Episódios de Aulas do Mochi

Os dilemas do diploma e empregabilidade

01 de agosto de 202614min
0:00 / 14:11

Neste episódio, discutimos os dilemas de quem se forma e vai buscar empregos. Teoria, prática, competências... qual é papel da universidade na formação do egresso?

Assuntos4
  • Aprendizado contínuoBackward design · UOL (Aprendizagem Integrada ao Trabalho) · Simulações digitais · Realidade virtual · Inteligência Artificial
  • Carreiras manuais qualificadasGap de competências · Formação teórica vs. prática · Responsabilidade da universidade · Responsabilidade do setor privado
  • Soft skills no mercado de trabalhoComunicação · Trabalho em equipe · Resolução de problemas · Inteligência emocional
  • Globalização e suas contradiçõesPaquistão · Indonésia como Pivô Geopolítico · Tanzânia · Nigéria · Viagem Eslováquia
Transcrição71 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Bem-vindos ao Dedibate! Sabe, imagina passar 4, talvez 5 anos da sua vida investindo um tempo absurdo e, ah, talvez dezenas de milhares de reais.

?Voz B

Nossa, sem dúvida é um investimento gigantesco de tempo e dinheiro.

?Voz A

Exato! Tudo isso para construir tipo a base técnica perfeita para sua carreira. Aí você tira boas notas, domina a teoria, recebe o seu diploma super orgulhosa, então chega no primeiro dia de trabalho e descobre que você e e a sua empresa falam idiomas completamente diferentes?

?Voz B

Pois é, é um choque de realidade, né?

?Voz A

Totalmente. E é exatamente isso que tá acontecendo no mercado global hoje. O sistema que deveria preparar a gente para o futuro tá, bom, falhando bem na hora da entrega.

?Voz B

O famoso gap de competências?

?Voz A

Isso. E antes de mergulharmos nisso, quero deixar bem claro logo de cara que todo o material, os dados e a base factual que vão guiar a nossa discussão de hoje pertencem ao excelente material chamado Aulas do Mochi, do professor Luiz Mochizuki, da EASH USP.

?Voz B

É um material fantástico, muito denso.

?Voz A

Muito. Então, o dilema central do debate hoje é: de quem é a verdadeira responsabilidade por esse abismo? Eu, trazendo uma perspectiva mais acadêmica, defendo que o papel da universidade é construir bases analíticas, é um pensamento crítico de longo prazo. A meu ver, o setor privado falha feio ao exigir profissionais tipo perfeitamente prontos, fugindo do dever de treinar essas pessoas.

?Voz B

Bom, e eu trazendo a visão do setor produtivo, do empresariado, eu tenho uma visão bem diferente disso. Eu argumento que a academia construiu muros altos, sabe, e se isolou em teorias defasadas. Se o currículo não for alinhado com a indústria, logo o diploma vai virar só um recibo caro de conhecimentos obsoletos.

?Voz A

Ah, eu entendo porque você pensa assim, mas olha, deixa eu oferecer uma perspectiva diferente. A universidade não é, e estruturalmente nem tem como ser, um centro de treinamento corporativo glorificado.

?Voz B

Mas ninguém tá pedindo para ser só isso.

?Voz A

Sim, mas o diploma ainda cumpre o papel de dar uma fundação intelectual que ensina o aluno a aprender. O material do professor Mochizuki mostra que a literatura quase sempre culpa as universidades por essas falhas, mas a gente esquece o outro lado: os empregadores simplesmente cortaram o investimento no on-the-job training, o treinamento no trabalho, sabe? O mercado quer comprar um júnior pagando salário de júnior, mas exigindo a maturidade de alguém com 5 anos de empresa.

Sem contar a massificação do ensino e a economia estagnada, o mercado só não gera vagas boas o suficiente.

?Voz B

Certo, mas eu vejo por um ângulo bem diferente, porque os números que a gente tem sobre a mesa, eles contam uma história de falha de design mesmo. Não só de economia ruim.

?Voz A

Como assim? Falha de design?

?Voz B

Os dados do material-base são um banho de água fria. Olha para o Paquistão, por exemplo. Os recém-formados lá relatam que, tipo, 60% da formação deles foi puramente teórica. Nenhuma aplicabilidade.

?Voz A

Caramba!

?Voz B

Pois é. Na Indonésia, 40% dos empregadores dizem abertamente que faltam competências básicas aos egressos. O resultado? Só 53% desses jovens atuam na sua área. Quase metade vai fazer outra coisa, porque o diploma não tem valor prático.

?Voz A

Mas espera aí, você não acha que julgar o valor de uma graduação inteira com base só no uso imediato, no primeiro ano, é uma visão imediatista demais?

?Voz B

Eu não acho que seja imediatista, não.

?Voz A

A teoria é o que sustenta a capacidade do cara inovar daqui a 10 anos.

?Voz B

Mas olha, a teoria é inútil se o indivíduo não consegue passar nem da porta de entrada da empresa. Tem o caso da Tanzânia no estudo, que é fascinante. O desalinhamento de competências explica matematicamente 52,3% da variância no desemprego dos universitários.

?Voz A

Uau, mais da metade!

?Voz B

Exatamente. Mais da metade dos jovens desempregados não estão sem trabalho por causa de inflação ou crise. É porque aprenderam as coisas erradas ou da forma errada. É uma desconexão de expectativas. O aluno entra querendo decorar a fórmula e o professor dá nota 10 e diz que ele tá pronto.

?Voz A

Sim.

?Voz B

Mas a empresa quer saber de resolução de problemas sob pressão, comunicação, inteligência emocional, as tais das soft skills que a faculdade não testa.

?Voz A

Ah, e aqui a gente toca no ponto mais sensível do nosso debate. A universidade deve mesmo ser a principal responsável por ensinar soft skill?

?Voz B

Eu acredito que sim.

?Voz A

Mas pensa numa analogia de tecnologia. É melhor que linha de montagem. O papel da universidade é instalar o sistema operacional na mente do aluno. Raciocínio lógico, ética científica, sabe? Isso leva anos para compilar.

?Voz B

Tá, tô acompanhando.

?Voz A

Aí o mercado quer que o aluno já venha com os aplicativos pré-instalados, a cultura da empresa, o jeito de lidar com cliente deles. Ensinar resiliência ou liderança no nível universitário é complexo demais. O estudo cita a Eslováquia, mostrando que comportamentos como assumir responsabilidades se formam na infância. Como um professor com 60 alunos numa sala de aula espremida vai ensinar um adulto de 22 anos a ser responsável? O sistema operacional a gente entrega rodando. O aplicativo, o mercado tem que ajudar a criar.

?Voz B

Olha, a analogia é muito inteligente, mas eu discordo totalmente de onde você colocou as soft skills nela.

?Voz A

Sério? Por quê?

?Voz B

Porque comunicação clara, trabalho em equipe não são aplicativos que mudam de empresa para empresa. Elas são API, sabe? A interface do sistema operacional.

?Voz A

Ah, entendi o ponto.

?Voz B

Se o seu SEO acadêmico é brilhante, mas não tem interface para comunicar com os outros computadores, ele é inútil lá dentro. O engenheiro pode ser um gênio do cálculo estrutural, mas se ele não sabe ouvir a crítica de um arquiteto sem surtar, a ponte cai.

?Voz A

Sim, eu concordo que a comunicação é vital. Estou 100% com você nisso. O que eu questiono é a mecânica. Como se ensina isso numa faculdade tradicional?

?Voz B

Então, você não ensina isso escrevendo na lousa. Você cria um ambiente para que isso seja forjado. O problema hoje é que o aluno acha que sabe. Os dados mostram que eles superestimam as próprias habilidades.

?Voz A

Ah, isso é verdade. Fazer TCC pelo WhatsApp não é bem trabalho em equipe, né?

?Voz B

Exato! E aí você olha para a Nigéria, o material cita que mais de 70% dos empregadores relatam insatisfação profunda com a resolução de problemas dos recém-formados. A academia não pode lavar as mãos e dizer que responsabilidade vem da infância. O currículo tem que colocar esse aluno em situação de estresse real para desenvolver autoconsciência.

?Voz A

Tá, justo. Mas vamos sair do diagnóstico e ir para a prática. Você tá argumentando que a universidade tem que mudar radicalmente se não vai ter o professor falando e o aluno só anotando. O que o setor privado propõe que a gente faça com as ementas, afinal?

?Voz B

É aí que entra o backward design, o design reverso. Hoje, a universidade ensina física, depois resistência de materiais e cruza os dedos no final, né?

?Voz A

Basicamente isso, sim.

?Voz B

O design reverso vira isso de ponta-cabeça. O coordenador senta com a indústria e pergunta qual é o problema real que um profissional resolve numa terça-feira à tarde. E aí desenha o currículo de trás para frente. O empresário é co-arquiteto do curso.

?Voz A

Interessante, mas me dá um exemplo prático disso. Como que muda o dia a dia do aluno?

?Voz B

Muda com o UOL, a aprendizagem integrada ao trabalho. Em vez de uma provinha de logística, o aluno passa 3 meses trabalhando com dados reais de uma falha da cadeia de suprimentos de uma empresa parceira. E temos os dados da Tanzânia de novo provando que o UOL aumenta as habilidades técnicas em 23%, comunicação em 18% e resolução de problemas em 15%.

?Voz A

Nossa, mas por que um salto de 23% na parte técnica só mudando o formato? A teoria não é a mesma.

?Voz B

Até é a mesma teoria, mas a mecânica no cérebro é outra. Decorar para prova de sexta vai para memória de curto prazo. Resolver um gargalo logístico onde um erro seu significa um prejuízo de, sei lá, R$50 mil para empresa, o risco cria uma codificação neurológica real. A fricção da vida real ensina soft skill.

?Voz A

Olha, eu vejo muito valor no backward design e no aprendizado baseado em problemas, mas... Vem, vou de advogada do diabo aqui um pouquinho.

?Voz B

Claro, manda!

?Voz A

Eu preciso fazer uma crítica sobre como o mercado quer escalar isso usando tecnologia. O material do professor Mushizuki cita o boom de simulações digitais, estágios em realidade virtual, mentoria com IA. Tem até aquela correlação lá, um r de 0,68 entre usar inteligência artificial e a prontidão para o emprego.

?Voz B

É um número excelente, uma correlação fortíssima.

?Voz A

É fantástica, sim. Para quem tá ouvindo, significa que tem uma ligação quase inegável entre treinar no virtual e se sentir pronto. Mas sendo brutalmente honesta, diga, usar óculos de realidade virtual substitui o caos humano? O mercado vive reclamando que o jovem não tem resiliência, que não aguenta um cliente irracional ou um chefe chato, mas de forma super contraditória acho o máximo que a universidade treine isso no software. Cadê as empresas abrindo as portas para esse aluno sentir o peso do mundo real?

?Voz B

Essa provocação é muito boa e eu tenho que concordar parcialmente com você. A IA não substitui o calor, a tensão de uma reunião de diretoria, sabe?

?Voz A

Com certeza não.

?Voz B

Mas a gente barra na matemática. Você mesma falou da massificação, são milhões de alunos. Não existe vaga de estágio com supervisão boa para todo mundo. A simulação por IA entra como uma ponte, um ambiente seguro para errar. O aluno fala besteira no simulador de IA, reflete sobre aquilo e não custa o emprego dele. Mas você tá certa num ponto: o setor privado quer a solução, mas foge do incômodo do processo.

?Voz A

É isso, é uma falha institucional dos dois lados. A gente fala de cocriação, de backward design, Mas isso exige dinheiro e tempo severos de ambas as partes. E o que a literatura mostra? Uma fragilidade tremenda. Na academia, professores ganham pontos por publicar artigos, não por empregar alunos.

?Voz B

É, a métrica deles é outra, né?

?Voz A

Exatamente. E nas empresas, a paciência é nula. Exigem um profissional sênior, mas não estruturam programas de job shadowing, que é só deixar o aluno lá, quieto, observando um profissional trabalhar. Muitas empresas usam o estágio puramente para ter mão de obra barata, para preencher planilha, não como aprendizagem integrada.

?Voz B

É, e é nesse terreno que a gente converge inevitavelmente. Não dá mais para ter um lado como vítima e o outro como vilão. O empresário não pode só cruzar os braços, reclamar do aluno e esperar mágica. Ele tem que entrar na universidade, e não é da palestra no fim do ano.

?Voz A

Sim, palestra não muda currículo.

?Voz B

É trazer problema cabeludo de negócios para sala de aula, para aplicar no modelo de sala de aula invertida. O aluno só cria resiliência lidando com problema que não tem gabarito no final de livro.

?Voz A

E puxando para o lado macroeconômico, é bom lembrar que ninguém resolve isso sozinho. A universidade pode modernizar, o empresário pode investir em estágio, Mas se a economia não gerar vaga de alta qualificação, a gente vai ter gênios altamente resilientes dirigindo aplicativo de transporte. A culpa é difusa, sistêmica.

?Voz B

Sem dúvida. E caminhando para nossa síntese, a visão que eu tiro do setor privado e dos dados analisados é clara: a universidade tem que aceitar que o modelo isolado dela fracassou. Esse isolamento destrói a saúde mental e a renda do jovem que bate de frente com o desemprego. Tem que abraçar a cocriação, baixar o orgulho acadêmico e ensinar soft skill com o mesmo rigor da técnica. A prática tem que ser a espinha dorsal desde o dia 1.

?Voz A

É bom, resumindo o lado acadêmico, eu mantenho que não se derruba a fundação da casa porque o telhado tem goteira. A base técnica e a ciência ainda são o coração da universidade. A gente forma gente que se reinventa, não só uma engrenagem de curto prazo. Mas eu concordo que o mercado tem que sentar na mesa de responsabilidades. Tem que treinar, tem que parar com a ilusão de que vai receber um funcionário sênior no corpo de um jovem de 20 e poucos anos recém-formado.

?Voz B

É, no fim, a pesquisa mostra que o caminho é o ecossistema multi-stakeholder: governo, academia, alunos e empresas trabalhando juntos. O currículo não pode ser um muro entre a teoria e o mercado, tem que ser uma ponte.

?Voz A

Uma ponte de mão dupla. É a imagem perfeita para fechar. E você, estudante que nos ouviu hoje, fica a provocação: como você está equilibrando a sua fundação técnica com a interface socioemocional? Vai esperar o seu futuro chefe resolver seu gap ou vai buscar essa fricção real por conta própria?

?Voz B

Pois é, a responsabilidade final é sempre do próprio indivíduo.

?Voz A

Exatamente. Lembrando a todos que absolutamente todos os dados, os estudos, da Tanzânia, Indonésia, as correlações com inteligência artificial e a base pedagógica de hoje pertencem ao incrível Aulas do Mochi, do professor Luiz Mochizuki, da IACHI-USP. Tem muita profundidade no material original e a gente recomenda que vocês vão atrás.

?Voz B

Fica a recomendação fortíssima.

?Voz A

O debate continua, mas a responsabilidade pelo seu aprendizado é diária. Obrigada por nos acompanharem e até o próximo D-Debate.

Os dilemas do diploma e empregabilidade | Castnews Index — Castnews Index