Episódios de Labtur Canindé - UECE

A grande Festa de Canindé

12 de maio de 20267min
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'A grade Festa de Canindé' é uma das histórias do livro 'Mitos, ritos e símbolos da fé franciscana em Canindé/CE', inspirada nas tradições que atravessam gerações de moradores e romeiros.

O e-book completo está disponível gratuitamente: www.labturcaninde.com.br/livro

Participantes neste episódio3
C

Celestina

Convidado
C

Clausiane Souza

NarradorBolsista do LabTur
T

Tiaguinho

Convidado
Assuntos2
  • Festa da Padroeira de Santa Fé de GoiásTradições e fé franciscana · Romaria e peregrinação · Bênçãos e objetos sagrados · Procissão de São Francisco · Canindé como Hierópolis
  • Herança Espiritual FranciscanaDisponibilidade do e-book · Inspiração nas tradições
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Você vai ouvir agora um trecho do livro Mitos, Ritos e Símbolos da Fé Franciscana em Canidé, Ceará, lido por Clausiane Souza, bolsista do Labitur. A grande festa de Canidé O vento da tarde entrou pela janela aberta, trazendo o cheiro, o café e o murmúrio longíquo dos sinos de Canidé.

Dona Celestina, sentada na cadeira de balanço, alisava o terço de contas gastas. Seus dedos conheciam aquele rosário como se fosse a extensão da pele. No quintal, o neto Tiaguinho corria atrás de um galo esperto, rindo com a liberdade de quem ainda não sabia o peso do mundo. Vem cá, menino. Ela chamou, a voz mansa e firme.

A gente vai conhecer o coração da fé. Tiaguinho, sem entender, limpou o suor na camisa e se aproximou.

Que coração, vó! Ela sorriu com os olhos cheios de lembrança. O coração de São Francisco, que bate lá em Canidé. A festa já está perto. Na madrugada do dia seguinte, partiram. O céu ainda guardava estrelas tímidas quando o ônibus sacudiu pela estrada.

No banco ao lado, Celestina levava uma sacola com pão de milho, um pote de rapadura e uma pequena imagem de São Francisco, embrulhada num pano azul, presente para ser abençoado. Tiaguinho encostou a cabeça na janela, vendo a caatinga se estender como um tapete vivo, pontilhado de mandacarus de braços erguidos.

A avó lhe contou que Canidé não era só cidade, era Hierópolis, palavra difícil que ela explicava como lugar onde a fé mora e espalha suas raízes. Lá, cada pedra tem reza, cada sombra guarda promessa, é espaço sagrado. Tiago, quando a gente pisa lá, não é só o pé no chão, é a alma subindo.

Chegaram quando o movimento de gente já era grande. O sino da basílica chamava para a missa, espalhando o som que parecia empurrar o povo para as portas do templo. Tiaguinho se espantou com as ruas enfeitadas, bandeirinhas coloridas, cheiro de milho cozido, filas de gente com flores, velas e ex-votos na mão.

É a festa e a Romaria juntos. Explicou a avó. Tem gente que vem pagar promessa, outros vem só celebrar. Mas todo mundo vem encontrar o sagrado.

Tiaguinho sentiu o coração acelerar, como se um rio invisível corresse dentro dele. As ruas de Canidé eram um grande rio humano. Romarias chegavam de todos os cantos, cada grupo com seu canto, seu estandarte, suas lágrimas e sorrisos. Celestina e Tiaguinho entraram na fila da bênçãos com objetos.

Um frade franciscano, de hábito gasto, aspergia água sobre terços, imagens, medalhas, chaves de carro e retratos de família. Tiaguinho estendeu o pequeno São Francisco de pano azul. A água caiu leve, mas ele sentiu como se fosse chuva dentro do peito. Agora tá protegido, vó.

Está abençoado, respondeu ela. E quando é abençoado, o coração da gente também fica. No dia seguinte, madrugaram para a missa. Celestina se ajoelhou com dificuldade, apoiando-se no banco.

Tiaguinho ficou de pé, observando as vozes se encontrarem no coro, cada canto subindo como se quisesse alcançar as nuvens. Ali o espaço elevava o homem acima de si mesmo. E naquele instante, mesmo o menino inquieto parecia mais leve, como se estivesse flutuando junto com as preces.

À tarde, foram à feira. Barracas vendiam de tudo. Rosários, chapéus de couro, imagens talhadas, tapioca, panelas de barro, brinquedos de madeira. O cheiro de canela se misturava ao de couro novo e milho assado. A festa também é isso, Tiago, disse a avó. A vida do povo se junta com a fé.

Com um sorriso, comprou para o neto um tal franciscano de madeira. Para lembrar que fé não é só para guardar no bolso, é para usar no peito.

No dia 4, a cidade acordou em festa maior. Missas desde cedo, sinos anunciando solenidade, à tarde a procissão. A primitiva imagem de São Francisco saiu da Basílica, carregada como quem leva um pedaço vivo de Deus. As ruas viraram mar. Tiaguinho, pequeno no meio da multidão, sentia-se parte de algo enorme.

Ao lado, a avó caminhava devagar, mais firme. Aqui, Tiago, a gente anda no mesmo passo do coração do santo. Quando a procissão chegou à praça da Basílica, começaram os fogos. O céu estourou em luz, colorindo o rosto de todo mundo.

Celestina fechou os olhos, lembrando-se de todas as graças que pedira e das que já recebera. Tiaguinho segurou a mão dela. Vó, o céu está falando? Tá, menino. Tá dizendo que a gente nunca está sozinho.

A despedida dos Romeiros foi um coro de abraços e acenos. Anunciou-se a festa do próximo ano e Tiaguinho, já com saudade, perguntou. A gente volta? Todo ano, se Deus quiser, disse ela. Porque a fé é como o rio. Precisa voltar para a nascente e não secar.

Quando chegaram em casa, o quintal parecia mais silencioso, mas Tiaguinho sentia que algo tinha mudado nele. No pescoço, o tal franciscano, no coração, um mar.

Celestina voltou para a cadeira de balanço. Pegou o terço e começou a rezar. O vento soprou de novo pela janela, trazendo o eco distante dos sinos. E o menino agora sabia reconhecer aquele som. Era o coração de São Francisco, batendo também dentro dele.

Você acabou de ouvir um trecho do livro Mitos, Ritos e Símbolos da Fé Franciscana em Canidé, Ceará, lido por Clauciane Souza, bolsista do LabTour. O LabTour é o Laboratório de Negócios, Gestão e Inovação voltados ao turismo religioso da FECISC, a Faculdade de Educação e Ciências Integradas do Sertão de Canidé, Universidade Estadual do Ceará.

O livro digital completo está disponível gratuitamente no site do Labitu, www.labiturcanidé.com.br.

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Livro Mitos, Ritos e Símbolos da Fé Franciscana em Canidé, Ceará
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