Episódios de Pedido Extraviado

EP.3. A Máquina que não para | PEDIDO EXTRAVIADO

10 de maio de 20267min
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Isto não é um guião de um reality show. É a minha realidade entre turnos de televisão e tratamentos de fertilidade. 💉📺

Como é que se negoceia a nossa sobrevivência quando o 'show must go on' mas o nosso corpo pede tréguas?

Neste episódio abro o meu B.I. profissional. Da fuga da Enfermagem ao sonho da representação, até chegar à adrenalina da régie de Reality Shows. Partilho contigo a ironia de controlar vidas vigiadas na TV enquanto a minha própriarealidade colapsava nos bastidores.

#pedidoextraviadopodcast #carreira #amaquinaquenaopara

Participantes neste episódio1
J

Joana

HostEnfermeira/realizadora de reality shows
Assuntos4
  • Fertilidade e GravidezDiagnóstico de burnout · Baixa reserva ovárica · Tentativas de preservação de óvulos · Interação com a Segurança Social
  • Carreira ProfissionalDecisão entre segurança financeira e sonho · Formação em Enfermagem · Transição para representação · Mercado do entretenimento
  • Reality ShowsTrabalho na régie de reality shows · Controle de vidas vigiadas · Colapso da realidade pessoal
  • Relacionamento amoroso e segurança emocionalSuporte do namorado · Sobrevivência da relação
Transcrição19 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

No último episódio deixei-te no momento em que o meu corpo me deu um prazo de validade. Mas o descarrilamento da minha vida não ficou por aí, não. Lá está, quando a carruagem sai do carris, raramente para a primeira pirueta.

Sou filha de pais um tanto ou quanto conservadores. Ou extremamente preocupados, vá. Por isso sempre me debati com a decisão interna de trabalhar em algo por dinheiro, pela segurança, ou perseguir o sonho, por mais irrealista que seja, ou difícil que seja alcançar. Cresci a ouvir que o importante é ter dinheiro no final dos meus papores comida na mesa, sabes? E é uma frase que ainda hoje me dá urticária. Eu queria o palco, eu sempre o soube, já disse isto.

Quer dizer, isto depois de ter querido também ser veterinária, ora, agora nem consegui dizer o rei da palavra.

veterinária, professora de ginástica e rítmica, enfim. Mas acabei por me licenciar em enfermagem. Fui numa conversa de uma amiga que disse que ai, o curso é muito fixe, ajudar os outros é muito fixe. E também porque eu não tinha maturidade suficiente para enfrentar as opiniões alheias. Portanto, foram 4 anos de sofrimento. Apenas valeu por algumas amizades e pelas saídas à noite que era o que acalmava o desgosto estar a fazer algo sem nenhuma vocação.

Aos 23 anos, pela primeira vez, eu decidi ouvir o meu coração. Próximo passo, representação. Foram três anos incríveis, onde aprendi muito sobre mim. Fiz amizades que hoje fazem parte da minha vida. Fiz algumas aparições na TV, raras, teatro. Mas a realidade é madrasta. As portas não se abrem mesmo para todos.

Como não ia voltar para a enfermagem? Lembra-te, eu entreguei a cédula, não quero, ficas aí, não vou voltar atrás, nem que me obrigue. Recordas-te deste discurso? Pronto, como entreguei a cédula e decidi que não ia voltar para a enfermagem, passei anos a saltitar entre balcões de retalho, de hotelaria, restauração, contacto de centro, enquanto investia em mais formação e tentava perceber...

Como é que eu poderia furar um mercado do entretenimento, digamos assim? Eu aqui já sabia que poderia não ir para a representação, mas eu queria algo mesmo ligado ao entretenimento. Em 2021, tive o primeiro déjà vu, um fim de relação catastrófico, desempregada e a lutar contra uma depressão. Imagina, ganhar coragem para tomar bem, sair de casa, já era uma vitória olímpica. Mas eu fui vencendo essa batalha, devagarinho, doce má, muito devagarinho.

Fiz uma formação em marketing digital, fiz rádio na Católica, o que na verdade foi a minha boia de salvação nessa altura. E apercebi-me que gostava mesmo daquilo. Depois segui o seu mestrado em meio de entretenimento e de repente, de repente não, fiz por isso. Comecei a estagiar na End Mall, no Big Brother, Secret Story, na realização de reality shows.

Mas os meses foram-se passando e a televisão não tem um botão de pausa. O stress, a ansiedade, a pressão dos turnos, tudo começou a tornar-se muito complicado. E enquanto eu lidava com as emoções extremas dos outros, conversas gravadas, vidas vigiadas, a minha própria realidade colapsava nos bastidores. Se por um lado eu tinha de controlar aquilo que acontecia dentro da casa, por outro eu não conseguia controlar as minhas próprias lágrimas.

e dei por mim até de esconder-me na casa de banho para chorar e foi aí que eu pensei nananana não vais apanhar na curva outra vez podes ter a certeza que não vais isto era eu a falar para a minha expressão e fui ao psiquiatra, diagnóstico até aqui acho que já sabes burnout

Baixa médica imediata. Como te contei, aproveitei a baixa médica para pôr os exames em dia, exames de saúde em dia, e fui aí para juntar ao esgotamento, ouvi baixa reserva ovárica. Eu, com 34 anos. Aquilo que poderiam ser dois meses de descanso, e a recuperação emocional na realidade foi o oposto. Foi completamente o oposto. Ao fim de dois meses e duas tentativas de preservação de óvulos falhadas, regressei ao trabalho. Mas antes... Espera, espera, espera que isto é bonito.

Antes eu tive de passar pela Segurança Social. Porquê? Porque recebi uma carta. Porque a Segurança Social precisa de perceber, de se certificar, que tu efetivamente tens motivos para estar de baixa médica. Então o que é que aconteceu? Fiz a punção ovárica e no dia seguinte, porque isto o timing é uma coisa, no dia seguinte tive que me apresentar na Segurança Social e portanto ainda com perdas hemorrágicas, cheia de dores, um trapo, um trapo autêntico.

E a assistente olha para mim, lê o relatório, porque eu tive que apresentar um relatório médico, e diz, ah, não, não, isto pelo burnout pode ir trabalhar, isto não tem motivo, não tem motivo para ficar em casa. Ah, mas está aqui um apontamento a fazer tratamento de fertilidade. Mas quando é que pensa regressar ao trabalho? E há...

E eu fiquei... Eu já estava a chorar. Eu acho que tantas as lágrimas caíam. Portanto, o sangue caía por baixo, as lágrimas caíam por cima. E eu respondi que não era mentira nesta semana. Ou seja, naquela semana. Ah, então pronto. Se vai regressar ao trabalho agora brevemente, não precisamos de a chamar outra vez. Portanto, entrei um caco lá e saí pior ainda. Na semana 5 voltei a reagir. Mas não voltei a mesma.

Eu estava escutada fisicamente, tinha acabado de passar por duas tentativas de preservação de óvulos falhada, emocionalmente, claro, e sabia que iria iniciar dentro do mês a terceira tentativa. E sem saber, porque nós nunca sabemos se iria dar certo desta vez, se não iria dar certo, iria regressar a um trabalho que efetivamente...

me coloca numa posição de stress e ansiedade constante, algo que não é bom para quem está a realizar, não é bom no geral, não é bom no geral, mas pior ainda para quem está a iniciar, não, para quem está a fazer este tipo de tratamentos e portanto tinha de regressar, a baixa tinha acabado, não poderia perder o emprego.

de jeito nenhum, mas regressar implicava mudanças. Eu tinha de manter um padrão de sono adequado e tinha de fazer as injeções tanto de manhã como à noite, às mesmas horas. Isto passava por não fazer noites, não fazer madrugadas, como já te expliquei no outro episódio, eu apresentei relatórios médicos, tanto do médico de fertilidade como do psiquiatra, não poderia fazer noites e madrugadas durante uns meses, dois meses, e portanto falei com quem tinha de falar, com o coração nas mãos.

Na minha vulnerabilidade máxima, foi muito difícil naquela altura e durante todo este período desde outubro, não chorar, e não chorar quando falo neste assunto. Pedi o que pedi, por necessidade, não por capricho, mas acabei por perceber que não havia lugar para as minhas novas limitações. Naquele tabuleiro, eu era uma peça que já não encaixava. E o contrato não foi renovado.

E foi assim que também percebi que a máquina da televisão não tem como esperar, como abrandar por um processo de fertilidade ou mesmo de burnout. A minha situação atual era esta. Desempregada, contas para pagar e mais de mil euros de tratamento pendentes.

Mas eu pensei, Joana, nem tudo é mau. Ao menos tens o teu namorado. Uma pessoa por quem te apaixonaste, depois de 5 anos sozinha, e que está contigo em todas as etapas. É, também pensava. No próximo episódio eu vou contar-te o que acontece quando o som profissional desaparece e tu achas que tens onde te agarrar, onde te segurar, mas as mãos que te deviam amparar decidem soltar-se. Como é que uma relação sobrevive ao caos? Ou melhor, será que sobrevive?

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