#77 Sobre afinar as cordas da vida - Viv's
Entre aulas de canto, violão, piano e versões de músicas que nunca foram exatamente minhas, percebo que me reconstruir tem sido como aprender um instrumento: exige paciência, prática e aceitação dos erros. Neste episódio, falo sobre as partes de mim que ficaram para trás, o luto silencioso das mudanças e o exercício diário de tentar — mesmo desafinada — continuar tocando.
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- Ensino de instrumentos musicaisAprender a cantar · Aprender a tocar violão · Aprender a tocar piano · Luto pelas mudanças · Reconstrução pessoal
- Guilherme Pallesi e sua jornadaInspiração materna e folclore brasileiro · Aulas com a professora Nádia · Dificuldade em aprender notas para solar · Repertório de artistas brasileiros
- Piano como ferramenta de autodescobertaMotivação para tocar música clássica e pop · Desafios de aprender piano mais velha · Prática noturna com fones de ouvido · Vista do Cristo Redentor durante o aprendizado
- Influência MusicalInfluência da mãe e músicas da Disney · Ídolos pop como Madonna e Spice Girls · Aulas de canto e apresentações · Escolha de repertório musical
- Viagem ao JapãoTransformação pessoal pela viagem · Gravação de episódio no passado
Pips, se tudo estiver dentro dos conformes e do esperado, eu ainda tô no Japão e eu gravei esse episódio há algumas semanas, então se o mundo explodiu ou algo assim, eu não tinha ainda como saber. Esse é um episódio do passado. Eu certamente depois de uma semana e meia no Japão já nem sou mais a Vivi, que gravou esse episódio. Eu devo estar completamente transformada por essa viagem, então qualquer coisa que eu diga aqui hoje já não deve representar quem eu sou.
Bom, pra manter aqui a vergonha alheia nessa ultra auto-exposição das últimas semanas, porque eu tô fora e eu não tenho como filosofar sobre acontecimentos recentes, ou algo que eu tenha visto ou lido,
Eu tava pensando outro dia sobre isso e eu resolvi dividir com vocês. Eu tive uma fase na vida que começou pouco depois de eu nascer. E dura até hoje. Que é gostar de cantar. Isso provavelmente começou lá atrás com a minha mãe, que sempre cantou na nossa presença. Acho que eu já falei sobre isso aqui no podcast. Seja em casa ou nos restaurantes com os amigos em karaokês e shows e tal.
E continua talvez por causa das músicas da Disney. E depois na adolescência com Madonna, Spice Girls e companhia. Eu amava cantar, galera. Eu já falei isso aqui. Quis ser cantor e tudo. Levava o negócio super a sério. Tão a sério que num belo dia eu resolvi fazer aula de canto. Junto com um amigo que também já estava cansado de dizer que ia fazer e nunca começava. Então a gente encontrou uma professora boa que dava aula particular. Lá fomos nós praticar já pensando na banda que a gente ia formar.
Todas as segundas-feiras, lá estávamos no... A aula tinha um exercício de respiração, depois vocal solo, vocal em dupla, aquecimento e aí uma música. E a gente sempre escolhia uma música para cantar por algumas aulas até acertar os detalhes, né? O que estava ruim, o que era sempre. E passava para a próxima.
E eu escolhia coisas como Roxette, Madonna, Sinead O'Connor. Eu ia nessas clássicas, mas eu evitava as divas, porque, afinal, embora eu fosse afinadinha, vai, é diferente cantar um trecho...
E segurar uma música inteira no registro delas. Muito diferente. Uma coisa é você fazer uma frase. Outra coisa é você fazer uma música inteira no registro daquelas mulheres. No way. E meu amigo escolhia Dream Theater, Rainbow, Bruce Jigson. E coisas assim, sabe? Era uma aula bem eclética. Era muito divertido.
E no fim do ano, a gente tinha uma apresentação de canto. Mas não era uma apresentação no lugar fechado, particular, só para mães e pais dos aluninhos, como costumava ser quando a gente era criança, né? Você tinha o tablado. Isso aqui era aula de adulto. A gente se apresentava num bar ou num restaurante, aberto ao público. É claro que nessa hora o público era expulso, né? Só tinha os pais e os amigos e tal. Mas, enfim, quem não estivesse curtindo que fosse embora. Mas era aberto. As pessoas podiam estar lá. E nessas brincadeiras...
Eu cantei Spending My Time, da Rock 7. Eu cantei com esse amigo Phantom of the Opera, numa versão muito mais próxima do Night Wish e não do musical. Old Ways, da Lorena McKennett. A gente cantou Seasons of Love, do musical Rant. Ah, um monte, um monte. A gente teve três professores de canto no total e, como eu falei até num outro episódio...
A banda acabou nem acontecendo, porque eu comecei a namorar com um guitarrista e a gente não quis mais trabalhar. Óbvio, né? E em paralelo, é claro que eu amava ver também, é óbvio que eu amava ver coisas relacionadas ao canto, mas não necessariamente bandas e shows, eu tava mais pra ver musicais e filmes sobre histórias de cantores, tipo Sister Act, com a Upi Goldberg, sabe? O Mudança de Hábito no Brasil.
ou biografias de grandes músicos, tipo do Elton John, enfim, o The Queen. E além disso, mas pensando muito mais na voz do que no instrumento em si, eu comecei a fazer aula de violão já com 18 anos. Minha mãe sabia tocar violão desde a adolescência.
tocava em casa quando eu era criança. Ela fazia teatrinho com a gente, tocando violão e cantando músicas de folclore ou do interior do Brasil e coisas assim. E eu queria aprender a fazer o mesmo. E depois de dois meses de aula com a professora Nádia, que já não está mais entre nós, a minha mãe me deu um violão preto lindo, Michael, que eu tive até uma semana antes de vir para Portugal, quando eu tive que doar para uma amiga. Assim como a voz...
Aprender a tocar um instrumento, eu aprendi, né? É uma questão de paciência e treino. Da mesma forma que a gente trabalha o diafragma, né? A respiração e os músculos para fazer com que a voz saia como a gente quer que saia.
O violão, eu percebi, também pedia horas de treino com as mãos e com os dedos e com a posição do apoio do instrumento no corpo, a coluna. Nossa, a nossa postura muda. Tudo isso é exercício e treino. E não foi difícil aprender os acordes. Pelo menos...
Não enquanto batida e ritmo e decorar as cordas. Eu acho que eu levava jeito pra isso. O complicado foi depois, quando eu tive que aprender as notas de cada corda pra solar, pra dedilhar. Nossa, essa parte foi complicada. Se eu tivesse aprendido quando criança, teria sido mais rápido.
As aulas de violão eu lembro que eram sextas-feiras à noite. E embora não fosse o que valorizasse a minha voz com a minha professora, eu aprendi a tocar Tim Maia, Kid Abelha, Lulú Santos, Caetano Veloso, Djavan, Chico Buarque. Nada disso eu teria escolhido pra cantar, veja bem, tá? Por achar que minha voz não combinava em nada com esse tipo de música, né? Porque eu queria cantar Madonna, eu queria cantar os popzinhos que favorecem a voz feminina. Mas ao seguir com...
com a voz, as notas do violão, eu aprendi tantas grandes lições, gente. Às vezes a gente cria um novo registro para uma música com o nosso tom e o nosso jeito de cantar, e tá tudo bem. Não precisa ser sempre cover. A gente pode criar versões e a história da música e da indústria tá aí pra provar que muitas vezes versões de músicas antigas ficaram até mais conhecidas do que as originais. Até parece, né?
Seria o meu caso, claro que não. Não que eu fosse capaz de criar algo memorável. Nunca. Nem pensar. Mas eu descobri que existia essa possibilidade. E descobri isso. Foi iluminador para mim. Que eu sempre tentei imitar as vozes dos meus ídolos. Das minhas ídolos. Quando eu fui aprender piano, eu já era bem mais velha. O que torna tudo muito mais difícil. Ainda mais com instrumentos musicais. Mas dessa vez nem foi para trabalhar a voz.
como eu fiz com violão, eu queria mesmo era aprender a tocar piano, tocar música clássica que eu amo e algumas também do Elton John, pra aí sim poder cantar junto, vai, admito. Da Disney também. E piano, cara, requer um outro nível ainda de paciência.
Eu lembro depois de um mês de aula, eu tinha certeza que eu amava aquele negócio, aí eu comprei logo um piano digital com apoio pedal, com entrada pra fone, pra poder praticar à noite, a tralha toda. Eu tava super preparada. E nem dois meses de aula eu já queria tocar Beethoven e Bach, e minha professora tava, calma Vivi, calma. Eu já tinha vinte e tantos anos, quase trinta, então aquela, poxa, a capacidade de eu aprender piano assim tão rápido não era muito real.
Mas eu cheguei a arranhar algumas músicas, eu aprendi as da Disney, que eu queria, levei alguns meses pra aperfeiçoar Frozen, Let It Go. Eu realmente tocava à noite com o fone, pra não incomodar ninguém em casa. Eu treinava nos domingos, durante o almoço, na época da pandemia que eu trabalhava de casa. E quando eu me mudei pra São Paulo... Ah não, mentira, quando eu me mudei ainda no Rio, eu botava o piano.
de frente pra janela, que era onde cabia, na minha kitnet. Eu morava num quarto e sala, vai. Era cozinha, um banheiro e uma sala que era o meu quarto. Era uma kitnet. E eu botava o piano pra janela e eu conseguia ver o Cristo Redentor enquanto eu tocava. Era uma bela de uma vista, eu confesso, na kitnet onde eu morava lá no Largo Machado. E sobre essa época eu conto num outro episódio, vai. Tem muita coisa, realmente.
E quando eu fui pra São Paulo, eu levei o violão e o piano comigo. E eu tocava sempre que eu podia. Já não conseguia mais fazer as aulas, nem à distância, por conta da nova realidade, o workaholic que eu assumi, que eu vivi. Mas eu tocava sempre que possível, seja piano, seja violão, nos fins de semana e à noite. E quem me seguia no Instagram nessa época, nos stories, vai lembrar, talvez de forma traumática, dos vídeos toscos que eu postava e não tinha vergonha nenhuma. Deu cantando e tocando. Eu tive o piano.
até três semanas antes de vir para Portugal, porque eu tive que vender para vir para cá. E eu sinto tanta falta de instrumento musical, de cantar constantemente, de sentir a música dentro de mim como algo que vinha naturalmente como respiração, e já não vem mais. Eu costumava gravar as minhas aulas de piano, e o amadurecimento dos treinos e das músicas, depois de um tempo, eu queria acompanhar isso, eu queria ver isso.
E eu ainda tenho alguns áudios guardados das primeiras vezes que eu toquei Furelis. E a versão depois de alguns meses bem mais fluida, mas ainda assim com muito erro. E coisas que eu fui melhorando muito depois. E mesma coisa com Let It Go e algumas músicas da Disney, tipo Rei Leão e Pequena Sereia. E é uma pena que eu não tenha mais áudios guardados de tudo que eu tocava. E depois, né? Meses depois já de ter aprendido a música inteira, eu podia ter gravado e não gravei.
E eu tinha uma gata preta em São Paulo que adorava ficar em cima do piano enquanto eu tocava. Até fazia música ela própria passeando pelas teclas de vez em quando. Anala, cara. Um dos amores da minha vida e que eu também tive que doar quando eu vim pra Lisboa.
Vocês estão entendendo por que eu digo que eu tive em luto muito tempo antes de perder minha mãe? Tantas versões e partes de mim que ficaram pra trás nessa mudança? E eu ainda tô aos poucos, percebo agora, catando os pedaços e reconstruindo, os meus pedaços, né? E reconstruindo um monte de coisa. E o que eu percebi com a analogia que eu resolvi fazer hoje...
É que me reconstruir tem sido um exercício de músculos, de paciência, de treino e prática, da mesma forma que pede um instrumento vocal ou de cordas. Todo dia, por alguns minutos, ou por horas, ou pelo tempo que dá, eu tenho que parar para enxergar a realidade atual, entender o meu presente, lidar com o que eu tenho em mãos e com o que eu não tenho mais.
E refletir sobre essas minhas escolhas e decidir o que é possível no momento em que eu estou vivendo. Aceitar o presente tem sido um exercício diário. E que nem sempre a gente toca de forma afinada. Às vezes é o violão que não está afinado, às vezes somos nós que erramos o acorde. Há dias em que a voz falha e precisamos nos hidratar melhor. Há dias que fazemos uma melodia linda, há dias que não. O importante é continuar tocando, cantando.
Uma coisa só que eu não consigo fazer analogia aqui, é que com o instrumento musical a gente pratica e aprende. No final de algum tempo, praticando, a gente sabe tocar. Mas mesmo que a gente passe a vida inteira praticando viver, tendo experiências diferentes e novas, a gente nunca deixa de aprender e percebe que a gente nunca vai estar preparado para as mudanças, por mais bem-vindas.
que elas sejam, e nem preparado para as perdas, por mais naturais que elas sejam. Se eu tivesse o meu piano e meu violão comigo hoje aqui, eu tocaria um pouco de cada, para vocês ouvirem, mesmo estando completamente enferrujada e provavelmente eu não sei tocar mais nenhum nem outro. Eu acho que eu nem lembro mais como é que eu tocar Let it Go no piano.
Talvez no violão eu consiga, mas não sei. E é curioso isso, né? Pensar que depois de um tempo sem prática, a gente acha que perdeu a capacidade de fazer algo. Eu fico pensando se isso acontece também na vida. Será? Até o próximo episódio. E aí
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