47. A FALÁCIA DO CURVA EM J DO ÁLCOOL
A TAÇA QUE NUNCA PROTEGEU
Por trinta anos a gente repetiu que uma taça por dia protegia o cérebro — a famosa curva em J. Neste episódio do Notas de um Psiquiatra eu mostro o estudo que desmonta essa ideia com a maior base já reunida sobre o tema: mais de meio milhão de pessoas acompanhadas por anos e 2,4 milhões de genomas.
Na fotografia observacional, a curva em U reaparece e o abstêmio parece pior que o bebedor leve. Mas quando se olha o filme — e depois a genética, pela randomização mendeliana — o "efeito protetor" some e dá lugar a uma linha reta: quanto mais álcool, mais demência, sem dose segura. O motivo é elegante e perturbador: quem caminhava para a demência já reduzia a bebida anos antes do diagnóstico. A taça não protegia o cérebro; o cérebro ainda saudável é que segurava a taça.
Fecho com a ressalva — o que a randomização mendeliana pode e não pode dizer — e com a pergunta que importa na clínica: o que essa dose está tentando resolver?
Referências: Topiwala A, Levey DF, Zhou H, et al. Alcohol use and risk of dementia in diverse populations: evidence from cohort, case–control and Mendelian randomisation approaches. BMJ Evidence-Based Medicine. 2026;31(1):13–22. doi:10.1136/bmjebm-2025-113913.
Se gostou, compartilhe. Se não gostou, sugira melhorias e temas no @drhamerpalhares.
Dr. Hamer Palhares
PS: Conteúdo de caráter meramente informativo. @drhamerpalhares