EP.2. O Prazo de Validade | PEDIDO EXTRAVIADO
Dizem que o corpo avisa, mas o meu decidiu gritar. Quando decidi que 2025 seria o ano de cuidar de mim, não fazia ideia de que o “cuidado” vinha com um manual de instruções em injeções e um prazo de validade que eu não tinha consultado.
Neste episódio, abro a lancheira das hormonas para vos contar o processo real de quem tenta congelar o tempo. Entre análises de nomes estranhos e o frio de uma sala de anestesia, percebi que a liberdade biológica tem um custo e que, às vezes, o universo decide que o nosso esforço não é suficiente para garantir o resultado.
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Joana
- Preservação de ÓvulosProcesso de preservação de óvulos · Análises de fertilidade (AMH, FSH, estradiol, progesterona) · Reserva ovárica baixa · Injeções hormonais · Custo da liberdade biológica
- Saude Mental e BurnoutSintomas de burnout · Depressão · Busca por ajuda profissional (psiquiatra)
- Desafios PessoaisPerda de emprego · Contrato não renovado · Dificuldades financeiras · Necessidade de horários flexíveis
Dizem que o corpo avisa. O meu não avisou. O meu gritou. Eu sou a Joana e este é o meu pedido extraviado. O podcast onde eu tento perceber em que parte do caminho é que a minha vida de sonho ficou retida na alfanga.
Hoje o foco é o que acontece quando a encomenda que nos chega é um burnout e o famoso prazo de validade biológico. Para quem chega agora, eu sou a enfermeira que entregou a cédula para ser atriz e que acabou na realização do reality shows. Em 2021, eu já tinha sobrevivido a um fim de relação catastrófico e a uma depressão. Estava desempregada, sem namorada, olha, tal como estou agora, um déjà vu que eu não pedi de certeza à gerência.
Mas eu sou resiliente, quer dizer, pelo menos tenho tentado convencer-me disso. Tirei cursos.
Especializei-me em rádio, marketing e finalmente entrei na NMall. Estava viva outra vez. Acordava com vontade de trabalhar. Uma maravilha! Mas os meses foram-se passando e o stress começou a tornar-se gritante. Comecei a chorar na casa de banho, a esconder-me e foi aí que eu pensei na, na, na...
Joaninha, não vamos voltar lá atrás, não vamos passar por isto outra vez. Fui ao psiquiatra. Diagnóstico. Joana, burnout. Dois meses de baixa, ok? Ok. Aceitei a baixa, afinal de contas eu tinha de parar de chorar, caramba. E durante a baixa aproveitei para fazer todos os exames que nós adiamos com a desculpa do horário laboral. Quer dizer, muitas vezes não é desculpa, não temos mesmo tempo.
A vida profissional não nos permite, se calhar, ir ao médico com a regularidade com que gostaríamos ou com que deveríamos ir. E então eu decidi aqui avançar com a preservação de óvulos. Portanto, uma ideia que já me tinha sido incutida pelo meu ginecologista em 2023, mas que na altura também era a primeira vez que eu estava a ouvir falar daquilo e pensei...
Não pensei, na realidade, fiquei-me por aí, só que agora, sem os horários loucos da televisão, ok, bora avançar com isto, parece-me um momento ideal. E eu aqui abro um parênteses importante. Nós crescemos ao ouvir que temos de poupar para comprar casa, para a reforma, para as férias, mas ninguém nos diz que, enquanto mulheres, podemos ter de ter poupanças para a nossa saúde reprodutora. Ok, a renda das casas aumentou, a gasolina e o gás óleo é o que se vê, mas então e o custo da nossa liberdade biológica?
também é alto. E gente, o prazo, esse não espera por melhores salários. Para quem não sabe, nós mulheres crescemos com um estoque de milhões de ovócitos. Aos 35 anos, mais ou menos a partir dessa lata, esse estoque deixa pique. Portanto, preservar aqui é como congelar o tempo. Imagina que tu preservas os teus óvulos aos 30 anos.
Se um dia os quiseres utilizar aos 35, 37, 40, o que seja, esses óculos vão ter a idade genética da idade como tu os preservaste, percebes? Portanto, neste exemplo que eu te dei, vão ter a idade genética dos 30 anos. Ok, marquei a consulta de fertilidade e foi aí que chegou o balde à água gelada. Para saber como é que tu estás, tu precisas de números. E é aqui que entra o alfabeto da fertilidade. Hormona antimulariana, FSH, estradiol, progesterona.
Se não estás familiarizada com estes termos, eu dou-te aqui só uma mini breve explicação, até porque não sou médica. Estas são algumas das análises que tu tens de fazer quando queres iniciar este processo da preservação. A MH indica a quantidade de óvulos que tu tens na tua reserva ovárica. A FSH é aquela que ordena, por exemplo, aos ovários que eles amadureçam o óvulo. O estradiol mostra como os felículos crescem. E a progesterona garante que tu não ovulas antes do tempo. Ou seja, é mais ou menos isto.
O meu resultado, o resultado destas análises que fiz, traçou o meu perfil, reserva ovárica baixa. Tornou-se então urgente e o conselho do médico foi curto e grosso. É para ontem. Como não estava nos meus planos ser mãe já já, bom, na realidade nunca esteve, eu não podia esperar muito mais tempo para fazer esta preservação. Não fosse a minha reserva passar baixa, anula. Qual é que era o plano? Injeções na barriga de manhã à noite, ecografias dois em dois dias ou três em três dias, para ver como é que o teu corpo está, o teu corpo, os teus ovários, estão a reagir à estimulação, às hormonas, para visualizarem.
Mulheres, todos os meses o corpo ativa vários flículos. Imagina bolsas em que em cada bolsa cresce um óvulo, tipo quartos privados. No estado normal, sem injeções, só um destes óvulos vinga. Com as hormonas que tu estás a introduzir através das injeções, o que os médicos tentam fazer é com que aqueles que acabam por morrer na praia não morram lá estar e cresçam ao ponto de também poderem ser colhidos.
Mas atenção, é que no final nada disto é garantido. Ou seja, tu até podes conseguir recolher 8 óvulos, 10 óvulos, o que seja, mas estes óvulos não estarem maduros. E portanto, podes ter de passar por isto tudo e no fim, zero, níquelos, betatoide. Pelo que a preservação de óvulos até pode ser um plano B de fertilidade e é aconselhado e bem, mas não garanto que tu um dia, se quiseres vir a ser mãe, o consigas ser. Como não queria correr esse risco, avisei logo.
Quero logo as estimulações, é para ser, é para ser. Quero garantir o máximo de óvulos bons possíveis.
E iniciei injeções de manhã à noite e uma boa dose de esperança. Mas o meu corpo ovulou antes do tempo. Ou seja, o óvulo fugiu antes de ser colhido. Basicamente foi isto. Foi chato. Mas foquei-me. Ok, em novembro atacamos outra vez. Chegou novembro e eu não fiz por menos. Não. Eu fui munida de tudo. Acompanhada por duas nutricionistas. Dieta rigorosa. Adeus gordura. Adeus álcool. Não que eu bebesse muito.
Olá pão pachamama, ovos biológicos, frutos vermelhos, aveia, até chás pré-natais eu andei a beber. Iniciei mais uma dose de injeções e lá está, consegui o quê? Desta vez foi o inuíno. Cheguei ao bloco operatório nove anos do tempo. Eu despi-me, vesti a batinha e entrei no bloco operatório. A previsão era recolher quatro a cinco ovos. Não era muito, mas já que a minha reserva ovárica estava em lay-off, contentei-me quando acordei da anestesia.
Pouco tempo depois, o anestesista aproximou-se e disse-me. Apenas retirámos um óvulo. Estava estragado. Sou infértil. Foi o meu primeiro pensamento. Chorei, claro, e fiz a minha mãe chorar e sentir-se mal com o aparato que eu criei. Em saída entrou a minha médica de fertilidade que me disse Ok, Joana, para o mês que vem tentamos outra vez. Ela estava confiante e iria adaptar as injeções. E eu ainda sem saber como é que era suposto sentir-me.
Ok, consenti. Mas a baixa expirou. Ah sim, não sei se te recordas. É que eu aqui ainda estava de baixa médica e tinha de regressar à Inmol. Regressei, mas não voltei sozinha. Voltei com dois relatórios debaixo do braço. O relatório passado pelo psiquiatra e o relatório da médica de fertilidade. E eu pedi horários humanos.
O que é que isto significa? Não fazer noites nem madrugadas. Primeiro, estava ainda a recuperar de um burnout, não nos vamos esquecer. Depois, precisava de manter aqui horários regulados, um padrão de sono adequado, porque para esta questão das hormonas e fertilidade é muito importante. E tinha outra coisa, para além das injeções que eu fazia de manhã, eu também tinha injeções para fazer à noite, injeções que tinham de estar no frigorífico.
Não me estava a imaginar lá na regia dizer, olha, peço desculpa, tem que sair um bocadinho, tem que ir ali à casa de banho e injetar-me.
Não. Dias depois, o golpe final, o meu contrato não seria renovado para 2026. Casa nova, contas para pagar, mais de mil euros de tratamentos pendentes e o desemprego à porta. O meu corpo pediu tréguas, mas a minha vida decidiu declarar guerra. No próximo episódio, conto como é que foi o dia em que o meu GPS me mandou para o desemprego, quando eu achava que ia chegar ao topo. Ah! E como é que uma relação sobrevive quando o chão desaparece.