#10 | Máscaras Sociais - Erwin Goffman
Você usa máscara social o tempo inteiro.
Você e todo mundo.
A diferença entre quem paralisa e quem performa com naturalidade não é ter ou não ter máscara — é saber que está usando uma.
Neste episódio do Você de Bem com a Câmera Podcast, Marcelle e Alex mergulham em Erving Goffman e no clássico "A Representação do Eu na Vida Cotidiana" — o livro que mapeou o balé social que a gente executa sem perceber.
Fachada e bastidor, idealização, mistificação (por que popstars mantêm distância), e o motivo real do travamento na câmera: o controle expressivo excessivo.
🎙️ Porque ninguém escapa do balé social. Só quem sabe que está dançando escolhe a coreografia.
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Alex
Marcelle
- Mascaras Sociais· SociedadeA Representação do Eu na Vida Cotidiana·Performance social·Gerenciamento de impressões·Fachada e bastidor
- Mecanismos Técnicos da FachadaRealização dramática·Idealização aprofundada·Mistificação e reserva de informações·Controle expressivo e deslizes
- Autenticidade e propósito no trabalhoPerformer sincero vs. cínico·Tendência a mostrar uma versão melhorada de si·Dissimulação e omissão de informações
- Dr. Marcos e Dona IracemaAdaptação da comunicação ao paciente·Diferença entre atuação profissional e pessoal
- Sociedades Secretas· SociedadeSegredos obscuros·Segredos estratégicos·Segredos internos (códigos)
- Autenticidade e Superação Pessoal· SociedadePersona como máscara social·A importância da vida interna (sombra)·Autenticidade como respeito à vida interna
É que não tem jeito, a gente usa máscara social o tempo inteiro. Todo mundo, todo tempo. Só que as pessoas não têm consciência. Eu acho que o mais legal desse livro do Erving Goffman é que ele evidencia isso. Então hoje eu vou te provar que a gente usa máscara social, mostrando um pouco desse balé, desse jogo social, sabe? Porque quando a gente consciente da máscara, né, da nossa máscara e da máscara do outro, a gente ganha uma vantagem para o nosso próprio desempenho com essa máscara nesse jogo social, para essa naturalidade e como consciência também dos processos, sabe, da interação.
Erving Goffman é o nome dele, O nome do livro é A Representação do Eu na Vida Cotidiana. É um livro dos anos 50, acho que é 1956 que ele foi publicado, se não me engano. Mas é simplesmente genial.
Oi, eu sou o Alex.
Oi, eu sou a Marcelle.
E esse é o lugar mais quentinho do Você de Bem com a Câmera. E ele existe para que você entenda cada vez melhor a nossa abordagem da criação deliberada de uma máscara para trazer confiança e uma desenvoltura energizada para sua atuação na frente do público, seja na frente da câmera ou no palco.
A nossa abordagem, ela se vale tanto do aspecto teatral da máscara como da investigação da persona e da sombra de Jung. Para tirar você do lugar do travamento ou da execução tímida da fala no ambiente social. Mas aqui a investigação não é simplesmente técnica, não.
Aqui no nosso bate-papo a gente traz muitas histórias de outras pessoas e nossas também, e aqui as ideias circulam com muita liberdade.
Então, se você se interessa por processos que tragam naturalidade para a fala, Você tá no lugar certo.
Puxa uma cadeira que o papo vai começar. O Dr. Marcos é um cardiologista muito experiente que atende muitos pacientes idosos. Outro dia ele recebeu a Dona Iracema, que é uma paciente dele há muito tempo. Como ela tá com 81 anos, como ela tá com 81 anos e tem um sério problema no joelho, Ela usa uma bengala e caminha bem devagar. Depois de uma curta espera, a secretária dele diz: Dona Iracema, é a sua vez. O Dr. Marcos então se levanta e com atenção e cuidado puxa a cadeira para ela antes que ela precise pedir e cumprimenta: Dona Iracema, que bom vê-la!
Como é que tá o coração hoje? A voz dele é calorosa, ligeiramente mais alta do que o normal, do jeito que se fala com quem talvez não escute tão bem. Ele então inclina o corpo para frente e, num gesto ainda mais acolhedor, segura a mão dela. Depois pega os papéis que estavam— segura, aperta, né? E num gesto ainda mais acolhedor, aperta a mão dela. Depois pega os papéis que estavam sobre a mesa. E aí ele diz, num tom muito fraternal: a senhora tá de parabéns, o exame veio muito bom, viu?
O seu coraçãozinho tá lutando direitinho. Reparem que ele usou a expressão coraçãozinho. Ele nunca diria essa palavra para um colega médico, nunca escreveria isso num prontuário, mas para Dona Iracema isso funciona demais. Ela sorri, os ombros descem 1 centímetro, o medo que ela carregava desde a sala de espera vai embora. Depois, o Dr. Marcos explica a medicação 3 vezes, com uma paciência que parece infinita. Lembra de perguntar pela neta, ri de uma piada que ela conta, mesmo já tendo ouvido essa piada muitas vezes por mais de um paciente.
E no final da consulta, ele leva a Dona Iracema até a porta e, com a mão no seu ombro, ainda comenta: qualquer coisa me liga, viu? Não some. Depois que a Dona Iracema vai embora, ele chama a secretária E a sua voz muda completamente. Não que ele fique frio, mas parece mais profissionalmente distanciado, outra pessoa mesmo. O tom é técnico e prático. E aí ele diz: Ô Regina, essa próxima paciente é aquela senhora do quadro hipertensivo, né?
Aquela que não toma direito a medicação? É que o sobrenome dela não tá tão claro aqui. Bom, da última vez ela veio sem os exames que eu pedi. Vamos ver se hoje ela entendeu. Percebe a diferença? E não tem crueldade nenhuma nessa segunda fala. É quase carinhosa também, do jeito cansado que se fala de alguém que a gente gosta, mas que dá trabalho. Mas é uma pessoa completamente diferente falando. O coraçãozinho virou quadro hipertensivo. A Dona Iracema virou a senhora que não toma o remédio direito.
Olha que interessante. Nenhuma das duas versões do Dr. Marcos são mentira. É o mesmo Dr. Marcos genuíno, mas ele tá usando máscaras diferentes para uma atuação social mais adequada diante da situação, entende? Uma é uma fachada construída para sustentar o cuidado que a paciente precisa sentir, e a outra é o bastidor onde ele processa o trabalho em termos que a profissão exige. E ele não tá sendo falso em nenhuma das duas cenas.
Nós usamos máscara mesmo o tempo todo. E dependendo da atuação, temos mais habilidade porque estamos mais treinados, porque a gente faz esse papel há mais tempo. Mas uma coisa é fundamental: estar consciente Para uma vez distanciado desse papel, a consciência faz isso, faz com que a gente se distancie também, que a gente possa olhar de fora, sabe? E aí a gente ganha um poder de gerenciamento para nossa desenvoltura também. E é por isso que esse livro, A Representatividade do Eu na Vida Cotidiana, é tão genial, porque ele mapeia mesmo.
O que o Goffman fez? Erving Goffman, Nome dele, tá? O que que ele fez? Ele defende a ideia de que a gente vive em permanente performance social, como se a gente tivesse gerenciando impressões através de fachadas ou de máscaras, né?
Gerenciar a impressão das outras pessoas, né?
Quando a gente tá no que ele chama de fachada. Diferente da máscara que a gente usa num bastidor. E quando ele começa a fazer esse mapeamento desse balé, porque daí ele cria vários pequenos conceitos durante o livro, ele vai mostrando esses conceitos, enfim, e vai definindo territórios, você vai entendendo que de fato a gente vive mesmo nesse balé social. E ele foi até canonizado, sabe? Para esse tipo de compreensão acadêmica, ele é uma referência.
É importante ler o Goffman. Só que existem críticos também, sabe? Tipo, até porque ele coloca em termos que parece que então toda performance social tem essa função, como se a gente não tivesse nada mais fluido, mais natural, sem uma arquitetura de gerenciamento de impressões. E nesse lugar a crítica também é válida. Mas hoje, especialmente em função do advento da rede social, essas teorias goffmanianas, elas estão muito mais em voga até, porque na rede social, como tudo é recorte e E parece que tudo obedece mesmo uma lógica de gerenciamento de impressões.
E a gente tem, né, o estudo do algoritmo, as fatias de público, enfim, são milhões de maneiras de você mapear coisas para esse gerenciamento. Aí, de uma vez que as coisas estão realmente levadas a termo, nesse balé social que o Goffman verifica e mapeia. E não só para quem tem consciência, né, do funcionamento do algoritmo ou dos aspectos do marketing, mas mesmo quem faz um uso mais no flow da vida, você também tem um recorte direcionado.
Se você tem uma profissão e tá usando a rede social para vender o teu trabalho ou diante da tua performance, seja ela qual for na vida, você tem um propósito. E se você tem um propósito, você tá se valendo desses conceitos. E eu vou te mostrar porque é muito interessante. Eu trouxe aqui as anotações para a gente entender um pouquinho o que é que o Goffman fala nesse livro, fica aqui a minha sugestão: leiam mesmo, o livro é genial.
Logo no primeiro capítulo, ele já levanta uma ideia central, uma ideia-mãe de que qualquer interação social acontece com a pessoa tentando fazer com que os outros levem a sério a sua impressão, a impressão que ele tá querendo passar. Então, toda a sua desenvoltura tem esse propósito, tem esse objetivo. E isso pode ser sincero, né, de acordo com Goffman, ou cínico, ou não tão sincero assim. O primeiro seria o performer E aí ele chama de performer qualquer pessoa, tá?
Como se a vida fosse realmente um grande jogo cênico. No primeiro caso, a pessoa acreditando de fato na verdade da própria atuação. E no segundo caso, a pessoa forjando um pouco, porque ele precisa convencer o outro, mesmo que ele mesmo não esteja convencido. E a gente faz essas coisas. Faz. A maioria das pessoas oscila entre esses dois polos, às vezes mais sincera, acreditando naquilo que ela tá falando, e em outras mais cínica.
No primeiro capítulo ainda, ele fala sobre o que ele chama de idealização dessa performance, porque ela tende a uma versão melhorada da gente também. A gente, quando a gente tá se mostrando pro outro, a gente procura mostrar, não é tão consciente isso, mas a nossa performance acaba ficando mais alinhada aos valores da plateia, da pessoa com quem a gente tá se relacionando. Você não vai assumir uma opinião radicalmente divergente diante de uma plateia que você sabe que pensa diferente de você.
Sabe? A não ser que você esteja com várias outras pessoas, né, dentro de um movimento que você quer realmente defender uma ideia. Mas no jogo social a gente dissimula, a gente simplesmente não fala tudo, porque não é interessante para o jogo social. A gente tá de fato usando essa máscara e fazendo um balé. Veja, as pessoas tendem a mostrar status. Sabe o status do título acadêmico ou a roupa que ela tá usando, signos sociais, esses signos de posse, eles vêm para mapear as circunstâncias.
E quando a pessoa não tem posses, ela pode exagerar uma dificuldade para despertar mesmo a compaixão de quem tem o poder, na intenção de fazer essa pessoa ser mais generosa com ela, enfim. Idealizar sempre implica em esconder alguma coisa. Quem quer parecer puro, por exemplo, esconde hábitos em público que tem na vida privada. E é muito curioso, porque a maioria das pessoas fazem isso. Aí ele vai desenvolvendo mais. E quanto mais a gente vai se aprofundando nas ideias do Goffman, mais a gente vai ficando vai fazendo esses flagrantes sobre esse balé social que a gente também faz.
Ele mapeia o que ele chama de mecanismos técnicos da fachada. Fachada é isso, é a máscara, tá? É porque ele chama, ele divide entre fachada e bastidor. Então pensa na fachada como a tua sala de estar e o bastidor como o teu quarto. E como ele divide também entre Times, tipo, às vezes a gente executa esse balé social não só eu em relação à minha plateia, mas pode ser eu enquanto time. Por exemplo, eu e você enquanto pais e a nossa plateia, os nossos filhos.
A nossa, a gente performa também uma realidade forjada eventualmente para os filhos, assim como pessoas de uma mesma profissão dentro de um time, de uma equipe, performam determinada atividade. Pensa nos policiais, pensa no médico enfermeiro, pensa nessa performance diante de uma plateia. Existem códigos e símbolos que são organizados para você passar uma ideia. E aí ele chama de fachada isso que tá no front, né? É o que tá sendo visto, é o que tá sendo visto, e é a nossa máscara.
O que a gente chama aqui de máscara, é a nossa performance diante desse objetivo. Não somos a mesma pessoa nos mais diferentes ambientes e nem tem como ser. Mas aí esses mecanismos ele vai mapeando assim, primeiro que ele nomeia é a realização dramática, é quando o performer precisa tornar visível através de sinais, um trabalho ou uma qualidade que de outra forma passaria despercebido. Sabe? Tipo quando você tá lá, você e o teu chefe, e você deixa mais evidente, sabe?
Aí o que a gente chama de mostrar serviço. Eu tô, olha, fulano tá mostrando serviço, ele fez, mas ele não só fez, ele fez de um jeito que ficou mais evidente aquilo que ele tava fazendo. Isso tem um propósito. Dessa performance social. Por isso o médico tem, de repente, Doutor Marcos, essa performance mais calorosa também com a paciente, enfim. Outro mecanismo: idealização aprofundada. A tendência de incorporar e exibir valores oficialmente reconhecidos na sociedade.
Mesmo que no comportamento privado eles não aconteçam. E assim, aí é o comportamento cínico que a gente mapeou lá no início do livro, né? E as pessoas fazem isso. Ah, fazem. A maioria das pessoas fazem.
O que não quer dizer que seja um desvio de caráter e não quer dizer que seja uma mentira. É só uma adequação a uma situação social diferente, né?
Sim. Também tem a mentira, também tem. Mas sim, a maior parte do tempo não é o exagero, né? Mas quando Nelson Rodrigues veio colorir determinadas cenas, falando da comédia da vida privada, é porque de fato as pessoas falseiam. E falseiam. Eu acredito muito na boa vontade e na boa-fé das pessoas. Então, realmente, eu não acredito que a maior parte do tempo a gente tá manipulando, não. Mas que a gente gerencia as impressões, ah, isso a gente gerencia.
E isso a gente faz, todo mundo, todo mundo faz. Outra coisa que ele também nomeia, que eu acho muito curiosa, a mistificação. Algumas pessoas, elas mantêm uma certa distância social, uma espécie de reserva de informações que funciona para inspirar outras pessoas, para que essas pessoas reverenciem, ou por mistério, sabe? E isso é próprio das pessoas que são líderes espirituais, por exemplo, né? Ou os popstars. Quando a gente chega bem pertinho de uma pessoa, a gente vê que ali tem um ser humano igualzinho o outro, que tem limitações, falhas, qualidades.
A gente, enquanto ser humano, é muito parecido no final das contas. No bastidor, mas a performance social muda, muda de acordo com a tua função, com o teu papel executado naquele momento, muda com a habilidade que você desenvolveu para aquele papel especificamente. E aí eu vejo grande vantagem na criação de uma máscara, por isso que a gente desenvolveu o que a gente desenvolveu, porque se a gente tem um ambiente para treinar isso, a gente vai ficando melhor e cada vez melhor nesse desempenho.
Mas às vezes a gente simplesmente não tem o caminho para fazer. Quer ver outro mecanismo que o Goffman mapeia? O controle expressivo e os deslizes. O risco constante de que um gesto, uma hesitação, um erro vaze e comprometa a impressão pretendida. E aqui é onde mora o que a gente entende que mais atrapalha um desempenho na câmera. Porque na vida social, quando a pessoa tá super desconfortável com determinadas Ela tem algumas coisas consciente, né, do habitual dela, da comunicação, que ela não gosta, e tem coisas no inconsciente dela que atrapalham.
Mas esse gerenciamento excessivo gera uma tensão, e essa tensão gera travamento. Esse gerenciamento acontece sim, sabe, tipo Porque acontece, simples assim, todo mundo faz. Só que quanto mais a gente vai lidando com a vulnerabilidade como uma grande vantagem, entendendo que nela mora o caminho para desenvolver habilidades, a gente expande a nossa zona de conforto. Eu gosto muito de pensar a zona de conforto como um lugar que você vai aumentando.
Você vive o desconforto para poder ir ampliando o conforto. É por isso que a gente vai enfrentando os desconfortos. Mas esse gerenciamento, esse controle da expressividade também é um mecanismo mapeado por Goffman. Ele fala sempre desse eu, dessa máscara, como a função última, a realidade última do ser humano, como se o ser humano fosse aquilo e ponto. Nós somos o resultado da interação e interações diferentes em papéis diferentes, oscilando às vezes no time, às vezes no performer, às vezes na plateia, mas a máscara seria a expressão final e o teu eu todo.
Aí eu prefiro a visão do Jung, até porque enquanto sociólogo o Erving Goffman realmente não tinha esse propósito, ele faz esse mapeamento para a gente ter uma consciência sobre o balé social, e é extremamente interessante.
Mas o ponto de vista de fora, né, quase da pessoa em si, né?
E não só da pessoa, mas da pessoa inserida num contexto social, porque é um olhar da sociologia. E a sociologia estuda o jogo social, aonde a gente tá e por que que a gente tá agindo da maneira como a gente tá agindo, já que Muitas das nossas ações são estimuladas em função do nosso meio, né? A gente produz alteração no nosso meio, mas o nosso meio produz alteração na gente. E muitas das nossas reações, da nossa atitude social acontece em função do papel que a gente está exercendo e do meio onde a gente está inserido.
Sim.
Por isso que ele fala dessa idealização aprofundada como um dos mecanismos, onde a gente se apropria dos valores para não ser tão dispar, não ficar tão à margem do que é vivido naquela sociedade. É muito curioso, né?
Só para fechar o raciocínio, qual que é a diferença que você ia falar do Jung, que eu te interrompi?
Ah, pois é. O Jung, ele fala sobre uma aspectos de vida interior, que a persona, ou seja, a máscara, ela não é o resumo e nem do que você é, nem é ela que te define. Até porque a gente não tem só uma máscara, a gente tem dezenas. E a gente se forma arquetipicamente pelas impressões que o mundo nos traz, sim, né, como a gente vai construindo essas máscaras. Mas a gente também tem uma vida interna inconsciente. Jung fala da sombra.
E quanto mais a gente ganha consciência sobre a nossa, esse mundo interior, mais inteiro a gente fica, mais a gente consegue respeitar outros movimentos internos para além dessa máscara. E aí a gente fica mais próximo do que eu acredito que é a autenticidade. Porque a autenticidade, pelo menos no meu de olhar é um lugar que aonde você respeita essa vida interna, onde você respeita os teus movimentos internos também.
Entende? Aí é interessante porque gera uma possibilidade de você mudar, né, de você melhorar, de você pegar alguma coisa de uma máscara que talvez não funcione tão bem para você socialmente falando e você poder alterar ela internamente e refletir, né, depois.
Quando você se conhece internamente, quando você faz essa busca por coisas que você sublimou, que estão no teu inconsciente, e que se estão ali é porque são importantes, você pode até abrir mão de determinados papéis que a gente acaba executando por obrigação, porque o mundo de fora impôs, às vezes Sabe? Nem faz sentido pra gente. Por isso— mas aí é a visão terapêutica, né?
Sim.
O Irving Goffman, ele não tem esse propósito. Ele faz— ele tem uma visão social que eu acho muito útil pra gente aqui na investigação que a gente faz, pra que a gente ganhe consciência do balé. E pra que a gente entenda também por que que esse balé do outro está acontecendo da maneira como está acontecendo. Sabe? Isso faz com que a gente fale, poxa, olha aí, né? Tem uma função.
Por que essa pessoa tá se pavoneando para cima de mim, né? Mostrando as suas penas.
E quanto mais consciência a gente tem, mais a gente tem as chances de, enfim, performar melhor. Parece ruim, né, dizer dessa forma, performar Como se não fosse autêntico. Mas é que eu não acredito que a máscara seja uma coisa pouco autêntica. Se ela tá relacionada com a tua verdade interna, ainda assim é autenticidade, entende? Uma outra coisa que o Irving Goffman também mapeia, que eu vou pinçar umas coisas, tá? Porque o livro é muito mais profundo do que isso, né?
Vou ficar nos lugares que eu achei mais curiosos e na intenção mesmo de que a gente ganhe consciência de que é tudo um balé. Mas um lugar, por exemplo, ele fala dos segredos, já que ele estabelece essa divisão de times, né? E que times e plateia, né? Tipo, os performers e a plateia diante de um determinado time. Eu posso ter segredos, a gente tem segredos, e esses segredos nos organizam mesmo enquanto coletivo também. Sabe? Por exemplo, num restaurante, numa lanchonete, tem determinados lugares da cozinha que você não vai mostrar.
O que interessa mais que a tua plateia veja é o prato acabado, bem feito, bonito, e não o prato em construção, a casca jogada em cima da pia, o prato sujo, o lixeiro cheio de restos de comida. Tudo isso tem numa cozinha, a gente sabe que tem, mas a gente não vai deixar isso evidente, não é interessante. Aqui não tô nem falando de segredos, mas existem também os segredos, aquelas coisas que a gente realmente esconde. Ele divide inclusive em 3 tipos de segredo.
Ele primeiro organiza os segredos obscuros, os dark. Esses são incompatíveis com a imagem da equipe, ou seja, desse primeiro time, né, dos performers. E esses precisam ficar totalmente escondidos. Quem forma casal e sabe que esse casal tem segredos, como a gente sabe disso, né? Os pais escondem coisas dos filhos, os filhos escondem coisas dos pais, o professor do aluno, aluno do professor, e E assim em todo balé social, esses segredos acontecem.
Existem também segredos estratégicos, que são informações instrumentais para o sucesso da encenação. Faz parte de um plano, tá? De uma metodologia, de algo que, tipo assim, o professor ele não vai te contar por que que ele de repente organizou de uma determinada forma uma explanação, o que que por que que veio antes a explicação e depois o exercício, ou determinado exercício acabou acontecendo primeiro para que depois você aprofundasse o olhar.
Eu tô trazendo um exemplo meio, meio superficial, mas tem muita coisa que o médico não fala para um paciente porque é estratégico que não seja dito, entende?
Pode até confundir mais do que ajudar, né? Uma informação que não é necessária A gente não precisa saber como que as engrenagens do avião funcionam no detalhe para saber que o avião voa e o piloto tem controle sobre ele.
Exatamente. Ou porque é simplesmente desnecessário, ou porque é estratégico que não se saiba. E esses são segredos também. E existem os segredos internos. Ele pelo menos chamou assim, Inside. Esses servem só para marcar quem pertence ao grupo. São os códigos. É tipo uma senha, um aperto de mão combinado, sabe? Aquelas são as piadas internas das turminhas de colégio, os códigos sociais de determinadas religiões, que só é dito naquele ambiente, só é usado num determinado gueto de profissional, são termos técnicos.
Quando você se vale desses termos, você vai usar eles só diante daquele time, daquela equipe, daquele contexto social. Esses segredos vão nos organizando nesse balé. Percebe como tudo faz parte mesmo de uma encenação? E o Goffman tem razão de falar o que ele fala. Por isso que na rede social, às vezes é tão difícil fazer as pessoas entenderem, mas você não precisa mostrar tudo, você mostra um recorte. Um pedaço, é aquilo que está emoldurado de forma confortável para que você compartilhe com a tua audiência. E tem uma estratégia para isso também, né?
Que esteja alinhado com o objetivo que você quer em relação àquela audiência, né?
Exatamente, exatamente.
Isso me lembra uma história que eu fui assessor de imprensa de uma banda E aqui em Curitiba era uma banda de amigos, tava todo mundo meio começando. Era uma época que não existia tanta tecnologia ainda para se gravar em casa, então era uma novidade, era um negócio realmente impressionante o que os caras estavam fazendo. Hoje o home studio tá super difundido, mas na época era uma coisa inovadora. E daria para ter se aproveitado mesmo essa informação de ser algo inovador, tecnológico, né?
Usava-se o termo home studio, isso gerava uma impressão interessante. A gente estava começando o trabalho e eles se empolgaram, alguns deles se empolgaram e foram dar uma entrevista sem falar comigo. E na segunda pergunta que o jornalista fez, ele trouxe: Ah, mas eu ouvi dizer que vocês estão gravando em casa. E aí, em vez deles virarem essa pergunta e falar assim: Não, a gente tem um home studio, a gente está gravando com uma tecnologia nova.
Seria um segredo estratégico, ia ficar bonito, né?
Não, eles falaram, não, a gente tá gravando em casa. E aí esse gravar em casa ficou com uma conotação de mal feito, de mambembe. E aí o resto da entrevista, meia hora de entrevista que foi dada, foi em cima do jornalista desqualificando a qualidade do CD porque eles tinham gravado em casa. Então tem que se tomar cuidado com o que você tá—
Veja como isso é Faz parte da performance do balé social que o Goffman mapeia. Eu lembrei agora de uma outra história, inclusive, quando meu filho tava na formatura do ABC. E eu já saí de casa emocionada. Eu, enquanto mãe, queria me emocionar, tava desejando aquele momento da emoção. Carreguei quilos de lenço de papel pra enxugar as lágrimas. E na na missa, para o momento da celebração, o padre celebrante, ele era muito novinho, bastante despreparado, e começou a conversar com as crianças.
Que imaginar, ABC, 7 anos, né, gente? Se você não tem controle sobre as crianças nessa fase, começa a conversar com elas como se você fosse um parça, como se tivesse a mesma idade. Ele quis Dá uma de fofinho, ele perdeu o controle dessa criançada, ele perdeu o controle da cerimônia. E o que era pra ser um momento solene, bonito, que tava todo organizado, com roteiro, e aí tem, né, os cerimoniais que existem exatamente pra isso, naquele momento se perdeu.
Em vez de eu me emocionar, eu passei raiva, porque ninguém entendia o que tava acontecendo mais ali, tamanha a balbúrdia que se criou com aquela criançada com a bênção descida, achando que era amiga do padre.
Entende? Era um caos do parquinho.
Pensa o que é isso, balé social.
Sim.
Aí os cerimoniais, os rituais, quantas coisas a gente faz cumprindo funções, executando papéis, e as pessoas se organizam nesses ambientes. Tudo isso é mapeado pelo Goffman. Quer ver um ambiente onde as pessoas se organizam com muita rapidez? Um tribunal do júri. Você entrou numa sala, você entendeu que tem um camarada de toga numa cadeira mais alta lá na frente, você já sabe, você já entendeu o que que é isso, mesmo que não tenha em cima o nome tribunal.
Você rapidamente mapeia o ambiente e organiza mentalmente. No que você se organiza mentalmente diante do cenário posto, você também organiza a própria máscara. Você vai adequar o seu movimento àquele ambiente, você vai parar de falar alto, você vai, né, você vai até os teus gestos, os teus movimentos vão ser mais silenciosos. Isso numa missa, num lugar de celebração, você também vai se adequar, que vai ser diferente no cinema, que vai ser diferente num show de rock.
Você quer uma boa diferenciação dessa máscara social? É a cerimônia do casamento casamento e depois a festa do casamento. São dois ambientes completamente opostos e as pessoas estão nos dois ambientes e performam de uma forma no casamento e outra forma na festa.
E você fica às vezes uma vida desejando aquele papel daquele momento. Uma máscara, é uma máscara. Entende que quando você vem para rede social e vai fazer a tua fala, vai fazer o teu vídeo, vai fazer a tua palestra, você também está executando uma máscara. E consciente disso, você tem como agregar a essa performance, então, habilidades, funções, elementos trazidos de processos terapêuticos e dos processos teatrais, elementos que vão te ajudar nessa performance.
É nisso que eu acredito. Mas se você entra numas de que, ah não, eu não, eu preciso, eu quero ser eu, cara, é que assim não tem esse eu, entende? Não tem esse eu sem a persona do Jung, não tem esse eu sem a máscara.
Se você for intransigente num eu que você acha que é, você também vai acabar não conseguindo performar nos ambientes, porque daí vai ser que nem o padre. Você vai se confrontar com uma situação que você não vai conseguir dar conta, porque você tá preso numa máscara que não tá flexível.
Mesmo os artistas mais disruptivos, que, sabe, parecem prezar pela sua autenticidade a qualquer preço, na verdade, o que eles estão fazendo também é desenvolver o que o... Goffman falou ali desse ambiente do mistério, do místico, porque quando eles se afastam de determinadas funções sociais, eles estão performando de uma outra forma, mas que também já foi prevista socialmente, que também já foi mapeada socialmente. Ainda assim, eles estão executando um papel.
É meio que uma bobagem, eu acho, você negar determinadas Circunstâncias que são próprias do jogo social. A gente não tem muito como viver socialmente, civilizadamente, sem cumprir determinadas funções, convenções. A gente usa roupas porque a gente convencionou usar roupa. E a gente usa roupa de determinada moda ou não também por convenções e adequações ao nosso grupo. E mesmo quando a gente se coloca contra determinado tipo de moda, a gente tá mais próximo de um outro tipo de movimento.
Ou seja, você tem alguma tribo perto da qual você está se relacionando e levantando bandeiras, códigos, segredos, estabelecendo jogo e vivendo os seus papéis.
É, não existe ser humano 100% sozinho, né?
Não. Enfim, o livro é mais do que isso. Goffman vai falar também sobre a arte do gerenciamento das impressões, a lealdade dramatúrgica, disciplina dramatúrgica. Ele vai falar de papéis discrepantes, ele vai trazer muito mais cor para essa investigação, para esse estudo sociológico que ele faz. Mas isso que eu trouxe já evidencia o porquê dessa obra, torna ainda mais notável o fato da gente realmente usar máscaras, e era esse o objetivo.
E eu acho que a gente pode meio que ir fechando essa conversa. E aí eu queria deixar a pergunta: você já tinha ouvido falar de Irving Goffman, você que tá nos ouvindo? Porque Que dessas, dessas coisas que a gente mapeou aqui parece mais curioso? Você já tava ligado desse funcionamento social, desse balé, dessa performance, ou é muito novidade? E se você chegou até aqui, comenta máscara social para a gente saber que você veio até esse ponto.
Boa! E assim, segue a gente Independente da rede social que você tá ouvindo o nosso podcast, segue a gente lá, deixa o seu comentário, dá 5 estrelinhas para gente também, que ajuda a levar o nosso projeto para frente. E se você ficou interessado no livro do Goffman, apesar de ser uma leitura bem pesada, bem densa, mais acadêmico, mas é um livro que vale a pena para quem tá interessado em estudar sobre essa movimentação social, a gente vai deixar o nosso link aqui de afiliados da Amazon na descrição do vídeo. Se você ficar interessado em comprar, é só clicar lá.
Aliás, nesse link tem outros livros que a gente recomenda para essa investigação, sabe, sobre autenticidade, vulnerabilidade, treinamento da máscara, enfim.
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Saiba que você tem um pedação do nosso coração.
Você mora no nosso coração de pijama e não paga aluguel por ter emprestado a sua orelha para gente.
Muito isso.
Muito obrigado pela atenção de vocês e até o próximo episódio.
Até!
Amazon
Livro A Representação do Eu na Vida Cotidiana