Episódios de Sentir Cólica Não é Normal

Por que a Endometriose cansa tanto?

06 de maio de 202610min
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A endometriose cansa muito, e você deveria escutar essa história para entender como é cansativo!

"Sentir Cólica não é normal" é narrado pela autora, Karina Giassi. Nesse podcast, ela desvenda a Endometriose, uma doença ignorada por séculos. 

Toda semana, um episódio que responde a uma pergunta sobre cólica menstrual e endometriose.

Participantes neste episódio1
K

Karina

HostMédica radiologista
Assuntos1
  • EndometrioseReprodução da dor em exame de ultrassom · Validação da dor para o parceiro · Acolhimento e alívio com o diagnóstico
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O que cansa tanto ter endometriose? Meu nome é Karina, sou médica radiologista, PhD pela Faculdade de Medicina da USP e eu enxergo detalhes de dentro do corpo de mulheres há mais de 15 anos. Fica aqui comigo que eu vou te responder várias dúvidas sobre endometriose.

Enquanto eu escrevia um dos capítulos, meu filho tinha quatro anos na época e um dia fui levá-lo à escolinha, fazendo o que eu sempre fiz. Parava o carro perto da estrada, descia e acompanhava até a sala de aula. Nesse dia, ao chegar, eu via a seguinte cena.

Uma menina chorosa mostrava para a professora uma boneca enrolada em alguns paninhos no seu colo e as lágrimas caíam dos olhos, enquanto ela apontava para a boneca e explicava Ela está doente! E aí do outro lado da sala eu vi duas outras meninas, uma grandona e uma pequenininha, gritando, puxando o cabelo uma da outra. No outro canto, três meninos empolerados, um em cima do outro, eles tentavam pegar um carrinho que estava no alto de uma estante.

Mas, ainda atrás, eu vi outras três meninas e um menino que, ao verem o meu filho chegar, eles gritaram e saíram correndo para abraçar, quase atropelaram, coitado. E, por último, ao mesmo tempo que essa loucura acontecia, surgiu absolutamente do nada uma menina correndo, apontando a escova de dente para o alto, e ela gritava, viva! Você conseguia entender a bagunça dessa cena?

Nesse momento eu rei muito e eu pensei, gente, só uma mulher para conseguir aguentar essa confusão, essa balbúrdia, esse caos totalmente generalizado. Um homem certamente teria pedido demissão nos primeiros 15 minutos de trabalho.

E aí eu olhei para a professora, que estava acolhendo a menina chorosa com o seu bebê doente, enquanto separava as duas briguentas. E eu dei um sorriso largo e sincero. Ela me entendeu, a gente riu junta. E eu gosto de acreditar que o dia dela ficou um pouco mais leve, porque é claro que eu não ia arrepreender.

Saí de lá, voltei para o meu carro e fiquei alguns minutos refletindo. Se eu pudesse pintar essa cena e dar um nome para a obra, ela seria por dentro da paciente com endometriose. Nesse dia, eu fiquei pensando no caos interno que vive a paciente que tem endometriose. E mais, pensei inclusive no caos que vivem aquelas crianças, aquelas mulheres que ainda não têm o diagnóstico.

porque a sensação interna reflete exatamente a bagunça que eu vi naquele dia. É como se fosse uma confusão, uma briga, um atropelo, um choro, com alguns momentos de euforia, assim como a menina correndo com a escova de dentes apontada para o alto. Talvez seja um momento sem dor da paciente com endometriose.

Na escolinha, a gente sabe que essa balbúrdia é momentânea. As crianças têm seus períodos de calmaria, prolívida professora, é claro. Já deixei meu filho na escola com a turma totalmente organizada, sentadinha, conversando amigavelmente, numa paz invejável, inclusive. A endometriose, como a turminha do meu filho, também tem seus momentinhos de calmaria. E é por isso que talvez ela seja tão incompreendida.

Quero que você entenda não só a incompreensão envolvida na endometriose, mas o cansaço que ocorre por conta dessa alteração de humor na doença. Então, vou contar algumas histórias, como eu contei no episódio passado.

Com 45 anos e dois filhos, quando eu conheci a Julieta, eu descobri que ela era uma descendente de italianos, de corpo forte, ombros largos, tronco reto, alta, cabelos castanhos na altura do ombro. E aí, olhos claros como a maioria dos italianos de onde eu moro. No rosto, havia algumas linhas de expressão já marcadas que...

mostrava um olhar que, embora doce, escondia sofrimento. Ela entrou no consultório com o marido, que tinha a mesma idade dela e, sinceramente, ela era grandona, mas o marido conseguia ser ainda maior. Pele bem clara, também, olho azul, típico italiano da Serra Gaúcha.

Um grandalhão com um semblante bem bravo. Mas ele entrou sorrindo, educado, só que ao se sentar na cadeira ele falou Olha, ela me trouxe aqui sem que eu quisesse, e aqui estou. É ela que manda, né? Eu concordei e pedi para que a Julieta contasse o que ela sentia. E descobri que ela sempre sentiu cólica, mas tolerou. Ela falou, olha, elas não me incomodam, sou forte para a dor. Então, está tudo certo. Teve seus dois filhos com facilidade, ambos de parto normal.

E aí depois do primeiro filho, aos 25 anos, começou a sentir dor na relação. Achou que era normal, por causa do parto, aguentou, engravidou de novo. Depois da segunda gravidez, teve um sangramento mais forte e mais duradou. E as dores da relação não só persistiram, mas pioraram. Doutora, eu sou forte para a dor, não importa em sentir. Por muito tempo eu consegui aguentar a relação com dor.

Sempre achei que fosse normal. Só que depois dos 40, tudo começou a ficar insuportável.

Eu não quero mais ver ele perto de mim. Eu fui em alguns médicos e eles me disseram que era da menopausa. Me deram cremes, me deram lubrificantes. Mas não é isso. O que eu sinto é uma facada lá no fundo. Parece que está me rasgando por dentro. E aí eu tenho que parar tudo. Eu não consigo continuar. Ele acha que eu estou inventando. Que eu não quero ter relação com ele.

E aí ele disse pra mim um dia que só acreditaria vendo. Eu fiquei brava, mas sinceramente eu trouxe ele pra ver agora. Porque a minha ginecologista disse que você enxerga tudo. Engraçado que cenas como essa costumam acontecer com alguma frequência. E é interessante perceber a dinâmica do casal em uma consulta. Inclusive eu sou entusiasta de que o casal vá junto fazer o exame.

É um pouco engraçado e um pouco trágico, porque dá uma ideia do quanto a endometriose é negligenciada quando ela afeta a vida sexual do casal. Geralmente, quando isso acontece, eu dou uma olhada para o marido e faço uma expressão de, hum, já conheço esse filme.

Eu não repreendo imediatamente porque não adiantaria. Então eu faço com que esse momento seja menos tenso. E explico que vamos para a sala de exames, todo mundo junto, ver o que está acontecendo, que eu não vou adiantar informações sobre o que eu penso. Mas que a gente vai chegar à conclusão junto a partir do ultrassom.

No exame, vejo sinais de endometriose num ligamento chamado uterossacro, que eu vou explicar em algum momento nesse podcast. Só que agora, quero que a pedra sinta o que Julieta sentiu.

Ao fazer o ultrassom para a endometriose, eu começo o exame mostrando para o paciente em um telão seus órgãos, como útero, ovário, região retrocervical, que é aquele lugarzinho que a endometriose gosta de aparecer. E em seguida, de modo muito simples e muito didático, eu tento mostrar a alteração para o paciente.

Nesse dia, eu fiz uma espécie de armadilha, que eu gosto de fazer nesses casos. Primeiro, mostrei ao casal a alteração do exame, explicando o que era. Depois que eles entenderam, ali a alteraçãozinha, eu fiz um movimento com o transdutor que provoca exatamente a dor que a paciente sente na relação sexual, mas sem avisar ninguém que iria doer. A ideia é que ela reproduza espontaneamente, na frente do marido, a dor que sente, sem precisar ser avisada.

Então foi algo imediato. Ai, doutor, é essa a minha dor. Ela me disse com os olhos cheios de lágrimas, depois de quase ter dado um pulo na maca.

Sei que pode parecer injusto com a paciente não avisar sobre isso, mas a reação que eu quero gerar vale muito a pena. Porque faz entender exatamente o ponto que precisará ser conversado depois. Ela não está inventando a dor para o marido. A dor é algo real. E é possível reproduzir um exame de tão real que ela é.

no rosto do marido com os olhos completamente arregalados percebi que ele entendeu o que eu estava mostrando ele entendeu o que aquilo significava então comentei, mil desculpas Julieta normalmente aviso que vai doer, porque eu já vi a lesão e sei que cutucar a lesão dói mas não fiz nada para machucar você a pressão que eu fiz é apenas o suficiente para simular a pressão de uma relação sexual tranquila

E aí o marido me perguntou, mas você tocou na ferida dela e ela deu esse pulo todo? Caramba, eu vi onde você encostou. Era na feridinha que você mostrou mesmo. Falei, pingo. Tive certeza que ele entendeu.

E aí, acredito que, pelo peso da compreensão, o paciente desabou a chorar. Não porque o exame estava machucando, e sim porque ela percebeu que ela tinha sido acolhida e compreendida. Entre lágrimas, ela reforçou esse ponto. Doutora, estou chorando de alegria e de alívio, porque pela primeira vez, ele entendeu e viu o que eu sinto, e viu que eu não estou mentindo.

Receber o diagnóstico de endometriose pode ser difícil para algumas mulheres, principalmente aquelas que nunca engravidaram. Para outras pacientes como Julieta, que tem prole constituída e não possuem mais medos das consequências da doença, o diagnóstico acaba sendo um alívio. É a confirmação dos sintomas negligenciados e das dúvidas que ele provoca, do cansaço de não ser ouvido e de não ser entendido.

Então, se o seu marido acha que você está mentindo, de repente leve ele para a consulta. É claro que fazer isso não pode agradar todo mundo, mas pode fazer com que o casal engaje melhor no tratamento. Funciona muito bem. Esse episódio contém trechos do livro Sentir Cólica Não é Normal, de minha própria autoria.

Uma vez ou duas por semana, vou soltar trechos do livro aqui. Os episódios têm no máximo 10 minutos, então você não pode dizer que não tem tempo para se informar sobre esse assunto. Nesse podcast eu falo muito sobre endometriose cólica para os pacientes. O livro Cinticólica Não É Normal está disponível na Amazon. Até o próximo episódio.

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