Episódios de diário de um artista meia boca

damb #4 - hobbies

04 de maio de 20266min
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Diário de um artista meia boca é um podcast sobre arte, fé e vida real. São os devaneios de alguém que tá caminhando e cantando e seguindo a canção.

Assuntos4
  • Hobbies como brincadeira adultaDiferença entre criança e adulto em relação a brincar · Adulto funcionalista e o termo 'hobby' · Mudança de brinquedos na vida adulta · Perigo de parar de brincar na vida adulta · Conexão entre brincar, criar e a alma
  • Hobbies como resistência e a essência do serHobby como perda de tempo vs. necessidade de criação · Deus criou o mundo para criar, não para viver no automático · Viver com a arte, mesmo sem viver de arte · Hobby como a parte mais honesta de quem somos
  • Acessibilidade na ArteHobbies como forma de arte, mesmo sem performance · Arte como expressão da alma, não utilitarismo · Crítica à visão utilitarista da arte e do trabalho · Maturidade não é sinônimo de secura sentimental
  • Inspirações ArtísticasSer adulto como dar ferramentas melhores para a criança interior · Referência a Andy de Toy Story e a entrega dos brinquedos · Amor pelo que nos faz sentir vivos não pode morrer · Hobby como resistência contra a vida automática e o vazio
Transcrição18 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

E aí, meus amigos, sejam bem-vindos ao meu confessionário, ao diário de um artista meia-boca. Hoje, nós vamos viajar um pouquinho, tá? Vocês já repararam que hobbies são adultos brincando?

A diferença entre uma criança e um adulto é que um brinca e o outro não. É que o adulto funcionalista chama de hobby para não parecer infantil. A criança desenha porque ela quer desenhar. O adulto compra um iPad e chama de projeto pessoal. A criança monta um castelo de Lego, de areia, sei lá, monta coisas. O adulto monta um setup gamer.

A criança inventa história, o adulto escreve um roteiro e chama de conteúdo. No fundo, a gente continua brincando, só que mudou o brinquedo. E eu tenho pra mim que o maior perigo da vida adulta não é trabalhar demais, se responsabilizar demais ou mesmo envelhecer. E olha que isso é bem problemático. Mas o pior de tudo é parar de brincar.

Porque quando a gente para de brincar, a gente para de criar. E quando a gente para de criar, a gente começa a endurecer por dentro. Tem adulto que não tem hobby. E você percebe que tudo gira em torno de produtividade. Mas...

Olha que curioso, por mais que as pessoas não assumam, todo mundo tem alguma coisa que faz perder a noção do tempo. Seja cozinhar, plantar, jogar bola, editar vídeo, tocar violão, ficar aqui falando sozinho pra ver se as pessoas vão ouvir.

cuidar do carro, organizar seus livros, fotografar, e tudo isso é arte. Mesmo que você nunca suba num palco, mesmo que você nunca lance um álbum, mesmo que você nunca exponha numa galeria, mesmo que ninguém te chame de artista ou que você mesmo se considere um artista. A arte não é só sobre performance, é sobre ser.

É quando você faz algo não porque precisa, num sentido utilitarista, mas porque a sua alma precisa se expressar de alguma forma. É quando você faz algo porque você quer fazer, porque você ama. E a gente precisa muito falar sobre isso.

Porque tem muita gente enterrando criatividade, o seu lado artístico, em nome de ser um adulto funcional, ser adulto de verdade. Como se ser adulto fosse só fazer aquilo que resulta em dinheiro. Inclusive, você provavelmente já viu ou até mesmo você já proferiu esse tipo de comentário quando alguém fala que vive de arte, de música, de pintura, de dança, de teatro, sei lá.

mas o que você faz para ganhar dinheiro de verdade? Então, a gente está condicionado a pensar que arte não é algo de verdade. Como se a maturidade fosse sinônimo de secura sentimental, de secura da alma. Só que não é desse jeito. Ser adulto não é matar a criança que existe dentro de você. É dar para ela ferramentas melhores para brincar.

Mais tinta, mais palavras, mais equipamentos, mais sons, mais consciência. Um repertório maior de sentimentos. E isso me faz lembrar o Andy do Toy Story. Ele cresceu, entrou na faculdade e não tinha mais idade pra sentar no chão e brincar com o Woody e o Buzz. Mas ele nunca tratou aqueles brinquedos como lixo. Eles eram memórias, parte da história de quem ele é.

E quando chegou a hora de deixá-los, ele não descartou. Ele entregou pra outra criança, como quem diz, ó, isso aqui foi muito importante pra mim, isso aqui me fez ser quem eu sou hoje. Ele cresceu, mas não abandonou o amor que tinha pelos brinquedos.

E é sobre isso, sabe? A gente vai amadurecendo, os brinquedos mudam, as responsabilidades aumentam, mas o amor por aquilo que nos faz ou fazia sentir vivos, isso não pode morrer jamais. O problema é que muita gente acha que arte é luxo, que ter hobby é perda de tempo, que brincar é coisa de quem não tem...

Boleto pra pagar. Mas pensa comigo. Se Deus criou um mundo cheio de cores, texturas, ritmos, cheiros, cheio de tantos e tantos e tantos detalhes, você acha mesmo que ele nos fez pra viver só no automático? A gente foi feito pra criar. Nem todo mundo vai viver de arte, isso é óbvio. Mas todo mundo precisa viver com a arte.

Porque quando a arte morre dentro da gente, a vida se torna apenas a chatice de uma obrigação de continuar vivendo. Talvez você não se considere um artista, nunca tenha se visto como um artista, mas me diga uma coisa.

O que faz você acender por dentro, te energiza. Aí dentro de você existe uma criança e também um artista. E talvez o seu hobby não seja apenas um passatempo ou uma distração.

Talvez seja resistência. Resistência dessa criança que não quer deixar a vida esfriar. Resistência contra a correria que a vida se tornou. Contra o vazio que talvez a sua vida tenha se tornado. Hobbies são adultos brincando.

E brincar é uma forma de dizer, eu ainda tô vivo. Então, se você tem algo que faz os seus olhos brilharem, o seu coração arder, não abandona isso. Não chama de bobagem, não chama de, ah, é só uma fase. Cuida disso que você tem, porque talvez não seja só o passatempo, talvez seja, talvez não. É a parte mais honesta de quem você é.

E no fim das contas, todo mundo é criança. O que muda é só o brinquedo.