Episódios de Disk Entende

Cinema Sozinho

29 de setembro de 202638min
0:00 / 38:11

Ir ao cinema sozinho é triste ou libertador? Inspirados pelo episódio “Cinema Sozinha”, da série Adorável Psicose, conversamos sobre o medo de parecer solitário, tudo o que deixamos de viver esperando companhia e a liberdade de aprender a gostar da própria presença.

Nesse episódio tenho a honra de receber a Bruna Vasconcellos (@bruvaasconcellos) e a Giulia Miquelutti (@giumiquelutti).

Participantes neste episódio2
B

Bruna Vasconcellos

Convidado
G

Giulia Miquelutti

Convidado
Assuntos6
  • O medo de fazer coisas sozinho e o julgamento socialpavor da própria companhia·medo do que as pessoas vão achar·convenção social de atividades em grupo·sentir-se vulnerável
  • A diferença entre solitude e solidão e o preenchimento do vazio internosolitude como máscara da solidão·sentir-se sozinho mesmo cercado de pessoas·a busca por identificação·o buraco interno que precisa ser preenchido
  • A dificuldade de fazer coisas sozinho e o arrependimento de adiar experiênciasdeixar de ir a show por falta de companhia·amadurecer para fazer coisas sozinho·adiar viagens por falta de companhia·esperar o momento perfeito
  • A liberdade e o prazer de fazer atividades sozinhofazer yoga sozinha no Sesc·ir à academia sozinho·descobrir novos gostos·não ter que se preocupar com o outro
  • Aprender a gostar da própria companhia e o impacto nas relaçõesnão aceitar migalhas·valorizar a si mesmo·selecionar melhor as amizades·ter seu próprio tempo
  • Dicas para começar a se arriscar a fazer coisas sozinhonão pensar, apenas fazer·agir na impulsividade·treinar com pequenas coisas·sentir orgulho de ter tentado
Transcrição65 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Olá, sejam bem-vindos a mais um Disque Entende, e hoje a gente vai falar um pouquinho sobre cinema sozinho. Tem uma série brasileira que eu gosto muito e acho que merece ser mais lembrada: Adorável Psicose. A série nasceu de um blog criado pela Natália Klein e depois virou uma comédia do Multishow escrita e protagonizada por ela. A graça estava em transformar situações absolutamente comuns em grandes crises existenciais, sempre a partir das neuroses da personagem.

É muito boa e fica aqui a minha recomendação. O episódio que inspirou a conversa é Cinema Sozinho, o segundo episódio da primeira temporada. Nele, a personagem vai ao cinema desacompanhada e vive aquilo que, quase como uma humilhação pública, sente que todo mundo está olhando, julgando e tentando entender por que ela não tem alguém do lado. E por mais exagerada que seja a situação, existe alguma coisa muito reconhecível ali. Durante muito tempo, fazer certas coisas sozinho parecia triste para mim também.

Ir ao cinema, viajar, comer em um restaurante, ir em uma festa, como se algumas experiências só fizessem sentido quando existisse alguém para compartilhá-las. Hoje, eu penso quase o contrário. Aprender a fazer as coisas sozinho pode ser uma forma de liberdade. Não precisa colocar a própria vida em espera até encontrar alguém disposto a acompanhar. Então, hoje a conversa é sobre a diferença entre estar sozinho e se sentir sozinho, o medo de parecer solitário e tudo aquilo que podemos descobrir quando paramos de tratar a nossa própria companhia como uma segunda opção.

Hoje eu tenho a honra de receber a Bruna, que já esteve aqui em um episódio maravilhoso sobre Aprenda a Surfar, né?

GMGiulia Miquelutti

Oi, Caio.

BVBruna Vasconcellos

Obrigada por me chamar aqui de novo. Um prazer estar aqui sempre com você.

?Voz A

E a Júlia, que é nova aqui. Muito obrigado, Júlia, por poder atender o meu convite.

GMGiulia Miquelutti

Olá, Caio. Muito obrigada pelo convite. Queria muito participar, ter essa oportunidade.

?Voz A

Gente, por que é tão estranho fazer as coisas sozinho?

BVBruna Vasconcellos

Eu acho que a gente tem um pouco de pavor da nossa própria companhia. Assim, às vezes o interno tá tão bagunçado que quando a gente tem uma pessoa do lado pra poder ocupar essa coisa, né, a gente silencia tudo, foca em outra coisa, né. Então às vezes quando a gente não tá muito bem, quando a gente não se conhece, qualquer coisa assim, a nossa própria companhia é assustadora, né. Esse silêncio, esse vazio que a gente quer ficar suprindo com outras coisas, outras pessoas.

A gente se subestima muito também, né. A gente— falta um amor próprio, a gente subestima a nossa própria companhia. Como que a gente também é legal, é... É suficiente. Então eu acho que fazer as coisas sozinhos bota tudo isso à prova, né?

GMGiulia Miquelutti

Mas eu também acho que um dos principais motivos da gente evitar de fazer coisas sozinhos é o medo do que as pessoas vão achar. Ver, por exemplo, pensar: Ai, nossa, se as pessoas me verem sozinha no restaurante. Ou: Ai, nossa, se as pessoas me verem sozinha, sei lá, fazendo compras no shopping. O que eles vão pensar? Vão achar que eu sou solitária, que eu não tenho amigos? Eu falo por experiência própria, assim. Eu penso muito no que as pessoas vão falar de mim.

E eu acho que, na verdade, esse é o principal motivo de eu evitar fazer as coisas sozinha. Não é nem, ai, não quero a minha própria companhia. Mas, meu Deus, vou passar vergonha aí sozinha no cinema. Tá todo mundo com uma galera ou com namorado e eu vou estar sozinha, vão dar risada de mim.

?Voz A

E por que parece que algumas atividades são completamente normais de fazer sozinho e outras parecem que precisam da companhia? Eu vejo isso muito, por exemplo, no supermercado. No supermercado eu vou sozinho. Só que, ai, sei lá, numa festa, aí eu ficaria inseguro. Eu não posso falar por mim, porque eu faço essas coisas sozinha. Mas assim, tem gente que, por exemplo, não se sente bem. Então assim, o que que diferencia essas atividades?

BVBruna Vasconcellos

Bom, eu acho que no cinema, que seria a primeira pauta assim, ou em coisas que são feitas em conjunto normalmente, a gente convencionou, simplesmente convencionou. Por que que a gente pode ver um filme em casa sozinho e não poder ir no cinema sozinho, né? Eu acho que foi mais uma convenção social do que qualquer outra coisa. Agora, eu acho que, por exemplo, uma balada, a gente sozinho, eu acho que quase que exige uma interação na balada.

Mas também eu tô contradizendo o que eu acabei de falar, né? Por que que eu não posso curtir uma música sozinho? Então eu acho que é uma convenção social. E aí, eu acho também que pode ser uma proteção, que a gente se sente bem em bando, né? A gente somos animais sociáveis, sociais, vivemos em sociedade, tudo. Então eu acho que a gente também se sente mais protegido quando estamos dentro de um bando, dentro de um grupo, em qualquer situação que seja, seja socialmente, seja numa atividade específica, ainda mais quando envolve outras pessoas.

Por exemplo, ir no cinema, eu não vou estar sozinha no cinema, vão ter outras pessoas no cinema. Agora, correr num parque é normal, você tá sozinho correndo no parque porque você tá fazendo uma atividade que você nem pode falar, você não pode interagir. Então eu acho que essa situação que já convencionou fazer em bando, né, em grupo, eu acho que a gente se sente um pouco pelado assim, vulnerável. Nessa situação. E aí, a gente quer se sentir protegido dentro desse grupo.

?Voz A

Você falou da balada sozinho. Eu já fui numa balada sozinho uma vez. Porque a Lorelay Fox, ela falava sobre ela gostar muito da própria companhia pra ir numa balada. Aí eu falei assim, gente, eu tenho que testar isso uma vez. E eu fiz isso duas vezes. Então assim, foi realmente uma experiência boa, sabe? Ter essa chance de me permitir eu mesmo fazer uma coisa sozinho.

GMGiulia Miquelutti

Eu acho que faz sentido isso que a Bruna falou do ser humano Ser um ser sociável e gostar de andar em bando tem a ver também com o tempo que a gente vai ficar fora. Por exemplo, a gente vai na academia, é uma coisa rápida, é uma coisa que tudo bem você ficar aquele curto período de tempo sozinho. Agora, se você vai numa festa que você fica várias horas, eu acho que você sente necessidade de interagir.

?Voz A

Mas o desconforto está realmente em estar sozinho ou imaginar o que as outras pessoas estão pensando? Acho que essa vai pra Júlia, né? Porque a Júlia comentou isso no começo. Como ela se sente vulnerável sobre a perspectiva das outras pessoas.

GMGiulia Miquelutti

Eu realmente acho que esse é um grande motivo da gente evitar de fazer muita, muita coisa em relação a tudo. Não só sobre ir a algum lugar sozinha, mas às vezes postar uma foto. Ai, nossa, o que as pessoas vão achar? O que as pessoas estão pensando de mim? Sabe? E a gente deixa de fazer muita coisa pensando no que as pessoas vão pensar da gente. Só que se você parar pra pensar mesmo, assim... Senta e olha no espelho e para pra pensar no que você tá pensando.

Tipo assim, ninguém... Tá nem aí pra você. Se você vê uma pessoa, se você tá num bar com as suas amigas, aí você vê uma pessoa sozinha, você vai pensar o quê dessa pessoa? Nada! Porque você tá com as suas amigas! É que nem esses dias mesmo, eu fui num rodízio japonês com os amigos. E aí, tinha um cara comendo rodízio sozinho. E aí, eu olhei pra ele e pensei, ninguém tá nem aí! Sei lá, sabe? Será que ele chegou a chamar alguém pra ir e a pessoa não quis ir, só que ele tava com muita vontade? Então ele falou, ah, eu vou sozinho, sabe? Que legal ir, ninguém tá nem aí.

BVBruna Vasconcellos

É aquela famosa frase, né? Recolha-se na sua insignificância perante o mundo. Porque realmente ninguém tá nem aí pra ninguém, tá todo mundo preocupado com o seu próprio umbigo, né? Então às vezes a gente fica tão preocupado com o julgamento tão grande que não vem, esse julgamento não vai vir. Às vezes a pessoa vai olhar e falar assim, nossa, vai pensar, será que já chamou alguém? Será que simplesmente deu vontade e veio sozinho?

E acabou. O pensamento é esse. Aquele medo que a gente tava de, nossa, a pessoa vai achar que eu não tenho ninguém, que eu sou solitário, vai ficar com dó e não sei o quê. Isso não existe, às vezes a pessoa passou, ah, tá. E aí a gente volta pro que realmente interessa, que é o nosso próprio mundinho, né.

?Voz A

Você já deixou de fazer alguma coisa que queria muito porque ninguém ia com você? Eu tava tentando pensar sobre isso e eu acho que eu já deixei de fazer várias coisas, sabe. Por exemplo, eu lembro que a Lorde veio pro Brasil em 2019, acho que foi. E eu não tinha ninguém pra ir no show comigo. E aí eu tinha comprado, só que eu vendi, perdi o show porque não tinha ninguém pra ir comigo, sabe. Eu poderia muito bem ter ido, era só um show, sabe.

Ninguém ia tá lá atrás sabendo se eu tava com alguém ou se eu não tava com alguém.

BVBruna Vasconcellos

Ah, com certeza eu deixei de fazer alguma coisa assim por isso. Mas eu creio que eu tenha deixado um número mesmo, uma quantidade de vezes muito maior quando eu era adolescente, assim. E... na verdade, não. Adolescente, não. Uma boa parte da minha vida. Mas eu acho que hoje isso não me impede tanto. Eu acho que amadurecer, fazer terapia, começar a gostar mais da minha própria companhia e valorizar muito isso, que solidão não é só solidão, que é uma coisa...

Boa também você ter o seu tempo sozinho, fazer as coisas que você gosta sem precisar necessariamente ter alguém do lado. Socializar com alguém, fazer isso, eu acho que é muito bom. Então hoje eu acho que eu deixaria menos de fazer as coisas que eu quero, como eu tento deixar por estar sozinha, mas já fiz inúmeras vezes. Eu lembro de viagem que eu já deixei de fazer porque não ia ter ninguém, ou de assistir um filme no cinema. Eu amo cinema, amo cinema, e eu gosto muito de filme de animação, que a galera da minha idade muitas vezes não gosta tanto.

E aí, quantas vezes eu já não deixei de ver um filme, principalmente aqui em Araraquara, né? Porque eu não tinha companhia. E aí eu falei, ai, preguiça, ai, não vale a pena. Como não vale a pena? Isso eu sei que eu já pensei, ah, não vale a pena ir sozinha assistir isso daí. Mas hoje eu acho que eu tentaria me esforçar mais, assim, por que não? Por que não ir, né? Então a idade, amadurecer também teve esse ponto bom.

GMGiulia Miquelutti

Não, com certeza. Por exemplo, eu já deixei de fazer várias coisas que eu queria fazer ao longo da minha vida, principalmente mais mais nova, porque eu não tinha companhia. Esses dias mesmo teve show do Harry Styles aqui no Brasil e meu namorado não iria comigo porque ele ia trabalhar, enfim. E aí eu não tinha ninguém pra ir comigo. E aí eu falei pra ele, falei, nossa, eu queria muito ir, não sei o que lá. E aí ele falou, vai, você pode ir, eu te levo e você vai, eu te busco.

E aí eu fiquei, gente, mas e aí eu vou ficar sozinha lá, sabe? E aí ele, e daí? Aí eu, mas eu não quero ficar sozinha. Então eu acho que tem muito a ver com maturidade também, porque hoje em dia eu faço muitas coisas que eu sei que eu não faria mais nova.

BVBruna Vasconcellos

Eu acho que a primeira grande coisa que eu fiz sozinha e que eu achei que foi muito corajoso foi fazer aula de forró. Eu fazia muito tempo que eu queria achar uma aula de forró, alguma coisa assim, uma aula de dança mais regional, assim. Eu queria forró, na verdade. E aí eu vi que ia ter a aula, ia ser super acessível, bem legal e tal. E eu chamei todo mundo pra ir. Falei, gente, vamos! E ninguém se interessou, sabe? Porque é realmente uma coisa diferente e tal.

E aí ninguém quis ir por vários motivos e eu fiquei assim... É isso, né, galera? Não vou, né? Não vou. E eu falei, não, vou sim, vou sim, vou uma vez lá. Cheguei lá morrendo de vergonha, queria me enfiar num buraco, que tava sozinha, porque tinha algumas pessoas já com seus pares e tal. E eu cheguei lá, não conhecia ninguém, já tinha tido acho que umas 2 aulas antes, então uma galera já se conhecia. Foi super legal, foi muito, muito legal.

Tanto que eu, até eu me mudar daqui, eu fui religiosamente toda semana E foi, eu acho que foi uma das melhores coisas que eu já fiz por mim mesma, porque foi um hobby que eu achei muito legal. Infelizmente eu não consegui achar ainda na cidade que eu tô, mas foi um hobby muito legal e foi muito legal fazer sozinha, tentar uma coisa nova sozinha, conhecer as pessoas de lá também, poder me abrir para conhecer essas pessoas novas, porque talvez se eu tivesse com alguém eu não interagiria tanto com essas outras pessoas, o que foi muito legal também.

E eu acho que esse start me deixou muito tranquila em fazer outras coisas sozinha. Hoje eu faço muito mais coisas sozinha, né? Mas essa foi, eu sei que foi uma coisa grande que me marcou muito, porque aí, sei lá, ir num bar tomar uma cerveja sozinha e ir embora eu já fiz, mas fazer uma coisa em grupo mesmo, que eu ia estar dentro de um grupo, isso foi muito diferente. Foi quase uma superação, foi muito corajoso até. Então mesmo sendo madura, isso aconteceu ano passado, mesmo tendo essa maturidade de saber que a minha própria companhia é legal, que fazer as coisas sozinhas é interessante, foi difícil tomar essa decisão, foi muito difícil. Então foi muito corajosas, foi muito legal.

?Voz A

Vamos falar então um pouquinho sobre isso. Vocês hoje em dia, com a idade que vocês têm, com o amadurecimento já que alcançaram, vocês hoje se arriscam a tentar coisas sozinhas? A Bruna citou o forró, por exemplo, mas vocês tentam fazer outras coisas, outras atividades sozinhas?

GMGiulia Miquelutti

Recentemente eu comecei a fazer yoga no Sesc, e o problema de lá é que não é simplesmente você se inscreve e começa a aula. A turma é fechada, você só consegue entrar depois que abre vaga, e abre, por exemplo, uma vaga. Então eu tava ciente que provavelmente, pra eu começar a fazer um esporte lá, seria sozinha. Porque seria muita sorte eu conseguir, por exemplo, duas inscrições pra mim e pra mais uma pessoa. Então eu já tava assim, ah, eu vou ter que ir sozinha.

Só que antes eu pensava em não ir, porque eu teria que ir sozinha. Mas hoje em dia eu superei isso. E eu comecei a fazer yoga, e eu vou sozinha. E tá sendo ótimo sair do trabalho sozinha, chegar lá, fazer minha aula sozinha. E meditar, e relaxar, e me esticar. E depois ir pra casa. Então tá sendo ótimo.

?Voz A

Sabe uma coisa que eu acho bizarro quando a gente começa a trabalhar? Porque, tipo assim, na faculdade a gente faz o nosso amiguinho. Então a gente ia lá atender com os nossos amiguinhos, ia pra casa e no outro dia tinha nossos amiguinhos lá. Só que o trabalho não tem seus amigos lá, não tem seus colegas.

BVBruna Vasconcellos

É muito real, não tem seus amigos, você tá de cara num lugar novo. E ali sim as pessoas vão te julgar, porque elas precisam te julgar se você tá apto ou não a ficar ali, né? Então eu acho que é uma situação muito esquisita. E eu trabalhei muito tempo aqui em várias clínicas, né? Então eu trabalhava em 3 lugares diferentes. E aí às vezes pra começar nesses 3 lugares era sempre um frio na barriga, um negócio estranho, até fazer amizade e criar uma relação, não de intimidade no sentido de relação interpessoal, mas até de intimidade com o local que você tá trabalhando, saber onde estão as coisas, sabe?

Esse começo é muito difícil, muito, muito difícil. Mas você se acostuma assim, né? Na primeira, na segunda, na terceira clínica que eu fui trabalhar foi mais difícil, era coisa de ansiedade mesmo, de ficar, meu Deus, e agora? Aí depois você acaba se acostumando com essas situações novas, você leva mais na boa do que as primeiras vezes, depois você já acostuma um pouco mais. Então por isso que a gente, é um treino também, né, fazer as coisas sozinho e tentar as coisas novas e ser ruim em alguma coisa que você tá fazendo a primeira vez, isso também é treino, então tem que fazer pra ficar bom e tranquilo e conseguir curtir desde o começo, né, desde o primeiro segundo.

GMGiulia Miquelutti

O local de trabalho é um exemplo muito bom porque lá tem pessoas de diferentes idades, de diferentes tudo, né, completamente diferentes. Na faculdade, quando você tem seu grupo, é todo mundo parecido, tanto que você seleciona esse grupo porque vocês têm alguma coisa em comum. E no trabalho são pessoas completamente diferentes tendo que conviver, então dá esse frio na barriga mesmo.

?Voz A

E o que que muda quando podemos escolher um programa pensando exclusivamente no que queremos fazer?

GMGiulia Miquelutti

É mais gostoso de fazer. Você faz por você, com aquela vontade, com aquele brilho nos olhos. Ai, eu comecei a fazer yoga. Nossa, que gostoso, eu sempre quis fazer yoga. Você realmente quis aquilo e é isso.

BVBruna Vasconcellos

É, eu concordo totalmente com a Ju. Porque quando a gente faz um negócio que a gente quer, que nem, por exemplo, do forró. Eu queria muito, muito, muito, muito. E eu fiquei muito triste quando eu vi que eu não ia ter ninguém e que talvez eu não iria por isso. E aí quando eu fui, realmente foi aquilo que eu achei que ia ser. Não que 100% das experiências vão ser isso, mas é muito mais gostoso você conseguir concretizar aquele desejo, né?

Quase como a jornada do herói e problemas e resolução dos problemas. Você tem até um sistema de compensação no seu cérebro mesmo que vai falar assim: bom, eu tenho esse problema, eu preciso resolver, eu preciso tomar uma atitude que é difícil. E aí na hora que você consegue, faz, e realmente aquilo ali é legal, nossa, satisfação eu acho que é maior do que se você tivesse ido com para as pessoas que talvez nem iam gostar tanto, porque não queriam tanto.

Então é muito bom você fazer uma coisa por você que você gosta, fica bem mais gostoso.

?Voz A

Sabe o que eu sinto? Que às vezes a gente quer muito amadurecer e ser o próprio rei do nariz e tal. E amadurecer faz parte isso, a gente fazer escolhas e arcar com as consequências dessas escolhas. Então assim, ah, você quer fazer alguma coisa? Então lida com isso. É porque senão você não vai estar seguindo seu próprio desejo, seu próprio sonho, sabe? Se eu quero fazer alguma coisa sozinho, eu vou lá e faço. É, não vou deixar de fazer porque não tem uma pessoa me dando esse suporte. Quais atividades que você descobriu que gosta ou até prefere fazer sozinha?

GMGiulia Miquelutti

Yoga, porque não tem interação. Principalmente porque eu trabalho o dia inteiro, aí eu saio do trabalho e vou pra yoga sozinha. Então eu não tenho aquela responsabilidade. Por exemplo, quando você chama alguém pra algum lugar, você fica com aquela preocupação, ai, será que essa pessoa tá gostando e tal? Então você não fica 100% ali. Sempre tem um pedacinho da sua consciência pensando nessa pessoa. E quando eu saio do trabalho, com aquele caos e caos e caos, e chego lá no yoga sozinha, eu não tenho que me preocupar.

Se eu não quiser falar pra alguém, eu posso não falar. Tipo, eu só tenho que chegar, pegar meu tapete, sentar e começar. Sem preocupação nenhuma. E é muito gostoso essa pausa sozinho. Sozinho, sozinho, sozinho.

BVBruna Vasconcellos

Eu gosto muito de relaxar sozinha. Eu acho que quando o meu dia tá muito caótico, eu já percebi bastante isso. Quando o meu dia tá caótico, eu preciso sentar E tirar 5, 10 minutos sem... fazendo nada, assim. Meu cérebro recarregando mesmo. Ou ouvindo uma música, ou fazendo dumb scrolling, né? Ficar no Instagram. Sei lá, qualquer coisa. Mas desde que eu esteja sozinha. Quer ver eu morrer? Eu estar nesse tempinho e alguém querer interagir comigo.

Nossa, meu Deus! Mas eu só percebi isso depois que esse tempo sozinha, eu mesma assim, deu uma reduzida. Então eu vejo como que é valioso eu tirar esse tempinho depois do caos. Igual a Júlia falou mesmo da yoga. Pra estar sozinha e eu me reconectar comigo e falar assim: Não, calma. Agora eu não preciso nem responder ninguém. Não preciso tomar nenhum tipo de decisão, porque eu tô aqui sozinha, eu comigo mesma, na minha cabecinha. E é isso.

?Voz A

Isso que a Julia falou é muito verdade. A coisa que eu mais gosto de fazer é ir na academia sozinho. Eu vou 10 horas da noite, que não tem absolutamente ninguém lá. Então só tem eu e, tipo assim, 2 marombas. Então eu não tenho nem que conversar com eles, eu não converso com o professor, eu não converso com ninguém. Eu vou lá, faço meu treino e vou embora. Não chamo ninguém também pra treinar esse horário. É um horário que eu realmente gosto de ir eu e eu, sabe?

Eu não preciso ficar interagindo com as pessoas, então eu prefiro fazer sozinho do que fazer com outra pessoa. Se me chama, eu vou, é claro, né? Porque às vezes a gente vai fazer coisas diferentes com os amigos. Mas assim, não é o que eu gosto. O que eu gosto é de ir sozinho, ter o meu tempo, ouvir minha musiquinha, ouvir meu podcast e malhar. E do jeito que eu quero, não quero nem ter que ficar falando com o professor. Fazer coisas sozinhos pode ajudar a descobrir gostos que antes estavam muito condicionados pelas pessoas ao nosso redor?

BVBruna Vasconcellos

Mais uma vez o exemplo do forró. Eu achava que eu não gostava de dançar, porque acho que eu sempre senti vergonha do que que as pessoas iriam pensar de eu estar sendo dois pés esquerdos, né? E aí, acho que ir sozinha me ajudou a não ter essa vergonha, porque ninguém me conhecia. Então é isso, eu não tenho que provar nada pra ninguém, porque ninguém me conhece. Se me julgar também, grande coisa. E até mesmo essa questão de não só o que as pessoas iam pensar dentro da atividade, mas também eu evitava fazer porque Todo mundo torceu o nariz quando eu falei, tô fazendo forró.

Todo mundo achou meio esquisito, no geral, assim, forró, por quê? E eu descobri que eu gosto muito, eu gosto muito do ritmo. Mesmo que não seja tão popular no meu grupo de amigos, assim, de ouvir, não era tão popular pra mim também. Eu gostei muito da música, da letra, do ritmo. E eu gostei muito de dançar, de dançar o forró, de aprender a fazer isso. Então é uma coisa que eu não sabia que eu gostava, que eu me interessei por curiosidade. E eu vi que eu gostei muito, muito, muito mesmo.

GMGiulia Miquelutti

Com certeza, a yoga é um exemplo disso. Eu sempre quis fazer porque... Ah, por curiosidade mesmo. Porque, por exemplo, a minha irmã, ela gosta muito de yoga. Tanto que ela era professora de yoga. E eu sempre achei legal, mas eu nunca tinha feito. E eu não fazia ideia do quão bem iria fazer pra mim. E eu só descobri isso depois que comecei a fazer, como era bom me esticar, relaxar e meditar. E não é só porque é legal, é porque realmente é bom, faz a gente se sentir bem.

?Voz A

E quantas experiências a gente adia simplesmente porque está esperando alguém que queira fazer aquilo conosco? Hoje eu me arrependo tanto de não ter ido no show da Lorde aquele ano, sabe? Mas eu entendo que é claro que agora eu tenho mais maturidade para lidar nessa situação do que antes. Só que eu sinto que eu ainda faço isso, sabe? Eu ainda fico esperando outras pessoas para poder irem comigo em determinados lugares, sabe? Coisas bobas às vezes.

Ai, é, por exemplo, eu precisava comprar no centro uma roupa de cama e aí eu fiquei esperando alguém para poder me acompanhar, entende? Não fui eu sozinho no centro, e é só o centro.

BVBruna Vasconcellos

Eu acho que eu faço isso ainda e eu tenho um exemplo recente até. Eu trabalho num horário muito bom, né? Eu saio 4:30 de serviço, então várias vezes eu quero sair tomar um cafezinho. E aí eu gosto muito de descobrir cafeterias novas, só que 4:30, ou dependendo do período da manhã, que o meu horário é mais flexível, eu não tenho uma companhia ali para fazer isso comigo, né? Aí, por exemplo, ai, meu namorado, ele mora em outra cidade, ele tem as atividades dele, tudo.

Então para ir numa cafeteria que eu queria ir, ele teria que se deslocar, seria difícil. Ah, os amigos também estão trabalhando, tal, tal, tal. Então, recentemente, eu tô adiando de ir num lugar que eu quero ir, que eu tô a fim de conhecer, porque eu falo assim, ah, eu queria que essa outra pessoa conhecesse também. Por que que eu não vou? E aí eu vou com a outra pessoa. Aí eu já faço até um teste de qualidade, ó, realmente muito bom, vale a pena, vamos lá.

E se eu não gostar, eu falo, nossa, nem compensa, não vou. Então eu simplesmente podia ir, e eu tô adiando isso, esperando um momento perfeito pra fazer. E esse momento perfeito tem a ver com a companhia, hoje, né, eu tô vendo isso. Mas aí eu não tô fazendo uma coisa que eu quero, daqui a pouco às vezes o lugar vai fechar e eu não fui porque simplesmente eu tava esperando que outra pessoa fosse pra ser um negócio mais divertido.

Mas eu gostando da minha própria companhia, por que que eu ainda não fui? Então eu acho que isso aí é interessante a gente ver.

GMGiulia Miquelutti

Eu já deixei de— até hoje em dia eu faço isso— de muitos lugares pensando, ah, eu quero tanto ir nesse lugar, mas eu queria que alguém fosse comigo, eu não queria ir sozinha. Então eu deixo de ir e não vou, porque acaba que passa, a vida passa, a vida acontece, a gente esquece. E eu não fui, eu queria tanto ir e seria tão bom para mim porque eu queria muito ir, mas eu deixei. Então eu faço muito isso assim.

?Voz A

E vocês acham que esse arriscar com coisas menores é um treinamento para se arriscar com coisas maiores?

BVBruna Vasconcellos

Totalmente. Essa questão do café até é um exemplo que eu acho que foi o que eu comecei a fazer. Ah, eu tava a fim de comer alguma coisa, ninguém queria ir, ah, vou passar lá e comer. Se eu não tivesse alguns treinamentos desses de ir numa loja sozinha, ir no centro sozinha, ir no médico sozinha, sozinha, não teria ido, por exemplo, para o forró, que é o que eu tô falando bastante aqui, que é uma coisa bem maior, que é uma coisa em grupo e tal.

Então eu acho que ter feito pequenas coisas que são muito mais plausíveis, não plausíveis, né, que costumamos ver mais as pessoas fazendo sozinha, foi o que me fez fazer uma coisa maior sozinha também, que eu queria ir e respeitei essa vontade.

GMGiulia Miquelutti

Eu acho que a gente começa com pouco assim, começa indo ali resolver alguma coisa que é rápido, e quando você vai ver, você tem que ir numa loja comprar uma coisa, você entra, pega a coisa e Aí depois de tempo você vai de novo, aí você fica mais um pouco, vai ficando mais à vontade. Quando você vê, você tá indo a vários lugares sozinhos e nem tá pensando sobre isso, você só vai porque você tem que ir. Então começa com pouco e quando você percebe, você tá indo.

?Voz A

O que que você gostaria de fazer hoje, mas ainda está esperando alguém para topar fazer junto com você?

BVBruna Vasconcellos

Eu adio muito viagens assim, e ultimamente o que tá na minha cabeça que eu quero muito fazer, que eu estou adiando há muito tempo, é visitar uma amiga minha que mora uns bons quilômetros de distância, dá umas 5 horas de viagem. Eu sei que é por enfrentar essa viagem sozinha. Eu fico dando desculpa de, ai, que eu tô apertada, tô sem dinheiro. Mas eu ofereço carona, já tô acostumada a oferecer carona pra vir pra Araraquara, tudo.

E muitas vezes a viagem se paga. Então, se programar direitinho, a desculpa de dinheiro eu já não tenho. Aí eu fico assim, ah, eu vou esperar uma data legal, vou esperar não sei o quê pra fazer. Mas eu sei que no fundo, no fundo, se alguém falasse assim, o meu namorado, por exemplo, falasse, vamos! Eu ia agora, pegava a roupa do corpo, punha no carro e saía. Então eu acho que eu tô adiando um pouquinho essa viagem, pra fazer essa viagem, por falta de companhia, por estar muito tempo à deriva aí sem o meu grupo, sem as pessoas que eu tô acostumada, e pra chegar até lá, sabe?

Depois, e eu tenho consciência de que quando eu pegar, entrar no carro pra fazer essa viagem, eu vou me sentir super bem, vai ser super legal e tal, mas dar esse passo tá sendo difícil. Eu sei que eu tô adiando, que no fundo, no fundo é porque eu vou fazer isso sozinha.

?Voz A

Eu não consigo imaginar nada agora que eu não faria se eu não tivesse companhia. Só que, por exemplo, vai ter o Zig Festival. Você que tá ouvindo do futuro, já até passou, mas vai rolar esse final de semana e eu queria muito ir, só que eu não vou por conta de dinheiro. Só que se ninguém fosse comigo, talvez eu também não fosse, sabe? Então eu acho que realmente eu ainda preciso de quando tem muitas pessoas, porque eu preciso de companhia no lugar que tenha muita gente, tipo assim um show ou alguma festa muito grande universitária.

Porque se é em Quimera Araquara, eu tô a um Uber de distância da minha casa. Só que aí em outro lugar, como que eu vou fazer pra chegar aqui, entendeu? Se eu precisar, se eu precisar de algum apoio, se eu precisar de um suporte, se alguma coisa acontecer. Eu sempre penso assim, ah, se eu tiver uma crise de ansiedade lá no meio. Eu sei que eu penso catastroficamente, mas pessoas ansiosas são assim, vou fazer o quê? Qual que é a diferença entre solitude e solidão na prática?

Antes de vocês responderem, eu queria falar que eu odeio essa palavra solitude. Porque parece um jeito de mascarar a solidão. A gente tinha que aceitar a solidão como uma coisa boa. Sabe? Aí eu sei que as pessoas vão falar assim, ah não, a solitude quer dizer isso. Só que por que precisa mudar a palavra, entende? Se solidão já é uma coisa boa.

GMGiulia Miquelutti

Parece que é, por exemplo, o bem e o mal. É, a solitude é o bem e a solidão é o mal. É engraçado porque solidão parece que é pesado, sabe? É uma palavra obscura. E solitude é alegria, sabe? Eu tenho essa impressão.

BVBruna Vasconcellos

É, eu acho que a gente até precisa dessa dicotomia, talvez até pra se justificar. Porque senão a gente fala assim, ah, eu gosto da solidão. Não, mas não é assim, solidão, calma, tal. Aí se você falar, eu gosto da solitude, aí todo mundo entende. Eu acho que é quase uma justificativa a gente arrumar palavra bonita pra fazer, que às vezes coisas que nem precisa, como gostar da sua própria companhia, gostar de ficar sozinho. As pessoas tendem a pegar essa vulnerabilidade de ficar sozinho e transformar numa coisa ruim, né, por costume ou qualquer cultura, qualquer coisa que seja assim.

Todo mundo olha torto, né, quando você tenta fazer isso, até o ponto de você justificar e criar uma palavra nova pra essas coisas.

?Voz A

Eu acho que aquele nosso medo de parecer egoísta. Só que assim, não tem egoísmo nenhum da gente se amar. E eu acho que é justamente isso, as pessoas acham que é egoísmo se amar. Só que não é se colocar acima de todo mundo, não é isso. Mas é se preencher com o seu próprio amor, sabe? É você estar presente no seu relacionamento com você mesmo. É possível estar cercado de pessoas e ainda assim se sentir profundamente sozinho?

BVBruna Vasconcellos

É muito, principalmente quando você tá às vezes numa crise depressiva, alguma coisa assim, seu cérebro não tá funcionando muito bem, ou não tá rolando uma identificação mesmo entre as pessoas que estão ao seu redor, você não se sente ouvido, não se sente acolhido. Então isso é muito comum, pelo menos comigo é uma coisa que é muito comum acontecer. Eu tá cercada de pessoas que eu sei que gostam de mim, que tem apreço pela minha companhia, tudo, e muitas vezes eu não me senti acolhida, não me senti ouvida.

Qualquer coisa assim, e ainda assim me sentir sozinha. Eu acho que muito por essa falta de identificação, que nem eu me mudei, comecei num trabalho novo com pessoas diferentes que não tem a mesma vivência que eu. E aí eu me senti um pouco sozinha nessa, quando eu comecei ali, né? Eu achei que eram pessoas muito diferentes, mas até que eu me acostumei e tudo, eu me senti um pouco sozinha naquele lugar. Mas hoje eu vejo que não, que são pessoas que eu consigo me identificar também de alguma forma.

Mas é uma coisa interessante que pra isso eu preciso também dar esse passo de me deixar à vontade, de me expor, de me mostrar vulnerável pra eu conseguir que outras pessoas também entrem na minha vida e se mostrem vulneráveis, se exponham pra ter essa identificação de verdade, né? Então eu acho que quando eu não me identifico naquele grupo é quando eu me sinto sozinha mesmo com várias pessoas ao meu redor. E nesse ponto é o que me incomoda um pouco às vezes a solidão.

Né, falando de solidão e solitude. Aí eu me sinto sozinha no sentido de solidão mesmo, que parece que eu, quando o negócio volta pro interno, né, pro acolhimento, pra identificação, você se sente muito sozinho. Mesmo que eu goste da minha companhia, eu acho que isso não se supre, porque entra muito na questão da sociedade, de sermos sociáveis, e a gente fica naquela expectativa de, nossa, será que eu nunca vou me encaixar? Eu nunca vou me identificar?

Eu sempre vou ficar com essa sensação de que eu tô deslocada? Mesmo que a gente goste da nossa própria companhia. Então sempre vai ter essa ansiedade da gente ser aceito às vezes num grupo, alguma coisa assim. Porque a gente é sociável, né? É o que a gente tem falado, a gente é um ser sociável e a gente também precisa ter um grupo onde a gente tá. Mesmo que a gente se sinta muito bem sem ele. E eu acho que isso é legal até quando a gente pensa em relacionamento.

É muito bom amar outra pessoa, você tá com outra pessoa e se sentir muito completo com ela, mas o negócio é: Se você tiver longe delas, você também vai se sentir completo? Você também vai gostar da sua companhia?

?Voz A

Isso do tópico da solidão é um tópico muito sensível pra mim. Por muito tempo eu me sentia sozinho, porque eu não tinha amigos. Então assim, a solidão sempre vinha atrás de mim, parecia, sabe, um monstro. E aí eu amadureci e parecia que tinha esse buraco dentro de mim de uma solidão assim que eu não conseguia preencher com outras pessoas. Porque não é falta de ter ou não pessoas, é uma coisa mais eu comigo mesmo, sabe? E essa solidão que me persegue.

De eu não conseguir me encontrar. E aí eu ficava tentando preencher com outras pessoas. E temporariamente é bom a gente ser preenchido por outras pessoas, é claro, porque nós somos, como a Bruna falou, somos seres sociáveis, ok. Mas assim, não preenchia aquilo que faltava em mim, sabe? Não sei se vocês já leram aquele livrinho A Parte Que Falta, mas é justamente sobre isso. É um livrinho infantil de uma bolinha que rola por aí procurando a parte especial que completa ela, um outro alguém.

Só que era eu mesmo, sabe, que também precisava me encaixar e me encontrar comigo mesmo. Hoje esse buraco ainda existe e eu ainda preencho com outras pessoas, Só que aceitar que esse buraco não vai fechar, porque ele tá aqui e ele precisa ser completo por mim e não por outras pessoas, sabe?

GMGiulia Miquelutti

Esse sentimento tem muito a ver com o tanto de intimidade que você tem com aquelas pessoas e com o lugar. Se é um lugar novo para você, você só frequentou poucas vezes, por um período curto, você ainda não sente 100% à vontade porque você também não conhece as outras pessoas. Também acho que tem muito a ver com o negócio de ser julgado. Tipo assim, até onde eu posso me mostrar nesse lugar? Porque eu não sei como são aquelas pessoas.

Então vai que eu me mostro de um jeito e na verdade eles são completamente diferentes. Agora, depois de um tempo convivendo, depois de um certo nível de intimidade, você sabe como aquela pessoa é. Então você sabe até onde você pode ir, o que você pode falar. E você percebe que não é nenhum bicho de 7 cabeças e que ninguém é tão diferente. Todo mundo tem problema. Por exemplo, às vezes você tá tendo um problema, mas você evita de falar.

Mas você vai ver, a pessoa também tá com problema. Então assim, eu acho que tem muito a ver com o nível de intimidade. Tanto com as pessoas quanto com o lugar. E isso é com o tempo.

?Voz A

E aprender a gostar da própria companhia muda a maneira como escolhemos amizades e relacionamentos?

BVBruna Vasconcellos

Muda muito, porque às vezes quando a gente, a gente se odeia, que isso acontece muito, a gente fica aceitando qualquer coisa, aceitando migalha, ou aceitando que uma pessoa te trata mal só porque ela tá do seu lado. E como você não gosta de si mesmo, você fala assim: ah lá, essa pessoa me suporta.

?Voz A

Essa pessoa me trata como eu me trato.

BVBruna Vasconcellos

Essa pessoa trata como eu me trato, então eu já sei como é que é. E aí eu vou deixar essa pessoa do meu lado. E aí quando você aprende a gostar da sua própria companhia, você se vê como algo de valor, algo— e valor não em sentido monetário, aquela coisa de valor agregado. É quando você vê que você é legal, que você é bonito, que você conhece o mundo, que você tem propriedade para falar de alguma coisa. E quando você gosta da sua própria companhia por N motivos, você não vai aceitar qualquer coisa.

Vai falar assim, pô, eu mereço muito mais que isso. E aí você começa a selecionar mais pecinhas do seu quebra-cabeça, né? Porque a gente quer acrescentar na nossa vida. Então a gente não vai aceitar que uma pessoa te trate mal. A gente não aceita que alguém trate mal alguém que a gente ama, né? Então se alguém falar mal de, sei lá, minha mãe na mesa, alguma coisa assim, ai, vai bater! Alguém tá querendo te bater, Caio. Eu vou pra cima da pessoa, porque eu não quero que alguém te trate mal.

Então se eu me amo, por que que eu vou aceitar que outra pessoa me trate mal? Né? Eu acho que tem muito a ver com isso.

GMGiulia Miquelutti

E eu acho também que isso faz sentido no contrário. Às vezes você tá numa relação, seja de amizade ou romântica, que a pessoa é muito dependente de você. E você se ama, então você quer fazer alguma coisa sozinha, você quer o seu tempo pra você ficar quietinho na cama vendo TikTok ou qualquer coisa, ficar em paz, cozinhar em paz, ouvindo uma música. E a pessoa é 100% dependente. Eu acho que Tem que ter um meio termo. A pessoa não pode ser nem toda de você e nem, nossa, precisa ficar com você 100% do tempo. Você precisa ter o seu tempo, se você é uma pessoa que se ama, é saudável.

?Voz A

Se você tivesse certeza que ninguém iria julgá-lo, o que você faria sozinha amanhã?

GMGiulia Miquelutti

Acho que nada, porque meu planejamento pra amanhã é dormir o dia todo. Meu único dia de folga na semana, então nada.

BVBruna Vasconcellos

Mas é engraçado que até isso, pelo menos eu, às vezes eu tenho medo de ser julgada, porque Às vezes o único dia de folga que eu tenho na semana, aí eu quero realmente dormir o dia inteiro e não fazer nada. E aí eu prefiro durante a semana fazer pequenas tarefas domésticas, por exemplo. Mas aí eu fico pensando, eu moro com outras pessoas, né? Então o que que essas pessoas vão pensar de mim enquanto elas estão fazendo suas tarefinhas, mesmo que seja lavar o copo que bebeu água?

O que que elas vão pensar de eu estar descansando o dia inteiro e não ter feito nada? E inclusive isso aconteceu comigo alguns domingos atrás, que eu queria descansar, tava muito cansada. E aí eu parei e pensei, nossa, não vão achar que eu sou muito preguiçosa e vagabunda e que não faz nada. E aí eu vou, levanto e faço alguma coisa, mesmo que eu não queria fazer naquele momento. Então acho que até o descanso, às vezes a gente fica com medo de ser julgado, pelo menos eu.

GMGiulia Miquelutti

Mas o medo de ser julgado nessas situações às vezes nem é só da outra pessoa, mas você mesmo. Você pensa, nossa, eu não fiz nada da casa durante a semana, eu preciso levantar minha bunda e fazer, eu não posso descansar porque Sabe, você mesmo se cobra, você mesmo se xinga, fala, para de ser preguiçosa, levanta, não vai descansar, descansa outra hora, você não precisa descansar tanto. Então muitas vezes essa pessoa é você, você que tá numa luta interna de se sentir culpada porque você pensa isso de você mesma.

BVBruna Vasconcellos

Não só a parte da culpa, mas isso entra no que a gente falou lá atrás, de que ninguém tá nem aí. A pessoa tá simplesmente fazendo as coisas dela porque ela quis fazer aquele dia. E ela vai olhar e falar assim, ah tá, ela tá dormindo. Virar e continuar fazendo as coisas dela. Recolha-se na sua insignificância, sabe? Nem sempre as pessoas vão realmente te julgar, e muito menos te julgar mal a ponto do que você pensa que faça isso.

Então é muito mais uma batalha interna do que uma batalha externa, assim, de que outras pessoas realmente vão julgar, né? Então acaba pegando aquela coisa que a gente falou lá atrás.

?Voz A

E vocês têm alguma dica para alguém que quer começar a se arriscar a fazer as coisas sozinho, só que ainda se sente muito envergonhado, com medo?

BVBruna Vasconcellos

Não pensa, pega e faz. Aí fala, ai, quero fazer uma aula aqui, mas não tem ninguém, ai, não vou fazer. Aí pega aqueles 2 minutos de loucura, se inscreve, paga o negócio e vai e faz, que aí você já não tem como tanto voltar atrás, né? Eu acho que a principal dica é essa, você não pensar. Igual ir na academia 5 horas da manhã, você levanta e vai sem pensar no assunto. Mas tentar, tentar. Às vezes não vai dar na primeira vez, às vezes você vai chegar na porta, vai estar ali na beira do e vai voltar.

E algum outro dia você vai pegar e conseguir pular de paraquedas. Mas a dica— a dica não, mas o resultado é: você vai ficar muito feliz, muito orgulhoso de ter feito isso, de ter tomado essa atitude. Então, mesmo que não dê muito certo e talvez você se arrependa, você não pode ter arrependido de ter tomado a decisão e ter tido a coragem de fazer. Porque essa parte, não é nada que der errado vai tirar isso de: não, pelo menos eu fui lá e fiz, fui lá e tentei.

GMGiulia Miquelutti

Com certeza, eu acho que Você age na impulsividade, vai. Você vê, ai, abriu a venda dos ingressos de um show que eu quero muito ir, mas eu ainda não chamei ninguém. Compra o seu, depois você fala com alguém. Compra o seu. E aí, se ninguém for, você já comprou. E aí, você vai fazer o quê? Vai, vai te ajudar a ter coragem. Então vai na impulsividade, não pensa, vai, só vai. E depois você vê.

?Voz A

Meninas, eu quero agradecer muito vocês terem participado. Foi um episódio muito legal. Eu quero agradecer vocês também, ouvintes mensais que acompanham o meu projeto.

BVBruna Vasconcellos

Muito obrigada pelo convite, Caio. Mais uma vez foi incrível, sempre incrível. E se você tá ouvindo só esse podcast hoje, vai conferir os outros porque tá sensacional. Eu sou fã de carteirinha e se você fuçar lá vai ter o meu comentário na maioria deles. Então muito obrigada e obrigada por terem ouvido também.

GMGiulia Miquelutti

Eu amei participar, foi incrível, foi ótimo. E eu queria falar que eu tô muito orgulhosa de você, do seu podcast, porque eu te conheço tem alguns anos, uns 6, 7 anos, Eu lembro que há muitos anos atrás, numa conversa boba que a gente tava tendo, falando besteira, nem lembro do quê, mas que a gente rindo virou e falou— você falou, eu deveria começar a fazer um podcast pra falar isso, essas coisas. E eu falei, deveria, eu escutaria.

Então, isso faz muito tempo. Então é muito legal ver que você realmente fez o podcast. Então eu só queria falar que eu tô orgulhosa.

?Voz A

Inclusive, essa foi uma coisa que eu adiei por muito tempo. As duas que estão aqui, eu sempre falava pra elas que eu queria muito fazer um podcast. E elas falavam, não, vamos gravar. Vai ser legal, vai ser divertido. Só que elas nunca queriam começar porque elas tinham as outras prioridades delas. Eu poderia até ter começado antes, só que eu só comecei agora porque eu mesmo fui atrás de fazer, porque era por mim, não era pelos outros.

Então eu agradeço também o incentivo de vocês de terem falado para eu fazer naquela época, e vocês ouvintes mensais que me acompanham, né? E até semana que vem, tchau!