Episódios de diário de um artista meia boca

damb #14 - o evangelho segundo os artistas

29 de setembro de 202610min
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Diário de um artista meia boca é um podcast sobre arte, fé e vida real. São os devaneios de alguém que tá caminhando e cantando e seguindo a canção.

Participantes neste episódio1
A

Artista Meia Boca

Host
Assuntos6
  • A arte como reflexo da busca humana por redenção e esperançaartistas não cristãos e temas de redenção·histórias universais de superação·a jornada do herói em narrativas·a Bíblia como jornada de redenção
  • A beleza como esplendor da verdade e sua origem divina na artea beleza afeta profundamente·o belo como sinal de algo maior·tov: bom, belo, verdadeiro juntos·arte toca em algo de origem divina
  • O evangelho segundo os artistas como busca contínua por redençãoa alma humana afinada para uma música·desejos que nada no mundo satisfaz·arte encontra formas de dizer antes da teologia
  • O vazio no coração humano e a arte como expressão dessa faltao vazio não só teológico, mas estrutural·a alma sente a falta sem nomear·a arte expressa o que a boca não diz
  • A verdade do evangelho extravasando em toda arte genuínadesmontando a separação arte cristã e mundana·a verdade não se contém em espaços sagrados·tudo fala de Deus na arte verdadeira
  • A saudade como tema recorrente na arte e o anseio por algo maiorsaudade de algo sem nome·desejo de casa mesmo estando em casa·artistas tentando nomear o anseio
Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
AMArtista Meia Boca

E aí, meus amigos, sejam bem-vindos ao meu confessionário, ao diário de um artista meia-boca. Vocês já repararam que muitos artistas, mesmo não cristãos, falam sobre redenção? Escritores, cineastas, pintores, compositores, gente que talvez nem se considere religiosa, mesmo assim eles continuam escrevendo sobre esperança, perdão, recomeço, sacrifícios, amor que vence a morte. Mas por quê? Por que esses temas atravessam tanta gente, em tantas culturas, em tantas épocas, independente de religião?

Uma resposta possível talvez seja dizer que é só coincidência cultural, que a arte sempre lidou com essas grandes questões porque são universais: a perda, o amor, a morte, o tempo. E eu tava pensando nisso esses dias depois de assistir alguns filmes, ouvir algumas músicas, relembrar alguns conteúdos de produção audiovisual e percebi uma coisa curiosa. Parece que a humanidade inteira tá tentando contar a mesma história. Mudam os personagens, mudam os cenários, mudam os idiomas, mas a história continua aparecendo.

Alguém se perde, precisa atravessar uma dificuldade, enfrenta uma dor, é transformado e por fim encontra a redenção. É o roteiro de quase todo filme. É impossível, quase impossível fugir disso. E eu acho que a gente tem uma ideia meio simplista de que existe arte religiosa e arte secular, tô fazendo aqui aspas com as mãos, como se fossem dois mundos separados, cada um com seu próprio vocabulário. Mas quando a gente presta atenção no que os artistas, não só os declaradamente de fé, no que eles estão falando, no que eles estão repetindo nas próprias obras, eu vejo um padrão que não cabe nessa divisão.

E talvez o exemplo mais conhecido seja aquilo que a gente chama de a jornada do herói, que é o roteirinho básico de quase toda história. Você provavelmente já ouviu falar, é aquela estrutura que aparece em praticamente todos os filmes que a gente adora, né? O personagem recebe um chamado, sai de onde ele tava, enfrenta os desafios, vai até o fundo do poço, passa por um tipo de morte simbólica e depois retorna triunfante, né? A gente vê isso em Star Wars, Senhor dos Anéis, Harry Potter, Matrix, Rei Leão, né?

Basicamente quase tudo. E por que essa estrutura ela funciona tão bem? Por que a gente se emociona tanto com ela sabendo que vai sempre repetir, né? Porque a gente vibra quando alguém encontra uma redenção. Por que a gente torce por esse recomeço? Por que a gente gosta tanto de histórias de superação, né? Onde alguém encontra um caminho de volta para casa. Pode ser que essas histórias estejam falando de nós, ou talvez porque estejam falando de algo ainda maior.

Porque se você olhar bem, a Bíblia também é uma história de jornada. Abraão recebe um chamado, deixa sua terra. José é traído, desce para o Egito e depois se torna o salvador do povo. Moisés atravessa um deserto. Israel vive um exílio e depois retorna. Os discípulos deixam tudo para seguir Jesus. Cristo percorre a maior jornada de todas, né? Ele deixa a sua glória, desce ao mundo, sofre, ressuscita e retorna trazendo vida pra todo mundo.

Talvez, sem querer ser conspiracionista, a jornada do herói não seja apenas uma fórmula narrativa. Talvez seja um eco, um reflexo, uma lembrança distante de algo que tá inscrito na experiência humana, entranhado na experiência humana. Eu cresci ouvindo que existe um vazio no coração humano que só Deus preenche. E por muito tempo eu tratei isso como uma frase de efeito, de sermão. Mas eu comecei a ver isso de outro jeito quando eu entendi que talvez esse vazio não seja só teológico.

Talvez seja estrutural. Talvez a gente tenha sido feito com uma forma específica, uma forma que pede certas coisas pra se sentir completa. E quando essas coisas faltam, a alma sente a falta mesmo sem saber dar nome pra isso. E a arte, sendo o que é, o lugar onde a alma fala o que a boca não sabe dizer, vai naturalmente esbarrar nesse vazio, vai cantar essa falta, vai pintar essa ausência que a gente não sabe dar nome. Mesmo quem não crê em nada ainda sente esse vazio e ainda cria a partir dele.

E isso me faz pensar numa outra coisa: a saudade. Por mais que a arte fale muito sobre amor, eu acredito que o tema mais recorrente da arte seja a saudade. Não apenas saudade de alguém, mas saudade de alguma coisa que muitas vezes nem a gente nem sabe dar nome. Você já sentiu isso? Aquela sensação estranha de que falta alguma coisa, de que existe uma beleza que você viu só de relance, algo etéreo que nunca conseguiu segurar por muito tempo, um desejo de casa mesmo quando você tá em casa, um anseio por algo que parece maior do que o mundo.

Os artistas vivem tentando dar nome pra isso, alguns chamam de amor, outros chamam de transcendência, outros chamam de sentido, de beleza, mas todos parecem estar apontando para a mesma direção. Como se estivessem descrevendo uma montanha que conseguem enxergar de longe, mas ainda não alcançaram. E é por isso que a beleza nos afeta tanto. Porque a beleza nunca é só beleza. Coisas acontecem quando a gente encontra o belo. Por alguns segundos, o mundo parece maior, mais profundo, mais verdadeiro.

Como se a beleza abrisse uma fresta na realidade e deixasse escapar um pouco de luz do que existe do outro lado. A gente fala há algum tempo daquela frase do Bom Baltazar: o belo é o esplendor da verdade. Eu gosto muito dessa frase porque ela sugere que a beleza não é apenas algo agradável aos olhos, ela é um sinal, um apontamento, uma espécie de brilho que denuncia a presença de algo, que revela algo. Tem um termo do hebraico que a gente já trouxe aqui antes, tov, que quer dizer bom, belo, verdadeiro, tudo junto ao mesmo tempo.

Se isso é verdade, se beleza, bondade e verdade são a mesma coisa em essência, então faz sentido que qualquer arte que toque genuinamente divinamente nessas coisas, mesmo sem intenção religiosa, esteja tocando em algo que tem origem divina. Não importa se o artista sabe disso ou não, a fonte da beleza não pede permissão para ser usada, ela extravasa onde encontra essa brecha. E talvez seja por isso que tanto artista não cristão, sem querer, sem perceber, termine fazendo teologia, termine cantando sobre graça, sobre perdão, sobre anseio por algo maior.

Porque é disso que a alma humana é feita, independente da sua etiqueta religiosa. Talvez seja por isso que tantos artistas passam a vida perseguindo a beleza. Eles estão tentando seguir os rastros, tentando encontrar a fonte, tentando entender porque certas coisas nos atravessam tão profundamente. E é aqui a parte que mais me fascina, porque eu não acho que artistas falem de redenção por acaso. Eu não acho que seja coincidência que a humanidade conte histórias de sacrifício há milênios.

E não acho que seja coincidência que a gente continue escrevendo sobre esperança mesmo vivendo num mundo tão sem esperança. Talvez exista uma explicação mais simples. Talvez essas histórias apareçam porque elas correspondem a algo real. Como se o coração humano tivesse sido afinado pra uma música específica. E mesmo quando a gente esquece a letra, a gente ainda reconhece a melodia. César Luís dizia que se eu encontro em mim desejos que nada neste mundo consegue satisfazer, a única explicação provável é que eu fui feito pra outro mundo.

E é isso que eu percebo quando eu ouço certas músicas, livros, filmes. Existe uma sensação estranha de reconhecimento, como se aquelas histórias estivessem tocando numa verdade antiga, numa memória que eu não consigo lembrar completamente, mas também eu não consigo esquecer. Então talvez o Evangelho segundo os artistas seja exatamente isso, uma tentativa contínua de cantar uma canção cujo nome eles nem sempre conhecem. Uma busca pela beleza, pela redenção, pela volta pra casa.

Alguns encontram Deus no caminho e outros não, mas todos parecem ouvir o mesmo eco. E talvez essa seja uma das razões pelas quais a arte é tão importante pro mundo. Porque às vezes, antes da teologia encontrar palavras, a arte já encontrou outras formas de dizer. Antes da doutrina organizar conceitos, a música já tava cantando sobre saudade. Antes da religião formular respostas, a beleza já tava fazendo outras perguntas. Artistas são pessoas que vivem perseguindo rastros, seguindo pegadas, escutando vozes do além.

E o motivo de tantos deles falarem sobre redenção é simples, eu acho. Talvez o evangelho não tenha sido escrito apenas nas páginas da Bíblia. Talvez ele também tenha deixado marcas no coração humano. E toda arte, de alguma forma, acaba esbarrando nelas. Eu acho fascinante e também desconcertante, porque desmonta um pouco aquela separação que a gente faz sobre arte cristã e arte do mundo, né, arte mundana. Se o evangelho, a boa notícia, a ideia de que existe redenção possível pra tudo que tá quebrado, se essa notícia é tão verdadeira, tão fundamental pra realidade, então ela vai aparecer onde quer que alguém esteja fazendo uma arte verdadeira, honesta.

Não porque a pessoa decidiu evangelizar, né, usar como ferramenta, mas porque a verdade não se contém só dentro dos espaços que a gente rotula como sagrados. E isso muda a forma como a gente escuta músicas, vê filmes, lê livros, repara a realidade acontecendo ao nosso redor. Eu paro de dividir o mundo em arte que fala de Deus e arte que não fala de Deus, porque tudo fala de Deus. E eu começo a perguntar: essa obra, ela é verdadeira?

Essa obra carrega beleza genuína? Ela toca em alguma fome real da alma humana? Porque se sim, de algum jeito, talvez sem querer, sem saber, ela tá pregando o mesmo evangelho que eu acredito. Só que sem a roupagem e a linguagem do evangeliquei, sem versículos, sem uma intenção declarada. Talvez o evangelho segundo os artistas não seja uma versão diferente da boa notícia. Talvez seja a mesma boa notícia extravasando por todas as frestas que a alma humana deixa abertas.

Quando ela canta da sua dor, da sua falta, da sua esperança de que as coisas ainda podem melhorar. No fim, todo artista, religioso ou não, tá fazendo a mesma pergunta: Será que existe redenção pra mim?