Episódios de No Espectro

Episódio 6: Já foi há muito tempo

06 de maio de 202628min
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Em Beja, para um reencontro com António Mósca: o autor dos desenhos na capa deste podcast.

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Participantes neste episódio3
M

Mariana Oliveira

HostJornalista
A

António Mosca

ConvidadoArtista
V

Vera Neca

ConvidadoPresidente do Conselho de Administração da SESC-Ibeja
Assuntos7
  • António Mosca: reencontro e vidaAntónio Mosca · Beja · Residência Cersei Beja · Síndrome de Asperger
  • Desenhos como indicador de autismoNuno Lobo Antunes · Coleção de desenhos · Diagnóstico precoce
  • Escravidão no Império PortuguêsReis e Rainhas de Portugal · Dom Afonso III · Dom Dinis · Dona Carlota Joaquina
  • Visita à residência e rotinas de AntónioRotinas · Organização · Tarefas domésticas · Inês Machado
  • Autismo e Ensino SuperiorRain Man · Estereótipo do autismo · Competências desarmónicas · Perturbação do espectro do autismo
  • Interesses literários de António MoscaFernando Pessoa · Eugénio de Andrade · José Saramago · Eça de Queiroz · Lídia Jorge
  • Guerra na UcrâniaGuerra na Ucrânia · Vladimir Putin · Estados Unidos
Transcrição74 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

De course, eu sou um excelente driver. Ele faz me drive slow no caminho. Porque eu estou apenas 28 mil no domino desde que eu saímos a semana anterior. Deve ser mais de 28 mil. Quem é isso? Raymond é seu irmão. Meu irmão?

Eu não tenho um irmão. Ouvimos um excerto de Rain Man. O filme, de 1988, acompanha a história de dois irmãos, que não se conhecem, até que, depois da morte do pai, um deles, Charlie, descobre que a herança ficou para um irmão que ele nem sabia que existia. Raymond, o tal irmão desconhecido, vive num hospital psiquiátrico. A interpretação de Dustin Hoffman a fazer de Raymond Babbitt disseminou uma das imagens mais populares do que é autismo.

Raymond é capaz de fazer cálculos complexos de forma quase imediata e Charlie aproveita-se das capacidades extraordinárias do irmão para ganhar dinheiro. Você me ouve? Você me ouve? Claro que eu não tenho meu underwear. O filme ganhou quatro Oscars, incluindo o de melhor filme e o de melhor ator. E o Oscar vai para Dustin Hoffman para Raymond.

O estereótipo do autismo associado a uma certa aura de genialidade viajou pelas ondas da cultura popular. A ideia não é totalmente errada, mas deve pelo menos ser olhada com reserva. Fala o pedopsiquiatra Pedro Caldeira da Silva.

Dependendo dos critérios diagnósticos, pelo menos metade das crianças com perturbação do espectro do autismo tem uma perturbação do desenvolvimento intelectual. Portanto, é uma dificuldade cognitiva, pelo menos. Depois há crianças que desenvolvem competências muito desarmónicas, muito extraordinárias. Os calculadores, os calendários humanos, os que fazem contas incríveis, que decoram livros absolutamente de maneira excepcional.

Há algumas competências desarmónicas que às vezes estão presentes. Não é regra, mas é uma coisa que se observa. Ao longo desta série procuramos mostrar outras vozes, outras possibilidades, as muitas faces de quem está no espectro.

Foi diagnosticado ano passado. A minha ideia era, todas as pessoas... Eu senti diferenças. Foi durante... Havia ali uma ingenuidade, uma falta de... Ah, ok. Eu não estou estragada. Não há algo fundamentalmente errado em mim. Qual disto?

Este episódio, o último desta série, não vai ser sobre autismo. Vai ser sobre o António.

No Espetro é uma série RTP Antena 1. Eu sou a Mariana Oliveira. Ao longo de seis episódios, damos vozes à palavra autismo, pela mão de quem vive no Espetro, com a ajuda de quem conhece, de quem investiga e de quem cuida.

O cérebro trabalha assim, eu acordo às três da manhã e acabou. Estou trazendo sabor, sem controle. O psicólogo diz que foi, ela não pode ser autista porque ela tem amigos. Deixa-a passar um bocado de fome e vais ver se ela não come. Não come, não come. Ele rodava objetos. Ao invés de brincar com os carrinhos, ele rodava-os ao contrário. Episódio 6. Já foi há muito tempo.

Para contar a história de como chegamos a esta última paragem, tenho de recuar à conversa com o neuropediatra Nuno Lobo Antunes, que ouvimos no segundo episódio desta série. Na conversa falou-se de diagnóstico, de sinais precoces de autismo na infância. E dava altura sobre desenhos. Fiz uma pergunta.

E os desenhos? Que informação é que se pode extrair, por exemplo, da observação da forma como a criança desenha? Os desenhos é extraordinário, tem uma coleção enorme. É tão extraordinário que às vezes, no consultório, o desenho é o primeiro a falar. Posso-lhe garantir que alguns miúdos que vêm da sala de espera, eu ainda não sei nada sobre eles, mas trazem um desenho na mão, se posarem na minha secretária, eu olho para eles e dizem se ela é de espectro ou não. Muitas vezes.

Quando acabamos de conversar, eu mostro-lhe alguns, porque vai ser perseverado aquilo que eu estou a dizer. E quando a conversa acabou, de facto, Nuno Lobo Antunes mostrou-me uma parte da sua coleção de desenhos do espectro. Os microfones já se tinham desligado, mas o ecrã do telemóvel do médico abriu-se para percorrer uma imensa galeria de imagens. E ao ver aqueles desenhos, qualquer coisa neles me fez recordar de outra coisa.

Uma coisa que há muito tempo não lembrava. Uma daquelas estranhas operações da memória, para que as ciências do cérebro terão certamente uma explicação, fez-se uma espécie de clique retroativo. E recuei quase 30 anos para me lembrar de um antigo colega da escola.

Fomos da mesma turma na quarta classe em Beja, no final dos anos 90. Ele tinha um nome comum, António, e um apelido invulgar, Mosca. Gostava de desenhar e, do que consigo lembrar, passava o tempo a fazê-lo. Eu e todos os colegas dessa altura, com quem mantive contacto até hoje, nos lembramos do António.

Por algum motivo, a sua presença era marcante. Com as palavras que não tínhamos na altura, o António era apenas diferente. Falava de uma maneira particular e tinha uma forma de estar que não era das outras crianças. Lembrei-me dele porque era assim a minha memória dos desenhos que fazia. Figuras humanas, cheias de pormenores, traços retorcidos, detalhes minuciosos. Desenhos de algum modo parecidos com aqueles que o médico Nuno Lobo Antunes me acabava de mostrar. O que será feito do António Mosca?

Esqueci o assunto por algum tempo, mas uns dias depois, em casa, a pergunta voltou. O que será feito do António Mosca? O primeiro passo para lhe responder não foi propriamente muito inventivo. Googlei o nome do António e o nome da cidade onde nascemos, Beja. O primeiro na lista de resultados foi logo animador. Era a página de uma galeria de arte online, gerida pela Associação Nacional de Arte e Criatividade de e para Pessoas com Deficiência.

Na lista de artistas associados está justamente o nome que eu procurava, António Mosca. Há alguns desenhos no site, disponíveis para venda, e são exatamente aquilo de que me lembrava. Desenhos de fila e grana cheios de recantos e pormenores ínfimos. A acompanhá-los, uma pequena nota biográfica. Nasceu em Beja, em 1990, e vive desde 2008 no lar residencial da Cersei Beja.

sigo a pista. Nas terras pequenas não é difícil conhecer alguém que conhece quem saiba dar-nos informação. Alguns telefonemas e contactos depois, confirmei. O António Mosca vive na residência da Cersei Beja, uma instituição que apoia jovens e adultos com algum tipo de deficiência. Algumas semanas depois, estava a caminho de Beja, ao encontro do António. No dia combinado, chego à Cersei Beja de manhã.

Fica na Quinta dos Britos, 33 hectares de terreno à saída da cidade. Estaciona em frente a um campo de jogos e uma fileira de amendoeiras em flores. E aviso a Vera Neca, presidente do Conselho de Administração da SESC-Ibeja, com quem combinei esta visita, que já cá estou.

Alô, bom dia. Aqui a gravar o passarinho. Olá, tudo bem? Tudo bem? Olá. Olá. Seja bem-vinda. Estou bem. Obrigada. Obrigadíssima. A Vera faz-me alguns avisos antes do encontro, mas garante-me que o António gosta de conversar.

Ele já sabe como a Mariana vem. Estava super entusiasmado. Ele tem algumas dificuldades auditivas. Ele está no edifício onde passa uma parte do dia, no CASI, o Centro de Atividades para a Capacitação e Inclusão. E é para lá que nos dirigimos. Assim que entro, vejo-o ao fundo. Está a lavar as mãos numa casa de banho, mesmo em frente à porta. E ele também me vê.

Estás bom, António? Está tudo bem. Lembrava-se? Lembrei-me logo de Mariana Oliveira. Foi o telefone, estou comigo, já foi no quarto ano. Já foi há muito tempo. Apesar do tempo, também eu reconheço o António com facilidade. E, naturalmente, ele quer saber por que raio estou ali de microfone estendido.

Vai-me fazer uma entrevista para a rádio. Sim. Trabalha na rádio. Pax. Não, mas é o Lisboa. Rádio Pax e Voz da Planície são as duas rádios locais de Beja. É jornalista. Sim, mais ou menos. Dirigimos-nos para a sala de atividades onde costumam estar o António e os outros colegas do centro. O colega, turma, não, quarto ano, já há tanto tempo.

A sala tem uma mesa grande, comprida, e é lá que nos sentamos, lado a lado, como há 30 anos nas carteiras da escola número 1. Trouxe uma fotografia para este encontro. É uma imagem de grupo da turma daquela altura, duas dezenas de crianças a sorrir com cara de anos 90, e o António está lá atrás com uma camisola às riscas, pretas e cinzentas, e eu, alguns metros ao lado, de quispe vermelho, e o cabelo muito curto. Ponho a foto em cima da mesa.

O António reconhece cada uma das 24 caras infantis agrupadas em três filas diante de um quadro agis.

Lembra-se do nome, dos apelidos, às vezes da profissão dos pais, às vezes do nome da rua onde moravam. Ao fundo da sala há outra mesa, uma espécie de estirador alto com folhas espalhadas e material de desenho à mão.

Ali é onde tu costumas ficar a desenhar. Eu lembrava-me, eu lembro-me dos teus desenhos. É o lugar cativo onde o António, agora como naquele tempo, passa os dias a desenhar. Mostra-me alguns papéis. Os teus desenhos, António. Pois há muitos desenhos. Desenhas sempre a lápis? A lápis, caramba. E cada desenho pode levar muitos dias até estar acabado.

Pergunte-lhe o que é que costuma fazer mais para ocupar os dias aqui na Cersei. Desenhar, pintar, às vezes faz-me uma caminhada aqui por a Cersei. É? Então, queres fazer a caminhada? Mostra-me lá a caminhada que tu gostas de fazer. Vamos dar um passeio lá fora. Agora nestes dias tem estado, mas também choveu muito. Por hoje, o tempo ajuda. Vamos andando.

Pelo caminho, vamos nos cruzando com mais amigos do António. O António tem 36 anos acabados de fazer. Quero saber dele e do que foi a sua vida nos últimos anos.

Os pais separaram-se quando ele era ainda uma criança, aquela criança que ficou guardada na foto de turma que vimos há pouco. Tinha oito anos. Uma irmã de João tinha três. Tinhas oito anos? Sim. E lembras-te dessa altura? Mais ou menos. Já foi há muito tempo. Diz-me que está no lar residencial da Cersei praticamente desde os 18.

Já estou aqui desde janeiro de 2008. 2008? Sim. Estava na Dua Manuel, fiz o 12º ano. Percebo que andámos até na mesma escola secundária, mas em anos diferentes. Foi na Ensina Especial com a professora Maria de Sérgio Moradé. Ah, eu conheço? Sim. História. História, aliás, é um dos interesses mais fortes do António.

Conta-me que até ofereceu um desenho ao Dom Duarte de Bragança, numa vez que ele esteve em Beja. Diz-me que agora está feliz na Cersei. O microfone vai suscitando a atenção dos colegas do António, que volta e meia se aproximam para saber de que é que estamos a falar. A dada altura, explico ao António a razão para ter vindo ao seu encontro. Conto-lhe a história do médico e dos desenhos no consultório. Para este trabalho estava a entrevistar um médico.

É especialista em neuropediatra. Exatamente. Exatamente, conheço. O António acerta em cheio. E ele, no final da entrevista, mostrou-me desenhos de criança. Exatamente. Pergunte-lhe o que é que ele sabe sobre a sua condição. O que é que os médicos ou a família lhe disseram sobre ele.

Síndrome de Asperger é a designação antiga para aquilo que hoje se enquadra numa perturbação do espectro do autismo nível 1. E esta foi a única vez, ao longo de todo o dia, em que falámos de autismo.

O resto da manhã passámos lá a falar dos interesses do António, que são muitos, e alguns muito literários. Para começar, Fernando Pessoa. Tinha vários antrónimos. A verde campos, a verde queira, a verde campos, Bernardo Soares. A mensagem, Mar Salgado. Aquele poema é muito bonito. Quanto do teu sal. Sim. O belo de panca também com o Eugênio de Andrade.

Também gosto muito do José Saramago, a mulher dele é Pilar de Arrio. O que é que tu gostas do Saramago? Memoriado com o vento, levantado do chão, o evangelho segundo Jesus Cristo tem muito chorinho. Mas o António tem mais livros na cabeça.

Quem nunca leu e quer ler Os Maias, de Eça de Queiroz, que tapa agora os ouvidos. Vem aí spoilers. O Carlos e a Maria eram irmãos, só que não sabiam. Acho que o Afonso da Maia tinha uma quinta que é a Santa Olávia. A casa grande que eles tinham. Casa, o Ramalhete. As leituras do António vão dos clássicos aos contemporâneos.

A Lígia Lídia Jorge ganhou o prémio a pessoa. Há um escritor da atualidade que é João Dordo. Escreve muito bem. À saída da literatura, o António fala das cidades que conhece mesmo sem conhecer.

O António fala com desenvoltura de sítios onde nunca esteve, de tal maneira que até podemos sentar-nos a lanchar só com a imaginação. A pastelaria mexicana. Conheces a mexicana? Às vezes vou google-me se aparece imagens. Mas já foste à mexicana? Nunca fui, não.

Esta conversa, tal como todas as conversas, tem dois sentidos. E agora sou eu quem responde. Até à Alameda. Para aí. Sim. Mais ou menos, sim. Muito tem que ser. Sim. Tu levantas daqui agora. Às vezes levanto-me, sim. Para a RTP. Vai para a RTP. Sim. Apanha o metro. Apanha o metro na Alameda.

A RTP é um canal. A RTP memória. Aparece o programa com o Júlio Exitra. O António é a Sportingista. E gosta de acompanhar esse e outros campeonatos. O treinador do Sporting é Rui Borges. Vês as notícias? Vejo. Há guerra na Ucrânia.

A guerra é uma coisa muito complicada. Há o Vladimir Putin da Rússia. Ele é muito mau. E dos Estados Unidos também fazem companhia.

Estamos quase na hora de almoço. O António almoça sempre no segundo turno, à uma da tarde em ponto. Há muita coisa que eu gosto de comer. Muito chocolate. Eu sou. Trata-me por tu. Podes me tratar por tu? Não, por tu. Trata-me por tu. Por tu, Mariana, por tu. Antes de almoço, ainda há tempo para outros encontros.

E há tempo para outras confissões.

Ainda, mas já tiveste. Já te foi a Ana Clara. Contaste? Não, ainda não contaste essa parte. Aquilo foi por um namoro de pouco tempo. Foi um amor filho. Ela é tua amiga. Não é petite namorada, amigo chega. Claro. Entretanto, o António vai almoçar. Combinamos continuar a conversa mais logo à tarde, no lar residencial, para onde vai, depois de acabar o dia aqui.

E antes do até já, um cumprimento à tal amiga especial do António que encontramos na entrada para o refeitório. Olha, é a Ana Cláudia, amiga. Olá, Ana. Estás bem? Foi minha colega. Prazer, Ana Cláudia. Acho que ela recebeu na televisão.

Não, é errado, é errado. Então, olha, António, depois venho ter que eu volto contigo, está bem? Está bem, está bem. Até a terra.

A meia da tarde, como combinado, vou de novo ao encontro do António. O lar residencial Vidas Coloridas fica perto da zona industrial da cidade de Beja. Quando lá chego, ele ainda não está. Aproveito a espera para uma conversa com a Inês Machado. A diretora técnica dos lares residenciais da Cersei Beja já teve notícias desta manhã.

Já soube que ele está a durar o dia. Pois, espera aí. Ainda bem que quanto tempo possa chegar mais para aqui? Sim, espera aí. A Bé disse que doía a garganta de tanto falar. E aqui, a conversa é outra. Aqui é a casa. E aqui ele tem outros hábitos. Por exemplo, o fazer a barba. O tomar banho. São coisas muito rotineiras. Tem muitos processos para ele.

A Inês conhece o António Mosca há 14 anos, desde que veio trabalhar para aqui. Têm exatamente a mesma idade. Lembra-se de que, no início, a adaptação não foi fácil. Ele foi inscrito aqui no lar. Queriam ter essa ajuda. Porquê? Porque ele em casa foi numa fase mais jovem e ele não estava estabilizado. De lá para cá, aos poucos, as coisas mudaram muito.

O António levou anos a estabilizar e a chegar ao ponto que está hoje. Está muito diferente de quando o conheceste. Está, está. Porque é assim, a gente não conseguia ter uma conversa com ele. Ele não nos deixava falar, ele me metia sem tudo, ele criava conflitos entre os colegas. Isso não podia estar mais longe da impressão que me causou esta manhã passada com o meu antigo colega da escola primária. E a Inês confirma. Agora, ele está diferente.

É um jovem do mais tranquilo, está na vida dele, nas ações dele, vai para as atividades, para a acerta, está super tranquilo. O António gosta de rotinas, gosta de método e muita organização. Gosta da parte da cultura, gosta de ler. Também comprei um tablet, ele até costuma levar o tablet para a casa do pai, porque ele gosta de ir ao Facebook, gosta de interagir com as pessoas. Ele depois é muito metódicozinho, tem as coisinhas dele tudo muito organizado.

A roupa anda sempre muito bem vestida, muito arranjadinho e é um minuto que sabe estar. Como nós na nossa casa, eles aqui também têm tarefas, o lavar dele é o varrer o chão. Só que ele faz isso até à exaustão. Ele varre o chão daqui da sala de estalha, varre, varre, varre, varre. Até que a gente diz, António, tens de parar, já chega, tu já... Daqui a pouco a gente não tens, não, porque tu já varrestes o chão.

O António vive na instituição há praticamente metade da sua vida. Tem 36 anos, chegou aqui com cerca de 18. Do ponto de vista legal, é tutelado pela Cersei, mas mantém relação com os dois pais, que continua a visitar aos fins de semana. E tem dois irmãos, que também costuma ver regularmente. Apesar de estar bem, a Inês reconhece que as coisas podiam ser diferentes. Era interessante até ter este jovem num posto de trabalho. Imagina na minha boteca municipal.

Se a gente for ver, a sociedade também não está preparada para receber estas pessoas, não é verdade? Porque nós chegamos aos nossos locais de trabalho, nós queremos desempenhar as nossas funções, não temos tempo para grande coisa. Faz falta à sociedade também dar oportunidade a estas pessoas.

Porque ele é válido. Porque ele tem competências. E se calhar se saísse daquilo que é o seio da instituição para outro local, tivesse outras vivências, tivesse com outras pessoas, se calhar até ia adquirir outras competências e ia desenvolver outras coisas. Que se calhar nós portarmos sempre...

Sempre as mesmas pessoas, sempre as mesmas pessoas juntas, também não lhe damos outros horizontes, não é verdade? E às vezes nós quando saímos de casa, conhecemos outras pessoas, estamos noutras vivências, noutros meios, também abrimos aqui um bocadinho o nosso leite. Entretanto, o António está de regresso à residência.

Mas apresenta-me lá. É a Mariana Oliveira. Foi minha colega no quarto. Até escuta-me. Assim que viste, conheceste logo. Te conheci logo. Logo. E agora vai mostrar-me a sua casa.

Podes mostrar a residência, sabes mostrar. É interessante. Trazes-me uma visita? Nesta casa moram atualmente 18 pessoas. O António está num quarto individual. É o número 5. Tem uma cama, uma secretária, um armário com roupa, tudo impecavelmente organizado. E claro, há desenhos. Nas paredes e armazenados junto à mesa de cabeceira.

E este desenho aqui? Ah, velho, e foi o coloreio para... Como deu o desenho? Eu tenho pra criar mais desenhos. Como sei que o António, além do desenho, tem uma enorme paixão por história, decidi trazer-lhe um presente. É um livro. Sim, é um livro para ti. Ah, para mim. Mas depois entrega a Maria. Não, é para ti. Ah, é para mim.

O livro é Uma Família Surreal, biografia de todos os reis e rainhas de Portugal. O autor, Hugo van der Dink. É do Hugo van der Dink. É holandês. O nome é holandês, embora não seja bem o nome verdadeiro dele, é o nome que ele escolheu. É a biografia de todos os reis. Quando falamos de reis e rainhas de Portugal, estamos na Praia do António.

Don Afonso III, mulher, era Matilde II, de Bologna. Don Pedro I, era o justiceiro. Don Duarte era o eloquente. Don Afonso V, africano. Don João II, acho que era o príncipe perfeito. Don Diniz era o levedor ou poeta. Acho que Don Diniz fundou a universidade comembra. Sim, sim.

A Dona Carlota Joaquina era muito tempestuosa, espanhola. Acho que Dona Joaquina do Clemente morreu envenenado. E foi o primeiro herói de boa memória. Como tu. É como tu, de boa memória. É como eu. Abrimos a família surreal do Hugo van der Dingue. Lemos um cherto.

Afonso nasceu em 1291 em Coimbra, filho do rei Dom Dinis. Afonso nasceu em 1291 em Coimbra, filho do rei Dom Dinis. A mãe coitada era uma santa, nomeadamente a rainha Santa Isabel. Já o pai era um pouco menos santo. Além dos filhos religiosos, ainda tinha mais uma pilha deles com variadas senhoras e até com alguns homens. Brinco. E até com alguns homens, brinco. Boa. Boa.

Este encontro está quase a terminar. Ah, Mariana, tem mais perguntas para me fazer? Por acaso, tenho mais uma. Tu gostas de filmes, de cinema? Sim, mas gosto. Há o Jacky Jean, se faz negar, Van Damme, Angelina Jolie, Lara Croft. Sim, há um. Havia um. Todo o vento levou. Casa Blanca. Played one, Sam.

Por all time's sake. I don't know what you mean, Miss Elsa. Há um filme da Cleópatra com Elizabeth Taylor. Há muitos filmes. Morreu também uma atriz francesa, Brigitte Bardo. Gostava muito nem mais. Defessora. You must remember this. A kiss is just a kiss. Qual é o cantor que a Mariana gosta? Boa noite.

António Carreira, Luís Represa, Trovantes. Talvez, desta vez, o António não tenha acertado em cheio. Mas isso também não importa. Podemos concordar numa última canção. A Edith Piaf, aquela canção lá, Viene Rose, muito bonita. Costuma dizer que a nossa vida é uma novela.

O que é que achas que isso quer dizer? Por calma a frase do Charlie Chaprin A vida é como um paco A gente morre cortina de feijão Como é que é? Podes repetir a frase? Do Charlie Chaprin A vida é como um paco A gente morre cortina de feijão

Estamos quase na hora de jantar. É hora de despedida. Mariana, amanhã não é bem cá. Amanhã não posso. Pois tenho. Já está tudo por hoje. E depois quando tiver oportunidade. Depois faço. O desenho está bem. Obrigada. Depois combinamos e eu para esse passo cabelo.

E combinámos, de facto. O António Mosca é o autor dos desenhos que estão na capa deste podcast. Obrigada, António. Muito obrigado por entrevistar. Obrigada. Obrigada. Eu gostei muito de te ver. Hoje parece-me bem. Mariana, depois venha fazer uma visita com a Akerdi. Sim, passo cá. Está bem. Está bem. Muito obrigado. Obrigada.

Obrigada.

No Espetro é uma série RTP Antena 1 em seis episódios sobre autismo, realizada por mim, Mariana Oliveira, com banda sonora original de Sara Ross. Grafismo de Emma Araújo Francisco, a partir dos desenhos de António Mosca. Este episódio teve sonoplastia de Walter Santos e uma leitura de Hugo Vanderding. Coordenação de Raquel Moron Lopes, Filipe Ligeiro no Digital, direção de Luís Oliveira.

Agradeço a todas as pessoas que aceitaram ser entrevistadas para esta série e a todos os que escolheram ouvir. Até um próximo encontro.