damb #13 - o mapa das pequenas coisas perfeitas
Diário de um artista meia boca é um podcast sobre arte, fé e vida real. São os devaneios de alguém que tá caminhando e cantando e seguindo a canção.
Artista Meia Boca
- O Mapa das Pequenas Coisas PerfeitasLoop temporal·Pequenas coisas perfeitas·Atenção e desaceleração·Seguir em frente
- A importância de mapear o cotidianoPerda de detalhes pela pressa·A beleza no ordinário·Decisão de desacelerar
- Sair do loop temporalAprender a soltar·A vida surpreende·Abertura para o incerto
E aí, meus amigos, sejam bem-vindos ao meu confessionário, ao diário de um artista meia-boca. Eu quero falar com vocês sobre um filme que eu assisti esse final de semana, se chama O Mapa das Pequenas Coisas Perfeitas, tem no Prime Video, e é daqueles filmes que a sinopse parece bem simples, bobinha, só que vai te pegando devagar sem você perceber, e quando você se dá conta, tá envolvido pelo filme. A história é a seguinte: dois jovens, Mark e Margaret, estão presos num loop temporal.
Todo dia eles acordam e vivem o mesmo dia. E Mark, no começo, tá de boa com isso. Ele conhece cada detalhe daquele dia, sabe o que vai acontecer, quando vai acontecer, com quem vai acontecer. Tem uma espécie de conforto, é um lugar seguro pra ele. A segurança de não ser surpreendido. Só que daí ele encontra a Margaret. Que também tá presa nesse loop. E que, diferente dele, não quer sair. Porque a Margareth tem um motivo pra querer que o tempo pare.
Sair do loop significa seguir em frente. E seguir em frente significa, pra ela, enfrentar uma perda que ela ainda não tá pronta pra enfrentar. Mas o que os dois descobrem juntos, e que é o coração do filme, é uma prática que a gente deveria adotar. Eles começam a mapear as pequenas coisas perfeitas daquele dia que eles estão presos. Duas crianças acendendo as luzes da sua casa na árvore, o exato momento em que um pássaro pesca no lago, um furgão com asas pintadas na lateral que para atrás de um cara sentado num banco e faz parecer que ele tem asas.
Eles começam literalmente a construir um mapa dessas pequenas perfeições, desenham onde cada coisa acontece e o horário que cada coisa acontece. Coisas que existem todos os dias, que acontecem independente de de alguém estar olhando. E isso me fez me perguntar: quantas dessas coisas eu perco por dia? Não por falta de tempo, mas por falta de atenção. Porque a gente vive acelerado de um jeito que virou normal. Agenda cheia, cabeça cheia, o celular na mão, a lista de pendências sempre cheia.
E nesse ritmo, a vida vai passando numa velocidade que não deixa espaço pra perceber o que é bonito nela. A gente chega em casa no fim do dia e sente que viveu Mas não sabe bem o porquê. Tem uma coisa que o filme faz que eu acho muito legal. Que ele não romantiza o loop. Essa coisa de ficar vivendo a mesma coisa todos os dias, preso nessa máquina. Ficar preso no mesmo dia não é libertador, não é mágico. É exaustivo. É a imagem perfeita de uma vida que parou de se mover, que ficou presa num lugar seguro, repetindo o conhecido, evitando o risco de ser surpreendido.
E tem muita gente vivendo assim sem Nem um loop sobrenatural, como é no filme. Segunda, terça, quarta, quinta é tudo o mesmo dia. O mesmo ritual, a mesma trajeta, as mesmas conversas, os mesmos pensamentos. Não porque a vida não oferece novidades, mas porque a gente parou de prestar atenção no que a vida oferece. A beleza existe também no ordinário. Não precisa de uma super viagem, não precisa de uma experiência rara e cara, não precisa de um dia especial no calendário.
Ela acontece na segunda-feira, no café recém passado, na música que toca aleatoriamente no mercado, na nuvem que cobre o sol quando você precisa sair, no cachorro que resolve deitar do seu lado, na voz de alguém que você ama chamando o seu nome. Essas coisas não somem porque a vida ficou difícil, elas continuam acontecendo. O que some é a nossa capacidade de enxergá-las. E eu acho que recuperar essa capacidade não é questão de técnica, de aprendizado, não é uma lista de hábitos para seguir, um método de 5 passos para viver com mais densidade.
É mais simples e mais difícil do que isso ao mesmo tempo. É uma decisão de desacelerar, não a vida inteira, não abandonar tudo e morar numa cabana no meio do mato sem internet, mas desacelerar e olhar a vida acontecendo, parar às vezes de consumir e começar a habitar o dia. No filme, Mark e Margaret só conseguem sair do loop quando entendem o que eles precisavam aprender naquele dia. Ela precisava aprender a soltar, a seguir em frente mesmo com dor.
E ele precisava aprender que a vida de verdade não é aquela que você controla, é aquela que te surpreende. E os dois precisavam um do outro para descobrir isso, porque algumas coisas a gente só vê quando alguém aponta pra gente. Então eu quero te fazer um convite bem simples hoje: antes de dormir, antes de fechar o dia, para um momento e tenta lembrar de uma coisa que foi pequena, mas que foi perfeita no dia de hoje. Eu tenho tentado fazer esse exercício com a Isabelle de toda vez que a gente deita pra dormir e fala: E aí, o que foi legal no seu dia?
Pra gente tentar ver as pequenas coisas perfeitas que acontecem na nossa vida e que às vezes a gente deixa passar despercebido. Não precisa ser uma coisa grande. Na verdade, quanto menor, melhor. Acho que o valor também tá nas coisas pequenas. Um sabor que você sentiu, uma frase que você ouviu em algum lugar. Um momento de silêncio que chegou na hora que você tava precisando, um sorriso de alguém que nem te conhece. Essas coisas, elas existiram hoje.
Você pode não ter percebido, mas elas existiram. A pergunta é só se você estava presente o suficiente pra guardar. O filme termina com os dois saindo do loop e voltando pra um dia que é novo, incerto, cheio de coisas que eles não Não sabiam o que ia acontecer. E é exatamente isso que torna o dia perfeito. Não a repetição do conhecido, mas a abertura pro que ainda não aconteceu. A vida tá cheia de pequenas coisas perfeitas esperando pra serem mapeadas. Você só precisa parar de correr pra enxergá-las.