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Não é ‘a conversa’: a educação sexual faz-se todos os dias, e começa muito antes da adolescência

05 de maio de 202643min
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“O que é o sexo” ou “como é que se fazem os bebés?”, são perguntas que os filhos fazem e que normalmente, são difíceis de responder.

Embora a maioria dos pais concorde que a educação sexual é necessária, os estudos mostram que estas conversas raramente acontecem em casa. Quando os jovens não têm acesso a educação sexual adequada à sua idade e baseada em evidência, proveniente de fontes e adultos de confiança, acabam por aprender com aquilo que encontram online, que em muitos casos é pornografia.

Portanto, surge uma pergunta importante: queremos ser nós a explicar, ou deixar que sejam os outros? Este episódio do podcast O Prazer é Todo Meu é dedicado a este tema. A médica e sexóloga Mafalda Cruz conversa com o pediatra Hugo Rodrigues sobre um dos maiores desafios da parentalidade contemporânea: quando e como falar com os filhos sobre sexualidade.

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Participantes neste episódio1
M

Mafalda Cruz

HostMédica e sexóloga
Assuntos7
  • Abordagem da sexualidade na adolescênciaConversas a sós com adolescentes · Confidencialidade em consultas médicas · Impacto do consumo de pornografia · Uso de telemóveis e internet · Controle parental e regulamentação
  • Pornografia e seus efeitosImpacto no desenvolvimento psicossexual · Insatisfação corporal e expectativas · Violência e objetificação nas mulheres · Literacia digital e pensamento crítico
  • O papel dos pais na educação sexualNaturalidade e construção de conceitos · Capacitação das famílias · Diálogo aberto e disponibilidade · Ensinar a dizer não
  • O papel dos pediatras e médicos de famíliaEducação para a cidadania · Domínios cognitivo, afetivo e comportamental · Abordagem a adolescentes em consulta
  • Prazer sexual e tomada de decisõesMotores das decisões diárias · Ligação ao córtex pré-frontal · Consciência da influência do prazer · Sexo como experiência prazerosa
  • Reação dos pais ao serem apanhados em ato sexualPreservação da esfera íntima · Conversa aberta e explicação · Respeito pela vontade da criança · Normalização da atividade sexual dos pais
  • Recursos para educação sexualSite da APF (Planeamento Familiar) · Livro 'A Viagem de Peludim' · Livro 'O Kiko e a Mão' · Trabalho de Ivana Belis · Site 'The Porn Conversation'
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Olá, bem-vindos e bem-vindas ao O Prazer é Todo Meu, um podcast sobre sexualidade, saúde e relações, onde se fala sobre aquilo que nós sabemos. Mas a pergunta é, será que sabemos?

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O que é o sexo ou como é que se fazem os bebés? São perguntas que os filhos fazem e que normalmente são perguntas difíceis de responder. Embora a maioria dos pais concorde que a educação sexual é necessária, os estudos mostram que estas conversas raramente acontecem em casa.

Quando os jovens não têm acesso à educação sexual adequada à sua idade e baseada em evidência, provenientes de fontes e adultos de confiança, acabam por aprender com aquilo que encontram online, que em muitos casos é a pornografia. De acordo com vários estudos, o consumo de pornografia na adolescência está associado a uma variedade de experiências sexuais que vão desde a violência até à misoginia e a objetificação das mulheres.

Portanto, surge uma pergunta importante. Queremos ser nós a explicar ou deixar que sejam os outros? Neste episódio falamos das conversas em família. Quando começar, o que dizer, como responder às perguntas difíceis e como adaptar o discurso a cada fase do desenvolvimento. Para isso, tenho comigo o Rodrigues, pediatra, professor e autor de vários livros. É também conhecido pelo seu trabalho em comunicação em saúde e pela forma clara com que fala com pais e famílias na sua página Pediatria para Todos.

Olá Hugo, é um prazer receber-te. O prazer é todo meu, é aquela que a gente pensa fazer, eu também vou fazê-lo. Mas que eu agradeço, ainda gosto dessa piada. Hugo, estás aqui porque és pediatra e eu acho importantíssimo que os pediatras falem publicamente sobre sexualidade, mas também porque és pai de dois, em breve três. Exatamente. Muito desparabéns. Muito obrigado. E portanto terás também as dúvidas e angústias de tantos outros pais.

Vamos então começar, eu acho que este episódio é um dos episódios que gera mais curiosidade.

Portanto, temos aqui uma responsabilidade também em ajudar. Vamos a isso. Vamos a isso. A primeira pergunta que eu te queria fazer é, na tua opinião, porquê é que ainda é tão difícil para os pais falar de sexualidade com os filhos?

A sexualidade está envolvida numa série de tabus, sempre foi encarada dessa forma ao longo da nossa história, quando falávamos com crianças, e acho que vai ser difícil mudar de um momento para o outro de forma radical. Temos é algo aqui que nos está a acelerar o processo em termos de disponibilidade de conteúdos, que é a internet.

E que se nós, há uns anos atrás, os pais não falavam, mas as conversas tinham acontecendo entre pares e de uma forma lenta, neste momento qualquer criança tem acesso a conteúdos sobre sexo e pornografia. Já nem estou a falar de sexualidade porque esses não são tão chamativos e depois podemos criar esta... A internet e a pornografia é um dos temas que quero falar contigo.

Claro, e portanto eles têm acesso e eu acho que os pais estão um bocadinho perdidos, porque se por um lado, quando foi com eles ninguém falou muito, têm vontade, não sabem como fazer, alguns não se sentem preparados, até porque estes assuntos têm que estar bem resolvidos connosco próprios, e cria-se esta dificuldade porque parece que os pais, por muito queira, estão constantemente a ser ultrapassados.

E o primeiro ponto é capacitar as famílias. As pessoas têm de perceber que a sexualidade faz parte do dia-a-dia. Todos nós adultos encaramos a sexualidade como deve ser, com naturalidade. E os nossos filhos têm de perceber que a sexualidade é mesmo isso. É uma área da vivência humana que faz parte e que deve ser gerida dessa forma e conversada também dessa forma.

Eu acho que a dificuldade em falar de sexualidade acaba por estar mais na nossa cabeça e na nossa dificuldade em falar de relações e de afetos do que propriamente na capacidade cognitiva da criança. Ah sim, a questão é dos adultos, não tem dúvida, a questão é dos adultos e também muito ainda dependente da construção de que sexualidade são relações sexuais.

E deve-se trabalhar muito mais para além disso, eu diria muito mais as competências sociais que provavelmente as competências sexuais, porque depois uma é a continuação da outra. Por isso os pais têm de olhar desta forma. Para além disso, os pais estão sempre muito preocupados também com a conversa.

Aquela conversa, o dia da conversa, e não é uma conversa, isto é uma construção de conceitos que vão fazer com que essa conversa não precise acontecer ou que o que vai acontecer tenha um enquadramento que vai facilitar, seja a explicação, seja o entendimento. Acho que tem que ser, a palavra-chave é naturalidade.

Pois, então lá, visto que já sabemos que o mais adequado não é termos a conversa, mas irmos introduzindo estes temas no dia-a-dia e enquadrado numa conversa normal do dia-a-dia.

Existe uma idade certa para começar a falar de sexualidade? Eu tenho a minha visão da coisa, diz-me, enquanto pediatra e conhecendo bem o cérebro das crianças, existe uma idade certa para se começar a falar de sexualidade com os filhos?

Eu acho que quase inconscientemente todos os pais e mães, então vou dizer principalmente os pais de meninos, começam a falar de sexualidade quando as crianças começam a dizer as primeiras palavras, aprender as partes do corpo. Porque todos os pais gostam muito de ensinar aos filhos onde está a pilinha.

E isto já é uma primeira conversa sobre sexualidade, o conhecer o próprio corpo. Portanto, não há uma idade mínima. Acho que o primeiro conceito que se deve passar às crianças é conhecerem-se a si próprias. E depois, numa fase seguinte, e naturalmente, por volta dos três anos, é uma fase onde as crianças estão muito à descoberta das relações que estabelecem, sempre a picar os pais, a ativar os pais, ter um filho que está...

um bocadinho ainda nessa fase, não é? E portanto, mas isto é uma descoberta das relações, e portanto, primeiro vão conhecendo o corpo, vão-se conhecer eles próprios, depois vão conhecer como funcionam as relações, e aqui os pais têm de trabalhar a forma como as crianças se relacionam com os adultos e com as outras crianças, no respeito que têm de ter por elas próprias e também por quem está com elas, e no fundo, isto já são os primeiros passos de uma sexualidade saudável. Claro que quando nós falamos de contactos

de íntimos e de proteção de possíveis contactos abusivos, isto tem de ir sendo falado à medida que a criança vai descobrindo o próprio corpo. Desculpa, não queria que falasse o teu raciocínio, mas é muito importante, nós já sabemos que é importante desde cedo, estavas a dizer, desde que as crianças começam a entender uma conversa e a aprender a falar.

dar os nomes certos às coisas. E eu tento combater um bocadinho estes eufemismos que se usa para os genitais. O meu filho sabe que é um pênis, sabe que é uma vulva. Muitos adultos não sabem o que é vulva, são uma vagina, a vulva. Exato, agora são coisas diferentes, vulva é a parte externa. E eu desde sempre que insisto isto com o meu filho, porque para mim não faz sentido que agora tem 4 anos, saiba, com dois pais médicos, saiba os ossos do antebraço,

E não saiba dar o nome correto às coisas, mas depois eu às vezes ouço, para que é que estás a insistir com isso? E eu, porquê que eu não hei de insistir com isto? Por um lado eu acho que isto deve ser uma conversa tão natural como as outras, por outro lado eu acho que também é uma conversa que devemos ter com especial cuidado, porque queremos passar os nossos valores, queremos combater muita desinformação que aparece à volta.

Sim, mas o dar a conhecer o corpo e ir explicando, por exemplo, que há zonas do nosso corpo que não estão expostas naturalmente e que as pessoas não devem tocar, há algo que os pais às vezes se esquecem. E eu vejo muito isso na consulta.

Porque quando observo uma criança de 3, 4, 5 anos, às vezes as crianças têm algum pudor e quando se vai observar a região genital ficam-se um bocadinho envelheados porque os pais disseram isso não é para mostrar a ninguém. E eu insisto muito, e também faz parte da educação dizer, olha, tens aqui o papá e a mamãe, portanto eles estão aqui ao teu lado. Acho que não deve saber mostrarmos que quando tens o palma ao teu lado podes sentir-te mais seguro. Claro que isto, vamos partir do princípio que as coisas são...

sem nenhum tipo de desvio da normalidade. Também que é seguro estar ao pé do pai e da mãe. É isso, é isso, é um desvio de normalidade. Mas, portanto, aos poucos também não é criar um tabu, porque às vezes as pessoas tanto querem proteger que dizem.

Isso não é para mostrar a ninguém. Ninguém toca, ninguém vê. E depois nem numa consulta médica. Onde é suposto mostrar? Ou se for outro familiar a dar banho porque está na casa dos avós? Isto tem que ser gerido com algum consenso. E na vivência da sexualidade. Porque se há esta noção de que não é para mostrar, não é para tocar, há também depois muito pudor, mesmo que se queira. Claro, e isto tem que ser desconstruído. Acho que há um conceito.

que é pelo menos tão valioso como esse, e que os pais raramente ensinam aos filhos, que é, ninguém te pode fazer mal. E isto, eu tive esta conversa com os meus filhos, e cheguei a dizer-lhes mesmo, se algum dia vocês sentirem que eu vos estou a fazer mal, digam, eu não concordo, não me podes fazer mal. Digam isto. E o saber dizer não...

se calhar é muito mais importante do que dizer aqui isto tem que estar sempre tapado. Porque esta competência social do saber dizer não, principalmente com pessoas em quem eles confiam, é importante. E os pais às vezes esquecem-se disto. Não é porque não valorizem. Mas nós temos que dizer, olha...

Aqui, eu sou teu pai, é óbvio que eu vou ditar as regras e vou ser eu que vou ter o poder de decisão na maior parte das vezes, mas se algum dia vocês acharem, achares que eu estou a fazer-te mal por algum motivo, deves dizer, não me podes fazer mal, ou não deves fazer mal por isto. E depois vamos conversar, mas marcar a posição. Porque isto é um ensinamento, se eles estiverem...

coragem e confiança para dizer isto a alguém, a quem as crianças, quer se gostem, quer não, vão obedecer. Eu sei que este termo levanta sempre aqui alguns anticorpos, mas não é isso que estamos a discutir. Eles depois, como outras pessoas, vão estar mais seguros para poder dizer também. Eu acho que isto é uma construção. Acho que é uma construção. E a sexualidade vem no decorrer da aprendizagem social e relacional, porque, no fundo, é uma das formas, das muitas formas, que nós temos de relacionar com as outras pessoas.

Vamos passar assim rapidamente pela consulta de pediatria, porque eu acho que os pediatras e os médicos de família têm um papel importante também aqui na educação para a cidadania e na educação sexual. A Academia Americana de Pediatria defende que a educação sexual deve envolver três grandes domínios. O cognitivo, portanto fornecermos informação, o afetivo, falarmos de sentimentos, valores e atitudes, e comportamental, comunicação e a tomada de decisões.

Qual é que é o papel dos pediatras e médicos de família nisto? E, por outro lado, o que é que os pais podem esperar quando vão a uma consulta de pediatria? E queria chegar ali àquele momento em que vocês ficam sozinhos com o adolescente. Com o adolescente, sim.

Aqui nós temos que dividir claramente numa consulta de infância e numa consulta de adolescência, porque na adolescência nós temos muitos momentos em que ficamos a sós com os adolescentes e em que aí a abordagem vai ser muito dirigida a eles e com muito mais liberdade para eles poderem expressar-se de forma diferente do que fariam quando estão... E tens pais que não compreendem esse momento a sós? Nunca tive. Eu tenho uma consulta de adolescentes há muitos anos e nunca tive.

Também faço questão, e geralmente nós que trabalhamos com adolescentes, fazemos questão de explicar de início, dizer, olha, consulta, logo na primeira consulta funciona assim, vai haver consultas em que eu vou querer falar a sós com o adolescente, e nesse momento o que nós falamos é confidencial.

E vamos usando, explicando que há algumas regras que não podem ser quebradas. Se o adolescente nos conta que tem uma ideação suicida ou que pretende fazer mal a alguém, nós aí temos que quebrar essa confidencialidade. Isto tem que ser claro para eles. Se eles puserem em risco a vida deles ou a vida de outro, nós temos que quebrar. Mas, explicando isto de início, os pais entendem. E a maior parte dos pais até fica aliviado com tendo alimentações na esperança que nós tenhamos a conversa. Façam tudo o que não fosse feito.

Para substituir, e não é esse o papel. Nós, do ponto de vista cognitivo, temos que adaptar a conversa que temos e os termos que utilizamos e os conceitos que passamos ao nível de desenvolvimento da criança barra adolescente, obviamente que sim. Do ponto de vista afetivo, aí os pais já vão manifestando um bocadinho mais...

com crianças pequenas, na forma como se relacionam com os amigos e algumas preocupações, não do ponto de vista sexual, mas que nós devemos ter também a perceção de que pode ter implicações para as questões sexuais e com os adolescentes, aí muito mais direcionado à conversa com eles a sós.

Acho que é algo que vem naturalmente. Os adolescentes, quando estão connosco a sós, de um modo geral são muito francos. Ok. De um modo geral são muito francos nas conversas que têm, mas também este tipo de temas um bocadinho mais íntimos, mais privados.

muitas vezes não são abordados logo numa primeira consulta. Primeiro vai-se reinando a confiança, que é para eles se sentir à vontade, ou então se nós percebemos que há algum motivo de preocupação, aí temos que ser um bocadinho mais decisivos, mas se não vai correndo naturalmente. Muito bem. Se não te importares agora, gostaria de deixar alguns conselhos práticos para os pais, para as famílias, para os cuidadores, e acho que um pediatra que conhece tão bem as crianças e a forma como devemos falar para elas, gostava que...

separássemos aqui em dois grupos. O que é que é importante falar em termos de sexualidade a uma criança pequena e depois a um adolescente. Começando pelas crianças pequenas, já fomos falando aqui da anatomia, não é? Usar o nome correto para... Usar o nome correto, sim. Conhecerem-se a eles, conhecerem-se aos outros. Chamar a atenção quando algum tipo de relacionamento com os outros não está a ser correto.

E é normal haver comportamentos exploratórios nas crianças e perceber, às vezes, isto não é assim muito frequente, mas vai acontecendo com alguma frequência, há crianças que têm comportamentos de autogratificação, principalmente as meninas, o que antigamente se chamavam de rituais masturbatórios.

porque basicamente elas estimulam a sua região genital porque sentem prazer e aproveitar esses momentos para lhes explicar o que é o prazer, e também acho que é um aspecto muito importante, e perceber com as crianças também a liberdade de nós escolhermos o que queremos fazer sem interferir muito na liberdade dos outros.

Acho que isto é importante. Os campos que têm momentos e espaços onde se vão sobrepor, mas outros onde não se podem sobrepor. E os diferentes tipos de família e de orientações sexuais? Uma criança pequena, até onde podemos ir? O que é que vale a pena explicar?

Na maior parte das vezes, as crianças, se nós não lhes colocamos muitas questões, elas vão encarar com muito mais naturalidade do que nós. Nós é que colocamos muitas questões. Uma vez eu estava a tentar explicar ao meu filho, ele teria pai de dois anos, e eu, olha, já viste a menina X, tem duas mães. E ele? E como é que se chamam? Pois é isso, a preocupação deles é muito... Eu também, como eu não fiz uma vez, já não sei o que propósito foi, que também falei sobre isso, e até perguntei a opinião deles, sério.

Tudo bem, se gostam um do outro, até foi... É prova que depois a sociedade... Já te sentavas a discutir a adoção, quando se estava a falar da adoção, porque às vezes é uma sexual, já não me recordo muito bem qual foi o contexto. E a naturalidade deles foi, se as pessoas gostam uma da outra, podem estar juntas. Claro. Pronto. E lá está, depois é a prova que a sociedade é que vai maldando os nossos próprios filhos. É isso, e mais tarde...

Mais tarde, no início da adolescência, tinha uma conversa precisa, mas já não sei a que contexto, e um dos meus filhos, também já não me recordo qual deles foi, já questionava de, ok, mas então duas pessoas do mesmo sexo não vão poder ter filhos.

Aí já tem um conhecimento de biologia E depois a discussão já partiu Para outro campo também por aí As crianças são muito mais tranquilas Do que nós Nós adultos quando falamos sobre um tema delicado com crianças O nosso maior receio é Que perguntas é que eu vou suscitar naquela cabeça E que depois ele me vai devolver Na maior parte das vezes a criança se tiver uma dúvida Se nós respondemos com tranquilidade e segurança A dúvida está respondida Não vão estar constantemente a fazer perguntas sobre o assunto Lá está, tem duas mães, tudo bem, como é que se chama?

E deixar sempre em aberto que pode continuar a perguntar É isso, sim, sim Porque também se vê em muito desconforto da nossa parte É isso, por isso é que eu disse com segurança Nós temos que responder com segurança e com tranquilidade Tem que ser algo tranquilo para nós o que estamos a dizer e eles medem a nossa tranquilidade Se nós estamos tranquilos, eles ficam seguros Se nós estamos intranquilos, eles vão fazer mais perguntas Claramente vão fazer mais perguntas para perceber porque é que nós estamos intranquilos Porque também não é eles...

não se sentem confortáveis a ver-nos intranquilos. É um bocadinho por aí. Acho que faz sentido ir falando com as crianças desta forma, e ajudar os pais também a conversar um bocadinho sobre isso. Achas que estas conversas devem acontecer mais em família ou de um para um?

Depende. Não acho que há as regras. Acho que em família funciona sempre bem, porque também se percebe que há uma pluralidade de conceitos e de opiniões. Não acho que isso seja errado. E que não há conversa de mãe com filha e pai com filho.

Não acho que seja obrigatório ser assim. Acho que é o que for mais natural. Tentar que corra de forma mais natural. Também acho que é fundamental o ensino das diferentes emoções. Nós adultos às vezes somos um bocadinho confusos nisto. Eu se disser ao meu filho porque faz mais neira.

Estou muito triste contigo. E eu estou a usar uma expressão de zangado. E digo que estou triste. Isto é uma boalhação naquela cabeça. Nós temos que ensinar. Está como quando eu digo, estou tão zangado contigo. E nós fazemos isto. Todos nós, todos nós, todos nós. É verdade. Nós temos que ser claros na mensagem que passamos. Senão vamos criar confusão. E é completamente diferente a reação que nós temos quando estamos tristes ou quando estamos zangados. E no relacionamento com os outros, isto é importante.

Só daste-te exemplo porque acho que são as duas emoções que nós adultos baralhamos mais. E o consentimento, desde criança, que também é importante. Tem de ser, o consentimento tem de ser. É assim, eu também acho que nós, e eu sei que isto aqui vai ser um bocadinho polémico, eu estou a dizer, hoje em dia também há uma corrente em que se defende que logo a um recém-nascido tem que se perguntar se pode trocar a fralda.

se... Pronto, eu também, isto acho desnecessário, sei que isto se calhar vou-te estar aqui a polarizar um bocadinho mas acho que isto é demasiado porque não há entendimento, mas há muita gente que defende quando coloca diz, posso trocar a fralda Mas se é um cuidador, o cuidador tem que cuidar Estamos a falar de um nível de entendimento de linguagem verbal

Claro. Mas existem correntes por aí. O consentimento tem sempre de existir. Não faz sentido que não se ensine isto de uma forma natural. Mas é um consentimento, às vezes até pode não ter nada com sexualidade, às vezes pode interromper alguma coisa que a criança está a fazer. Isto é importante, faz parte do relacionamento.

tem a ver com aquilo que eu disse há bocadinho, a invasão das esferas privadas. Se invado uma esfera privada, tenho que pedir... E eles irem tendo esta noção de quando há desconforto do outro lado. Claro, e as crianças têm depressões. A linguagem não verbal é importantíssima, e é a empatia.

que é algo que tem que ser trabalhado. E os ECRAS aqui, e tenho que falar disto, já nem falo dos conteúdos desajustados do ponto de vista sexual, os ECRAS são um entrave muito grande ao desenvolvimento da linguagem não verbal e ao desenvolvimento da inteligência emocional. Inteligência emocional é provavelmente pedra basilar para qualquer tipo de relação.

Se nós não tivermos uma boa inteligência emocional, temos muito mais probabilidade de ir sucesso nas nossas relações. Não tem que se trabalhar a inteligência emocional das crianças logo desde o início. E tudo isto vai dar uma base muito mais sólida para depois chegarmos à adolescência. E chegamos à adolescência. E chegamos à adolescência, sim. Essa fase crítica. Quais é que são os pontos que não devem faltar aqui nesta abordagem da sexualidade, das relações com os adolescentes?

Acho que há um ponto que é muito importante e que deve ser questionado, que é, já alguma vez alguém te obrigou a fazer alguma coisa que não querias, e isto não só em relação à sexualidade. Às vezes, eu aproveito e falo isto quando estamos na escola, quando falo de escola ou isso.

que é para perceber que esta questão do consentimento e do saber dizer não tem que ser muito mais alargado que a sexualidade. Algumas vezes fizeste alguma coisa que te arrependes, isto é importante. São conversas que ajudam a reforçar esta noção do que é meu e do que é dos outros. E a partir daqui depois, ou a conversa, se houver alguma questão sobre sexualidade vai fluir naturalmente, ou já temos aqui alguns alicerces para poder trabalhar a seguir.

O que eu acho que temos alguma dificuldade é que algumas das coisas têm que começar antes da adolescência. Porque o contato com a pornografia é cada vez mais cedo e isto dificulta-nos, porque do ponto de vista do desenvolvimento cognitivo não é igual falar com um adolescente ou falar com uma criança de oito anos ou de nove anos.

mas eles estão a ter este contacto mais precoce. Portanto, eu aqui não sei responder completamente. A parte da equidade é que nós devemos conversar sobre isto assim, até porque com oito anos raramente ficamos a sós na consulta. Pois. E se nós só falarmos a sós aos 11 ou aos 12 anos, se ela já tem dois anos ou três de consumo de pornografia.

Vamos à pornografia. Nós sabemos que o primeiro contacto com a pornografia acontece em média aos 11, 12 anos. Em média, isto são dados europeus. O consumo de pornografia nestas idades tem um impacto negativo no desenvolvimento psicossexual e de expectativas, um impacto negativo na saúde mental, traz uma maior insatisfação com o corpo, leva a um início precoce da atividade sexual e mesmo em termos de função sexual tem aqui um impacto negativo.

Pergunta para Milhão, Hugo. Como é que os pais devem lidar com o uso descontrolado dos telemóveis e o acesso precoce à internet e pornografia? Ora bem, primeiro, eu sei que a solução ideal não passa por proibições, mas quando falamos de telemóveis, de dispositivos ligados à internet, tem de haver proibição, tem de haver lei. Isto defende o superinteresse da criança. Quando falo superinteresse da criança, vamos englobar aqui também os adolescentes.

E não é possível. Nós estamos a travar uma luta muito desigual com estes aparelhos. Estes aparelhos estão feitos exclusivamente para captar a nossa atenção. O conteúdo é um bónus, digamos assim. Enquanto que nós falamos de um tabaco, de um álcool, em que são drogas que provocam uma sensação de bem-estar e por isso provocam uma dependência,

Com os ecrãs nós temos ao contrário, temos algo feito para provocar uma dependência e depois vamos encontrar um caminho que também entretenha ou que dê prazer. E eles fazem isto atuando nos nossos centros de prazer, que são centros que vão comandar as nossas decisões. E por isso tem de haver proibição.

Eu não tenho dúvidas de ter haver proibição. A proibição nas escolas foi um bom passo. Não chega, não substitui também algumas regras em casa. E há países que estão a trabalhar em alguns conceitos que são interessantes. Um conceito interessante seria os smartphones estarem disponíveis só a partir dos 16 anos.

e até aos 16 anos quem quisesse ter um telemóvel tinha um telemóvel de teclas eu sei que haver gente aqui que vai achar que eu estou por isso um dinossauro a dizer isto eu acho que a maior parte das pessoas vai concordar contigo hoje em dia vai concordar do ponto de vista ideológico mas acham que na prática isto não faz muito sentido

Os pais não querem que o seu filho se sinta excluído. É muito importante. E é verdade. E se todos estiverem... Basta pequenos grupos. Pois. Basta pequenos grupos. Este é um conselho importantíssimo para os pais, que é juntem-se com três ou quatro pais dos amigos dos nossos filhos e tenham uma atitude conjunta. Isto vai ser muito mais fácil para uns se apoiarem aos outros e até para contagiar os outros grupos de pais.

Se for um sozinho não vai ter força. Pequeninos grupos, isto está mais custodado. Muitas pessoas que mostram isto são o que fazem a mudança, são os pequenos grupos. Portanto, tem que haver aqui um limite. Isto não vai fazer com que nenhum adolescente contacte com a pornografia. Obviamente que não vai. Mas já vai limitar muito. Vamos afunilando cada vez mais.

Faz sentido utilizar controle parental nos dispositivos de acesso à internet e o controle parental não é invasão de privacidade, não é andar a bisbibitar o que as crianças fazem, os adolescentes fazem, são ferramentas que nos ajudam a limitar tudo o que é instalado de acordo com a definição etária. Temos um problema grande, é que temos muito conteúdo e muita informação que não está codificado com a definição etária, isso não é controlado. Mas mais uma vez vamos afunilando aos bocadinhos.

E depois tem de haver responsabilização das redes sociais, dos sites de pornografia, a maior mentira da internet, não é? Ou tens mais de 18 anos, clica aqui. Esta é a maior mentira da internet. E portanto tem de haver regulamentação. Falamos de pornografia, mas não estamos a falar de casinos ou de jogos. Estamos a falar exatamente o mesmo. Estamos a falar de criar contas nas redes sociais.

é a partir dos 13 anos e os miúdos têm contas de TikTok bem mais cedo, de Instagram mais cedo. Porquê? Porque não há regulamentação, não há fiscalização e tem de haver, tem de haver fiscalização por aí. E se nós conseguirmos controlar ou diminuir o acesso por aí, eu não tenho dúvida nenhuma que falta, a faca mais importante, que é os pais prepararem os filhos para os acessos, o que vão encontrar no mundo da internet.

que vão estar sempre dois ou três passos atrás do que as crianças vão encontrar. Mas tem que se conversar sobre isso. Tem que se conversar sobre isso. Eu acho que o acesso à pornografia é daquelas coisas que é importante afunilar, mas que nunca vamos conseguir combater a 100%. Portanto, eu acho que nós das duas uma. Ou continuamos a negação.

Isso não pode ser. Ou entendemos que eles vão ter acesso precoce à pornografia e antecipamos. Claro. E então é nós conseguirmos estar preparados e dizer olha, é possível que vejas algumas coisas que te façam sentir desconfortável. Se assim for, podes falar comigo, não é? Dar esta disponibilidade.

E acompanhar, educar e não proibir. Estás proibido de ver isso, não podes ver isso. Quem foi que te mostrou isso? Isso é chover no molhado, isso não vai resolver nada, nem vai conseguir controlar nada. Vai tentar incutir medo.

Mas só isso. É quase como dizer isso é pecado. Exato. Não é? Não é possível. É quase isso. Sim, tem que se conversar e tem que se falar antecipadamente. Por isso é que os pais têm que ir preparando antecipadamente. E acho que as escolas têm que ter também aqui conteúdos que ajudem a preparar. Os conteúdos de educação para a saúde, educação sexual, como quisermos chamar, são paupérrimos. Pois é.

São linhas de orientação vagas, repetidas ano para ano. As mesmas linhas que se repetem ao longo de todos os ciclos.

Sim, mas também com muito receio de tocar nestes pontos. Mas está mais do que sabido que falar por antecipação, se for bem falar, tem feito protetor. Isto é como falar sobre suicídio. Pois. Falar sobre suicídio, quando se começou a falar sobre suicídio havia sempre o receio de vou falar, vou despertar a curiosidade. E aquilo que se concluiu foi que falar sobre suicídio era protetor, principalmente em adolescentes.

que poderiam até ter alguma ideação suicídia. Portanto, o que falar antecipadamente é protetor. Mais uma vez, os pais têm que estar tranquilos para falar disto. Claro. E ter a capacidade de dizer, porque eu acho que uma das coisas, em termos aqui mais especificamente à sexualidade, que é a minha área, conseguir explicar que...

Olha, o que tu vais ver na pornografia, aquilo é o trabalho daquelas pessoas. Eles estão a ser pagos para fazer. São atores. Na vida real, eles próprios não têm sexo assim. Claro. Aquilo foi tudo produzido para ser rápido, para ser mais espetacular, entre aspas, para ser um filme de ficção. Tal como te chamou a atenção a ti, é para chamar a atenção aos outros também. E para vender. Claro.

E explicar também, existe a tendência na pornografia para a violência e para objetificar e maltratar sobretudo as mulheres. E dar este poder crítico, ou seja, incentivá-los a ser críticos também. Claro. E literacia digital. Muito importante. Que é muito importante. Se nós ensinarmos os nossos filhos desde o início de o que tu parece que é errado, não vejas.

o que te parece que é errado passa à frente, nas redes sociais o que te parece que é errado denuncia,

Ali podemos dizer exatamente o mesmo. O que te parece igual, por favor, o que te parece errado, desculpa, por favor, não vejas, não continues a ver. Quanto mais tempo estás a ver, mais audiência estás a dar. Isto é a literacia digital. Quanto mais tempo nós permanecemos num conteúdo, mais audiência, mais aquele conteúdo vai ser reproduzido para outras pessoas com características semelhantes a quem está a ver. O problema é que nós achamos que estamos sozinhos no nosso mundo da internet, mas os nossos dados...

são constantemente transmitidos às empresas que divulgam conteúdos e ao serem transmitidos, nomeadamente o nosso tempo de atenção, estão a construir um império e a construir uma hierarquia de conteúdos que vão ser revelados a pessoas com características semelhantes às nossas. São os famosos algoritmos.

E esta literacia digital, eu acho que também a maior parte das pessoas não tem. E temos de ter presente e ensinar isto aos nossos filhos. E a literacia digital, tal como a literacia financeira que já foi introduzida em alguns conteúdos escolares, a literacia digital tinha de fazer parte. Tem que fazer parte, sem dúvida.

E os adultos primeiro e depois para a idade pediástica. E para as crianças, certo. Este podcast chama-se O Prazer é Tudo Meu. O prazer está aqui como tema central deste podcast e, portanto, primeiro se achas importante falarmos de prazer quando falamos com os adolescentes, porquê que achas importante nós não esquecermos aqui esta questão do prazer sexual?

prazer é provavelmente um dos maiores motores das nossas decisões no dia-a-dia. E não é só o prazer sexual. Nós comemos melhor quando a comida é agradável, nós trabalhamos melhor se o trabalho nos dá prazer e, portanto, tudo isto tem uma explicação biológica, é que os centros de prazer são centros subconscientes, ou seja, são centros...

que não controlam diretamente as nossas ações, mas têm uma particularidade. Estas zonas do cérebro que nos dão a sensação de prazer estão ligadas ao nosso córtex pré-frontal, que é o nosso centro de decisão e, portanto, nós vamos decidir em função da maior quantidade de estímulos que vem dessas zonas do prazer, sempre que podemos escolher.

E por isso, o prazer, todas as pessoas agem por prazer. E nós, no nosso dia-a-dia, estamos constantemente a agir por prazer. As nossas decisões são baseadas no prazer que temos. Claro que não é o único fator de decisão, porque depois temos outras balizas racionais. Mas o prazer, e lá está aquilo que eu dizia há bocadinho, tem esta questão que nós não conseguimos continuar, que é subconsciente, está-nos sempre a minar a nossa decisão. Todos nós já decidimos coisas que não queríamos em função do prazer.

Todos nós. E, portanto, temos que explicar isto e explicar às crianças que não devias ter feito isso, mas tu gostas muito. Não devias ter comido o chocolate todo, mas tu gostas muito. No fundo, explicar-lhes que o prazer existe, que eles às vezes não vão decidir como devem em função do prazer, mas que devem ter noção de que existe, porque só com noção de que existe é que vamos conseguir, mais uma vez, balizar esta influência tão grande.

E não estamos a incentivar um início precoce da atividade sexual se eles souberem que é uma coisa prazerosa. Eu não gosto de me dar exemplos pessoais, mas vou dar mais um exemplo pessoal. Uma vez estava à mesa com os meus filhos, um filho mais velho, já não sei que idade que ele tinha, devia ter, pá, 10 anos, não sei. Estávamos a comer, lontas-se e usava isso. Oh pá, porquê que as pessoas se masturbam?

e eu se pede crescer, hoje é meio de jantar tive-se um esforço para não me engasgar não, mas a verdade, e a conversa depois girou em torno do prazer e explicar isso, e foi uma conversa expliquei, ok, sim senhora e ficou por ali, mais novo, dois anos mais novo ali de orelhas acreditadas também e no fundo o prazer faz parte, mais uma vez

No desenvolvimento emocional, quando vemos uma criança a ter muito prazer com alguma coisa, vamos dizer, ah, tu gostas mesmo disso. Ensinar. Isto está-te a dar prazer. Se nós incluirmos a palavra prazer no dia-a-dia das nossas crianças, depois eles vão perceber que todas as atividades podem dar prazer e vamos procurá-las em função também da quantidade maior ou menor de prazer que nos dão.

Sim, e também é importante que seja transmitida esta ideia de que o sexo é uma coisa prazerosa e que deve saber bem, e a partir do momento em que não está a saber bem, é para parar. Sim, a nós, ou nos parece que não está a saber bem a quem está connosco. Exato, boa.

Isto é muito importante. Mais uma vez, a inteligência emocional e o saber ler nos outros. No fundo, a inteligência emocional é eu conhecer as diferentes emoções em mim, saber identificá-las nos outros e saber despertar as emoções também nos outros. E, portanto, esta leitura do prazer que eu tenho e do prazer que quem está comigo tem é algo que tem de ser importante. Os pais trabalham isto, mesmo se dizer com a sexualidade, quando tentam...

Forçar os filhos a partilhar. Partilha, partilha. Para dar prazer ao outro. E se calhar de uma forma um bocadinho errada. Mas isto faz parte do nosso dia-a-dia. Por isso é que se nós encararmos a sexualidade... A sexualidade tem tantos pontos em comum.

com as áreas todas do dia-a-dia, que se nós formos olhar desta forma, isto vai ser tudo muito mais natural. E acho que ao longo das próximas gerações podemos caminhar desta forma. O que temos de evitar é algo que ainda não falamos aqui, mas não dá para falar de tudo, que é a polarização das discussões. Pois. Transformar esta discussão em ideologias políticas.

que é tudo menos política, se não falar de desenvolvimento humano e de relacionamento humano e esta discussão tem que ser clara desta forma para que as pessoas depois possam fazer os seus entendimentos. Acho que é por aí. Muito bem. Outra pergunta que me fazem muito e que eu tenho de fazer é como é que os pais devem reagir quando um filho apanha os pais a ter relações sexuais?

Ok, assim, em primeiro lugar, se for possível, os filhos não apanharam os pais e tem relações sexuais, acho que é o desejável, mais uma vez, porque a esfera da intimidade deve ser preservada. Sim, mas também não transformar isto. Há muitas coisas que depois, ai, o filho está ali ao lado, está no quarto ao lado, não consigo, com medo que ouça, pronto, calma, também...

A sexualidade não pode desaparecer, porque se tem um filho. E, portanto, acho que o ideal é não apanharmos e perceber de que forma que pode continuar a haver sexualidade ou contactos sexuais sem haver essa invasão, digamos assim, da esfera dos filhos e dos filhos aos pais.

Se os filhos apanharem os pais, acho que se deve conversar sobre isso. Acho que é claramente... Não entrar em pânico. Eu acho que pela insegurança dos pais, muitas vezes, eles começam com uma pergunta e acho que não tem que se começar com uma pergunta, tem que se explicar o que está a acontecer e depois se perguntar o que é que tu achas sobre isto, qualquer do género.

porque a nossa tendência é o que é que tu viste o que é que achaste que estávamos a fazer no fundo chega quase a sacudir água do capote eu não falo porque também não sei bem o que dizer então vou perguntar o que é que ele me diz e depois eu vou atrás mas isto não é justo, portanto temos de ter coragem se estávamos a ter relações sexuais ou o que é que seja depois depende do contexto se a criança não quiser falar sobre o assunto temos que respeitar

Mas dizer, e nós temos de ser muito francos, cada vez que nós mostramos aos nossos filhos que estamos atentos a eles, isto é importante, consolida a nossa relação. Dizer, olha, já percebi que estás incomodado com o que eu te estou a dizer. Queres continuar a falar sobre isto ou não? Tens alguma dúvida ou não? Mostrar abertura, dizer, eu não me imposto de continuar a explicar-te ou continuar a falar sobre isto, mas quero perceber se tu tens essa vontade.

E acho que é um bocadinho por aí. Não há parte das vezes... Isso quer dizer aqui alguns conceitos de, olha, é importante bater à porta antes de entrar, tal como eu vou fazer contigo, tal como nós devemos bater à porta dos nossos filhos. Claro, sim, sim, sem dúvida que isso é importante.

e normalizar dentro do possível. Não vou dizer que é uma situação normal os filhos assistirem os pais a terem relações sexuais. Não posso dizer que é uma situação normal no sentido de dever ser assim, mas pode acontecer. E se acontecer, vamos normalizar a atividade sexual e ajudar os nossos filhos também a terem essa perspectiva normal. Sim.

E é importante também que os filhos percebam que os pais têm a solução. São seres sexuais, não são assexuais. E é uma prova, vale o que vale, mas do relacionamento, de manifestação de afeto, de relacionamento. E portanto, acho que é por aí. Acho que sim. Para terminar, queria-te perguntar, Hugo, se tens algumas sugestões de recursos, por exemplo, livros ou sites, para auxiliar os pais a falar com os filhos sobre sexualidade.

Sim, há vários recursos, se calhar em português, o site da APF, acho que é importante, acho que é apf.pt, acho eu. São para o planeamento familiar, não é? Sim, sim, acho que é importante. Há um livro que é bastante conhecido, que é a Viagem de Peludim, que eu acho que acaba por ajudar. Há muitos recursos, o livro O Kiko e a Mão, acho que é assim que se chama, da APF também, que ensina a questão do não tocar. Sei que há...

e agora não me recordo do nome, um recurso em espanhol também, um jogo onde se coloca a mão no corpo de uma criança. As pessoas poderão pesquisar. Sim, as pessoas podem pesquisar. Pronto, acho que... E vou também agora falar aqui de uma pessoa que eu acho que tem um trabalho muito meritor na questão desta sexualidade com crianças, que é a Ivana Belis, que eu gosto muito dela, e que trabalha muito esta questão da sexualidade em idades precoces. É ótimo.

que é muito importante, é um trabalho e acho que vale a pena conhecer e também tem publicações na área. Acho que se as pessoas quiserem o teu trabalho, obviamente, mas estamos aqui... Obrigada. Eu gostaria de fazer uma sugestão especificamente sobre este tema. Existe um site, está tudo em inglês, mas o site está ótimo, que se chama The Porn Conversation. Este site tem um segmento para famílias e tem um segmento para educadores, portanto para escolas, e divide por idades.

Como é que se deve falar com as crianças e os adolescentes sobre o consumo da pornografia? E está muito completo como preparar a conversa, quem deve conversar, o que dizer. Recomendo mesmo que consultem porque, lá está, apetece-me imprimir aquilo e mostrar a toda a gente porque responde a muitas, muitas dúvidas que os pais têm. Portanto, vejam.

E é uma área difícil, porque a geração dos pais não teve este acesso, eu diria quase desregrado à pornografia. Sempre houve contacto com revistas, com jornais, com vídeos, mas eram gravados em cassetes, passados fora de pirata, tudo assim um bocadinho. Agora não, agora é um acesso livre, completamente livre e indiscriminado e por isso os pais têm de se preparar um bocadinho e esses recursos são muito importantes.

Vamos tentar terminar numa nota positiva e dizer às pessoas que podemos fazer a diferença nas crianças e nos adolescentes de hoje.

Pode dar algum trabalho de pesquisa, não é? Mas conseguimos, sem dúvida, fazer a diferença. Hugo, muito obrigada. Obrigada. Gostei muito de te ter aqui. Gosto enorme. E parabéns por este teu projeto. Obrigada. Muito obrigada. E assim terminamos mais um episódio. Já sabe que pode ouvir-nos no Expresso, na SIC e na SIC Notícias ou em qualquer plataforma de podcast, onde pode subscrever e deixar comentários com dúvidas e sugestões. Por aqui, o prazer foi todo meu, mas agora também é seu.

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Não é ‘a conversa’: a educação sexual faz-se todos os dias, e começa muito antes da adolescência | Castnews Index — Castnews Index