A motivação não muda hábitos?
Neste episódio do podcast Aulas do Mochi, resumimos a aula do prof. Frank sobre motivação e acrescentamos o que literatura comenta sobre a motivação e como isso pode ser importante para um personal trainer.
- Modelo de Fogg para Comportamento· SociedadeMotivação·Habilidade·Gatilho
- Aceitação do que não se pode controlar· SociedadeVelhos gatilhos·Ambiente e comportamento·Contexto moderno
- Priorização de tarefas· EducacaoMudança de comportamento·Criação de novos hábitos·Modelo de Fogg
- Pensamentos intrusivos· SociedadeSinais·Faíscas·Facilitadores
Bem-vindo ao Aulas do Mochi, um podcast sobre ciência, movimento e conhecimento.
E cada episódio reúne ideias, pesquisas e histórias cuidadosamente selecionadas para explorar como a ciência explica o movimento humano e transforma a nossa compreensão do mundo.
Exato! A curadoria científica é de Luiz Mochizuki, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo.
E vale lembrar que este material foi feito para a disciplina Práticas de de treinamento físico personalizado dos professores Heuri Franck Bacurau e Luiz Mochizuki.
Então começa agora mais um episódio do Aulas do Mochi. Sabe, é muito comum ver um violão ou um ukulele encostado no canto da sala há meses.
Nossa, sim, fica lá só juntando poeira, né?
A vontade de aprender existe, o instrumento tá logo ali, mas a prática diária simplesmente nunca acontece.
É aquela velha história, a gente tem a ilusão de que querer muito é suficiente para mudar.
Mas não é bem assim. Hoje vamos destrinchar o que a ciência diz sobre a mudança de comportamento e entender por que o nosso próprio cérebro sabota a criação de novos hábitos.
E a literatura nos traz o modelo de Fogg, que é bem mais pragmático sobre isso. Ele define que qualquer comportamento é o resultado de 3 fatores simultâneos.
Tá, e quais seriam esses 3 fatores?
Motivação, habilidade e um gatilho, tudo precisando acontecer ao mesmo tempo.
E é aí que eu fico muito intrigada com o caso do ukulele.
Como assim?
Tipo, se a vontade de aprender a tocar é imensa, ou seja, a motivação tá alta, e os acordes iniciais são super fáceis, por que o hábito não engrena?
Ah, porque a motivação é flutuante, ela não é uma linha reta constante, sabe?
Faz sentido. Um dia a gente acorda super animada e no outro nem tanto.
Exato. A ciência mostra que nossos níveis de motivação sobem e descem baseados em instintos muito básicos, como busca por prazer, a fuga da dor, ou até necessidade de aceitação social, né? Com certeza. Por exemplo, se a ideia de tocar uma música faz a pessoa se sentir parte de uma roda de amigos, a motivação dispara.
Entendi. Mas e quando essa motivação cai?
Aí entra o grande pulo do gato do modelo de Fogg, que é o sistema de compensação. Tipo, motivação e habilidade funcionam como uma gangorra.
Uma gangorra?
Como funciona isso na prática?
Bom, se a motivação cai lá embaixo num dia chuvoso e super estressante de trabalho, a única forma da prática acontecer é reduzir a exigência da habilidade a quase zero.
Ah, tornar a ação ridiculamente fácil.
Exatamente isso.
Entendi. Então, em vez de cobrar tocar uma música inteira de 20 minutos estando exausta, o compromisso passa a ser tocar um único acorde e já pode guardar o instrumento logo em seguida. Quando a dificuldade é minúscula, não é preciso quase nada de motivação.
Que legal! Mas mesmo com motivação e facilidade equilibradas, o comportamento não acontece sem o terceiro pilar, né? O tal do gatilho.
Sim, a faísca que acende a ação. E não basta qualquer faísca. Fogg divide esses gatilhos em 3 tipos bem práticos.
Eu vi isso no material. E aplicar isso no dia a dia é o que muda o jogo, não é?
Totalmente. Temos os sinais, por exemplo. Eles funcionam quando já existe alta motivação e o comportamento é fácil.
Tipo um simples alarme no celular avisando hora do ukulele.
Isso é só um lembrete. Aí temos as faíscas, que são gatilhos carregados de emoção para quando a motivação está no chão.
Ah, como assistir a um vídeo inspirador de um músico genial tocando muito bem.
Perfeito. E por fim, os facilitadores. Esses são para quando a motivação é alta, mas a ação em si é difícil.
O facilitador seria deixar o ukulele já afinado em cima do sofá em vez de guardado no alto do armário dentro de uma capa.
Exatamente. Isso tira o atrito do caminho.
Mas espera aí, na teoria isso é maravilhoso, mas na prática muita gente arruma o ambiente, cria facilitadores, coloca alarme e mesmo assim falha. Pois é, na hora que o alarme toca, a pessoa vai lá, desliga e vai rolar o feed de uma rede social, porque o mau hábito antigo sempre vence.
Essa frustração é muito real e a resposta está no que a revisão de Gardner chama de hábitos implícitos.
Hábitos implícitos? É.
Quando se tenta criar um novo comportamento, os velhos gatilhos não são simplesmente apagados do cérebro. É como ir ao cinema.
Ah, clássica história da pipoca.
Exato. Muitas vezes não há fome alguma, mas só o fato de sentir o cheiro da pipoca e ver as luzes apagando aciona um programa automático.
O ambiente meio que puxa as cordinhas do comportamento e contorna a intenção consciente, tipo de manter uma dieta.
Precisamente. Se o contexto antigo estiver presente, ele desperta o comportamento antigo automaticamente.
Nossa, então a chave para mudanças duradouras não é depender só da força de vontade.
Não mesmo, é focar na simplicidade e adaptar o novo comportamento ao recurso mais escasso do momento. E claro, aplicar os gatilhos na hora certa.
Mas aí eu fico pensando, se nossos velhos hábitos ganham vida nesses contextos, Como é possível sobreviver no mundo moderno? É uma ótima pergunta, porque pensa bem, no passado um anúncio na TV criava um gatilho para comprar algo, mas havia um intervalo imenso de tempo e esforço físico para ir até a loja. Dava tempo de o cérebro desistir.
E hoje esse abismo de tempo não existe mais. Os celulares andam junto com o corpo humano o tempo todo, criando contextos inéditos, um acoplamento imediato entre o gatilho e a ação. Exato. Uma notificação no bolso já traz o gatilho, a motivação e a facilidade extrema de executar tudo em um clique, no mesmo milissegundo.
Reescrevendo a nossa impulsividade em tempo real. Isso é assustador e fascinante ao mesmo tempo.
E deixa uma provocação pra pensarmos: se um comportamento só precisa de motivação, habilidade e um gatilho instantâneo, quem realmente tá no controle das faíscas que ditam as nossas ações diárias?
Uma reflexão pesada para levarmos adiante. Bom, este foi mais um episódio do Aulas do Mushi.
E a curadoria científica é de Luiz Mochizuki, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo.
Se este episódio despertou novas ideias ou novas dúvidas, siga o podcast, compartilhe este conteúdo e acompanhe os próximos episódios.
Até a próxima!