damb #5 - eu li foucault
Diário de um artista meia boca é um podcast sobre arte, fé e vida real. São os devaneios de alguém que tá caminhando e cantando e seguindo a canção.
Artista Meia Boca
- Foucault e a arte da existênciaTécnicas de autocompreensão · Michel Foucault · Vida como obra de arte
- Produção e autotransformaçãoProduzir sem autoconsciência · Produção como moldagem · O eu em processo de criação
- Desacelerar e o cuidado de siPressão por performance · Resistência à superficialidade · Autoconhecimento e reflexão
- Arte, fé e vidaInterconexão das práticas · Formação do ser
E aí meus amigos, sejam bem-vindos ao meu confessionário, ao diário de um artista meia-boca. Eu tenho lido Foucault recentemente por causa da faculdade, e eu me deparei com um esquema de técnicas que o ser humano usa pra compreender a si mesmo. E isso me levou a alguns devaneios que eu vou compartilhar aqui com vocês. No meio desse rolê todo, ele se pergunta...
Por que a vida não pode ser uma obra de arte? Por que a gente aceita que uma lâmpada, uma cadeira, uma casa sejam obras de arte, mas não a nossa própria existência? E isso não te buga um pouco? Porque isso me bugou.
Durante muito tempo eu achei que produzir era só produzir, fazer. Fazer vídeo, fazer música, escrever roteiro, atender meus pacientes, fazer as coisas da faculdade, planejar as coisas. Tipo assim, eu tinha uma demanda, eu fazia, entregava, pronto, tá feito.
Só que, olhando bem, eu percebi que tinha um problema nisso. Eu estava produzindo muita coisa, mas não estava prestando atenção no que aquilo estava fazendo comigo. Eu estava em movimento, mas eu não saía do lugar, não tinha deslocamento dentro de mim.
Era como se eu estivesse sempre entregando algo pro mundo, mas nunca percebendo o que o mundo tava construindo em mim enquanto eu fazia. E aí, eu comecei a viajar com as ideias do Foucault. E uma delas, eu acho que é uma ou duas, sei lá, elas me deixaram meio desconfortável. E eu confesso que eu detesto me sentir assim.
Ele fala que produzir não é algo neutro, nunca, jamais. Toda produção carrega uma forma de ver o mundo e ao mesmo tempo molda quem está produzindo. Ou seja, não é só o que eu faço que importa, é quem eu estou me tornando enquanto eu faço o que eu faço. Tudo que eu produzo, me produz de volta.
E isso muda o jeito que eu olho para as coisas mais simples. Tipo, escrever um roteiro. Porque, para mim, quase sempre começa assim. Tem alguma coisa que me incomoda, eu escrevo para organizar as ideias e isso vira um roteiro. Só que, no meio do caminho, não é só o texto que vai tomando forma. Eu também vou mudando.
Não porque eu resolvi a questão do meu problema, mas porque eu me tornei alguém que consegue carregar essa questão de um outro jeito, lidar com ela sem pirar. Às vezes, o produto final nem é a parte mais importante. O que importa mesmo são os amigos que fazemos pelo caminho.
O vídeo não é o fim, a música não é o fim, o texto não é o fim. Aquilo é só um produto. O que está sendo produzido de verdade sou eu mesmo. E isso gera uma responsabilidade meio doida, porque significa que dá pra produzir muito e mesmo assim continuar vazio. Dá pra fazer tudo certo e ainda assim não está sendo transformado de verdade.
E é por isso que tanta gente se cansa, porque produz, produz, produz, mas não se encontra em nada daquilo que faz. Quando você cria, quando você produz alguma coisa, seja lá o que for, você está prestando atenção em quem você está se tornando no processo ou você está só entregando uma demanda? E aí entra um outro ponto.
Hoje em dia, tudo empurra a gente para performance. Produzir mais, produzir mais rápido, melhor, ter mais alcance. E isso vai criando um padrão. Você começa a repetir formatos, repetir linguagens, pensamentos. E quando você vê, você está eficiente.
Mas isso não é necessariamente algo bom, porque você pode fazer tudo isso e não estar sendo honesto com quem você é. E isso me deu uma vontade de frear, de desacelerar, de parar algumas coisas um pouco. De não postar só porque eu tenho que postar. De não criar só porque eu preciso manter a constância e jogar os meus conteúdos para o algoritmo para eu ficar famoso.
Talvez seja por isso que os meus vídeos estejam mais espaçados, talvez seja por isso que eu tenha mudado o formato de um dos quadros, porque eu não tenho essa obrigação de criar, ninguém colocou essa obrigação sobre mim. Eu quero voltar a fazer porque eu gosto de fazer, porque eu quero fazer. Eu parei de colocar sobre mim essa obrigação de ter que ficar produzindo. Eu faço quando dá, e não é à toa que aqui é o Diário de Matista Meia Boca. E eu acho que isso...
vem com uma outra ideia do Foucault, o tal do cuidado de si, que é basicamente a gente parar de só viver e começar a se observar enquanto vive. Parece simples, mas não é.
Porque a gente não foi ensinado a fazer isso, a gente foi ensinado a reagir, a seguir o fluxo, a fazer, fazer, fazer, fazer, fazer e repetir padrões. Mas parar e perguntar, por que eu penso assim? Por que isso me afeta tanto? Por que eu reagir dessa forma? Isso a gente quase não faz.
E quando começa a fazer, a gente se frustra porque dá trabalho. Porque você percebe que tem muita coisa em você que não foi você que escolheu. E aí vem a parte difícil. Se fazer, se construir ou se refazer, se remodelar. Não no sentido de inventar um personagem, mas de participar de quem você está se tornando. E isso pra mim tem acontecido...
Em coisas simples, porque mudar assim não é fácil. Então, eu comecei a escrever para organizar os meus pensamentos, fiquei mais tempo em silêncio para entender o que eu estou sentindo de verdade. Eu passei a...
a orar e transformar, às vezes, as minhas orações em um bate-boca com Deus. Eu passei a voltar nas minhas coisas antigas que eu escrevi e percebi, cara, eu ainda sou eu, mas eu não sou mais o mesmo que escrevi isso aqui. Nós somos templos e estamos em reforma.
Não sei se já aconteceu isso contigo? Provavelmente já. Você produz algo e depois olha e pensa. Cara, nada a ver isso aqui, né? E isso diz muito sobre aquilo que a gente falou no outro episódio. Sobre a arte não ser exclusivamente sobre você, mas também sobre o outro.
E é muito louco isso de não ser pessoal, não ser só sobre mim. Porque isso muda a forma como eu me relaciono com os outros. Porque quando eu começo a me observar, eu começo a perceber como eu respondo as pessoas, como eu trato as pessoas, como eu entro em dilemas e jogos que eu nem percebo, como eu sou moldado sem questionar.
E aí, cuidar de mim vira também uma forma de não ser levado ou manipulado por qualquer coisa. E de alguma forma, isso é resistência. Porque no mundo que quer que você seja simples de explicar, rápido de consumir, fácil de encaixar, parar, pensar, se observar, é um ato rebelde.
E aqui tudo começa a se juntar. A arte, o cuidado de si e a fé. Porque elas não são coisas separadas. São formas diferentes de cuidar da mesma vida. Tudo isso é sobre formação. Sobre quem eu estou me tornando.
Então, hoje, quando eu produzo alguma coisa, eu ainda penso no resultado, eu não consigo fugir disso. Mas eu também penso, isso aqui está me transformando em quem? Porque produzir não é só responder ao mundo, é também intervir e interagir com ele. Não tem como escapar. Querendo ou não, eu sou obreiro, mas eu também sou a obra.