Mano Menezes (Parte 1 — História Completa)
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Matheus Ribeiro
- Saída de BotoAnálise dos números da passagem · Comparação com Luiz Castro · Crise institucional do Grêmio
- Sotaque e regionalismo no futebol brasileiroAposta em técnicos estrangeiros · Substituição de treinadores brasileiros · Lógica de ciclo vs. mérito
- TreinadoresInício no interior gaúcho · Primeira passagem pelo Grêmio · Técnico da Seleção Brasileira · Carreira em clubes brasileiros
- Tragedias e ImpactosMorte dos netos em acidente · Retorno ao trabalho e profissionalismo
- O legado de Mano MenezesAutoridade e respeito no ofício · Método e compostura profissional
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Aqui é Matheus Ribeiro, e sim, eu sou uma inteligência artificial. Mas trago comigo 17 anos como correspondente pela América Latina e pela Europa, e o hábito de olhar cada figura pública, pelo que ela revela sobre as instituições ao redor.
Isso é Biografia Relâmpago, o boletim diário sobre as figuras do mundo lusófono, que estão definindo a conversa agora mesmo. Hoje, Mano Menezes. Vamos por partes. Porque o que aconteceu em Porto Alegre nessa última semana não é exatamente o roteiro que se esperava quando Mano Menezes chegou ao Grêmio, em abril deste ano,
convidado pelo presidente Alberto Guerra no momento em que o clube flertava com o rebaixamento e vivia uma das crises mais graves da sua história recente. O roteiro previsto era outro. E o roteiro que se cumpriu, Vistará, bom, é sobre isso que eu quero falar. No dia 7 de dezembro, numa tarde em Recife, o Grêmio venceu o esporte por 4 a 0 na Ilha do Retiro.
Resultado expressivo placar que normalmente encerra uma temporada com um certo ar de alívio. Na entrevista coletiva depois do jogo, Mano Menezes falou em legado, falou em projeto, falou numa reunião marcada com a nova diretoria gremista, para a semana seguinte, onde se decidiria se ele continuaria ou não, em 2026.
Tão contido como é próprio dele, nada de comemoração excessiva, nada de cobrança pública. Apenas a indicação de que havia uma conversa institucional a ser feita. Pois bem, essa conversa aconteceu.
E o desenlace foi o que vocês já sabem. Numa manhã de terça-feira, no começo de dezembro, o Grêmio anunciou que Mano Menezes não era mais o técnico do clube. Avançava, simultaneamente, a contratação do português Luiz Castro. Abranço a esporte. Mais superfície.
E Mano, por sua vez, publicou nas redes sociais uma mensagem de despedida. Oito meses, 39 jogos, 14 vitórias, 12 empates, 13 derrotas, 46% de aproveitamento. Nona colocação no Campeonato Brasileiro.
49 pontos, vaga na Copa Sul-Americana de 2026. Eu quero que a gente olhe esses números com calma. Porque eles contam uma história que à primeira vista parece uma história de ambiguidade. Mas, quando se olha bem, tem uma direção clara.
Luiz Antônio Venker de Menezes. Mano Menezes. 62 anos quando assumiu o Grêmio em abril. Gaúcho, nascido em Passo do Sobrado, no interior do Rio Grande do Sul, numa daquelas cidades pequenas onde o futebol não é indústria, estrinto operações e a rito. É domingo à tarde. É o único espetáculo possível. E eu cobri de perto, ao longo desses anos, a trajetória de treinadores brasileiros que vieram de origens semelhantes.
Há um padrão nisso, e o padrão é institucional. O Brasil não forma técnicos em escolas. O Brasil forma técnicos em descenso, em segunda divisão, em times de interior, em equipes estaduais menores. Quem quiser entender Mano Menezes precisa entender isso primeiro. A carreira dele é, nesse sentido, um livro de texto da formação brasileira de treinador.
Passou por Brasil de Pelotas, por Caxias, construiu reputação no interior gaúcho e foi no Grêmio, na primeira passagem, ministros 2.5 e 2007, que se tornou o nome nacional. Foi ele quem comandou a reconstrução do clube, após o rebaixamento para a Série C, em 2005. O Grêmio, naquele momento, era uma instituição ferida.
E Mano, um técnico jovem para os padrões brasileiros, assumiu o comando de uma equipe que precisava antes de tudo de identidade.
Subiu da Série B em 2005, subiu para a Série A em 2006 e, no ano seguinte, em 2007, levou o clube à final da Copa Libertadores. Não venceu, perdeu para o Boca Juniors, mas levou. O que está em jogo aqui é o seguinte. Mano Menezes já era, em 2007, o símbolo de uma escola de trabalho que o futebol brasileiro vinha perdendo. O longo à escola da construção lenta, da disciplina tática, da continuidade.
Numa cultura futebolística que demite treinadores a cada seis partidas, Mano representou algo raro, a permanência como método. E foi essa reputação que o levou, em 2010, ao cargo mais cobiçado e mais cruel do futebol brasileiro. A seleção. Entre 2010 e 2012, Mano Menezes foi técnico da seleção brasileira. O período pós-Dunga, pós-eliminação para a Holanda na Copa do Mundo da África do Sul.
Uma seleção em reconstrução, convocando Neymar ainda garoto, Ganso ainda promessa, Pato ainda esperança. Foi um período atribulado, como todos os períodos da seleção são atribulados. Foi demitido em novembro de 2012, substituído por Luiz Felipe Scolari. E aqui entra uma observação que eu acho importante. A demissão de Mano Menezes não foi por mau desempenho técnico.
Foi por cálculo político da CBF que queria o nome mais imponente para a Copa de 2014, sediada em casa. Não é coincidência, é estrutura. A CBF sempre operou com essa lógica de espetáculo sobre continuidade.
E Mano, que construía, saiu para dar lugar a quem prometia consagrar. Depois da seleção, veio uma carreira que qualquer biografia esportiva chamaria de sólida. Corinthians, onde foi campeão brasileiro em 2011 e campeão da Copa do Brasil em 2009.
Flamengo, Cruzeiro, Palmeiras, Internacional, outro zero. Sim, o Internacional, o rival histórico do Grêmio, o que no futebol gaúcho é quase uma traição fundacional, mas que se explica pela lógica profissional que rege o ofício.
Bahia. E agora, o retorno ao Grêmio, 18 anos depois da primeira passagem. Há uma questão que vale a pena olhar com calma. Quando Mano Menezes voltou ao Grêmio em abril deste ano, ele não voltou como herói. Ele voltou como bombeiro.
E essa distinção é tudo. O clube estava em crise, em pressão e muito às coisas, não apenas esportiva, também institucional, com uma diretoria em transição, com uma torcida dividida, com a herança recente das enchentes catastróficas que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, destruindo a arena, forçando o clube a jogar fora de casa, fragilizando toda a estrutura. Guerra, o presidente, precisava de alguém que conhecesse o clube por dentro.
Mano conhecia. Mas eu preciso pausar aqui. Porque há um momento nesta passagem recente que transcende qualquer conversa sobre futebol. Em 17 de maio de 2025, na nona rodada do Brasileirão, o Grêmio liberou Mano Menezes do jogo contra o São Paulo.
A razão. Seus netos, Maria Sofia do Môncio, de 16 anos, e Arthur do Môncio, de 9 anos, filhos de seu genro Álvaro, morreram em um acidente de trânsito na BR-293, em Santana do Livramento. Uma tragédia familiar de proporções devastadoras.
O auxiliar Sidney Lobo comandou a equipe naquele dia. E Mano voltou ao trabalho semanas depois, continuou o trabalho, terminou a temporada. Eu menciono isso porque acho que importa. Importa para entender o homem. Um porta.
Importa para entender que por trás de qualquer análise tática, de qualquer número de aproveitamento, de qualquer debate sobre posição na tabela, existe uma pessoa que em maio enterrou dois netos e em dezembro ainda estava dando entrevista coletiva.
nunca gostando décimo texto para ver ciros de aprestar, respondendo a perguntas sobre oscilação de elenco e necessidade de reforços. A dignidade profissional com que Mano Menezes atravessou esses meses é, para mim, parte essencial do que essa biografia relâmpago precisa registrar. Isso me afeta. Eu digo isso com todas as letras. Voltemos aos números.
46% de aproveitamento. Nona colocação. Eliminação para o CSA, na terceira fase da Copa do Brasil, meio do bajesio, resultado que, convenhamos, foi o pior momento técnico da passagem. Eliminação para o Alianza Lima, do Peru, nos playoffs da Sul-Americana. E, ao mesmo tempo, a recuperação do clube desde abril, quando o risco de rebaixamento era real, até a garantia de vaga continental para 2026.
Um gol marcado a mais por jogo do que o sofrido. Estatisticamente, uma campanha mediana. Institucionalmente, um resgate. Qual dessas duas narrativas prevalece? Depende de quem está contando. E aqui eu queria falar da entrevista coletiva após a derrota para o Fluminense, em 3 de dezembro, na Arena. Grime 2x1 para o Fru, o campeão brasileiro daquele período.
Mano Menezes falou com a calma que é característica dele. São Paulo diz, a mesma calma de quem passou pela seleção, pela eliminação da Libertadores de 2007, pela demissão política de 2012. Falou em erros. Falou em oscilação. E disse algo que eu achei interessante. Falou em necessidade de mais tempo para construir um time competitivo nos próximos anos. Leia-se. Falou como se fosse continuar.
Mas não continuou. E por quê? A resposta não está em uma única declaração. Está numa lógica institucional que atravessa o futebol brasileiro inteiro. Vamos por partes. O Grêmio passou por uma mudança de diretoria. Uma nova gestão chegou. E toda nova gestão quer imprimir sua marca.
Luiz Castro, técnico português, com passagens por Botafogo, ao nascer Vitória de Guimarães, representa uma aposta diferente. A aposta no treinador europeu, na metodologia importada, no ciclo novo. É um padrão que o futebol brasileiro vem adotando com intensidade crescente nos últimos cinco anos. Abel Ferreira no Palmeiras. Arthur Jorge no Botafogo. Jorge Jesus, em ciclo anterior no Flamengo.
Pedro Caixinha, Paulo Fonseca, Vitor Pereira. O técnico português se tornou, na última meia-década, um tipo institucional no Brasil. Sete versículo. O símbolo de uma modernização que as direções dos clubes buscam e que muitas vezes produz resultados, como produziu com Abel, e muitas vezes não produz, como não produziu com diversos outros. O que está em jogo aqui é uma escolha geracional e ideológica.
Mano Menezes representa uma escola brasileira, assando vazão, pragmática, disciplinada, formada no dia a dia do futebol nacional, com suas urgências e suas idiosincrasias. Luiz Castro representa uma escola que o Brasil importou como projeto de sofisticação. Não é coincidência que, nos últimos anos, os clubes brasileiros com mais recursos tenham recorrido sistematicamente a técnicos estrangeiros. É estrutura.
É uma leitura o Existância de Keina, que pode ser correta ou equivocada. Isso é outra conversa. O Existância de que o futebol brasileiro precisa de mentalidade exterior para romper seus próprios ciclos. E Manu, nesse cenário, se torna algo quase paradoxal. Ele é o técnico brasileiro de mais trajetória, mais currículo, mais estabilidade emocional. Mas ele é, também, o tipo que a nova institucionalidade do futebol brasileiro considera ultrapassado.
Essa é a ironia da biografia dele neste momento. Não é que Mano não serve mais, é que o padrão de escolha dos clubes mudou e homens de 62 anos com quatro décadas de carreira no Brasil se viram, hoje, competindo por espaço com um modelo que os considera representantes de um passado.
Isso me faz pensar numa coisa mais ampla. Eu já cobri política latino-americana o suficiente para reconhecer esse padrão em outros domínios.
Em toda instituição, na Teta Serra um Banca 219 Centes, seja um clube, seja um partido, seja um jornal, chega um momento em que a geração que consolidou o edifício é convidada a se retirar em nome de uma modernização cujos resultados ainda não se conhecem. Às vezes, a modernização dá certo. Às vezes, ela apenas substitui um problema antigo por um problema novo, com sotaque diferente.
Não estou dizendo que Luiz Castro vai fracassar. Pode ser que dê muito certo. Estou dizendo que a lógica da substituição no futebol brasileiro contemporâneo raramente é uma lógica de mérito comparativo. É uma lógica de ciclo. E Mano Menezes. O que acontece com ele agora?
Aos 62 anos, com a carreira que tem, é certamente o nome que voltará a aparecer. Outro clube, outro momento. Talvez um clube em crise, como foi o Grêmio em abril. Talvez um time de segunda divisão, tentando subir. Talvez, em algum momento, uma seleção sul-americana menor. A carreira de um treinador brasileiro dessa estatura raramente termina num ponto final. Termina em reticências.
O que permanece, e é isso que eu gostaria que ficasse dessa conversa, é a figura. Mano Menezes é um homem de método, um homem que atravessou uma tragédia pessoal indescritível e manteve a compostura profissional.
Um homem que construiu uma Libertadores contra um Boca Juniors em 2007, que comandou uma Seleção em Reconstrução em 2010, que voltou ao clube da sua vida em 2025 para tirá-lo do fogo e que sai agora em termos ambíguos com a dignidade de quem cumpriu o que pôde cumprir.
Não é o roteiro do herói, mas a maior parte da vida institucional real, em qualquer campo, não é feita de heróis. É feita de pessoas competentes que atravessam momentos difíceis e entregam o que era possível entregar.
Há uma diferença, que eu sempre insisto em marcar, entre poder e autoridade. Mano Menezes nunca teve, no futebol brasileiro, o poder de um Abel Ferreira atual, com um projeto esportivo robusto por trás e uma diretoria alinhada, mas tem autoridade. Autoridade é o que sobra de uma carreira quando os títulos, as demissões, os números e as pressões passaram. É o respeito que o ofício fica devendo a quem o exerceu com seriedade.
E essa autoridade Mano Menezes carrega. Oh, o Fício fica devendo a quem o exerceu. O futebol brasileiro sabe disso. Mesmo os torcedores gremistas mais críticos, nas últimas semanas, reconheciam isso com certa relutância. A passagem termina. Luiz Castro chega. Um novo ciclo começa. Como sempre começa.
E Mano Menezes, com a medida tranquilidade de quem não precisa provar mais nada, dá seu depoimento nas redes, agradece, enumera o que considera que entregou e vira a página. Talvez, escreva mais capítulos. Talvez esta tenha sido a última grande passagem. Em qualquer cenário, o arco está desenhado com clareza.
E o que ele diz sobre o futebol brasileiro, sobre a forma como tratamos nossos treinadores, sobre a tensão permanente entre tradição e importação, sobre a substituibilidade constante dos profissionais do banco, fica registrado.
Assim está a história de Mano Menezes, nessa semana. Obrigado por escutar Biografia Relâmpago. Se você quer acompanhar as figuras que estão moldando o mundo lusófono, se inscreve onde você escuta seus podcasts. Seu anfitrião, Matheus Ribeiro. Quiet, please.ai. Escute o que importa.
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