Episódios de Aulas do Mochi

A senhora que tomava chá e o nascimento da estatística moderna

05 de agosto de 202624min
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Neste episódio do podcast Aulas do Mochi, contamos a fascinante história de Muriel Bristol, Ronald Fisher e o famoso experimento da "senhora que tomava chá", considerado um dos marcos do nascimento da estatística moderna. A partir desse episódio, exploramos como a ciência deixou de buscar certezas absolutas para aprender a produzir evidências confiáveis em um mundo marcado pela variabilidade e pela incerteza.

Participantes neste episódio2
M

Muriel Bristol

Host
R

Ronald Fisher

Host
Assuntos3
  • Nascimento da estatística modernaMuriel Bristol·Ronald Fisher·Experimento da senhora que tomava chá·Hipótese nula·Aleatorização
  • Testes Cientificos· CienciaAnálise de variância (ANOVA)·Quadrados latinos·Ensaios clínicos randomizados·Deborah Mayo
  • Livre-arbítrio vs. Determinismo· SociedadeUniverso relógio de Newton e Laplace·Variabilidade natural·Função de erro de Laplace
Transcrição117 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Bem-vindos ao debate. Pensa por um segundo em, tipo, cada medicamento essencial que você compra na farmácia hoje. Ou, sabe, na eficácia das vacinas.

?Voz B

Ou até nos algoritmos que estão rodando no seu celular agora.

?Voz A

Exato. Acredite ou não, a matemática que valida tudo isso, a lógica que separa o que realmente funciona do que é um puro acaso, nasceu de uma discussão sobre a ordem em que se coloca leite e chá numa xícara.

?Voz B

Nossa, sim! Na Inglaterra dos anos 20. É uma daquelas ironias fantásticas da história, né? O momento exato em que a ciência moderna deixou de buscar certezas absolutas e, bom, começou a abraçar a incerteza.

?Voz A

Pois é. E hoje a gente vai mergulhar nessa transição fascinante. E só para deixar bem claro logo de cara, todo o material e o roteiro histórico que guia a nossa conversa aqui pertencem ao podcast Aulas do Motti, do professor Luiz Motti Zucchi. Isso lá da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, a EASHI. A gente vai explorar essa revolução com base em referências bibliográficas bem essenciais, tipo o The Design of Experiments do próprio A.H.

Fisher, o livro The Lady Tasting Tea do David Salzburg, um clássico com certeza, além de Tea for Three do Stephen Sand, e a visão mais filosófica da Deborah Mayo no livro Error and the Growth of Experimental Knowledge.

?Voz B

Mas sabe, a nossa grande questão hoje, olhando para todo esse material riquíssimo, é o que essa revolução realmente significou. Porque para mim, a história dessa senhora tomando chá não é só sobre o nascimento de uma ferramentazinha matemática, tá?

?Voz A

E é sobre o quê então?

?Voz B

É uma ruptura filosófica profunda, sabe? Foi ali que a ciência finalmente atestou o óbito do determinismo clássico. Eles assumiram que o conhecimento só é produzido quando a gente tenta de forma sistemática encontrar os nossos próprios Olha, eu entendo esse lado, mas eu, como sempre, vejo por um ângulo um pouco mais pragmático.

?Voz A

Eu não discordo da mudança filosófica de jeito nenhum, mas eu encaro o nascimento da estatística moderna como um trunfo espetacular da metodologia.

?Voz B

Ah, o foco na ferramenta em si.

?Voz A

Exatamente. Ferramentas práticas, tipo a aleatorização, permitiram que a ciência finalmente parasse de brigar com a variabilidade natural da vida, sabe, e aprendesse a isolar o sinal verdadeiro no meio de um oceano de ruído. Mas assim, para entender como a gente chegou no CHA, a gente precisa dar um passo atrás.

?Voz B

Com certeza.

?Voz A

Como é que era a ciência antes dessa revolução toda?

?Voz B

Bom, era uma ciência meio que obcecada pela perfeição. No século 18 e 19, a gente vivia o que eles chamavam de universo relógio de Newton e Laplace.

?Voz A

Ah, a velha ideia de que o universo é uma máquina gigante de engrenagens perfeitas, né? Isso.

?Voz B

A premissa era muito sedutora. Se você soubesse as condições iniciais de tipo todas as partículas e tivesse as fórmulas corretas, você poderia prever o futuro inteiro. Simplesmente não existia espaço para incerteza. A incerteza era vista apenas como ignorância nossa.

?Voz A

Mas aí vem o problema prático, né? Os astrônomos apontavam aqueles telescópios gigantescos para o céu, mediam a órbita de um planeta E adivinha? A observação nunca batia milimetricamente com a matemática do Newton.

?Voz B

Nunca batia, sempre sobrava uma rebarba.

?Voz A

Pois é, uma diferença minúscula. E como que a ciência genial da época lidava com isso?

?Voz B

Varrendo tudo para debaixo do tapete, literalmente. É aí que entra a famosa função de erro do Laplace. Eles acreditavam tanto na teoria original que qualquer desvio era tratado assim puramente como um erro de leitura, tipo, ah, o astrônomo tava com sono ou a lente tava suja. Exatamente, uma imperfeição do instrumento ou do próprio olho do cientista. A função de erro servia só como um amortecedor para absorver essas falhas e manter as leis celestes intactas e sagradas, sabe?

?Voz A

Olha, funciona muito bem para física e para astronomia da época, mas então A ciência começou a olhar com mais rigor para a biologia, para a medicina e, de forma muito crucial, para a agricultura. E a biologia, bom, ela não obedece a um universo relógio.

?Voz B

Nem um pouco! Se o universo é um relógio perfeito, como que você explica que num mesmo campo de trigo, plantado exatamente com as mesmas sementes, nenhuma planta cresce com a mesma altura?

?Voz A

Pois é, a variabilidade não era mais uma falhinha na lente do telescópio. Era a própria natureza operando. E isso nos leva diretamente para a Estação Experimental de Rothamsted, lá na Inglaterra.

?Voz B

Ah, o caos de Rothamsted!

?Voz A

Total! No início do século 20, eles tinham acumulado, tipo, uns 90 anos de dados sobre fertilizantes, clima e colheitas. Era um caos absoluto. Chovia mais num ano, o solo era mais ácido no outro, o trabalhador espalhava o adubo de um jeito diferente num dia. Exato. E aí o jovem estatístico Ronald Aylmer Fisher foi contratado justamente para encontrar algum sentido nessa bagunça toda, o que ele mesmo chamou de revirar o monte de esterco.

?Voz B

E a genialidade do Fisher, que o Salzburg descreve tão bem no livro dele, foi olhar para esse esterco todo de dados e perceber que, cara, a variabilidade não era um ruído que devia ser ignorado ou corrigido com uns índices artificiais de fertilidade, sabe?

?Voz A

Ele parou de lutar contra a natureza.

?Voz B

Sim, a variabilidade natural era a única realidade possível. A ciência clássica tentava criar aquele ambiente perfeito de laboratório, mas o Fisher percebeu que isso era impossível no mundo real. A gente precisava de uma nova linguagem, um novo paradigma para conversar com a natureza do jeito ruidoso que ela realmente é.

?Voz A

E essa nova linguagem acabou ganhando forma, incrivelmente, não num laboratório todo estéril, mas numa tardinha ensolarada em Cambridge nos anos 20.

?Voz B

O famoso episódio da xícara de chá.

?Voz A

Exato! Vamos montar a cena aqui para quem tá ouvindo a gente. Então lá, o Ronald Fisher, nosso estatístico brilhante, William Woollatt, que era um bioquímico, e a Doutora Muriel Bristol, uma pesquisadora especializada em algas.

?Voz B

Um belo trio!

?Voz A

Sim. E aí, como bons britânicos, chega a hora do chá. O Fisher gentilmente prepara uma xícara, Coloca lá um pouco de leite, despeja o chá por cima e oferece para a Doutora Bristol.

?Voz B

E ela, de forma muito educada, simplesmente recusa. E não é porque ela não quer chá, não. Ela recusa porque afirma categoricamente que ela prefere o contrário. Ela gosta do chá derramado primeiro e o leite depois.

?Voz A

O que parece preciosismo.

?Voz B

Sim, mas segundo ela, colocar o leite antes ou depois altera completamente o sabor da bebida. E ela jurava que era capaz de notar a diferença só de provar.

?Voz A

Gente, imagina a cabeça de um cientista puramente determinista ouvindo um negócio desses. Parece superstição pura. Quimicamente falando, o leite e o chá vão se misturar na xícara de um jeito ou de outro. Qual é a diferença real? Mas o William Roche não descarta a ideia de cara. Ele solta a frase mágica, que é: vamos testá-la! Isso, vamos testá-la!

?Voz B

E esse é o estopim da ciência moderna. E olha só o que o Fisher faz nessa hora. Ele não pega um microscópio, ele não vai para o laboratório medir a termodinâmica da xícara ou as proteínas do leite. Ele desenha ali mesmo, na hora, um jogo, um experimento metodológico de pura elegância, sabe?

?Voz A

As 8 xícaras.

?Voz B

Ele manda preparar 8 xícaras. 4 terão o leite servido primeiro e as outras 4 terão o chá servido primeiro.

?Voz A

E a tarefa da Doutora Bristol era simplesmente provar essas 8 xícaras que iam ser apresentadas para ela sem ela ver a preparação, óbvio, e separar em 2 grupos: as 4 leite primeiro de um lado e as 4 chá primeiro do outro. Parece uma brincadeira boba, né?

?Voz B

Parece um joguinho de festa.

?Voz A

Mas vamos entender a genialidade monstruosa do que está acontecendo aqui. O primeiro grande salto conceitual do Fisher nesse momento exato foi criar o que ele chamou de hipótese nula.

?Voz B

E esse é, para mim, o coração epistemológico dessa história toda. Porque historicamente, se um cientista quisesse testar a teoria da Doutora Bristol, ele tentaria de todo jeito provar que ela estava certa. Buscar evidências para confirmar a crença. Exato. Mas o Fisher inverte totalmente essa lógica. Ele diz tipo: olha, não podemos provar de forma absoluta que ela tem um paladar mágico. Mas nós podemos assumir que ela não tem habilidade nenhuma e ver se os dados destroem essa suposição inicial.

?Voz A

É brilhante!

?Voz B

Ele começa com a premissa do mais puro acaso. A hipótese nula é a suposição do: ah, não tem nada acontecendo aqui, ela tá apenas chutando. E por que isso é tão poderoso metodologicamente? Porque isso nos permite calcular probabilidades exatas. A gente pode destrinchar a matemática aqui porque ela é o que dá o peso real à inferência estatística, né? E é bem mais simples do que parece. Manda ver, como você visualiza esses números?

?Voz A

Tá, imagina as 8 xícaras na mesa. A Doutora Bristol sabe que existem 4 de um tipo e 4 de outro, certo?

?Voz B

Certo, essa era a regra do jogo.

?Voz A

Então, ela prova a primeira e diz leite primeiro, aí prova a segunda e diz chá primeiro. Quantas formas possíveis existem de separar 8 xícaras em 2 grupos de 4? A matemática combinatória nos diz que se você calcular todas as combinações, tipo pegando 8 vezes 7 vezes 6 vezes 5 e dividindo por 4 vezes 3 vezes 2 vezes 1, você chega no número mágico, que é 70. Exatamente, 70. Existem exatamente 70 combinações diferentes possíveis para ela escolher na mesa.

?Voz B

O que significa que se a hipótese nula for verdadeira, ou seja, se ela não tiver a menor ideia do que está provando, ela tem apenas uma chance em 70 de acertar a ordem a ordem de todas as 8 xícaras puramente na base da sorte.

?Voz A

Exato, uma chance em 70 dá um pouquinho menos de 1,5% de probabilidade. O Fisher estabeleceu um limite quantitativo ali. Se ela acertasse tudo, ele não ia dizer: ah, eu provei que a biologia do paladar dela é superior.

?Voz B

Não tinha como afirmar isso.

?Voz A

Não, ele diria: o resultado que acabamos de ver tem menos de 1,5% de chance de ocorrer se ela estivesse apenas adivinhando. Agora, e se ela errasse uma xícara de cada grupo. A probabilidade do acaso pularia para quase 23%.

?Voz B

É um salto gigantesco.

?Voz A

Sim, e com 23% de chance de ser pura sorte, o Fisher diria que a gente não tem evidências suficientes para dizer que ela realmente sabe a diferença. A matemática combinatória transformou, tipo, a intuição num método totalmente operável.

?Voz B

A matemática é linda, é inegável, mas a execução prática desse teste é onde eu acho que entra aquele conceito de teste severo, que a filósofa Débora Maio explica e que o professor Mochizuki também aborda bastante no material dele. Porque não basta a matemática ser bonita, né? O teste no mundo real tá cheio de variáveis ocultas, certo?

?Voz A

Sem dúvida. Sempre tem um imponderável. Por exemplo, digamos que as 4 xícaras de leite primeiro fossem preparadas todas de uma vez, juntas, e só depois as 4 de chá primeiro.

?Voz B

A água iria esfriar entre a primeira e a oitava xícara.

?Voz A

Exatamente. Ela poderia acertar tudo não por causa do leite, mas simplesmente escolhendo as xícaras mais frias, sabe? Ou talvez um lote de xícaras fosse mais grosso que o outro. Como que a gente lida com isso se não tá num laboratório perfeitinho controlando até o ar-condicionado?

?Voz B

E aí que o Fischer tira da munanga a arma secreta dele: a aleatorização ou casualização. Ele sorteia a ordem em que as 8 xícaras vão ser apresentadas para ela. Pode ser, sei lá, jogando um dado, puxando cartas de um baralho.

?Voz A

E por que que sortear a ordem resolve o problema das variáveis ocultas? Porque ao embaralhar tudo, você garante que qualquer fator externo, tipo o esfriamento da água, a espessura da louça, se o leite estava mais fresco, seja distribuído pelo puro acaso entre os dois tratamentos.

?Voz B

Você dilui o problema.

?Voz A

Isso, o ruído se torna simétrico, sabe? Você quebra o viés. Se ela usar a temperatura para adivinhar, a temperatura agora está espalhada aleatoriamente entre as xícaras de leite primeiro e chá primeiro. A aleatorização purifica o sinal empírico. É um golpe de mestre absurdo da metodologia.

?Voz B

Sim, mas é aqui que a Deborah Mayo eleva isso de uma simples sacada metodológica para uma revolução filosófica. Quando Fischer usa aleatorização e a matemática combinatória juntas, Ele não está apenas purificando dados, ele está criando o que a Mayo chama de severe test, um teste severo.

?Voz A

E como você explicaria a intuição de um teste severo para quem não é lá muito fã de estatística?

?Voz B

Pensa assim: se eu quero provar que os freios do meu carro são bons e eu testo esse freio dirigindo a 5 por hora no estacionamento do shopping e o carro para—

?Voz A

Bom, o freio funcionou.

?Voz B

Sim, funcionou, mas isso não é um teste severo. Quase qualquer freio medíocre passaria num teste desses. Agora, se eu testo esse mesmo carro a 120 por hora numa pista molhada e ele para em segurança, aí sim, isso é um teste severo. Um teste severo tem uma probabilidade altíssima de revelar uma falha na teoria, caso essa teoria seja de fato falsa.

?Voz A

Ou seja, o experimento tem que ser construído como uma armadilha, sabe? Uma armadilha dificílima de escapar só pela sorte.

?Voz B

Exatamente. Durante séculos, a ciência operava meio que confirmando seus próprios vieses. Você observava algo na natureza e criava uma teoria que se ajustasse certinho àquela observação. O experimento do chá, nessa visão da Mayo, é uma máquina projetada especificamente para falhar a hipótese de que a Muriel Bristol tem alguma habilidade.

?Voz A

Uhum, o foco muda completamente.

?Voz B

Se a habilidade dela não for genuína, o teste de uma chance em 70 vai, com altíssima probabilidade, escancarar essa farsa. Aprender com os erros, tentar ativamente quebrar as nossas próprias hipóteses, isso se tornou a essência da nova epistemologia científica. A ciência deixou de ser aquela busca para confirmar dogmas para ser o processo sistemático de eliminar o que tá errado dia a dia.

?Voz A

Porque daquela tarde em Cambridge em diante, os métodos que o Fisher desenvolveu transbordaram daquela salinha de chá para o mundo moderno de um jeito que pouca gente imagina. Você mencionou antes que ele tava lá tentando entender dados caóticos de agricultura, né?

?Voz B

Sim, lá no monte de esterco de Rothamsted.

?Voz A

Foi aplicando exatamente a mesma lógica das chicas que o Fisher desenvolveu algo chamado ANOVA, a famosa análise de variância.

?Voz B

Ah, a ANOVA que traumatiza tantos estudantes universitários hoje em dia, né? Mas, cara, o conceito por trás dela é tão elegante.

?Voz A

Muito elegante. Se a gente puder desmistificar isso agora rapidinho, o que a análise de variância faz é literalmente pegar aquele barulho todo da natureza e fatiar em pedaços que a gente consegue entender.

?Voz B

Como assim fatiar?

?Voz A

Tipo, se um campo de trigo cresce muito mais de um lado do que do outro, a ANOVA permite que o pesquisador calcule matematicamente: olha, qual proporção desse crescimento extra foi causada pelo fertilizante novo que a gente jogou e qual proporção foi causada só porque o solo ali naquele canto era mais úmido. Ela separa o sinal, que é o efeito que você quer testar, do ruído natural do ambiente.

?Voz B

Genial! E ele não parou por aí, né? Temos também os quadrados latinos, que o Salzburg menciona bastante. Se você tem um campo de plantação gigante e você sabe que a luz do sol varia do norte para o sul e a umidade varia do leste para o oeste, como é que você planta diferentes sementes de um jeito que seja justo para todas?

?Voz A

Ah, o Fischer resolveu isso como quem resolve um jogo de sudoku. Num quadrado latino, você divide o terreno numa grande grade e garante que todo tipo de semente seja plantado exatamente uma vez em cada coluna e em cada linha. Você neutraliza a vantagem do terreno de forma magistral, sabe?

?Voz B

É quase uma obra de arte matemática.

?Voz A

Sim, o delineamento experimental se torna uma forma de arquitetura intelectual. E por que que isso importa tanto para nós hoje? Porque foi exatamente assim que a gente migrou da agricultura para os humanos.

?Voz B

Ah, sim, o Stephen Sun, no livro T for Three, toca exatamente nesse ponto. Ele leva a conversa para os ensaios clínicos modernos.

?Voz A

Exato, pensa nos ensaios clínicos randomizados duplos cegos que a gente tanto ouve falar. Quando a indústria farmacêutica precisa provar que um remédio contra o câncer realmente funciona, ou que uma vacina é segura para a população, eles não dão o remédio para 10 pessoas e, ah, cruzam os dedos torcendo para o melhor.

?Voz B

A ciência não é torcida.

?Voz A

Não, eles pegam dezenas de milhares de voluntários e dividem de forma aleatória entre o grupo que recebe a droga de verdade e o grupo que recebe um placebo. A aleatorização distribui todas aquelas variáveis invisíveis que a gente mencionou, tipo genética, idade, dieta, igualmente entre os grupos.

?Voz B

É a lógica das xícaras de de novo.

?Voz A

Perfeito. E no final, eles usam a mesma lógica da hipótese nula do Fisher para ver se o benefício que eles mediram ali teve apenas uma chance minúscula de ser pura sorte.

?Voz B

E essa medicina baseada em evidências, que hoje salva literalmente milhões de vidas, descende diretamente dessa busca metodológica que começou naquelas 8 xícaras. Eu concordo 100%, mas assim, Mesmo reconhecendo essa grandiosidade prática toda, eu acabo retornando para o ponto central do nosso debate filosófico aqui. Lá vem você: o legado metodológico, os ensaios clínicos, a ANOVA, tudo isso é só a manifestação visível, a ponta do iceberg, de uma alteração invisível e muito mais profunda no que nós chamamos de verdade científica, sabe?

?Voz A

E qual seria o cerne dessa alteração invisível na sua visão?

?Voz B

A humildade, a humildade institucional da ciência foi a aceitação do fim daquela precisão infinita e arrogante. Lá no mundo do Laplace, a variabilidade era feia, era erro humano, era burrice. O Fisher nos mostrou que a variabilidade é a regra do universo. Nós finalmente aceitamos que nunca conheceremos os parâmetros verdadeiros e absolutos da realidade.

?Voz A

A gente só estima eles, né?

?Voz B

Sim. Quando um estudo genético ou de inteligência artificial é publicado hoje em dia, ele não diz: esta é a verdade irrefutável e absoluta. Ele fornece um intervalo de confiança, um valor p, uma margem de erro. A gente basicamente criou uma matemática super estruturada ao redor da nossa própria ignorância. E aprender a medir a incerteza mudou a filosofia da ciência para sempre.

?Voz A

Formidável do Fisher esse delineamento que isola o sinal serviu justamente para permitir essa nova filosofia de abraçar a dúvida mensurável. Mas eu tenho certeza absoluta que quem tá ouvindo a gente desde o começo tá com uma única pergunta na ponta da língua.

?Voz B

Opa, qual?

?Voz A

A gente deixou a Doutora Muriel Bristol com as 8 xícaras na frente dela lá nos anos 20 e até agora não contamos o final da história.

?Voz B

Nossa, é verdade! Poxa, depois de toda a elaboração da hipótese nula, do sorteio minucioso da ordem das xícaras e daqueles cálculos de uma chance em 70, afinal, o que aconteceu quando ela tomou o chá?

?Voz A

Então, segundo o relato histórico do professor Hugh Smith, que também estava lá em Cambridge na época, a Doutora Bristol calmamente tomou um gole de cada uma das 8 xícaras.

?Voz B

Que tensão!

?Voz A

Determinista na sala, ela identificou corretamente todas as 8 xícaras.

?Voz B

Mentira!

?Voz A

100%.

?Voz B

100%?

?Voz A

100%. 4 xícaras onde o leite entrou primeiro, 4 xícaras onde o chá entrou primeiro, separadas perfeitamente.

?Voz B

Caramba! Um evento de uma chance em 70, que dá cerca de 1,4%, aconteceu ali na frente do Fischer. Mas, e eu acho que esse é o arremate perfeito para o nosso debate de hoje, o Fischer não saiu correndo daquela sala gritando: eu provei que as papilas gustativas na Muriel sentem a ligação química das moléculas do leite. Ele jamais afirmou que aquele acerto provava a teoria dela de forma absoluta.

?Voz A

Porque novamente, o teste não confirma verdades, ele elimina explicações erradas. O experimento só mostrou que aquele resultado maravilhoso seria absurdamente improvável se ela estivesse apenas chutando ao acaso, né?

?Voz B

Exato. Logo, o acaso é descartado como uma explicação razoável para aquele fenômeno.

?Voz A

E aí fica super clara a fronteira entre a velha ciência e a nova ciência.

?Voz B

A distinção profunda entre a prova matemática dedutiva, onde A leva inevitavelmente a B, e a evidência estatística indutiva, que nos diz o quão confiantes nós podemos estar ao rejeitar uma premissa falsa e aí tomar uma decisão prática no mundo real, né?

?Voz A

É uma bela maneira de colocar. E sinceramente, a história da senhora que toma chá não é só uma anedota meio excêntrica da aristocracia acadêmica. É de fato a certidão de nascimento da ciência experimental moderna, um mundo onde o teste severo e a busca sistemática por falsificação reinam absolutos.

?Voz B

Com certeza. E fica muito evidente que não importa se você é encantado pelo pragmatismo puro do método empírico, como você, ou mais inclinado para essa revolução filosófica do conhecimento, como eu, o grande desafio de separar o sinal real do mar de ruído Bom, ele continua sendo o pilar central da ciência hoje.

?Voz A

Sem dúvida, lidar com a incerteza é o projeto contínuo da humanidade, né?

?Voz B

É o que a gente faz todo dia.

?Voz A

E com esse pensamento fascinante, a gente vai encerrando a nossa discussão de hoje. Gostaríamos de ressaltar mais uma vez para todo mundo que toda essa riqueza histórica, a narrativa sobre a Muriel Bristol e o Ronald Fisher, e as conexões epistemológicas que a gente debateu aqui hoje, foram totalmente baseadas no conteúdo fantástico do podcast Aulas do Mochi, que é conduzido de forma brilhante pelo professor Luiz Mochizuki lá da EAH-USP.

Isso, todo esse nosso debate foi estruturado sobre os ombros das obras do Fisher, do Salzburg, do Senne e da Mayo. Na próxima vez que você for preparar uma xícara de chá, ou bom, de café, né, não importa o que você coloque primeiro na xícara, lembra de uma coisa: a incerteza e a variabilidade sempre vão estar sentadas na mesa com você.

?Voz B

Mas agora, graças à estatística, a gente pelo menos sabe como jogar o jogo delas, né?

?Voz A

Com certeza. Muito obrigada por nos acompanhar hoje. Até a próxima!

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