Episódios de Você de Bem com a Câmera Podcast

#09 | Complexo de Inferioridade

29 de julho de 202643min
0:00 / 43:23

Como os complexos podem governar nossas ações é o que esse episódio pretende responder!

Para ter uma comunicação fluida e energizada a gente precisa atravessar os primeiros movimentos que implicam na dificuldade que vulnerabilidade impõe.

E os complexos simplesmente impedem esses movimentos. Nesse episódio a Marcelle e o Alex investigam como nascem os complexos e porque agem de forma autônoma, governando as nossas escolhas e nos levando aos autoboicotes e proceastinação.

Autenticidade não é um botão que se aperta. É um caminho a ser percorrido!

Participantes neste episódio2
A

Alex

HostPastor
M

Marcelle

Host
Assuntos6
  • Origem e natureza dos complexosComplexo de inferioridade · Trauma infantil · Comparação social · Alfred Adler · Sombra (Jung)
  • AutoconhecimentoIndividuação (Jung) · Integração do self · Autodescoberta · Sombra dourada
  • Complexos por superestímulo e resultadoComplexo de exceção · Ego imaturo · Expectativa de performance
  • Mascaras SociaisMáscara social · Persona (Jung) · Erving Goffman · Jacques Lecoq
  • Carisma como Código DecodificávelConteúdo autoral · Identidade cultural · Carisma
  • Procrastinação e autocríticaCrenças limitantes · Vozes internas · Criança interna
Transcrição44 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
AAlex

Parece que é um caminho muito natural, né, quando a gente ouve alguém dizer assim: ah, mas é só você ser você mesmo. Não é tão simples. A autenticidade não é um botão que você aperta e você vem e desenvolve com naturalidade qualquer tipo de fala. Não é. E por isso a gente vai falar bastante sobre isso. Hoje a gente vai falar sobre complexo, em especial complexo de inferioridade. Num recorte do que o Jung pensa, a gente desenvolveu uma ferramenta, e essa ferramenta pressupõe uma máscara.

Mas antes da gente falar dessa ferramenta e dos caminhos de acesso a essa performance social de maneira mais fluida, natural, espontânea, autêntica, que é o que as pessoas querem, a gente precisa desmistificar Que danado é isso de máscara social? E na verdade todos performamos máscaras sociais o tempo inteiro. E existem algumas visões sobre isso. A visão da sociologia, e a gente vai trazer num outro episódio Erving Goffman, que é um sociólogo que fala sobre isso.

A gente vai falar sobre a terapêutica, porque Jung e a visão da psicologia também fala sobre essa persona, que é o outro nome para máscara, ou seja, o papel que a gente executa na vida, que é aonde o nosso ego tem a maior identificação. A gente vai falar sobre a máscara teatral ou as máscaras de Jacques Lecoq. Somos atores, a gente vem desse universo, a gente se desenvolveu na comunicação criando máscaras. Se é uma coisa que a gente conhece e pelo qual a gente é apaixonado são pelas máscaras.

Elas são úteis, elas são ferramentas. Mas para que a gente crie uma máscara que se aproxime mais da nossa identidade real, ou seja, de coisas que a gente nem conhece sobre nós mesmos, que nos trazem liberdade para essa expressão energizada, que é o que a gente quer, Hoje a gente vai falar sobre os complexos que atrapalham esse processo, de verdade. Oi, eu sou o Alex. Oi, eu sou a Marcelle.

MMarcelle

Esse aqui é o lugar mais quentinho do Você de Bem com a Câmera, é um lugar que a gente criou para o acolhimento, para o diálogo sobre o que nos atravessa quando o assunto é expressão e comunicação. A gente acredita que todas as pessoas são criativas, que todas as pessoas podem desenvolver o seu carisma a seu modo, ou seja, todas as pessoas são pessoas comunicadoras. É uma grande honra e uma alegria imensa para a gente ter a sua audiência.

Por isso que o nosso compromisso em trazer processos agregadores para o teu desenvolvimento, para tua comunicação, só aumenta a cada episódio. E se o nosso conteúdo tá fazendo diferença na tua vida e você acha que ele merece chegar em mais pessoas, eu vou te pedir que você ajude o algoritmo a entender essa relevância. E você faz isso comentando os episódios. E aproveita para dizer também no comentário o que você mais gostou ou o que você sugere de assunto para um novo episódio.

E também faça a avaliação do nosso canal, dê lá suas 5 estrelinhas para gente, tá bom? E toda semana a gente tem um episódio novo, então aproveita para se inscrever para receber a notificação quando a gente lançar um novo episódio. Se comunicar com criatividade e liberdade é algo importante para você, puxa uma cadeira que o papo vai começar.

AAlex

Uma criança, uma polaquinha muito bonitinha, né, na minha infância. Por isso eu ouvi muitos elogios dos adultos que enalteciam essa beleza, aquela fofurice. Eu também era muito espertinha, espevitada, era uma característica interessante, mas essa já não era tão elogiada assim. Às vezes era um elemento até para ser coibido, quer dizer, me parecia que não era visto com tanta positividade, tá? O que realmente parecia importar no meu ambiente familiar era a beleza ou a fofura.

Muito comum isso, né, na nossa sociedade, em vários ambientes. Resolvi tocar nesse ponto porque eu tô muito consciente sobre alguns Danos provocados à nossa psique, à nossa autoimagem, em função dessas influências, desses estímulos que a gente recebe na nossa infância, que para muitas pessoas é inconsciente mesmo. Eu estou um pouco mais consciente como resultado de processos terapêuticos, mas como eu sei que muita gente, assim como eu, entendeu a beleza como um fator definidor para quem nós somos e o valor que a gente tem no mundo, eu resolvi abordar esse assunto aqui.

Não, não precisa ser a beleza um fator que te define como um ser humano passível de ser amado, de ser aceito, de ser acolhido, entende? Eu lembro de uma tia minha que toda vez que me encontrava dizia: Olha a minha Miss. Ela projetava em mim, num futuro, né, o resultado de reconhecimento social em função da minha beleza. Ela nunca fez isso por mal, mas isso somado às informações que vinham, que estavam no meu redor, dos filmes que eu assistia, né, a gente foi muito estimulado pelos filmes da Disney, as princesas, Os filmes românticos com mulheres belíssimas, as apresentadoras de programa infantil, tudo no meu entorno parecia reforçar a ideia de que pra eu ser aceita, pra eu ser amada, era preciso que eu fosse bonita.

Só que a adolescência chegou e com ela chegaram também as turbulências hormonais. Aí vieram as espinhas pro rosto, Eu dei uma engordadinha, que nem foi tanta, mas a autoimagem que eu tenho daquela época é que parecia muito. Também fiquei com o cabelo meio estranho durante um período, resultado de um permanente que a minha mãe resolveu fazer. Tudo coisa muito própria daquela época, né? Minha infância aconteceu nos anos 80. Somado a isso, existia um ambiente familiar muito turbulento também.

Porque houve a separação dos meus pais e a instabilidade emocional pairava sobre toda a minha família. Eu sentia uma necessidade de proteger as minhas irmãs, por exemplo, mas me faltavam ferramentas para lidar até comigo, com aqueles fenômenos sociais que me atravessavam e que refletiam em turbulência emocional também. Foi nesse contexto e em função de muitos estímulos que eu acabei desenvolvendo a timidez e o que a psicologia chama de complexo de inferioridade, um conceito, aliás, de Alfred Adler, né, um contemporâneo de Jung, mas que Jung absorveu.

No primeiro episódio eu falo um pouco sobre um dos eventos que me levaram para pro desenvolvimento da timidez. Hoje eu tô trazendo já outra história, porque a minha intenção é falar sobre complexos. Como é difícil a gente admitir que dentro da gente moram complexos, né? Mas quando a gente tá consciente, quando a gente entende que eles fazem parte da nossa psique, mas que a gente tem como lidar com eles, a gente se fortalece. É a consciência, é o autoconhecimento que faz com que a gente traga um pouquinho para consciência alguns processos que estão bem guardadinhos lá no fundo e que se manifestam, via de regra, de forma autônoma.

Mas quando a gente faz a reconexão com alguns aspectos da nossa identidade que a gente sublimou, que a gente colocou debaixo do tapete, que a gente caminha no sentido da nossa autenticidade, porque a gente pode resgatar desse lugar da sombra aspectos muito poderosos que os seguidores de Jung chamavam também de ouro, ou seja, de sombra dourada. Eu acredito mesmo que essa é a principal chave Para abertura da nossa autoexpressão, esse lugar energizado de fala que traz a nossa identidade cultural, que respeita aspectos que a gente sublimou nesse diálogo constante para que o complexo não nos cale, não nos paralise.

E é sobre isso que a gente vai falar hoje. Como nascem os complexos? Que caminhos existem para a gente lidar com isso? Todos temos, será? Ou é característica de poucas pessoas? Bora conversar?

MMarcelle

Bom, então para a gente começar esse nosso papo, vamos entender de onde que vêm os complexos, como que nasce um complexo.

AAlex

Curioso falar sobre isso mesmo, porque as pessoas acabam tendo uma ideia de que o complexo nasce de um grande trauma. De um evento único. Pode ser, é uma das características. Às vezes você de repente passou na tua infância por algum episódio que te constrangeu sobremaneira, e aquilo vai fazer você guardar dentro da psique. E a gente sublima mesmo, a gente joga para debaixo do tapete. É o conteúdo que vai para o que o Jung chama de sombra, ou seja, fica no nosso inconsciente e acaba governando a nossa vida.

Porque o complexo tem uma característica muito interessante, interessante mesmo. Eles são autônomos, eles têm uma vida autônoma dentro da gente. A gente não controla, especialmente quando a gente não tem consciência, mas todos nós temos. E como você perguntou sobre de onde eles se originam, pode ser de um grande trauma, mas podem ser de eventos repetitivos que te levam a crer que você não é suficiente, Muitas vezes, a grande maioria das vezes, por comparação, né?

De repente você tem um irmão, um primo, um amigo, alguém do teu ambiente que recebe muitos elogios, que é acolhido por alguma característica que eventualmente você não tem. E a leitura que você faz por comparação é que você não tá à altura, não consegue, que você é inferior. A inferioridade, enquanto característica humana, ela é motivo e impulso de ação. Quando a gente se sente inferior, a gente tende a procurar uma forma de superação, de vencer esse obstáculo, de desenvolver uma habilidade.

Quando não é um complexo, quando não vira uma síndrome, quando não vira algo que está no teu inconsciente e brota eventualmente para te atrapalhar. Entende? Mas sim, quando repetidas vezes você ouve, como nesse caso, eu recebi muitas vezes o elogio sobre a minha beleza e aquilo me agradava, óbvio. Então você cria uma expectativa de continuar recebendo na vida porque libera dopamina, porque você se sente acolhido, é um sentimento agradável.

MMarcelle

E tem um componente aí da questão da criança também, né? A gente tem muitas histórias de atores mirins que são extremamente elogiados quando são crianças e que conforme eles vão crescendo esse elogio acaba se dissipando, porque daí quando cresce parece que, ok, agora você virou mais um ator, você vai ter que se superar.

AAlex

Veja que loucura, a gente desenvolve os complexos. Ou porque a gente sente que não alcança um determinado padrão, ou porque a gente alcança e aquela referência numa sensação muito positiva acaba virando a tua métrica de coisa boa. Então você precisa alcançar aquilo sempre. Quando o ego não tá maduro o suficiente pra esse gerenciamento, pra entender que é um evento diante de vários outros onde as coisas vão ser diferentes, Você acaba, quando vem uma resposta, um resultado que é mediano ou que é só normal diante da possibilidade de um resultado grande demais, aquele mediano normal adequado que deixaria outra pessoa tranquila e satisfeita, para aquela pessoa que foi centro de atenções por muito tempo também gera complexo.

Então o evento positivo demais para um ego imaturo, né, despreparado, ou um evento repetidas vezes que te faz crer que você não tá ao alcance de determinada coisa, às vezes por uma característica física, sabe? Uma pessoa deficiente que eventualmente vive num ambiente aonde as pessoas do entorno alcançam coisas que de repente ela idealizaria como um padrão do aceitável, do bom, do coerente, mas como lhe falta algo, ela pode desenvolver um complexo de inferioridade.

Se o teu ambiente familiar é saudável, se você faz terapia, você fica um pouco mais preparado para esse enfrentamento social diante de algumas limitações. Mas essa percepção sobre a beleza, a percepção, né, tipo, a tua relação com irmãos, primos, as expectativas que um adulto pode gerar sobre você, uma figura de autoridade.

MMarcelle

E essa questão do alto rendimento, do alto resultado, né, como gerando esse complexo, tem um estudo, foi feito com dois grupos de crianças, eles tinham que fazer uma atividade, não me lembro se era um desenho, alguma coisa assim. O primeiro grupo de crianças foi elogiado pelo resultado e o segundo grupo foi elogiado pelo esforço, por fazer a tarefa. E aí eles deram uma segunda tarefa que era opcional para esses dois grupos. O grupo do resultado, que foi elogiado o resultado, não quis fazer a segunda tarefa porque tinha medo de não chegar no mesmo resultado.

E o grupo que foi elogiado o esforço, o fazer a tarefa, executar a tarefa, imediatamente foi para a segunda tarefa porque o que era importante era fazer a tarefa e não o resultado em si só. Então também pode Tá ligado a isso também, né, desse autorresultado sempre ser a baliza do que você tá fazendo, né.

AAlex

Muito interessante você falar sobre isso, porque faz a gente refletir também sobre um processo que faz com que as pessoas desenvolvam complexos, às vezes mais graves, que é a coisa da superproteção. Uma mãe que não permite que a criança viva os seus desafios e que erre, que falhe, que ouse, porque por medo da criança sofrer, por medo, às vezes, muitas vezes porque o pai já não está mais presente, e daí a criança já sofreu alguma coisa.

Todo tipo de superproteção, quando você entrega o resultado muito pronto. Não foi sobre exatamente isso que você falou na pesquisa, mas é que Bem, mas é um caminho também. Se você não tem, não vive o processo do esforço, não recebe esse lugar de estímulo, você pode entender e gravar no teu inconsciente que você não tá habilitado aos desafios, aos processos de superação, que é a natureza da vida. A vida, uma atriz numa entrevista ontem dizer que a vida não é bolinho.

De fato, a vida não é bolinho. E um dos processos que nos ajuda a estar mais disponível para desenvolver as habilidades, independente de que fase da vida, é o autoconhecimento. Quando a gente percebe A gente tá falando sobre complexos e todas as pessoas têm complexos, sabe? Jung deixou isso muito claro. Agora, o complexo, ele pode agir de forma muito positiva na tua vida também. Só que antes de falar sobre como o complexo pode agir de forma positiva, eu lembrei que eu trouxe uma história, que é a história do Rafael.

O Rafael, ele acabou desenvolvendo o complexo em função do superestímulo também. Você pode ler essa história para nós só como reforço?

MMarcelle

O Rafael tocava piano desde os 4 anos de idade. Aos 7, ele se apresentou num recital da escola de música, uma peça simples, e a plateia inteira se levantou. Aplausos longos, adultos chorando, o diretor da escola chamando de gênio. Na frente de todo mundo, os pais eufóricos, abraços que não param. Para uma criança de 7 anos, aquilo é uma quantidade de amor e admiração absolutamente fora de qualquer escala que ele já tinha experimentado.

O ego dele, ainda em formação, sem estrutura simbólica adulta para relativizar aquilo, não consegue integrar a experiência como um bom momento entre muitos. Ele fica congelado como pico absoluto de existência. A partir dali, algo se instala, não um trauma de dor, mas um complexo de exceção. Rafael passa a organizar inconscientemente sua identidade em torno da necessidade de reproduzir aquela intensidade, e qualquer desempenho abaixo daquele pico começa a ser vivido no corpo como fracasso, mesmo quando é objetivamente Cheirinho Bão.

Aos 25 anos, ele é um profissional talentoso, mas incapaz de aceitar uma apresentação só correta. Cada trabalho médio ativa uma angústia desproporcional, porque o complexo mede tudo comparando com aquela tarde na infância e não com o padrão real da situação presente.

AAlex

Doido, né? Então não é só o trauma, não são só as situações repetidas em relação à comparação que é feita entre irmãos ou a comparação do ambiente social diante do que é o padrão aceitável, o mais aceitável ou idealizado, seja pela família, seja por você mesmo, pode ser também um resultado positivo demais na sua vida. E nessa história tá frisado ali que o ego dessa criança não tá preparado com estrutura simbólica para reconhecer como um evento diante de vários outros possíveis.

Mas mesmo na vida adulta, isso é muito comum quando um artista eventualmente tem um grande super resultado e depois trava, porque fica, baliza os resultados vindouros, né, que não vão ser sempre extraordinários com aquele resultado antigo. E isso pode travar Isso também tem reforço sobre complexos antigos ou pode ser gatilho da criação de um novo complexo. O grande lance é esse processo de autodescoberta. Eu acho genial a maneira como Jung propõe essa, conceitua esses lugares porque facilita a compreensão.

A gente falar sobre autoboicote, falar sobre procrastinação, falar sobre crença limitante é extremamente importante, mas se a gente compreende que isso nasce de complexos que moram num território da nossa psique que Jung chamou de sombra, A gente acaba entendendo que existem lugares que são da nossa psique, que fazem parte da nossa identidade, que a gente não conhece necessariamente, que estão no nosso inconsciente, a gente não tem total clareza, e que podem governar de forma autônoma algumas reações.

Aí as pessoas dizem: pô, mas você tá se autoboicotando? Ou por que que você procrastina? Ou por que, da onde nasce essa crença que o mundo não tá dizendo isso para nós, mas é isso que governa a tua interpretação dos fatos. Perceber que existe um processo de autodescoberta possível para ajudar a gente a encontrar essas respostas e encontrar ferramentas para os processos de superação, eu acho genial. Sabe, se a gente se investiga mesmo.

Por exemplo, uma pessoa que tá caminhando no lugar da individuação, que Jung chama de individuação. Que que é individuação? Olha que genial! A gente tem uma máscara social que é a persona. Então, né, Jung chama de persona, que é essa pessoa que nesse lugar agora onde eu estou, eu sou uma produtora de conteúdo, uma podcaster que treinou a comunicação, que é atriz também, alguém e que tá desenvolvendo a minha retórica diante da construção de um pensamento.

Ou seja, estou performando, estou performando uma máscara social. Será que eu falaria desta forma com o Alex ali no café da manhã?

MMarcelle

Não, né? Nem com a tua mãe, nem com a minha mãe, nem em lugar nenhum.

AAlex

A gente, enfim, a gente tem várias máscaras, a gente performa de várias formas. Mas isso que é esta máscara social, que tem várias características, Jung chama de persona. E ela é muito limitadora se a gente se percebe só como isso, entende? Se a gente não entende toda a complexidade do nosso universo interior, da nossa identidade. Do quem somos necessariamente, porque essa máscara a gente cria de acordo com as expectativas sociais.

Então, quando você caminha num processo de individuação, muitas vezes tem um processo de rompimento mesmo. Aí não quero ser só a mãe perfeita, ou só a profissional, ou só a— existe, existem normalmente esse processo acontece diante de algum movimento de dor às vezes, sabe? Porque a pessoa precisa se compreender naquela relação com o mundo. Isso não é ruim, isso é positivo, porque faz com que você se investigue mesmo. Esse caminho da individuação é o caminho de se descolar um pouco desse papel social que a gente faz para tentar compreender elementos que me formam, que me constroem na minha identidade única, na minha individualidade.

Por isso individuação. E se eu entendo que eu tenho muitas coisas dentro de mim, além de eu não ficar definida só por uma característica em particular, isso é maravilhoso, eu também permito um processo de integração, que era o que o Jung chamava de integração do self, agregando pedaços da minha psique que eu rejeitava. Essa rejeição, esse lugar de empurrar para sombra, para o inconsciente determinadas coisas, faz com que a gente crie esses complexos que podem governar determinados movimentos da nossa vida sem que a gente perceba, sem que a gente tenha a possibilidade de gerenciamento até.

Sabe quando você julga muito uma pessoa? Já pensou nisso? Que o julgamento que a gente emite fala mais sobre a gente mesmo do que sobre aquela pessoa.

MMarcelle

Sim, principalmente quando é algo meio espontâneo, né? A primeira reação que você tem ao falar de uma pessoa é julgá-la. Então tem algo a ver com algo que te incomoda, né?

AAlex

E quando ele vem raivoso demais excessivo demais, explosivo demais. Claro, nós somos analíticos, a gente emite notas sobre o mundo, os acontecimentos todo tempo, e nem sempre isso vai estar falando sobre o nosso complexo. Mas se é uma reação grande, se é uma reação de grande desconforto em você, algo que às vezes uma fobia, um preconceito muito grande, Isso tá falando sobre coisas que a gente reprimiu. Olhar para isso com liberdade, fazer essa investigação de dentro da tua sombra, vai trazer elementos sobre você mesmo que de repente você desconhecia.

E isso é maravilhoso na hora da gente reorganizar nossa autopercepção para lançar-se em desafios novos. Desenvolver a comunicação é processo. Eu preciso mesmo trabalhar a construção da mensagem na minha cabeça, ou seja, elaboração da retórica, que é o que se fala na oratória. Mas hoje, e aí é muito a nossa missão aqui no Você de Bem com a Câmera, né, nas redes sociais cada vez mais A gente precisa de um algo único, algo exclusivo, aquilo que é só teu.

Até porque com as IAs tá cada vez mais pasteurizada essa comunicação, cada vez mais as pessoas ficam iguais.

MMarcelle

Até o próprio Instagram tá valorizando o conteúdo autoral, né? O conteúdo gerado por IA tomou tanta força E começou a ser produzido em escala tão grande que o próprio Instagram falou, a gente não tem como controlar essa produção. Então nós vamos, como contrapartida, dar mais ênfase nos conteúdos autorais. Quanto mais original você for no teu conteúdo, mais o Instagram vai te premiar. Até porque a tendência são as pessoas quererem consumir conteúdo feito por outras pessoas.

AAlex

Além de ser mais tranquilo para quando você faz um conteúdo com a tua própria identidade, com algo que é teu, claro, até que você desenvolva esta máscara pode ser trabalhoso, mas depois que você tá apropriado dela, como são características tuas, é o que a gente propõe pelo menos, né, aqui como investigação, fica mais suave fazer, porque é teu, porque tá integrado, porque tá no teu DNA, no teu universo de comunicação, você não precisa estar emulando todo tempo, que demanda um esforço maior.

Você não precisa estar buscando o tempo inteiro na internet estímulos, olhando para as outras pessoas. Eu não tô dizendo que esses lugares são ruins, sabe? Às vezes assim, a gente aprende também por imitação, mas o poder da comunicação autêntica é o poder desse tempero Que é só teu.

MMarcelle

Sim.

AAlex

A gente vai falar em outros episódios, e aí tem um poder muito grande sobre as máscaras do Jacques Lecoq. Jacques Lecoq propôs uma investigação através de máscaras para que você revelasse coisas do seu ridículo, do palhaço, extremamente terapêutico, aliás. A gente vai falar do Erving Goffman e a máscara social como a única maneira de existir no mundo. Porque a gente vive em convenções. Mas para hoje eu gostaria muito que ficasse essa mensagem de que sim, você tem complexos, tá tudo bem.

O gerenciamento demanda autoconhecimento. Existem processos para isso, terapêutica, de uma terapia mesmo com psicólogo. Mas existem formas de você se autoinvestigar, de você permitir-se esse autoquestionamento.

MMarcelle

Até importante, porque o processo terapêutico com uma psicóloga, ele fica mais eficaz se você tá fazendo a sua autoanálise também, né? Você só ir lá e achar que ela, que psicólogo, que vai resolver tudo também é enganoso, né?

AAlex

E partindo da premissa da importância da autoaceitação. O que Jung fala é que isso que a gente reprimiu é um lugar que a gente tem vergonha na gente, que a gente não quer mostrar para o mundo. Mas nesse lugar do qual a gente tem vergonha, que é a sombra, mora muita coisa boa. A agressividade, eventualmente, que você reprimiu pode representar uma atitude de mais força competitiva no mundo que exige mesmo isso da gente também. Então existem sim elementos que estão escondidinhos aí dentro de você e que são potência, que você precisa se permitir olhar.

Vou deixar aqui como estímulo, de repente, a escrita criativa, porque é um jeito de você, escrevendo, se distanciar um pouco do que é a voz do teu próprio ego só, para encontrar outras vozes dentro de você, vozes dissonantes até. Não tem nada a ver com esquizofrenia, tá, gente? É que a gente realmente tem os complexos, a gente tem os arquétipos que nos orientam, arquétipo da mãe, o arquétipo do pai, enfim.

MMarcelle

Tem uma frase que já é lugar comum, mas que eu acho interessante, que é: você não é o seu pensamento. Acho que tem a ver com isso de você saber se distanciar desse pensamento para poder agir sobre ele.

AAlex

Quando a gente fala desse distanciamento do pensamento, a gente está falando das terapias mais práticas, né? Terapia comportamental, terapia de aceitação. O Jung é uma análise, mas também demanda esse distanciamento, seja do pensamento, seja dessa identidade. Aquilo que eu entendo como eu é a minha máscara social, é minha persona. Então, se eu entendo que isso que eu performo aqui não me define totalmente, isso me traz liberdade, entende?

Eu posso performar de uma outra forma, isso não é definitivo e para sempre, eu performo necessariamente de outras formas em outros lugares. E poder olhar para tudo isso que a gente é também vai fazer com que a gente ganhe pelo menos uma desconfiança de início de que talvez exista sim esse potencial aí de desenvolver esta comunicação nesse lugar que me interessa. E existe, numa boa, existe, existe para todo mundo. Primeiro você tem que acreditar, segundo você tem que se autoinvestigar, e terceiro você tem que se permitir elaborar. Vai dar para chegar.

MMarcelle

Tá, então vamos fazer aqui um apanhado, né, um resumo do que dessa questão dos complexos, então, principalmente no de inferioridade, que é o que a gente focou mais?

AAlex

Primeiro, a consciência de que todos temos complexos e que existem pessoas que gerenciam melhor, estão mais conscientes e que entendem que determinadas vozes, pensamentos que surgem não são a realidade e que a gente pode gerenciar isso mesmo, estabelecer um diálogo. Tá, você tá me dizendo que eu não tenho essa habilidade ainda, mas como é que eu faço para desenvolver? Sabe, isso que você tá me dizendo talvez não corresponda com a verdade.

Essa é a habilidade da pessoa num caminho de individuação. A criação de complexos existem de N formas, e o complexo de inferioridade, ele também pode se manifestar na vida com uma necessidade de se mostrar superior. Aquela pessoa que tá o tempo todo performando poder talvez guarde ali dentro, né, no seu inconsciente, um menino muito amedrontado e que se sente inferior. Essa necessidade todo tempo de mostrar poder pode guardar sim um menino muito frustrado, uma menina acuada ali dentro.

E que dialogar com essa criança interna é super necessário para que a gente se liberte também dessa necessidade o tempo inteiro de performar poder. A trava, a paralisia, também é a manifestação desse complexo.

MMarcelle

É interessante falar sobre a criança, né? O Tony Robbins tem uma frase muito poderosa no documentário dele na Netflix, que é: cure a criança e o adulto vai aparecer. Então, às vezes a gente não consegue ter uma relação adulta com a vida por conta de uma criança que tá magoada lá da do começo. E claro, é uma criança simbólica, né? Mas é necessário você visitar ela e curá-la, né?

AAlex

Claro, a criança interna, a sombra, tudo isso são símbolos. Tudo isso é a maneira lúdica que Jung organizou a psique para que a gente possa se relacionar com lugares que a gente não tem consciência. Mas que são fundamentais, assim. É exatamente isso. Quando você não entra em movimento, e a vida exige movimento, exige coragem o tempo inteiro, se você não está em movimento, eventualmente justifica isso com algo muito prático que a gente também, esse sensor interno, o processo de autossabotagem, que é a manifestação dos complexos também, Às vezes tem uma voz muito razoável e racional para nos impedir a ação.

Então algumas justificativas que a gente dá para não fazer um movimento necessário para o teu desenvolvimento tá refletindo muitas vezes essa— só que é difícil se auto-perceber. Eu percebo, eu sei que é. Por isso que escrever sempre, fazer a sua autoterapia, a escrita terapêutica, ou fazer um tipo de terapia, ou estar com esse olhar mais acurado para os movimentos que você faz muito involuntariamente, inconscientemente, sabe? Só o fato de você se questionar: por quê? Por que que eu fiz isso de novo?

MMarcelle

Que padrão que eu tô repetindo?

AAlex

Que padrão que eu tô repetindo? O que que— por que esse condicionamento? Existem justificativas e você pode se organizar na vida diferente, sabe?

MMarcelle

E é interessante, só fechando a tua ideia, é porque a gente tem hoje disponível muitos tipos diferentes de terapia. Então, se você teve uma experiência, né, se você teve uma experiência ruim com um tipo de terapia, procure outro. Faça a escrita terapêutica, que a gente chama no nosso método de Caderno da Expressão Essencial, que é bem poderoso, né? Faça essa escrita, faça vídeos para você mesmo, grave áudios, enfim, vá experimentando formas terapêuticas de você se curar até você encontrar uma linha que por um tempo te resolva.

Até porque às vezes também você tá num tipo de terapia que resolve até um determinado ponto e depois você precisa passar para outro tipo. Enfim, é uma busca para sempre, constante. Você tem que estar buscando isso. Então não deixa às vezes uma primeira experiência ruim te afastar da terapia em si.

AAlex

E tem coisas que não são terapia, mas são terapêuticas. E o teatro, essa investigação que a gente faz a respeito da máscara, trazendo elementos da máscara do palhaço, a construção de uma máscara deliberadamente, de forma consciente, para que você performe a sua comunicação. É muito interessante e é recorrente quando você cria uma máscara mais poderosa, ela vai deixar de ser necessária em algum momento, porque você acaba trazendo mais liberdade, experimentando as ferramentas.

E esse outro lugar, são duas máscaras que a gente propõe, né? A máscara de poder para que você se organize através de uma construção idealizada de um comunicador. E também a máscara que revela, que tá relacionada com a máscara do palhaço, de você deixar um pouco mais evidente o teu ridículo. Ou ridículo, eu sei que é dolorido pras pessoas pensarem nisso, mas quando você traz características que você escondia, simplesmente, Você traz o teu DNA, a tua identidade.

MMarcelle

O Charlie Chaplin, se eu não me engano, ele dizia que tudo quando é visto de perto é uma comédia, porque se você tá perto do ser humano, você vai perceber, e de si mesmo inclusive, você vai perceber que tem muita coisa que é nesse sentido ridícula. Não quer dizer que te desmereça, mas quer dizer que você pode olhar para aquilo com um pouco mais de leveza, né?

AAlex

Então, resumindo tudo, todo mundo é capaz da autenticidade. O carisma se desenvolve sim, por mais que tenham te convencido que não. Ah, se desenvolve! Tem muito a ver com a tua própria autoinvestigação, e o processo de construção não passa só pela oratória, pela retórica, que às vezes te deixa só igual aos outros. Passa pelo por essa investigação e de repente outros lugares para que você lide com ferramentas talvez até mais poderosas de expressão.

MMarcelle

Para descobrir qual é o teu carisma, né?

AAlex

Exatamente.

MMarcelle

Não o carisma do outro que você vai emular, não, o teu carisma.

AAlex

E fica com a gente, continua com a gente, porque esse é só o primeiro episódio onde a gente vai falar sobre a gente tem muito mais coisas para investigar aqui juntos, né? Como eu falei, são alguns teóricos que a gente tem olhado cada vez mais de perto para trazer embasamento para isso que a gente já propõe como investigação, que é a construção da tua máscara.

MMarcelle

E se você chegou até o final aqui junto com a gente, escreve aqui nos comentários máscara para a gente saber que você assistiu. Continua com a gente, estamos aqui toda semana com um podcast de novo.

AAlex

Se fez muito sentido para você e você acha que vai fazer sentido para mais uma pessoa, que ela vai sair, né, pelo menos provocada a se libertar de algumas amarras para permitir a sua autoexpressão, por favor manda esse podcast para ela. A gente vai ficar muito grato, que nos ajuda, e eu tenho certeza que vai ajudar ela também.

MMarcelle

Segue a gente lá nas outras redes sociais, principalmente o Instagram. Você de Bem com a Câmera em todas as redes. E a gente se vê no próximo episódio então. Ah, é?

AAlex

No Instagram você encontra a Tia Nena também e outras figuras. Vai ser muito bom te ver por lá.

MMarcelle

Vou trazer a Tia Nena para conversar aqui também.

AAlex

Ah, ela vem! Pode deixar que ela vem. Beijo muito grande no coração e obrigada.

MMarcelle

Até mais.

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