Sexagésimo quarto episódio - Nuno Dias
Sexagésimo quarto episódio - Nuno Dias
- Indústria MusicalArtistas 360 e gestão de carreira · Declínio da imprensa musical e ascensão de influencers · Mudança no consumo de música e foco · Estratégias de lançamento de singles vs. álbuns · Dificuldade de viver apenas da venda de discos
- Festivais de MusicaCrescimento e atratividade dos festivais · Problemas com o som em concertos e festivais · Uso de telemóveis em concertos · Diferença entre ouvir música e experienciar concertos · Experiência de concerto de Kendrick Lamar
- Vendas de discos de vinilVendas de discos físicos em Portugal · Diferença de preço entre CD e vinil · Impacto do digital nas vendas de música · Futuro do formato físico · Novas lojas independentes pós-pandemia
- Colaborações MusicaisMenos bandas e mais artistas individuais · Rentabilidade de projetos colaborativos vs. individuais · Individualismo na sociedade e impacto na música · Desafios financeiros para bandas
- Vida no presídio de TremembéGentrificação e preços proibitivos em Lisboa · Identidade cultural e vida própria do Barreiro · História operária e luta social no Barreiro · Associações e atividade social no Barreiro
- Música pop globalDificuldade em compreender o fenómeno Taylor Swift · Produção musical e melodia vocal · Apelo juvenil e infantil-juvenil · Comparação com Harry Styles e Billy Eilish · Movimento cultural e afirmação feminista em artistas pop
Cá estamos com Tiago Ferreira
Ouvintes da Rádio Universitária de Minho, cá estamos, hoje com o Nuno Dias. Olá, Nuno. Olá, Tiago, como é que estás? Estou bem, obrigado por teres vindo até Braga, que eu sei que é uma coisa que, de certa forma, te custa. Nuno, vou pedir, apesar de nós já nos conhecermos há muito tempo, que tu te apresentes, por favor, para os nossos ouvintes. Olá a todos, eu sou o Nuno Dias.
Poderia dizer que sou um agitador musical, trabalho em música desde 2009, trabalho na Popstock Portugal, é uma distribuidora de música e faço assessoria, marketing, venda de todos os artistas que trabalham em Portugal.
que nós representamos e nas horas várias também passo música e não sei, a minha vida é um bocado à volta da música. Tu vives no Barreiro, não é? Atualmente vivo no Barreiro. E eu acho o Barreiro uma terra fascinante, não é? E tu fazes parte de um grupo de pessoas que de certa forma foi empurrada para fora de Lisboa por causa dos...
Da gentrificação e dos preços. Preços proibitivos. E eu tenho muito interesse nisso. Como é que é a vida do barreiro hoje em dia?
Eu também, quando estudei no Porto, vivia nos arredores, portanto, vivia na periferia. Portanto, viver na periferia de Lisboa, que é o barreiro, não me faz grande diferença. Portanto, é uma... acho que até é natural.
e é uma cidade que tem vida muito própria, portanto tem história, e a nível cultural tem bastante vida, e é uma cidade que fervilha, que tem montes de bandas, tem salas de ensaios, tem gravação, o Nico Nicotino, portanto também há um culto, há uma história envolvida com o Barreiro Rox.
com as bandas todas do Outfest, portanto, é um... Pode parecer periférico, pode parecer periferia, mas não me parece tão periférico quanto isso, portanto, tem quase tantas coisas a acontecer como Lisboa atualmente, portanto, não foi uma mudança, portanto, claro que foi forçada por causa dos preços proibitivos que existem hoje em dia e que muitas das vezes a nossa carteira não consegue comportar.
mas ao fim e ao cabo é uma cidade que tem identidade muito própria, não é aquela periferia sem vida como é Odivelas ou Amadora, no caso de Lisboa, mas tem um cunho muito próprio, tem bastantes coisas a acontecer e acho que isso foi uma das razões que me levou para essa periferia. Estava a ler esta semana um texto sobre...
as greves que aconteceram nos anos 40 no Barreiro e que fizeram com que o Barreiro estivesse como que ocupado policialmente até o 25 de Abril. Ou seja, na altura era uma vila, agora uma cidade bastante agarrida. E que sempre teve um cunho muito próprio, isto é, a situação do Alfredo da Silva construir uma cidade dentro da CUF para as pessoas irem trabalhar para lá com cinema.
Portanto, todas as pessoas, aquilo era um agregado de pessoas de várias localidades do país que trabalhavam na indústria de fábricas, não é? E que tiveram sempre uma grande importância e dedicação pela luta operária. E isso tu ainda notas hoje em dia muito a intensidade das pessoas em querer fazer coisas e lutar por coisas no barrilho. Há muitas associações.
Há muitos torneios de coisas a acontecer, portanto, acho que há ali muita atividade social, muito impacto social das pessoas em querer participar, em fazer coisas. E isso, opá, isso é interessante. E, sei lá, tens o Pacheco Pereira que tem os armazéns dele, da efêmera.
Tens os armazéns da CP que é um cunho muito forte no Barreiro. Os Ferroviários, há um bar que se chama Ferroviários, que tem aquele cunho, tem muito ligado com o trabalho, não com os colaboradores de hoje em dia como iniciativa liberal.
quer em Cotimas com o trabalho e sempre foi uma cidade dormitório entre aspas é uma terra de gente trabalhadora isso deve ser interessante sim, sim, sim tu, como muito bem disseste trabalhas para vender música, vender discos e eu tenho muito interesse nisso vendem-se muitos discos em Portugal nós não vendemos mal vou ser sincero para uma... nós...
No espectro, somos os considerados índios. Índios porque, independentes, não temos uma major a trabalhar connosco. Isto é, as editoras podem parecer majors, mas nós não temos o... Para eu perceber, qual é o melhor artista que tu tens no catálogo? Atualmente, diria Radiohead. Radiohead. Há uns anos seria Adele, mas Adele saiu...
o primeiro disco da Adel foi editado pela XL Recordings que é a editora de Prodigy que editou o Fat of the Land o disco vendeu mais da editora, portanto foi um marco o Fat of the Land reventou em 96 mas seria Adel se Adel não tivesse sido para uma major que é a Sony mas nesse campeonato atualmente diria que são os Radiohead e tu que tens acesso ao número de discos que se vendem e...
No território português é ridículo. É ridículo? Semanalmente, sim. Tu se vendeste sem discos e tiver... Se a loja estiver associada... Se calhar estou aqui a me ter inconfiliências, mas... É para isso ir certo. Claro, toda a verdade. Toda a verdade. Não, mas os números de venda... Há muitas lojas que vendem, mas que não estão associadas ao AFP, à associação que controla. Portanto, se calhar vendem-se muito mais, mas que entram dentro do top, tu se venderes um gemísero e se tiveres registado... Não...
Se vendeste 50 discos na FNAC, possivelmente entres no top semanal. Claro que tens que vender isso e agora também há umas métricas por causa do digital.
que tu ouves nas plataformas digitais, imagina-se, existem 50 mil reproduções do disco, equivale à venda de X álbuns, estás a perceber? Portanto, há uma métrica, uma equação, para compensar as reproduções digitais e as vendas. Mas sim, no nosso caso, no caso da Popstock Portugal, acho que não se vem de mal, o nosso catálogo é bastante forte. Vem ir ao CD.
No início da pandemia houve um aumento bastante considerável para vinil. Não sei, se calhar não havia festivais, não havia concertos. O dinheiro ia mais canalizado para uma peça, uma relíquia, entre aspas, uma peça mais cuidada, que seria o vinil.
Agora já... Estou-te sempre a interromper, mas se tu lançares um disco, se os Radiohead lançarem um disco amanhã, a quanto é que saem o vinídeo e a quanto é que saem o CD? De preço de loja. Sim, sim, de preço de loja. Há uma diferença, sei lá, tu és capaz de comprar um CD de Radiohead de 13,99 numa cadeia de supermercado francesa e vinídeo comprar-se por 25. Ok, perto do dobro.
Sim, mas normalmente também é um duplo vinil, é um 2LP, o preço é muito mais acessível, mas eu diria que hoje em dia, nas nossas vendas, lá não há a volta dos, se calhar está a tipo 45 CD, 55 vinil, mas na altura da pandemia o CD levou uma queda bastante considerável, deve estar nos 30%. E tu, com certeza que sim, mas achas que isso é um mercado com futuro, achas que as pessoas vão continuar a comprar formatos físicos?
Eu acho que sim, eu ouço essa história. Tu sabes, eu fui para Lisboa em 2009, comecei a trabalhar na Popstock num ano que o digital já tinha existido o Napster, já existia o Solsic e sempre havia essa morte anunciada do formato. A crónica da morte anunciada da venda de formatos físicos.
Eu acho que, ok, que não se vende a mesma coisa que se vende com o meio dos noventas, porque os noventas vendiam-se bastante, eram, como se diria, o tempo das vacas gordas, nem no início de 2000, mas eu acho que...
Há boas vendas, existe mercado, existem bastantes lojas, sei lá, há muitas lojas independentes que abriram pós-pandemia em Portugal, se calhar porque falhava. Há boas que abriram? Sim, sim, a Tubitec, temos uma loja nos Açores, que não faz, sei lá, duas, três encomendas por ano, portanto há uma zona que está apetrechada com discos nossos, ou que pode apetrechar-se discos nossos.
Mas eu diria que sim, que se vende disto, não são os mesmos números do que os anos 90, mas ainda há um catálogo forte que tem escoamento. Sei lá, temos os Radiohead, temos o Black Catalog dos Vampire Weekend, apesar dos Vampire Weekend não trabalharem por nós, mas depois temos uma série de artistas que ainda vendem discos.
se calhar, tipo, é geracional, os National, os Bar House, os Cocteau Twins, portanto, é um back catalog da Beggars, que é uma das distribuidoras que nós trabalhamos, que ainda vendem, e depois temos uma série de novos artistas que ainda têm fidelização, diria.
os Big Thief, as Angel Olsen desta vida Panda Bear portanto e não são artistas que têm algum contacto com o público e isso dá-nos prazer saber que o disco é apresentado e chega à loja e a loja é capaz de fazer uma reposição a pessoa passou de ver alguns dias e isso na pandemia foi um bocadinho complicado como quase todos os os negócios de venda acho eu com o Facebook com o Facebook
estabilizou e normalizou e acho que não temos qualquer tipo de problemas com vendas são os números de Outrora nem de Espanha mas os vossos números mas estás-me a dizer que mesmo eu tenho alguma dificuldade quem será o maior artista hoje em dia será que é Taylor Swift ou uma coisa do género ela vende muitos discos ou está tudo no digital o grosso do volume está no digital
Nesses casos, está mais no digital, os Bad Bunny, os Drake, por exemplo, ainda agora Bad Bunny, foi a Rosalia que esteve cá há pouco tempo. Por certeza. E o disco já se saiu há uns meses, mas o disco voltou a entrar no top, se calhar houve algumas vendas residuais por causa dos dois concertos, mas as reproduções, esses artistas vivem muito das reproduções, são fenómenos da reprodução digital, porque estás a falar de um produto ou de uma artista.
Que é global. E não é só ser global, é mainstream. Apesar dos radio ads serem mainstream, mas nem toda a gente vai ouvir radio ad, não é? Digo eu, tipo, é diferente. Estás a falar num campeonato pop e estás a falar num campeonato pop rock ligeiro, não é?
Mas sim, esses artistas ainda continuam a vender, mas, sei lá, são considerados agora artistas 360, que é que as editoras fazem a carreira toda de tudo que está envolvido, com o management, agenciamento, portanto, música para publicidade, portanto, são artistas que são virados mais para esse...
historial, fazer tudo à volta não é só vender discos, é tratar da carreira tratar de concertos, da música para publicidade portanto e o aquilo que é a vida dos músicos que tu acompanhas a sensação que tenho é que está mais difícil porque ela se extremou sim, tu tens houve muitos que estavam numa classe média que foram empurrados para o madurismo e
E houve outros que ascenderam a... Sim, nós temos... Já tivemos mais, mas nós acompanhamos... Temos às vezes possibilidade de ter os artistas em Portugal para fazer dias de promoção, para promover o disco. Que era uma coisa que era muito famosa nos anos 90, mas quando um artista é muito forte no nosso território, por exemplo, Patrick Watson, Beach House, Wet Leg, nós temos possibilidade de pedir um dia à editora para ter o artista no território.
O que existe agora, muitas das vezes, para além da venda do disco, que é uma coisa residual, o artista não pode viver só da venda do disco.
tens uma clivagem muito maior de que as turnéis já não acontecem tanto nos clubes pequenos e passaram para o festival. E tu aí crias uma clivagem muito grande. Eu percebo aquilo que tu estás a dizer do amadorismo, mas o artista agora, agora, quando tenta vir a Portugal e tu muitas das vezes perdes todos...
O artista já não vai àquele concerto numa sala de 200, 300 pessoas porque não lhe vai compensar. Portanto, tenta sempre o manichote de um festival de verão ou de um festival que antigamente existia, que era o Mesh Fest, aquele de fechado. Mas sim, eu percebo aquilo que tu estás a dizer do amadorismo. Eu acho que os artistas ou agenciamentos já tentam catapultar o artista médio.
para o início da tarde de um festival grande, estás a perceber? E então tu aí perdes aquele clássico como nós tínhamos muitas vezes na nossa vida de ir a um maus hábitos, a uma quarta-feira, ver um concerto para 30 pessoas. Sim. Sim. Mas eu também fico com a sensação, apesar de não estar muito por dentro, que a imprensa também desapareceu quase. Sim, completamente. Eu sinto isso... Onde é que ela está agora?
Não sei, os influencers, que é uma coisa que me irrita. Mas é isso? Sim, é uma coisa que existe hoje em dia, mas que eu não me revejo. Por exemplo, no nosso tempo lembras-te, não sei, estou a falar por tu, não acho que não há problema nenhum, mas lembras-te que nós tínhamos pessoas que nos passavam informações, tínhamos amigos que eram referências, ou íamos a um blog.
Mas havia imprensa? Exatamente, mas tinhas a Mundo Bizarro, que eras capaz de ler uma crónica de um jornalista qualquer que seguias e gostava. De 500 revistas de discos? Exatamente, e tu agora não tens isso, tens um influencer qualquer a fazer um vídeo de 30 segundos muito rápido e tem que ouvir isto. Não.
Eu sinto falta de uma crítica, mas eu também, sei lá, eu já tenho 42 e consigo-me orientar mais ou menos entre os meus gostos e ainda sigo hoje mesmo as referências de sempre. Tenho alguns jornalistas portugueses que agora não têm espaço, mas que sigo-os.
Mas sim, desde 2009 existem muito menos espaços de opinião e mesmo os que existem estão reduzidos a duas crónicas por semana, quando tu tinhas em 2009, seis críticas a discos e isso, sei lá, é um bocado aquilo que eu queixo-me que é...
A cozinha veio tirar o lugar, tornou um bocado as cozinhas rockers, estás a ver? Tornou a cena pop e tu agora tens muito mais espaço, sei lá, a nova cozinha que abriu, o novo prato, vocês têm que visitar, parece que isto é que é a cultura e tu não tens a nova exposição, a nova pintura. Mas é sinistro porque na verdade continua-se a ouvir imensa música. Sim, sim, sim.
Até de uma maneira extraordinariamente facilitada e livre. Certo. Tu podes ouvir. Democratizada. Democratizada. Sim. Mas não há, ou parece-me que não há editores. Eu acho que... Ou há. Eu acho que há, eu acho que...
Não é rentável, será? No ponto de vista do editor, não deve ser rentável falar de música, está vendo? Dá muito mais, sei lá, dá muito mais visibilidade falar de um novo restaurante que abriu não sei aonde, do que um disco que é, ah, é música, estás a perceber, vais ouvir uma vez, e se quer não, não sei, o seu artista vem cá, tem muito mais exposição do que um disco que vai sair.
Antigamente tinhas, era o disco saía e tinha um concerto, davas muito destaque ao quando o artista vem cá. Agora parece que só dás destaque quando o artista vem cá e então esqueces de um bocado do disco que foi editado. Tu achas de alguma forma que o formato do disco também está um bocado desatualizado?
Porque foi criado por uma limitação técnica, que era o tempo, aquele que era o running time de um LP. De um vinil, sim. De um vinil. E passou da boca. E criou uma espécie de standard, que era fazeres um disco com 40 minutos, 50 minutos por aí. Eventualmente, tu não achas que isso aí pode estar a desaparecer?
Se calhar não existem tantas pessoas onde podem reproduzir... Ou com paciência, para ouvir um disco de uma ponta à outra. Sim, mas isso aí vamos para uma conversa muito mais complicada que é a internet mudou completamente a tua leitura do que quer que seja. Por exemplo, tu não lês tanto, portanto a tua capacidade de foco...
É muito menor, agora do que há 15 anos, e eu acho que a internet mudou os nossos, e mesmo a forma como tu tens acessibilidade à música, que é num telemóvel, antigamente tínhamos num iPod, mas agora não temos o iPod, passamos a ter diretamente num Spotify da vida, num Tidal.
e tornou-te um leviano a maneira como tu tens essa acessibilidade antigamente, sei lá, eu quando comprei o meu primeiro disco, ouvi Adi Terno, o meu disco e as primeiras cassetes que tu arranjavas, eu arranjei o Inutro, passado, sei lá 10 anos do Inutro ter saído e ouvi Adi Terno o Inutro agora eu acho que
Como a informação é tão dada de forma tão... de uma catapulta tão rápida, não é? Está sempre a ser disparado. Mas que a capacidade de foco e de concentração de um miúdo de 15, 16 anos é diferente da nossa. Nós somos pessoas mais... Eu ainda consigo ouvir discos porque gosto. Não consigo avaliar um disco se ouvir só duas músicas. Certo, mas isso forará.
Por causa? A forma do consumo, sim. Tu tens bandas que vão editando discos no final do ano e vão lançando os singles ao longo do ano. Tu tens artistas hip-hop que fazem isso, R&B. Portanto, é muito mais rentável. E o que eu estou a falar, estou a falar de casos pop, que são artistas portugueses que preferem viver do streaming porque são coisas que sabem que lhes vão dar imensas reproduções, tanto no Spotify como no YouTube.
E eles, como toda a gente, têm que ganhar a vida, por isso ganham a melhor assim. Exatamente, é bom fazer, lançam canções todos os meses e vão tendo, portanto, mielheiros todos os meses. E só depois, ao final, é que compilam as estratégias. Isso é uma estratégia tanto do artista como da editora que lança esse tipo de... Agora, se tu dizes, eu ainda gosto de pegar, sei lá, gosto de descobrir música nova. Todas as semanas ouço música nova, tenho que falar sobre a música que vou apresentar às lojas e, por consequente, tenho que ouvi-la.
Mas, sei lá, eu não me enquadro no padrão atual da maioria das pessoas, estás a perceber? Do consumo atual. Do consumo atual, sim. E tu achas que o facto de... Esta agora está tudo misturado, não é? Porque, na verdade, existe a música, mas a música está muito mediatizada na internet.
e a música originalmente não foi pensada assim... Como produto. Como produto. Tu achas que ela está a sofrer com isso? Sim, acho que sim, acho que sofre todos os dias. Ou estás tu a ficar velho? Pode ser o caso de tu não estás a perceber...
Ah, sim. Nós estamos a ficar velhos e é natural que nós não percebamos muito bem o que é que pessoas com menos de 20 anos do que nós estão a fazer. Eu às vezes fico a pensar, será que isto está errado ou é simplesmente o tempo a passar? São as modas, não, são as novas formas de consumo.
Mas tu ainda podes consumir, ainda temos essa possibilidade, enquanto algo, portanto, nós ainda somos uma editora que vende discos, o digital não é canalizado, entre aspas, é canalizado, mas é canalizado por Londres, no nosso caso. Mas nós ainda dependemos bastante, para além do trabalho de assessoria que fazemos, da comunicação que fazemos com a imprensa, portanto, ainda...
Dependemos bastante do produto da venda física, portanto ainda é uma coisa que, se calhar também porque vendemos um tipo de produto que ainda vai para uma determinada geração que aprendeu a consumi-la. Sim, mas que daqui a 30 anos está morta, se calhar.
Mas se calhar passam informação aos pais, aos filhos. Eu acho que sim. Eu acho que sim. Sim, por exemplo, os meus pais não eram grandes consumidores de música. Mas também não. Ouviam rádio, não tinham discos, mas... Até que tinha uma casa estranhamente silenciosa. Depois eu e o meu irmão ficamos ofuscados com música por uma casa tão silenciosa.
Estás a perceber? Eu aprendi a consumi-la. Os meus pais, eu acho que isso não é que seja geracional, se calhar é geracional, mas eu acho que ainda há miúdos que ainda percebem o formato. Estás a perceber? Acho que, especialmente a música independente, quando eu te falo de música independente alternativa, acho que ainda há uma parte dessa população desses miúdos que ainda consomem o produto.
Agora, não sei se daqui a 10 anos ainda poderei ter esta conversa contigo. Agora, eu estou neste trabalho há 17, mudou, mas acho que ainda se consome. Mas não mingou.
Atualmente não. Atualmente não. Atualmente não, que é uma coisa que eu sempre pensei, especialmente porque, sei lá, eu estava com a cabeça à prazo, não é? Claro. Todos nós que trabalhamos neste terreno estamos com a cabeça à prazo e era uma coisa que me assustava. Claro. Porque sabíamos com a entrada da internet, da maneira como a música é consumida em festivais, se as bandas não fazem uma tour, não vêm cá, tu não vais vender discos.
mas acho que não, acho que se consome. Outras duas coisas que eu queria falar contigo sobre música. A primeira é, eu acho que há cada vez menos bandas e cada vez mais artistas. Tu também notas isso no vosso catálogo? Sim, sim, sim. Tens artistas pop, tens individuais, música eletrónica, DJs, produtores, sim, tens mais.
Ou seja, eu também fico com a sensação, muito pouco informada, mais intuitiva do que propriamente informada, de que o formato banda é um formato um bocadinho desatualizado. Sim, mas continuo...
Lá está, eu posso parecer aquela pessoa que ainda é positiva, como aquelas histórias que nós ouvíamos no nosso tempo que o rock ia morrer, lembras-te disso? Claro. Eu continuo a descobrir boas bandas de rock e portanto ainda existem menos. Existem menos e não existem tão grandes.
acho que é muito raro sei lá, tiveste o caso agora de Fontaines DC que reventou se calhar há três anos pós pandemia sim, mas comparar Fontaines DC com U2 que são do mesmo sítio tem, pronto duas bandas irlandesas que não tem comparativo sim, tens poucas bandas que reventem em formato banda tem Impala se calhar mas é uma pequena inclusão são
relativamente àquilo que foram as grandes bandas Sim, com os Coldplay estamos a falar de bandas intergalácticas entre aspas Mas mesmo assim, estás a falar de bandas como Coldplay que começaram nos anos 90 Sim, sim, sim há menos, mas acho que ainda há um circuito que existe de banda Mas porquê que é assim? Tens alguma ideia? Porque eu não percebo Eu não sei, também por exemplo tu tiveste banda inicial tiveste um projeto do, tiveste banda Eu não sei
A música reformula-se, mesmo também criativamente, eu não sei tocar nada, como sabes, se nós tivermos um projeto zebra, ainda bem que não saia do estúdio, mas eu acho que isso parte muito também de quem é músico, estás a perceber, ou como se sente bem a fazer música, mas eu acho que ainda existem bandas, eu acho que estão muito mais concentrados. Eu especulo de duas possibilidades.
Uma possibilidade... Rentabilidade. É dinheiro. Sim, sim, claro. Quem manda nisto diz, ah, eu consigo vender mais discos se eu tiver o Harry Styles em vez dos One Direction.
Ou uma coisa ainda mais sombria ainda, que é as pessoas têm menos capacidade de estarem em projetos artísticos colaborativos, só querem estar com elas. Sim, mas sabes que tu estás numa fase muito individualista da sociedade e isso também pode-se rever. Mas eu acho que há meio, não é acho, eu acho que ainda continuam a haver bandas.
Não sou tão... Não vejo essa... Não parece que é apocalíptico aquilo que estás a dizer. Percebo aquilo que estás a dizer, mas não tenho essa... Demonização, parece que estás a dizer, é mais rentável. Sim, se calhar.
Se não teres uma banda de duas pessoas ou três é muito mais rentável que teres o gajo das maracas e o gajo do teclado, mas acho que ainda há bandas a serem criadas e a fazerem discos, estás a perceber? Agora não sei se isso será tão um plano de marketing de editoras ou de rentável, eles já estão a prever que é melhor rentabilizar todos os cursos que vamos ter.
mas acho que sei lá, se for só para viver de discos acho que a maioria das bandas não vivem de discos tu sabes perfeitamente disso é impossível tem que ser o grosso de teres uma tour apresentares e possivelmente venderes não é legalizares mas associares a tua música a uma publicidade, a uma série direitos de autor e aí pronto tens uma bolsa monetária eu lembro onde ficar é é
Surpreendido com o quão não faustosas eram as vidas de montes de artistas que eu pensava que tinham vidas até bastante difíceis. Sim, sim. Que eu pensava, não, pronto.
Por exemplo, eu conheci bastantes artistas que simplesmente gostam de estar chileques a beber uma cerveja contigo e de falar de coisas triviais que não música. Porque eles já são bombardeados com perguntas tão, sei lá, ou com exigências tão chatas de editora, de jornalistas, que quando, por exemplo, no meu caso, que muitas vezes tenho que fazer acompanhamento...
Ou levar o jornalista, ou tenho que passar uma boa hora com ele. São gajos normais, são miúdas normais, que só querem ter a distância mais normal da vida deles para não estar sempre a carcar com aquilo. Sim, são pessoas que se calhar falam contigo de Wire, como eu estive a falar de Wire com os Beach House, ou falam de expressões de Big Labovski, que...
que nós sabemos de cor tiradas do Seinfeld, portanto são pessoas completamente, pá, tipo, não são faustosas, como tu estás a dizer, são pessoas que gostam simplesmente, pá, que não deve ser fácil de dormir em Lisboa hoje, em Madrid amanhã e em Bordeaux deve ser um inferno, e tu sabes perfeitamente já fizeste tours, não é agradável imagina com 4 gajos numa carrinha, a dar-lhe tracks não é agradável com não é agradável, não é agradável
com 20 e tal de anos, acho que a minha idade hoje em dia... Seria... Debradar ao céu. Eu, por exemplo, muitas vezes fiz air guitar em casa e sonhava também mas eu acho que numa pequena tour não queria mais fazer isto, soubesse tocar bateria. Matavas alguém. Mataria alguém, portanto...
é de louvar muitas das vezes o esforço. Lembro-me de uma vez ter falado com um músico que eu admirava e admiro muito, que era Coben Chesney. Sim, sim.
por ele ter feito parte, a dada altura, de uma banda favorita minha que eram os Comements on Fire e eu pensar que pronto, eu via que eles lançavam discos e tocavam na Europa e andavam por aí e de ele me ter explicado o desastre financeiro que era tocar numa banda como Comements on Fire porque não... E com excesso, uma banda com excesso, se calhar... Sim, era muito difícil...
E às vezes enfabula-se um bocadinho a vida do que é um músico, mas acho que a maior parte dos músicos são os grandes operários que andam a trabalhar. Sim, é de louvar. Eu respeito ao máximo, por exemplo, quem vive totalmente da música, que não tem um segundo trabalho. Muito difícil. Muito difícil. É muito difícil. É carlice.
é dedicação sim e é um amor respeito muito quem faz e quem tem paciência para ir para um estúdio criar e compor para depois viver daquilo, fazer da vida só aquilo e em Portugal chegar a termos com uma verdade que é vou ser pobre
Sim, porque não tens um circuito. Atualmente é uma coisa que, sei lá, quando nos conhecemos, havia um mini-circuito em Portugal. Tinhas, sei lá, havia Porto, Braga, Santo Tirso, mudavas a Viana do Castelo, depois se calhar ias ter o clube biónico, a Bragança, depois dávamos um pulinho a Vila Real.
Depois a Lisboa, desciamos a Setúbal, tinhas um circuito, agora tens poucas salas, as salas que fazem concertos se calhar não vão apostar em coisas… Mas há outra coisa que eu queria falar contigo, que é, efetivamente desapareceu esse substrato militante médio da música portuguesa, mas…
Eu fico com a sensação que os festivais de verão estão cada vez maiores e com cartazes absurdos. E que deve ser autofágico. Sim. Não, mas eu acho que agora também funciona muito com turistas, não é? Porque há muitos, porque como os festivais baratos são, os portugueses são comparativamente baratos aos estrangeiros,
Há muito bife que vêm por aí fora para curtir um festival português. Sim, então estás a falar num festival português que custa 150 euros. Um festival lá fora... Custa dobro. 250, 300. Para além de teres a cerveja barata, comida que é fast food a maioria das vezes, mas que é estupidamente mais acessível. Mas como é que se explica que haja tanto festival grande em Portugal? Eu... Estes estão cheios. Tu andas mais neles, com certeza? Estão sempre cheios.
Primavera está cheio Paredes de cora está cheio Calorama está cheio O Calorama no ano passado não estava cheio Mas este ano com o cartaz que tem com Lara Neal E aquelas bandas da moda tipo Turnstyle Então de certeza vai levar este revamp Desta recuperação Que os ciclos são de 20, 30 anos Das bandas, 25 anos Exatamente
portanto há público sei lá, eu vi eu fui ver Deftones, portanto sabes que gozas-me bastante com isso e eu aceito mas Deftones ficou no Primavera e nós estávamos estávamos na fila da frente e já víamos miúdos de 13, 14 anos porque houve um revamp de Deftones nas redes sociais
E os miúdos estavam lá na frente, portanto… Ah, então os festivais estão cheios. Sim, sim. Estão cheios. Sim, mas eu trabalho disto desde 2009, já era frequentador de festivais antes. A mim causou-me um… já fico cansado de mover-me de um palco para o outro, de aturar sucalcos de relva.
tens que andar ali numa dinâmica que é insuportável se vamos entrar num momento geriátrico o meu problema com o festival de verão é na verdade o meu problema com quase qualquer concerto que é o som
É normalmente, aliás, é muito difícil um concerto ter um som bom. Sim, opa, mas sei lá, eu já não penso nesse tipo de coisas porque senão não sairia de casa. Sim, mas tens que sair profissionalmente. Sim, mas também vou a concertos por, sei lá, 80% dos concertos que eu vou ao longo do ano não são em trabalho, é porque eu quero ir, mas sim, percebo aquilo que tu estás a dizer, as condições não são...
as melhores em festivais, há mil e uma coisas que são, é pessoas a falar, que é uma coisa que eu abomino, que são pessoas que estão ao telemóvel, que são... Pois há muito telefone, não é? Há muito telefone, há pessoas que veem o concerto pelo telefone, há pessoas que estão a falar da vida da... Mas eu acho que isso é o paradigma dos dias de hoje, tu vais num metro, vais num transporte público e tu passas pelo mesmo, são pessoas ao telefone a falar alto, são pessoas a ouvir música alto...
É um novo paradigma de... Eu acho que as pessoas não sabem... Eu vou dizer boundary... Não sabem os limites, não é? Mas sobre o uso do telefone, eu por causa de algumas obrigações profissionais tenho viajado muito na Europa e eu noto que já há uma...
Melhor utilização dos telefones conforme tu vais subindo na Europa, que é uma coisa interessante. Sim, sim, sim. As pessoas já estão menos ao telefone e eu acredito que isto tenha sido um pêndulo que foi muito para lá e que agora eventualmente... Não estou a dizer que de repente a gente vai deixar o telefone em corre. Que tens de fazer um pouco mais. Sim, mas isto do telefone acredito que eventualmente até a coisa possa estar...
Sim, sim, mas eu percebo aquilo que tu dizes que todas as condicionadas de ir a um grande concerto e estás a levar com mau som...
vai-te tornar uma má experiência para mim má experiência, vais ter um se não é outro, vais ter aquele limite que não vais passar aquilo não vou submeter à próxima, tipo vim hoje mas não me vou para a próxima e isso condiciona, estás a perceber? sim, sim isso vai-te sempre condicionar eu acho que eu gosto de ter
meu irmão, que conheces muito bem, e que é como eu um aficionado de música e que ao contrário de mim é um aficionado de concertos. Ele gosta muito de concertos, vai a imensos concertos, viaja para ver música e tudo isso. Aquilo que eu lhe tento explicar às vezes, que é a minha verdadeira e profunda paixão é música, e música é som.
é imaterial, depois podemos, claro que também é outras coisas, também é cultura, também é as capas, também é fotografia, também é vídeos, mas se tudo isso não existir, eu não ficaria triste, por isso que eu gosto tanto de música, eu gosto tanto de ouvir música, e eu sou música numas condições que eu queria para mim, com os meus hospitadorzinhos e com o meu flac e com isso tudo, que...
muitas vezes chega a um concerto e chega ao fim e digo, pá, eu tive o ouvido durante duas horas uma bola de som gigante. Eu acho que tu e o teu irmão têm formas, gosto de música, mas descodificam o produto final de maneira diferente. Claro.
preferes ficar com o primeiro produto que é aquilo que sai do estúdio, mas o teu irmão gosta de viver ao vivo. E eu também percebo isso que ele faz, porque é para mim um expoente de um álbum.
É vê-lo tocar-la ao vivo. É vê-lo tocar-la ao vivo. Pois, para mim. E a mim dá-me bem prazer quando estás a ver uma música que gostas e ela sai com um riff com uma diferente tonalidade que não está no disco, porque é uma coisa que acrescenta e que pinta aquela canção de uma maneira diferente. Mas eu percebo aquilo que tu dizes. Há coisas que também depois não funcionam ao vivo e se calhar eu não vou repetir o concerto. Pois, sim. Não estás a perceber, não é? E é caro. Sim. Sei lá.
Por exemplo, eu fui às... o bilhete mais caro que eu parei, eu fui ver a experiência de Kendrick Lamar ao vivo. Eu nunca fui a um curso... E o que é que chamas experiência?
Porque aquilo sai de um concerto. Cénicamente? Aquilo não é um concerto. Aquilo é um gajo a tocar, a fazer karaoke, que tem a música por baixo e ele a cantar. Não há músicos em palco. Não há músicos em palco. E é um concerto de estádio, coisa que eu nunca tinha ido, ou aquela alusão do concerto de estádio big, tipo U2, anos 90, estádio José de Alvalade. Eu fui ao estádio do Restelo ver o Kendrick Lamar.
isso sim é uma boa experiência mas aquilo ao fim e ao cabo é porque tu conheces as letras e dá-te impacto estás a dizer que não é um espetáculo encantador? não é por exemplo, tu se fosses irias odiar, não por ser rap ou hip-hop é porque o produto final que aquilo é, é muito longe daquilo que tu ouves em disco, acho eu
Estás a perceber? Eu gosto, por exemplo, gosto de hip-hop, mas também há bandas que fazem hip-hop. Tipo, tu tens o Kendrick, já vi o Kendrick com banda. E isso sou-me diferente. Pronto, e são duas perspectivas que eu já vi o Kendrick das duas vezes e o resultado é totalmente diferente, mas bom, não é mesmo, só que, por exemplo, não sei se voltaria a fazer uma segunda de estádio, mas é sempre uma experiência.
E achas que os concertos estão a mudar muito? Tu que vais a concertos? Sim, estão. Se notas, sei lá, especialmente porque já não perde... Há uma coisa que é, as turas já não passam tanto em Portugal.
parece-me que Portugal já não é assim tão atrativo para tours porque não sei, já não compensa tu lembras-te que havia muitas tours que começavam em 2005, 2006 que começavam em Portugal e depois entravam pela Europa e agora já não é se não houvesse um festival que monetariamente seja compensatório agora sim eu acho
Eu continuo a frequentar, sei lá, ZDB, Casa Capitão, em Lisboa, porque é o meio no movimento. Não vou a tantos como ia antigamente, mas continuo a frequentar. Mas sim que sinto que...
também a minha paciência ao final do dia de trabalho também já está diminuída sim, já estou em concentração mas não falo por mim não falando por mim mas falando do concerto propriamente dito acho que sim notas coisas diferentes mas também quando vês coisas boas vês mesmo coisas boas, vi Mark William Lewis
na ZDB foi inacreditável, foi um dos meus álbuns preferidos do ano passado, e vê-lo ali à frente foi fantástico, e também Stila House Plants, uma coisa que também foi bastante refrescante, e não são concertos que me tocam, que tocam, estás a perceber que é uma coisa que acho que, depois ali da pandemia, acho que só ias para concertos para beber copos porque já estavas meio frustrado, de tempo fechado.
E pensavas que os concertos não iam ser tão fixos como antigamente, eu senti isso muito, porque, por exemplo, eu tive dois anos que não havia concertos, foram dois anos fantásticos, eu pensava que não vou trabalhar mais em festivais, que era uma coisa que cansava todos os verões porque tinha que fazê-los todos, tipo quatro festivais, mas depois já começas a ficar com aquilo, quando é que isto volta?
E os primeiros concertos não foram assim tão fios, parecia que estavas mais dedicado a beber uma cerveja e estar a deambular. A deambular, exatamente. Mas acho que agora tu vês, acho que não estão tão diferentes, acho que tens de gostar bastante. Acho que aquilo que me ensinou também a pandemia...
foi, eu só vou àquilo mesmo que quero ver e eu antigamente não e há todos, estás a ver? mas acho que ainda há bons concertos e acho que ainda há respeito tipo, a cena que nós estávamos a falar há bocado dos telemóveis acho que nos concertos de sala pequena ainda há esse cuidado, mesmo de
de gerações diferentes, a nossa idade e mais novos, acho que ainda há esse tipo de cuidado, acho que. Também se calhar por causa do meio em que nos movemos, não é tipo, sei lá, não é de um DJ, não é o pop que nós vamos ver, acho que há mais esse respeito pela pessoa que está a fazer música, acho que é.
E tu, esses grandes nomes, eu fico sempre um bocadinho conflituado, que é o seguinte, eu tenho um gosto musical um bocadinho encalhado, mas sou uma pessoa ao mesmo tempo muito curiosa e tento perceber, e sempre que surge um grande artista eu tento perceber porque é que ele é grande.
E há uma artista que eu nunca consegui compreender, e espero que tu agora me ajudes, por favor, porque ela é efetivamente gigantesca, que é Taylor Swift. Sim, eu também não compreendo. Mas compreendo o fenómeno. Então temos que ser burros, porque ela é inegavelmente grande. Mas depois, ouvindo a música dela, por exemplo, ouço a música daquela miúda americana, novinha, do Bad Boy.
O que tem, o que o primeiro single foi... A Milly Cyrus? Não. Que pintava o cabelo de verde. Ah, é Billy Eilish. Billy Eilish. Sim. Percebi, demorei algum tempo a perceber, aquele rapaz do cabelo branja, o Ed Sheeran, demorei algum tempo a perceber, mas consegui perceber, consegui perceber ao fim de algum tempo, porque é que eu acho que os call to play são tão grandes.
e acho que é por causa das melodias de voz, que é uma coisa muito trauteável e muito imediata. E quando ouço a Taylor Swift, eu penso… Eu acho que vai para um… a Taylor Swift é produzida pelos Nash, não, por exemplo, desde os discos foram produzidos pelo Aaron Dessner, que são os Nash.
Eu acho que aquilo vai buscar um bocadinho aquela coisa muito... Eu estou a falar em Portugal. Aquilo vai buscar um bocadinho de melodia, de melancolia, muito... Que abatia muito os Tindersticks nos anos 2000. Achas? Eu acho que sim. Mas depois ela tem aquilo a massas. Sim, mas eu acho que... E a juventude... E quando foi o concerto dela que eu vi? As medidas todas do vestido. E que era uma coisa infantil-juvenil. Era uma coisa muito forte.
Não era para gajos que ouviram Tindersticks em 94, não é? Sim, pá, eu preciso...
Eu também não compreendo o fenómeno, eu gosto muito mais, não conheço Taylor Swift, mas por exemplo, desse campeonato de artistas fenómeno, Feverary Styles, e gostei, acho que, é uma cena com banda, e é uma coisa que eu ainda acredito, com coisas feitas como instrumentos, estás a ver?
Mas tenho uma história curiosa com a Aristazes, porque eu não conhecia a Aristazes porque eu não conhecia o One Direction, mas uma vez ouvi uma música na rádio e disse, esta música é inacreditável, era uma música dela chamada Sign of the Times, eu disse, esta música é incrível, está bem feita, está bem produzida, está bem cantada, e depois percebi...
fazeste miúdo, era tipo dos... dos excessos lá da terra. E fui ver, e a música tinha 11 produtores. Ou seja, é que é um esforço quase laboratorial. Sim, tu tens equipas de produção. Claro que sabes que o trabalho de estúdio é bom.
que agiganta qualquer coisa destas, não é? São retoques, retoques, retoques. Uma coisa é agigantar, outra coisa é agigantar. Sim, mas eu acho que, por exemplo, nele, eu prefiro compreender Harry Styles, não é prefiro, eu compreendo mais Harry Styles do que Taylor Swift, também se calhar porque eu me identifico mais com a música que ele faz, porque é oralhuda.
mas é bem tocada, estás a ver, acho que acho mais beija a cena da Taylor Swift, mas pronto, são, também são gostos como tu estavas a falar do Coldplay, para mim Coldplay tem um disco inacreditável que é o Parachute, que é o primeiro e aquilo depois a partir de agora com aqueles sintetizadores entedia-me mas pronto, eu percebo também o fenómeno
Porque é muito apoteótico, não é? Aquela cena de sintetizadores e ele dançar e as cores. Eu continuo a achar que são as melodias de voz. Pois. Eu acho que são mesmo as melodias de voz que o gajo faz, que são... Vão buscar um tom qualquer. E as pessoas ligam-se muito rapidamente àquilo. Muito rapidamente àquilo. O Taylor Swift, lá está, eu continuo. Eu depois penso, será que é uma coisa... Porque depois também me lembrei de outra rapariga nova.
que bombou muito, aqui há dois anos, que foi aquela Brat, para hoje estou muito... Ah, a XOXX. A XOXX, que eu depois fui ver, o que é que eu fui fazer? Ouvi a XOXX, fui ouvir a música da rapariga. Da Brat. E fiquei... Mas é muito idóneo, aquilo é muito rave, por exemplo, eu vi ao vivo e é muito... Pois, mas é isso, mas lá está, eu pensei, pronto, quer dizer...
Quanto é o respeito não é pela música, mas ela é enorme e está a tocar em muitos sítios e está a ser reconhecida, por isso ela, quanto mais necessário ela está a criar ressonância com muita gente. Isso é uma coisa sempre de respeitar. Porque, se tu enquanto artista consegues criar ressonância com muita gente, isso aí... Sim, sim, sim. É porque toda a gente partilha aquilo e isso é ótimo. E eu depois fui ouvir a música dela e percebi...
Primeiro para ser uma cena super datada, tipo do antigamente, está a recauxar aqui coisas, e depois percebi, não, isto tem que ser uma espécie já de movimento cultural, movimento comportamental, de libertação sexual, de afirmação feminista, uma coisa qualquer, porque pela música não me parece que seja. Sim, tens muito comportamento sexual ali, parece-me. Comportamento sexualista é muita afirmação dança sexual, movimento, noite, e...
que ocupou ali um espaço e acho que eu vi ao vivo no ano passado na primavera, mas não me bateu, mas eu percebo o fenómeno consigo perceber o fenómeno, só que a minha carruagem, aquele fenómeno já passou como tu dizes que a tua carruagem já passou para alguns fenómenos sei lá, eu também parto de gosto
E acho que o nosso gosto nunca vai mudar. Não, estamos perigosamente próximos do limite do nosso tempo. Sim. Há senhores da Rádio Universitária de Minho com armas apontadas à nossa cabeça. Neste momento. Por isso... Está tudo por esse, seus... Não, estou a brincar. Diz-me. Tens que passar pelo último marquinho, que é dar uma sugestão aos nossos ouvintes, que não é difícil. Musical, cinematográficas, séries... As pessoas costumam pensar que é tipo um livro ou um filme. Sim. Mas eu costumo gostar que as pessoas...
gosto que as pessoas digam que lhes muito bem lhes apetece, mas até fico contente quando não é um livro ou um filme vou deixar as pessoas a pensar que foi um dos meus álbuns do ano passado Guiz, que toda a gente agora anda a falar Getting Killed
toda a gente anda a tentar perceber o fenómeno porque poderá ser uma campanha de marketing super planeada ou não mas a verdade é que a música é boa portanto eu sugiro aos teus ouvintes e aos ouvintes da Rádio Universitária e de mim que possam ouvir Getting Kill dos Guiz e depois digam qualquer coisa respondam se é ou não um produto de marketing como se anda a divagar sobre isso Nuno, muito obrigado Obrigado, Tiago
Obrigado.