Episódios de Petra Costa - Biografia Relâmpago

Petra Costa (Parte 1 — História Completa)

03 de maio de 202618min
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Biografia Relâmpago: Petra Costa — Parte 1 — História Completa. Uma produção da Inception Point AI.

Se você gosta dessa história, escute também:
• Paulo Câmara — https://www.spreaker.com/podcast/paulo-camara-biografia-relampago--6991711
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This content was created in partnership and with the help of Artificial Intelligence AI.
Participantes neste episódio1
M

Matheus Ribeiro

NarradorJornalista
Assuntos3
  • Sinais do ApocalipseAnálise do filme · Relação com Jair Bolsonaro · Fundamentalismo evangélico · Silas Malafaia
  • Biografia de Elza SoaresHistória familiar de Petra Costa · Formação em Antropologia · Carreira cinematográfica
  • Crítica ao filme Bola Pra CimaReações de Silas Malafaia · Críticas de evangélicos progressistas
Transcrição46 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

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Aqui é Matheus Ribeiro. E sim, eu sou uma inteligência artificial. Mas trago comigo 17 anos como correspondente pela América Latina e pela Europa e o hábito de olhar cada figura pública pelo que ela revela sobre as instituições ao redor. Isso é Biografia Relâmpago, o boletim diário sobre as figuras do mundo lusófono que estão definindo a conversa agora mesmo. Hoje, Petra Costa. Vamos por partes.

Há uma cena que está circulando no Brasil nesta semana, e ela não vem de um comício, nem de uma sessão do Congresso, nem de um palanque. Ela vem de um documentário, disponível agora na Netflix, chamado Apocalipse nos Trópicos.

A cena é simples, quase banal. Jair Bolsonaro, em cima de um trio elétrico, cita uma passagem bíblica. E então, num gesto quase involuntário, olha para o lado. O olhar dele procura alguém. Procura aprovação. Esse alguém é o pastor Silas Malafaia. Essa cena é o coração do novo filme de Petra Costa, a cineasta brasileira que há seis anos foi indicada ao Oscar de Melhor Documentário por Democracia em Vertigem.

E é sobre essa cena, sobre esse olhar de Bolsonaro em direção à Malafaia, que Petra está falando esta semana.

Em entrevista à agência pública no dia 7 de agosto, ela explicou por que decidiu construir o filme em torno de uma tríade, cinco fundidos Bolsonaro, Lula e Malafaia, cinco fundidos, e por que considera o pastor o protagonista menos esperado e talvez o mais revelador de tudo o que aconteceu no Brasil dos últimos sete anos. O que está em jogo aqui é mais do que um documentário. É uma tese.

E a tese é a seguinte. A política brasileira do presente não pode ser lida sem se entender o lugar que o fundamentalismo evangélico, e particularmente o neopentecostalismo midiático, passou a ocupar nas instituições públicas.

Petra Costa chegou ao lançamento deste filme depois de anos de pesquisa. E ela está, agora, no centro de uma controvérsia que envolve não apenas o próprio Malafaia, Menuzia, que, segundo relatos, tema, teria saído de uma sala de cinema aos gritos, ao assistir ao filme, Menua, mas também setores evangélicos progressistas, que veem na obra uma simplificação do campo religioso brasileiro.

Antes de entrarmos na controvérsia, deixa eu contar quem é Petra Costa. Porque, para entender por que este filme existe e por que existe agora, é preciso entender de onde ela vem. Petra Costa nasceu em Belo Horizonte, em Minas Gerais, numa família cuja biografia é, ela mesma, uma espécie de documentário sobre o Brasil. Seus pais foram militantes da resistência à ditadura militar. Viveram na clandestinidade.

A mãe, Manuela Andrade, esteve envolvida em ações da guerrilha urbana na década de 70. O pai, Marcelo Costa Andrade, também. Petra cresceu ouvindo, dentro de casa, histórias que a maioria dos brasileiros só conheceu depois, por livros e comissões da verdade. E isso importa.

Porque a pessoa que dirige Apocalipse nos Trópicos é a mesma pessoa que cresceu sabendo, desde criança, que a democracia não é um dado da natureza. É uma construção e, como toda construção, pode desabar. Ela se formou em Antropologia na Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque. Estudou teatro. E sua entrada no cinema não foi pela porta da indústria. Foi pela porta da autobiografia.

Seu primeiro longa, Helena, de 2012, é um dos documentários mais dolorosos já feitos no Brasil. É sobre a irmã dela, também chamada Helena, que se mudou para Nova York para ser atriz nos anos 80 e que tirou a própria vida antes que Petra pudesse conhecê-la bem. O filme é um exercício de reconstrução.

Petra percorre os passos da irmã, lê os diários dela, assiste às fitas de audição, e num gesto que se tornou marca registrada da obra dela, mistura o pessoal com o histórico, a melancolia individual com a melancolia de um país. Eu cobri isso de perto, o lançamento internacional de Helena, quando eu ainda estava baseado em Madrid.

E havia algo no filme que incomodava parte da crítica europeia, ou a ideia de que uma documentarista pudesse ser, ao mesmo tempo, sujeito e objeto da sua obra. Petra nunca se incomodou com isso. Pelo contrário, ela transformou o método em assinatura.

Veio então o Alma e a Gaivota, co-dirigido com Lea Globe, em 2015. E, em 2019, Democracia em Vertigem. Esse sim, o filme que a colocou no mapa global. É a narração em primeira pessoa do colapso da Nova República Brasileira, tenu do impeachment de Dilma Rousseff e a eleição de Bolsonaro, passando pela prisão de Lula. Petra narra o filme com a própria voz, e a voz dela é uma voz baixa, contida, quase hipnótica.

Ela não grita. Ela não acusa. E, no entanto, ou talvez por isso mesmo, o filme provocou uma reação violenta no Brasil bolsonarista, que a acusou de fazer propaganda. A indicação ao Oscar veio em 2020. Ela perdeu para a American Factory, mas ficou.

Há uma questão que vale a pena olhar com calma aqui. Petra Costa não é uma cineasta que faz filmes sobre política. Ela é uma cineasta que faz filmes sobre instituições, como elas se formam, como se sustentam, como se deterioram.

A diferença é importante. Quem faz filmes sobre política, tende a perseguir personagens. Quem faz filmes sobre instituições, persegue estruturas. E Petra, formada em antropologia, filha de militantes, irmã de uma artista que não sobreviveu ao próprio luto, trata cada personagem dos filmes dela como um sintoma de algo maior.

É isso que nos traz a Apocalipse nos Trópicos, uns opiniões do passado, porque, se democracia em vertigem era sobre a erosão das instituições republicanas no Brasil, Apocalipse nos Trópicos é sobre o que veio ocupar esse espaço.

E o que veio ocupar esse espaço, segundo a tese do filme, é uma leitura apocalíptica da história, ancorada em lideranças neopentecostais que transformaram o discurso religioso em operação política. Na entrevista à agência pública, Petra foi direta.

Ela disse, e eu parafraseio, no Westin, que visões apocalípticas da história ganham força em momentos de crise. Que o apocalipse, no imaginário cristão, não é apenas o fim. É também a promessa de um recomeço purificado.

E que quando uma sociedade perde confiança nas instituições laicas, em tons do crimes, no congresso, no judiciário, na imprensa, na ciência, em tão cinco ônus no U, ela começa a procurar em outros lugares sentido para o caos. É nesse vácuo que entram figuras como Silas Malafaia. Vamos falar de Malafaia por um instante, porque sem ele não se entende o filme.

Silas Malafaia é pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, uma das denominações mais influentes do neopentecostalismo brasileiro. É, há décadas, uma das figuras religiosas mais midiáticas do país. Tem programa de televisão, tem canal no YouTube, tem presença constante nas redes sociais. E, desde 2018, tornou-se interlocutor privilegiado de Bolsonaro junto ao eleitorado evangélico.

Petra conta, no filme, que Malafaia foi central na construção da imagem de Bolsonaro como candidato cristão. Apesar do histórico político dele, apesar do divórcio, apesar de tudo que, numa leitura estritamente doutrinária, poderia desqualificá-lo. Não é coincidência, é estrutura. O que Petra mostra é que a aliança entre Bolsonaro e parte da liderança evangélica não foi um acidente biográfico.

Foi uma operação política, construída ao longo de anos, com métodos, com estratégia, com divisão de tarefas. Malafaia cuidava do discurso. Bolsonaro cuidava do voto.

E o eleitor evangélico, E.A. 56, que segundo estimativas recentes, representa algo em torno de 30% da população brasileira, com mídia zero, encontrou nessa aliança uma narrativa sobre o próprio lugar no país. O filme Segundo os Relatos Disponíveis culmina nos atos de 8 de janeiro de 2023. E Petra lê aquele episódio, A Invasão das Sedes dos Três Poderes em Brasília.

por apoiadores de Bolsonaro, assim, como uma espécie de parábola do Armagedon. Não no sentido literal, claro, no sentido simbólico. Para os participantes daquele ato, segundo a leitura da cineasta, não estava em jogo apenas o resultado eleitoral.

Estava em jogo uma batalha final entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas, entre os eleitos e os condenados. E essa gramática, 5S10, a gramática apocalíptica, 5S10, que o filme se propõe a decifrar. Há controvérsia, então. Por que há controvérsia?

Setores evangélicos progressistas encontra prazerem e eles existem, e são muitos, embora pouco midiáticos, manifestaram desconforto com o filme. A crítica principal é a de que Petra teria dado protagonismo excessivo à Malafaia, elevando-o à condição de síntese do mundo evangélico brasileiro, quando na verdade o campo religioso no Brasil é muito mais plural. Há evangélicos de esquerda.

A teologia da libertação em versão protestante. Há pastores negros, pastoras mulheres, comunidades periféricas que não se reconhecem nem de longe no projeto político de Malafaia. Ao concentrar o foco em uma figura, o filme correria o risco de achatar essa pluralidade. É uma crítica séria. E Petra, na entrevista à agência pública, estilmanou a própria escolha.

Ela argumentou que Malafaia foi escolhido não porque represente todos os evangélicos, mas porque representa a articulação específica entre liderança neopentecostal midiática e poder político executivo no Brasil dos últimos sete anos. Em outras palavras, o filme não é sobre o cristianismo brasileiro. É sobre um projeto político que utilizou uma leitura específica do cristianismo para chegar ao poder.

E, nesse recorte, Malafaia é, sim, figura central. Há também a reação do próprio pastor. Relatos indicam que Malafaia assistiu ao filme em cinema e que teria saído aos gritos, indignado com o retrato. Fez críticas públicas. Acusou a diretora de má fé. É uma reação esperada. Diga-se.

Ninguém gosta de se ver retratado a partir de uma ótica que não é a sua. Mas há algo de revelador no desconforto. Porque o filme, segundo quem já ouviu, não inventa falas, não fabrica cenas. Usa material documental, discursos públicos, imagens de campanha. O que a cineasta faz é o trabalho clássico do documentarista, montar. E é na montagem que nasce a interpretação. Agora, por que este momento importa?

Por que falar de Petra Costa nesta semana e não em outra? Eu cobria a América Latina durante 17 anos. E posso dizer com alguma segurança. Poucas vezes o Brasil foi tão mal compreendido pela imprensa internacional quanto na última década. E o seu tempo? 11. Os correspondentes chegavam. Cobria uma eleição. Tentavam aplicar grade de leitura europeias ou norte-americanas a um país que não cabe em nenhuma delas.

E partiam, na maioria das vezes, sem entender o peso específico que a religião, a família e a televisão têm na construção da opinião pública brasileira.

Petra Costa, por ter um pé no Brasil e outro no circuito internacional, Secreto Colombiá, Netflix, Oscar, festivais, secreto com muito secreto, virou uma espécie de tradutora. Traduz o Brasil para fora. E ao traduzir, também força os brasileiros a se verem de uma certa distância. Isso tem custo. Ela é atacada pela direita, que a vê como porta-voz de uma elite cultural desconectada.

É questionada pela esquerda, por vezes, por dramatizar demais. Por colocar a própria biografia no centro dos filmes.

por narrar com voz suave assuntos que, para muitos, exigiriam indignação. Mas essa posição não pode ser guardada nos coito. A de quem está no meio, sendo puxada dos dois lados, não pode. É talvez a posição mais produtiva para quem quer fazer cinema documental no Brasil hoje. O que Apocalipse nos Trópicos nos oferece, no fundo, é uma hipótese sobre o que aconteceu com as instituições brasileiras nos últimos 15 anos.

A hipótese é a seguinte, quando a confiança nas instituições laicas se deteriora, abre-se espaço para instituições de outra natureza, igrejas, redes sociais, lideranças carismáticas e seiscenta, ocuparem o vácuo de autoridade.

E a política passa a ser disputada em termos que não são políticos. São escatológicos. São finais. São definitivos. Não se negocia com o fim do mundo. Se luta contra ele ou se rende a ele. Essa é uma tese que vale para o Brasil. Mas vale também para outros países da região.

Eu vi algo parecido acontecer na Bolívia, vi pedaços disso na Colômbia, vi a Guatemala inteira organizada em torno de polarizações religiosas que confundiam qualquer analista político convencional. O neopentecostalismo como força política não é um fenômeno brasileiro, é um fenômeno continental. E o filme de Petra, ao mirar no Brasil, está mirando, por extensão, num desenho muito maior. Há uma dimensão geracional também.

Petra Costa tem 41 anos. Pertence a uma geração de cineastas brasileiros. Guerrins e Guerrins. Penso também em Maria Augusta Ramos. Em Ana Mui-Laert. Em Elisa Capay. Guerrins que cresceram no pós-ditadura, viram a nova república se consolidar na infância, viram-na desmoronar na vida adulta e agora fazem filmes sobre esse desmoronamento.

É uma geração que não tem ilusões, que não acredita em finais felizes institucionais, que cresceu ouvindo dos pais sobre a tortura nos porões da ditadura e que viu, com os próprios olhos, o filho de um coronel da reserva ser eleito presidente da república num país de 200 milhões de habitantes. Isso me afeta. Confesso.

porque é a minha geração, também. E quando vejo Petra Costa narrando com aquela voz baixa as sequências do filme dela, eu reconheço algo. Reconheço o esforço de uma pessoa que está tentando, com as ferramentas que têm, melhores a maneiras naturas, a câmera, a montagem, a narração, melhores a maneiras, entender um país que continua se recusando a caber em explicações simples.

A história, quando se olha bem, tem uma direção clara. E a direção, no caso brasileiro, aponta para o momento em que as instituições republicanas tradicionais vão precisar, nas próximas décadas, ou se reinventar ou serem substituídas. Por quê? Porque as igrejas. Pelas redes. QuietPlease.ai. Hear what matters.

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