Ep. 5 — Quando o que tens nas mãos são vidas
Sara Marques acabou de sair da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro com a licenciatura em enfermagem. O primeiro posto de trabalho foi na Unidade de Cuidados Continuados de Sabrosa, onde os utentes chegam fragilizados a dois níveis - o corpo e a cabeça -, e onde os turnos não têm horas certas. "Não estás com a família desde as três da tarde até ao dia a seguir às 8 horas da manhã. Tens que lidar com todo o tipo de personalidades, vemos muito pouco e ainda estamos a correr vários riscos."
Há três turnos: manhã, tarde e noite. O mais exigente é o "tarde-noite" - domingo à tarde até segunda de manhã. Na manhã, banhos e colheitas. Na tarde, conforto e fisioterapia. Na noite, vigília. "Quando estás ali, o que tu tens nas tuas mãos são vidas, não são objetos."
Sara ainda não acompanhou nenhuma morte em serviço, mas fê-lo durante o estágio. Descreve a experiência como a necessidade de colocar uma capa: "É como se naquele momento existisse uma capa muito grande que tu metes, e parece que estes sentimentos estão ali prontos. Tu não te podes deixar afetar por aquilo." A parte mais difícil, garante, não é ver, é dar a notícia à família.
O que a mantém no trabalho não é o salário - "o que nós recebemos hoje em dia, os subsídios de risco que nós não temos, os horários sobrecarregados" - mas a razão simples de gostar de pessoas. "Continuar a prestar os meus cuidados enquanto conseguir, até porque gosto de conviver com pessoas."
Este podcast contou com a produção de Pedro Sousa, Martim Pinheiro e Diogo Sousa, com a coordenação de Miguel Midões e Teresa Gouveia.
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