Episódios de Déjà li

Episódio 05 - Quem te ensina a escrever?

16 de agosto de 202629min
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Você se lembra como aprendeu a escrever? Como foram seus primeiros passos? As pessoas que estavam contigo nesse momento? De onde nasce essa vontade tão bonita de colocar em palavras as histórias das nossas cabeças? Nesse quinto episódio, as memórias de Julia e de Luca são forçadas a irem um pouco mais longe. Na origem. E será que conseguem? Ouça!

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Julia e Luca são escritores e entusiastas de livros e memórias. Nas redes:⁠⁠⁠⁠⁠⁠

⁠@juliacaiuby⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠

⁠@lucaoescritor⁠⁠⁠⁠⁠

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Obras citadas neste episódio:

  • Marguerite Duras - Escrever
  • Rubem Alves - O amor que acende a lua

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Link p/ os livros mais recentes de Julia Caiuby e Luca Brandão:

- Cavalos azuis sem cabeça - Julia Caiuby (ed. Patuá):

⁠⁠⁠⁠https://www.editorapatua.com.br/cavalos-azuis-sem-cabeca-romance-de-julia-caiuby/p⁠⁠⁠⁠

- Não acorde os monstros - Luca Brandão (ed. Rocco) :

⁠⁠⁠⁠https://www.amazon.com.br/Não-acorde-monstros-Luca-Brandão/dp/6555325542⁠⁠⁠⁠

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Edição: Luca Brandão

Trilha sonora:

What The Old Man Says by ⁠Stefano Vita⁠ is licensed under a ⁠Attribution-NonCommercial-ShareAlike License⁠

Change by ⁠Stefano Vita⁠ is licensed under a ⁠Attribution-NonCommercial-ShareAlike License⁠.

Participantes neste episódio2
J

Julia

HostEscritora
L

Luca

HostEscritor
Assuntos7
  • Aprendizado da Escrita· EducacaoLeitura como base·Influência familiar·Professores marcantes·Livros sobre escrita
  • Presença do Autor no Texto· CulturaLinguagem e identidade·Ficção e realidade·Professor Paulo Roberto
  • Livros sobre Escrita· CulturaMarquinhos·Bettina González·O Perigo de Estar Lúcida·A Obrigação de Ser Genial
  • Memória e Escrita· CulturaCombustível para a escrita·Paixão como motor·Ficção autobiográfica
  • O Vazio na Escrita· CulturaIncerteza e criação·Escrita viva e nua·Angústia do processo
  • Obrigatoriedade na Leitura· EducacaoVestibular e literatura·Perda do prazer de ler
  • Primeiros Textos Marcantes· CulturaConto baseado em música·Chico·Texto sobre adoção
Transcrição42 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Eu digo que minha mãe fez uma coisa meio errada de forçar uma leitura de algumas coisas que ela achava que a gente devia ler, enquanto ela também comprava livros para ter nessa casa. E só por ela ter comprado esses livros que eu um dia sozinho fui lá, escolhi um livro nessa biblioteca dela e me apaixonei. Olha, parece que eu tô no mesmo episódio do anterior, mas não tô não, viu? É porque quando você me mandou a ideia de falar sobre inspiração, eu tive uma outra ideia que tá dentro dessa ideia.

Eu queria saber de você uma coisa muito específica: se você sabe, se você lembra quem te ensinou a escrever.

?Voz B

Ai, é muito bonita essa pergunta, né? Mas também muito subjetiva e abrangente. Eu acho que, eu acho que eu falei também já no episódio passado, quem mais me ensinou a escrever foram os livros, foi a leitura mesmo. E eu falo isso seriamente, acho que eu fui Como eu fui uma criança leitora muito cedo assim, e eu tive o privilégio de ter um pai que lia muito, que meus pais tinham uma biblioteca enorme em casa cheia de livro que eu ficava acessando sempre que eu quisesse.

Na minha escola, a biblioteca era também muito legal e eu frequentava muito. Chegava nas férias, minha mãe me levava para uma livraria e falava: escolhe um livro para as férias. E eu ficava horas dentro da livraria porque eu pegava todos os livros que eu queria e ficava, começava a ler cada um para ver qual que eu ia levar. Então eu tenho para mim que eu aprendo a escrever lendo. Mais tarde, claro, tiveram alguns professores muito importantes importante para mim.

Eu acho que um exemplo deles foi o Gilson Rampazzo, que eu fiz colegial e ele dava aula no colegial, e ele foi uma pessoa muito importante para minha, para o estudo da escrita, eu acho assim, sabe? E bem mais tarde teve a Ida Burtinick, que eu já falei aqui, de Buenos Aires, que também foi uma pessoa que Muito mais do que me ensinar sobre o roteiro em si do cinema, ela me explicou, ela me ensinou muito sobre escrita mesmo, sabe?

E tem outra coisa que foi a, acho que a proliferação de livros de autores que eu admiro muito, que começaram a lançar coisas sobre escrita, né? Os livros sobre escrita. E daí eu já vou lançar uma polêmica aqui, que a gente gosta de polêmica, né?

?Voz A

É com isso que a gente vive.

?Voz B

Por exemplo, O Perigo de Estar Lúcida, da Rosa Monteiro, foi um livro que eu não curti assim, não bateu comigo, não me pegou, e é queridíssimo de muitas pessoas, né? O da Camila Souza Fichada por exemplo, para mim é um livro muito maior, assim, mas muito maior mesmo.

?Voz A

Te provocou mais?

?Voz B

Me provocou muito mais. Mas assim, eu acho que tem dois livros para mim dessa leva que foram muito marcantes, que foi o Escrever, da Marguerite Duras, e o outro foi o da Betina González, que é uma escritora argentina E ela escreveu um livro que eu devo ter gasto todos os negócios de marcar assim.

?Voz A

Eu vi essa foto.

?Voz B

Ele tá inteirinho marcado, mas o livro chama A Obrigação de Ser Genial. Ela vai falar, são vários ensaios dela, em que ela vai explorar as motivações intrínsecas aos escritores e escritoras, analisando várias etapas do processo de criação. Assim, desde a busca do tema até a escolha das palavras. E assim, é muito bom, muito bom esse livro, e virou um livro bem de cabeceira assim para mim, porque eu acho que ele fala muito sobre o ofício assim, né, da escrita, mais do que sobre a escrita gramatical, ortográfica e tudo mais, né.

?Voz A

Para mim, você tava falando, né, e parece assim, é uma escrita quase natural mesmo, né, natural no movimento. Vem lendo desde criança e, né, nesse universo que também alimentou essa paixão, os livros disponíveis. Eu me lembro que minha mãe fez muito esforço para que nós, os filhos, os primeiros, né, os 3 hominhos dela, depois a Gabi, mas também fez esse esforço com ela. Mas eu me lembro que ela fez muito esforço para que a gente lesse.

Mas eu acho que eu já, eu não é uma cobrança, mas eu acho que é aquele esforço que é um pouco errado, que é de colocar os livros que ela queria que a gente lesse sobre a mesa. E aí eu não me lembro de escolher muito livro, de não poder e de não saber mesmo que livro tinha a ver com gosto íntimo. É muito meu, é muito, é uma escolha de cor. Eu tenho uma coisa com roupa mesmo, eu tinha dificuldade de usar cor. Tô usando um pouco mais de cor, mas depois eu fiquei em paz de que, cara, é isso que eu gosto.

Eu gosto da roupa preta, da roupa branca e cinza. E livro É isso, mas pensando em arte, pensando em criatividade, é uma expansão disso, é uma provocação, né? Eu me provoco a ler outras coisas como pessoa curiosa e tal. Mas enfim, eu tive essa infância que foi muito assim. Então não gostei de ler na infância, não foi natural para mim ler. Eu tive essa surpresa que eu contei no outro episódio de descobrir um livro, mas também na própria biblioteca que minha mãe montou.

Então é muito, é muito, é uma contradição bonita também, eu acho. Minha mãe, eu digo que minha mãe fez uma coisa meio errada de forçar uma leitura de algumas coisas que ela achava que a gente devia ler, enquanto ela também comprava livros para ter nessa casa. E só por ela ter comprado esses livros que eu um dia sozinho fui lá, escolhi um livro nessa biblioteca dela e me apaixonei. Tanto é que eu fiquei com algumas edições da minha mãe que são históricas, assim, edições muito antigas de livro de Ferreira Goulart, edições muito antigas de 100 Anos de Solidão.

Na verdade, esse livro, uma confissão que eu faço aqui, eu deixei no caminho de Santiago de Costela quando eu levei. Por quê? Porque é uma edição muito grossa. E aí o Caminho de Santiago, você começa a caminhar e as coisas pesam nas suas costas. E aí eu tive que deixar esse livro no meio do caminho.

?Voz B

É alguém simbólico, hein?

?Voz A

Muito simbólico. 100 anos de solidão caminhando e pesado, né? Mas eu troquei por um livro muito fininho. Ele tá aqui comigo. É um livro que eu não gosto, que ele é meio religioso demais.

?Voz B

Enfim, eu tenho uma história muito boa com esse livro. Quer dizer, não sei se é boa, mas enfim, quando eu li, eu acho que eu devia ter uns 16 anos por aí, tava no colegial, novo ensino médio, porque agora eu sei essas coisas, né? Eu tava, devia estar ali no segundo colegial, alguma coisa assim, eu li esse livro. E daí foi a primeira vez que eu tive um episódio de insônia na minha vida. Mas não foi uma insôniazinha assim de acordar no meio da noite e demorar para voltar a dormir.

Eu passei uma semana sem conseguir dormir. Eu dormia tipo uma hora por dia. E daí bateu com o trecho do livro que vai falar de uma insônia que pega todo mundo lá, o negócio. E daí, nossa, eu lembro que na época eu fiquei alucinada com isso. Eu quase larguei o livro porque eu achei que ele que tava me causando aquilo. Mas enfim, virou um dos meus favoritos da vida. Eu até queria reler agora, mais velha, para ver como que pega. Mas eu lembro muito, muito dessa história.

?Voz A

Maravilhosa, porque também é isso. A Maria Bethânia fala sobre a poesia, né? Ela fala que poesia, bobo quem pensa que vai dormir, vai ler um livro de poesia para dormir, pois acorda. Ela fala isso e eu acho lindo, porque é, às vezes um livro faz isso com a gente, deixa a gente insônia mesmo. Mas aí eu tive essa coisa que não foi natural, como você tava narrando, né? Fiquei pensando, mas eu me lembro que eu tenho um marco, eu tenho um marco da escrita que foi, eu tava no cursinho, eu tinha 17 anos, me preparando para o vestibular, já tinha escrito as redações para vestibular, já tinha aprendido redação na escola, obviamente.

Mas um professor que se chama Paulo Roberto, eu não me esqueço, eu digo sempre a ele, a gente se conecta o tempo todo. Todo livro que eu lanço ele fala, você já me mandou esse? E ele quer me pagar. Eu falo, você não vai comprar livro nenhum meu para o resto da vida, vai ser sempre um prêmio. Porque esse professor era um professor de redação de cursinho, e eu me lembro que eu escrevi uma redação que ele falou assim, olha, sua redação tá boa, mas cadê você aqui?

Ele falou isso para mim: cadê você aqui? E é, e foi um troço assim tão simples, mas que me deixou com muita dúvida. Mas como é uma redação de vestibular, né? Minha cabeça, uma redação de vestibular, eu tenho algumas coisas a cumprir, eu não posso estar presente numa redação de vestibular. Quanto mais distante, quanto mais eu cumprir as obrigações de um bom texto para o vestibular, melhor vai ser minha nota. E ele insistia que não.

Você precisa estar presente, tô sentindo falta de você aqui dentro do texto. E essa frase, essa pergunta dele, eu carrego comigo até hoje. Toda vez que eu vou escrever, é, tá, mas cadê você aqui, né? E ele tá falando o quê? De linguagem, de história, de presença mesmo no texto. Eu, por isso que eu acho incrível pensar sobre a ficção, que muitas vezes é mais real do que a própria realidade. Às vezes a ficção revela muito mais sobre a história de quem tá escrevendo do que qualquer tentativa de revelar algo sobre si num texto mais cru, digamos assim, se existe texto cru.

Então é por isso, porque a gente deixa essa presença. Nesse momento, quando esse professor disse para mim, eu tive essa virada de caminho mesmo, sabe? Eu fui para um outro lado. E aí eu fui descobrindo o prazer que é escrever as coisas que eu queria escrever, que eu podia escrever e que só eu podia escrever, sabe? Eu acho que isso foi um marco para mim, Júlia, assim. Em seguida eu fui escrever crônica, né? Alguns 10 anos depois eu fui escrever crônica. E na crônica, se você não tá presente, esquece, você não tá escrevendo crônica.

?Voz B

O Ricardo Pilha fala, não lembro em qual livro que ele fala, que uma gota de ficção contamina tudo de ficção, né? Então É isso, né, que a gente tem falado muito aqui, do se colocar no texto, mas que esse se colocar não seja puramente biográfico, né, se colocar de outra maneira ali também.

?Voz A

Eu tava pensando aqui agora de improviso, né, porque me veio uma imagem. Aí eu fui estudar escrita, fui me interessar mais por livros. Eu me lembro de uma outra cena da minha mãe, ainda não numa outra casa, mas eu ainda tava no cursinho, tava estudando, mas aí eu já tava muito apaixonado pela leitura, já tava lendo coisas que me afetavam, me comoviam. Então eram coisas mais minhas, não eram professores dizendo que eu tinha que ler.

Tinha uma biblioteca perto de casa do Sesc, né, da Rede Sesc. E a gente é dessa época em que as bibliotecas você tinha uma fichinha que era escrita à mão, né, ali uma fichinha de cada pessoa. Então você chegava lá para pegar um livro emprestado, a pessoa pegava a sua fichinha no arquivo, ia colocar o título do seu livro. E uma das coisas bonitas dessa época é que eu me lembro de ter trocado essa ficha da biblioteca algumas vezes, porque ela tava toda cheia de livros e tal.

Mas tinha uma coisa bonita, que minha mãe sentia muito orgulho daquele filho leitor. Os outros filhos, o Rodrigo e o Henrique, eles não eram esses leitores como eu era, de literatura, de biblioteca e tal. E eu me lembro que um dia ela— eu tava no carro quase que numa coisa meio competitiva que eu gostei. Tava eu, meu irmão mais velho, meu gêmeo, e minha mãe tava dando uma bronca na gente sobre estudo, sobre alguma coisa assim.

E só que ela em algum momento disse, tá vendo esse irmão de vocês? Ele lê, ele vai ser muito mais inteligente do que vocês porque ele tá lendo. E aquilo, apesar de ser uma coisa meio estranha, meio bronca da mãe e tal, me encheu de orgulho, sabe? Eu falei, tá vendo? Olha, eu tô ficando uma pessoa inteligente, minha mãe tá dizendo isso. Sobre mim. Mas na verdade acho que ela tava me usando para dar bronca nos outros dois, sabe?

Mas foi bonito, foi bonito ter ouvido aquilo assim e me lembrar que ali eu tava começando realmente a fazer uma coisa por gosto assim. Aí, por que que ela falou isso? Porque nessa época eu estava assinando revistas, revistas como Carta Capital. Eu tinha 17 anos e tava começando a assinar Carta Capital para ler os artigos da Carta e tal. Assim, não sei se eu entendia muito bem alguns artigos ali que eram cabeçudos demais, mas minha mãe se orgulhava daquilo.

Então acho que em algum momento também eu fui virando um leitor para dar esse orgulho para minha mãe, sabe? Porque ela falava coisas bonitas para mim. É um pouco de vaidade também.

?Voz B

Eu acho que na contramão aí do que você tá falando, por exemplo, eu acho que nessa fase pré-vestibular foi a fase que eu menos li, ou que eu menos gostei de ler, porque para mim tinha a questão da obrigatoriedade dos livros que iam cair no vestibular. Eu achava muito chato isso. Eu acho que foi nesse momento que eu tive um afastamento maior da leitura, assim, sabe? Porque acabava só dando tempo de ler aquilo. Tinham livros ótimos, mas tinham livros muito chatos no meio, né? Enfim, nem sei quais são hoje em dia, mas era difícil a lista.

?Voz A

Olha, nessa lista de vestibular eu me lembro assim que eu já li vários livros, né, que as pessoas falam esse livro é incrível, e a minha memória ter sido muito ruim porque era uma obrigação e eu li por uma obrigação.

?Voz B

Assim, era sofrido, né, era sofrido.

?Voz A

E uma vontade de retomar esses livros, né, de voltar e ver o prazer agora ali, ou descobrir que realmente não gosto. Muito, não gostei.

?Voz B

Eu acho que tinha a questão de que a gente lia com já com um olhar de que a gente teria que saber responder perguntas sobre aquilo, né? Então tira muito prazer da leitura isso, né?

?Voz A

Você tem que acertar, né?

?Voz B

É, você tem que destrinchar uma obra, mas não ser só a sua sensação em relação a ela, né? O que você pensou ou sentiu quando você leu. Você tinha que dar uma resposta certa sobre a interpretação daquilo.

?Voz A

Que coisa maluca!

?Voz B

E daí é sofrido mesmo.

?Voz A

É o contrário da leitura mesmo, né, pelo, pela saciedade aí desse prazer. É o contrário. É isso, você vai ler uma coisa e vai sentir essa coisa a partir de tudo que você tem, né, esse repertório da vida mesmo, coisas completamente diferentes do que o professor acha Flash, eu penso, claro, ali tem uma coisa meio didática, tem um fim, tem um objetivo, mas é péssimo para aprender a gostar de se relacionar com o livro, né, viver uma experiência com o livro.

Você tá falando, deixa eu te fazer uma perguntinha aqui, você se lembra assim do, vou fazer duas, do primeiro texto ou dos primeiros textos que você escreveu, ou dos textos assim que mais te marcaram nesse começo, que você pensou assim, cara, eu quero escrever.

?Voz B

Eu me lembro de um texto que foi bem importante para mim, que virou assim motivo de orgulho na família e aquelas coisas. Foi um texto que eu fiz, acho que foi no colegial, com esse professor que eu falei, o Gilson Rampazzo. Ele propôs que a gente escrevesse um conto a partir de uma música. Era o exercício da aula dele. E eu acabei escrevendo um conto a partir de uma música do Chico Buarque. Eu não vou lembrar qual é a música agora, infelizmente, mas eu lembro que eu gostei tanto e que daí eu tirei nota máxima, aquelas coisas todas.

Mas eu gostei tanto do o texto, que daí eu lembro de chegar na casa dos meus padrinhos e mostrar para eles. Meu padrinho ficar super orgulhoso. E daí eu, na época assim, não era tão fácil, né, fazer no computador e imprimir, não sei o que lá. Eu lembro de passar a mão nesse texto para dar de presente para eles.

?Voz A

Que legal!

?Voz B

E foi Acho que foi um texto que me marcou muito, assim, como um texto de, olha, eu consigo escrever alguma coisa legal, sabe? Acho que foi nesse momento, assim.

?Voz A

Eu tô me lembrando aqui que eu tenho um irmão gêmeo idêntico a mim, né? E o meu irmão não é escritor da literatura, ele é professor, ele seguiu uma outra vocação, que é ser professor. Ele é professor de rede pública, da rede estadual e municipal lá de Goiás, e é um cara super pesquisador, né, um cara que investiga a educação e luta muito pela educação. A gente tem posicionamentos muito parecidos perante as questões da vida, assim, por conta dessa mulher que é a minha mãe, e meu pai também politicamente nos educaram assim, nos deram a liberdade para o pensamento, pensamento amplo, e seguimos um posicionamento muito parecido mesmo, né?

Então ele atuando na escola se parece com meu irmão atuando na vida, mais velho. Minha irmã também como designer de moda, eu, mas obviamente cada um numa função. E aí beleza, o Henrique não era escritor da literatura. Me lembrei dessa história agora: o meu vô, meu avô materno faleceu, e ele era o avô que a gente mais tinha intimidade, né? Só que nessa época, quando ele faleceu, eu já escrevia, já escrevia poesia. Eu acho que eu já tinha livro publicado, os primeiros dois ali.

Não tenho certeza, ou no mínimo eu já escrevia, já tinha alguma coisa, uma experiência com a escrita. Mas aí, na morte do meu avô, na missa de, na missa de sétimo dia, o texto que foi no panfletinho dessa missa foi do meu irmão gêmeo, não foi meu. E eu me lembro que aquilo foi muito bonito, porque o Henrique nunca tinha apresentado um texto assim, ele nunca tinha feito um texto para gente. Eu fazia texto, eu escrevia. Mas aí na missa de sétimo dia, o meu irmão escreveu um texto meio poético, sabe?

Eu me lembro disso e foi uma coisa meio, foi uma beleza. Ao mesmo tempo, falei, poxa, não era, não era eu que era o escritor? E aí ele ganha esse lugar. Eu tomei um susto bonito, né? E eu acho que tem a ver com essa mesma experiência dessa casa, que apesar de ter sido muito rigorosa para que a gente lesse, A gente leu, a gente ainda não gostando de ler, a gente leu, a gente foi pesquisar. O Henrique virou pesquisador, o meu irmão é super, o mais velho é super antenado assim nas questões sociais, e super um cara super bem posicionado.

E é fruto dessa bagagem toda assim, né, dessa experiência toda. Mas o meu primeiro, primeiro texto, eu também tenho uma memória, talvez não seja o primeiro primeiro, mas eu tava assistindo um programa desses talk shows de TV há muito tempo, acho que um Jô Soares 11:30, que nunca era 11:30, era tipo 1:30 da manhã, sei lá. E o Jô tava entrevistando um casal de dois, eram dois homens, né, que estavam falando sobre adoção de um filho.

E aí o Jô levantou uma questão que eu achei muito estranha, muito embaraçosa, muito meio idiota, perguntando quem era o pai, quem era a mãe nessa relação dos dois. Você lembra disso?

?Voz B

Eu lembro disso.

?Voz A

Caraca, que coisa, que coincidência! Achei aquele troço, aquele troço, eu tô falando essa construção dessa mãe, né, colocando a gente para pensar sobre as questões. Vi me preparando para isso. E diante daquela entrevista, que era tipo 1 hora da manhã, uma pergunta tão estranha e tão, tão ruim, eu não podia conversar com o Joel, eu não podia conversar com aqueles dois homens que estavam ali falando sobre adoção, a relação dos dois.

Eu escrevi um texto que era um texto como se fosse dando uma resposta para aquela coisa absurda, sabe? Possivelmente, lendo esse texto hoje, eu não tenho esse texto mais, tava num blog, seria um texto muito mais estruturado, seria um texto, né, primeiro texto, mas era um texto bem posicionado. E eu fico feliz de lembrar disso porque eu acho, Júlia, que também para a gente desenvolver um bom texto, a gente tem que desenvolver uma posição diante da vida.

Sabe? Ele precisa ter essa posição. Como é que eu penso? Como é que eu penso sobre essas questões todas aqui? Senão a gente cai nesse lugar de um texto muito perigoso, que foi o texto que o meu professor me provocou a fazer. Tá, mas cadê você aqui? Ou seja, qual que é seu ponto? O que que você tem a dizer sobre isso aqui? Não sobre— e não o que que você pode dizer sobre isso, mas o que que só você tem a dizer sobre isso? Eu acho que isso muda muito o nosso modo de escrever, mudou muito o meu modo de escrever.

Por isso que me comove, como eu tava falando no episódio anterior, um livro dessa autora maravilhosa que é a Camila Souza Vijada. É uma história muito bem posicionada. Eu, parece que quando eu termino esse livro sobre a escrita dela, essa história, eu entendo muito de qual lado que ela tá, né? O que que ela pensa sobre muitas coisas que ela nem falou sobre esse livro aqui, porque é uma pessoa que tá bem posicionada. É uma pergunta muito forte, né?

Cadê você aqui? Cadê seus pensamentos aqui? Cadê suas ideias, suas contradições aqui dentro? Acho que isso vai dando uma coisa para o nosso texto, que é um lugar mais próprio. Essa pergunta, quando ele me fez, ficou na minha cabeça. Aí me convidaram para fazer um TEDx. Eu falei, meu Deus, né? Eu num TEDx? Mas eu não era um fã de TEDx, eu quero estar num TEDx. Me convidaram, falei, pô, é legal para caramba. Já vi uns papos muito legais.

E aí eu trouxe essa pergunta para essa, e eu fiquei conversando sobre isso. Cadê você aqui? Foi a pergunta que mudou meu modo de pensar o texto, né? E aí eu fui para literatura, tô todo lá, tô, mas não tô, gente. Não acredita muito também não.

?Voz B

Essa Bettina González que eu falei, ela tem dois trechinhos do livro dela que eu acho muito bons para colocar agora. Que a primeira fala sobre escrever ficção, né? E ela fala assim: escrever ficção não é explicá-la, é aceitar e desfrutar a incerteza que produz a própria realidade. Sustentar a incerteza não seria a premissa então do ato de escrita?

?Voz A

Muito bom, que é muito bom.

?Voz B

E a outra, ela tá falando sobre linguagem. E daí ela fala: o ritmo das coisas é mais antigo que a linguagem. Uma das mais poéticas definições de memória é: a língua é a música da memória que conserva a presença na ausência.

?Voz A

Gente, muita camada! Adorei!

?Voz B

É muito legal assim, e acho que fala muito disso, né, dessa coisa de trazer, de como fazer uma ficção parecer real, né? Como trazer a realidade para ela e do ato da própria escrita assim, né? Acho que a gente volta ao nosso tema mote de todos, que é coisa da memória também, né? Que é um combustível gigantesco para a gente pensar em como se colocar nesse texto, né?

?Voz A

Muito bom. Acho que não tem como desligar essa coisa que chama memória quando a gente vai escrever, ainda que queira escrever uma grande ficção. Essa ficção, ela vem carregada desse, dessa coisa que é tudo que eu sei sobre a vida para criar algo, inventar um mundo ficcional. Eu acho, eu gosto e ao mesmo tempo tem um pouco de bode quando a gente fica nesse debate insistente: ah, é autoficção, é ficção autobiográfica, é autobiografia biografia, eu acho muito útil para prateleira da biblioteca, eu acho muito útil para crítica literária, mas ele não tem utilidade para quem quer de fato escrever.

Quem quer escrever, escreve. Sim, eu acho que racionalizar um pouco sobre isso é importante, mas a gente, não sei, eu não escrevo assim, eu não escrevo do jeito que a gente tá falando aqui, tentando articular um raciocínio. Eu escrevo muito emocionado. O ato de escrever, ele vem carregado do que eu consigo racionalizar antes, pensar, refletir. Mas enquanto, quando eu começo a escrever, eu uso essa mesma coisa que acontece quando eu leio um livro, que é me comovo.

Eu só escrevo algo, começo a escrever porque eu estou comovido, ou seja, estou embalado, estou sendo movido a fazer alguma coisa. Essa coisa que me move é uma vontade muito grande, é uma paixão. Paixão. Quando eu falo paixão, não tô falando de coisa alegre mesmo, tô falando dessa coisa que é impossível de barrar. Eu falo isso e me lembro de coisas, né, memória. Me lembro de paixões que me arrebentaram, deixaram muito mal. Paixões, tô falando de relacionamentos, de paixões juvenis.

A paixão não é uma coisa boa, não é isso que eu quero dizer, mas é uma coisa que move, uma coisa que faz a gente fazer coisas que fora dela a gente de repente não faria. Eu gosto de escrever assim: Mas o que me dá um pouco mais de recurso é, antes desse ato, me preparar um pouco, estudar, ler, investigar, continuar refletindo. O ato melhora, mas ele continua sendo um ato quase irracional.

?Voz B

Eu achei aqui um trechinho desse livro que eu falei, da de Rituha sobre escrever, que eu acho que também se conecta um pouco com o nosso episódio passado, da questão da inspiração. Passei por tudo assim, mas que eu marquei, eu achei tão bonito. Ela fala assim, ó: não ter um tema para o livro, não ter ideia alguma para o livro, é se encontrar ou se reencontrar diante de um livro. Imensidão vazia, um livro eventual, diante de nada, diante de uma espécie de escrita viva e nua, terrível, terrível de superar.

Acho que a pessoa que escreve não tem ideia de um livro. Ela tem as mãos vazias, a mente vazia, e dessa aventura do livro só conhece a escrita seca e nua, sem futuro, sem eco, distante, com suas regras de ouro elementares. Comentários. E daí ela vai falar sobre isso, do vazio que move a escrita, sabe?

?Voz A

Muito bom. Eu acho que quem não suporta lidar com essa angústia de de repente não conseguir ver um fim num texto não vai conseguir escrever, porque escrever é bem isso, né? Não é saber o que vai escrever, é descobrir fazendo. Que papinho bom de novo, Júlia! A gente tem muita coisa para conversar, né?

?Voz B

Muita.

?Voz A

Júlia, beijão, obrigado de novo.

?Voz B

Beijo.

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