Episódio 06 - Corações partidos
Algumas pessoas dizem que preferem ler livros fofos porque a vida já é dura demais. Mas será que isso faz sentido? Ou melhor: será que a vida também no fica mais fofa com as literaturas que nos ajudam a viver mais? É desse ponto que Luca Brandão e Julia Caiuby partem para falar de leituras que lhes ajudaram a viver. Escute, está gostoso demais.
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Julia e Luca são escritores e entusiastas de livros e memórias. Nas redes:
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Obras citadas neste episódio:
- O velho e o mar - Ernest Hemingway
- Bliss - Katherine Mansfield
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Link p/ os livros mais recentes de Julia Caiuby e Luca Brandão:
- Cavalos azuis sem cabeça - Julia Caiuby (ed. Patuá):
https://www.editorapatua.com.br/cavalos-azuis-sem-cabeca-romance-de-julia-caiuby/p
- Não acorde os monstros - Luca Brandão (ed. Rocco) :
https://www.amazon.com.br/Não-acorde-monstros-Luca-Brandão/dp/6555325542
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Edição: Luca Brandão
Trilha sonora:
What The Old Man Says by Stefano Vita is licensed under a Attribution-NonCommercial-ShareAlike License
Change by Stefano Vita is licensed under a Attribution-NonCommercial-ShareAlike License.
- A literatura como forma de compreender e expressar a dor humanaDenise Fraga·Chico Buarque·sofrimento
- A identificação feminina com o conto 'Bliss' e a universalidade da narrativaBliss·Katherine Mansfield·lugar da mulher·universalização da narrativa
- A conexão pessoal com 'O Velho e o Mar' e a figura do avôO Velho e o Mar·Ernest Hemingway·memória afetiva
- A capacidade da literatura de provocar e ampliar a visão sobre situações pesadasJoan Didion·Ano do Pensamento Mágico·luto·Paula Fabril·Casa de Família·Annie Ernaux
- A poesia como refúgio e fonte de inspiração em momentos difíceispoesia·Mário Quintana·Caderno H·Adélia Prado
Você acha que sua dor e seu coração partido não têm precedentes na história do mundo, mas então você lê. Então eu fiquei muito pensando sobre isso, sobre os livros que acabam tocando a gente de alguma maneira, que a gente se sente representado de alguma forma ali, mesmo que não seja uma experiência vivida por por nós assim como leitores, né? Queria ver com você se você lembra de alguns livros nesse sentido e até sobre um pouco sobre a importância de transformar a nossa própria narrativa numa narrativa capaz de transmitir isso.
Nossa, eu achei lindo demais essa frase, já conhecia quando você mandou para a gente partir daqui, gostei muito e é legal demais que a gente tá no podcast falando de memória e rapidamente minha memória trabalhou assim e não parou de trabalhar pensando nisso. Eu me lembrei de uma coisa quando você me mandou o tema pra gente sugerindo pra gente conversar, de um vídeo que roda na internet da Denise Fraga falando por que que a gente lê livros, por que que a gente consome arte.
E aí ela fala, a gente consome arte pra chorar mais bonito quando tiver sofrendo, né? Então quando a gente sofre por um amor, uma desilusão, a gente não sofre sozinho, sofre lembrando da música do Chico Buarque. Então a gente sofre com Chico Buarque do lado. Acho lindo pensar nisso e essa provocação me levou direto para essa provocação também da Denise Fraga, né? Eu leio, eu consumo arte, eu mergulho em arte e minha vida amplia muito muito, né?
Nossa vida amplia muito, o jeito de chorar muda, a gente chora realmente mais bonito, a gente não chora mais raso, né? A gente chora profundamente. Sua provocação foi muito boa porque improvavelmente eu não teria pensado nesse livro, mas aí me lembrei, eu falei muito da minha avó e minha mãe nos episódios anteriores, mas me lembrei do meu avô que foi uma figura muito importante a partir do meu nascimento. Ele tinha sido um cara violento e alcoólatra, alcoólatra e violento antes de eu nascer.
E quando eu nasci, meus irmãos nasceram, meu avô já era um alcoólatra em recuperação. Então foram mais de 30 anos no Alcoólatras Anônimos sem beber e tal. Então nunca vi meu avô beber. Só que aí eu me lembrei de um livro, né? Me lembrei do Velho Mar, do Hemingway. E na época, olha que loucura, eu não sou muito de falar de livros clássicos, apesar de ler muitos livros clássicos, ter lido clássicos, né? Em algum momento da vida.
Mas O Velho Mar, na época, foi um livro muito rápido, né, um livro curto, mas um livro muito profundo para mim, porque ele me lembra muito meu avô. A cena da criança, do menino ali querendo aprender com o velho, tanto na ida quanto na volta do velho para o mar, né. Depois que ele volta, o reencontro desse velho com esse menino ali na praia, na comunidade, na vila. Me lembra, me faz lembrar muito do meu avô e me faz me lembrar do meu avô não como uma coisa geral, ah, o meu avô como um todo, não.
Nos últimos, no último ano de vida do meu avô, ele ficou acamado mesmo assim, sabe? Ele ficou, ele ficou muito mal, ele teve algumas complicações na vida, possivelmente, obviamente em consequência da bebida, né? A vida toda que machucou muito ele. Então o último ano foi muito difícil, ele teve um câncer de próstata e outras coisas que foram acumulando e ele ficou muito na cama. Então ler O Velho Mar em algum momento me— a primeira vez que eu li não pensei no meu avô, mas a segunda vez que li foi uma releitura há uns 5 anos atrás.
Eu fiz essa releitura e fiquei muito emocionado com o livro, diferente da primeira, sabe? Ele me deu um jeito diferente de olhar para a história do meu avô e eu acho que tem a ver com essa frase. Bom, foi para onde essa frase me levou, sabe? Eu fiquei pensando muito nisso. Olha que coisa bonita, um livro me faz pensar diferente sobre a história que eu já tenho, que eu já pensei sobre ela.
Que eu achei muito interessante porque meu primeiro pensamento foi também de um livro muito antigo, não chega a ser um clássico porque mulheres que escreviam no começo do século 20 demoraram para se tornar clássicos, né? Muitas estão sendo descobertas agora só. Mas eu li quando eu tava próxima dos meus 30 anos e foi um— me fez assim refletir demais sobre a vida, sobre o lugar da mulher e todas essas coisas que a gente discute às vezes muito da boca para fora, mas que estavam dentro de mim naquele momento assim.
E foi muito lindo porque foi o livro Na verdade é um conto, não é um livro, que é o livro Bliss, ou êxtase, felicidade em português, da Kathryn Mansfield. Eu tava então perto desses meus 30 anos e eu consegui me conectar com uma personagem de 1918. Eu achei isso muito maravilhoso, assim, uma tentativa muito bem-sucedida de universalizar a narrativa.
Você se lembra por que que você se conectou assim? Tipo, qual que foi o—
Sim, sim, eu posso até ler o trechinho porque eu achei que foi muito, muito bonito assim. Vou ler aqui. O que fazer quando você tem 30 anos e ao virar a esquina da sua própria rua é tomada repentinamente por essa sensação de alegria, pura alegria, como se de repente você tivesse engolido um pedaço brilhante do sol da tardinha e ele queimasse no seu peito, trazendo chuviscos de brilho a cada partícula, a cada dedo da mão e do pé.
Ah, não há como expressar isso sem parecer bêbada e errática. Como a civilização é tola! Por que ter um corpo se é preciso trancá-lo numa caixa como um violino muito, muito raro?
Aí, a partir dessa leitura, dá para perceber, dá para sentir a empolgação aos 30 anos lendo isso e vivendo coisas, né?
É, e acho que além de me surpreender com a conexão que eu tive com uma narrativa do começo do século 20, tem toda essa coisa que o conto provoca de reflexão e de questionamento de por que que as mulheres de qualquer classe social, de qualquer período, né, por que que a gente tem que se restringir a espaços mais reclusos, a espaços seguros, abandonar nossos desejos e etc. E é uma coisa que vem até hoje, isso, né, em diferentes, claro, níveis e sociedades e comunidades se diferenciam de alguma forma, mas você vê e você vive como mulher essas coisas, né.
E nesse conto, a Katherine Mansfield, ela transforma isso, né, ela coloca essas mulheres como mulheres que sonham, que não têm limite para sonhar, que não têm medo, que transbordam nas emoções. E foi muito bonito ter esse escape, essas reflexões e pensar que, sei lá, eu no fundo, no fundo, me reconhecer numa angústia dessa mulher que é proibida de tudo isso, mas que ela vai transformar no conto E daí eu passo a desejar ser essa mulher que eu não sou, entendeu?
Eu acho que isso foi muito— me deu uma sensação muito de liberdade de também poder escrever personagens assim um pouco mais, sabe?
Bonito demais. Tem uma coisa aí que me pega muito você falando, é que parece que os homens foram o oposto disso na ideia de uma liberdade profunda e sentimental e provocativa, experimental. Mas o machismo que faz com o homem, que fez com o homem, continua fazendo, é inibir mesmo de que ele viva também coisas que são assim tão mais profundas e densas e interessantes. Eu fico lendo e eu penso, obviamente que nós estamos falando de uma questão de vocês mulheres, mas o machismo ele arrebenta o homem nesse sentido de não poder viver também isso, né, viver paixões de um jeito mais sentimental ou do jeito que quer, do jeito, do jeito mais próprio, é muito íntimo, subjetivo, é um modelo muito estabelecido de paixão, de amor, de entrega, da própria relação.
Porque eu leio isso, eu escuto você falando e mexe muito comigo, mexe muito com as lembranças, mexe muito com coisas que antigamente eu não vivia por conta dessa estrutura também, que obviamente violenta muito mais vocês, claro, mas é uma estrutura que é violenta para todo mundo. Essa literatura que a gente discute muito aqui pensando assim, ela me libertou muito, ainda continua me libertando para questões que eu ainda não vivi, por ser, por ter sido por muito tempo esse filho dessa estrutura mesmo, né?
Eu conto muito, escrevo muito hoje sobre o meu pai, que não é sobre o meu pai, mas sobre uma figura de pai, né, a partir das vivências que eu tive com pai, com vô, com, igual eu tô falando do meu avô aqui. E às vezes eu fico pensando, Júlia, nisso assim, quando depois de escrever, o que que eu tô fazendo? Eu tô tentando viver outro troço, sabe? Tô tentando viver uma coisa que eu acabei de ler aqui num livro. Eu li aqui, sei lá, a Nirnô revoltada na sua infância com o pai, como foi no começo desse episódio, a fala do Baldwin.
Eu me projetando nesses lugares, né, também. E sendo homem, assim, é muito— nesse sentido é muito parecido, mas também é muito libertador. Me dá muita paz ler as mulheres hoje por isso, porque eu não encontro na literatura feita por homens, e eu tô generalizando mesmo, mesmo, essa possibilidade de viver outras coisas, sabe? Gostei da palavra êxtase aí nesse livro, é o título dele, né?
Na verdade tem algumas, né? Pode ser felicidade, êxtase, tem algumas traduções. Acho que a última que ficou é êxtase, mas se eu não me engano acabou de sair uma nova publicação da Nós que tá como bliss mesmo, em inglês mesmo.
O êxtase me parece mais interessante porque felicidade parece que leva para muitos lugares que já não tô indo. Você tem algum livro, alguns livros pode ser, que você usa para tipo sentir um pouco mais de, sentir um pouco melhor quando você tá meio que na bad assim, numa ruim? Você tem que não seja Minutos de Sabedoria, claro. Nossa, que você volta para livros assim para reler porque você se sente bem lendo ele?
Eu volto normalmente, eu volto por alguma questão que me chamou a ele, não necessariamente para eu me sentir bem assim, mas por uma lembrança de que eu gostei, que me fez bem. E daí eu vou dar uma olhada nas minhas anotações Mas eu risco todos os livros, então eu vou dar uma olhadinha o que que eu prestei atenção ali, ou dependendo do tamanho, releio. Eu não sou muito de reler, mas tenho gostado assim de pegar algumas coisas. Outro dia uma amiga minha me pediu um livro que chama O Conto da Ilha Desconhecida, do Saramago, que é bem pequenininho.
Assim, né, um continho. E daí eu fui buscar ele aqui na minha biblioteca e peguei ele e acabei lendo, sabe? Porque eu lembrava que eu tinha gostado muito, lembrava que tinha sido algo muito prazeroso na época e muito interessante, mas eu não lembrava direito da história, né? Então eu sentei ali e foi ótimo. Ter relido, porque agora eu já sou muitos anos mais velha, com outras experiências e tudo mais, outra distância. E daí você acaba vendo outras coisas também.
Acho muito bom isso. Mas pensando nisso que você falou, eu acho que talvez os livros que eu recorro nesses momentos assim são livros de poesia, não necessariamente um poeta alegre, não específico também. Eu vou variando assim. Eu tenho duas estantes aqui em casa, duas prateleiras em casa só de poesia. É a única parte organizada da minha biblioteca. E daí, e daí eu, nesses dias que eu tô um pouco mais assim, eu falo, nossa, calma aí, deixa eu pegar alguma coisa aqui.
Daí eu vou ler vou ficar um pouco naquele lugar, que é um lugar que me alimenta muito. E acho isso muito bom para começar assim o dia, para sair de um lugar que eu tô talvez mais introspectiva ou talvez mais sem vontade de fazer alguma coisa. E daí depois disso fica um pouquinho melhor.
É curioso porque é meio que o contrário do Minuto de Sabedoria mesmo, porque a poesia não te dá um saber assim, né, claro, objetivo. E às vezes ela, o que ela faz é bagunçar mesmo, mas é uma bagunça boa, né? Engraçado, eu fiquei rindo porque para mim também é bem assim. A poesia é uma volta. Não é que eu só leio a poesia assim, mas a poesia é uma volta. Quando eu realmente tô lá, quero dar uma desanuviada, quero retomar alguma coisa, poesia é um lugar que eu vou, que não é— é uma segurança nesse sentido.
Eu sei que se eu voltar para ali vai ser massa, vai ser bom e tal. Mas antigamente, e ainda é hoje, Sempre que eu vou dar uma oficina de poesia, eu pego, a primeira coisa que eu faço é pegar o Caderno H do Mário Quintana, que não é um livro de poesia, é um livro de recortes de crônicas que ele publicou nessa coluna chamada Caderno H, né, do Zero Hora ali em Porto Alegre. E só que ele tem também poesia e tem uma tonalidade poética nas prosas, que é coisa do Quintana.
Por muito tempo eu fiz isso, o Caderno H era tipo uma Bíblia e ficava do lado. Ele é divertido e às vezes trágico e às vezes cômico, cômico trágico, tragicômico. Então ele faz uma baguncinha boa, mas ele sempre também me dá uma esperança na escrita em si, não na vida, não resolve nada e tal, mas ele me dá essa alegria dessa esperança quando eu tô perdido no texto, quando eu tô querendo escrever algo que eu não sei muito bem o que é.
Esse livro eu retomo, mas eu também volto muito para poesia, volto para poesia de Adélia, para umas poetas que me lembram o meu começo na escrita. Assim, é o meu minuto meio que de sabedoria mesmo. Também não faço o que você falou aí, também não faço essa releitura de livros hoje, porque eu rabisco bastante os livros. Então essa releitura é muito mais pontual assim. Mas O Velho Mar mesmo, que foi o que eu comecei falando, ele foi um livro que eu já li, eu acho que umas 3 vezes assim.
Hoje Quando eu peguei para conversar com você, me deu vontade de ler de novo. Ele é muito rápido, né? Ele é curtinho e tal. E tem umas coisas nele que realmente lembram as cenas com o meu avô, porque o meu avô foi uma figura divertida demais para mim. Ele foi o cara que me ensinou a fazer muitas coisas que hoje eu tenho muito orgulho de fazer com as mãos, assim, pipa, e me virar, arrumar um, ser uma pessoa funcional mesmo, que é arrumar um um ferro de passar, arrumar o chuveiro que estragou, enfim, arrumar as coisas da casa.
Foi o meu vô. Meu vô, ele era mecânico e era o cara que arrumava tudo que pifava na família. Às vezes não arrumava, mas ele chamava para ele e gastava o tempo ali, de repente aparecer com alguma coisa nova. Ele comprava em vez de arrumar, mas ele era o cara que dizia que arrumava. Então ele me ensinou a fazer carrinho de rolimã. Então a morte dele foi a morte disso, assim, no sentido de Teve essa tristeza de perder o cara que me ensinou a fazer muitas coisas.
Meu pai não fazia. Meu pai, quando ia fazer, sempre dava muito errado. Meu pai era uma espécie de figura cômica do homem, assim, o homem que quer ser um homem nesse estereótipo do homem que resolve tudo e nunca conseguia resolver nada. Era muito tragicômico. Então a figura era desse vô. Eu até peguei um trechinho aqui só para finalizar, que foi onde me pegou, mas é muito, muito curtinho, que é no meio do mar mesmo assim, quando o velho pesca o peixe grande que vai ser essa grande jornada dele no mar, né, o grande acontecimento.
Aí ele narra assim, ó: o peixe avançava regularmente e foram se afastando devagar sobre a água calma do mar. O resto da isca ainda estava na água. Mas era impossível puxá-la para o barco. Gostaria de ter o garoto aqui comigo, falou o velho em voz alta. Estou sendo rebocado por um peixe e sou eu o poste ao qual está preso o reboque. Podia puxar mais a linha, mas ela podia partir-se também. Preciso aguentar enquanto puder e dar-lhe linha quando for preciso.
Graças a Deus que está avançando direito em vez de ir para o fundo. É bonito, né? No meio do mar, o velho tá lá, pesca um peixe e lembra do garoto. Então é muito meu avô que quando a gente nasceu amou a gente loucamente, sabe? Ligava o dia inteiro para saber como tava e tal.
Eu acho que é muito essa reflexão que me veio com essa frase, era para falar muito desse lugar assim, quanto para mim como leitora É importante essa capacidade da narrativa de se abrir para o leitor, sabe? Ainda que seja um livro em primeira pessoa, ainda que seja uma narrativa de outro século, ainda que seja num, sei lá, num ambiente, num país que não tenha nada a ver com a minha cultura. O primeiro lugar que eu vou buscar nesses livros é muito esse sentido de universalização, né, de eu poder me conectar de verdade com aquela narrativa.
Então, para mim, passa por essa experiência de eu quero sentir o que aquele personagem tá sentindo. Então vai muito além do informativo, da própria descrição só, sabe? Tem mais a ver com a exploração das sensações, com como isso é colocado no texto, das relações, enfim. Eu posso não ter vivido nesses anos 20, por exemplo, 1920, mas eu entendo a angústia daquela mulher, sabe? E eu sei qual é a dificuldade para para uma mulher poder dar continuidade aos desejos dela e enfim, outras milhões de coisas assim.
Acho que é muito bonito quando, quando a gente encontra esses lugares nos livros. São livros que, pelo menos para mim como leitora, são os mais interessantes assim. Eu lembro, por exemplo, quando meus pais faleceram, né? Eu perdi os dois num intervalo muito curto de 3 meses. Eu não sei se alguém me recomendou, não me lembro bem. Eu peguei o Ano do Pensamento Mágico da Joan Didion para ler. E assim, já na primeira página, a minha, a minha sensação foi tipo, cacete, eu poderia ter escrito isso aqui!
Como ela sabe tudo que tá passando dentro da minha cabeça e do meu coração, sabe? E na verdade, assim, as mortes são completamente diferentes. Aquela tá falando do marido dela que morreu de um determinado jeito, e meus pais faleceram completamente de outro, assim. Mas a frase inicial dela, assim, a vida muda rapidamente, a vida muda em um instante. Você se senta para jantar E a vida que você conhecia termina. E assim, foi essa a sensação.
Eu não tenho nada a ver com a vida dela, moramos em culturas diferentes, vivemos coisas diferentes. Ela tinha uma idade mais avançada do que eu, por exemplo, nessa perda. E tudo isso. Mas eu me reconheci ali dentro e consegui, e entrei no livro dessa forma, sabe? Eu acho que pode ser de diversas formas, não necessariamente você vai se reconhecer ali num drama ou em alguma coisa maior. Você pode se reconhecer de várias outras maneiras, né?
Se reconhecer por um jeito de falar, por um jeito de agir por uma característica da personagem ou por um pensamento dela. Eu acho que essas coisas todas ajudam muito nessa sensação de pertencimento da experiência da leitura, sabe?
E às vezes é uma palavra mesmo que faz o leitor se ver tão parecido com a história, né, que tá ali no livro, as histórias que viveu, às vezes escrevendo para o jornal sobre pai, sobre vó, sobre vô. É muito comum receber as mensagens dos leitores falando, nossa, essa história é a história da minha família, quando não é, tem menor chance de ser. Mas ela é, né? Ela, essa coisa individual vira essa coisa coletiva das famílias mesmo, das relações que de um modo geral são parecidas, né?
Claro, são figuras muito, muito comuns, a perda, o luto. Eu acho que aqui que tá uma coisa muito interessante sobre a escrita que as pessoas confundem um pouco. Não é falar sobre um pai que vai fazer a outra pessoa pensar no seu próprio pai, mas o modo que fala, a capacidade de entrar um pouco mais na história, dá um pouco mais de vivência dessa história, um pouco mais de— eu tô falando do detalhe, mas o detalhe que precisa para essa história existir vai fazer com que o leitor sinta, viva essa história para dentro.
E aí, vivendo essa história para dentro, como eu vivo lendo os livros, mas também vivo tentando escrever, né, os livros. Você faz isso, é que vai fazer o leitor viver e pensar no seu próprio pai, na sua própria mãe, na sua avó. Não é o texto muito amplo e geral como as pessoas vão às vezes escrever, tentando alcançar isso. É esse detalhe mesmo que às vezes se repete, e às vezes também nem é uma repetição, mas faz a pessoa pensar: e como é para o meu pai?
E aí daí para frente o livro já não é sobre o pai de quem tá tá escrevendo, ou uma ficção de quem escreveu, é de quem tá lendo mesmo, né? Isso é muito, isso é muito interessante. Aí eu me lembro da Denise falando sobre Chico, por exemplo, porque que agora eu choro mais bonito, sinto que a história não é a mesma, mas é uma tristeza, né? Então quando eu estou triste, eu vou me lembrar de outra forma de ser triste, e ela melhora a minha tristeza.
Ela não precisa acabar com a minha tristeza, ela só me lembra que eu não tô sozinho sendo triste, existe outras tristezas, e há uma beleza de sozinho sendo triste, mas não sou só, não é o mundo contra mim, né? O mundo todo também tem suas tristezas. Deixa eu te fazer uma última provocação, porque nós já estamos batendo nos 30. Caramba, é muito rápido! Ainda bem que a gente vai fazer 10 temporadas aqui. Olha, eu falei de livros assim que você busca para, para às vezes no momento meio assim, ah, quero dar uma esclarecida, vou ler alguma coisa que eu já sei.
Mas também acho que o livro, ele nesse lugar que a gente tá falando para mim, pelo menos, vou falar de mim, é o contrário. Às vezes eu quero dar uma provocada mesmo. Então eu não vou ler Joan Didion para acalmar meu peito, não é isso. Eu vou ler Joan Didion para provocar meu peito. E de algum modo, hoje, para mim, isso me acalma. Dessa mesma forma, por que que eu vou ouvir a tristeza de uma música? Porque ela acalma minha tristeza.
Você tem na literatura assim esses livros que te provocaram a melhorar a forma de ver situações que eram muito pesadas, como você acabou de narrar, a morte do seu pai, da sua família, da sua mãe, do seu pai, com o livro da Joan Didion. Mas você recorre a eles para melhorar a tristeza?
Não, não. Para mim, esses livros são mais para fazer pensar mesmo, né? E quando eu falo de me reconhecer, não necessariamente é reconhecer a minha história ou reconhecer as minhas coisas naquilo ali, né? Eu posso não ter feito, vivido nada parecido com aquilo, Mas é o que você disse, a forma de colocar a história, a forma de escrever, vai me possibilitar a experiência daquilo. Então, mesmo que seja não ficção, mesmo que seja, entendeu, eu vou me conectar com aquilo de alguma forma que eu vou experimentar aquela trajetória, aquela narrativa junto com a narração, sabe?
É isso que é muito legal para mim. Um livro que eu lembro que me provocou muito nesse lugar de melhorar, talvez, mas eu tô usando melhorar não é de ficar bem, é de ampliar. Não, não, não foi nem de ampliação da tristeza, mas foi talvez uma ampliação da visão sobre algumas coisas, sabe? Foi um livro que eu li que chama Casa de Família, da Paula Fabril. Eu li ele durante a escrita do meu romance. Ele não era nem para ser— eu li porque eu tava afim, tinha lido alguma coisa sobre, mas acabou me fornecendo muito material de pesquisa e algumas coisas, porque ele foi essencial para mim para refletir sobre a continuidade das relações coloniais dentro da classe média paulistana.
Então ele acabou não só servindo como esse material de pesquisa para minha própria história, mas como uma oportunidade de olhar criticamente para os arranjos da minha família, sabe? De onde veio a minha família? Como que as coisas se deram? Quais eram as estruturas? O que foi chegando até a gente dos meus parentes que vieram lá de Portugal em 1700 e tralá lá, entendeu? Foi assim, foi uma mudança de visão mesmo que me trouxe aquilo.
Claro que tem o reconhecimento de muitos signos, né? Ela tá falando de São Paulo, ela tá falando de uma família meio na década de 80, se eu não me engano, 80, 90. Então tem muitos signos que para mim eram conhecidos ali, né? E eu, a estrutura da família como se deu ali também. Então eu pude olhar para minha própria família através daquele livro. Isso foi muito mágico. Acho que é isso.
Uma das autoras que eu sou muito repetitivo, né, mas que me ajudaram a olhar melhor para as relações familiares que eu queria escrever mais e tal, sempre foi a Annie Ernaux, que sempre me mostra um outro jeito de falar sobre aquela mesma relação. Não cair em lugares muito comuns, mas ao mesmo tempo, pô, não, realmente tem coisas que eu ainda não falei sobre uma relação que aparentemente era bonita, mas que não é só isso, ela tem outras coisas.
E aí eu aumento as possibilidades de assunto e de formas de falar sobre a mesma pessoa, talvez sobre a mesma cena, talvez sobre o mesmo episódio mesmo, mas com outras nuances assim. Ela me estimula muito. Pô, nós já batemos o nosso tempo. Deixa eu ler um final de um trecho aqui. Não sei se você tem alguma coisa para ler também, mas olha só, do Velho Mar, quando no final do livro, não é spoiler, mas no final do livro também, se fosse fazer o quê?
No final do livro o velho chega na praia, né, destruído assim, muito cansado com a luta que teve com peixe grande. E aí ele deixa as coisas e vai para cabana dele, para casa dele lá, casinha e o menino vai encontrá-lo, né, vai buscar saber se o velho tinha voltado, porque mais de 80 dias longe de casa. E aí é assim: dormia ainda quando pela manhã o garoto espreitou pela porta. O vento soprava com tanta força que impediu os barcos de pescar de sair para o mar.
Manolim tinha se levantado mais tarde e foi em seguida para cabana do velho, como fazia todas as manhãs. O garoto viu que o velho respirava, observou-lhe então as mãos e começou a chorar. Saiu para a rua sem fazer o menor ruído e afastou-se para ir buscar café. Durante todo o caminho não parou de chorar. Muitos dos pescadores da aldeia estavam em volta da embarcação do velho Santiago e olhavam para o que estava amarrado ao do lado do barco.
Um deles estava com água até os joelhos, medindo o esqueleto com um pedaço de linha. O garoto não desceu à praia. Já estiveram lá, e a seu pedido, um dos homens se encarregara de tomar conta da embarcação. É bonito porque o menino ficava indo a essa cabana para ver se o velho já tinha voltado, e torcendo muito para que ele, né, voltasse. E tal. E aí um dia ele vai ver o velho lá cansado dormindo e ele não acorda o velho, ele só chora e sai.
Eu acho uma ceninha tão bonitinha assim, e ao mesmo tempo não é uma cena romântica, né? O legal esperado pelas pessoas talvez fosse que ele fosse lá e risse, abraçasse o velho, uma cena bem clichê. Mas ele volta e chora, mas ele vai buscar um café. É uma cena amorosa, lembro, realmente remete muito ao meu avô, porque tinha uma tristeza ali na nossa relação também que era desse velho morrendo muito rápido e ao mesmo tempo ainda fazendo café, se preocupando com a gente, saindo pra rua sozinho.
Eu vou contar um segredo aqui: eu nunca li esse livro, mas eu não me importo com spoiler porque eu acho que o que importa mesmo é a nossa experiência de leitura. Então