Ep. Final — O último a fazer algo por alguém
Marcelo Palma cresceu sem saber que iria trabalhar com mortos. Aos 7 anos, o pai levou-o consigo a uma diligência - "espera, temos que ir só ali a um sítio" - e quando desceu do carro deparou-se com o primeiro cadáver da sua vida. Passou uma semana sem dormir. Jurou que nunca mais. E passou mais de uma década a repetir esse juramento ao pai, que tem a mesma profissão.
Quando precisou de trabalho, o pai comprou-lhe um fato e uns sapatos. Duas semanas depois, Marcelo estava a vestir mortos.
Ganhou notoriedade em 2024 ao participar no reality show Secret Story, onde o seu segredo era precisamente este: maquilha cadáveres. Quis usar a visibilidade para dar a conhecer uma profissão que quase ninguém escolhe. "Era uma das missões que eu vim ao programa: dar a conhecer e que mais jovens também quisessem fazer."
O trabalho é a 24 horas. "Estás à mesa com a tua família na passagem de ano, às 3 da manhã, e acontece - tens que ir." O desafio técnico maior são os hematomas e as feridas: tentar que a pessoa "pareça o mais possível com a realidade, tal como antes de falecer". Os pedidos das famílias são sempre respeitados - às vezes chegam com uma fotografia como referência.
Quando os avós morreram, foi ele a tratá-los. "Eu fiz questão de ser eu a preparar, tanto a vestir a minha avó como o meu avô. Quem melhor do que eu?"
O que o mantém é uma ideia simples e profunda: "Sentir-me útil de poder ser a última pessoa a fazer algo por alguém. Isso é, sem dúvida, o que mais me motiva neste trabalho."
Este episódio marca o fim da primeira temporada de Isto Não é para Todos. Contou com a produção de Beatriz Machado, David Almeida, Francisco Bernardes e Inês Lopes, com a coordenação de Miguel Midões e Teresa Gouveia.
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