3.1. Marias_ Bendito seja o teu nome
Qual é o seu limite? O de Maria foi uma tarefa de terra.
- Origem do nome CeilândiaOrigem hebraica (Miriam) · Origem sânscrita (Mariar) · Origem egípcia (Mir) · Outras teorias de significado
- Histórias de vida e superaçãoFuga de casa e busca por autonomia · Experiências de trabalho e exploração · Busca por educação e melhores oportunidades · Trajetórias de retirantes e mães solo
Mizu tava no ponto. Aí me perguntou, tu vai pra onde? Ele falou, pra Santa Mara. Aí eu peguei o calçol dele e ele ficou. Depois ele me falou, tu vai pra onde? Eu disse, eu vou pra Santa Mara. Foi isso que ele me falou. Ele ficou e seguiu. Ficou, segui. Os pessoal disse que Mizu sabia o que eu sabia. Não sabia. Foi uma coisa assim, que ela saiu, a mãe ficou aí e ela nunca mais apareceu. E a velhinha sofreu por isso. Já, eu saí do inferno e fiquei no céu. Tu é doido. O Pedro é muito malvado já.
Não sei se eu ia perder não, meu amigo. Deus perdoa o pecado dele. Eu sofri muito, muito medo. Você metuinha, foi embora, não ficou. Tocou que fugiu, foi embora, não ficou. Com 16, 17, ele chegou, família, não ficou. Ia ficar assim na burrua de carregado sozinha pra tudo. Cai fora. Alguma vez você já parou para pensar no significado que o seu nome carrega? E se, de fato, sente-se representado ou representada por ele?
O nome da mulher deste episódio é um dos mais populares do Brasil, Maria. Sua origem é um pouco incerta. Há quem diga que vem do hebraico Miriam, que significa senhora soberana ou vidente. Outros afirmam que deriva do sânscrito Mariar, cujo sentido é pureza, virtude, virgindade. Há também quem atribua o nome à raiz egípcia, Mir, que quer dizer amar.
Outras teorias sugerem significados como mar de amargura, a forte ou a que se eleva.
Na palavra de Deus está escrito assim, se teu pai e tua mãe não tome a conta de você, eu tomo conta. Seus Fibrão, eu saí daqui, né? Fui para a Doviária. A Doviária não saiu nem leite, peguei um ônibus. Onde foi que fiz o rato? Na Guerra do Bonfim. Aí eu subi na Guerra do Bonfim e vi uma criatura com a criança no braço.
Aí perguntou, tu não é pra como trabalhar? Eu disse, tô. Tu quer trabalhar mais eu? Eu disse, vou. Tu tá pra fazer o que, eu não entendo nada. O que é que é que é? Ué, mora pra cá, daí eu sei. Aí levou. Levou. Até hoje, vai hoje. Até hoje, minha família, minha negra, até hoje, essa criatura é minha amiga.
Depois que eu descobri esse fato sobre minha mãe, algumas coisas começaram a fazer sentido. Lembro que sempre em época de eleição ela ia para o Bonfim votar. Tinha muito tempo que não morava mais lá e insistíamos para que ela transferisse o título. Ela ia na praça, na praia, vagava pelas ruas, contava histórias das pessoas ricas que faleram, passava na casa das amigas e, claro, ia na igreja do Bonfim.
Agora eu entendo todo esse ritual. Ela sempre fez questão de dizer que lá vivia uma das melhores fases da sua vida. Muita festa, muita baiana, muitas pessoas de flor diferentes. Muitas baianas? Muitas pessoas de agarajé, muitas pessoas de flor, o Bonfim era muito famoso.
E essa voz de Bufim era uma voz muito bonita, tinha tril, tinha cavalo, tinha jeque, tinha carroceria. E era muito bom. Eu saia com as meninas, retia pra praia e de tarde eu tinha uma banha pro Bufim.
Ela tinha sorveteria, uma sorvete, tinha um rapaz da pipoca, tinha um short, short, short, que a voz é dança, tinha uma boa, tinha cantar pra ganhar um saco de pipoca. Tinha cantar se ruim, não ganhava nada.
O que é que é estar melhorzinho? É uma saca de pipoca! Aí, não é porque a gente tem que saber se não tinha assim, não tinha sabendo se é violência como tem hoje. Aí se brincava, se divertia, comia pipoca, comia carajé de cabaíra, se divertindo. E que mais sabe, a igreja vira muito bonito, entendeu?
Tá, mas seu nome é Maria Bezerra, por que que o povo te chama de Elizete aqui? É porque, entendeu, quando eu tinha 14 anos, eu fugi de cara, entendeu? Meus pais me batiam muito, apanhavam muito. Aí eu fugi de casa, aí quando vim pra aqui é porque meu nome deu pra eles não me encontrar. Eu fugi de cara, eu só tinha duas roupas, entendeu? Eu só tinha duas roupas.
Ela passou cinco anos trabalhando com essa mulher. Depois a patroa foi para São Paulo e me apressou a procurar outra casa para morar. No meio disso, ela acabou voltando para a cachoeira, pois havia descoberto, através de uma conhecida que encontrou por acaso na rua de Salvador, que seu irmão e sua mãe haviam morrido.
Ela passou um curto período por lá e descobriu também que sua irmã Tonha estava morando em Salvador e eram quase vizinhas. Assim, sua conexão com Cachoeira começou a se restabelecer. E foi em Cachoeira que ela conheceu o genitor de suas filhas. O relacionamento, no entanto, não durou muito. Ela viveu um período difícil de escassez e pobreza.
E para quem já havia fugido de casa uma vez, sair pela segunda não era problema. E assim ela fez. Fugiu com uma criança de aproximadamente 4 anos e outra de 2, até se estabelecer finalmente em Salvador. Algumas pessoas me contaram que durante o namoro dos dois, ele não demonstrava nenhum interesse.
Era ela quem sempre saia de Salvador para ir ao encontro dele. Tamanha era a dedicação que muitas vezes mal se alimentava direito. Ia sempre às pressas para vê-lo.
O namoro foi evoluindo e ela teve sua primeira filha em Salvador. Claro que ele não se deslocou até lá para vê-la, nem para conhecer a filha recém-nascida. Sua irmã Rita tentou entrar em contato com ela em Salvador e descobriu, por meio da patroa, que Maria não estava muito bem. Ela havia desenvolvido um problema no seio, só conseguia amamentar de um lado, enquanto o outro estava com abscesso. Rita conversou com ele e disse que iria a Salvador para vê-la.
Ele deu um dinheiro para que ela conseguisse visitar a irmã e só. Um fato comum naquela época era de crianças morarem com outras famílias na cidade em busca de uma vida melhor, ter mais acesso à educação, saúde, conseguir um emprego digno. Mas na maioria das vezes, as crianças eram apenas exploradas.
Eu vou morar em cachoeira, mas ninguém me obrigou, Renata. Uma vez uma criatura chegou aqui e disse, Ô dona Renan, se ela deixa Rita mora aqui, ela vai dar pra estudar, que não sei o que ela mais, ela disse, tu quer ir, Rita? Que vai dar pra estudar? Eu queria estudar, eu queria uma escola melhor pra mim. Aí disse, eu vou, mãe, eu vou. Me empolguei pra ir, porque dando pergunta, ela é super conhecida aqui, né? Quando cheguei lá, queria que você carregaram no chafariz.
O chafari era como estar aqui na casa de Dinha, para encher a casa, que não tinha me encarar dentro de casa. Aí eu queria... Eu queria... Eu queria buscar um balde. Eu tinha buscado no chafari para eu estar dentro de casa. Me botou numa escola... Eu acho que a pior escola que tinha em São Flério, porque a escola ficava... Tipo, andando na rural. É uma escola distante. Para lá, eu acho que para São Flério. Uma escola... Uma escola longe, longe.
Para lá, casa de gol. Você não sabe para lá, casa de gol. Para lá, casa de gol. Bem para lá, casa de gol.
A escola era toda doida, lembro que até as cabras entravam. Pra cagar dentro. É. Aí, eu disse, sabe mais? Por que eu não vou ficar aqui? Por que eu não vou ficar aqui? E que uns tempos lá, depois, quando foi um dia, teve o pai ali passar um Natal, um soltrário, um aqui. Depois, mãe, eu não quero ir mais não. Aí, burrida chegou lá toda empolgada. Ai, Deus, mas vem pros carrinhos, tá? Que eu acho que vai pra levar.
Ela falou assim, você ia chorar, mas não quer ir não, não quer ir não. Aí, o Matico falou com ele, ela fez, eu não quero ir mais não, tá chorando mesmo. Ele disse, então não vá, não me obrigou. Ela não quer, não vá, não me obrigou não. Aí eu peguei, não foi mais. Depois, apareceu o Tiola aqui, que o Ojeval estava aí, o juiz de pai, que não sei o quê, e queria passar para estudar, e que não sei o quê, mas nunca sei o quê, mas nunca sei o quê, mas nunca sei o quê...
Aí eu fui, lá era realmente, foi melhor mesmo, não tinha água no chafariz, não tinha nada disso não. E o que mais retorna era aquela água no chafariz, que coxinha ficar aqui carregando, ela ia pegar um bala, só era eu, pegar os vasinhos, os vasinhos pra encher a casa, tomar que rebolinha, larguei lá, me peguei e me ia embora. Aí quando, agora, as minhas tratavam bem, inclusive a sogra, a minha já estava muito bem, já gostava de minhas, da biquinha.
onde ela me levava. Uma vez, nessa escola, teve uma manifestação, ela me apresentou, ela me apresentou, ela me apresentou, ela me sentiu toda de Índia, aí fez um negócio, até hoje eu me lembro da música, a gente ia dançar, ae lourinho, ae lourinho, a focha é maré em churro, e a gente joga, e tudo jogando, assim, quase de escola, sabe?
comigo, um dia me levava, porque ela era uma senhora idosa, e andava só, aí ela bem acostada de mim, deus perdendo pra casa dela. E eu dormia mais ela, eu e ela, na cama. Na cama ela ia casar, dormia, eu e ela. Eu falei, eu falei, eu estou aqui pra carregar, eu sempre fui assim, sabida. Desde que eu me criava, eu me colhava pra cabeça. E aí, minha Nibela não era assim, Nibela.
não precisava carregá-la, era bem melhor. E a escola também que não possuía, era bem melhor. A escola ficava perto de andar ali mesmo, a escola ficava ali... da casa de bela pra minha escola, que não acalibia. Pertinho, do centro espírita ali, se não fosse mais perto, viu? Andava assim um pouquinho antes que nós chegávamos à escola. Pertinho mesmo, no centro da cidade mesmo.
Eu me perguntava lá, eu me ajudava bem, eu conhecia assim outro tipo de vida melhor, vi como mudar de situação, que eu ia ficar estudando, eu podia conseguir um emprego melhor, não ia ficar naquela vida, e fui conquistando meu espaço, justamente para isso, para não passar o que minha mãe passou e que vocês também, e vocês também, na roça, no cinema, na roça, trabalhando também, eu não queria ter muito preço para mim também, ficando na roça, naquela vida que vocês tinham de trabalho, de coisa, eu não quero saber nada para mim não. Então, fui correr para estudar por isso, para isso, para ter uma vida melhor.
Mas dizer que eu fico com o dedo da mulher, não com o dedo, porque a maioria das mulheres antigamente, que largou o nome aí, ficou feia. Gato e cachorro, pega no gato e cachorro.
Eu relutei muito em assumir essa história como minha. Mas a verdade é que, como diz Belchior, a minha história é talvez igual a tua. Talvez se pareça com a de 800 mil brasileiros que crescem sem o registro do pai. Ou com a mais de 11 milhões de mulheres que criam seus filhos sozinhas. Ou ainda com a de milhares, talvez milhões de brasileiros que deixam sua cidade em busca de melhores oportunidades.
A saga da minha família é a típica trajetória de todo retirante. A aversão à pobreza, à violência, ao trabalho duro e também à ausência de afeto nos leva a peregrinar por ciclos sem fim. O que herdamos dessa mulher foi a coragem e a loucura. Nada e nem ninguém nos segura quando decidimos ir embora.
Esse podcast foi realizado com o apoio do Your Family Foundation Na ilustração, Suzane Lopes No roteiro e narração, Renata Canto Agradecimento especial a todo povoado do Alves