Episódio 04 - Musas e musos
No quarto episódio, Julia e Luca se aprofundam nas inspirações para falar sobre o mito das musas e dos musos. Como acontece uma história? De que forma cada um lida com o acontecimento no texto? Qual a mágica de cada autor? E também dos autores e autoras que os dois gostam de ler?
.
Julia e Luca são escritores e entusiastas de livros e memórias. Nas redes:
.
Obras citadas neste episódio:
- O flâneur - Edmund White; (ed. Cia. das Letras)
- A viagem inútil - Camila Sosa Villada (ed. Fósforo)
- Quantas aventuras nos aguardam - Inês Bortagaray (ed. Cambalache)
- FLÂNEUSE Flâneuse - Lauren Elkin (ed. Fósforo)
.
Link p/ os livros mais recentes de Julia Caiuby e Luca Brandão:
- Cavalos azuis sem cabeça - Julia Caiuby (ed. Patuá):
https://www.editorapatua.com.br/cavalos-azuis-sem-cabeca-romance-de-julia-caiuby/p
- Não acorde os monstros - Luca Brandão (ed. Rocco) :
https://www.amazon.com.br/Não-acorde-monstros-Luca-Brandão/dp/6555325542
.
Edição: Luca Brandão
Trilha sonora:
What The Old Man Says by Stefano Vita is licensed under a Attribution-NonCommercial-ShareAlike License
Change by Stefano Vita is licensed under a Attribution-NonCommercial-ShareAlike License.
Quando você desenha olhando para algo, você está desenhando de memória. Memória de 5 segundos atrás, memória de 10 segundos atrás, memória de 1 minuto atrás. Se você parar para pensar, tudo é memória. David Hockney. Oi, Luca, tudo bem?
Oi, Júlia, tudo bem? Adorei, adorei essa leitura de agora.
Eu trouxe esse trechinho de um texto de uma exposição do David Hockney que uma amiga me mandou e que eu achei que cabia muito pra gente e também pra me ajudar a te provocar a pensar em um assunto que anda rondando minha cabeça. Que bom! Eu queria falar sobre essa, um pouco sobre essa ideia que para mim é também bastante enviesada, de que a inspiração surge magicamente, que a musa da inspiração desce para o escritor e ali ele começa a escrever.
A gente já falou muito sobre usar a nossa memória, a memória familiar, né, a memória mais antiga, mas fiquei muito pensando sobre esses outros momentos de inspiração que são muito importantes, né? Na hora da escrita. Queria saber de você.
Nossa, muito legal! Olha para onde que eu fui. Como a gente não ensaia o nosso papo, nosso papo é uma conversa mesmo, nós não temos roteiro, a gente tem um tema, né, e cada vez é um que traz. Aí eu escrevi um bocado de coisas assim para ter sobre o assunto, mas aí com a sua pergunta eu fui para outro lugar. Então vou deixar rolar, porque eu me lembrei de um episódio Eu tinha publicado o meu segundo livro em 2016, o Telegramas.
E ali no Telegramas, ele é um livro que até não gosto do que aconteceu ali dentro, que é uma divisão por temas. Então tem o capítulo do amor, da saudade, da metalinguagem, da própria poesia e diversos, sei lá, cartas para todo mundo. Sim, naquela época escrevia muitos poemas que tinha a palavra amor inclusive dentro do poema. Ainda escrevo, né, mas tinha bastante ali. E me lembro que nessa época eu recebi uma ligação de um jornal, era a Folha de São Paulo, tava fazendo uma entrevista com alguns escritores, poetas que estavam nas redes sociais, e eles queriam conversar comigo.
Eu falei, poxa, que legal, vamos conversar. E aí a primeira pergunta era algo tipo isso: o que que você acha de ser conhecido nas redes como guru do amor? E eu tomei um susto, eu tomei um susto. Fiquei preocupado e fiquei com vergonha do que, da pergunta de ser o guru do amor, que é uma coisa ridícula, que é uma coisa que eu mesmo, né, odeio, acho uma coisa estranha. E guru tinha que acabar mesmo, como todos. Mas aí ela, eu acho que ela tá nesse lugar aí da musa inspiradora, né, dessa coisa mágica do amor ser uma coisa só.
E o que mais me pegou é que aqueles poemas de amor que tava escritos ali basicamente não eram para musas, não eram para mulheres, era para minha avó, era para minha mãe, era para o meu irmão, era para o meu pai, né? Eram para as minhas perdas. O amor é um troço, é um troço muito maior do que uma musa. Mas me deu muita angústia, né? Porque também, olha só que coisa, onde eu fui, que eu quero chegar, é o seguinte: Quando meu pai morreu, eu escrevi bastante sobre ele assim, né?
Meu pai foi meu buzo, mas ele teve que morrer. E algumas pessoas falam assim, nossa, esse poema que você escreveu, né, você escreveu no dia da morte do seu pai, foi de repente, como é que é isso? Eu falei, como é que é isso? Eu vou te contar a história desse poema. Eu tive que conviver com meu pai por 35 anos, saber demais daquele cara, e depois meu pai ainda teve que morrer para escrever esse poema. Não teve uma inspiração mágica, teve uma vida vivida aqui.
Eu só escrevi aquele poema por conta disso, por isso que me doeu aquela pergunta, sabe, o guru? E eu fiquei preocupado, falei, o que que eu tô passando, né, de ideia assim?
Eu acho também essa coisa de você ser colocado nesse lugar tem muito a ver com uma coisa que acho que a gente já comentou rapidamente por aqui, que é de que a leitura ela termina no leitor, né? O seu livro termina no leitor, então vai depender muito da interpretação de quem tá lendo aquilo, né? E é importante que haja esse espaço para que faça sentido continuar escrevendo também, né? Não adianta a gente querer escrever qualquer coisa só para fazer um carinho no nosso próprio ego, né? Eu acho que quando a gente vai por esse caminho Não fica bom.
Mas olha só, quando você fala disso, como escritora, não te preocupa também um esvaziamento muito grande dessa referência desse leitor? Um leitor que não sabe realmente tanta coisa para entender que também há uma distância entre a palavra escrita e essa vida dessa pessoa?
Eu não sei se me preocupa. Às vezes me preocupa mais que o leitor seja muito próximo e saiba muita coisa do que o contrário. Assim, eu tenho gostado de receber, por exemplo, feedbacks do meu romance, O Cavalos Azuis Sem Cabeça, de pessoas que não me conhecem, assim, nunca me viram, não sabem da minha vida, não conseguem conectar nem uma partezinha dali com a minha própria vida, assim. Isso tem me feito muito bem, porque o meu medo era o contrário, era que as pessoas que me conhecem ficassem, não sei se chateadas, ou viessem pedir para mudar alguma coisa, ou me falar que não tinha sido daquela mesma maneira, que tinha sido de outro jeito, alguma parte, sabe?
Eu tinha bastante esse receio. Então, para mim, acho que é muito o contrário, assim, eu gosto Eu gosto de um leitor neutro.
Não, mas nem sobre o leitor neutro, porque eu acho que é isso, eu acho que de algum modo é o que a gente mais vai ter, um leitor que não sabe mesmo da gente. Mas ao mesmo tempo, mesmo esse leitor neutro, basta um detalhezinho que ele veja que se parece contigo para ele passar a acreditar que essa obra é autobiográfica, né? Ele só precisa de um sinal que se pareça, e aí ele acredita que todo o restante Sim, se parece contigo. Mas eu tô falando também assim, quero dizer, eu vou te provocar um pouco mais, quero te dizer assim que seja tão esvaziado também essa relação desse leitor que talvez demonstre mesmo a carência que a gente também vive em grande parte de um leitor que lê pouco mesmo, né, para também curtir a própria fantasia da leitura, a fantasia que ele mesmo tá vivendo, e que tudo tem que ser relacionado à sua existência.
Porque assim, voltar ao começo da sua questão e vou te devolver essa pergunta, pergunta. É trabalhoso escrever, né? É trabalhoso se inspirar. Com essa palavra muito reducionista, né, do trabalho que a gente faz, se inspirar. Para eu, tô vendo alguém com braços abertos esperando algo cair do céu. Eu não acho que é assim que você faz. É assim que você faz?
Não, com certeza não. Por isso que eu trouxe essa frase no começo, que é para a gente entender que tudo é um material, né? Tudo é passível de virar alguma coisa para gente, principalmente que trabalha explicitamente com a memória, eu e você, na nossa escrita. Essa ideia de que um minuto atrás já é uma memória é uma coisa muito muito, muito forte para mim. Eu comecei a me relacionar com esse tipo de ideia da efemeridade e tudo mais quando eu li um livro, acho que eu devia estar no começo da faculdade assim, do Edmond White, chama O Flâneur.
E ele era um cara que vai passeando pela, por Paris e explicando os paradoxos da cidade e tudo mais, né? Mas nesse, nesse lugar de observador, né, da pessoa que passeia sem rumo e vai encontrando as coisas que inspiram ela, não necessariamente criativamente, mas que inspiram ela no caminho, né? E das coisas mais ordinárias às coisas mais espetaculares. Depois disso, eu, um pouquinho depois, eu também me encontrei com um poema do Baudelaire que tem essa mesma ideia, que chama A Uma Passante.
Não sei se você já ouviu, mas ele também fala de uma mulher que passou na frente dele, que ele se apaixonou, e que ali basicamente eles viveram uma vida inteira num momento que ela passou na frente dele. Só isso, é só isso, é só isso, e é tudo isso, sabe? E daí eu acho que foi nesse momento que eu entendi que as minhas ideias podiam vir de outro lugar também, e não só da memória antiga e própria, ou da memória familiar e tal, mas que eu poderia escrever sobre, sei lá, aqueles 3 minutos que os olhares de dois desconhecidos se cruzam no vagão do metrô.
E tem um lugar ali, sabe? É uma coisa que eu observei naquele momento e que me fez pensar em uma outra coisa, sabe? Eu fiquei muito, muito apegada a essa ideia do flanere. Eu adoro andar por aí, tempos sem rumo, olhando para as coisas. Normalmente eu faço mais isso em viagem do que aqui em São Paulo. É, em Paris é bem É um pouquinho mais difícil em cidades que são mais, que proporcionam um conforto maior para isso, uma segurança, talvez.
E um pouco depois, um pouco não, muitos anos depois, eu li um livro que eu fiquei também obcecada, que foi o Flanese, que é da Lauren Elking. Ela vai falar sobre a mulher nesse lugar de flâneiro, porque normalmente muito esse lugar é muito do homem, né? Historicamente é o homem que pode vagar por aí. A mulher tem, por N motivos, ela tem sempre alguma coisa que a impede de fazer esse papel, né? Ela vai explicando e vai e pega várias autoras como ponto de partida para desenvolver os ensaios dela, né?
E eu achei muito incrível assim. E de novo também me trouxe de volta esse pensamento da importância de olhar para o mundo, de sair para caminhar, de pegar transporte público, de ir num café, numa padaria, e simplesmente observar o que tá acontecendo.
Assim, vou te provocar nesse lugar. Vamos ver para onde a gente vai, porque eu fiquei pensando assim, isso essa postura, né, de olhar, de ver as coisas, de estar atento, essa atenção mesmo, né. Mas como é que você escolhe o que você vai então trabalhar? Porque a gente vê muita coisa, a gente escuta muita coisa, conversa, e não dá para escrever tudo. Como é que é a sua escolha? Como é que você faz o seu trabalho artístico, então literário? Como é que você faz esse tipo de escolha? Não é tudo que você escreve.
Ah, eu acho que não é uma coisa consciente para mim. Não acho que a escolha seja exatamente consciente. Sim, eu acho que tem a minha vivência, minha experiência, minha observação, e em algum momento eu me vejo, mais uma vez eu vou usar essa palavra, obcecada por um tema e por uma coisa, por um que seja uma cena. É, e daí eu vou mergulhar nisso. Então pode ser, sei lá, uma matéria de jornal, pode ser uma cena que eu vi na rua acontecendo.
E daí eu vou, vou me mergulhar nisso assim, né? Vou tentar tirar tudo que eu posso tirar dali. Nem sempre é bom, nem sempre é publicável, nem sempre dá certo. Mas às vezes vale a experiência, vale super. Para mim vale muito como processo criativo também, que eu não dependo só dessa, dessa bagagem que eu carrego comigo em termos de memória afetiva, memória familiar, tal, e Então é muito bom, até porque acho que eu falo tanto sobre memória porque o meu maior medo é perder a memória. Acho que é um dos maiores medos da minha vida, assim.
E quem conversa contigo sabe que às vezes ela some, mas é muito mais por vida cheia de coisas para resolver.
A gente tem nome para isso, tem remédio também, tem um monte de coisa.
Olha, eu gostei de ouvir você falando. Isso me faz pensar em coisas, porque eu te perguntei, né, como é que você escolhe? Porque para mim também hoje é um trabalho assim, tem muita coisa para escrever. E ainda não tô falando do mundo todo, eu tô falando do lugar que eu olho bastante e volto a olhar, esse lugar da relação, da família, dos personagens que estão na na história da minha família, eu ainda não escrevi muita coisa. Então penso, putz, ainda tem muita coisa que eu quero escrever.
É uma obsessão. Eu tô ali, tô investigando, e ao mesmo tempo eu tô investigando a história da família, mas eu tô dando um pouco de substância para as histórias que eu quero escrever. Então os personagens vão vir, vão se alimentar dessa história que eu tenho na memória. Mas ao mesmo tempo não é uma coisa mesmo— eu gostei do que você falou— não é uma coisa reparticionada assim, o mundo e minha vida familiar, essas coisas estão dialogando o tempo todo.
Eu estou vivendo no mundo, tenho meus amigos, tem as cidades que eu vou, eu tenho os caminhos que eu faço e as provocações também para estimular essa criatividade, manter-me atento e vivendo coisas que sejam um pouco mais extravagantes para alargar um pouco também essa capacidade criativa, porque ela não se limite a a um jeitão só, não tem esse interesse também. Mas ao mesmo tempo é um movimento duplo interessantíssimo para mim, porque eu ainda quero ficar.
Eu escrevo sobre muitas coisas, eu sou cronista do jornal e às vezes fujo muito de umas coisas centrais que eu costumo escrever. Gosto disso, mas ao mesmo tempo hoje uma vontade muito de ficar e de fazer isso olhando para uma coisa só. Obsessivamente, que é esse núcleo familiar que eu ainda não dei conta de cobrir de jeito nenhum. Tá longe de fazer isso. Quanto mais eu continuo ali olhando, olhando de novo— e como é que eu percebo que vai ser uma coisa interessante para mim hoje?
Quando me comove muito. Então a comoção para mim é um sinal. A comoção não é o choro só. A comoção pode ser o riso, pode ser um incômodo, pode ser— é uma sensação maior. O corpo meu se mexe um um pouco diferente. Aí eu sinto, poxa, isso aqui tem uma coisa que interessa a mim. Às vezes eu conto umas coisas, faço algum comentário sobre algo que eu vi, e sei lá, minha companheira dá a mínima para isso, não comove ela do jeito que me comoveu.
Eu acho isso interessante, eu acho que está mostrando assim, isso aqui é meu mesmo, isso aqui é uma coisa muito do meu corpo, muito da minha vontade. E aí eu acho que é por onde eu começo a selecionar melhor o que eu vou escrever. Me parece, penso muito que isso é bem subjetivo, né? A gente às vezes tem consciência ou não sobre como é que eu vou partir para um texto, mas de algum jeito a gente escolhe. Senão a gente sai relatando o que que aconteceu no dia, e aí não tem papel para isso, né?
Ah, com certeza. E acho que tem um lugar dessa comoção que eu também entendo que seja um pouco o que eu quis dizer com obsessão, né? Sim, é que a matéria, aquilo ali, vai me comover de modo a me dar muito interesse, né? E eu vou lá sentar e vou ficar naquilo um tempão. E eu acho que tem essa coisa de, pelo menos no meu caso, eu ainda tenho uma dificuldade muito grande de me separar muito do que eu tô escrevendo. Em que sentido eu tô querendo dizer?
É, para mim, por exemplo, é muito difícil desenhar um personagem masculino coerente, e assim, e a fala e o jeito de pensar e tudo mais, porque eu não sou um homem, sabe? E eu tenho muito essa dificuldade. Eu percebo que é uma dificuldade minha que eu preciso trabalhar ainda muito na construção dos personagens, de tentar afastar da Júlia autora eles, sabe?
Mas você tem esse interesse real, ou às vezes também você acha que pouco contaminado por algo que alguns críticos ou a própria, o próprio mercado editorial diz em algum momento, uma crítica: ai, a autoficção tá cansativa, tá muito ensimesmada. Porque eu acho também que é uma grande confusão nesse debate, sabe? Minha sensação é que as pessoas são tão pouco conscientes às vezes sobre isso, de entender o que que se passa. Eu tava ouvindo um papo tão bonito Eu vou caminhar, né?
Hoje eu fui, hoje eu caminhei uns 6 km já, Júlia. Eu tô reclamando da lombar e tô aqui assim, né, gastando. Mas eu caminhei uns 6 km, eu fui fazer um exame, fui a pé, resolvi a pé. E tava ouvindo um papo e esse escritor tava falando uma coisa que eu tava, eu tava sozinho rindo e concordando, balançando a cabeça, né? Até a ficção, mais ficção, mais inventada, às vezes revela muito mais da gente do que a própria realidade que a gente tenta escrever.
Eu acho que não tem como fugir. Eu acho isso uma bagunça muito boa. Não tem como fugir de si.
Não, é que eu acho que não, realmente não tem como a gente fugir. E acho que a gente falou isso nos episódios passados, né? A gente sempre vai estar ali dentro de alguma forma. O que eu quis dizer foi, por exemplo, eu, o meu personagem principal ser, sei lá, um homem medíocre, escroto, sei lá, qualquer coisa assim. Para mim é um lugar muito difícil de entrar ainda assim.
E não é, você precisa conhecer a mediocridade, Júlia. Você não conhece, você é uma pessoa maravilhosa.
Ai, nossa fada encantada! Mas acho que é isso assim, eu tenho interesse pessoal nisso, não é por conta de crítica não, porque eu acho que seria muito interessante até para mim como autora. Entrar nesses lugares.
Outra provocação: e você quer fazer isso agora ou você quer fazer isso depois? Você ainda tem coisas para escrever sobre— não, quero dizer, você tem coisas, vamos então quase que mudar de assunto. Você tem coisas que você tá escrevendo agora que estão mais no lugar desse personagem distante ou ainda próximo de você?
Eu tô escrevendo um lugar mais ou menos próximo, no meio do caminho. Ela tem outra idade, é uma personagem muito mais velha, enfim. Mas tem alguma intersecção, acho que, com o meu lugar de ponto de vista sobre a vida, assim, né? Então acho que tem alguma coisa que ainda junta, ainda une a gente em algum lugar. Eu tenho vontade assim, não sei se para agora. Eu acho que nesse caso eu vou aderir à musa inspiradora mágica, que é quando vier alguma ideia boa jogarem no meu colo, quando cair dos céus, quando cair dos céus eu vou querer dar uma mergulhada nisso para tentar uma outra, uma outra coisa mesmo.
Eu acho que a poesia é um lugar que eu consigo brincar mais com isso, sim, que eu consigo um eu lírico que não sou eu ali, né? Isso é muito bom.
É, talvez porque na prosa e nessas narrativas longas, né, a gente precisa de bastante fôlego, e esse personagem precisa existir com um pouco mais de coerência. Não ser coerente porque a gente não é coerente, mas coerência com a narrativa, e demanda um conhecimento mais profundo mesmo, E você tava falando sobre a música inspiradora, e eu vou tentar recuar um pouco aqui, voltar um pouco no começo. E como é que, como é que é para você, só para a gente conversar um pouco sobre isso, quando essa coisa não vem?
No sentido, a coisa não vem assim, você não tá trabalhando em algo que tá claro ainda. Mas eu quero escrever hoje, mas de fato hoje eu tô um pouco sem, né, sem algo muito, muito concreto a escrever. Que que você faz? Você faz, você escreve, você é escritora que que trabalha todo dia?
Não, eu sou uma escritora que lê todo dia. Eu leio muito e a leitura para mim é um lugar muito importante assim, desde muito pequena, mas agora muito mais, preenche muito mais tempo do meu dia do que em outros momentos da minha vida. Então eu leio, às vezes eu leio 3 livros ao mesmo tempo. Eu sou essas pessoas que são meio malucas assim. Quando não tenho nada, quando eu não tô conseguindo nada, eu recorro muito à leitura assim, porque daquilo pode surgir algum exercício, pode surgir alguma coisa que me ajude a só botar a caneta no papel, sabe?
Não necessariamente começar um novo projeto sem esse tipo de expectativa, mas ir me alimentando assim, sabe, criativamente.
Eu tenho uma coisa que foi muito legal para mim, foi descobrir algumas narrativas, que algumas histórias, até romances assim escritos muito mais próximos das autoras, né, como um livro que eu adoro que é o Viagem Inútil da Camila Souza Vichada. Nesse livro ela narra sua própria história como escritora, né? E ela tenta contar. É um livro sobre escrita, mas não é um livro que fica ensinando a escrita. É um livro sobre essa escrita dessa autora, de onde veio.
Para mim foi muito legal ler esses livros dessas autoras e que estão ali, né, narrando um pouco dessa trajetória, em vez de ensinar como é que se escreve, porque eles me me fizeram ver mais as minhas próprias histórias. Eu morria de vergonha, comecei a ter vergonha de contar uma história muito simples sobre como é que eu faço, como é que é o meu processo, de onde eu vim, como é que eu comecei a escrever. E hoje me dá um pouco de agonia porque eu sei que não é verdade.
Às vezes é só falta de escavação mesmo que a gente não faz. Quando o autor fala, eu escrevo porque eu adoro ler. Aí foi muito legal ler essas autoras Porque me levantaram essa pergunta: e eu, qual que é a minha história do início? Mesmo que sejam várias histórias. Aí eu aprendi uma coisa, que é fazer o jogo da própria ficção, que é: eu tenho várias histórias do começo, de como eu comecei a escrever hoje. E aí eu me orgulho um pouco mais, faz parte dessa escavação.
Por exemplo, como é que, se eu te pergunto: como é que você aprendeu a gostar de ler? Como é que foi o início seu, né, com os livros e tal? Na história da Camila Souza Vijada, que eu quero fazer aqui, é ler um trecho muito curto, que é o começo desse livro, da Viagem Inútil, porque nessa história do livro ela fala da violência que ela sofreu em casa, porque ela é uma mulher trans, ela é uma argentina, Camila Souza Vijada, uma mulher trans, e de como ela viveu a violência do mesmo homem que ensinou ela a escrever.
Então, um livro que tá num lugar muito estranho sobre a escrita, não é num lugar óbvio Mas muito bonito, muito bonito, porque é muito particular. Ela começa falando: uma lembrança muito antiga que eu tenho. A primeira coisa que escrevo na vida é o meu nome de homem. Aprendo uma pequena parte de mim. Estou sentada no colo do meu pai, na minha frente tem uma caixa de lápis de cor, um caderno de capa alaranjada, e meu pai pega na minha mão e me ensina a usar o lápis.
Esse é o primeiro trecho do livro, e adiante ela fala das violências desse homem. Então há uma beleza, é muito bonito, porque tá no lugar muito estranho e próprio, né? Ainda assim, além disso, que me pega é essa mulher escrevendo essa história, trazendo essa história para cá. E aí me provoca muito. Não posso contar uma história muito comum mais depois de ler Isso, sabe? Você já investigou? Você já pensou sobre a sua origem como essa paixão de pessoa que escreve hoje? Eu sei que você descobriu um baú de pessoas que escreviam na família, né?
Sim. Ah, mas eu acho que a minha paixão pela escrita vem muito anterior a isso assim. Eu acho que veio muito da leitura para mim. Eu fui essa criança leitora muito cedo assim. E devorava livros e tinha uma ideia lá no fundinho de que eu queria ser escritora um dia. Então eu brincava de escrever, né? Eu brincava de fazer livro, eu brincava de fazer história em quadrinho, eu brincava de fazer jornal. Eu morava numa vila com várias casinhas assim e eu fazia jornal das notícias da vila e entregava para todo mundo, sabe? Então eu comecei a brincar com a escrita desde muito cedo, eu acho.
Começou com a fofoca, né?
Começou com a fofoca, olha só, coisa que a gente adora. Mas acho que veio daí assim, um lugar de de brincar com a escrita e depois foi ficando mais sério, né? Também fui uma adolescente que escrevia diários, então tinha essa coisa do diário, né? E da troca de bilhetinhos na escola também.
Eu não tenho essa história antiga assim, eu não fui um jovem, um adolescente que gostava de ler e de escrever, mas quando eu descobri, quando eu tive a experiência, e foi uma, foi brutal assim. Eu me lembro que na leitura, e aí consequentemente na escrita, mas na leitura foi por conta de um abandono. Eu me lembro disso, eu fui abandonado em casa, eu fui abandonado por todo mundo. Os meus irmãos estavam lá em casa num sábado, me lembro disso, tava numa pequena antessala que tinha assim, parece chique, mas não era, era uma antessalazinha assim onde minha mãe tinha biblioteca dela.
Eu me lembro que eu tava nesse lugar e de repente não tinha ninguém em casa porque os meus irmãos sairam com as namoradas. Eles namoravam duas melhores amigas, então toda vez que um ia, o outro tava, sabe? E eu não tava namorando ninguém nessa época, devia ter uns 14 anos, 15 anos, não tava namorando ninguém, tava sozinho assim. Eles foram embora, minha mãe saiu para fazer alguma coisa e eu fiquei abandonado naquele lugar. A primeira coisa que eu fiz foi pegar um livro ali, passar a mão, peguei um livro, comecei a ler.
E aí eu tive um choque porque eu devorei esse Foi muito rápido. Eu li e a partir daquele dia eu me lembro que eu não consegui mais parar de ler porque aquela experiência foi muito gostosa. Agora, a escrita, eu descobri depois que minha família, essa minha mãe e os irmãos, trocavam cartas dentro desses livros, escreviam dedicatórias que não eram só esse dedico esse livro a você, eram poemas que escreviam. Eu não conhecia essas pessoas, eu conheci outras pessoas mais velhas que não não se davam bem mais.
Eu conheci essas pessoas muito mais ríspidas umas com as outras, assim. Mas no passado era uma família que trocava poesia. E aí, coincidentemente ou não, eu virei poeta. Foi o primeiro texto que eu escrevi, que eu tive interesse, foi essa poesia. Não tô falando que essa foi a origem, mas eu tô treinando para contar essa história melhor, sabe?
É como você mesmo disse, pode mudar cada vez que você, que você contar, que me perguntarem.
É verdade, me pegarem desprevenido.
Olha, nós já estamos batendo 30 minutos de novo, não deu nem para falar de nada. Brincadeira.
Ah, mas a gente ainda vai falar de tanta coisa legal. Inspirado nisso que eu tava falando, que eu acho muito legal algumas autoras articular ideias, essas ideias também articularem as minhas próprias ideias, me provocarem. Mas olha só que bonito quando você me trouxe a ideia de falar sobre inspiração e musa inspiradora, para a gente triscar nesse lugar que é polêmico. Eu gosto muito de pensar na palavra vocação, né, que talento é uma coisa que eu não conheço, nunca vi, não conheço nem pessoas talentosas, apesar das pessoas falarem que as pessoas são talentosas.
Talentosas. Porque quando eu vejo a pessoa talentosa de perto, ela contando sua história, eu vejo o tanto que ela ralou para desenvolver esse talento. E as pessoas só chamam alguém de talentoso, talentosa, depois que, depois que essa história toda aconteceu, do trabalho, trabalho muito, trabalho muito e deu certo. Então tem uma, a Inês Mortagaray, é uma uruguaia. Aí tem um livro dela que eu fui no lançamento dela no ano passado e foi muito gostoso de ouvir ela falar sobre o livro, chama Quantas Aventuras Nos Aguardam.
E a da cambalache da editora. Aí tem um trecho que ela narra, que ela fala sobre a pesca. O homem que não pesca mesmo assim dedica seu tempo à pesca e ao acaso. Tudo está preparado para ocasião: o baldezinho com as iscas, os anzóis, as linhas, o carretel, boné, o chinelo, cadeira dobrável. Aí a família diz: papai está pescando. E o pai pesca sem pescar. Não importa que não pesque, do mesmo jeito ele pesca. Não deve haver muitas atividades como a pesca, na qual o praticante faz o que faz apenas por tentar e não pela conquista.
Por acaso alguém diz que faz ginástica sem fazer ginástica, ou que toma café sem de fato tomar café? Alguém diz que lê sem ler? Não. No entanto, é possível pescar sem pescar. Está pescando e essa atividade não se explica pelo êxito, e sim pela ação, pelo ato de fé. Talvez se pareça com a escrita. Não é bonito?
Muito bonito.
Porque você falou aí hoje, você falou assim: não é todo dia que eu escrevo e fica bom e que fica legal e tal. Tem dia que realmente dá um desgosto do que foi produzido, mas você tá pescando, né? Eu acho que não tem como pescar sem ter ido pescar. É muito lindo isso. E ao mesmo tempo não quer dizer que eu não escrevi porque o meu texto não ganhou um prêmio. Tá aqui, tô escrevendo todos os dias.
E tira essa coisa também da imagem que se tem do artista, né? De que ele tá ali esperando que a coisa certa venha e que É isso que vai aparecer em todas as artes, né? Na escrita, nas artes plásticas, em tudo.
Ele tá preparando o anzol, ele tá organizando o barquinho, ele vai para o rio, ele fica lá o dia inteiro. É isso, escrever é isso.
Eu queria ler um trechinho desse livro que eu falei, que é o Flanés, da Lauren Elkin. Saiu pela Fósforo. Já faz uns anos. Aí nesse, nesse capítulo que eu vou ler um trechinho, ela tá usando a Virginia Woolf para falar sobre essa condição de flanese que por muito tempo não foi reconhecida, né? Mas tão importante quanto o que vê É o que a caminhada traz para o senso de si. Em casa, estamos cercados pelos objetos que nos fazem quem somos.
Coisas que escolhemos e dispomos, que expressam e reforçam nossa identidade. Mas no momento em que deixamos esse cenário, essa concha que nossa alma excretou para se abrigar, largamos a personalidade pela qual os amigos nos reconhecem. E nos tornamos parte desse enorme exército republicano de caminhantes anônimos. É uma fala da Virgínia mesmo. Então eu acho, eu acho muito incrível assim essa ideia de que, de que a gente também precisa sair para ver o mundo, basicamente.
Julia, valeu demais! Que papo bom hoje! Hoje dava para estender, mas a gente não vai ficar fazendo isso não. A gente vai fazer um novo episódio com assunto que se pareça. Então tá, até a próxima! Beijinho, beijo!