EP5 | Felipão Convoca os Jornalistas
Durante a complexa cobertura jornalística da Copa do Mundo de 2014, o técnico Luiz Felipe Scolari resolveu chamar um pequeno grupo de jornalistas para uma conversa privada na Granja Comary. Foi uma reunião que chacoalhou os bastidores daquela cobertura e que chegou inclusive ao vestiário, em dias de emoções à flor da pele. O tumultuado clima nos bastidores mostra, semanas antes do histórico 7 a 1, que os problemas daquele time não estavam somente dentro de campo.
O post EP5 | Felipão Convoca os Jornalistas apareceu primeiro em Central 3.
- Reunião de Felipão com JornalistasContexto da Copa de 2014 · Classificação contra o Chile · Pressão sobre a arbitragem · Seleção Brasileira · Luiz Felipe Scolari · Carlos Alberto Parreira · Rodrigo Paiva · Cass Felliger · Juca Kfuri · Paulo Vinícius Coelho · Luiz Prósperi · Fernandinho Fernandes · Oswaldo Pascoal · Carlos Eduardo Mansur · Maurício Fonseca · Tadeu Aguiar · Hulk · Júlio César · Fred · Robin · Thiago Silva · Davi Luiz · Jô · Hernanes · Bernardo · Neymar · Oscar · Cosme Rimoli · Ronaldo · Barbosa · Galvão Bueno · William · Silvio Barsetti · Jules · Márcio Santos · FIFA · CBF · ESPN Brasil · Folha de São Paulo · Estadão · Band · Fox Sports · Rádio Globo · O Globo · R7 · UOL · Rede Globo · Sport TV · Central 3 · F451 Mídia · Granja Comary · Teresópolis · Mineirão · Fortaleza · Joanesburgo · Santa Cruz Cabralia · Copa do Mundo de 2014 · Copa de 2002 · Copa das Confederações · Copa de 2006 · Copa de 2010 · Repercussão no elenco · Privilégio da imprensa · Chapa branca · Medo de fiasco histórico · Lesão de Neymar · 7 a 1 contra a Alemanha · 3 a 0 contra a Holanda · Aspecto emocional · Oba-oba
Central 3
Luiz Felipe Escolari, técnico da seleção brasileira, acordou na segunda-feira na Granja Comarim, em Teresópolis, com um diagnóstico e uma ideia de desabafo. Primeiro, era claro, depois da sofrida classificação nos pênaltis contra o Chile, que o time precisava jogar mais bola, segurar a onda da pressão, daquele peso da Copa de 2014 em casa e ficar mais leve, estar mais leve diante da Colômbia dali uns dias.
Segunda era de que precisava de mais apoio da imprensa brasileira nas críticas contra a arbitragem. A comissão acreditava que a FIFA não queria ver o Brasil hexa no Maracanã. Então Felipão teve uma ideia. Convidar um grupo de jornalistas escolhidos a dedo para bater um papo informal, sem microfones, atrás da área dedicada à imprensa.
Foram seis repórteres. O papo rendeu alguns bastidores que chacoalharam o debate, como a conclusão de que o treinador estaria arrependido de ter convocado um jogador. E tudo virou uma enorme repercussão no elenco e na imprensa que a gente revisita conversando com os envolvidos naquela cobertura.
Amarela Ouro é uma série de histórias da seleção brasileira de futebol em Copas do Mundo, semanalmente no seu tocador até o Mundial de 2026. Eu sou Paulo Júnior, o podcast é uma produção da Central 3, e este é o episódio de número 5, Felipão Convoca os Jornalistas.
A gente vai ouvir muitas vozes nesse episódio, então vale de cara escalar os convocados por aquela comissão formada por Scolare, mais o coordenador técnico Carlos Alberto Parreira e os assessores de imprensa Rodrigo Paiva, da CBF, e a Cass Felliger, assessor pessoal do treinador.
Foram chamados Juca Kfuri, Paulo Vinícius Coelho, da Folha de São Paulo e da ESPN Brasil, Luiz Prósperi, do Estadão, Fernandinho Fernandes, da Band, e Oswaldo Pascoal, da Fox Sports e da Rádio Globo. Diante da ausência de alguém representando o Rio de Janeiro ou o maior apelo do Grupo Globo, mandaram chamar o Jornal Globo. Maurício Fonseca não se juntou ao grupo,
e deixou seu lugar para o colega Carlos Eduardo Mansur. Então essa é a cena, vários e vários jornalistas do mundo inteiro numa tenda de imprensa montada à beira dos campos, na Granja Comari, e uma reunião privada, num espaço ali por onde os jogadores meio que passavam para chegar nas coletivas de imprensa.
Estamos no fim de tarde de segunda-feira. O Brasil tinha jogado contra o Chile no sábado, no Mineirão. Jogo 1x1 e vitória dramática nos pênaltis por 3x2. Neymar vai para a cobrança, já está autorizado. Vamos lá, Neymar, vamos lá. De um lado, de outro, espera o Cláudio Bravo, ele não sai, ele bate o gol! Converteu o Neymar! Fez o gol, Neymar! Agora está com você, Júlio!
É zagueiro. Vamos lá, Julio. Se pegar, a gente encara as quartas, Julio. Rara e Julio. Rara e Julio. Vamos lá. Vamos lá. Veio a cobrança, veio a batida. O Brasil está nas quartas de final. O Brasil sobe o quarto degrau.
e teria as quartas de final na sexta-feira em Fortaleza, diante da Colômbia. PVC chegou cedo na Granja Comari e tinha uma entrada ao vivo programada ao lado do repórter Cícero Melo na ESPN Brasil. Ele nos conta.
Antes de entrar com o Cícero, eu passei a mão no telefone e tentei ligar pro Felipão. Mas eu não tinha falado com o Felipão por telefone nenhuma vez durante a Copa. Aí eu deixei tocar três vezes, não atendeu. Falei que eu não vou ficar tindo o saco dele no meio da Copa hoje, né? Fui me posicionar do lado do Cícero, tô colocando o microfone pra entrar no ar, meu telefone vibra, eu olho o Felipão.
me ligando. Eu falei, Cícero, entra sozinho. Eu saí, fui para um canto na granja, sei 40 minutos com o Filipão no telefone. Ele virou para mim no final da conversa, depois de 40 minutos, ele disse, tu vai para a granja hoje? Eu falei, já estou aqui. Então, fica aí, porque eu quero fazer uma reunião com alguns jornalistas no final do dia. E vou pedir para te chamar. Falei, beleza.
Vou ficar aqui. Aí eu fiquei ligado, não fui embora. A turma, então, foi se formando. Na verdade, não foi o Filipão que convidou os jornalistas. Quem fez o convite foi o assessor de imprensa da CBF, junto com o seu staff, chamaram três ou quatro jornalistas. Esse é o Fernandinho Fernandes. Isso é normal numa Copa do Mundo.
Várias vezes os treinadores convocam e chamam para uma conversa jornalistas que costumam acompanhar a seleção brasileira, que tem um pouco mais de vivência nessa cobertura de Copa do Mundo. Eu lembro que no começo estava eu, o Juca Kifuri, o PVC e se eu não me engano estava o Oswaldo Pascoal também. Ouvimos então o Pascoal. O assessor de imprensa da...
da Seleção Brasileira passou em algumas bancadas, lá onde era o centro de imprensa, para a cobertura da Seleção na Granja Gomari, e convidou alguns jornalistas. Quando eu cheguei, e a reunião já estava em desenvolvimento, o que eu senti era uma certa tensão do momento vivido pela Seleção Brasileira, porque a Seleção Brasileira, quando chegou para a Copa do Mundo,
Os jogadores passaram pela sala da imprensa, todos eles passaram, e o Parreira e o Filipão foram os últimos a passar, e o Parreira disse, todos aí aplaudam porque está passando a seleção que vai ser campeão do mundo. E o Prósperi? Eu estava no treino, acompanhando o treino, e assim que o treino estava finalizando.
um assessor de imprensa da CBF me chamou, Rodrigo Paiva, falou, olha, o Filipão vai bater um papo com alguns jornalistas e você foi indicado por ele. Você é um dos indicados, então, daqui 10, 15 minutos, você vem aqui nesse local que a gente vai lá para onde o Filipão vai recebê-los. E foi isso, não teve nada assim de misterioso. Foi que o Filipão queria sentir um feedback, ele gosta de conversar com jornalistas ali depois de um treinamento e tal, só que aquele mar de jornalistas, mais de 2 mil,
por dia, ele achava que era muito difícil ter um contato com geral, com todo mundo. Uma vez ele tentou fazer isso, desceu ali para essa tenda e foi tão assediado, tinha tanta gente enfiando o microfone na boca dele, querendo que ele falasse alguma coisa, que ele acabou saindo até meio correndo dali. O caso do jornal O Globo é diferente, quem nos conta é o então repórter do veículo na época, Maurício Fonseca. A gente vinha tentando fazer uma entrevista com o Filipão,
Muito tempo já, Rio Filipão, o único grande veículo que ele não tinha atendido era o Globo. E ele tinha uma implicância com o Globo lá, por causa de uma matéria que o Ronaldo tinha dito que ele não era o técnico ideal. Uma coisa assim, para a Copa de 2014, isso bem antes de começar a Copa.
Aí eu estava lá na granja e aí o Prósperi, que era o editor do Estadão, me falou que ia se encontrar com o Filipão de tarde. E aí eu fui ao chefe da equipe do Globo, o grande Tadeu Aguiar, e falei para ele,
Agora só vai ficar faltando a gente mesmo, que o Próspero vai falar hoje à tarde com o Filipão. Aí começou uma correria na equipe do Globo, que se via numa situação de precisar marcar posição junto à CBF. O editor, então, na redação, conseguiu falar com o Rodrigo Paiva, e então os assessores apareceram ali chamando o Maurício. E eu falei para o Tadeu, que é o chefe do Tadeu, eu não vou. O Filipão disse que está convocando os amigos dele, eu não sou amigo dele. A reunião já começou há cinco horas, há quase uma hora.
E ele falou, claro, não tem que ir mesmo. O Mansur, Carlos Eduardo Mansur, falou, então eu vou lá. Aí ele foi, ele chegou lá, entrou e a reunião acabou. E em seguida ele não teve nenhuma informação, o Filipão recebeu ele, disse que era uma reunião de amigos, mas que era esse e aquele que tinha acabado. E aí o fato de eu não ter ido, criou-se uma falsa verdade, na verdade, de que eu teria me recusado a participar do encontro.
Em solidariedade aos outros jornalistas, que era um absurdo aquilo ser feito no meio de todo mundo. O que não foi isso, né? Eu não fui na reunião porque eu não fui convidado inicialmente e depois a reunião já estava no fim. O que eu ia fazer numa reunião sem saber o que tinha acontecido antes? Então vamos, de fato, à reunião com seus cinco, depois seis jornalistas, para começar falando primeiro do conteúdo.
dá pra dizer que dali saíram três assuntos principais. Arbitragem, o lado emocional do elenco e a insatisfação em relação a um jogador. Primeiro sobre juiz e suposta perseguição, nem vale a gente se aprofundar tanto, é mais ou menos o de sempre. A CBF estava incomodada com a forma...
com que se falou que o pênalti em cima do Fred na estreia havia sido meio cavado, meio mandraque, e até o atacante chegou a gravar um vídeo nas páginas da confederação. A FIFA mandou a comissão de arbitragem aqui para orientar todos os jogadores, fez isso com todas as seleções, para não ter agarra-agarra na área que os atos iam dar pênalti.
Naquele lance, eu dominei a bola com a direita já para girar pela esquerda e eu sofri uma carga no ombro, perdi o alcance da bola e ali me desequilibrou e eu caí. Eu não sou o jogador de ficar caindo.
Então é o de sempre, a comissão achava que tinha que pressionar a FIFA, mostrar que estava de olho, que queria uma arbitragem justa, tinha um incômodo também com o fato de que, sei lá, o Robin está cavando falta em jogo da Holanda e ninguém fala nada, é só para cima do Brasil, nada de muito novo no fronte, o velho método de cobrar arbitragem nos bastidores.
A impressão que eu tive é que as reclamações vindas tanto do Filipão quanto do Parreira eram muito mais com o comportamento da arbitragem em jogos da seleção brasileira. Era muito mais que, assim, agora, do comportamento dele com a imprensa, dele conosco, das entrevistas, eu não ouvi nenhuma reclamação dele, não.
O que teve também, acho que era mais um desabafo deles, né? Nem foi assim, tipo, poxa vida, a gente está sendo massacrado. Não teve nada disso, né? Muito pelo contrário, eles estavam mais voltados mesmo para o plano da seleção brasileira do que qualquer outra coisa.
Tem hora que eu penso que, na verdade, eles estavam querendo perceber como é que nós estávamos observando a seleção brasileira, como é que nós observamos, né? Nessa coisa de querer sacar como andava o clima, como disse o Pascoal, entra a coisa da pressão emocional. Vamos lembrar que o Brasil estava naquela carona de 2013, manifestações na rua, ir no cantado à capela, um totó na Espanha no Maracanã, tem uma euforia, tem uma emoção no ar, né?
E aí a Copa do Mundo dentro de campo é um banho de realidade, porque o Brasil não está sobrando, pelo contrário, o Brasil passa um aperto e quase, quase é eliminado para o Chile, né? Que jamais se esperaria que o Chile poderia eliminar o Brasil de uma Copa do Mundo dentro de casa.
O Thiago Silva, capitão, inclusive, desaba a chorar antes das penalidades contra o Chile. E aquela acaba virando uma cena que retrata a dificuldade de controlar os ânimos naquela altura. Como vai comentar o capitão, Carlos Alberto Torres, participando do programa de pós-jogo no Sport TV. E na sequência a gente ouve o PVC falando sobre a reunião. Olha, eu como todo brasileiro fiquei preocupado. Penso que naquele momento...
O capitão do time, o Thiago Silva, e líder do grupo, tinha que ir de encontro aos companheiros e incentivar todos. Aquela coisa, vamos lá, vamos ganhar, quer dizer, alguma coisa nesse sentido. Para levantar o astral e o ânimo dos jogadores. Porque me pareceu também que a maioria ali estava desanimada. Uma das coisas que estavam muito...
latentes na minha cabeça era uma frase do Márcio Santos, que está até em dois dos meus livros, eu acho, que o Márcio Santos dizia está todo mundo com medo de ser Barbosa. Eu sempre atribuí essa frase ao Márcio Santos, que é dele, mas eu acho que é a frase que define a Copa de 2014 para mim. Todo mundo estava com medo da pressão, todo mundo com medo de ser Barbosa. Eu falei isso para o Filipão, o Filipão desconversou, eu falei isso para o Parreira, o Parreira desconversou um pouco menos, mas eles falaram de arbitragem.
Então o PVC conta que levou o tema e, claro, o assunto estava rolando. Depois, inclusive, se torna público o fato de que os jogadores pediram uma reunião com a psicóloga e que aquele jogo contra o Chile teve meio que essa marca. Era para ser tratado como um divisor de águas. Olha, gente, está demais. A gente está muito pressionado. Vamos tentar jogar bola? Vamos tentar simplesmente jogar bola contra a Colômbia a partir de agora.
E aí vem o terceiro dos temas, que é a coisa do jogador que estaria desagradando a comissão. Quem mais organizou essa reunião numa reportagem foi o Juca Kfouri, né? Primeiro publicou no blog dele, no UOL, depois na edição impressa da Folha de São Paulo. E essa matéria no jornal de terça, 1º de julho, vai falar da arbitragem, vai falar das emoções, vai registrar essa conversa com o grupo de repórteres e aí vai dizer o seguinte.
Felipão não revela quem trocaria, mas diz que hoje faria uma mudança entre os 23 convocados. E se fartou em elogios a Hulk, heróico, segundo ele, em busca de se redimir do erro no primeiro gol do time do Chile. Sobre o goleiro Júlio César, a avaliação do técnico não poderia ser outra. Passou quatro anos no inferno, treinou até com um filho e teve a recompensa que merecia.
Todo mundo reforça que o Felipão não citou nomes, mas isso ficou no ar. O Pascoal até nos disse que acha que essa coisa de jogador que vinha mal e tal pintou em outra conversa, não exatamente nessa, mas o Juca foi lá e firmou, colocou essa informação no seu texto e pegou mal. Claro, a gente vai voltar a falar disso na hora de tratar da repercussão no elenco.
Porque primeiro a gente precisa tratar da repercussão entre os próprios jornalistas. Muita gente presente ali não gostou daquele privilégio. E vale lembrar que era um tempo em que se discutia muito toda essa coisa. Porque passada primeiro uma abertura caótica com Parreira em 2006. Vegues, excesso de gente nos treinamentos.
Depois, todo aquele fechamento, aquela coisa mais dura com o Dunga em 2010. E aí havia um debate. Foram quatro anos falando sobre isso em relação a como tratar a imprensa, o público, a torcida, os acessos. E tudo isso a gente não pode deixar de dizer com o Felipão, com a volta do Felipão.
Felipão que em 2002 tinha vivido um case perfeito. Ele ganhou a Copa num clima leve, agradável. Quem cobriu aquela Copa, aquela seleção de 2002, sempre fala de encontros no saguão do hotel, de uma coisa muito tranquila. E aquela seleção do Penta tem essa alcunha, né? Da família, da leveza, da graça.
A gente junta isso, a relação do treinador com grandes figuras, que sempre foi muito boa, com a TV Globo, com o Galvão Bueno, com tanta gente relevante, a gente citou aqui Juca, PVC, mas é claro que quem ficou de fora reclamou.
A gente vai subir som para os nossos entrevistados, vai ouvir na sequência Fernandinho, Prósper e PVC, falando desse clima depois que saíram do bate-papo. Vou falar para vocês, essa foi a primeira vez que eu fui chamado para esse tipo de bate-papo.
As outras vezes eu não fui convidado e sempre teve essa reunião, essa conversa dos jogadores mais experientes com os jornalistas. E o que eu fiz? Toda vez que eu não fui convidado, eu falei, eu vou trabalhar mais para adquirir mais relevância, adquirir mais credibilidade, adquirir mais importância no meu trabalho, para poder fazer parte desse momento importante, que nada mais...
aconteceu do que um bate-papo. A seleção brasileira, os jogadores ficam muito fechados na concentração, entre eles, a comissão técnica, a mesma coisa. E é normal essa troca de impressões. E isso realmente repercutiu muito mal nessa cobertura de seleção brasileira, porque muita gente se achou desprestigiada, acharam que estava acontecendo ali um privilégio, que tinha jornalista chapa branca. Enfim, cara, você vê o nome das pessoas que foram chamadas lá.
PVC, Juca Kifuri, Oswaldo Pascoal. Eu estava nesse grupo pela primeira vez depois de tantas coberturas de Copa do Mundo.
Mas eu achei que houve aí uma deslealdade dos colegas que não foram convidados, porque aconteceu uma relação, uma coisa muito feia, dizendo que era chapa branca, que a gente estava lá para defender os interesses da seleção brasileira. Todo mundo ficou sabendo que nós, jornalistas escolhidos pelo Parreira, Felipão e a CBF, estávamos numa conversa privada, um certo privilégio dado pela comissão técnica a sete jornalistas só.
Então o resto da imprensa, o resto que eu disse, a grande maioria da imprensa, tanto brasileira como internacional, se sentiu desprezada ali, né? Porque só sete tinham direito a um contato mais imediato com o Filipão, com o Parreira e o CBF para saber como estava aquele momento da seleção. Então foi uma repercussão muito negativa entre todos e alguns jornalistas.
inclusive muitos conhecidos meus, colegas de muito tempo de trabalho, vieram me cobrar, né? Por que eu aceitei isso? Por que não foi uma conversa aberta com todo mundo? E a minha explicação para isso foi que o Filipão forçava fazer uma conversa aberta com todo mundo, ele tinha que conversar com dois mil jornalistas naquele momento ali.
Cara, quando a gente saiu dali, todo mundo sabia que a gente tava lá dentro. Era um encontro que era pra ser sigiloso ou discreto. Quando a gente sabia, saiu, todo mundo sabia que a gente tava lá dentro. Todo mundo sabia e todo mundo ia perguntar. Isso causou, como eu disse e repito, causou uma inveja maldita em todo mundo ali. No meu programa, isso causou uma inveja. Em 2006, quando o Parreira, antes da Copa, convidou pra um jantar Alberto Helena, Fernando Carazans, Tostão.
Ninguém lembra desse episódio e aconteceu parecido. Então, assim, todo mundo acha que você tem que ter acesso e quando você consegue ter um acesso, você vai fazer o quê? Você quer que um jornalista no meio da Copa do Mundo convidado a participar de uma conversa com a Comissão Técnica da Seleção Brasileira o jornalista tem que renunciar à notícia?
É uma loucura isso. Então temos o Juca deu no blog, o Prosperi foi e também soltou no Estadão, quem entrou na TV e no rádio repercutiu, e a coisa toda ficou passeando entre um off, né, o jargão jornalístico pra essas conversas de bastidores, sem citar nomes exatamente.
E o material que foi se tornando público foi sendo organizado por cada um dos repórteres. Tudo isso com esse zum zum zum do privilégio, dos acessos, de quem foi chamado, de por que foi chamado, do que o Felipão estava querendo com essa turma. E muita crítica de um pessoal mais ácido na cobertura. O Cosme Rimoli, por exemplo, no R7, escreveu...
O fracasso da reunião entre Felipão e seus jornalistas de confiança. Onde começa dizendo que... A conta é simples. Há mais de 700 jornalistas credenciados. Felipão resolveu falar com seis. Escolheu a dedo para quem se queixar. Mais que os eleitos, ele queria os veículos de comunicação.
Ainda assim, é preciso dizer que o Cosme fala lá no texto que ele acredita que uma vez chamado, um jornalista tem mais é que ir mesmo a uma reunião desse tipo, mas serve para ilustrar de que tinha toda uma conversa sobre por que esses caras, por que essa conversa, o que que se disse.
Isso tudo chegou ao treinador, claro, e na coletiva pré-jogo contra a Colômbia, o Felipão afirmou o seguinte, deixando escapar um, para pegar leve, um escorregão de gênero, uma fala bastante infeliz no final. Vocês todos sabem, não tem como eu descer para falar com todo mundo, até porque tem uns que são meus amigos, que eu gosto mais, e vou fazer isso, como em 2002. Sentava junto com 7, 8, 10 e conversava.
Aqueles que não foram convidados é talvez porque eu não goste tanto, ou porque na hora eu não queria conversar. Não pode existir ciúme de homem, pelo amor de Deus. De mulher tudo bem, de homem é brabo.
Aliás, esse assunto do privilégio já tinha tido um abalo quando o reportagem do UOL mostrou que o Akas Feleger, assessor pessoal do Felipão, e que faleceu recentemente no final de 2025, estava credenciado exatamente pela Rede Globo, para poder circular, para poder estar presente nos locais controlados pela FIFA. Então você já tem um cara de um staff pessoal via Globo, você tem muita gente ali numa tenda na Granja Comari,
E você tem a seleção no olho do furacão entre a possibilidade do Hexa e o medo de um fiasco histórico. Até que a gente chega no elenco.
Gustavo Franceschini era repórter do UOL já em Fortaleza, estava escalado para cobrir a chegada da seleção à cidade do próximo jogo, e ele assina a matéria do UOL junto de Paulo Passos, Pedro Ivo Almeida e Ricardo Perrone, publicada na madrugada de terça para quarta, ou seja, fechada um dia e algumas horas depois da reunião. A reação a esse papo do Felipão com os jornalistas foi muito ruim.
Rápida parada e a gente volta já já. Não saia daí.
Oi, eu sou a Flora Tonson Devoe, da Rádio Novelo. Você sabia que dá pra ouvir todos os nossos podcasts? O Praia dos Ossos, Rádio Novelo Apresenta, Avestruz Master, Projeto Quirino, pelo YouTube? No canal da Rádio Novelo no YouTube, você também tem acesso a conteúdos exclusivos, que a gente só publica por lá. Tem live com a nossa equipe. E agora a gente fez playlists com histórias do podcast Rádio Novelo Apresenta, com duração de até 30 minutos.
É só procurar por Rádio Novelo no YouTube e se inscrever para não perder nenhum conteúdo. A gente te espera lá. Ouvimos o Gustavo e o texto do UOL tem a seguinte chamada. Conversa de Felipão com jornalistas desagrada staffs de jogadores.
A matéria apurou que Tiago Silva, o capitão, tinha sido comunicado pelo Felipão de que ia rolar essa reunião e depois diz que ouviu staff, familiares, pessoas próximas de oito jogadores do elenco, sendo que sete teriam se queixado da atitude do treinador que expôs os atletas naquele momento quente, aquele momento agudo do torneio. Diz o texto. Para dois deles, Felipão já perdeu a confiança dos comandados por resolver trocar confidências com a imprensa.
Um dos principais motivos do desconforto é o fato do técnico dizer que se arrependeu de ter convocado um dos 23 jogadores que defendem o Brasil na Copa do Mundo. Os integrantes dos staffs de atletas ouvidos pela reportagem afirmam que o técnico deveria ter dito quem é o atleta, pois deixou o grupo todo sob suspeita.
De uma forma ou de outra, o Brasil teve bons minutos, fez um jogo mais tranquilo contra a Colômbia. Marcou um a zero cedo, ampliou, até tomou um gol perto do fim, mas não viveu nada, nem perto daquele medo de cair fora contra o Chile. Partiu Davi, bateu, arugou, arugou, arugou, arugou, arugou, arugou, arugou, arugou!
Brasil! Brasil! Brasil! Davi Luiz é o cara! Ele marca, ele briga, ele luta, ele vai botar a braçadeira de capitão, ele bate em falta, ele faz o gol!
Então, a história chega ao vestiário. Nos conta o Gustavo. Quem mais fez o... Pegou o que saiu dali e contou foi o Juca. O Juca, na coluna dele, ele fala de duas coisas. Ele fala... Tem uma mais importante, que ele se arrepende de ter chamado um jogador. E aí, é muito grave isso, porque tinham alguns jogadores reservas que estavam tendo um desempenho muito tenebroso, assim, né? Sabidamente, Jô e Hernanes estavam terríveis, assim. O Hernanes terminou a primeira fase sem acertar um passe.
O João não conseguia ameaçar a vaga do Fred tão ruim que ele estava. Depois descobriu-se que ele estava já com questões extra-campo e tal. Vários jogadores que da Copa das Confederações, o Felipão arrastou para a Copa, Bernardo era outro. Vários jogadores não tinham o mesmo rendimento, caíram de um ano para o outro. E se aquece na zona mista depois da vitória. O assunto da zona mista é o papo do Felipão com os jornalistas. Eu me lembro, isso está registrado em matéria do UOL, o Uílin...
que era um homem em tese de confiança do Felipão, ele fala, ele admite publicamente, acho que o William e o Oscar, se eu não me engano, eles falam publicamente que aquela entrevista não foi boa, que aquele papo... O que eles falam, na verdade, é se o Felipão disse isso que estão dizendo que ele falou, isso é muito ruim.
Então a impressão é que, beleza, o Brasil ganhou da Colômbia, vai à semifinal, mas ficou um ruído no ar. Acontece que o assunto é atropelado pela notícia de que o Neymar, que levou uma pancada já no final da partida, estava fora da Copa por conta de uma grave lesão. Eu me lembro perfeitamente que eu estava entrevistando o Thiago Silva junto com vários outros colegas jornalistas num momento em que o Silvio Barsetti vem correndo, é a hora que o Fred é avisado ao vivo de que o Neymar está fora da Copa e ele chora.
Ele está no outro lado da zona mista, falando com a TV. Ele já tinha passado pela imprensa escrita. O Thiago e o Davi Luiz eram sempre os últimos a sair. O Fred fica sabendo e o Barsetti ouve aquela conversa e vem correndo para perguntar para o Thiago Silva. E aí tem um ponto curioso e acho que diz muito sobre o Thiago, diz muito sobre aquela seleção, diz muito sobre nervosismo. O Thiago tinha tomado um amarelo absolutamente bobo, que não precisava, e tirava ele da semifinal. E a gente está repercutindo isso com ele.
De certa forma, pressionando ele. Como que ele, capitão do time, se coloca nessa posição de tomar o amarelo tonto daquele, sabendo que está pendurado. E ele se defendendo, dizendo que o que o juiz fez foi um absurdo, que o juiz tirou ele da Copa do Mundo, da semifinal da Copa do Mundo. Isso não podia acontecer. Meio que se defendendo. Quando o Barsetti, que na época eu trabalhava no Estadão, vem correndo, acho que é o Barsetti, ele vem correndo atrás da gente e fala Tiago, Tiago, acabamos de saber que o Neymar está fora da Copa do Mundo com a lesão nas costas.
E aí a reação do Tiago, que para mim é muito engraçada e para outros jornalistas também foi ali,
Assim, tá vendo? Eu falo do Jules, é isso. Me tirou da Copa, agora tirou o Neymar também. Ele não teve a dimensão, enquanto capitão, que a notícia que havia acabado de ser dada pra ele era outra. Claro, ele tava sob pressão, ele podia reagir de outra forma, ele podia não ter entendido direito, tem mil atenuantes. Mas, pra mim, é um extra no comportamento complicado do Thiago enquanto capitão da seleção.
Dali em diante, sem Neymar nem Thiago, tudo se dissolve naqueles minutos em que a Alemanha fez 1, 2, 3, 4, 5 gols num primeiro tempo de semifinal de Copa do Mundo. E lá vem eles de novo. Olha só que absurdo. A chance de mais um gol.
Toma-se o caminho do maior vexame brasileiro em todos esses 84 anos de Copa do Mundo.
O Brasil toma 7x1 em BH, depois toma 3x0 da Holanda em Brasília, e as explicações para tamanho vexame inevitavelmente vão passar pelo aspecto emocional. Atropelado pelos alemães, o time não soube o que fazer, nem como acalmar o jogo ou se reorganizar, reagir, e acabou sendo derrotado meio que em transe.
Fala o PVC ainda no estádio, no pós-jogo da ESPN. Acho que quando o Filipão fala, não, mas foram quatro gols em seis minutos, o que é verdade, mas tenta estancar, não olha só, e acho que ali teve um erro. Os primeiros dez minutos, eu falei durante o jogo, achei que o time estava no caminho, agredindo, isso era positivo, mas o time estava pensando com as pernas.
que é um pouco, que podia ser um pouco natural para quem está numa situação que perdeu as referências, mas não pode pensar com as pernas. O Oscar até tentou chamar a bola um pouco no pé, no sexto minuto, sétimo minuto, mas não era pensar. E aí faltou a característica que eu acho que não é, já discutimos isso, da geração. É dos times do Filipão, que é não parar o pé em cima da bola.
Claro que ninguém aqui tá falando que o Brasil tomou sete por conta da história da reunião, essa que a gente tá contando, nada disso. Mas faz parte de um pacote, porque se debateu muito a relação do time com todas as pressões ao seu redor, da imprensa, da torcida, da história, do jogo técnico e taticamente dentro de campo.
Infelizmente para aqueles jogadores, tudo isso terminou num retrato péssimo, talvez o pior que se poderia imaginar, o ataque da Alemanha entrando, tabelando como se jogasse contra um time qualquer. Mauro César Pereira, na ESPN, pouco antes do início da Copa, batia muito nessa tecla dos elogios exagerados ao treinador, de certo oba-oba, de certa euforia em torno da seleção.
É impressionante a quantidade de elogios que se faz ao Felipão. E isso acaba funcionando em dado momento, se você não prestar atenção, não tomar cuidado, como uma lavagem cerebral.
que vem como uma onda avassaladora. O Felipão é o cara perfeito. Não, porque ele aqui, ele botou peso, ele botou altura, aqui ele mudou o time, saiu a jogada, porque ele falou, porque ele deu uma bronca, porque ele é assim. A ponto de... O Felipão deu uma bronca, coisa é normal dentro de um treinamento e virar manchete. Olha, o Felipão está puxando os jogadores para que eles não percam a concentração. Gente, a coisa mais banal do mundo é o técnico no coletivo não gostar de uma jogada e dar uma bronca geral. O cara está acontecendo aqui, isso é coisa corriqueira.
É interessante também a gente se lembrar que na imersão de uma Copa do Mundo, aquele mês, mês e pouco, que os futebolistas ficam concentrados para os grandes jogos de suas vidas, todo detalhezinho acaba entrando na conversa. A cena dos holandeses despojados em Joanesburgo, às vésperas da final de 2010, ou os alemães se divertindo, curtindo ali com a população local em Santa Cruz Cabralha, antes do tetracampeonato.
Essas coisas batem na CBF como imagens, exemplos, sobre o que fazer nessas situações. Fechar meu elenco nos quartos, liberar pra passear com a família, fazer compras, jogar conversa fora com um grupo de amigos, jornalistas, ou ser mais firme, ser mais restrito às coletivas oficiais.
Um pouco de cada, né? Nem ao céu, nem à terra. É um balanço difícil também de medir e de conciliar. Porque no fim das contas, quando ganha, parece que tudo meio que deu certo. Quando toma sete em casa, do jeito que foi, cada pedacinho da história vai parecendo construir a derrocada anunciada.
Esse episódio entrevistou os jornalistas Paulo Vinícius Coelho, Fernandinho Fernandes, Luiz Prósperi, Oswaldo Pascoal, Maurício Fonseca e Gustavo Franceschini. Além de áudios de Canal 13 do Chile, Band, Sport TV, CBF TV, Globo e ESPN Brasil.
Eu, Paulo Júnior, cuidei da pesquisa e roteiro desse episódio e Amarela Ouro, histórias da seleção em Copas do Mundo, ainda tem Luan Alencar na edição, Mari Vantini e Tiago Rabelo na produção de entrevistas, Caio Beland também tocando pesquisas e roteiros, Lyndon Johnson na direção de arte e Cirilo Dias nas redes sociais.
Eu, Paulo Júnior, faço a locução e a direção geral, Domenica Mendes é a gerente de operações e a produção executiva é de Rodrigo Borges. A Central 3 é uma empresa da F451 Mídia e você pode seguir em arroba Central 3, tudo junto e por extenso.
Você nos ajuda muito indicando os episódios para quem gosta de podcast, de histórias, de futebol e também oferecendo sua avaliação, dando 5 estrelas no seu tocador preferido. Nos encontramos no próximo episódio. Até lá!