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#76 As respostas estão na neve e no vento - Viv's

03 de maio de 202629min
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Neste episódio, volto ao intercâmbio que quase aconteceu e ao que finalmente aconteceu anos depois. Da viagem frustrada para o Texas à temporada em Lake Tahoe, entre snowboard, trabalho no topo da montanha, escolhas de vida e uma estrela inesperada, conto como algumas rotas perdidas acabam abrindo outros caminhos.

Um episódio sobre intercâmbio, destino, o acaso e as respostas que, às vezes, estão mesmo soprando no vento.


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Participantes neste episódio1
V

Vivi

Host
Assuntos4
  • Experiência em Lake TahoeWork Experience USA · Feira de empregos em Lake Tahoe · Teste de snowboard · Trabalho em restaurante no topo da montanha · Promoção para caixa · Criação e gestão de página no Twitter · Estrela de funcionária destaque
  • Reflexões sobre intercâmbio e escolhas de vidaTransformação pessoal através de experiências no exterior · Diferença entre a vida real e a ficção em livro · Valorização do trabalho e prioridades · Compreensão de Bob Dylan e 'Blowin' in the Wind'
  • Intercâmbio frustrado nos EUAViagem para o Texas · Candidatura para intercâmbio de high school · Avaliação de candidatos em Macaé · Votação para liderança de grupo · Preconceito com o sul dos Estados Unidos
  • Cultura e adaptação em ambiente estrangeiroInteração com colegas de trabalho americanos · Adaptação a uma nova cultura · Apreciação de música e cinema estrangeiros
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Pips, eu tô viajando, então se tudo der certo, nesse exato momento eu tô passeando por Shibuya, ou algum bairro em Tóquio, no Japão, realizando uma das viagens da minha vida, finalmente, e esse episódio foi gravado bem antes, então caso algo seja dito aqui que fique datado de alguma forma, apenas um disclaimer, tá, ok? Ok, agora podemos começar.

Bom, eu contei pra vocês a minha saga com Harry Potter semana passada e eu esqueci de dizer que tudo aquilo só foi possível porque, por obra do destino, sei lá, minha mãe não pôde pagar a minha viagem pros Estados Unidos pro intercâmbio de high school que eu ia fazer em 2002, 2003, para o qual fui preparada durante toda a minha vida. Preparada porque minha mãe fez esse mesmo intercâmbio de high school, lá nos anos, final dos anos 60, e depois o meu irmão fez também, em 2000.

E quando chegou a minha vez, a coisa apertou. O dólar estava alto, minha mãe tinha se endividado e acabou a alegria. Mas eu cheguei a passar por todo o processo de pré-intercâmbio. Eu me inscrevi na mesma empresa pela qual minha mãe viajou na época dela. Eu fiz uma prova, fui entrevistada, fui chamada para todas as etapas do projeto. Uma dessas etapas consistia numa viagem para Macaé, fica algumas horas do Rio, e todos os candidatos foram passar o fim de semana num casarão lá perto da praia.

A ideia era participar de gincanas organizadas pela empresa para eles avaliarem como a gente lidava com improvisos, situações diversas, sozinhos ou em grupo, que tipo de perfil tínhamos, para ver se a gente estava apto para viajar e ficar fora do nosso país e viver numa outra cultura por um ano inteiro.

No meu caso, o último ano do high school nos Estados Unidos. Bom, essa balela, né gente? É uma empresa que a gente pagava pela viagem, então eu ia passar, né? Não tem essa de perder, não estar apta a viajar, não sei que fosse uma coisa muito grave. Enfim.

Eu nunca fui muito competitiva, na verdade, não é muito nada, eu nunca fui competitiva. Embora eu ame qualquer atividade e a maioria dos jogos. Eu gosto de jogar pelo jogo, sabe? Não necessariamente pra vencer. Mas eu confesso que ainda mais tendo um irmão mais velho que tinha que ganhar no videogame e brigava comigo se eu ganhasse. Então eu não podia ter nem a vontade de ganhar.

Mas eu confesso que nesse fim de semana, depois de tantas conversas com outros jovens, tantas brincadeiras, flertes e conexões, eu ter ouvido que eu e outra menina do grupo, de mais de 20 pessoas, fomos as escolhidas através de uma votação para a liderança do grupo. A gente empatou. Eu senti, eu confesso que eu senti alguma coisa. Eu tinha 15 anos, vai, isso teve um grande impacto para mim.

Eu lembro de algumas gincanas apenas e da entrevista individual com uma pessoa da empresa. Eu lembro de ter dito que eu gostava de frio e que eu queria muito ter uma experiência com neve, porque foi a experiência da minha mãe e foi a experiência do meu irmão. E eu achava que aquilo era bem americano, eu lembro de ter dito isso, inclusive.

Que eu queria neve, mas que eu também tinha preconceito com o sul dos Estados Unidos, embora eu amasse, sei lá, Smallville, a série da hora, né? E tivesse me apaixonado pela ilusão do Texas que a série tinha me trazido. Ou do sul dos Estados Unidos.

Texas, Kansas, né? Essa área. Não exatamente Texas. Mas tirando isso, o que eu mais lembro foi de ter conversado com muita gente lá sobre coisas da vida, filosofias de adolescente. E eu lembro de ter assumido, por qualquer que seja o motivo, um papel de conselheira. Foi a persona que veio naquele ambiente, no meio daquele grupo, naquele fim de semana.

E que nem era muito, por exemplo, a minha persona com a família poteriana, que eu falei no episódio passado. Até porque a maioria das pessoas dessa família poteriana era mais velha que eu. Então, se eu assumir alguma persona ali, foi de criança, palhaça, pirralha.

bobinha e tal. Engraçado como cada ambiente pode criar traços diferentes na gente. Mas eu acho que foi essa persona de conselheira e ouvinte e madura, porque se esperava de mim, talvez, que influenciou a votação no final, quando a gente teve que escrever no papel o nome de alguém daquele fim de semana que tinha nos marcado mais. Meus 16 see,

anos, 15, 16, foram bem estranhos, né? Eu tinha saído do vôlei, já tinha mudado de escola mais de uma vez, tava meio perdida com o que eu queria fazer e pra além de tudo tinha essa questão financeira bastante complicada e não havia muito o que eu podia fazer a respeito ainda, eu não tinha idade de trabalho e tudo mais. Então eu fiquei bem surpresa.

quando meu nome foi chamado várias vezes como alguém que tinha tido importância na vida de outra pessoa, eu fiquei genuinamente surpresa. Porque como assim, como que eu tinha me destacado, né? Como era possível que alguém sequer se lembrasse do meu nome?

Enfim, a viagem era de quatro horas para Macaé, e na volta eu lembro de ter refletido sobre aquele fim de semana, de ter ficado pensativa em relação a mim mesma, porque eu não conhecia muito bem ainda aquela Vivi que tinha nascido ou renascido naquele ambiente. Poucos meses depois, quando aprovaram, entre aspas, a minha candidatura, e eu recebi a minha documentação da viagem, eu fiquei sabendo que a fulana que me entrevistou me colocou para ir para o Texas.

Engraçado isso, né? Justamente o lugar que eu dizia que eu tinha preconceito. Ela conseguiu uma família lá. A família escolhida tinha sido um casal de mexicanos com uma filha, se eu não me engano. E eu ia estudar numa escola, eu acho que era Dallas. Não tenho certeza se era Dallas ou Houston, mas acho que era Dallas.

No entanto, quando veio a viagem seguinte, com os calouros dessa vez, porque você tinha etapas da candidatura, eu já tinha minha família e tudo mais, mas ainda teve essa viagem seguinte e nessa viagem a galera da viagem anterior já foi como monitor, nós éramos monitores dos calouros, a gente ajudava.

os entrevistadores, a controlar, a organizar tudo. Mas nessa época, nessa viagem, eu já sabia que eu não ia mais viajar. Eu não ia poder viajar, minha mãe já tinha me dado a terrível notícia. Mas eu fui mesmo assim, pra ajudar como monitora, mas não só, pra ajudar também a minha mãe, que naquele mesmo mês tinha sido chamada pela empresa pra ser presidente da associação e organizar essa viagem, e as gincanas com os novos candidatos, porque não tinha ninguém na época. E...

Minha mãe topou fazer isso de forma voluntária, claro. Foi mais um fim de semana incrível em Macaé, em outra casa, com direito à piscina, dessa vez ping pong, noite de violão e teatro improvisado. Foi o máximo. Nossa.

essas coisas, quando se é criança, quando se é adolescente, são tão especiais. Foi esquisito lidar com a situação também, sabendo que eu não ia mais viajar, e todo mundo ali estava se preparando para os últimos meses antes da viagem, que duraria um ano.

E o resto é a história do episódio anterior que eu já falei. Se eu tivesse viajado e ficado um ano nos Estados Unidos, no Texas, eu duvido que eu tivesse percorrido esse meu caminho nerd e com as pessoas que estão hoje na minha vida por conta desse percurso. E não só as pessoas, mas trabalhar em editora veio dessa paixão por livros e por ter...

trabalhado em eventos e por ter vivido momentos com o fandom, seja de Harry Potter ou de São Danês, ter mudado de país foi por conta de ter trabalhado e trabalhar em editoras. Então uma coisa leva à outra. Mas é engraçado que eu não desisti do intercâmbio depois disso. Em 2003, eu estava terminando o terceiro ano do segundo grau.

que é como a gente chama no Brasil, e me formei. Eu tirei um tempo para pensar na vida, no que eu queria fazer, eu não fui imediatamente para a faculdade, e eu precisava de dinheiro, então eu comecei a trabalhar em vez de estudar. Até porque na faculdade, nessa época, eu nem ia poder pagar, nem minha mãe, então não ia ter condições, eu tive que tirar um tempo para mim mesma.

E foi trabalhando que eu consegui juntar um dinheiro e alimentar uma ideia, essa ideia antiga de viver fora do país, nem que fosse por alguns meses. Não ia ser um ano no high school, porque a fase já tinha passado, mas alguma coisa. Então eu fui numa empresa de intercâmbio, eu dividi o valor com a minha mãe e eu me inscrevi para um Work Experience USA. Tinha a opção de já ir com um emprego garantido, ir sem ou tentar lá.

Ah, e tentar comparecer a uma feira de empregos que eles faziam convênio uma vez por ano e falar com os empregadores que lá estariam para tentar uma vaga. Ainda que fosse incerto e ocorresse o risco de não ter emprego garantido, eu escolhi a opção da feira porque era a única...

que tinha opção pro lugar que eu decidi ir, que era Lake Tahoe, Califórnia. Neve, né? Afinal, aquela minha antiga obsessão por neve, o meu intercâmbio tinha que ser num lugar de neve. E iam ter quatro empregadores lá fazendo entrevista com uma cacetada de gente pra poucas vagas. Eu nem pensei na possibilidade de não conseguir, eu confesso que isso nem passou pela minha cabeça, eu simplesmente olhei pra foto do lago no meio da montanha de neve e pensei, é aqui, é aqui, vou lá.

E meu ex, na época sempre fiel, foi comigo pra feira e ficou lá praticamente o dia inteiro comigo. A gente chegou de manhã e eu fui entrevistada perto da hora do almoço, mas a gente não podia sair pra comer porque a qualquer momento meu nome podia ser chamado e eu teria que estar lá pra saber se tinha conseguido um emprego ou não, né?

E a mulher que me entrevistou quis saber principalmente das minhas qualidades esportistas, olha só. Eu falei que já tinha surfado, andado de skate, minha infância inteira, tinha feito vôlei durante anos, competido, praticado diversas lutas e dança, e amava qualquer atividade física. E eu não menti, era tudo verdade. Mas eu foquei, obviamente, no que ela queria ouvir. Meu inglês nunca foi perfeito, eu cometo erros bobocas gramaticais por pura falta de prática. Agora, ainda mais porque eu já não falo com a minha mãe.

em inglês todos os dias, mas eu sempre soube manter e fingir um sotaque americano quando eu preciso, sabe? Em conversas curtas. E a única coisa que me preocupou foi quando ela perguntou se eu já sabia fazer snowboard. Eu tive que dizer que não, porque eu realmente não sei mentir.

mas disse que aprenderia muito rápido, da mesma forma que aprendo todo o resto. E a outra coisa foi que ela perguntou se eu pintaria o cabelo para tirar aquele vermelhão forte, porque eu não podia. Estar trabalhando no ski resort, lidar com customers e estar com o cabelo vermelhão, ela disse que não dava. E é que eu podia pintar de qualquer cor, mas desde que fosse natural. Eu disse que sim, querendo chorar, para ser sincera, porque desde os 17 eu pintava o cabelo de vermelhão.

Mas foi isso, e eu aguardei a resposta. Essa mulher só contratou três pessoas naquele dia, e eu fui uma delas, eu fiquei, nossa, embasbacada. Eu voltei pra casa emotiva, fui comemorar no rodízio de pizza com o meu ex, ambos sem comer nada desde de manhã.

E bom, estava feito. Eu tinha emprego e ia viajar para o meu tão esperado intercâmbio em dezembro de 2009. Eu voltaria em abril do ano seguinte. Eu sempre tive essa veia de querer morar fora. Eu percebi ao longo dos anos que não é todo mundo que gosta, ou sequer vê vantagem nisso. Eu vejo essa experiência como tão transformadora de tal forma que se eu pudesse eu viveria em um país diferente a cada quatro meses.

Foi terrível me despedir do meu namorado na época, no aeroporto, sabendo que eu ia ficar fora por quase cinco meses, mas ao mesmo tempo eu era empolgação pura. Coisas novas, pessoas novas, realidade diferente, dar um tempo da faculdade de jornalismo, pensar em outras coisas. Nessa época eu já estava na faculdade, né? E eu tinha 23 anos e era pura felicidade.

Lake Tahoe é mágica, foi mesmo uma época transformadora, pra trabalhar onde eu trabalhei, um restaurante no topo da montanha de neve, eu tinha que fazer snowboard todos os dias pra chegar lá, cedo de manhã, né, ai que delícia, ver aquela vista, o sol nascer, e, bom, mas pra chegar lá, pra fazer isso, eles pediam um teste de snowboard, eu tinha que garantir que eu não oferecia perigo pros customers, claro.

E eles davam tudo, uniforme, bota, material, prancha, aulas gratuitas, e eu não precisava pagar nada. Mas tinha que fazer. Então lá fui eu, por cinco dias seguidos, ter aula de snowboard antes da prova no sábado. Eu podia ter escolhido ski.

Verdade seja dita. Deveria até, porque era meio que um indicado pra quem não sabia nada. Mas eu insisti e como eu cheguei antes do início da temporada, então ainda tinha prancha sobrando de snowboard pra alugar. E lá fui eu, pras aulas. Eu caí tanto, gente, mas tanto que nesses dias eu tinha hematomas de todas as cores no corpo. Eu lembro do quarto dia que eu caí.

E masquei o pulso. O professor viu no meu rosto que tava doendo, sabe? Mas ele decidiu me dar duas escolhas. Ele falou muito sério pra mim. Ele olhou sério pra mim e falou assim. Ou você vai pra enfermaria agora. E eles provavelmente iam me suspender pra trabalho. Porque eu ia ter que ficar com aquela tala no braço, sei lá. E eu perderia o emprego. Porque eu não tenho que colocar outra pessoa no meu lugar.

E eu precisava do dinheiro para me manter lá. Lembrando que eu paguei para me inscrever na empresa, mas eu tinha que me manter lá. Pagar o hotel, pagar as coisas todas, nada era pago. Então eu tinha que trabalhar para pagar essas coisas. Ou a segunda opção era ignorar a dor, botar gelo, ir para casa descansar e tentar a prova no sábado.

com o que eu sabia fazer até então, das aulas que eu tinha tido nos outros 4 dias. Eu fui pra casa naquele dia chorando, achando que tava tudo perdido, que eu não ia conseguir o emprego, eu botei gelo até a hora de dormir e eu acordei no dia seguinte um pouquinho melhor. Eu fui sozinha, eu não fui pra aula, que eu evitei pra não machucar mais, realmente tira folga nessa sexta-feira.

E eu fui sozinha, vi Avatar no cinema pela segunda vez, o cinema da cidade era bem perto do hotel onde eu estava hospedada, e eu lembro de ter me sentido uma estrangeira como Jake Sully, tendo que me adaptar a uma tribo completamente diferente.

E eu não passei na prova, gente, de primeira. Foi bem difícil ouvir do meu chefe, que eu não tinha sido aprovada. Ele perguntou se eu queria ter entrevista com o cara, um chefe lá do restaurante da base, que sendo na base não precisava de snowboard pra trabalhar, porque era só chegar na base, nem entrava na montanha praticamente.

Ou se eu queria tentar de novo fazer a prova na semana seguinte que ele me esperava. Eu nem acreditei que ele tivesse me oferecido uma segunda chance. E lá fui eu ter mais aulas de snowboard. Nessa altura, meu pulso estava bem melhor já. Então, eu acho que... Eu não sei se é porque eu estava bem mais relaxada. Porque a prova já tinha passado, aquilo já tinha acontecido. Mas depois disso, nessa aula do dia seguinte, eu fiquei muito mais confiante em cima da prancha. Eu pedi para a professora...

me levar num restaurante que eu ia trabalhar, pra ver se eu conseguia chegar lá sem problema, e foi muito tranquilo. Ela própria conversou com o meu chefe, porque eu contei a história pra ela e tal, ela própria conversou com o meu chefe e disse que eu já tava apta pra trabalhar, que eu já conseguia fazer snowboard sem oferecer perigo pra ninguém, que provavelmente eu não tinha passado na prova porque eu tava nervosa, e era verdade.

E eu nem precisei esperar a prova. Eu comecei a trabalhar no dia seguinte, meu chefe deixou. E eu fiz a prova no outro sábado apenas pra constar no sistema. Porque era praxe e tinha que ser. E dessa vez eu passei. Ufa! Ai, cara, era uma rotina boa. Eu acordava cedo, vestia o uniforme, as botas, caminhava uns 15 minutos até o ponto de ônibus. O ônibus da Montanha nos levava até a base. Na base eu pegava minha prancha no armário, subia de teleférico até um ponto, descia pistas.

de snowboard até um outro lado, pegava outro teleférico, mais demorado, e ia até o topo, descia mais umas duas pistas e chegava no restaurante. Era essa a minha rotina de ida e depois ao contrário a volta. Eu trocava as botas por um tênis assim que eu chegava no restaurante para fazer o serviço por umas horas e no final do dia eu voltava para o hotel.

E, bom, eu gostei tanto de ter vivido essa experiência que eu até escrevi um livro baseado nessa viagem. Eu brinco que o início do livro é muito parecido com o que eu vivi, porque eu quis relatar essa parte da história, contar sobre esse início de intercâmbio, as dificuldades, a saudade ou as oportunidades, as coisas que acontecem. Mas depois, a minha personagem, a Lully, ela escolhe um caminho oposto ao que eu escolhi. Eu brinquei com a encruzilhada de três caminhos na história, porque eu também me vi.

Lá, com essas opções, nessas encruzilhadas. E o caminho que eu escolhi foi bem diferente do da Lully. E em vez de eu continuar o tempo todo com os brasileiros, como se a gente fosse uma colmeia ou um formigueiro, todo mundo sempre muito junto.

Eu decidi me afastar um pouco, sabe? E sair mais com a galera do trabalho, praticar meu inglês, conhecer mais da cultura dos americanos, que é pra isso que eu tava lá, nesse intercâmbio. Não era pra ficar dentro de um quarto de hotel, festas com brasileiros. Não fazia sentido na minha cabeça. Eu vi o Super Bowl num cassino com os amigos do trabalho, fui jogar bowling, saí pra beber nos bares com a galera, e nada disso eu coloquei no livro.

Algumas coisas, mas não era igual, e às vezes eu trocava também pra o grupo brasileiro em vez do grupo americano.

E tem gente que ainda me pergunta se é autobiográfico. Ainda mais porque a personagem se apaixona por um brasileiro lá do grupo, que se hospeda no mesmo hotel. E não podia estar mais distante do que eu vivia. Aquela pessoa não existe. O pessoal que eu conhecia nesse intercâmbio só queria festa e nights no cassino, bebia até cair, que era literalmente o oposto do que eu queria pra minha experiência lá.

E eu me recusava a gastar dinheiro com cerveja, gente. Apesar de eu gostar hoje e tal, eu gostava também, em certa época, mas... Cara, pra mim não fazia sentido. Eu precisava do dinheiro pra comprar eletrônicos, coisas que naquela época os Estados Unidos oferecia pro brasileiro, que no Brasil a gente não tinha, ou se tinha era muito mais caro. E eu não tinha dinheiro, então...

Então fazia toda a diferença, né? Eu queria dormir cedo, pra acordar cedo, trabalhar disposta, poder andar de snowboard no meu intervalo, queria ir pro cinema, sair com a galera, explorar a cidade, comer fora, bater papo, conhecer de verdade aquela gente, sabe?

Sei lá, se eu ficasse presa numa festa de quarto de hotel com um bando de brasileiro, de que adiantava eu estar nos Estados Unidos, não é não? Enfim, tem uma coisa que aconteceu comigo que a minha personagem também vive, que foi receber uma proposta de trabalho do chefe pra ficar nos Estados Unidos, ou até pra voltar no ano seguinte. O problema do intercâmbio é que ele acaba, e você precisa sair do país pra manter a legalidade do visto, e se você depois não tem condições de voltar, perdeu. Enfim, era o que era o meu caso.

E se eu ficasse, porque eu não tinha como voltar, até dava para ficar com muita paciência, burocracia ou burlas de sistema para resolver depois, justificando de outras formas, sei lá, virar estudante de um curso, como uma galera lá fez para ficar nos Estados Unidos, em outro estado até. Eu poderia ter tentado, mas eu tinha uma faculdade de jornalismo para terminar, faltava um ano só, e um namorado me esperando. Então eu fiz uma escolha e era exatamente o que eu queria, voltar para casa.

E eu não vou dizer a decisão que a Lully toma para não fazer spoiler do meu livro, mas diferente dela, minha encruzilhada nada tinha a ver com homens. Como sempre, era trabalho. Ah, o valor que eu dou para trabalhos. Preciso rever minhas prioridades.

Eu fiz a minha despedida com o pessoal do trabalho num bowling, com pizza e cerveja pagas pelo chefe, que eu achei o máximo. E nesse mesmo dia, ainda na montanha, eu dei de presente uma lembrancinha personalizada que eu comprei nessas lojas de 99 cents para cada um dos meus colegas de trabalho. Eu fiz um discurso, eu fiz todos assinarem um quadro que era uma foto da montanha, em leitarro. E esse quadro está guardado até hoje com o meu melhor amigo, que eu deixei lá no Rio.

E eu prometi a todos que um dia eu voltava. Não voltei. Assim como a Lully, eu ganhei uma estrela. Cada estabelecimento tem direito a dar uma estrela para um funcionário por temporada. O chefe do estabelecimento naquela temporada, o gerente, escolhe alguém para dar uma estrelinha. E eu fui a escolhida. Uma estrelinha literal, gente, que eu estou falando. É tipo um broche. Um pin. É um pin que você...

dourado, com uma estrelinha com a cor da montanha, que era da marca da montanha, azulzinha, com um Hzinho de Heavenly. Enfim, o chefe depois me disse que...

estava muito surpreso, eu fui escolhida e, segundo ele, foi unânime pelos votantes. E ele depois conversou comigo, falou porque ele estava muito surpreso e orgulhoso de mim por ter aprendido a fazer snowboard em tão poucos dias, ter sido promovida de general services à caixa em menos de um mês, para lidar com dinheiro e confiança, né? Então, era uma coisa que para ele foi tomar essa decisão, foi surpreendente para ele próprio.

E eu ainda contribuí para o restaurante, tendo criado o Twitter na época, gerido a página.

De um jeito que ele não esperava. Porque eu tinha conhecimento de marketing digital. E eu já tinha feito isso. Fazia isso. Minha vida era Twitter naquela época. E enfim. Nossa, até hoje eu acho que eu nunca tinha contado. Essa história pra ninguém. Assim. Além da minha mãe.

Ainda que essa parte esteja muito presente no livro, essa parte do trabalho, principalmente, eu quis botar lá no livro, essa parte da estrela também eu botei, e é curioso. Essa estrela me deu 100 dólares, gente, porque quando você ganhava uma estrelinha, você ganhava também um envelope com 100 dólares, e um direito a um jantar exclusivo para os estrelas, os star staff, os colaboradores star, a um jantar à noite num restaurante na montanha.

e foi a primeira e única vez que eu pude ver o pôr do sol lá de cima da montanha, porque o ski resort fechava sempre antes, eu tinha que descer, eu só vi o pôr do sol lá embaixo já,

ou do hotel, ou do lago, que tinha, a gente às vezes saía pra ver o pôr do sol, e só quem trabalhava com snowmobile, que podia ficar lá em cima, depois de tudo fechado, e que provavelmente via o pôr do sol mais vezes. Fica tão lindo. Na festa do fechamento da temporada, todos os funcionários vão pra base, é um mega restaurante que faz uma festa lá, enfim.

Eu ainda ganhei mais 100 dólares num sorteio, cara. Pra centenas de pessoas. Todos os funcionários da montanha no mesmo jantar. E eu ganhei num sorteio 100 dólares. Eu e mais 4 pessoas, eu acho. Inclusive o meu chefe, foi muito curioso. Ele também ganhou 100 dólares. E olha, eu nunca ganho nenhum sorteio. E eu nunca ganhei depois disso também. Eu nunca, realmente, sorteio não é comigo.

Eu não entendo como eu pude ter tanta sorte numa viagem, numa experiência de intercâmbio. Eu não sei, não sei mesmo, não sei por que as coisas acontecem, como acontecem, se depende de mim, dos outros, ou de uma combinação de fatores que está fora do nosso controle, mas eu vivi certamente um momento muito mágico na minha vida nessa época, e eu não me arrependo de nada. É difícil também, né, quando tudo dá certo contigo, escrever um livro que tenha conflitos.

Porque é difícil. Bota isso na cabeça, né? Está tudo dando certo, as pessoas vão ler e vão falar Peraí, mas cadê o conflito, né? Cadê a situação? Então por isso que eu tive que inventar muita coisa pra Lully que não aconteceu comigo. De vez em quando eu ainda vejo algumas pessoas do trabalho, desse trabalho, né? Nesse restaurante do Skir Resort, postando anos depois, isso foi em 2009, postando coisas no Instagram, no Facebook e...

Vejo essas pessoas como que elas hoje estão mais velhas, como eu estou mais velha. E eu lembro dessa época, desses meses, eu fico um tanto emotiva, mas no bom sentido. Eu tinha um colega que era o cozinheiro lá, que estipulou um dia de iPod da Vivi, para tocar no som do restaurante. O dia inteiro com as músicas que estavam lá, socorro.

O problema era que todos os rock e músicas de metal que eu ouvia ainda não tinham dado tempo de baixar, porque a internet do hotel era uma porcaria e eu tinha acabado de comprar o iPod. Então eu tinha que passar as músicas do computador para o iPod, né? Eu não tinha feito de forma... Não tinha passado tudo. Então só tinha algumas pastas aleatórias de música nesse iPod. Gente, vocês não têm noção do que foi ver. Três ou quatro americanos dentro do restaurante, dentro da parte da cozinha.

e do caixa, pulando ao som de virguloides bagulho no bumba. É, é, eu acho que o bagulho é de quem tá de pé. Ah, não, calma, detalhe, eles não entendiam nada da letra, até eu falar, e mesmo assim eles sentiram a música. É oficial, cara, essa música é universal. E não me pergunte por que eu tinha essa música no meu iPod, eu nem ouço essa música, enfim, isso é história pra outro episódio. De vez em quando,

ao voltar do trabalho, eu ligava a TV no quarto do hotel, e eu sei lá porquê, mas era uma fase de passar a Forrest Gump quase todos os dias. Esse canal resolveu passar a Forrest Gump quase todos os dias. E eu via várias vezes repetidas cenas, porque eu chegava do trabalho cansada, estava fazendo jantar, fazendo alguma coisa pra comer, e eu deixava a TV ligada.

pra ver cenas do Forrest Gump. E uma das minhas cenas favoritas é quando a Jenny sobe no palco pra cantar Blow in the Wind, do Bob Dylan. Essa cena sempre me impressiona. Ela tá nua, com o violão tapando o corpo. Cara, é uma cena linda, é uma cena muito impactante.

E eu lembro, eu nunca vou esquecer, depois que eu fui para uma vida caixa, eu ficava muito tempo do lado de dentro do restaurante, né? Porque era o Skydeck, era um restaurante de deck, que as pessoas ficavam lá de fora para comer. E às vezes quando tinha pouco movimento...

Ou estava nevando muito, ou tinha uma tempestade, ou ventando, ou muito frio, as pessoas definitivamente escolhiam os restaurantes cobertos, né, o Skydeck. Como era lá no topo da montanha, era mais dia de sol e tudo mais. Então quando tinha pouco movimento, eu ficava olhando pela janela, as pessoas fazendo skis, snow lá fora, e teve meio pensativa. Aí teve uma vez que no meio de um desses dias de silêncio, eu comecei a cantar Blow in the Wind. E o outro maluco, o caixa que ficava ao meu lado,

Ficou ouvindo. Eu acho que eu cantei sem querer. Não sei se eu percebi que eu estava cantando em voz alta ou não. Estava tão na minha cabeça, vivendo na minha mente, que eu fiz isso e no final, quando eu acabei de cantar, foi só um trecho, ele disse assim, How beautiful Vivi!

Era um daqueles americanos clássicos, né? Que tinha saído de casa dos pais pra viajar o país e trabalhar em coisas diferentes por temporada em cada cidade. Nunca vou esquecer. Um cara muito magro e alto. Esquisitão, assim. Mas muito gente fina. Depois de conhecer...

E ouvir tanta gente nesse lugar, nessa temporada, nesses meses. E me colocar no lugar de pessoas tão diferentes de mim, que viveram vidas completamente diferentes. Essa galera que sai de casa muito cedo e vai viajar o país inteiro, nos Estados Unidos. Trabalhar com diferentes coisas e ter que pagar quartos e hotéis de estrada pra sobreviver. Não sei, mas ficou mais fácil eu compreender Bob Dylan.

E também pensar que as respostas estão... Blowing in the wind. Entende? How many roads must a man walk down? Before you can call him a man.

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O answer, meu amigo, é voando no vento O answer é voando no vento

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