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Sexagésimo terceiro episódio - Cristina Palhares

02 de maio de 202646min
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Sexagésimo terceiro episódio - Cristina Palhares

Participantes neste episódio2
T

Tiago Ferreira

Host
C

Cristina Palhares

ConvidadoEducadora de infância e professora de educação especial
Assuntos4
  • Impacto no Desenvolvimento InfantilPrecocidade no aprendizado · Desenvolvimento assíncrono · Impacto da escola na criatividade
  • Bet EducarNecessidade de formação contínua · Desvalorização da profissão
  • Impacto do feminismo e papéis de gêneroDiferenças de percepção entre gêneros · Estereótipos na educação
  • Inteligência ArtificialProjetos de inteligência artificial
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Cá estamos com Tiago Ferreira

Ouvintes da Rádio Universitária do Minho, cá estamos, hoje com a Cristina Palhares. Olá, Cristina. Olá, Biba, boa tarde. Nós cruzamos-nos noutras vidas e agora vimos aqui falar de outras vidas também. Também. Cristina, este programa começa normalmente com uma maldade que é pedir aos convidados que se apresentem porque acho que são mais capazes disso do que eu.

Olha, não é muito fácil, mas vou tentar focar-me, que é assim, primeiro que tudo eu sou educadora de infância, depois professora de educação especial, trabalho na função pública há quase 40 anos, há 30 e tal, por isso essa foi sempre a profissão que eu tive na escola pública, neste momento professora de educação especial.

Mas também, e paralelamente, e porque as coisas se cruzavam também muito, desde já a minha formação inicial, depois de quando fiz a minha graduação e, portanto, depois por aí fora, desde que entrei neste campo da educação, a sobredotação foi sempre um tema que me chamou muito a atenção e fui sempre canalizando, quer os meus estudos, quer as minhas investigações, para essa área.

E, portanto, desde cedo também, a partir ali de 1999, na viragem para 2000, ingressei na ANEIS e, portanto, tornei-me, digamos, fiz a fazer parte, então, das direções todas em termos nacionais da ANEIS. Pronto, e neste momento…

Sou coronista também, de vez em quando escrevo assim uns pequenos apontamentos também sempre nesta área da educação e, portanto, acima de tudo sou uma apaixonada muito pela educação e pelo meu trabalho. Muito bem. E é muito importante também que sinto-me muito bem naquilo que faço. O que é sobre dotação? De uma maneira simples.

De uma maneira simples, é que a sobredotação caracteriza um bocadinho por conseguirmos realizar, conseguir realizar algo de uma forma diferente daquilo que é feito por aqueles meninos pela normalidade. Podemos dizer assim, nós quando falamos de sobredotação estamos sempre a falar de inteligência.

E a evolução da inteligência e do desenvolvimento todo que nós durante o século passado vimos que a inteligência veio sempre sofrendo alterações de definições e a sobredotação acompanhou essa definição. Porquê? Porque considera-se a sobredotação ou as altas habilidades, como hoje também a literatura nos vai dando, uma ala, digamos assim.

onde a inteligência se realiza de forma diferenciada. Portanto, são meninos com um procedimento de pensamento diferente, com uma realização até escolar diferente, que trazem respostas também mais criativas, mais fora da caixa, e portanto é aqui que nós encaixamos um bocadinho na sobredotação. Para finalizar só, e por que é que nos chamamos anéis?

Não é porque somos os aneios dos dedos, mas depois conseguimos aplicar a sessão nacional para o estudo e intervenção na sobredotação. Mas porquê? Porque o professor Renzulli, já em 1970 e pouco, definiu a sobredotação, em termos internacionais, é americano, com três aneios que faziam confluência.

E os três anéis do professor Renzo Lili têm a ver com a inteligência acima da média, com a motivação e com o empenho na tarefa. Portanto, no fundo, com a criatividade e com o empenho na tarefa. Portanto, são três anéis, criatividade, a motivação e o empenho na tarefa e a inteligência acima da média que define essa sobredotação. Portanto, uma crença sobredotada tem que estar na confluência destes três anéis. Daí também o nosso nome.

Eu sei muito pouco sobre sua redação, mas sendo um pai e tendo sido uma criança, exatamente, não tanto, tendo sido eu uma criança, eu recordo-me que...

Eu entrei para a escola com 6 anos e o meu irmão entrou com 5. Certíssimo. E para ele foi extraordinariamente natural e para mim foi extraordinariamente complicado. Certo. Extraordinariamente complicado ao ponto de ter criado em mim um complexo de inferioridade porque era tudo extraordinariamente complicado. E eu só me lembro de me ter sentido vagamente alinhado intelectualmente com as pessoas da minha idade, já bem lançado na adolescência. Engraçado.

O que eu acho que é, apesar de ser um caso isolado, não querendo fulanizar, um exemplo de que isto é assim um bocadinho elástico, não é? Porque nós não chegamos todos ao mesmo sítio e ao mesmo tempo, nem chegamos todos da mesma maneira. Exatamente. Por isso é que muitas vezes a sobredotação está associada também a alguma precocidade, ok? Que é, o que é que acontece? Mas aquilo que está previsto, digamos, entre aspas, o que está previsto...

Nesta definição de inteligência, para, imaginemos, o que está previsto, nós conseguimos aprender aos 6, aos 7, aos 8 e aos 9, normalmente estas crianças apresentam precocidade, ou seja, aprendem de uma forma mais rápida os conteúdos ou as matérias, ou são, no fundo, também vão buscar sempre áreas que nós dizemos, parece um petão pequenino, mas parece estar a falar com um adulto, não é? Portanto, no fundo, eles vão crescendo e vão sempre demonstrando alguma precocidade no seu crescimento.

Quando me diz que a inteligência há uma elasticidade, neste sentido, uma maturidade que também vamos tendo. Normalmente, agora estava a dizer o Tiago, estavas a dizer que na escola sentiste sempre essa dificuldade, mas que a certa altura conseguiste engredar e alinhar pelos teus pares. Porque esta é a fase realmente mais difícil também. Entre os 6 e os 12 é também quando o desenvolvimento é mais assíncrono.

Ou seja, há miúdos que agora nos têm grandes picos e que nós entendemos que conseguem aprender muito rapidamente os conteúdos, por exemplo, de anos mais para a frente, mas depois chegando ali à adolescência as coisas vão normalizando mais um pouco. Portanto, também temos que ter sempre atenção a isso. É como naqueles meninos precoces de 2, 3 anos.

que o desenvolvimento é muito assíncrono também e às vezes desenvolvem ali muita precocidade e depois nem sequer desenvolvem mais tarde sobre dotação. Portanto, há alguma maleabilidade, digamos assim, sendo que aquilo que nos interessa, e eu acho que aqui também temos que...

Não é o rótulo, não é dizer que, olha, este menino é sobredotado. Não é nada, não é tão pouco esse o nosso objetivo. Aquilo que nos interessa é perceber porque é que estes meninos, que necessitam de ter na escola um acompanhamento e uma intervenção adequada àquilo que está a acontecer. E tem? Não. Não. Não porque, repara, eu como professor de educação especial, portanto, é que trabalhamos nas franjas da inteligência. E depois como dentro da associação. E trabalhar nas franjas da inteligência é muito parecido.

porque eu tenho que olhar para as características daquele menino perceber como é que ele aprende perceber o que sabe em que nível está e adequar a minha intervenção as minhas estratégias o planificar de um programa educativo para estes meninos quer de um lado da curva quer do outro lado da curva

Portanto, é parecido trabalhar assim. O que é que nós tivemos na escola pública durante estes últimos 30 anos, e quando se falou sempre da inclusão, foi um olhar, e um olhar e uma intervenção, uma formação de professores, muito direcionada para...

as dificuldades de aprendizagem e a deficiência, correto? E, portanto, os professores habituaram-se que vamos ter que trabalhar também com as crianças com dificuldades de aprendizagem e com a deficiência. E sabes que muito estes 30 anos têm sido duros nessa área, ok? Portanto, ainda hoje há muitos professores, há muitas escolas que não estão ainda a conseguir dar uma boa resposta a estes meninos. Ora, o outro lado foi sempre o esquecido.

Entendes? Portanto, a nossa... tivemos sempre um olhar muito apurado, ainda bem, para a inclusão e até em termos internacionais, tudo isso nos veio e fomos sempre alinhando também. Portanto, Portugal esteve também sempre no motor da Europa, nesta parte da inclusão, mas continuamos sem olhar para o outro lado. E, portanto, estes são meninos sempre esquecidos.

E quando nós falamos, e muitas vezes também, porque está carregado de muitos mitos, de muitos preconceitos em relação a estes alunos, e quando falamos de crianças com sobredotação ou crianças com altas habilidades, a escola diz, eles já têm o que chega, não precisam de mais nada. E não é assim.

E por isso é que não me interessa o rótulo. Aquilo que me interessava era poder chegar a uma sala, o aluno que lá está e que aprende mais depressa e que já conseguiu atingir os conteúdos daquele ano, porque é que tem que estar ali a ouvir sempre coisas que ele já aprendeu. Ou seja, a escola não lhe traz nada de novo. Ele vai para a escola e não aprende nada de novo.

E é importante que eles, os meninos, possam aprender alguma coisa de novo também. Até porque nós sabemos bem que quando uma criança não está motivada dentro de sala, a criança sente que a escola gurou aquilo que era suposto ser a escola, que era o sítio onde eu vou aprender coisas novas, e a escola está a gurar esse objetivo, não é esse objetivo, é esse sonho daquele menino que entrou para a escola, certo?

Portanto, é aqui que eu acho que nós temos que todos comparar um bocadinho e a escola também, no sentido de perceber que temos que olhar para este lado também da mesma forma que vamos olhando para o outro e podermos intervir dando uma resposta adequada. Temos já vários instrumentos legais para o poder fazer, ou poucos instrumentos legais, mas vamos arranjando, mas acima de tudo é preciso a boa vontade, a formação inicial de professores para podermos ter professores também.

a saber trabalhar nesta área, a formação inicial, a formação contínua, porque as pessoas fazem muita formação contínua, e também que essa formação contínua chegue a esta temática, eu penso que neste momento em Portugal, serei a única a dar formação contínua de professores, de 25 horas, e que posso atingir 4 ou 5...

grupos de 20 professores por ano, não mais do que isto, e não há mais gente a falar de sobredotação e a dar formação na sobredotação. Portanto, há aqui uma urgência muito grande.

É uma condição muito prevalente a sobredotação, há números sobre isso? Sim, 5% da população, em termos internacionais, é aquilo que está privilegiado. Por exemplo, temos vários exemplos, olha, Israel trabalha apenas com os 3%, mas tens o exemplo, por exemplo, dos Estados Unidos que trabalham com 10% da população que fica nessa área.

Não entendi, não entendi. Então vamos lá pensar, pensa um bocadinho, de ver se também conseguimos pensar isso. Temos 100 crianças. Nos Estados Unidos eles pegam nos 10 melhores. Imaginemos que estão numa turma 100 crianças, é-lhes medido o dito, entre aspas, que é i, o cois é um quociente que já não é só aquela medida métrica.

Mas já tem muitas outras componentes, mas pronto, esse menino encaixam-se. Temos em 100 crianças, 10 encaixam-se nas altas habilidades e talento e sobre dotação. E os Estados Unidos pegam nesses 10, estás a ver? Pronto, depois temos aqui a Europa, que está a pegar em 5.

Pegar, quando eu digo pegar, é dizer ou sinalizar, identificar 5. 5%, 10%, 3%. Então são muitos meninos, muitos mesmo. Muitos passam, milhares com certeza, em Portugal, portanto muitos passam pela escola e muitas vezes nem é necessário o rótulo. Há professores que são atentos, que estão atentos, que são capazes de dar uma boa resposta e o aluno segue o seu percurso muitíssimo bem dentro da escola.

Eu também tenho uma má amostra, como costumo dizer, na ANEIS. Normalmente as crianças que vêm ter a ANEIS, ou os pais das crianças, ou os professores, são crianças que estão a dar problema na escola. E por isso é que recorrem à associação. Que tipo de problemas é que são comuns? Ora, é aqui que vamos chegar.

O problema é que subsistem quando uma criança não está bem adaptada na escola, certo? Ou não está ao nível daquilo que ela poderia usufruir. Nós podemos ir por dois lados. Podemos ir para aquela criança que vai começar a desenvolver problemas comportamentais, porque brinca com o vizinho do lado, porque se entretém com os seus bonecos, porque fica com desatenção, portanto está desatento, porque a matéria não interessa, ou porque já sabe, não é?

Portanto, temos este lado das crianças que externalizam depois a sua insatisfação, ou temos, por outro lado, aquela criança que não dá problemas na escola, que vai internalizando um bocadinho todas estas situações, mas que depois chegam em estados, muitas vezes, de depressão, até logo ali na pré-delicência.

portanto, por isso quando eu digo quando os pais vêm porque os meninos começam a portar mal eu dou graças, ainda bem que ele se porta mal porque normalmente eu consigo depois como ele externaliza, é visível e os professores pedem ajuda nas crianças que não externalizam tem sido mais difícil

Nessa área, nós tivemos aqui há pouquinho de tempo um menino que estava também numa escola pública aqui em Braga e foi muito difícil fazer perceber ao Conselho Turma que ele estava super cansado, já era um menino pré-adolescente, estava super cansado da escola.

conseguia, portanto, chegava à casa e estava desesperado, não queria vir, voltar no dia seguinte, mas lá vinha e chegava à escola, era um menino sorridente, educado, fazia tudo o que as pessoas pediam, era aluno de 100%, praticamente a quase todas as disciplinas.

E foi muito difícil fazer acreditar ao conselho de turma que este menino estava quase em estado de pressão, porque ele era um menino muito alegre na sala, porque fazia tudo o que as pessoas pediam, está a ver? E no fundo depois chegava à casa e era um menino muito difícil e com muita dificuldade em gerir e gerir-se o seu autoconhecimento, etc. Ele, entretanto...

Nós propusemos uma aceleração, embora no terceiro ciclo as acelerações não são muito bem aceitas ou não são fáceis de fazer com todos os professores, mas não foi necessário, mas entretanto ele regressou ao Brasil e fez lá a aceleração logo. Portanto, já foi para o Brasil, entrou acelerado, digamos assim, já. E, portanto, foi um caso de sucesso lá, não nosso.

Então essa pode ser uma das soluções, os meninos saltarem danos. Sim, a única coisa que nós temos em termos legais, temos de legislação específica, e não fala em criança sobredotada, mas fala em crianças com aprendizagem, com facilidade na aprendizagem, digamos assim. Portanto, crianças que apresentam essa facilidade de aprendizagem podem fazer o primeiro ciclo de 4 anos em 3 e o segundo e terceiro ciclo, que são 5 anos, em 4.

Reparemos que a criança podia chegar ao nono ano, dois anos antes. E temos também a figura da antecipação escolar que é entrar com cinco anos. Em vez de esperar pelos seis, entra com cinco. Pronto. Portanto, são as duas situações que nós temos em termos legais. Está bem? Agora, há muito para lá dos conteúdos e do conhecimento, certo? Às vezes o que é que acontece? E é muito interessante ver isso. Nós, imagina que fazemos uma aceleração. O menino salta do segundo para o terceiro. Mas ele vai para o terceiro.

Mas ele vai ser sempre. O menino, com rapidez de pensamento, vai aprender rapidamente aquilo que o professor está a ensinar na mesma. Não precisa de muitas repetições, com uma ou duas ele fixa a matéria. Portanto, no fundo, as características da sua forma de aprender vão continuar lá. E, portanto, o professor muitas vezes não chega só a fazer a aceleração.

porque ele vai continuar a ter as mesmas características de pensamento. Então, precisamos de enriquecer estes meninos. Aquilo que é preciso é não deixar estar numa sala sem estar a fazer algo

em que está a aprender, ou pelo menos que está a replicar aquilo que sabe, está bem? Porque é aquilo que eles têm muita dificuldade, muitas vezes, tem a ver com o quê? Com as repetições, com estar em sala de aula a copiar do quadro para o caderno coisas que ele já está farto de saber. Portanto, eles precisam de fazer sistematização, precisam de fazer exercícios, claro que sim.

mas que sejam aprofundar também da matéria. Não é dar mais coisas, porque ele já acabou, vai fazer, olha, pega lá mais uma ficha, não é isso que se pretende, mas se acabou porque já percebeu e já fez o trabalho que o professor deu, pode fazer agora, se calhar, algo mais aprofundado, que o professor também tem para ele, como tem, de igual modo, para aqueles meninos que têm dificuldade.

que traz uma coisa mais simples, ou com imagens, ou de outra forma, para que ele aprenda a mesma matéria de maneira diferente. Para este menino também temos que pensar do mesmo modo. Podemos aprofundar, podemos enriquecer, sem necessariamente saltar de ano, sem necessariamente saltar de matérias, mas enriquecer o trabalho que está a ser feito. E que a sala de aula possa ser algo também mais...

mais aberto, que não tenha portas. Se o menino terminou, se calhar pode ir à biblioteca, se calhar pode ir a um laboratório, se calhar pode ir falar com os meninos do quinto ano que já fizeram aquele trabalho, não é? Se a escola fosse mais dinâmica também, estes meninos também eram muito melhor integrados. Está bem?

É mais comum em meninos do que em meninas? Ou é igual? Não. Há alguns estudos sobre isso e ainda não há muitas conclusões sobre esse assunto. Aquilo que está nesses estudos mais visível é os professores e os pais sinalizam mais depressa o rapaz do que a rapariga. Porquê? Porquê?

Porque há muitos mitos também aqui à volta, certo? E as imagens que nós temos de um rapaz, normalmente as meninas, que são estudiosas, fazem tudo muito certinho, são boas alunas, e, portanto, é menina, ok, está bem, és uma menina, tens boas notas e és muito estudiosa.

Se for um rapaz a pegar em livros, em vez de ser na bola de futebol, ou a ter muito boas notas, em vez de ser até um rebelde, aí já assusta. Então, deixa lá ver o que é que se passa com este menino que quer em livros e não quer a bola.

Estão a ver, portanto, é que também é uma cultura muito nossa ainda, não é? E em que temos estes estereótipos do feminino e do masculino e o professor também ainda tem muito, carrega muito, que é cultural, digamos assim, e portanto, estas imagens todas que fomos criando, portanto, o menino que é bom aluno, mas que não joga futebol, até um bocado estranho, não é? Mas a menina que é muito boa aluna e que faz tudo certinho.

Não, é o protótipo da menina bem comportada e que é boa aluna. E muitas vezes essas meninas até têm características de sobredotação também, mas como são mais introvertidas, não desenvolvem tantos problemas comportamentais e por isso também, aliás, quando uma menina começa a desenvolver problemas comportamentais, muitas vezes ainda vem com mais vontade de pedir ajuda.

Porque um rapaz também pode ter problemas de comportamento e as meninas ter problemas de comportamento é algo muito estranho. Ok, entendido. Há muitos estereótipos aqui. E pelo que entendi, estas, digamos que, diferenças perante a norma tendem a esbater-se na idade adulta?

Não. Não? Não. É assim, normalmente a inteligência não é, tendo alguma maleabilidade, não é tão disparo nesse sentido. O que é que acontece? Uma criança, tal como a precocidade, nem todas as crianças que foram precoces vão ser sobredotadas. Vice-versa. Sendo que...

Há mais probabilidade de uma criança sobredotada ter sido precoce. Uma coisa, portanto, ser precoce e vir a ser sobredotado não é condição. Mas, normalmente, as crianças sobredotadas foram de alguma maneira precoces. Isto depois vai acontecer igual na adultez, digamos assim. Por isso, um adulto que pode...

ser excelente na sua área e não ter sido sobredotado. Agora, normalmente, as crianças que vão desenvolvendo e os jovens depois que vão desenvolvendo estas características também vão dar adultos com alguma iminência, digamos assim, está bem? Adultos de excelência. Por isso é que nos preocupa também muito que muitas vezes os nossos talentos...

que começam aqui na adolescência, que nós já os sinalizamos, que sabemos que vão brilhar e vão para fora. E Portugal não consegue agarrá-los, está bem? Portanto, é por isso que é importante darmos aqui a este conforto, dentro da escola, a estes alunos, promovê-los, fazê-los continuar a desenvolver, porque a escola é o que faz muitas vezes.

é formatar estes meninos. Está bem? E é o que fazemos todos os dias. A conversa com um amigo dizia isso. Nós tivemos um pequenito, ele já é adulto neste momento, já deve ter acabado a universidade. Enquanto andava connosco ali por volta dos 7, 8 anos, estava no programa connosco aos sábados, ele tinha muitos insights e fazia raízes cúbicas e raízes quadradas assim. Perguntávamos e ele dizia a resposta. Nem ele sabia como lá chegava.

também, anos mais, ele era brilhante na área das matemáticas, fisico-químicas depois entrou para os sétimos, oitavos, nonos e uma vez eu vou encontrá-lo já, ele devia andar no secundário e depois estávamos a conversar e a certa altura ele olha Cristina, lembras-te? Lembras-te que eu te dizia às raízes quadradas, às raízes cúbicas? Assim, já não sei, já não sou capaz.

Ou seja, à medida que vamos andando na escolaridade, a escola vai formatando o nosso pensamento e a nossa maneira de pensar e de deduzir, não é? O raciônio hipotético ao dedutivo é aquele raciônio que é privilegiado da escola, ok? E, portanto, toda aquela parte da criatividade, das respostas fora de caixa, da resposta que eu cheguei, mas não sei muito bem como é que lá cheguei, mas está certo, de tudo isto a escola vai formatando.

E é uma pena porque vamos formatando estes meninos também ao longo da escolaridade. Por isso é que é preciso cada vez mais olharmos à criatividade, ao tal pensamento divergente que estes meninos nos apresentam.

Repara numa coisa, nós neste momento estamos os dois porque estamos em frente um ao outro, estás-me a fazer perguntas, eu estou-te a responder, tens que ouvir, estamos a utilizar o nosso pensamento convergente, que é o que faz um professor na sua sala de aula. Quer que os alunos todos ouçam o que ele tem para dizer, utilizamos todos o pensamento convergente. A maior parte destes meninos tem o pensamento divergente muito mais apurado.

O que é que acontece? O professor está a dizer aquilo, mas ele está a dizer alhos e ele já está a pensar em bugalhos. E é este pensamento divergente que é o motor da inovação, das descobertas, dos insights, o pensamento divergente, que é a criatividade. Portanto, estamos a ver aqui como é que a nossa escola...

não permitindo ou não dando esta abertura à criatividade, ao pensamento divergente, às respostas fora do sítio. Ao menino que estava, a professora está a falar alhos, ele pensa em bugalhos, mas não, senhor, tens que, olha, cala-te, estamos a falar disto, não é disso. Não conseguimos, o professor não consegue ainda perceber porque é que ele estaria a falar de bugalhos em vez de alhos. Deixa-me lá ver porque é que é. O que é que aconteceu?

Onde é que ele foi? Estão a ver? E isto o professor não consegue fazer em sala de aula.

E é aqui que nós falamos muito de que estes meninos precisam ter uma escola que também trabalhe o pensamento divergente, não seja só formatação, formatação, formatação.

Sendo eu nem pouco mais ou menos uma pessoa sobredotada, eu compreendo essa questão da convergência porque eu detestei todos os segundos que passei dentro de uma sala de aula em toda a minha vida. Então pronto, olha Tiago, o que é que acontece com quem diz isso? Lembras-te que também o Albert Einstein dizia, e toda a gente dizia, que ele foi dado como débil mental na escola. Débil mental, na altura, este termo era a deficiência intelectual.

Ok? Porquê? Porque foram... a escola não lhes dizia muito, a escola não vai de encontro aos interesses e há aquilo que eles queriam fazer. E como a escola não vai de encontro, ele simplesmente desiste.

Está lá, de corpo presente, vai fazer de boas coisinhas para não parecer mal. Está bem? A maior parte dos meninos que nós temos ali ao sábado, era muito interessante, eu gostava muito que os professores pudessem perceber aqueles meninos e conversarem com eles e verem o nível de coisas que eles são capazes de fazer, de falar, de descobrir, nas robóticas, na literatura, no xadrez, o que eles falam das coisas que sabem e que não foram aprendidas na escola.

Olha, uma coisa muito, muito, muito, que me fez pensar imenso estes anos todos, últimos anos. Desde que tivemos o Covid, que os meninos ficaram em casa. Acreditas que a maior parte deles, desses meninos que estão connosco aos sábados, que bom que foi aquele tempo. Porque nós tínhamos imenso tempo a aprender aquilo que queríamos. Certo? Ficaram a perceber que em casa, sozinhos, aprendiam mais.

do que indo para a escola. Certo. E é uma tristeza. Porquê? Porque a escola tem um programa muito rígido a cumprir, tem um currículo muito rígido a cumprir, e estes meninos conseguem desenvolver-se em tantos projetos. Sim, mas ainda na escola nos anos 80. Eu acredito que hoje em dia as coisas devem ser um bocadinho menos. Eu também queria acreditar que sim.

Não podem ser. A minha professora primária apagava o quadro com a cara dos alunos quando as enganavam em alguma coisa. Estamos a falar de outro tipo de violência e era diferente. Mas se calhar aquilo que ela apaga no quadro é hoje o que a nossa apaga com um bom bonito apagador de uma tinta preta.

Continua a ser assim? Continua muito também. Está bem? Não é também, assim, não vou querer aqui, até porque sou também professora e tenho colegas excelentes em todas as disciplinas, em todas as áreas, também não é possível com turmas tão grandes, com um programa tão extenso que está para cada nível, para cada área, para cada ano, que os professores consigam cumprir com tudo aquilo que se pede com uma turmas tão heterogêneas.

Agora, acho que a escola ainda não atingiu o ponto que já se pediu, de uma escola inclusiva, do trabalho de projetos, de outro tipo de trabalho em que continuamos todos com muito, é muito estanque, entra o professor de português, sai o professor de português, fala-se português, entra a professora de matemática, sai de professora de matemática e continuamos em trabalho super, super estanque, de umas disciplinas para as outras. Os nossos meninos hoje cada vez mais aprendem e aprendem melhor.

quando utilizam as várias ciências ao mesmo tempo, não é? Eu tenho, quer dizer, não sendo eu um ludita, eu tenho uma esperança na tecnologia e é de certa forma, eu penso muitas vezes e discuto até com a minha mulher, se quando o meu filho tiver 18 anos tem agora 5, se ainda vão existir universidades, se a escola tal como...

A escola que há hoje em dia, apesar de ser diferente, tem muitos pontos de contato com a escola onde eu aprendi a ler e a escrever. Um dos meus pais aprenderam a ler e a escrever nos anos 50. Eu fico com a sensação de que as coisas podem mudar muito rapidamente. Sem dúvida. E este modelo de escola pode colapsar. Pode. Pode. E é isso que eu acho que temos nós todos que pensar nisto. Que é assim. O colapsar no sentido do conhecimento.

Ele vai estar ao sabor de um clique. Agora, o gerirmos esse conhecimento, a relação que estabelecemos com os alunos, essa, portanto, toda a parte mais social e emocional, digamos assim, é para o professor.

Já podia estar a ser, estás a ver? Portanto, já não era preciso chegar à inteligência artificial, nem estarmos. O professor tem que ser, acima de tudo, alguém que consegue pôr em relação o conhecimento com o aluno.

A capacidade que eu tenho como professor de pôr em relação o conhecimento com o aluno vai continuar a existir. Vem aí há, deixe de vir e há, certo? Portanto, é aqui que o professor vai ter que se focar.

É, o conhecimento está ali, ele vai lá buscá-lo quando quiser. Não tenho o que lhe o passar, não tenho o que lhe o dizer. Está lá, ele vai conseguir buscá-lo. E está aqui o aluno. E é nesta relação do conhecimento com o aluno que o professor tem o seu intervalo, digamos, de atuação.

Está bem? E nós não estamos, desculpe interromper-te, mas nós não estamos, isso não é um cenário idílico, ou seja, eu não estou muito por dentro do que é que se é um professor em Portugal, mas eu acho que não é grande coisa. Infelizmente. E que não se valoriza a profissão. Não, infelizmente. Quando não se valoriza profissões.

Sim, sim, sem dúvida. Não, desvalorizamos a profissão em termos políticos, económicos, etc. Mas, acima de tudo, esta desvalorização do professor tem uma vertente incrível que foi a abertura demasiado da escola aos pais. Eu sei que vão bater muitos pais em cima. Porquê?

Aquilo, não, a sério, porque é sempre um tema que, assim, eu ainda no outro dia dizia, a nós professores cabe a pedagogia, a parte curricular, aquilo que acontece dentro de sala de aula, certo? A nós professores cabe isso. Aos pais cabe perceber o que é que sim, senhor, se o seu filho está a aprender, se não está, quais são as direitos, não é? Perceber junto a professores, olha, mas o que é que eu posso fazer em casa para ajudar?

certo? Mas eu não me vou intermeter naquilo que é o trabalho de sala do professor. E aquilo que aconteceu com esta abertura enorme, e ainda, por exemplo, os pais ainda há pouco tempo pertencem ao Conselho Pedagógico, finalmente saíram de lá, tá? Portanto, já não fazem parte do Conselho Pedagógico, fazem só parte do Conselho Geral. Mas esta permissividade...

que houve entre os pais e que ainda há, entre pais e escola, começa a ser um bocadinho, tem que ser colocada nos seus lugares. Está bem? E nós fizemos aqui, eu penso que a escola aqui, tem a ver com o governo e com as diretrizes que fomos recebendo, não é? Portanto, a escola ficou refém muitas vezes dos pais. E não pode acontecer isto. Não pode. O pai pode ter o direito até de escolher a escola para o seu filho.

Então isso quer dizer que a escola tem que ter uma espinha dorsal e tem que dizer aqui, aprende-se assim, assim e desta maneira. Quer? Ok, não quer. Vá para outra escola ao lado. Era suposto poder ser assim. Esta autonomia da escola ainda hoje não existe. Embora digam que os professores são tão muito autónomos e os professores têm autonomia, mas depois vamos à legislação e esbarramos todos, certo? Mas sim, a escola devia ser autónoma para os pais poderem escolher, se querem aquela ou se querem a vizinha.

Ok, mas então para isso não é dizer assim, é, a escola agora vai ser é que para os pais querem. E como os pais querem isto, a escola tem que ser. Não. Temos que voltar aqui, dar um passo atrás. Acho curioso porque há muitos anos, quando eu comecei a trabalhar naquilo que eu faço, que é transporte público de passageiros, um operador virou-se para mim e disse-me, onde há?

Vai ouvir muitas vezes os pais a falarem sobre os meninos nos transportes públicos e 50% é mentira. E eu pensava, este tipo é um domicílio, este tipo está aqui a ser um bocado reaça e a dizer que os pais não têm razão. 12 anos envolvidos, eu acho que é muito mais do que 50%. Eu fiquei com essa sensação que hoje em dia há...

A maneira… no outro dia aconteceu uma coisa formidável, que foi um pai veio-se queixar que a filha tinha ficado presa num autocarro, que é algo que me atemoriza, sobretudo porque nós transportamos crianças pequenas a partir dos 3 anos e isso aí pode ser letal para uma criança de 3 anos. E o homem contactou-me e eu fiquei sobressaltado.

E perguntei-lhe, mas onde é que a criança está? Como é que ela está? Como é que ela está? E percebi que era uma rapariga de 20 anos. E eu achei aquilo sintomático. Quer dizer, há aqui uma infantilização. Completamente. E os pais acham que têm que proteger os filhos de alguma forma. Outra coisa que eu achei curioso foi, eu já vi...

entrevistas de emprego em que os pais ficam à espera da performance dos filhos. Então ele não viu ainda a fila de carros na rotunda da Universidade Domingos dos papás a deixarem os meninos à porta da Universidade. E já entram, já mandam e-mails aos professores da Universidade a reclamar do teste XYZ na Universidade, onde isto já chegou.

É notável, não é? Não é? Portanto, os próprios pais, nós todos infantilizamos todos os nossos jovens, jovens adultos. O jovem adulto hoje deve ser o de 30 anos, presumo. Pois. Nós antigamente éramos jovens adultos aos 20, não é?

Portanto, há aqui um fenómeno também desta adolescência que cada vez, antigamente não existia, há 150 anos atrás não existiam adolescentes, passávamos de crianças a adultos muito rapidamente e a adolescência começou cada vez mais a ser ampliada, ampliada, portanto hoje.

Tanto que, não é? Hoje a adolescência termina aos 30. Pois. Não pode ser. Nós temos aqui alguma coisa a fazer pela nossa juventude. Alguma coisa há de estar a ser feita de errado. Não é de errado. Eu acho que, olha, as condições de vida, a pressão que foi posta também nos casais novos, toda esta psicologização.

que acontece do educar, de ter filhos, a parte económica também é muito importante. Eu lembro-me que nós, eu estou a falar, eu tenho 62 anos, quando eu casei,

Eu casei, tive filhos e só depois é que andávamos a comprar casa, a comprar carro e a montar as coisas. Agora é tudo ao contrário. Primeiro tem que ter casa, tem que ter carro e depois é que se tem os filhos. Sim, mas se é porque não há confiança no futuro. Porque a economia mudou também, não é? Pronto. E tudo isto muda muito depois da nossa perspectiva. E depois queremos que os nossos filhos sejam os melhores na universidade porque vão ter os melhores empregos.

Então eu tenho que ir até lá, bater à porta e dizer, olha, este teste não está bem.

Tudo isto não é fácil, não são discussões fáceis. De fora, uma sobredotação parece uma espécie de talento. Sim. Mas eu acredito que para quem tem sobredotação, a coisa não deva se sentir assim como... Muito fácil, não. Não deve ser particularmente agradável. Olha, também é assim, a sobredotação, vamos pensar numa amora.

que tem um núcleo e depois tem aqueles grãozinhos todos assim à volta. E aquilo que é importante é perceber. Lá dentro, na Amora, eu tenho a sobredotação. Pronto, sim senhor, o menino tem ali um QI ou um coeficiente de inteligência que o remete para esta área da sobredotação. E depois tem muitos grãozinhos à sua volta. E é nestes grãozinhos...

que eu tenho que pensar, que é os problemas de comportamento, as dificuldades de aprendizagem, a desmotivação, o não querer saber da escola para nada, estão a ver? Tudo isto são aquelas, aquilo que se vê da sua sobredotação. Quando eu quero intervir...

eu não vou intervir naquela, na amorinha, no bocadinho, no problema de comportamento, ou nas dificuldades de aprendizagem, ou na externalização que ele está a fazer. Eu, para intervir, eu tenho que intervir lá dentro, no núcleo, que é a sua área de sobredotação. É ali dentro que eu tenho que intervir. E quando eu, na escola, aquilo que acontece é que estamos a intervir apenas naquilo que é visível. Certo? E, portanto, deixamos de olhar para o cerne, que é a sua sobredotação.

Por isso é que a criança depois vai para a escola e o que é que o professor vê? O professor não vê que ele aprende depressa. O professor vê que ele não está quieto. O professor não vê que ele, sobre aquele tema, já leu 10 livros. O professor só viu que ele não leu a lição daquele dia.

Se Deus lés de livros não tivesse lido, não era chamado para aquela aula. É aqui, é esta a diferença. Por isso é que, Tiago, dizias que na escola eu não fui visto, eu não fui para não. Porque as pessoas não olharam para o teu cerne, olharam para aquilo que era visível, que são os problemas de comportamento, é o alinhamento, é não querer saber da escola, pronto, é aquilo que se vê.

São os grãozinhos que estão de fora da Amora. Eu não acho que tenha tido uma má escola, até porque eu andei em escolas públicas, a minha vida toda, mas acho que tive o azar. Isto é mesmo uma coisa intrínseca de que eu não gosto.

Eu acho que a primeira frase que eu escrevi, e ao pai de um amigo meu que guardou esse documento, eu não gosto da escola. Eu gosto dos miúdos, gosto de outras pessoas, gostava de jogar futebol. Agora, o tom professoral, estar sentado e a avaliação, são coisas que eu fundamentalmente detesto. É uma coisa mesmo...

e eu acredito que isto seja recorrente muita gente não gosta da escola Sim, também, e mesmo nestes meninos ainda mais fica exacerbado esse assunto, digamos assim de que a escola não sendo um local bom

atenção, também temos lá muitos meninos que estão muito bem na escola, está bem? Porque a escola está a ser uma boa resposta, portanto, e mesmo, repara que eu aqui, a nossa associação, nós temos à volta de 105, 110 meninos, mas são todos da zona também, tem que Viana do Castelo, Famalicão, Guimarães, portanto, venho agora de Vila Real, não é? Temos, portanto, aqui da zona norte um bocadinho.

Mas os meninos estão bem, há muitos meninos que estão bem e que há escolas muito preocupadas. Eu vou muitas vezes a essas escolas, falo com os professores, fazemos videochamadas, seja o que for, estamos a trabalhar para dar boas respostas e há professores com muita vontade de o fazer, está bem? Portanto, eu não quero aqui salvaguardar. Claro que a gente, quando está aqui nestas entrevistas, vai procurar, no fundo, que toda a gente ouça e que toda a gente perceba para que todos possamos fazer isso.

Porque muitas vezes não temos, e às vezes basta um ou dois, para nós já ficarmos tristes com este assunto e com a falta de resposta. Mas sim, mas ainda há e continua a haver muitos meninos que estão a ser muito massacrados, muito ostracizados, posso dizê-lo assim, em termos de escola. Só para dizer isto, nós tivemos uma aluna, uma miúda, também muito interessante, uma jovem, que correu as escolas, penso que pelo menos três ou quatro escolas aqui da cidade. Hum?

Mas que idade tinha a menina? Com 14, 15, 16. Está bem? Mas sempre, teve sempre um percurso muito difícil, desde os 6 anos, 7 anos, sempre um percurso muito difícil em termos escolares. Sempre excelente, em termos de resultados académicos. Mas depois, na relação com as escolas e com os professores, as coisas sempre correram mal. E essa menina...

Um dia estava ainda no 11º ano. Não sei se conhece, o MIT vem aqui a Cascais uma vez por ano fazer o Massachusetts Institute. Vem a Cascais e vem buscar, passa ali umas provas a quem tem 12º anos e leva para lá os 30 melhores alunos para a sua universidade. Então eles vêm normalmente ali por setembro e a Yara ainda tinha apenas e só o 11º ano. Nem sequer estava no 12º.

E queria fazer, porque era parte da fisicoquímica, e depois escolhe onde vão fazer essas provas. E ela foi fazer as provas.

E foi para os Estados Unidos. E, portanto, hoje já fez medicina, agora está a fazer química quântica, continua na parte da investigação e tem 27, 28 anos. Portanto, já tem um filho. E eu pergunto, e o que é que andou a fazer na nossa escola portuguesa estes anos todos? E ela mais, algum dia dentro da nossa universidade, para ir para a universidade, tinha que ter concluído o nosso 12º ano. Para alguma coisa serviria?

Afinal, lá conseguiu, não precisou do nosso 12º ano e entrou para a universidade sem precisar. E deixamos fugir estes nossos talentos assim, zuc! E é extraordinariamente diferente na pública do que na privada aqui em Portugal.

Eu também não tenho muito, muito, sabes que não se pois é essa área, esses meninos que 18 anos deixam de estar connosco. Não, mas mesmo na escola, na escola, à escola pública e depois aos colégios. Sim, eu tenho vários meninos de todos, tanto estão no privado como nos colégios, é indiferente, eles estão em todos, sim, temos meninos de todas as proveniências, digamos assim. Certo, mas a resposta que é dada no privado é muito melhor que no público.

Depende. É, depende. Sabe? Não é sistemático. Depende da figura do professor. Depende da direção de turma. Depende dos professores só. Não depende da casa.

Muitas vezes as casas ou as escolas, as direções, até são muito receptivas, estão atentas, mas depois o professor se não faz dentro de sala, se não diferencia para aquele aluno, se o trata mal, digamos, ninguém trata mal, mas se o trata menos bem. Portanto, essas são variáveis que nem a direção das escolas domina.

Claro. Está bem? Portanto, porque é na relação. Sempre. É sempre na relação que falamos. Presumo que estas crianças jovens, hoje em dia, têm à sua disposição estas ferramentas digitais e isto nos pode potenciar ainda mais. Sim, sim, sem dúvidas. Temos um cartelizador. Sim, nós temos uma das nossas oficinas, agora, é a de inteligência artificial.

E a nossa, portanto, até um pai, que é professor em Viena, e que está com a inteligência artificial e está com este nosso projeto. Então ele tem ali um grupo de 12 jovens adolescentes, todos a fazer, cada um a fazer o seu projeto, ou dois a dois, ainda não sei muito bem a dinâmica, é uma das nossas atividades de sábado. E eles estão a desenvolver projetos de inteligência artificial. Depois, isto começaram em setembro.

Outubro. Agora já, portanto, o pai, esse pai, que é o monitor dessa atividade, já me veio dizer, Cristina, precisamos fazer uma feira de apresentação porque todos eles têm aqui trabalhos espetaculares. Estão a ver? Portanto, agora eu só pergunto assim, os alunos que estão neste momento a desenvolver um projeto de inteligência artificial connosco ao sábado, não é?

Na escola nem sequer devem imaginar que eles estão a fazer isto. Ou podem imaginar, porque eles até podem contar e dizer, não é? Mas conseguiriam fazê-lo também em sala, na escola, durante a semana, se nós tivéssemos realmente um corpo decente também preparado para ir de encontro aos seus interesses. Porque aquilo que nós fazemos ali ao sábado é ir de encontro aos interesses.

Isto também não é gratuito, não é dizer assim, ah, mas nem têm conta. Claro, pretendemos também ter atividades que sejam muito holísticas, mais motoras, dos xadrez, de jogos manipulativos, mas também integrando a IA ou de literatura, como temos, e que também todos os jovens estão nesse projeto de literatura que é fantástico, de um professor que nos diz, eu sou professor de português durante a semana.

Durante a semana eu mato os nossos autores. Só ao sábado é que eu lhes dou corpo. Porque sai do currículo, sai dos conteúdos e trabalha autor. Estão a ver? E é no fundo esta, porque é que ali funciona? Porque é que ali se pode fazer isto ao sábado e não se pode fazer na escola?

Tem que ser possível. Cristina, estamos perigosamente próximos do limite que a rádio me dá para falar com alguém todas as semanas, por isso vamos à segunda maldade, que é, eu preciso de uma sugestão sua para os nossos ouvintes. De? De muito bem entender, por isso é que é uma maldade. É mesmo maldade. Exatamente, e apanhar desprevenido. Normalmente as pessoas pensam que tem que ser um livro ou um filme, mas não tem. Não.

Não, olha, eu por acaso, assim, a sugestão, se me dissessem agora, se eu já quero, olha, vamos até à praia, vamos ver o mar e estar ali ao vento, eu gostava de ir. Mas sim, mas deixa-me fazer aqui uma sugestão para a área, pelo menos, pode ser uma sugestão que seja na área, que não é de ouvir, que não é de ler, qual é a sugestão? Que nos venham visitar um sábado de manhã.

E onde é que vocês estão? Na escola EB23 de Gualtar, também, que é uma escola pública que nos cedeu também as suas instalações. E, portanto, todos os sábados, entre as 10 e a 1, estamos com a casa aberta. E para quem quiser ver, ouvir e receber e contactar com estes meninos, principalmente os professores destes alunos. Cristina, muito obrigada.

Sexagésimo terceiro episódio - Cristina Palhares | Castnews Index — Castnews Index