Transição Energética e o caso de estudo português
Como está a transição energética a mudar o país, do setor da energia à mobilidade e indústria? Duarte Bello (EDP) e Cláudia Coelho (PwC) discutem avanços, bloqueios e o potencial de Portugal.
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Paulo Ferreira
Cláudia Coelho
Duarte Belo
- Transicao EnergeticaEDP como pivô da transição energética · PwC como parceira em sustentabilidade e alterações climáticas · Relatório State of Decarbonization da PwC
Sejam bem-vindos. Começa aqui mais um episódio de Do Compromisso à Ação. Este podcast é uma parceria entre o Observador e a PwC, uma série em que abordamos o ESG, as regras ambientais, sociais e de governança que conduzem cada vez mais a vida das empresas.
Hoje vamos falar de transição energética e do caso português. Vamos fazê-lo com Duarte Belo, é CEO da EDP Europa, e com Cláudia Coelho, partner da PwC para a Sustentabilidade e Alterações Climáticas. Eu sou o Paulo Ferreira, dou as boas-vindas a ambos. É um gosto estar aqui convosco, novamente no caso da Cláudia Coelho.
Duarte Bel, começando por si o que é que nós podemos dizer em 2026 sobre transição energética? O que é que isto significa neste momento e não há 15 ou 20 anos quando começou? Em primeiro lugar, muito obrigada pelo convite acho que é sempre um prazer falar sobre este tema eu acho que a transição energética começa por uma falácia, que não é uma transição mas são várias revoluções e portanto acho que temos que ter alguma visibilidade, que é um caminho não linear か か か
e nós estamos a assistir a várias revoluções que vão traçando o caminho, mas o caminho é claro e inequívoco. É muito mais que ambiental, acho que isto começou como uma perspetiva muito ambiental, mas eu lembro-me, já estou na EDP há cerca de 20 anos, nós não apostámos nas renováveis por um tema ambiental, nós apostámos por renováveis porque acreditávamos e acho que estávamos certos.
que era a maneira de termos a energia elétrica mais barata e mais competitiva. Ao dia de hoje, eu acho que a transição energética passou também a ter duas dimensões muito relevantes. O tema da competitividade, hoje em dia claramente as renováveis são as fontes de energia mais baratas. A questão do preço é fundamental, não é? E hoje em dia, com a guerra que estamos e com todas as disrupções geopolíticas, no tema da segurança do abastecimento.
E da independência face a fontes externas, não é? Claramente. Mas acho que há um ponto, é que estamos a meio desta maratona. Isto é uma maratona, nós estamos a trabalhar nisto há mais de 20 anos, mas faltam mais 20 ou 30 para chegarmos ao objetivo de Net Zero em 2050. Aí sim já há uma meta ambiental, se quisermos.
Mas é ambiental no sentido em que a meta corre para várias dimensões, porque a consequência de sermos Net Zero em 2050 permite-nos ter energia mais competitiva e termos segurança de abastecimento, quer dizer, não só para Portugal, mas para a União Europeia. E por isso, acho que transcendo isso, começou com isso, acho que temos que ir ajustando as narrativas ao longo dos contextos, mas o objetivo era sempre ter algo que seja melhor e mais competitivo que os outros.
Muito bem. Cláudia Coelho, nós olhando para este nosso processo, nós do país, português, o processo português, o que é que o distingue, se olharmos um pouco à volta? O peso das renováveis, por exemplo, a ambição das metas, que podem ser muito ou pouco ambiciosas?
Não, Portugal aqui tem um caminho já feito que nos torna bastante diferenciadores, ou seja, nós já temos um histórico muito grande de produção de energia renovável, temos das maiores cotas de eletricidade renovável da União Europeia, mais de 87% em 2024, e portanto eu acho que aqui temos uma grande oportunidade, essa oportunidade resulta de nós pela primeira vez, eu diria, termos recursos energéticos endógenos, ou seja, nós temos energia, sol e vento.
que é para nós uma vantagem competitiva, temos é que saber aproveitar. E, portanto, estas metas que nós temos são ambiciosas, colocam-nos como um potencial caso de estudo pela positiva. Agora, beneficiámos já de um processo, uma primeira fase em que nos diferenciámos. Eu diria que agora estamos numa fase de maior impasse, ou seja, esta velocidade a que a transição está a ocorrer em Portugal, ela teve uma redução.
Não tanto por limitações de capital, por questões de investimento, mas sim por fragilidades que nós temos ainda e que temos que resolver ao nível do que são os processos de licenciamento, ao nível da disponibilidade e capacidade da rede, a questão dos preços e também os desafios de aceitação social dos projetos. E, portanto, significa que acelerar esta transição em Portugal...
depende agora de nós conseguirmos ultrapassar estes desafios de forma a alcançarmos uma execução agora consistente com aquilo que são as nossas metas. Claro, para voltarmos no fundo a uma velocidade que já tivemos no passado. Duarte Belo, e qual é o papel dos operadores neste momento, do setor da energia, passaram de fornecedores, há umas décadas se quiser, como pivôs da transição, portanto a transição não se faz obviamente sem operadores como a EDP.
É um papel de liderança neste processo.
Eu pegava na liderança e também no que o Cláudio acabou de comentar, eu acho que seria, talvez, menos modesto. Eu acho que Portugal é um dos casos mais bem sucedidos a nível global, não só europeu, de eletrificação da energia. E isso posiciona-nos de uma forma ímpar. Nós e a Espanha tivemos redução de preço de energia versus o ano passado e neste primeiro trimestre, semestre, temos esta guerra. Nós temos uma diferença de preço de Itália de 100 euros, o ano passado era 50 nos preços cruzistas. Portanto, eu acho que é muito importante nós...
continuarmos a comunicar isto, porque isto é a forma de termos resiliência para a maratona que temos pela frente e os impasses e os desafios que temos ao dia de hoje. E eu acho que este papel orquestrador vem do facto de nós termos começado como, eu diria, como as renováveis eram um nicho, hoje em dia são a base.
E agora o desafio não é só crescer, mas é ligar. Eu acho que o desafio agora é ligar e ser esta orquestra. Integrar isso tudo. Integrar. Acho que o tema do licenciamento, das redes, são coisas bem conhecidas, o governo também está a trabalhar nessas vertentes, mas nós, ao dia de hoje, temos que ligar muito mais o consumidor.
com o fornecedor numa rede que é muito mais espalhada pela região. E isso torna o desafio mais difícil e torna mesmo as comunidades, os clientes, as indústrias, os policy makers, como agentes.
que temos que ser uma equipa e isso antes não era tanto assim e acho que todos os países e portanto eu sou responsável por vários países na Europa eu acho que os desafios felizmente ou infelizmente são similares portanto não estamos aqui num caso muito diferencial em Portugal versus outros
Podem ter dimensões diferentes, mas esta integração é muito complexa. Mas isso faz-se, eu diria, com visibilidade. E acho que uma das coisas que Portugal, também Espanha, mas sobretudo Portugal, foi bem sucedido, é que foi constantemente mantendo alguma previsibilidade.
no apoio regulamentar, no apoio fiscal. E, portanto, quando começamos a ouvir muito ruído sobre algumas alterações nestas dimensões, eu acho que temos de ter algum cuidado, porque os investidores são muito sensíveis a estes sinais. Precisam de estabilidade. Estabilidade. De ver a médio e longo prazo.
Eu dou exemplo na rede de distribuição, nós duplicámos o nosso investimento, na rede de distribuição agora, o nosso plano de investimento, porque o quadro regulatório que nos foi, eu diria, negociado, foi um quadro que foi razoável. Razoável para todos. Se for razoável para um lado, nunca é bom. E nós duplicámos o nosso plano de investimento em redes para os próximos três anos, próximos quatro anos. E eu acho que esse ponto é super importante.
manter esta e não nos focarmos em alguns acontecimentos de curto prazo que nos podem levar a decisões que nos impedem decisões de investimento rentáveis e sustentáveis a longo prazo. Cláudio Coelho, estamos a falar aqui daquilo que é exigido decisões públicas, políticas públicas, coladores e por aí fora. Quando olhamos para outros setores de atividade, também são fundamentais, sobretudo a indústria mais consumidora de energia, o que é que esta transição exige a esses outros atores?
Esta transição não é, como sabemos, um desafio exclusivo do setor energético. O setor energético tem este desafio, no fundo, de nos disponibilizar energia renovável, mas todos os outros setores têm transformações profundas a fazer, a indústria, os transportes, o setor da construção, têm que, de facto, integrar a energia nesta vertente competitiva, cada vez mais. Ou seja...
podem ter que rever modelos de negócios, podem ter que repensar investimentos, é muito mais do que comprar energia verde, é efetivamente mudar processos e há aqui outras possibilidades que as empresas têm que perceber e, portanto, para uma indústria, por exemplo, o facto de poder oferecer flexibilidade ao sistema pode ser algo valorizado do ponto de vista financeiro e, portanto, essa capacidade, essa flexibilidade que é necessária para as redes ajustarem a oferta e a procura e, portanto, a gente tem que ver com a oferta e a procura.
ela pode permitir, de facto, ser um ativo económico, reduzir os custos energéticos e também aumentar aqui a resiliência. E, portanto, em Portugal, o que nós notamos é que, de facto, estes fatores já influenciam a análise de investimentos.
têm capacidade de ser fatores de atração de investimentos. Aí temos vantagem. Temos vantagem. Naturalmente que indústrias dos vários setores procuram energia econômica, neste caso até limpa, e, portanto, localizarem-se perto, próximo da produção de energia, ótimo. Temos o exemplo dos data centers, etc. Portanto, há um conjunto de...
de investimentos que nós temos capacidade de atrair, se demonstrarmos que temos, de facto, esta capacidade também de produzir e disponibilizar energia limpa, baixo custo, etc. Claro, e de uma forma confiável em termos de continuidade do fornecimento. Eu gostava só de dar mais uma nota, que é...
Neste contexto, nós temos aqui, no fundo, como o Duarte dizia há pouco, não é de toda uma questão ambiental hoje em dia, até porque a questão ambiental, por várias situações, incluindo os Estados Unidos, ela acaba por, nesta altura, não ser sequer bem vista. Mas eu gostava de destacar aqui que nós tivemos, nós, PwC, lançámos a semana passada o relatório State of Decarbonization.
E, de facto, demonstra que, mesmo neste contexto desafiante, a descarbonização não cedeu à pressão. Ou seja, os resultados que nós obtivemos da análise de 3.500 empresas, temos que 82% das empresas mantiveram a reforçar as suas metas climáticas. Portanto, isto significa que as empresas... E que já estão na cultura das empresas, de alguma forma. E que não estão a olhar para isto meramente do ponto de vista ambiental, estão a olhar para isto do ponto de vista racional, do que faz sentido para o negócio.
Claro. E, Duarte Belo, esta forma de fazer sentido para o negócio, olhando agora, se quiser, para os clientes, sobretudo para os grandes clientes industriais, consumidores de energia, qual é o impacto nas empresas? Além deste posicionamento, há vantagens na fatura de energia, por exemplo? Ou há isso uma impotência?
Há claramente, quer dizer, nós olhamos para os preços mesmo dos consumidores industriais, e eles, versus a média europeia, são 15 a 25% mais baratos. E, versus o ano passado, dei o exemplo há pouco, na Europa, em geral, os preços subiram e em Portugal não subiram. Graças à componente renovável. Eu acho que existe aqui um desafio, e é claro que estava a comentar, que é...
nós temos que eletrificar a economia e Portugal tem cerca de 23% da economia eletrificada não há uns targets muito definidos, mas há pelo menos mais de 50% daqui a algumas décadas é um esforço muito relevante e há efetivamente indústrias eletrointensivas em que esse esforço pode ser mais difícil. Eu acho que aí é onde por exemplo, entre nós o governo, acho que temos que ajudar a essa transição, porque o custo dessa transição não é igual para todos e nós reconhecemos isso か か か
E por isso também temos vários projetos, solar distribuído com a Merlin, temos baterias com a Bondalti, temos solar térmico com a Heineken, projetos que ajudam a ser um bocadinho nós a orquestrar com os vários players que estão a trabalhar connosco na eletrificação da economia. Eu acho que esse vai ser complexo.
E acho que já não é uma solução igual para todos. E por isso, esta articulação, mesmo na parte regulamentar, porque mesmo o desafio de licenciamento destes projetos pequenos é-se muito complexo. As empresas não estão habituadas a estes licenciamentos. E, portanto, nós temos um papel muito relevante, mas há que simplificar, há que fazer alguns simplex aqui também.
e as soluções não são iguais para todos, portanto, porque a indústria do automóvel é diferente da indústria do calçado, a indústria do vidro, do aço e, portanto, temos que conseguir criar escala e tínhamos que ser primeiros, acho que sermos primeiros que os outros também é muito importante porque nos permite ter uma vantagem competitiva durante algum tempo, atrair o investimento que está cá e atrair o novo investimento para Portugal.
Já passámos Cláudia não sei se quer acrescentar alguma coisa também em relação a iniciativas que estão no terreno o Duarte já foi elencando algumas, mas queria também saber se já passámos aquela fase daquele dilema da transição entre o custo hoje versus o benefício da manhã pelo menos durante um tempo isso foi um tema o custo estávamos a seportar nomeadamente para as renováveis e se já passámos isso ou não か か か
Eu julgo que estamos a ultrapassar essa questão muito, o resultado destes contextos geopolíticos, que também nos vieram mostrar o que é a importância de ter acesso à energia e acesso de forma independente e sem estar tão sujeito à variabilidade de custos, etc.
E sem ruptura de fornecimento? Sim. No centro da Europa se colocou várias vezes. Essa percepção inicial de que falar de transição energética, falar de renováveis era um tema ambiental, eu acho que ela está ultrapassada.
E, portanto, há agora esta necessidade enorme de articulação, de perceber que vale a pena investir agora, por exemplo, em redes que nos permitam aproveitar o máximo daquilo que é o nosso potencial de uma forma eficiente.
E neste contexto, eu diria que adiar o investimento em redes, isso poderia parecer mais barato no curto prazo, mas tem um impacto no médio prazo. E, portanto, estas soluções que aqui foram sendo referidas, vários exemplos, já nos mostram como as empresas já estão a ser criativas e colaborativas a pensar em vários modelos que, de facto, contribuem para esta integração de uma maior eficiência, de um maior aproveitamento.
das renováveis e, portanto, estamos a falar de hibridização de tecnologias, PPAs de longo prazo, que muitas empresas já procuram contratar numa lógica de obter instabilidade financeira e no abastecimento, as soluções de autoconsumo, o hidrogênio verde também com os primeiros passos e, portanto, estas soluções surgem como respostas que permitem aumentar, então, aqui a produção de renováveis sem grandes impactos ambientais, ou seja...
beneficiando aqui desta nossa característica. Duarte Belo, temos estado a falar quase sempre da indústria, portanto olhar para os grandes clientes, quando olhamos para o consumidor individual e a questão da criação das comunidades de energia.
Isso também é importante em termos, se quisermos, do grosso do mercado ou é mais em termos culturais porque o essencial de consumo é industrial.
Eu não, acho que é importante, claramente importante. Eu acho que ao dia de hoje nós começámos, calhar, há 20 anos com, eu não diria uma silver bullet, que era vamos fazer mais renováveis centralizadas. Foram muito baseadas nas eólicas e às tivemos grande exercício. Tínhamos feito também as novas hídricas e aproveitadas hídricas que já tínhamos e, portanto, tínhamos uma base relativamente interessante.
Eu acho que hoje em dia estamos a descentralizar e o tema das redes também é relevante porque nós o que temos que levar é as redes ao consumo. Antes fazíamos centros de consumo muito centralizados e a rede saía daí para o resto do país. E acho que as comunidades de energia funcionam como...
Parte da silver bullet que é preciso, porque nós agora temos que ter menus diferentes para clientes diferentes. E, portanto, os clientes residenciais ao dia de hoje já têm esse poder, essa ferramenta, para poder também aproveitar o facto de terem telhados que podem contribuir e terem alguém que agregue, porque o custo de agregar um cliente é muito caro, o custo de agregar vários clientes dilui-se. Nós também temos vários projetos nesse sentido, acho que há um caminho a percorrer, mas faz parte da solução.
E fechar, Cláudio, que hoje estamos a chegar ao fim do nosso tempo, depois há toda uma série de parcerias ou de entidades envolvidas, já falámos aqui obviamente do papel do Estado, das políticas públicas, do setor em si, dos clientes industriais, mas depois há também municípios, há um sistema financeiro, o nosso ecossistema económico e financeiro está alinhado neste projeto.
Está a alinhar-se, ou seja, eu acho que já há esta consciência de que a transição não vai acontecer de forma isolada, não são iniciativas isoladas, exige colaboração entre energia, indústria, municípios e o sistema financeiro, pelo menos com escala, não é?
Portanto, o que nós assistimos agora é um aparecimento que, por um lado, demorou algum tempo, mas já temos um quadro regulatório que permite este tipo de iniciativas, mas, de facto, começam a surgir as comunidades de energia, que demonstram como, de facto, nós conseguimos ter modelos colaborativos que juntam entidades consumidoras das várias naturezas.
e que de facto vêm trazer aqui uma natureza inovadora e uma natureza descentralizada e muito mais autónoma do ponto de vista da energia. Temos aqui alguns exemplos, energias do Norte, por exemplo, que constituem a maior comunidade energética renovável do país, é um exemplo que reúne municípios, entidades públicas e o setor energético.
E existem também aqui depois, como o Duarte já referiu, diversos projetos desenvolvidos pelos operadores de energia com a indústria, que fazem esta partilha no fundo de risco e que contribuem depois para a massificação da distribuição. Otimistas então. Eu pegava só numa frase que é, eu acho que o nosso quadro regulamentar é robusto, agora todos temos que pensar em que temos que executar. Acho que a palavra agora é execução e implementação.
Às vezes é uma das dificuldades que nós temos do papel para a ação. Muito bem, Eduardo Belo, Cláudio Acupolho, foi um gosto tê-los aqui neste episódio do compromisso à ação. Este podcast é uma parceria entre o Observador e a PwC. Nós vamos voltar proximamente com outro tema e outros convidados. Até lá. Muito obrigada. Obrigada.
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