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Ep. 16 - Três sinais de um país cansado

07 de maio de 202611min
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Neste 16.º episódio, José Manuel Alho para três sinais discretos, mas perigosos, do nosso tempo: o país que investe mais na aparência do que na verdade, a cultura do favor quecontinua a abrir portas pela traseira e a infância cada vez mais entregue ao brilho do ecrã. Sem enfeites nem perfume, este é um retrato crítico de hábitos antigos que continuam a minar a vida coletiva, a justiça e a forma como crescemos. Um episódio para quem ainda acredita que viver bem vale mais do que parecer bem.

Participantes neste episódio1
J

José Manuel Alho

Host
Assuntos3
  • Cultura do favor e da 'cunha'Favor como sistema · Erosão da confiança · Mérito vs. contactos · Justiça e regra
  • País focado na aparênciaTurismo e imagem · Aparência vs. verdade · Serviços públicos · Manutenção vs. cenário
  • Infância de GisèleEcrã como companhia e refúgio · Impacto na atenção e paciência · Responsabilidade dos adultos · Falta de presença e conversa · Educação e limites
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Há temas que parecem leves, mas trazem peso. Fala-se de turismo e fala-se de aparência. Fala-se de infância e fala-se de abandono. Fala-se de favores e fala-se de um país inteiro a fingir que isto é normal.

Hoje olhamos para três sinais, três sinais pequenos, três sinais perigosos. O país bonito para a fotografia, a cunha que ainda entra pela porta das traseiras e as crianças entregues ao ecrã como quem entrega a atenção a quem a quiser levar.

Não é tudo a mesma coisa, mas vem tudo do mesmo fundo, da mesma preguiça, do mesmo conforto, da mesma desistência de exigir mais. Vamos então ao que interessa, sem enfeites, sem perfume, sem a velha tentação de maquilhar o que já cheira à desculpa.

Há lugares que parecem cartão postal. Há fachadas que sorriem. Há ruas que parecem dizer está tudo bem. Portugal tem esse talento. Sabe arranjar uma imagem bonita. Sabe vender luz, pedra, história e mar. Sabe embrulhar tudo isso numa fotografia limpa. E por um momento quase acreditamos.

Mas basta sair dois passos do enquadramento, basta olhar com mais atenção e logo aparecem os passeios partidos, os contentores do lixo maltratados, os serviços que não acompanham a conversa, o património que se apresenta muito bem nas brochuras, mas vive mal na prática. O problema não é haver beleza, ainda bem que há. O problema é quando a beleza...

passa a servir de cortina. Quando o cenário fica mais importante do que o chão. Quando a aparência vale mais do que a manutenção. Quando o que se mostra ao visitante é tratado com mais cuidado do que aquilo que sobra para quem cá vive.

E é aqui que a ironia entra sem bater à porta. Porque há muito conselho, muita cidade e muita instituição que descobriram uma verdade simples. Parecer é mais barato do que resolver.

Pintar custa menos do que arranjar. Prometer custa menos do que cumprir. Fotografar custa menos do que cuidar. O turismo, claro, também vive da imagem, mas uma imagem sem verdade acaba por se gastar depressa.

O turista pode não ver tudo, mas a população vê. Vê e sente. Sente quando a rua está esquecida. Sente quando o serviço falha. Sente quando o discurso é bonito, mas a experiência é medíocre. Sente quando há cartazes para tudo, menos vontade real de melhorar o que importa. No fim, fica a pergunta simples.

Queremos lugares bonitos para a fotografia ou lugares bons para viver? Porque as duas coisas não são a mesma coisa e fingir que são é, no fundo, mais uma forma elegante de enganar.

Há uma doença antiga que nunca saiu de cena. Tem bons modos, tem conversa simpática, tem contactos certos e atende pelo nome de favor. Quando ganha mais corpo, chama-se cunha.

E aí já não é apenas um gesto de simpatia, é um sistema. Entra pela porta das traseiras, sorria à frente e deixa a justiça à espera no corredor. O favor é um velho conhecido da nossa vida pública. Passa por cima da fila, passa por cima da regra, passa por cima de quem espera.

E o que é pior passa por cima do mérito com uma naturalidade quase ofensiva. Quem trabalha em silêncio fica para depois. Quem tem paciência fica para depois. Quem cumpre as regras fica para depois. Mas quem conhece alguém, esse entra logo.

E depois, ainda nos querem convencer de que vivemos numa cultura de igualdade, de que todos começam do mesmo ponto, de que o critério é igual para todos, como se a realidade fosse um folheto de propaganda com boa iluminação, mas péssima memória.

A verdade é, afinal, mais rude. A Cunha continua a ser um dos desportos mais praticados no país. Em pequenos gestos, em grandes decisões, na escola, na autarquia, no emprego, no acesso, na oportunidade.

E o mais grave nem é a vantagem imediata de quem entra por favor. O mais grave é a erosão lenta da confiança. Porque quando as pessoas percebem que o esforço não chega, começam a desistir por dentro.

começam a pensar que vale mais conhecer do que saber, mais agradar do que fazer, mais estar perto do poder do que estar perto da verdade. Isso destrói a vida coletiva, destrói o respeito pela regra, destrói o sentido de justiça, destrói a esperança de quem ainda acredita que o mérito devia contar. E, no entanto, é precisamente aí que o mérito devia contar.

que a sociedade se mede, não no discurso sobre valores, mas na coragem de os aplicar. Uma comunidade séria não permeia a cunha, tolera cada vez menos o favor e aprende, com muito esforço, a devolver dignidade ao mérito.

Há crianças que já não esperam, deslizam. Há olhos que já não procuram o mundo, procuram brilho, procuram movimento, procuram mais uma imagem. O ecrã não é por si só um mal. Seria fácil demais dizer isso. Há ali conhecimento, contacto, acesso, descoberta. Mas há também uma voragem. E a voragem nunca educa ninguém.

O problema começa quando o ecrã deixa de ser ferramenta e passa a ser companhia, passa a ser refúgio, passa a ser substituto da presença. Menos conversa à mesa, menos jogo fora de casa, menos silêncio para pensar, menos tempo para inventar, menos espaço para o tédio que tantas vezes é o berço da criatividade.

E depois vemos o resultado. A atenção mais curta, a paciência mais fraca, a irritação mais fácil, a escuta mais pobre. Como se a infância estivesse a ser treinada para saltar de estímulo em estímulo, sem aprender a permanecer em nada. E isso, convenhamos, tem um custo alto.

Porque crescer não é apenas acumular imagens, é aprender a olhar, é aprender a esperar, é aprender a brincar sem precisar de uma tela a mandar. Há também aqui uma responsabilidade dos adultos. Não basta apontar o dedo às crianças. É preciso perguntar quem lhes entrega o ecrã, quando, porquê e para substituir o quê.

Muitas vezes o problema não está no aparelho. Está no vazio à volta dele. Na falta de tempo, na falta de presença, na falta de conversa. Na pressa com que se cala uma criança para se obter sossego. Como se silêncio fosse sempre educação e distração, sempre paz. Mas não é.

Uma infância excessivamente colada ao ecrã pode ficar mais solitária do que parece, mais dependente do estímulo, mais pobre em relação ao corpo, à palavra, ao jogo e ao outro.

E isso não se resolve com moralismos. Resolve-se com limites, com exemplo, com presença real. Porque educar também é isto. Ensinar a olhar para além da luz azul. Ensinar a estar. Ensinar a brincar. Ensinar a esperar. Ensinar a viver sem precisar de estar sempre ligado.

No fundo, os três temas de hoje falam da mesma tentação, a de escolher o mais fácil em vez do mais certo. Para ser bonito, ter cunha, colocar a criança em frente ao ecrã para ganhar sossego imediato, tudo isto resolve pouco, mas adia muito.

E é esse adiamento constante que nos vai empobrecendo, na paisagem, na justiça, na infância, na forma como vivemos uns com os outros. Por isso, convém dizer isto com clareza, sem cerimónias, sem vergonha, sem esse reflexo triste de se encolher perante o mundo. Nunca, por nunca, peça desculpa por existir.

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