Ep. 8 — O vínculo que não se pede, mas acontece
Anabela Martins entrou nos cuidados domiciliários a idosos quase por acaso, através de uma oportunidade que surgiu num serviço de apoio local. Cinco anos depois, é isso que a define, e que a desafia. "A profissão exige uma grande responsabilidade. Estamos a lidar com vidas humanas e pessoas que muitas vezes estão em situações extremamente delicadas."
O trabalho leva-a a casas onde a solidão é o móvel mais presente. Idosos em condições habitacionais precárias, famílias sem recursos, emergências que chegam sem avisar - quedas, crises, perdas. "Temos uma grande escassez de meios, quer seja a nível de equipamento ou até mesmo de pessoal."
O que ninguém conta é a ligação que se forma. "Passamos tanto tempo com estas pessoas que acabamos por criar um vínculo afetivo extremamente profundo." Quando um utente morre, a separação é uma forma de luto. Anabela aprendeu a lidar com isso focando-se no que deu: "Fui capaz de proporcionar-lhes conforto e muito apoio durante o tempo que estivemos juntos."
Em casa, o impacto também se faz sentir. Tem um filho pequeno e os turnos de noite, fins de semana e feriados subtraem momentos que não voltam. "Há momentos em que me sinto bastante culpada por não conseguir estar com ele." Mas continua. A motivação vem de onde menos se espera - "das pequenas coisas, basta um sorriso, um agradecimento, ou até mesmo a sensação de ter ajudado alguém a melhorar a qualidade da sua vida."
O reconhecimento público ainda não chegou à altura do esforço. "Lidar com esta falta de valorização em relação à profissão não é fácil."
Este podcast contou com a produção de Maria Tavares, com a coordenação de Miguel Midões e Teresa Gouveia.
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