damb #12 - acho que sou artista desde sempre
Diário de um artista meia boca é um podcast sobre arte, fé e vida real. São os devaneios de alguém que tá caminhando e cantando e seguindo a canção.
Artista Meia Boca
- Esperança e paz em tempos difíceisA arte como ato de esperança · Acreditar na bondade humana · Encontrar beleza no caos
- Arte e Percepção da RealidadeAntena ligada o tempo todo · Empatia e compreensão das histórias · A arte como ferramenta de julgamento
- Carreira artística de PedroArte como processamento do mundo · Curiosidade infantil · Percepção aguçada da realidade
Eu faço arte desde que eu me entendo por gente. Não no sentido formal, não desde que eu aprendi técnica ou nome pras coisas que eu fazia. Eu tô falando de um jeito de olhar pro mundo. Antes mesmo de tocar violão, de escrever música, antes de estudar, antes de qualquer outra coisa, eu já era assim. Desde pequeno eu já tinha esse negócio de precisar dar forma às coisas, de precisar expressar meus sentimentos. Eu desenhava, inventava história, adorava fazer caligrafia, ficava horas parado olhando pro céu.
Inclusive, acho que essa é uma das maiores piras de quando eu era criança, que eu imaginava que a chuva era Deus regando as plantas do céu com uma mangueira cheia de furos. Bem criativo, né? Eu era essa criança assim que adorava conversar com pessoas mais velhas, porque elas tinham coisas pra me ensinar que crianças da minha idade não sabiam. Eu sempre fui muito curioso. E a arte não é só as coisas que eu faço. Arte é um jeito que eu processo o mundo.
E isso vem desde sempre. É o filtro pelo qual eu recebo a realidade. Eu sempre gostei muito dos porquês. E eu acho que isso é— acho que é por isso que eu nunca consegui viver uma vida completamente normal. Não que essa vida normal exista, mas Eu acho que você sabe do que eu tô falando. Tem gente que simplesmente consegue passar pelos dias como se não fosse nada demais. Acorda, trabalha, volta pra casa, janta, dorme e repete, repete, repete.
E de certa forma tá tudo bem. Só que infelizmente, ou felizmente, eu não consigo viver essa vida normal. Não que eu não queira descansar, é que a minha cabeça ela não consegue desligar do mesmo jeito que outras Pessoas conseguem. Eu admiro quem consegue, mas eu nunca consegui. Porque enquanto eu tô indo trabalhar, eu tô reparando na luz do sol nascendo, atravessando a janela do carro. Enquanto alguém conta uma história qualquer, me passa na cabeça um filme com todas aquelas imagens.
Enquanto toca uma música em qualquer lugar, eu não consigo mais prestar atenção em outra coisa. Enquanto alguém fala de um problema, eu fico ali tentando entender a dor que existe por trás daquela história e tentando criar uma solução. A minha cabeça parece que nunca desliga. E isso é muito legal, isso é mágico. Só que às vezes é cansativo, porque fazer arte não é só produzir, é perceber, é receber muitos estímulos, é prestar atenção nas coisas, é viver com a antena ligada ali o tempo todo.
E isso tem um preço. Tem dias que eu queria simplesmente olhar pra um arco-íris e passar, ir embora, deixar ele passar despercebido. Só que eu não consigo, eu fico ali. Pensando por que aquilo me emociona tanto, pensando em quem pintou o céu com aquelas cores. A arte mudou o jeito que eu enxergo tudo. Ela estragou meu olhar, ou talvez tenha consertado. Eu não consigo olhar pras pessoas sem imaginar as histórias que elas carregam.
Eu não consigo ouvir alguém falando sem pensar no que ela não conseguiu dizer. Eu não consigo ver, sei lá, um casal de idosos sentados sem imaginar Quantas histórias existem ali? Eu não consigo olhar pra uma criança brincando na rua sem lembrar que um dia eu também fui aquela criança. E a arte também fez de mim alguém que demora mais pra julgar. Porque antes de tirar qualquer conclusão, eu quero entender as narrativas. Talvez seja por isso que eu ainda consiga acreditar nas pessoas.
E esse jeito de ver o mundo eu não troco por nada. Eu considero como algo bom. Porque me diz que eu tenho a capacidade de ver bondade nas pessoas. Mesmo quando elas fazem coisas que machucam. Eu fico procurando alguma coisa humana e compreensível por trás de tudo. Inclusive, a Isabelle vive me chamando de Madre Teresa por causa disso. E eu acho que não é ingenuidade, é uma escolha que o hábito de fazer arte me ensinou. A arte te treina a procurar o que é real por baixo de camadas, por baixo, por trás daquilo que é aparente.
E quando você faz isso com coisas, você também consegue fazer com pessoas. Não porque eu acho que elas são perfeitas, mas porque eu acredito que quase todo mundo é maior do que o pior capítulo da própria história. E a arte também me deixou perigosamente esperançoso. Num mundo em que parece ser bonito, elegante ser cínico, tem gente que acha bonito desacreditar de tudo. Só que eu não consigo. Eu tenho esperança de um jeito que às vezes parece irracional.
Não uma esperança rosa, com glitter, que ignora que as coisas quebram e doem e às vezes não têm conserto fácil. Mas uma esperança teimosa, que insiste em encontrar beleza nas coisas e nas pessoas. Que insiste em acreditar que a bondade ainda existe. E eu acho que isso também vem da arte. Porque a arte é, no fundo, o ato de ter esperança. Você pega aquilo que é caótico, doloroso, confuso e você resolve, você dá forma praquilo. Você tenta encontrar sentido, tenta criar algo que não existia antes.
Isso pressupõe que vale a pena tentar, que o mundo recebe o que você faz, que alguém vai ver, ouvir e sentir. Vai ser transformado de algum jeito. Quem faz arte acredita, mesmo sem entender, mesmo sem saber, que o mundo pode ser diferente. Alguém certa vez disse que a arte existe porque a vida não basta. Talvez eu seja ingênuo demais. A minha mãe sempre me alertou quanto a isso. Menino, para de ser tão inocente, o mundo é mau, você vai quebrar a cara.
Mas sendo sincero, eu prefiro correr esse risco a perder a capacidade de me maravilhar com as pessoas e com as coisas. Porque eu acho realmente que a esperança também é uma forma de arte, é imaginar um futuro que ainda não existe. E isso que é o evangelho vivido hoje, né, te antecipar as coisas que existem na eternidade pra nossa realidade. É enxergar uma possibilidade onde todo mundo só vê ruína, é continuar plantando mesmo quando o inverno parece longo e chuvoso demais.
Às vezes eu me pergunto por que eu gosto tanto de arte e Eu acho também, sendo sincero com vocês, eu não sei se é que eu gosto da arte, é que eu não consigo viver, eu não consigo existir sem ela. Ela moldou o meu jeito de enxergar o mundo, ela me ensinou a contemplar e eu não consigo mais abandonar isso. Ela me ensinou que uma conversa pode ser algo belo, que uma mesa cheia de amigos pode ser uma obra de arte, que um olhar pode contar uma história, que um abraço pode ser uma declamação de poesia, que o silêncio também pode ser uma oração.
Que Deus continua escondendo beleza em lugares onde quase ninguém olha. E eu acho que é por isso que Jesus falava tanto de sementes, de flores, de passarinhos, de vinho, de pão, de festa. Ele podia muito bem explicar o reino, o reino de Deus em conceitos, mas ele preferiu contar histórias. Porque a verdade quase sempre chega mais fundo, com mais verdade, quando ela vem vestida de beleza. E talvez seja isso que eu esteja tentando fazer desde criança.
Contar histórias, encontrar beleza, procurar a bondade. Acreditar que ainda existe alguma coisa boa acontecendo no mundo. Mesmo quando o mundo faz força pra nos convencer do contrário. Eu não sei viver uma vida sem ter a cabeça nas nuvens. Mas eu também descobri que isso não significa viver longe da realidade. Significa olhar pra realidade e acreditar que ela ainda pode florescer, nos entregar algo bom. E esse é o trabalho do artista.
Lembrar que ainda existe beleza. Lembrar que ainda existe bondade. Lembrar que ainda vale a pena ter esperança.