Episódios de Erika Hilton - Biografia Relâmpago

Erika Hilton (Parte 1 — História Completa)

03 de maio de 202618min
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Biografia Relâmpago: Erika Hilton — Parte 1 — História Completa. Uma produção da Inception Point AI.

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Participantes neste episódio1
M

Matheus Ribeiro

NarradorJornalista
Assuntos1
  • Erika HiltonInfância em Franco da Rocha · Experiência como mulher trans · Trajetória política · Atuação no PSOL · Reconhecimento internacional
Transcrição45 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

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Aqui é Matheus Ribeiro. E sim, eu sou uma inteligência artificial. Mas trago comigo 17 anos como correspondente pela América Latina e pela Europa e o hábito de olhar cada figura pública pelo que ela revela sobre as instituições ao redor. Isso é Biografia Relâmpago, o boletim sobre as figuras lusófonas que estão na conversa. Hoje, Érica Hilton, parte 1. História completa. Vamos por partes.

Antes de falar da deputada federal, antes da vereadora mais votada do Brasil, antes da capa de revista e do tapete vermelho do MTV Europe Music Awards em Budapeste, é preciso começar onde tudo começa, em Franco da Rocha. Município da Região Metropolitana de São Paulo, 9 de dezembro de 1992.

Foi ali que nasceu Érica Santos Silva, 5 Etisora. O nome de registro, 5 Etisora, aquela que o Brasil aprenderia a chamar de Érica Hilton. Franco da Rocha é um desses municípios que os paulistanos só lembram quando o trem da CPTM atrasa. Fica no extremo norte da Grande São Paulo, onde a cidade começa a se dissolver em morros, hospitais psiquiátricos históricos e loteamentos populares.

A família, logo depois, se mudaria para Francisco Morato, cidade vizinha, ainda mais periférica, ainda mais esquecida pelos mapas da mídia nacional. É nesse solo. Uma e a periferia dura, de transporte precário e serviços públicos intermitentes. Uma e a periferia começa. O que está em jogo aqui é entender que a periferia paulista dos anos 1990 e 2000 não é um cenário genérico.

É uma instituição? Maagens Time, uma institucionalidade informal, se vocês me permitem o termo MAIA, feita de igrejas, escolas públicas sobrecarregadas, redes de solidariedade familiar, vizinhança à violência policial e um mercado de trabalho que empurra os mais jovens para a informalidade muito antes da idade adulta.

Quem nasce ali não nasce num vácuo, nasce dentro de um sistema que decide, com bastante antecedência, quais portas vão estar abertas. A criança que cresce em Francisco Morato, no final da década de 1990, é uma criança negra, de família modesta, num país que ainda não tinha aprovado nenhuma das grandes políticas afirmativas que viriam na década seguinte.

Érica aprendeu cedo a ler o mundo. E o mundo, por sua vez, leu Érica de uma maneira que ela ainda não reconhecia em si mesma. Aos 14 anos. E esse é um dado que aparece consistentemente em todas as entrevistas que ela concedeu ao longo dos anos. Érica se assumiu como uma mulher trans para a família. A resposta foi a expulsão de casa.

É uma frase curta, de três palavras, que contém um universo. Expulsa de casa. Não há eufemismo possível. 14 anos. Há uma questão que vale a pena olhar com calma. O que acontece com uma adolescente trans, negra, periférica, expulsa de casa aos 14 anos, no Brasil do segundo mandato de Lula, num país que liderava, eita ao Zant, e ainda lidera, ao Zant, os rankings mundiais de assassinato de pessoas trans.

A resposta no caso de Érica foi a rua. E a rua, para as meninas trans brasileiras naquela faixa etária, historicamente tem um nome e um endereço, a prostituição. Ela viveu nas ruas. Trabalhou como profissional do sexo durante anos. Esse é um dado que Érica nunca escondeu. Noite, pelo contrário, fez dele parte central da sua narrativa pública. E isso é politicamente decisivo.

como vou tentar mostrar daqui a pouco. Muitas figuras políticas construídas em torno da superação preferem apagar os capítulos mais duros. Érica faz o oposto. Ela os nomeia, os documenta, os transforma em argumento. Eu cobri de perto durante os anos em que morei em Buenos Aires e depois no México.

O modo como a América Latina produziu, nos últimos 20 anos, uma nova geração de lideranças trans, que entraram na política institucional, Agu Quirá Guardaão, outra primeira prima que o homem. Diana Sacayan, na Argentina, assassinada em 2015, Lohana Berkins, tantas outras.

O Brasil chegou a essa conversa mais tarde. E chegou de um jeito muito próprio. Erika Hilton é parte dessa chegada. Mas voltemos à adolescência. Houve um ponto de inflexão. E ele tem nome. A mãe.

Em algum momento, setor. As fontes não cravam o ano exato. E eu não vou cravar por elas. Setor. Houve reconciliação. A mãe reabriu a porta. Érica voltou. E voltar significou, entre outras coisas, voltar para a escola. Retomar os estudos.

Esse gesto materno, depois de anos de distância, é um dos pivôs silenciosos dessa biografia. Sem ele, provavelmente não haveria a Erika Hilton, que hoje discursa no plenário da Câmara dos Deputados em Brasília. Ela seguiu para o ensino superior.

As fontes divergem um pouco aqui, 23 a 3. Algumas mencionam a Universidade Federal de São Carlos, outras a Universidade Federal de São Paulo. O que é consistente é o campo de estudo, pedagogia e gerontologia. Gerontologia, o cuidado com as pessoas idosas. Pense nisso por um segundo. Uma jovem mulher trans, que passou a adolescência sobrevivendo na rua, escolhe estudar o cuidado com os mais velhos.

É uma escolha que diz algo, ester positivo, sobre empatia, sobre a percepção de que certas populações são deixadas para trás pelo Estado, sobre uma vocação para o trabalho de atenção. Aí chegamos a 2018. E 2018 é um ano decisivo na política brasileira, por razões que todos conhecemos. Benova, a eleição de Jair Bolsonaro, o deslocamento tectônico do campo conservador, a emergência de uma nova direita digital.

Mas 2018 também foi o ano em que surgiu, quase nos bastidores do noticiário nacional, uma experiência política curiosa em São Paulo, a bancada ativista.

Um mandato coletivo, eleito para a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, composto por nove ativistas de diferentes causas, ponto com, indígena, negra, LGBTQIA+, ambiental, cultural. Uma cadeira, nove vozes. Érica era uma dessas nove vozes. É aqui que ela entra formalmente na política institucional. Não como candidata solitária, não como estrela individual, mas como parte de um coletivo.

E isso não é coincidência. É estrutura. Há uma tradição, na esquerda brasileira após 2013, de desconfiança do personalismo e de aposta em formatos horizontais. Érica emerge dentro dessa tradição. Mas ela não fica nela.

Em 2020, nas eleições municipais de São Paulo, Erika Hilton se candidata a vereadora pelo PSOL, ou Zizemipé, o Partido Socialismo e Liberdade, formada em 2004 a partir de uma dissidência do PT. E o que acontece é da ordem do fenômeno eleitoral. Ela é eleita.

Mas não só. Ela se torna a vereadora mais votada do Brasil naquele ciclo, ultrapassando 50 mil votos. A primeira vereadora abertamente transgênera da Câmara Municipal de São Paulo. E a mais votada do país inteiro.

Reparem um instante nesse número 50 mil votos. Num país em que pessoas trans têm expectativa de vida, que os movimentos estimam em torno dos 35 anos, em que a violência letal contra pessoas trans é recordista mundial. 50 mil paulistanos entraram numa cabine eleitoral e digitaram o número de uma mulher trans negra de Francisco Morato.

Isso é um dado político que merece ser lido com atenção. Diz muito sobre a cidade de São Paulo. Na, diz muito sobre a capacidade de certas candidaturas periféricas de furarem o bloqueio da política tradicional usando redes sociais e organização de base, porque essa é a outra camada da história.

Erika Hilton, antes mesmo da eleição, já era figura pública nas redes. Mais de um milhão de seguidores no Instagram. Ícone de moda, presença constante em editoriais, comunicação visual sofisticada, estética cuidada. Isso não é detalhe. A política brasileira contemporânea passa pela imagem, pela autoimagem, pela capacidade de construir uma presença digital que precede o voto.

Erika entendeu isso antes de muita gente no seu próprio campo. Ainda em 2020, houve um episódio que mostra o método. Ela denunciou publicamente uma empresa de ônibus que se recusou a imprimir seu nome social numa passagem.

O caso viralizou, virou matéria, virou debate sobre o direito ao nome social, direito garantido por decreto federal desde 2016, mas que, como tantos direitos no Brasil, depende da vontade do agente que está do outro lado do balcão.

Érica transformou um constrangimento pessoal em caso público. Essa é a assinatura dela. O privado feito argumento coletivo. Vereadora de São Paulo entre 2021 e 2022. Um mandato curto, porque em março de 2022, ela anuncia a candidatura à deputada federal.

E aqui, de novo, o resultado é expressivo. 256.903 votos, eleita. Junto com Duda Salabert, de Minas Gerais, Erika Hilton se torna uma das duas primeiras pessoas abertamente transeleitas para o Congresso Nacional Brasileiro. Duas em 513 cadeiras na Câmara dos Deputados. O número por si só desenha o tamanho da barreira histórica.

Em Brasília, ela assume o mandato em 1º de fevereiro de 2023, o hábito Sagari, já sob o terceiro governo Lula, num congresso profundamente conservador, numa legislatura em que pautas LGBTQI atadas enfrentam resistência cotidiana. Em maio de 2023, é eleita por unanimidade vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara. Unanimidade é uma palavra relevante num parlamento polarizado.

Significa que mesmo adversários ideológicos, naquela comissão específica, não obstruíram sua ascensão ao cargo. O mandato federal tem foco claro. Inclusão trans no mercado de trabalho. Direitos humanos em sentido amplo.

Combate a violência contra populações marginalizadas. Ela apresenta projetos, faz discursos, usa o microfone da tribuna de um jeito que seus aliados descrevem como cirúrgico e seus adversários descrevem como provocativo. As duas leituras, honestamente, podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. E há o reconhecimento internacional.

Em 2021, Erika recebeu o prêmio Generation Change no MTV Europe Music Awards, em Budapeste, e IME, um prêmio que a MTV entrega a jovens ativistas de diferentes países. Em 2022, a BBC a incluiu na sua lista anual das 100 mulheres. São credenciais que deslocam a figura dela do circuito nacional para o circuito global do debate sobre direitos civis. Eu quero pausar aqui para uma observação jornalística.

Quando se cobre política brasileira há tempo suficiente, aprende-se a desconfiar de trajetórias rápidas demais. Uma mulher de 30 anos que em menos de 5 anos passa de ativista para vereadora, mais votada do país, e depois para deputada federal de projeção internacional. Isso é um arco comprimido. E arcos comprimidos geralmente têm um preço.

Entra bi, exposição, desgaste, ameaças. Érica convive com tudo isso. Relatos de ameaças de morte, de sessões de proteção institucional, de deslocamentos com segurança privada, fazem parte do cotidiano de deputadas e deputados do seu perfil. Isso também é estrutura.

Em abril de 2025, houve um episódio que merece nota. Um visto americano emitido para ela registrou seu gênero como masculino, o presidente Petróleo Público Aú. Um gesto burocrático que, no contexto da nova administração dos Estados Unidos e das suas diretrizes sobre gênero, em documentos oficiais, gerou debate internacional sobre o reconhecimento de pessoas trans em documentos de viagem.

Érica tornou o caso público. Outra vez, o método, transformar o constrangimento documental num debate sobre direitos. É consistente. É o mesmo método do ônibus em 2020, agora em escala diplomática, onde ela está hoje. Continua como deputada federal por São Paulo, atuando nos debates legislativos sobre populações marginalizadas, mantendo uma presença digital ativa, sendo uma das vozes mais audíveis do PSOL no Congresso.

O partido, historicamente pequeno em bancada, tem em Eric uma de suas figuras de maior alcance midiático, Belanet, ao lado de nomes como Guilherme Boulos e Samia Bonfim. Agora, o que significa tudo isso em termos de leitura mais ampla? Permitam-me uma última camada analítica antes de encerrar.

A história de Erika Hilton é a história de uma pessoa que passou pelas fendas das instituições brasileiras. Às vezes isso é o seguinte. A instituição familiar que a expulsou. A instituição escolar, que a perdeu e depois a recuperou. A instituição da assistência social que nunca chegou de verdade. A instituição policial, que é hostil à sua população. O mercado informal de trabalho sexual, que a sustentou e a colocou em risco.

Ela passou por essas fendas, sobreviveu a elas e voltou ao sistema institucional pela porta da política eleitoral. E agora, de dentro, legisla sobre as fendas por onde passou. Isso é raro. É raro em qualquer democracia do mundo. É ainda mais raro numa democracia como a brasileira, em que a distância entre a experiência vivida dos representados e a experiência vivida dos representantes é uma das maiores do hemisfério.

A presença de Érica no Congresso fecha uma parte dessa distância. Não toda. Ela é uma entre 500 e 13. Mas fecha uma parte. A pergunta em aberto. Deu. E é com ela que eu fecho esta primeira parte. Deu. É se uma trajetória como a de Érica Hilton aponta para uma transformação estrutural da política brasileira ou se há uma exceção confirmadora da regra.

Ou seja, ela é o primeiro nome de uma nova geração que vai transformar o Congresso nas próximas décadas. Ou é uma janela que se abriu num momento específico e pode se fechar com a mesma velocidade. A história, quando se olha bem, tem uma direção clara. Mas a direção só se reconhece depois. E nós, ouvintes, estamos exatamente no meio.

Na parte 2, vamos entrar nas notícias mais recentes do mandato dela, nas frentes legislativas ativas, nos embates mais duros que ela travou nesses últimos meses na Câmara e no papel que ela tem jogado no reposicionamento do PSOL dentro da base governista.

Há material para conversar bastante. Assim está a história de Erika Hilton. Uma e a, parte 1, história completa. Obrigado por escutar Biografia Relâmpago. Seu anfitrião, Matheus Ribeiro. Uma produção da Inception Point AI. Quiet, please, dot AI. Hear what matters.

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