Os dilemas do diploma e empregabilidade
Neste episódio, discutimos os dilemas de quem se forma e vai buscar empregos. Teoria, prática, competências... qual é papel da universidade na formação do egresso?
- Aprendizado contínuoBackward design · UOL (Aprendizagem Integrada ao Trabalho) · Simulações digitais · Realidade virtual · Inteligência Artificial
- Carreiras manuais qualificadasGap de competências · Formação teórica vs. prática · Responsabilidade da universidade · Responsabilidade do setor privado
- Soft skills no mercado de trabalhoComunicação · Trabalho em equipe · Resolução de problemas · Inteligência emocional
- Globalização e suas contradiçõesPaquistão · Indonésia como Pivô Geopolítico · Tanzânia · Nigéria · Viagem Eslováquia
Bem-vindos ao Dedibate! Sabe, imagina passar 4, talvez 5 anos da sua vida investindo um tempo absurdo e, ah, talvez dezenas de milhares de reais.
Nossa, sem dúvida é um investimento gigantesco de tempo e dinheiro.
Exato! Tudo isso para construir tipo a base técnica perfeita para sua carreira. Aí você tira boas notas, domina a teoria, recebe o seu diploma super orgulhosa, então chega no primeiro dia de trabalho e descobre que você e e a sua empresa falam idiomas completamente diferentes?
Pois é, é um choque de realidade, né?
Totalmente. E é exatamente isso que tá acontecendo no mercado global hoje. O sistema que deveria preparar a gente para o futuro tá, bom, falhando bem na hora da entrega.
O famoso gap de competências?
Isso. E antes de mergulharmos nisso, quero deixar bem claro logo de cara que todo o material, os dados e a base factual que vão guiar a nossa discussão de hoje pertencem ao excelente material chamado Aulas do Mochi, do professor Luiz Mochizuki, da EASH USP.
É um material fantástico, muito denso.
Muito. Então, o dilema central do debate hoje é: de quem é a verdadeira responsabilidade por esse abismo? Eu, trazendo uma perspectiva mais acadêmica, defendo que o papel da universidade é construir bases analíticas, é um pensamento crítico de longo prazo. A meu ver, o setor privado falha feio ao exigir profissionais tipo perfeitamente prontos, fugindo do dever de treinar essas pessoas.
Bom, e eu trazendo a visão do setor produtivo, do empresariado, eu tenho uma visão bem diferente disso. Eu argumento que a academia construiu muros altos, sabe, e se isolou em teorias defasadas. Se o currículo não for alinhado com a indústria, logo o diploma vai virar só um recibo caro de conhecimentos obsoletos.
Ah, eu entendo porque você pensa assim, mas olha, deixa eu oferecer uma perspectiva diferente. A universidade não é, e estruturalmente nem tem como ser, um centro de treinamento corporativo glorificado.
Mas ninguém tá pedindo para ser só isso.
Sim, mas o diploma ainda cumpre o papel de dar uma fundação intelectual que ensina o aluno a aprender. O material do professor Mochizuki mostra que a literatura quase sempre culpa as universidades por essas falhas, mas a gente esquece o outro lado: os empregadores simplesmente cortaram o investimento no on-the-job training, o treinamento no trabalho, sabe? O mercado quer comprar um júnior pagando salário de júnior, mas exigindo a maturidade de alguém com 5 anos de empresa.
Sem contar a massificação do ensino e a economia estagnada, o mercado só não gera vagas boas o suficiente.
Certo, mas eu vejo por um ângulo bem diferente, porque os números que a gente tem sobre a mesa, eles contam uma história de falha de design mesmo. Não só de economia ruim.
Como assim? Falha de design?
Os dados do material-base são um banho de água fria. Olha para o Paquistão, por exemplo. Os recém-formados lá relatam que, tipo, 60% da formação deles foi puramente teórica. Nenhuma aplicabilidade.
Caramba!
Pois é. Na Indonésia, 40% dos empregadores dizem abertamente que faltam competências básicas aos egressos. O resultado? Só 53% desses jovens atuam na sua área. Quase metade vai fazer outra coisa, porque o diploma não tem valor prático.
Mas espera aí, você não acha que julgar o valor de uma graduação inteira com base só no uso imediato, no primeiro ano, é uma visão imediatista demais?
Eu não acho que seja imediatista, não.
A teoria é o que sustenta a capacidade do cara inovar daqui a 10 anos.
Mas olha, a teoria é inútil se o indivíduo não consegue passar nem da porta de entrada da empresa. Tem o caso da Tanzânia no estudo, que é fascinante. O desalinhamento de competências explica matematicamente 52,3% da variância no desemprego dos universitários.
Uau, mais da metade!
Exatamente. Mais da metade dos jovens desempregados não estão sem trabalho por causa de inflação ou crise. É porque aprenderam as coisas erradas ou da forma errada. É uma desconexão de expectativas. O aluno entra querendo decorar a fórmula e o professor dá nota 10 e diz que ele tá pronto.
Sim.
Mas a empresa quer saber de resolução de problemas sob pressão, comunicação, inteligência emocional, as tais das soft skills que a faculdade não testa.
Ah, e aqui a gente toca no ponto mais sensível do nosso debate. A universidade deve mesmo ser a principal responsável por ensinar soft skill?
Eu acredito que sim.
Mas pensa numa analogia de tecnologia. É melhor que linha de montagem. O papel da universidade é instalar o sistema operacional na mente do aluno. Raciocínio lógico, ética científica, sabe? Isso leva anos para compilar.
Tá, tô acompanhando.
Aí o mercado quer que o aluno já venha com os aplicativos pré-instalados, a cultura da empresa, o jeito de lidar com cliente deles. Ensinar resiliência ou liderança no nível universitário é complexo demais. O estudo cita a Eslováquia, mostrando que comportamentos como assumir responsabilidades se formam na infância. Como um professor com 60 alunos numa sala de aula espremida vai ensinar um adulto de 22 anos a ser responsável? O sistema operacional a gente entrega rodando. O aplicativo, o mercado tem que ajudar a criar.
Olha, a analogia é muito inteligente, mas eu discordo totalmente de onde você colocou as soft skills nela.
Sério? Por quê?
Porque comunicação clara, trabalho em equipe não são aplicativos que mudam de empresa para empresa. Elas são API, sabe? A interface do sistema operacional.
Ah, entendi o ponto.
Se o seu SEO acadêmico é brilhante, mas não tem interface para comunicar com os outros computadores, ele é inútil lá dentro. O engenheiro pode ser um gênio do cálculo estrutural, mas se ele não sabe ouvir a crítica de um arquiteto sem surtar, a ponte cai.
Sim, eu concordo que a comunicação é vital. Estou 100% com você nisso. O que eu questiono é a mecânica. Como se ensina isso numa faculdade tradicional?
Então, você não ensina isso escrevendo na lousa. Você cria um ambiente para que isso seja forjado. O problema hoje é que o aluno acha que sabe. Os dados mostram que eles superestimam as próprias habilidades.
Ah, isso é verdade. Fazer TCC pelo WhatsApp não é bem trabalho em equipe, né?
Exato! E aí você olha para a Nigéria, o material cita que mais de 70% dos empregadores relatam insatisfação profunda com a resolução de problemas dos recém-formados. A academia não pode lavar as mãos e dizer que responsabilidade vem da infância. O currículo tem que colocar esse aluno em situação de estresse real para desenvolver autoconsciência.
Tá, justo. Mas vamos sair do diagnóstico e ir para a prática. Você tá argumentando que a universidade tem que mudar radicalmente se não vai ter o professor falando e o aluno só anotando. O que o setor privado propõe que a gente faça com as ementas, afinal?
É aí que entra o backward design, o design reverso. Hoje, a universidade ensina física, depois resistência de materiais e cruza os dedos no final, né?
Basicamente isso, sim.
O design reverso vira isso de ponta-cabeça. O coordenador senta com a indústria e pergunta qual é o problema real que um profissional resolve numa terça-feira à tarde. E aí desenha o currículo de trás para frente. O empresário é co-arquiteto do curso.
Interessante, mas me dá um exemplo prático disso. Como que muda o dia a dia do aluno?
Muda com o UOL, a aprendizagem integrada ao trabalho. Em vez de uma provinha de logística, o aluno passa 3 meses trabalhando com dados reais de uma falha da cadeia de suprimentos de uma empresa parceira. E temos os dados da Tanzânia de novo provando que o UOL aumenta as habilidades técnicas em 23%, comunicação em 18% e resolução de problemas em 15%.
Nossa, mas por que um salto de 23% na parte técnica só mudando o formato? A teoria não é a mesma.
Até é a mesma teoria, mas a mecânica no cérebro é outra. Decorar para prova de sexta vai para memória de curto prazo. Resolver um gargalo logístico onde um erro seu significa um prejuízo de, sei lá, R$50 mil para empresa, o risco cria uma codificação neurológica real. A fricção da vida real ensina soft skill.
Olha, eu vejo muito valor no backward design e no aprendizado baseado em problemas, mas... Vem, vou de advogada do diabo aqui um pouquinho.
Claro, manda!
Eu preciso fazer uma crítica sobre como o mercado quer escalar isso usando tecnologia. O material do professor Mushizuki cita o boom de simulações digitais, estágios em realidade virtual, mentoria com IA. Tem até aquela correlação lá, um r de 0,68 entre usar inteligência artificial e a prontidão para o emprego.
É um número excelente, uma correlação fortíssima.
É fantástica, sim. Para quem tá ouvindo, significa que tem uma ligação quase inegável entre treinar no virtual e se sentir pronto. Mas sendo brutalmente honesta, diga, usar óculos de realidade virtual substitui o caos humano? O mercado vive reclamando que o jovem não tem resiliência, que não aguenta um cliente irracional ou um chefe chato, mas de forma super contraditória acho o máximo que a universidade treine isso no software. Cadê as empresas abrindo as portas para esse aluno sentir o peso do mundo real?
Essa provocação é muito boa e eu tenho que concordar parcialmente com você. A IA não substitui o calor, a tensão de uma reunião de diretoria, sabe?
Com certeza não.
Mas a gente barra na matemática. Você mesma falou da massificação, são milhões de alunos. Não existe vaga de estágio com supervisão boa para todo mundo. A simulação por IA entra como uma ponte, um ambiente seguro para errar. O aluno fala besteira no simulador de IA, reflete sobre aquilo e não custa o emprego dele. Mas você tá certa num ponto: o setor privado quer a solução, mas foge do incômodo do processo.
É isso, é uma falha institucional dos dois lados. A gente fala de cocriação, de backward design, Mas isso exige dinheiro e tempo severos de ambas as partes. E o que a literatura mostra? Uma fragilidade tremenda. Na academia, professores ganham pontos por publicar artigos, não por empregar alunos.
É, a métrica deles é outra, né?
Exatamente. E nas empresas, a paciência é nula. Exigem um profissional sênior, mas não estruturam programas de job shadowing, que é só deixar o aluno lá, quieto, observando um profissional trabalhar. Muitas empresas usam o estágio puramente para ter mão de obra barata, para preencher planilha, não como aprendizagem integrada.
É, e é nesse terreno que a gente converge inevitavelmente. Não dá mais para ter um lado como vítima e o outro como vilão. O empresário não pode só cruzar os braços, reclamar do aluno e esperar mágica. Ele tem que entrar na universidade, e não é da palestra no fim do ano.
Sim, palestra não muda currículo.
É trazer problema cabeludo de negócios para sala de aula, para aplicar no modelo de sala de aula invertida. O aluno só cria resiliência lidando com problema que não tem gabarito no final de livro.
E puxando para o lado macroeconômico, é bom lembrar que ninguém resolve isso sozinho. A universidade pode modernizar, o empresário pode investir em estágio, Mas se a economia não gerar vaga de alta qualificação, a gente vai ter gênios altamente resilientes dirigindo aplicativo de transporte. A culpa é difusa, sistêmica.
Sem dúvida. E caminhando para nossa síntese, a visão que eu tiro do setor privado e dos dados analisados é clara: a universidade tem que aceitar que o modelo isolado dela fracassou. Esse isolamento destrói a saúde mental e a renda do jovem que bate de frente com o desemprego. Tem que abraçar a cocriação, baixar o orgulho acadêmico e ensinar soft skill com o mesmo rigor da técnica. A prática tem que ser a espinha dorsal desde o dia 1.
É bom, resumindo o lado acadêmico, eu mantenho que não se derruba a fundação da casa porque o telhado tem goteira. A base técnica e a ciência ainda são o coração da universidade. A gente forma gente que se reinventa, não só uma engrenagem de curto prazo. Mas eu concordo que o mercado tem que sentar na mesa de responsabilidades. Tem que treinar, tem que parar com a ilusão de que vai receber um funcionário sênior no corpo de um jovem de 20 e poucos anos recém-formado.
É, no fim, a pesquisa mostra que o caminho é o ecossistema multi-stakeholder: governo, academia, alunos e empresas trabalhando juntos. O currículo não pode ser um muro entre a teoria e o mercado, tem que ser uma ponte.
Uma ponte de mão dupla. É a imagem perfeita para fechar. E você, estudante que nos ouviu hoje, fica a provocação: como você está equilibrando a sua fundação técnica com a interface socioemocional? Vai esperar o seu futuro chefe resolver seu gap ou vai buscar essa fricção real por conta própria?
Pois é, a responsabilidade final é sempre do próprio indivíduo.
Exatamente. Lembrando a todos que absolutamente todos os dados, os estudos, da Tanzânia, Indonésia, as correlações com inteligência artificial e a base pedagógica de hoje pertencem ao incrível Aulas do Mochi, do professor Luiz Mochizuki, da IACHI-USP. Tem muita profundidade no material original e a gente recomenda que vocês vão atrás.
Fica a recomendação fortíssima.
O debate continua, mas a responsabilidade pelo seu aprendizado é diária. Obrigada por nos acompanharem e até o próximo D-Debate.