Episódios de Labtur Canindé - UECE

O hasteamento da bandeira

08 de maio de 20265min
0:00 / 5:43

'O hasteamento da bandeira' é uma das histórias do livro 'Mitos, ritos e símbolos da fé franciscana em Canindé/CE', inspirada nas tradições que atravessam gerações de moradores e romeiros.

O e-book completo está disponível gratuitamente: www.labturcaninde.com.br

Participantes neste episódio3
C

Clausiane Souza

NarradorBolsista do LabTur
D

Dona Serafina

Convidado
T

Toninho

Convidado
Assuntos2
  • Shows no Sá da BandeiraTradições franciscanas · Fé e religiosidade · São Francisco · Canindé
  • Herança Espiritual FranciscanaLabTur Canindé · FECISC · Universidade Estadual do Ceará
Transcrição17 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Você vai ouvir agora um trecho do livro Mitos, Ritos e Símbolos da Fé Franciscana em Canidé, Ceará, lido por Clausiane Souza, bolsista do LabTur. O Archeamento da Bandeira

Na véspera do grande dia, a cidade dormia com o coração agitado. As calçadas já viviam frenesida à festa, com romeiros, camelôs e tudo mais. Canidé respirava como quem se prepara para o nascimento.

Era 23 de setembro e a noite se deitava com promessa nos olhos. Dona Serafina já havia separado a melhor roupa, a mesma de todos os anos. Em cima da rede, dobrava o pano como se dobrasse um tempo antigo. E Toninho, sentado ao pé da rede, desenhava com o dedo no chão de cimento. Os familiares da Paraíba já tinham chegado e estavam instalados na sua humilde casa.

Vó, a bandeira de São Francisco é grande? É maior que o céu, menino. Ela respondeu sorrindo. E voa? Voa, mas não com vento. Voa com fé.

A resposta fez o menino sonhar. Dormiu com os olhos acesos por dentro. E a cidade também adormeceu assim, como um campo antes da chuva, pronta para florir. Na aurora do dia 24, a cidade despertou com o barulho dos passos.

As estradas que cortam o sertão amanheceram vivas. Gente de toda parte chegava a pé, em caminhadas longas, vindas dos recantos de Canidé e das cidades vizinhas. Os pés, mesmo cansados, pareciam levitar. Eram mar de chapéus, terços pendurados no pescoço, sandálias gachas de tanto crer.

Cada um trazia um motivo. Uns caminhavam pela cura, outros pela saudade. Tinha quem pisasse o chão seco para agradecer um filho que voltou. Uma chuva que caiu, uma dívida paga. Os passos não eram só passos, eram orações andando. Dona Serafina e Toinho já estavam prontos na praça da Basílica.

O céu ainda não era azul, era escuro do final da madrugada. Os sinos repicavam como se acordassem os anjos. Toinho segurava firme a mão da avó. Os olhos arregalados diante da multidão que se espalhava como formigueiro de fé.

Olhe, Toinho, disse Serafina. É assim que a festa começa, com o povo chegando, com o céu prestes a se abrir. E então começou o movimento solene. No alto do macho, as bandeiras dormiam enroladas em si.

A do Brasil, a de Canidé e a de São Francisco, que na hora parecia pulsar. O silêncio foi crescendo até virar música. Um coral de vozes entoava a oração cantada de emoção. A cerimônia do achiamento começava. Um a um, os estandartes começaram a subir, puxados com cordas de fé invisível.

A do Brasil tremulou primeiro, depois a de Canidé e por fim ela, a de São Francisco. Ao ver a bandeira do santo subir, o povo se emocionou. Era como ver o próprio São Francisco sendo içado até o céu, abençoando tudo com os braços abertos, feito crucifixo de pano e vento. Alguns choravam, outros cantavam, muitos levantavam os braços como quem queria tocar.

Toinho arregalou os olhos e gritou. Vó, ela tá mesmo voando. E Dona Serafina, com a mão sobre o peito, respondeu. Tá, meu filho. Tá voando com a fé da gente. A festa começou.

Naquele instante, o céu clareou de vez. O azul apareceu como se a própria bandeira o tivesse pintado. Os sinos dobraram, os fogos estalaram. E a missa solene começou, ali mesmo, na praça, com o povo em pé, ajoelhado, sentado, como dava, como podia, como sabia.

A fé não tem forma, tem raiz. Dona Serafina fechou os olhos e agradeceu mais um setembro. Toninho, mesmo sem entender tudo, sentiu o corpo leve.

Era como se São Francisco soprasse por dentro dele. E assim começou a festa, com um pano que subia e um povo que se ajoelhava, com um céu que se abria e um menino que aprendia o tamanho da fé. E naquele instante, Canidé deixou de ser cidade, virou um milagre.

Você acabou de ouvir um trecho do livro Mitos, Ritos e Símbolos da Fé Franciscana em Canidé, Ceará, lido por Clauciane Souza, bolsista do LabTour. O LabTour é o Laboratório de Negócios, Gestão e Inovação voltados ao turismo religioso da FECISC, a Faculdade de Educação e Ciências Integradas do Sertão de Canidé, Universidade Estadual do Ceará.

O livro digital completo está disponível gratuitamente no site do Labitu, www.labiturcanidé.com.br.

O hasteamento da bandeira | Castnews Index — Castnews Index