro Cavalos Azuis Sem Cabeça, a sensação foi essa: eu tô lendo, mas em algum momento eu desliguei o modo leitor e tô lá dentro da história, tô viajando, tô dentro de um ônibus, tô dentro de uma estrada longa, tô no carro, acidente, tô lá investigando aqueles casarões, tentando encontrar essa história. Eu acho isso um bom sinal. Como é que você lida? Você lida bem, tipo, de se usar num texto?
Sim, super. Acho que a gente falou isso no episódio passado, né? Eu sinto que nenhum texto meu vai ter uma ausência de mim, assim, sempre vai ter um pouco de mim, né, em maior ou maior em menor ou maior quantidade, enfim. E a minha experiência com o Cavalos Azuis Sem Cabeça, por exemplo, é muito louca, porque na verdade a história nasce de um momento real da minha vida, que foi o encontro com um diário do século 18 do meu tetravô, e que eu nessa minha busca por memórias, que eu adoro, fui tentando ler, fui tentando decifrar, porque aquelas letras difíceis, né, tal.
E em determinado momento eu percebo que a grafia muda, as histórias mudam, os personagens mudam. E chegando no fim, eu vejo que o único homem que escreveu ali naquele diário que passa a ser um diário coletivo, foi esse meu tetravô. Depois dele foram várias mulheres de geração em geração até chegar na minha avó. Eu sei disso porque minha avó descreve o nascimento da minha mãe ali. Então eu fiquei totalmente intrigada com isso. Daí, para seguir com uma narrativa, Eu acabei usando isso como ponto de partida, mas também usei muitas lembranças vividas por mim, pelo meu irmão, vividas em sonho também.
E eu cheguei num momento da escrita que eu tava duvidando da minha própria memória. Eu não sabia mais se aquilo tinha acontecido de verdade, se a memória era minha ou de outra pessoa. Esse tipo de coisa, sabe? Fui embolando tudo na minha cabeça. Então o que eu quero dizer com isso, né, é que para mim é muito importante ter uma parte de mim ali dentro de todas as minhas escritas, porque é o jeito que eu sei escrever algo de verdade assim.
Acho que tem um ponto Um comentário assim, eu acho que tem uma coisa que algumas pessoas têm, outras não, ainda que escrevam muito bem, que é consciência, sabe, sobre isso que você tá falando. Você tá falando com consciência sobre isso, de ter noção de que o que você escreve, as coisas boas, né, assim, um bom trabalho literário, que você tá fazendo, você tá fazendo bem, porque você também tá escrevendo sobre coisas, uma ficção que você conhece.
Então você tem elementos para escrever melhor essa ficção. Muitas pessoas, eu sinto quando vejo falarem sobre seus textos, que não têm essa consciência, mas fazem a mesma coisa. Não sei o que que você acha. E algumas autoras e autores já têm muita consciência sobre isso. Essa autora que a gente tá comentando, a Nia, aqui em 2 episódios que não tem fim, ela tem muita consciência sobre isso, sobre esse gastar-se, né? Não sei se talvez por isso nós dois autores têm uns tantos dela, né?
Ah, eu acho que eu concordo com você. Acho que tem autores que não tem ainda a consciência para isso, mas eu acho muito difícil um autor não se colocar no texto. E tô falando de ficção mesmo também, sabe? Eu acho muito difícil difícil ter um, ser tão alheio à sua própria obra assim, não tem nada de você. Vai ter alguma coisa, nem que seja um modo de pensar ou um traço do personagem ou jeito de beber o café na xícara, sabe? Eu acho que alguma coisa sempre vai ter assim.
Deixa eu te provocar, nesse seu livro do Cavalos Azuis, aproveitando esse gancho, tem alguma coisa que assustadoramente que você pode contar para gente é você, tem alguma coisa que você lembra assim, cara, isso aqui é muito eu, isso aqui é um troço que aconteceu exatamente assim?
Algumas, mas eu também não quero estragar a leitura, essa aqui ainda não leu. A cena dela chegando na praia com o pai e pisando nos espinhos. E depois o pai tirando os espinhos da bunda dela e do pé e de tudo mais. Eu me lembro, realmente aconteceu comigo. Eu tinha acho que 3 anos mais ou menos e a gente viajou para Santa Catarina. Esse momento não era só eu e meu pai, mas eu transformei num momento da Ana com o pai dela.
Ah, interessante, porque é uma cena tão específica que é muito difícil de inventar uma cena dessa. A gente vai inventar algumas coisas que provavelmente são mais comuns se a gente não tiver vivido algo parecido. E aí realmente é uma cena muito específica, né? Os espinhos no pé, no bumbum, no corpo todo ali com o pai na praia. É muita camada interessante. Parece simples trazer isso para o texto, mas nossa, não é, não é nem um pouco, né?
Tem uma coisa que é interessantíssima, porque a gente fala muito do texto, da escrita assim, mas o texto é texto, né? Texto é uma É uma tecnologia mesmo escrever um texto. Você precisa ter uns conhecimentos, né, simples, simples não, básicos, para você conseguir pensar em algo, lembrar dessa memória, escrever, espinho, e isso ter um sentido dentro do que você tá escrevendo. Não é uma coisa muito, muito fácil como às vezes parece ser.
E eu acho que aí que tá uma dificuldade de algumas pessoas quando vão escrever e falar, poxa, eu não tô conseguindo, porque também depende dessa tecnologia. Essa tecnologia você melhora lendo mesmo, fazendo as coisas básicas, mas que são importantes. Treinar, experimentar muito, né? Mas quando a gente faz aí, quando, pelo menos para mim, quando eu faço usando essa memória aí, como essa cena sua na praia, né, vai ficando mais fácil mesmo, vai ficando menos impossível.
Você falou praia, eu fico lembrando, né, meu primeiro episódio na praia. Eu sou de Goiás, né, gente, você sabe disso, de Goiânia, Cerrado ali, não tem praia. E aí quando eu fui para praia a primeira vez foi com meu irmão gêmeo, com uns 12, 13 anos, num campeonato de karatê. Minha mãe não pôde ir, minha mãe sempre muito, muito rígida, muito rigorosa, muito preocupada com a gente, e ela não foi. E eu e Henrique fomos com a Federação Goiana de Karatê.
Estávamos muito bem protegidos, mas que eram só karatecas, mas a gente tava no Rio de Janeiro. Só que aí, quando eu pisei na praia, eu e o meu irmão, era a primeira vez no mar, a gente ficou tão maluco e entramos nesse mar, aí tomamos um puta caldo, me lembro disso, quase morremos, mas depois passamos o resto do dia nessa praia assim. Se minha mãe visse a gente nesse mar naquele dia, ela teria morrido, porque éramos nós dois e uma penca de gente que tava se importando pra gente, mas foi bonito demais.
Esse é um tipo de cena que se alguma vez eu tiver, quiser escrever sobre o mar e sobre essa primeira vez, tá lá, né? Só usar.
O Jonathan Frazin, que ele é um escritor, ele escreveu alguns ensaios que chama Como Ficar Sozinho. Acho que é da Companhia das Letras, se eu não me engano, saiu pela Companhia das Letras, né? E ele fala muito disso no ensaio, um deles, ele fala que a literatura é um veículo de autoinvestigação, como um método de envolvimento com as dificuldades, com os paradoxos da própria vida e tal. Então ele acredita que Quando você pergunta sobre um livro ser ou não ser autobiográfico, ele fala que é claro que o escritor vai usar material autobiográfico na escrita.
A diferença é se o livro for puramente autobiográfico, provavelmente ele não vai ser interessante, porque Tem essa, acho que tem essa coisa da gente também querer crescer um pouco as imagens, as cenas na nossa cabeça, né? Como se fosse um filme mesmo, uma coisa que a gente visualiza de uma certa forma e a gente quer pensar nesse, quer pensar numa outra cena, né?
Você tem um livro assim que para você foi muito importante para te Bom, o que te fez pensar em você e entender um pouco disso também, pensar mais nisso? Será que eu também não tenho umas histórias assim que eu posso escrever? Você tem um livro que te marcou?
Essas de um livro sempre ficam, você sempre me pega na curva.
No próximo você diz outro, lembra disso, sem compromisso.
Tem um livro muito recente que eu acho que não foi ele que me alertou para isso, de jeito algum, porque faz, sei lá, no máximo 2 anos que eu li, que foi um livro que me marcou muito. Eu li em espanhol, mas ano passado eu acho, ou no começo desse ano, foi editado em português agora, traduzido, que é o Por que São Tão Lindos os Cavalos, da Julieta Correia. É os cavalos, eu e os cavalos, mas é um livro muito bonito, de uma poesia muito melancólica também, mas de uma verdade quase absurda assim, sabe?
Porque ela é o relato de uma filha que tem a mãe passando por uma demência, né? Então ela vai acompanhando essa mãe e registrando as mudanças, registrando os sentimentos dela, registrando um monte de coisa. Então é como se fosse um diário sobre a demência da mãe. Eu fiquei completamente obcecada por esse livro, assim, eu achei de uma beleza e passei a indicar para todo mundo, assim.
E ele te fez pensar no seu texto?
Me fez pensar sobre essa exposição, sabe? Sobre a coisa do transbordar na escrita, assim, de colocar mais a emoção, sentimentos e a coisa na própria escrita, assim. Porque eu acho que às vezes tem muito medo de chegar num lugar piegas, num lugar muito brega, sei lá, sabe, ou bobo, quando se pensa em colocar a emoção dentro do texto, né? E esse livro foi um livro que me trouxe uma outra relação com isso assim, porque não é que as palavras são palavras melosas ou coisas assim.
O que acontece é que O próprio texto acaba transformando a sua leitura de tal maneira que, mesmo que você não tenha uma mãe com demência, você consegue se ver ali dentro daquele texto, sabe? Você consegue se identificar com muitas coisas e você consegue se colocar no lugar. Tem um trabalho de empatia do leitor com o autor ali que é muito incrível, assim. E tem um outro livro também que eu achei que foi um livro que me marcou muito, que eu também acho que li há uns 2 anos atrás, mais ou menos, que é um— e daí é em outro lugar assim que me marcou, que foi o Sobre a Terra Somos Belos por um Instante, do Ocean Vuong.
Ele é um poeta, na verdade, né? Ele começa como poeta E ele tem um trabalho de poesia enorme e tal. E daí ele escreve esse romance. Eu não sabia nada dele antes de ler. Eu fui ler a poesia dele depois, e daí eu entendi porque que foi um livro que me marcou tanto assim. Porque ele escreve, a narrativa dele se dá de uma maneira muito original para mim, né? O que ele faz é ele escreve um livro como se fosse uma grande carta para a mãe dele.
Só que a mãe dele, a família dele é de imigração vietnamita para os Estados Unidos, né? Então a mãe dele não entende inglês e ele escreve em inglês, né? E ela é semi-analfabeta. O que quer dizer que ela nunca vai ler aquela carta, aquela grande carta. E isso permite que ele fale sobre absolutamente tudo de maneira muito crua, sabe? Muito verdadeira. E é muito— e me provocou de uma maneira de que é possível falar da realidade e com a crueza da realidade, mas sem perder a poesia dela, sabe?
É muito lindo assim as coisas que ele escreve. E ele vai passando por várias, várias experiências, tanto experiência da descoberta da própria sexualidade, experiência da imigração, experiência do preconceito, experiência da violência que ele sofre. De todas essas maneiras, ele vai, ele torna isso tão real e tão poético que ele torna como uma experiência coletiva assim, sabe? Isso eu acho muito legal.
Você falou essa coisa do cru aí, dessa coisa aparentemente crua, poética, e eu acho interessante Porque para mim, eu sou poeta e a minha compreensão do meu texto poético foi compreender um pouco disso, de que a poesia não tá na invenção de palavras e rebuscamento, não tem nada a ver com isso, mas na nossa capacidade de ver essas belezas, ver um pouco mais, de enxergar um pouco essas belezas. Quando eu falo beleza, estou falando de coisas positivas, tô falando do belo inclusive na tristeza, nos lutos, desse belo dessa coisa literária, artística.
Foi um trabalho treinar essa atenção para essas coisas minhas que podem ser bonitas e se tornarem coisas coletivas. Mas é interessante porque quando eu leio um poema, a minha sensação, um poema que me comove, que mexe assim muito comigo, a minha sensação é de estar vendo mais, de estar ampliando esse olho, desse olho tá aprendendo enxergar mais coisas. Tem uma fábula do Eduardo Galeano que ele fala sobre isso, da função da arte, né?
O filho vai conhecer o mar, o mar de novo, o filho vai conhecer o mar, e aí ele, o pai vai com esse filho, caminham por dunas de areias, e de repente quando chegam de frente ao mar, de frente àquela imensidão de coisa, o filho pede para o pai, né, sem conseguir enxergar tudo, ele pede o pai, pai, me ajuda a olhar. E esse pedido de ajuda seria a função da arte. A arte nos ajuda a olhar. E a poesia, para mim, é meio que isso. Eu não preciso explicar as coisas, não é necessariamente as coisas cruas, porque é uma escrita, né, existe essa elaboração do texto, mas ela se parece uma coisa tão simples, mas uma coisa que eu não tava vendo.
Agora eu vi, agora apresenta, as pessoas E a sensação quando a gente lê um, quando eu leio um bom poema, é que caramba, esse troço tava aqui e eu não tava vendo. É muito simples e é genial, parece uma descoberta, né? Não sei. E eu tava lembrando aqui enquanto você falava, olha que coincidência bonita, você falou do livro como se fosse um diário, né? E eu tenho um arquivo no meu documento, no meu computador, que se chama Como Se Fosse um Diário, exatamente disso.
E ele não é um diário. Eu digo que ele não é um diário porque eu não tenho interesse em fazer um diário assim dizendo tudo que eu fiz, mas ele tem essa despretensão mesmo, onde eu posso, quando eu tô com às vezes uma dificuldade escrever algum texto, que sei lá, tô escrevendo um romance e travei nesse capítulo por alguma dificuldade, eu venho para esse arquivo meu. É a coisa mais fajuta. Eu venho esse arquivo meu como se fosse um diário e escrevo ali de algum outro jeito, um pouco mais solto, sem compromisso.
Aí o texto flui, aí eu devolvo para o romance, para o outro arquivo onde eu tô escrevendo. Ele tem essa leveza, é como se eu tivesse então aqui nesse lugar, não tem ninguém me julgando, aqui nesse lugar eu tô tentando fazer uma outra coisa, como se fosse um diário, mas ele também tem uma importância literária para mim, ó, essa mistura.
Não, é que eu ia falar que o diário tem muito essa característica de confessional, né, de um lugar de confissão, né? E acho que por isso que também traz tanta verdade.
Você tem na cabeça, já caminhando aqui para o nosso fim, tá? Porque vai bater 30 minutos de prosinha. Você tem Você tem na cabeça assim coisas que você imagina que ainda vai escrever, mas que não estão ainda, que você ainda não consegue por algum motivo?
Não, gente, não. Eu acho que ainda eu não sei. Eu, em relação à escrita, é o que eu percebi, foi muito isso, que eu preciso escrever desde um lugar que eu conheço, né? Então eu já larguei muitos textos porque eu gostava da ideia, mas eu não ia saber desenvolver, sabe? Eu não consigo imaginar agora o que eu quero. Na verdade, tem, tem um assunto que eu gostaria de falar, mas eu não gostaria de falar como normalmente é falado, e por isso é um texto que eu acho que eu nunca vou escrever.
Olha só, porque eu não saberia. Eu acho, ou eu preciso de tempo para conseguir imaginar um outro formato, um outro jeito, mas é muito sobre a— gostaria de escrever muito sobre a, não só sobre a síndrome que a minha filha tem, que ela tem uma síndrome rara, mas na verdade mais sobre o tempo que eu passei no hospital com ela, seria mais sobre essa fase assim, mas muita coisa já foi escrita desse lugar e que não necessariamente eu gostaria de replicar, sabe?
Mesmo sendo uma experiência própria, sabe, dentro daquilo. Então eu acho que é um texto que, por exemplo, eu nunca vou escrever.
Ou de repente não encontrou um momento, um lugar para esse texto. Tem uma história da minha própria família, história que eu vi assim, foi uma cena que eu vi que ela é muito forte, E eu já tentei, sabe, escrever, já tentei colocar num romance, agora eu tô trazendo ela para um outro romance porque eu tô tentando, eu acho que agora se encaixa no outro, mas toda vez eu bato na porta e não consigo entrar, sabe? Ainda não consigo escrever essa cena.
Talvez a gente tenha, né, como escritores e escritoras, essas coisas que a gente vai carregar para o resto da vida, sei lá, não dá para a gente ter certeza, mas também acho bonito Depois poder dizer isso lá no finalzinho, ó, isso aqui teve uma história que eu persegui a vida inteira e não consegui. Eu queria deixar aqui, Júlio, duas coisas. Nem deu tempo, mas a gente vai ter que encerrar para começar um outro depois, porque eu já sei até o que que eu vou conversar contigo para o próximo.
Você me deu uma ideia aqui. Você me deu uma ideia. Mas eu, quando você trouxe esse assunto, eu me lembrei de dois livros, e não é uma coisa certa não, mas eu me lembrei de dois livros, então resolvi trazer, que é o Domenico Starnone, o livro Assombrações, que foi o primeiro que eu li desse autor, que é italiano, e eu gosto muito dele mesmo, é tipo Helena Ferranti, que eu leio tudo, apesar de gostar mais de Helena Ferranti, e me trouxe muita memória para escrever, continuar escrevendo sobre ele no jornal, jornal, nas crônicas.
E aí depois disso acabei usando bastante essas memórias para escrever textos mais longos e romances também. E o outro livro que foi o contrário, foi o— eu comentei no primeiro episódio, foi o Blue Nights, o da Joan Didion. Ele me fez lembrar muito da minha avó. Na verdade, eu tinha acabado de perder minha avó materna e aí esse livro me tocou profundamente. Nessas memórias que tinham a ver com a minha avó, sabe? Então são dois livros que para mim também foram muito importantes assim para trazer mais matéria para o meu texto.
Então eu quero deixar isso registrado que são dois livrões também, para mim são livrões.
Para mim, O Ano do Pensamento Mágico da Joan Didion vem nesse lugar também porque eu li logo depois que meus pais faleceram. E ela fala muito dessa experiência da morte de repente, né, que você não se prepara para aquilo e de repente a pessoa não tá mais ali. Parecia que eu tinha escrito aquilo, sabe? Eu me identifiquei em todas as linhas daquele livro. Foi também bastante potente assim para mim. Eu não gosto muito dessa palavra, mas foi muito potente para mim, para minha escrita assim, essa leitura.
E eu adoro ela, adoro esse livro também. Esse é o que ela registra mais, o momento da perda do marido, né, do John.
Isso.
Ah, é muito bom. Nesse que eu comentei do Assombrações, eu esqueci de comentar, Julia, esse é sobre uma história de um vô com filho. Um casal tá numa crise, tá passando por uma crise, convida esse pai da mulher para ficar com o filho enquanto eles fazem uma viagem. E esse vô com o filho, eles têm uma relação estranha. Esse filho é às vezes uma assombração para esse vô, mas também é uma memória dele. E esse menino parece o capeta mesmo, assim, às vezes parece que ele vai fazer, vai matar esse velho, mas não, é só atenção da própria escrita do Domênico assim falando sobre essas relações familiares que eu gosto muito assim, eu acho que você gosta também pelo que a gente tá conversando aqui.
Eu ia propor só ler um trechinho desse livro que eu falei, do Sobre a Terra Somos Belos por um Instante, que eu marquei e tem tudo a ver com o que a gente falou agora.
Ótimo, nós vamos fechar com ele então.
Ele fala assim: a memória é uma escolha. Você me disse isso uma vez, de costas para mim, do jeito que um deus falaria. Mas se você fosse Deus, iria vê-los. Você ia olhar para esse bosque de pinheiros, as extremidades brilhando ardentes no topo de cada árvore, suavemente macias em seu vermelho outonal. Teu olhar atravessaria os galhos, a luz estilhaçada pelos espinhos, as folhas caindo enquanto você pousava seus olhos de Deus sobre elas.
Você acompanharia as folhas que se lançaram do alto ao passar pelos galhos mais baixos, rumo ao solo fresco da floresta, reposando sobre os dois meninos deitados lado a lado, o sangue já seco em seu rosto. Daí ela— ele vai descrever uma parte de bastante violência que aconteceu com ele, e ele termina assim: Mãe, uma vez você me disse que a memória é uma escolha, mas se você fosse Deus, saberia que é um fluxo.
Pô, que bom, minha amiga! Que final bom para a gente encerrar esse episódio. A gente termina assim, mas volta agorinha para falar de outra coisa, outra coisa que você me provocou aqui. Me aguarde.
Combinado. Ansiosa. Um beijo.