Episódios de Casa de Farinha e outras histórias

4.Abre a roda_ Sempre tem um motivo...

11 de maio de 202615min
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"São Cosme mandou fazer duas camisinha azul... No dia da festa dele, São Cosme quer caruru..."

Participantes neste episódio4
J

Jaime

Convidado
M

Marisete

Convidado
R

Renata Canto

Narrador
S

Suzane Lopes

Convidado
Assuntos5
  • Tradições de Caruru e MunguzáCaruru · Munguzá · São Cosme e Damião · São Roque · São Crispim · Devoção religiosa · Sincretismo religioso
  • Perda e Abandono de TradiçõesDepressão · Perda de saúde · Morte da mãe
  • Entidades Espirituais na UmbandaCavalo (Kávalu) · Entidades espirituais · Santos católicos · Omolu
  • Origem e Significado do Termo 'Cavalo'Kávalu · Língua Quimbundo · Companheiro, camarada
  • Vira Casacas Podcast e ApoioYour Family Foundation · Ilustração · Roteiro e narração
Transcrição38 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

E os dias da festa delição, come que caro, vai de acordo em madeira, vai de acordo em madeira, vai de acordo em madeira, vai de acordo em madeira. Cadê sua cabezinha delta? Jogando bola numa mata, jogando bola. Cadê sua cabezinha delta? Jogando bola numa mata, jogando bola.

Tinha muito samba, era samba mesmo. E a gente que tirava cada um samba de tremer. E ninguém toca mais samba aqui na região. Não, eu achei que acabou. E ninguém faz a devoção com medo da violência. Diversas casas na região faziam caruru. Ocorriam geralmente por volta de setembro e seguiam até o final do ano. Eram muitos carurus espalhados na região. Muito mesmo.

Cada um tinha o seu motivo. Uma era promessa, outra tradição, ou quando tinha gêmeos, ou às vezes, por devoção a um santo.

Entre a região da Pinguela e do povoado do Alves, deverão existir cerca de 15 carurus, dos mais famosos. Esse dado é apenas uma suposição. A região do Alves e da Pinguela são bem próximas. Os carurus mais famosos eram de Vicência, Ilda, Dona Laura, Cecília, Toquinho, Pieca, Senhora, Davi, Pedro e Eulina.

Curioso é que em algumas dessas festas costumavam aparecer meio que convidados especiais, ou que muitos acreditavam serem os próprios santos homenageados, como por exemplo no Caruru de Pedro Gonçalves, no Caruru de Marisete, de Zalina, Pedrinha, Nenzinha, Maria de Bento, por aí vai.

Não se sabe ao certo quem começou com esse costume na região. Mas dizem que ele ganhou muito mais força numa figura conhecida como Manuel Lince. Não foi só a prática que ficou mais forte, mas como também as manifestações dos santos católicos homenageados. Como São Roque, São Cosme, São Damião. Mas, santo católico, manifesta?

A novena toda. Porque é com Deus, vocês sabem que vem o Filho. E aí a gente envolve o Espírito do Santo, que é a nós desse, é que vem na luz. Aí vem... O Filho. A nós desse, aí vem o Pai Nosso, né? A gente é o Pai Nosso. Aí a gente reza lá da linha.

É isso mesmo, o Pai Nosso, aí depois vem a Ladainha, aí vem a Salve Rainha, aí vem o Incêncio, aí vem o Bendito de São Cosme e vem a Benção. Como era a Ladainha?

A ladainha, assim, eu não sei se você já ouviu falar, né? Tem a latim e tem a português. A ladainha vem latim e vem português. Antigamente a gente cantava ladainha latim. Hoje a gente canta português, que é assim, primeiro vem, Senhor, tende piedade de nós. É em português, Senhor, tende piedade de nós. A ladainha, primeiro a gente pede perdão a Deus pra depois começar a invocar e vem em português. Santa Maria.

Rogai por nós, Santa Mãe de Deus. Rogai por nós, Santas Virgens das Virgens. Rogai por nós, Rogai por nós, Rogai por nós. Tá aqui onde canta a sinha? Ei por nós.

Que ele é lezão, oras pro nobre, que esteja ao de nós, Páter de céu em Deus, filho redento, mãe de Deus.

Miseré em nove de Deus. Os santos, eles não davam caruru, que na Bíblia não tem nada disso. Essa tradição é que a gente cultura de antigamente que as pessoas não conheciam a palavra de Deus, então culturava a sua fé, rezando, dando caruru. Mas a função dos santos não é dar caruru. Porque caruru, você pode fazer um aniversário e você vê ele dar um bolo, você dá um caruru. É isso mesmo. E você vê ele fazer um churrasco, você dá um caruru. Então a missão dos santos era...

Ele renunciou às coisas do mundo, às coisas que não agradavam a Deus e foi servir só a Ele, levar a palavra. Bárbara Mulher Negra, cabelos negros, curtos e cresos.

Possui estatura mediana. É uma mulher simpática e energética. Nessa parte, acho que fica bem claro que elas não eram pessoas do candomblé que faziam sincretismo religioso. Eram apenas pessoas católicas que, por desconhecimento, acabavam agregando alguns elementos nos seus cultos. Sem saber o certo do que se tratavam.

E hoje, parece que eles olham para o passado com um certo estranhamento. Olha, se você, Barbinha, eu, Barbinha, você, eu vou parar de fazer o caramba, você vai dar continuidade, eu digo não. Não vou dar continuidade, as suas missões são as suas. Até a senhora já fez, não pode fazer, você errou. Porque Deus quer misericórdia, não sacrifício.

Ela fazia, cara, se hoje ela tivesse a noção que eu tenho hoje, ela jamais faria. Mas ela fez o que os pais dela ensinaram, os avós. Isso ensinaram. Hoje eu tenho, antigamente, antigamente, é...

Eu tinha como é encantado, como é? Como você falou, que recebeu o cantado, você não recebeu o canal encantado, né? Eu recebia, eu recebia. Hoje, se eu tivesse conhecimento hoje, eu não recebia, porque de repente eu estava recebendo uma coisa, dizendo que era coisa boa e não era ruim, depois não deu conhecimento, porque a função do santo não é descer ninguém. A função do santo, quando ele era homem igual a gente, é fazer o bem.

fazer o bem. Se eu tivesse uma noção que eu tinha hoje, eu jamais ia dar essa brecha. O inimigo poderia estar descendo de mim e eu dizia que era o santo. No caso, eu tinha o São Roque desse em mim, Santa Barba desse em mim, é... Como é que diz? Outra música. Eu sei, várias entidades desse em mim.

tava no caruco, começa a ressambar, daqui a pouco, corre, daqui a pouco, outro já ia, já descia, entendeu? Mas ele falava, ele falava, dizia que era, São Corno, dizia que era não sei o que, não sei o que, não sei o que. Mas conversava com as pessoas, conversava, sambava, né? É, sambava. Então, quer dizer, as coisas vinham de ruim, dizendo que era bom. Tem pessoas que realmente tem coisas boas, a gente não pode descartar de forma nenhuma. Mas sabe o que é isso?

Não é o santo, porque os santos não fazem nada. Eles são antecessores. O Espírito Santo que nos ilumina. Que na verdade, esse povo era escravo. Estar recebendo as entidades, é escravo. Você sabe que antigamente o pessoal morria. Ah, porque foi coisa que fizeram. Ah, porque não deu caruru. Ah, porque não fez a vontade. Então hoje a gente entende. Deus quer o bem pra gente. Deus quer o bom pra gente. Então nesse enquanto Deus era o quê?

Nessa conversa, me chamou a atenção o uso da palavra cavalo, que era um termo usado para se referir à pessoa que recebia o espírito. Nas minhas andanças, eu sempre ouvia esse termo, mas nunca soube de fato por que as pessoas a usavam neste contexto.

Fui pesquisar melhor e descobri que possivelmente não era cavalo a palavra certa, e sim cávalo. K-A-V-A-L-U Esse termo foi encontrado no dicionário quimbundo, com tradição para o português que significa companheiro, camarada.

A língua quimbundo é uma língua banto, dos povos que habitam a África Central, nas regiões que hoje compreendem Angola, Congo, Gabão e Cabinda. Acredita que devido à semelhança com a palavra cavalo, em português, a palavra acabou sendo confundida e disseminada em diversos lugares.

Meu avô Pedro dava caruru por volta de setembro e outubro, sem ter dado especial. E sua filha Tonha dançava de Cosmo Damião, nos moldes tradicionais, claro. Primeiro a reza cantada, depois o samba e durante o samba servia o caruru. Essa reunião eles chamavam de novena. Nessas minhas entrevistas, algo me chamou a atenção. O esquecimento de alguns.

Muitos não sabiam por que faziam e nem o que faziam. Talvez por repetição dos mais velhos, como era o caso de Marisete, moradora da região do Alves, que por muito tempo realizava não só caruru, como também fazia mounuzá e festa dos pés.

Rapaz, eu nem sei explicar. Eu sei que eu comecei a dar, deu um ano, aí não sei se eu fui promessa das meninas, eu nem me lembro como foi, aí eu fiquei dando. Aí quando eu fui chegando à idade, eu fui ficando entristecendo, muita perda, muita coisa, aí eu desisti. Fazia o rei também, eu fazia assim, sei lá, aí eu comecei a fazer por acaso. Mas tinha alguém dessa família que fazia? Não. Fazia assim, da família dele, mas do meu lado não.

A minha mãe nunca fez, minhas irmãs nunca teve esse negócio. O Mungunzá era em agosto e o Caruru em outubro. O Caruru era para São Crispi e o Mungunzá para São Roque. Ela dizia que algo manifestava no seu corpo. Sambava, conversava com as pessoas, mas que ela não sabia explicar o que era. Deduzia que possivelmente eram os donos da festa.

Talvez São Roque, Omolu, São Crispim. Ela não lembrava de nada que acontecia durante a festa. E também não gostava daquelas manifestações. E ficava muito nervosa porque as pessoas não contavam o que havia acontecido. E assim, ela passou 5 ou 6 anos fazendo caruru.

gravado, entendendo que não tinha com que gravar. Tem retrato, mas aquele retrato aí não vai na paga. Mas se tivesse com que gravar, esse menino tirou muita foto lá. Qual menino? Teu pai. Na época, entendeu? Sim. Na época do evento. Ele tirou muita foto, mas aquelas fotos vão acabando, né? Aham, vai diversando o tempo. Ela vai de manchão, de manchão. A gente tinha várias fotos.

Mas você acha que tem algumas que dá pra ver ainda? Não, acho que não tem mais nenhuma. Tem muitas que ela se abusou, se queimou, não sei como. Aí já tava tudo manchada. E com o tempo fica manchada mesmo. É, aí vai manchando, aí vai acabando. Marisette é casada com o Jaime, a voz masculina que aparece nesse podcast. Os dois são primos carnais. Casamento entre parentes não era algo estranho para a época.

Minha mãe teve uma barriga de babado, que é gêmeo, que depois saiu e se chama gêmeo. Então ela fazia a devoção. Aí a gente começamos... O pai só tinha fé só em Deus, não fracentava nada. Depois, se dá o Caio doente, primeiro Guilhomara, depois se dá o Caio doente, aí a gente começou com essa devoção do Caio, né? Começava fazendo... Mas fazer pra quê? É... Não, só pra agradar o...

O Zereis, né? Ah, o Zereis. O Zereis, né? Que é. Também assim. Tinha devoção, aí dava o caruru, fazia reza, tinha um samba, e tinha um samba seguro. O Zereis começou pegando, aí apareceu mais, aí a gente continuou com a devoção. Mas depois que a mãe dela morreu, aí ela entrou em depressão. O caruru, estava fazendo lá na casa de mãe, aí soube da notícia. Na notícia ela caiu, desmaiou, aí depois desse dia pra cá ela perdeu a saúde. E até hoje ainda não.

Não teve mais a saúde. Ainda não está fazendo isso. Não tem mais, porque aí vai ficar caindo para a idade. Mas ela se sentia muito bem. Eu também me sentia até bem de fazer a devoção. Vocês faziam quando, geralmente? Vocês faziam quando? Qual período? No meio de outubro. No meio de outubro.

É que é o meio de São Crispim, né? O herege é São Crispim. E o tubo. Em setembro tem o São Cosme. E o tubo é 25. São Crispim, né? São Crispim. Todos eles têm o meio. Quer dizer que cada um deles tem o meio. Agosto tem o meio de São Roque. Entre a devoção de católico. Isso é verdade. Então existe tudo na terra. Existe. E o mungusá que ela fazia também.

São Roque, Mucunzá, né? É, São Roque, Mucunzá. É no mês de agosto. De 6 de agosto. É, de 6 de agosto é o dia dele. O mês de agosto é dele, começa a derrubar do princípio. Mas o Mucunzá também era com samba? É com samba também. Tudo era com samba. Sempre quem faz devoção é com samba. É, samba. Essa devoção de Ere, tudo é samba. Agora tem várias religiões. Tem a religião branca, tem a religião...

candomblé e aí vai né e tudo existe na terra é verdade a juventude a não ser através de estúdio vai perdendo a tradição eu já havia escutado algumas histórias em paralelo que dizia que sempre que ela dava caruru alguma coisa estranha acontecia na última vez que ela tentou fazer a festa a sua mãe morreu

Alguns dizem que ela estava preparando o Karuru e alguém avisou que sua mãe estava doente. E ela apenas disse que iria depois. Porque no fundo, ela não acreditava que algo que começou com uma simples gripe levaria sua mãe. Essa foi sua maior perda. E pelo peso das suas palavras, é nítido ver o quanto isso ainda dói. Suas rodas de samba, Karuru e Munguzá se findaram a partir deste evento.

Vem ver dois meninos brincar. Vem ver dois meninos brincar. Esse podcast foi realizado com o apoio do Your Family Foundation. Na ilustração, Suzane Lopes. No roteiro e narração, Renata Canto. Agradecimento especial a todos.

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